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terça-feira, 12 de janeiro de 2016

Uma Mulher de Poder no Coração da Europa Medieval. Isabel de Portugal. Daniel Lacerda. «… constatava-se cada vez mais que a mão do rei se escondia atrás das acções dos bandos de esfoladores (écorcheurs) comandados por Rodrigue Villandrando…»

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Duquesa de Borgonha. O caso de Calais
«(…) Estes acordos puseram fim à crise que ameaçava os Países Baixos flamengos depois das destruições e das pilhagens das tropas do duque de Gloucester, provocando a suspensão do comércio com a Inglaterra, de onde provinha a lã que alimentava a poderosa indústria dos panos nestas cidades. O comércio e a actividade dos portos de Bruges e de Antuérpia temiam pelo futuro. As manufacturas do pano, em que os artesãos flamengos haviam adquirido uma notável mestria, estendiam-se ao campo e abasteciam todas as regiões da Europa. Os portos em causa estabeleciam trocas comerciais muito apreciadas pelos congéneres do Norte, reagrupados nas Hansas, através do transporte de mercadorias para os portos nórdicos e até aos da Rússia.

A libertação de Carlos Orleães e as negociações com Carlos VII
Carlos Orleães, sobrinho de Carlos VI, prisioneiro dos ingleses depois de Azincourt (1415), dedicou-se à poesia durante o seu longo cativeiro. Dado o impasse dos acordos de paz, a duquesa negociou a sua libertação separadamente. Ao seu irmão Duarte I, rei de Portugal, tinha já solicitado que interviesse junto dos ingleses. Dona Isabel havia obtido do cardeal de Winchester a garantia de que seria ele a encarregar-se do caso. O cardeal havia experimentado algumas dificuldades em obter esta libertação. Os ingleses exigiam 80 000 escudos para libertar o refém e o dobro desta soma ao cabo dos seis meses seguintes. A duquesa apelou um pouco por todo o lado, aos nobres como aos burgueses, para reunir a importante soma, ajuntando a essas mais de um terço provenientes das suas próprias economias. No fim de Outubro, os 80 000 escudos foram remetidos aos interessados. O duque Orleães foi então conduzido a Calais acompanhado por muitos senhores e depois a Gravelines, onde foi recebido em 11 de Novembro de 1440 pela duquesa e pelos embaixadores de França. O duque juntar-se-lhes-ia mais tarde. Dona Isabel mostrou-se de uma particular amabilidade para com o recém-libertado e, depois de uma primeira entrevista, jantaram no interior da tenda do cardeal Beaufort. Antes de deixar a Inglaterra, onde passou 25 anos, o príncipe prometeu sob juramento trabalhar para restabelecer a paz entre as duas Coroas e deixou a sua marca nas negociações. Para festejar a libertação de Carlos e o seu casamento com Marie de Clèves, que pertencia à família do duque, foram organizados encontros jubilatórios com grande pompa duas semanas depois. Ao inaugurar as cerimónias, o duque de Borgonha ordenou a leitura do tratado de Arras, que o duque de Orleães jurou observar, de mão sobre o Evangelho, diante do arcebispo de Reims; o conde de Dunois, seu irmão, fez o mesmo juramento.
Filipe, o Bom, celebrou o regresso do primo com magnificência, dispensando grande cortesia aos senhores estrangeiros presentes. Lorde Cornwalis e outros senhores ingleses foram convidados a ficar para as festas. Belas justas disputaram-se diante das damas incumbidas da entrega dos prémios. Das cidades vizinhas chegaram grandes quantidades de provisões destinadas ao sustento de grupo tão extenso de convidados. A 30 de Novembro, o duque Filipe fez reunir em Saint-André o sexto capítulo do Tosão de Ouro e impôs ao duque de Orleães o colar de cavaleiro, bem como a João II, duque de Alençon, João V, duque da Bretanha, e Mathieu Foix, conde de Comminges. As festividades, aquando da entrada em Bruges de Carlos e da duquesa de Orleães, permitiram ao duque reconciliar-se com os notáveis de Bruges que tinham vindo convidá-lo a Saint-Omer. Filipe pensava que no futuro Carlos se apoderaria do reino e por isso lhe prodigalizou dinheiro e permitiu que os gentis-homens dos seus Estados o servissem. Mas o rei fazia uma apreciação diferente do facto de os duques terem estado na origem da libertação do duque de Orleães e de assim terem estreitado os seus laços com os borgonheses.
Na sequência do envolvimento de dona Isabel como mediadora, a duquesa voltou a encontrar-se em Laon com Charles VII, mas a pressa do rei na obtenção da paz não era a mesma. A paz na Flandres e a liberdade de comércio negociada com os ingleses, a estabilidade e o reforço do poder real, apareciam como uma ameaça para a Borgonha. No fundo, constatava-se cada vez mais que a mão do rei se escondia atrás das acções dos bandos de esfoladores (écorcheurs) comandados por Rodrigue Villandrando que, depois de 1437, foram autores de violências no Hainaut e na Picardia. Na Sabóia e em Estrasburgo, os Armanacs semeavam o terror atravessando o Reno por Frankfurt. Mas as comunas da Suíça evitaram que eles perturbassem o Concílio de Basileia onde o rei de França conseguiu fazer aprovar a Pragmática-sanção retirando aos papas o poder de colação de bispos e arcebispos, que ficavam sob eleição dos capítulos. Filipe, o Bom, opondo-se, apoiou o papa no conflito que o opunha aos padres reunidos em Basileia tendo mandado embaixadores ao Concílio de Florença». In Daniel Lacerda, Isabelle de Portugal – duchesse de Bourgogne, Éditions Lanore, 2008, Isabel de Portugal, Duquesa de Borgonha, Uma Mulher de Poder no coração da Europa Medieval, tradução de Júlio Conrado, Editorial Presença, Lisboa, 2010, ISBN 978-972-23-4374-9.

Cortesia de Presença/JDACT

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

Uma Mulher de Poder no Coração da Europa Medieval. Isabel de Portugal. Daniel Lacerda. «Os ingleses cobiçavam toda a França até, ao Loire, mais a Guyenne e o Poitou. E os franceses não queriam ceder mais do que a Normandia e a Guyenne. As duas forças enfrentaram-se em Meaux»

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Duquesa de Borgonha. O caso de Calais
«(…) Nesta primeira conferência de Gravelines não se chegou mais longe que a um compromisso de realizar outras em Calais sob mediação do duque Carlos Orleães. As Conferências tiveram lugar em Oye, no limite das terras borgonhesas e da Marche de Calais, e chegaram ao fim, em Julho, com o restabelecimento da paz entre a Inglaterra e a França e também com um acordo comercial com os flamengos. Dona Isabel foi o coração da organização e da negociação ao conseguir por frente a frente os embaixadores dos dois reis, salvaguardando os interesses da Borgonha e dos flamengos, que lhe ficaram gratos. O duque Filipe veio juntar-se-lhe em princípios de 1440 e instalaram a corte em Saint-Omer, de onde a duquesa se deslocava a Gravelines para participar nas negociações, acompanhada do chanceler Nicolas Rolin e de outros conselheiros, no papel de mediadora do rei de França, Carlos VII, enquanto o cardeal Henri Beaufort representava Henrique VI de Inglaterra. O duque não participou, mas dona Isabel consultava-o amiúde.
No intervalo das conferências efectuou-se o casamento de Carlos, conde de Charolais, com Catarina de França, que tinha então dez anos. O rei de França fê-la acompanhar de um ilustre séquito, conduzido pelos condes de Vendôme e de Tonnerre, pelos arcebispos de Reims e de Narbonne, que viajaram com outros embaixadores franceses agregados às negociações. Depois de uma recepção em Cambrai dada pelos condes de Nevers e de Étampes, o chanceler da Borgonha e substancial número de senhores, a condessa de Namur e outras grandes damas acolheram-nos e acompanharam-nos até Saint-Omer, onde se encontrava o duque. Mal o casamento foi celebrado, a 11 de Junho, as festividades tiveram imediatamente lugar, começando por uma justa em que o senhor de Créqui foi o paladino (Catarina viria a falecer em Bruxelas, em 1446, com a idade de 18 anos, sem deixar descendência).
Logo depois, a duquesa de Borgonha dirigiu-se a Gravelines com os seus conselheiros, o bispo de Cambrai e os senhores de Crèvecoeur e de Santes. O rei fez-se representar pelos senhores que haviam acompanhado Catarina. A delegação inglesa, dirigida pelo cardeal de Winchester, era completada pelo duque de Norfolk e o conde de Essex. Estavam presentes igualmente delegados do concílio de Basileia, que o rei apoiava, e do conde de Armagnac. As negociações desenrolaram-se em tendas, ricamente decoradas com tapeçarias, que a duquesa havia ordenado que fossem armadas em Oye, próximo de Calais. Mal-grado a cumplicidade existente entre os dois parentes, dona Isabel e o cardeal, seu tio, que desenvolviam, finalmente, uma actividade para lá, da simples mediação, as negociações entre as duas Coroas prolongaram-se sem que para elas fosse encontrada uma saída. Os ingleses cobiçavam toda a França até, ao Loire, mais a Guyenne e o Poitou. E os franceses não queriam ceder mais do que a Normandia e a Guyenne. As duas forças enfrentaram-se em Meaux, e os ingleses, em número superior, quase chegaram a ameaçar Paris. Os franceses acabaram por arrebatar aquilo de que as conversações de Gravelines os haviam despojado. A duquesa e o cardeal Beaufort despediram-se, todavia, de boas relações.
Mais fácil foi o restabelecimento, a partir de 29 de Setembro, da liberdade comercial entre a Inglaterra, a Flandres, o Brabante e Malines. A pedido da duquesa, os embaixadores conseguiram que os direitos de pesca fossem alargados a outros portos da costa até junto do rio Somme. Ao longo dos anos seguintes, a duquesa interveio para pedir aos ingleses respeito pela liberdade de pesca a favor dos pescadores das margens da Mancha. Um novo tratado foi assinado em Dijon, a 23 de Abril de 1443, pelo seu representante João Luxemburgo, senhor de Haubourdin, estando dona Isabel de Portugal então na posse de delegação de poderes do duque Filipe». In Daniel Lacerda, Isabelle de Portugal – duchesse de Bourgogne, Éditions Lanore, 2008, Isabel de Portugal, Duquesa de Borgonha, Uma Mulher de Poder no coração da Europa Medieval, tradução de Júlio Conrado, Editorial Presença, Lisboa, 2010, ISBN 978-972-23-4374-9.

Cortesia de Presença/JDACT

Uma Mulher de Poder no Coração da Europa Medieval. Isabel de Portugal. Daniel Lacerda. «Mas, mais do que isso, pela sua natureza generosa, exerceu uma função insubstituível enquanto elo de ligação e de reconciliação entre o duque, os seus vassalos e os administradores»

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Duquesa de Borgonha. O caso de Calais
«(…) A sublevação estendeu-se a Bruxelas, Lovaina e Malines. Piratas vindos da Holanda e da Zelândia unindo-se aos insurrectos de Calais, que continuava sob controlo inglês, arruinaram o comércio que se fazia por via marítima e desceram à Flandres para pilhar. O duque procurava, mas em vão, que estas acções não deteriorassem o comércio com os portos germânicos de Hamburgo, Lubeque e Bremen. Em Maio de 1437, uma nova insurreição, que vitimou dezenas de soldados ducais bem como o capitão Jean Villiers, senhor de Isle-Adam, pôs Filipe em dificuldade. As terras da Flandres atravessavam um período de penúria, miséria e fome, enquanto em Paris uma epidemia provocava mais de 50 mil mortos. Na sequência destes acontecimentos a duquesa foi solicitada a intervir junto do duque por deputações de magistrados e donatários dos ofícios enviados pela cidade de Bruges, que ela recebeu em Hesdin e Arras. Nesta cidade da Picardia fora concluído um tratado de paz que humilhava os habitantes de Bruges. Estes tiveram de aceitar uma dezena de execuções capitais, consumadas a 30 de Abril de 1438, uma pesada multa de 200 000 ridders e foi ainda acordado indemnizar a duquesa com várias somas em ouro por terem-na prendido e pelo seu papel de intermediária no tratado. Tocada na sua sensibilidade por este excesso, a duquesa prescindiu da última recompensa e, reconciliante, tornou a Bruges depois das decapitações, enquanto Filipe lá não voltaria senão em 1440.
Dona Isabel foi expressamente coagida pelo duque a aceitar a reparação de desobediência da parte das autoridades de Bruges, que pediram para vê-la, e comportou-se como uma mensageira de paz entre aqueles e Filipe. Implicada de novo nos meandros da violência guerreira, que regulava os conflitos de poder da época, a duquesa, com os dons da sua própria natureza, conseguia forjar novos equilíbrios que excluíam o excesso absoluto. As responsabilidades executivas de dona Isabel no seio da administração do ducado revestiam-se de vários aspectos segundo as circunstâncias, dadas as suas capacidades e qualidades. Em tempo normal, ocupava-se da gestão da economia; e dos assuntos da defesa, em que chegou a tomar decisões, por ocasião dos constantes afrontamentos guerreiros. Mas, mais do que isso, pela sua natureza generosa, exerceu uma função insubstituível enquanto elo de ligação e de reconciliação entre o duque, os seus vassalos e os administradores.
Os cronistas perguntaram-se durante muito tempo qual o modelo que a duquesa teria seguido nas múltiplas escolhas que alargaram consideravelmente o círculo de relações do ducado. Os estudos levados a cabo sobre sua mãe, a rainha dona Filipa, que abandonou a corte do duque de Lencastre em 1387 para se tornar mulher de João I de Portugal, esclarecem-nos em muitos pontos. Com efeito, ela notabilizou-se por ter impelido o rei a acções decisivas, em particular o seu envolvimento na expansão transatlântica e na perseguição aos mouros infiéis. Apoiando-se nos religiosos cristãos, fez adoptar pela força costumes litúrgicos ingleses. E, mantendo continuadamente relações com o seu país, conservou junto de si, em Portugal, um pessoal britânico numeroso, como dona Isabel fez com os portugueses.

O regresso às relações com os ingleses
Razões económicas estiveram na origem do rápido restabelecimento das trocas comerciais com os ingleses e dona Isabel, dada a sua posição privilegiada, desempenhou aí o seu papel. Enviou de facto vários mensageiros (Sanche Lalaing e, secretamente, o seu mordomo Louis Chantemerle), ao outro lado da Mancha para tomar contacto com o seu tio Henri de Beaufort, bispo de Winchester, onde foram encetadas as conversações de Gravelines. A duquesa negociou igualmente com as cidades têxteis flamengas o pagamento de um imposto sobre a lã importada de Inglaterra. Dona Isabel começou por ir ao encontro da embaixada de Beaufort, perto de Gravelines, no fim de Janeiro de 1439. Os ingleses mostraram-se conciliadores e prontos a libertar Carlos Orleães, feito prisioneiro com outros nobres na desgraçada batalha de Azincourt, em 1415, face ao desejo por ela manifestado de discutir as condições do restabelecimento de uma paz estável. A duquesa partiu acompanhada de sábios, conselheiros eclesiásticos e seculares; o duque preferiu a reserva. Ele acabava de obter uma reaproximação com França ao negociar o casamento do seu filho Carlos, conde de Charolais, com Catarina, filha do rei, acordo que foi assinado por Crèvecoeur, embaixador do duque, em Setembro de 1439, em Blois». In Daniel Lacerda, Isabelle de Portugal – duchesse de Bourgogne, Éditions Lanore, 2008, Isabel de Portugal, Duquesa de Borgonha, Uma Mulher de Poder no coração da Europa Medieval, tradução de Júlio Conrado, Editorial Presença, Lisboa, 2010, ISBN 978-972-23-4374-9.

Cortesia de Presença/JDACT

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

Isabel de Portugal. Duquesa de Borgonha. Uma Mulher de Poder no coração da Europa Medieval. Daniel Lacerda. «Concedeu à duquesa uma renda de 4000 libras, assim como recompensou generosamente o chanceler Nicolas Rolin e vários cavaleiros do Tosão de Ouro…, a acção diplomática do marido, Filipe incumbi-la-á, mais tarde, de novas missões junto de Carlos VII»

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O nascimento do herdeiro Carlos
«(…) Com a honra restabelecida, o duque havia igualmente protegido e alargado os seus domínios. O cronista La Taverne conta que dona Isabel observou a cerimónia do quarto de um monge com vista para o coro da igreja. Esse monge, Antoine La Taverne, da mesma abadia manteve um diário das negociações do Tratado e legou-nos todos os pormenores. O envolvimento da duquesa nas complexas negociações que restabeleceram a paz nos territórios do Sul pertencentes ao ducado pode medir-se pela rapidez com que preveniu o irmão, o rei Duarte de Portugal, resumindo-lhe as cláusulas do tratado e sublinhando a mudança de atitude dos duques relativamente à sua aliança com o ocupante inglês e a consequente fidelidade à França. Do mesmo modo, o facto de a sua intervenção não ter favorecido os ingleses, mau grado os laços familiares com os representantes destes, está confirmado pelo reconhecimento demonstrado por Carlos VII que, em retribuição, concedeu à duquesa uma renda de 4000 libras, assim como recompensou generosamente o chanceler Nicolas Rolin e vários cavaleiros do Tosão de Ouro. Depois desta provação, em que a duquesa secundou, com a sua personalidade, a acção diplomática do marido, Filipe incumbi-la-á, mais tarde, de novas missões junto de Carlos VII.

O caso de Calais
O Tratado de Arras provocou grande descontentamento entre os ingleses, que tudo farão para enfraquecer o duque sublevando a Flandres. Pressionado pelos seus conselheiros e senhores das cidades vizinhas, Filipe toma a iniciativa e reúne fundos, homens e material para assaltar o porto de Calais, nas mãos dos britânicos, que o utilizam para introduzir no continente as lãs inglesas. A duquesa Isabel desdobra-se entre Gand e Bruges, secundando o duque nestes preparativos, continuando assim em oposição à sua família do outro lado da Mancha. Filipe desloca-se, em Abril de 1436, à Holanda, para recrutar navios. Apoiado pelo povo de Gand, põe em curso acções militares para arrancar Calais aos ingleses. Apesar da mobilização conseguida, o duque abandona o cerco, renunciando a invadir a cidade. O duque de Gloucester replicara, desencadeando operações de pilhagem numa parte da Flandres. Depois de ter falhado a tentativa de retomar a fortaleza de Crotoy na embocadura do rio Somme, o duque viu explodirem várias revoltas nas cidades flamengas, assoladas pela miséria. Nesse tempo, dona Isabel ocupava-se ainda da administração, reunindo o conselho em Gand. Mas foi forçada a implicar-se no apoio às operações militares, reunindo somas de dinheiro, mobilizando as forças dos nobres e preparando o envio de um reforço à frota de Écluse. Fundamentando-se na sua correspondência, M. Sommé relata o detalhe destas acções, que ocuparam a duquesa ao longo dos anos de 1436-1437, comparando-as às funções exercidas anos antes, durante a sua agitada permanência em Dijon. Depois da derrota diante de Calais, o duque encarregou a esposa de outras missões delicadas. De um lado, era preciso mobilizar o exército para rechaçar os ingleses que invadiam a região de Oostburg, e, do outro, convencer os flamengos a combatê-los. No princípio de Agosto, a duquesa reuniu-se em Gand e em Bruges com os deputados desta cidade e sem perda de tempo enviaram um contingente a proteger o porto de Écluse. Ela ocupava-se, pois, dos deveres árduos do momento, fosse no tocante a uma gestão atenta da diplomacia, fosse abrindo o saco das libras que a tropa esperava. As capacidades de organização e de negociação de dona Isabel, em substituição do duque, tornavam-se particularmente oportunas na medida em que os territórios do Estado borgonhês estavam a ser cobiçados pelos seus poderosos vizinhos.
Uma vez que os esforços de mobilização militar não se concretizavam, Bruges sublevou-se a 26 de Agosto de 1436. Os revoltosos mataram o bailio Tassart Brisse e capturaram o capitão do porto de Écluse, Roland de Uutkerque, que não havia acolhido as milícias no regresso de Oostburg. Dona Isabel, tendo junto de si o filho Carlos, viu-se obrigada a deixar Bruges a 28, não sem antes ter sido detida e enxovalhada, bem como outras damas do seu séquito como Marguerite de Commynes e Marguerite de La Trémoille. Acontecimentos violentos tinham, entretanto, abalado a confiança da duquesa: Carlos fora detido e retido pelos revoltosos de Gand na estrada de Calais e o almirante de Flandres, Jean Hornes, acabara ferido de morte por eles a 13 de Agosto. Dona Isabel ficou de tal maneira afectada que posteriormente virá a recusar vários convites dos administradores de Bruges para regressar à sua cidade; só lá voltará em 1438». In Daniel Lacerda, Isabelle de Portugal – duchesse de Bourgogne, Éditions Lanore, 2008, Isabel de Portugal, Duquesa de Borgonha, Uma Mulher de Poder no coração da Europa Medieval, tradução de Júlio Conrado, Editorial Presença, Lisboa, 2010, ISBN 978-972-23-4374-9.

Cortesia de Presença/JDACT

sábado, 25 de outubro de 2014

Isabel de Portugal. Duquesa de Borgonha. Uma Mulher de Poder no coração da Europa Medieval. Daniel Lacerda. «… perante a confusão da existência de dois reis de França (‘o inglês Henrique VI e Carlos VII’), os borgonheses começaram a entender-se com os franceses. O duque exigiu uma reparação pela morte de seu pai, João Sem Medo…»

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O nascimento do herdeiro Carlos
«(…) Face às queixas e inquietações das gentes de Mâcon, D. Isabel admitiu negociar uma trégua com os delegados do duque de Bourbon. Mas Filipe, o Bom, estando de volta à Borgonha a meio de Agosto de 1434, acaba por pôr fim a estas negociações, enfrentando em Nevers, em Fevereiro de 1435, os duques de Bourbon e de Richemont. Durante este tempo, a duquesa continuou activa na organização dos negócios da guerra, dirigindo a convocação dos homens de armas e o aprovisionamento das tropas. Isabel assumia estas responsabilidades completando-as com uma grande preocupação dispensada às relações com os diversos grupos sociais. Monique Sommé, que estudou detalhadamente a acção da duquesa durante este período, resume-a nestes termos: Isabel desempenhou um papel essencial no governo da Borgonha durante o tempo que durou a pacificação do país, com grande sentido de organização e dando provas de persuasão e de autoridade nas suas relações com os estados, as vilas e os oficiais ducais.
Num artigo, esta historiadora relata-nos a juventude de Carlos, fazendo uma descrição das instalações que seu pai para ele construíra e que ocupou desde o seu nascimento, frente ao castelo.Acompanham-no a sua ama-de-leite Simone Sauvegrain e Marguerite Villers La Faye, governanta da casa. Esta borgonhesa ficará dez anos ao seu serviço, tendo sob as suas ordens a ama-do-berço Isabeau de Morailles, um chefe de mesa, um criado de quarto e um escrivão. Na Primavera de 1435, os duques tomam o caminho da Flandres. Deviam organizar uma conferência na continuação do acordo de Nevers. A duquesa viajou em liteira com Carlos seguindo o duque Filipe, no meio das tropas e de uma centena de carros. Estacionaram em Auxerre a 8 de Abril e em Paris a 14. Os duques instalaram-se na residência de Artois, guarnecida de tapeçarias flamengas, onde Filipe recebeu os notáveis, os burgueses e os mestres universitários depois de ter assistido à missa da Páscoa em Notre Dame. Às raparigas e burguesas que tinham vindo implorar a Isabel que interviesse a favor da paz, ela assegurou-lhes ter disso o maior desejo e que dia e noite rezava ao senhor pelo grande bem que vejo daí resultar. Na quinta-feira seguinte, 21 de Abril, os duques voltaram a partir em direcção a Arras.

O Tratado de Arras
Filipe, o Bom, tinha encarregado o seu chanceler Nicolas Rolin de preparar as negociações de paz de Arras onde os duques, beneficiando de relações especiais com os ingleses, procuravam retirar vantagens para assegurar a protecção dos seus territórios do Norte. De resto, eles conseguiram ser reconhecidos e participar de parte inteira, ao lado dos delegados do rei de França e dos ingleses. Desde o princípio do mês de Julho até Setembro de 1435, os duques, acompanhados de Carlos, fixaram residência em Arras, porque as negociações do tratado exigiriam muitos contactos. Era raro ver reunidos tantos duques e condes. Esta reunião foi uma das mais importantes da época, reagrupando delegações de numerosos reinos. Participou igualmente uma delegação portuguesa.
A duquesa tomou aí parte nas negociações com os ingleses e obteve largas vantagens para o ducado. Ela presidiu também às recepções dadas em honra dos seus hóspedes. Antes das negociações, Filipe, o Bom, organizou manifestações cavaleirescas, designadamente um torneio entre os condes de Étampes, de Saint Pol e de Ligny e o conde de Suffolk. Os ingleses foram mal recebidos e, suspeitando da ruptura da aliança por parte do duque, não tardaram em retirar-se. Os plenipotenciários de Carlos VII estavam prestes a ceder-lhes definitivamente a Aquitânia e a Normandia se Henrique VI renunciasse ao título de rei de França. Em troca, exigiam de Carlos VII que se reconhecesse seu vassalo. Sem participar directamente nas negociações, a duquesa Isabel conduziu as entrevistas, primeiro, com um mediador nomeado pelo papa, o cardeal Albergati e, mais tarde, com o seu tio cardeal de Beaufort, bispo de Winchester. O cardeal inglês procurou garantir o apoio de Filipe, sem o conseguir. Desapontados, os ingleses acusaram Filipe de traição, considerando o seu volte-face indigno de um verdadeiro cavaleiro.
Com efeito, perante a confusão da existência de dois reis de França (o inglês Henrique VI e Carlos VII), os borgonheses começaram a entender-se com os franceses. O duque exigiu uma reparação pela morte de seu pai, João Sem Medo, assassinado em Montereau, e obteve ainda Auxerre, o Auxerrois, Bar-sur-Seine, Luxeuil, Boulogne-sur-Mer e as cidades da Somme, ao mesmo tempo que a libertação, em vida, da vassalagem ao rei de França. O tratado de paz concluído a 21 de Agosto entre o rei de França, Carlos VII, e o duque de Borgonha foi celebrado solenemente na Igreja de Saint-Vaast d’Arras, na ausência da duquesa, cuja intervenção a favor da paz foi considerável. Acção que o poeta Martin Le Franc reconhecia nestes versos:

Viva a senhora, e bendito seja
quem nos deu tal princesa!
Por ela a horrível guerra cesse
e volte o trabalho da paz».

In Daniel Lacerda, Isabelle de Portugal – duchesse de Bourgogne, Éditions Lanore, 2008, Isabel de Portugal, Duquesa de Borgonha, Uma Mulher de Poder no coração da Europa Medieval, tradução de Júlio Conrado, Editorial Presença, Lisboa, 2010, ISBN 978-972-23-4374-9.

Cortesia de Presença/JDACT

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

Isabel de Portugal. Duquesa de Borgonha. Uma Mulher de Poder no coração da Europa Medieval. Daniel Lacerda. «… a duquesa viu-se forçada a contrair um empréstimo de de ouro em Genebra para aliviar o cerco de Grancey, garantido pelo valor das suas jóias, baixela de ouro e dinheiro»

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A sublevação dos flamengos
«(…) Para fazer frente aos seus inimigos, o duque comandava um numeroso exército enquadrado pelos seus melhores cavaleiros e apoiado por imponente artilharia. Na viagem, a duquesa seguiu-o em liteira até Chãtillon sur Seine, onde o duque entrou em campanha, enquanto Isabel recolhia ao castelo de Dijon. Ela ficara encarregada de convocar os Estados de Borgonha, chamados a votar o financiamento das despesas com as operações militares. Os usos constitucionais do ducado levavam Filipe a reunir frequentemente os deputados dos seus Estados, segundo as necessidades de repartição dos encargos. Na rectaguarda, a duquesa tomava à sua conta a organização material e financeira da defesa da região. O duque visitava-a de tempos a tempos. Os vassalos do rei de França, sobretudo o conde de Clermont, Charles, um Bourbon, atacavam as praças-fortes borgonhesas, pelo que muitas delas caíram sob o controlo dos Armagnacs. De boas relações com o rei de Inglaterra e respeitando a aliança estabelecida pelo Tratado de Troyes de Maio de 1420, o duque pô-lo ao corrente das operações, preparando futuras negociações sobre a presença dos ingleses em Calais. Instalou-se em seguida diante de Avalon, que retomou às tropas reais a21 de Outubro. E enquanto os oficiais prosseguiam as operações no terreno, Filipe, o Bom, regressava a Dijon para reconfortar a duquesa que trazia no ventre a sua maior esperança.

O nascimento do herdeiro Carlos
Uma das expectativas do casamento com a infanta portuguesa era para Filipe o nascimento de um herdeiro legal que assegurasse a continuidade do ducado. O duque estava avançado em idade e não tivera herdeiros dos casamentos precedentes. Ele tinha toda uma descendência do seu sangue, que se empenhava ao serviço da sua causa, mas fora do casamento. Isabel cumprirá prontamente esta função maior dando à luz António, em 30 de Dezembro de 1430, em Bruxelas. Mas a criança morrerá 13 meses mais tarde, estando Isabel já, grávida de Josse, que nascerá em Gand a 24 de Abril mas que não resistirá à doença melhor do que o irmão; virá a falecer com a idade de quatro meses. Imagine-se o desgosto sentido pelos duques, impotentes face ao destino que lhes recusa uma progenitura indispensável à perenidade do ducado.
Devido a essa função de representação, compreende-se que os cronistas descrevam acima de tudo o sofrimento do duque, que caiu em estado depressivo e cujo desespero, devido à perda dos seus filhos e herdeiros potenciais, o levam a insurgir-se contra Deus e a desejar a morte. Para grande satisfação de todos, a 11 de Novembro de 1433,no castelo da dinastia, nasce um robusto rapaz, imediatamente baptizado na capela. Houve um debate sobre a hora do nascimento durante a noite de 10 para 11. Os historiadores parecem estar hoje de acordo de que terá sido a primeira ou a segunda hora depois da meia-noite de 11. Chamar-se-á Carlos, em homenagem ao padrinho Charles de Nevers, e Martin, como a festa correspondente. Recebeu o título de conde de Charolais, como seu pai.
Ainda que Dijon não fosse o lugar da residência oficial dos duques, ficaria para sempre no coração do ducado tanto mais que no século XV não era senão uma pequena cidade de uma dezena de milhar de habitantes, de aspecto rural, cercada por vinhas, pomares e terrenos baldios. A residência dos duques, hoje desaparecida, estava situada no mesmo local onde se erguem os actuais castelo e Câmara Municipal. A sede da ordem do Tosão de Ouro, criada quando do casamento, fora instalada na Sainte Chapelle. Em Novembro de 1433 realizou-se um outro capítulo da ordem, durante o qual foram promovidos oito cavaleiros, entre os quais o pequeno Carlos que, nos braços da mãe, recebeu o colar de ouro. O duque visava estabelecer-se em Dijon e tinha iniciado a construção de um novo castelo a partir de 1440.
A duquesa parecia não recear quer o ambiente militar, quer os combates. Ela encarregava-se de comandar a artilharia e de a fazer deslocar para a frente de combate. Apoiada pelo chanceler Rolin, reuniu os estados em Dijon e depois em Dole, fazendo votar uma ajuda de várias dezenas de milhar de francos destinada às operações. No início de Abril de 1434, Filipe voltou a partir para os Países Baixos, sem que a paz tivesse sido restabelecida. Assumindo as tarefas da defesa, Isabel deslocou-se a Chalon e a Talant para mobilizar os castelãos do bailiado, os nobres e mesmo os estabelecimentos religiosos, ordenando-lhes que fizessem chegar a Dijon meios de transporte de material militar, carros, charretes, enxergões e cavalos. Depois de esgotadas as ajudas dos estados, a duquesa viu-se forçada a contrair um empréstimo de 59 marcos de ouro em Genebra para aliviar o cerco de Grancey, garantido pelo valor das suas jóias, baixela de ouro e dinheiro». In Daniel Lacerda, Isabelle de Portugal – duchesse de Bourgogne, Éditions Lanore, 2008, Isabel de Portugal, Duquesa de Borgonha, Uma Mulher de Poder no coração da Europa Medieval, tradução de Júlio Conrado, Editorial Presença, Lisboa, 2010, ISBN 978-972-23-4374-9.

Cortesia de Presença/JDACT

domingo, 2 de fevereiro de 2014

Isabel de Portugal. Duquesa de Borgonha. Uma Mulher de Poder no coração da Europa Medieval. Daniel Lacerda. «… em 1432, quando os tecelões de Gand se insurgiram contra a política monetária do duque, ela junta-se aos almotacéis e decanos de ofícios para obter do marido um acordo sem reparações»

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A sublevação dos flamengos
«(…) Prefigurando as funções de uma primeira-dama moderna, a duquesa começou por intervir nos assuntos do exercício do poder, ao lado do duque, enquanto força apaziguadora de conflitos. E relatado pelo cronista Lefèvre Saint Remy a cena de pedido de perdão ao duque, no decurso da qual a duquesa, ladeada por André Toulongeon e pelo preboste da igreja de Saint-Omer, se manifestou a favor dos habitantes da castelania de Cassel. Estes estavam em rebelião desde 1427 para defender os seus direitos consuetudinários postos em causa pelo bailio e Filipe acabou por submetê-los, no princípio de 1431, depois de uma verdadeira manifestação de força. Os de Cassel tinham apelado a Paris e a outras personalidades, temendo o pior em caso de derrota. Entretanto, em Bruxelas, Isabel dava à luz o seu primeiro filho, António, a 30 de Dezembro de 1430. De novo, em 1432, quando os tecelões de Gand se insurgiram contra a política monetária do duque, ela junta-se aos almotacéis e decanos de ofícios para obter do marido um acordo sem reparações. A duquesa Isabel foi muitas vezes associada às negociações que estabeleciam um novo entendimento após estas rebeliões.
O alargamento territorial do Estado borgonhês a partir do Norte teve como consequência uma perda de direitos dos representantes das cidades flamengas. O reforço do poder principesco conduziu, na realidade, a uma diminuição dos privilégios adquiridos por esses burgos onde as actividades artesanais e comerciais se achavam mais desenvolvidas. O descontentamento das populações provocou violentas revoltas nas quais Filipe, o Bom, acabou por triunfar submetendo-as às suas decisões, levando assim a uma mudança nas relações de força. Para lá dos momentos críticos, parece demonstrado que, na partilha das tarefas, desde cedo, a duquesa tomou à sua conta as questões monetárias e comerciais das cidades, bem como as ligadas à defesa, para as quais tinha uma sensibilidade apurada. O historiador português Oliveira Martins (1845-1894) procurou captar o génio de que eram dotados os seus irmãos, tendo alguns deixado marca na História. A época excepcional e a personalidade da mãe, a rainha D. Filipa de Lencastre, terão tido certamente papel determinante no despertar desses talentos. Na corte do pai, o rei João I, a expansão além-mar empreendida pela família real desde as costas de Marrocos (Ceuta, Tânger), depois de 1415, tinha um objectivo comercial. Ceuta era um porto de escoamento das mercadorias agrícolas do interior do país mas também um ponto de acesso aos produtos do Oriente. Quando Isabel assumiu as funções que sua mãe desempenhava na corte portuguesa, Lisboa estava em pleno crescimento, abrigando comerciantes chegados de toda a Europa. Ela estava, pois, preparada, desde 1431, para participar no governo do ducado. vindo a assumir importantes cargos de administração dos estados borgonheses.

A campanha contra as tropas do rei de França
Com o alargamento das possessões do ducado aos condados do Norte, o duque de Borgonha residia muitas vezes na Flandres, em Bruges e em Bruxelas. Mas a ameaça das tropas reais estacionadas no vale de Yonne, depois de terem conquistado Noyers e Avalon, exigiu uma resposta do duque Filipe, que se dirigiu, em Janeiro de 1432, a Dijon, deixando a Isabel, novamente grávida, o governo dos Países Baixos. Encontramo-la em Gand rodeada de conselheiros: o bispo de Tournai, que a tinha casado, Jean Toisy, os senhores Antoine Croy e Jean Roubaix, assim como Roland Uutkerque. Jean Gand, um dos secretários do duque, ficara também ao seu serviço. A duquesa teve de se ocupar da consolidação da paz de Liège, principado que tinha entrado em conflito com Namur, sob o poder dos duques desde 1429.A cidade de Liège deveria pagar uma indemnização de 100 000 nobles. Isabel exerceu a delegação do poder durante quatro meses, dispondo do selo confidencial, revelando grande aptidão para as questões financeiras. Substituirá ainda o duque, em Abril de 1433, quando este parte para a Holanda, empenhando-se progressivamente nas tarefas de administração. Poucos meses depois, em Junho, os duques, juntos, puseram-se a caminho da Borgonha para defender as suas terras do Sul. E, desta vez, o governo dos territórios do Norte foi confiado ao seu sobrinho João Borgonha, conde de Étampes, assistido por um conselho». In Daniel Lacerda, Isabelle de Portugal – duchesse de Bourgogne, Éditions Lanore, 2008, Isabel de Portugal, Duquesa de Borgonha, Uma Mulher de Poder no coração da Europa Medieval, tradução de Júlio Conrado, Editorial Presença, Lisboa, 2010, ISBN 978-972-23-4374-9.

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segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Isabel de Portugal. Duquesa de Borgonha. Uma Mulher de Poder no coração da Europa Medieval. Daniel Lacerda. «A duquesa Isabel apoiava Filipe, então a ocupar a cadeira do ducado de Brabante na cidade senhorial de Bruxelas, um modo de impressionar o povo desta capital colocada sob a sua protecção»

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A duquesa e Joana d'Arc
«(…) Materialmente, a condessa teria podido visitar Joana durante a sua deslocação à Picardia. Mas, conhecendo o distanciamento que o duque Filipe tomou relativamente ao caso, ficando impassível face às exigências dos dignitários da Igreja e deixando João de Luxemburgo tomar a iniciativa, nenhum outro verdadeiro sinal é conhecido, a não ser a reaproximação ao rei de França que se tornará efectiva dois anos mais tarde, depois da grande reunião de Arras. O historiador contemporâneo Michel Lamy admite que Isabel possa ter visto Joana prisioneira em Noyon, mas não apresenta nenhum documento novo.

NOTA: Sem indicar a sua fonte, M. Lamy escreveu: Ao longo dessa permanência em Beaulieu, que durou uma dezena de dias, Jeanne foi conduzida um dia a Noyon, onde residia o duque de Borgonha e sua mulher, Isabel de Portugal, que a teria encontrado. Uma tradição sugere que Jeanne pernoitou uma noite em Noyon.

O Capítulo do Tosão de Ouro em Lille
A duquesa Isabel apoiava Filipe, então a ocupar a cadeira do ducado de Brabante na cidade senhorial de Bruxelas, uma maneira também de impressionar pelo fausto o povo desta capital recentemente colocada sob a sua protecção. A duquesa e as respectivas damas assistiram às cerimónias, procissões e missas solenes ao lado de embaixadores, outros hóspedes e oficiais da Câmara. No início de Novembro de 1431, fizeram demonstração do seu poder sobre a região no decurso de uma assembleia convocada por Filipe, que sempre desejoso de ilustrar os seus cavaleiros, além da procura de brilho, fez anunciar pelos arautos a celebração do primeiro capítulo (reunião magna) do Tosão de Ouro, previsto para Lille no dia de Santo André. A cerimónia começou nesse mesmo dia. Dezoito cavaleiros do Tosão de Ouro, rejubilando, seguiram com o duque desde o palácio local até, à Igreja de São Pedro. Quatro cavaleiros ausentes, os senhores de Saint-Georges, de Saint-Pol, João de Luxemburgo e
Reignier Pot, fIzeram-se representar. A sessão de entronização teve lugar na presença dos oficiais do capítulo a que presidia o teólogo bispo de Nevers, Jean Germain, acompanhado do escrivão, Jean Imbert, do tesoureiro Guy Guibault, e do novo rei de armas do Tosão de Ouro, Jean Lefèvre de Saint-Remy, que escreveu crónica.
No dia seguinte, na missa, quando decorria o ofertório, correspondendo ao apelo do rei de armas, cada cavaleiro ou procurador, precedido do Grande Mestre, depositou uma moeda de ouro. Estavam presentes os reis de armas de Flandres, Brabante, Artois e Hainaut, arautos e numerosos candidatos de armas do duque e de vários senhores. Mestre Jean Germain, durante uma homilia, explicou então as relações das historietas bíblicas do juiz Gedeão com a lenda mitológica de Jasão que perseguia o Tosão de Ouro. O miraculoso velo de carneiro de Gedeão, beneficiando dos auspícios de Jeová, seria a arma que melhor inspiração traria aos cavaleiros que tomavam o compromisso de defender a cruz, missão que o bispo de Nevers os exortou a cumprir sem descanso para pôr fim ao mundo pagão. Outras cerimónias, marcadas sempre pelo aparato hierárquico, se seguiram, incluindo jantares faustosos. No decurso deste primeiro capítulo da ordem, Simon de Lalaing e o conde Fréderic de Meurs foram armados cavaleiros. Soberano mestre, Filipe fazia-se rodear por cerca de uma trintena de cavaleiros, escolhidos um a um entre os melhores e os mais dedicados, aperfeiçoando assim a organização da imponente guarda de honra cujos estatutos faria promulgar pouco depois.
Filipe, o Bom, não fundava a acção da sua cavalaria somente sobre a Igreja mas queria-se também um protector, um fiel escudo dos papas que não se opunha jamais à sua autoridade. Atribui-se-lhe igualmente uma devoção que o levava a rezar durante horas. A história conta os repetidos esforços e as despesas calculadas pelo duque tendo em vista organizar uma cruzada à Palestina. Certos historiadores explicaram esta obstinação profunda pelo desejo de vingar a derrota de Nicopolis face aos Turcos e a prisão de seu pai. Mas Jean Paviot, que estudou bem o assunto, conclui que no fundo de Filipe, o Bom, há um profundo desejo de defesa da fé cristã em geral, contra os infiéis e os heréticos, e a libertação da Terra Santa». In Daniel Lacerda, Isabelle de Portugal – duchesse de Bourgogne, Éditions Lanore, 2008, Isabel de Portugal, Duquesa de Borgonha, Uma Mulher de Poder no coração da Europa Medieval, tradução de Júlio Conrado, Editorial Presença, Lisboa, 2010, ISBN 978-972-23-4374-9.

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terça-feira, 19 de novembro de 2013

Isabel de Portugal. Duquesa de Borgonha. Uma Mulher de Poder no coração da Europa Medieval. Daniel Lacerda. «A violência da justiça senhorial, não evitou que se suscitasse por parte do povo uma inegável simpatia pela valorosa "Pucelle", vítima da crueldade dos grandes senhores dos dois lados da Mancha»

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A duquesa e Joana d'Arc
«(…) Filipe, o Bom, imediatamente informado, deslocou-se sem perda de tempo de Coudun, onde se encontrava, para a ver. Teve uma entrevista com Joana mas o seu conteúdo não foi registado por Monstrelet, todavia presente. O duque tratou de mandar distribuir circulares anunciando a formidável captura, combatendo a crença na missão celeste da libertadora de Orleães. Antes que os borgonheses se deixassem tentar por eventuais propostas dos ingleses, as autoridades eclesiásticas forçaram a Universidade de Paris e o vigário geral da Inquisição (maldita), o irmão Martin, a pedir, e mesmo a exigir por requisição, que a rebelde lhes fosse entregue. O poder eclesiástico pretendia a todo o preço instaurar-lhe um processo por vários crimes indiciando heresia para salvar a França de um tal perigo. Fizeram a diligência por achar que ela encarnava o Anticristo, figura imaginária que derivava do comércio sexual com o diabo e de que era suspeita, a seu ver, pelo facto de só vestir roupas de homem. Os eclesiásticos começaram a investigar o passado de Joana antes de poderem examiná-la fisicamente, com vista a extraírem conclusões sobre a sua virgindade ou a presença, nela, de estigmas particulares.
Detida pelo bastardo de Wamdonne, Joana ficou prisioneira dos senhores borgonheses, dependentes de João de Luxemburgo, fiel ao duque Filipe e também conselheiro do rei inglês Henrique VI, que a mantiveram prisioneira sucessivamente em Beaulieu-lès-Fontaines, Beaurevoir, Arras e Le Crotoy (Saint-Valéry). Num estudo minucioso sobre estas repelentes negociações relativas à sorte de Joana, Jacques Prévost-Bouré conta que, assim que a Pucelle foi enclausurada na torre ameada do castelo de Beaurevoir, perto de Cambrai, até ao pagamento do resgate, a esposa e a irmã de João de Luxemburgo, habitantes do castelo, levaram-lhe muito consolo secundando a firme protecção acordada por Joana de Luxemburgo, condessa de Ligny, sua tia, senhora dessas terras. Esta condessa, de quem João de Luxemburgo era o herdeiro, continuava leal ao rei de França assim como o seu outro sobrinho, Pedro de Luxemburgo e, para proteger a Pucelle, fez-lhe oferta de vestes de mulher pensando assim desviar a obstinação dos teólogos e da Inquisição (maldita), que a acusavam de diabolismo e heresia. Foi por isso que, ao partir para Avinhão onde viria a morrer a 18 de Setembro, recomendou ao sobrinho que não entregasse a Pucelle aos ingleses.
O bispo Cauchon evitou encontrar-se com a condessa e, depois da morte desta, pôde convencer, com importante resgate, equivalente ao que se daria por um rei, João de Luxemburgo, ele mesmo já na dependência dos ingleses. Envia então um correio a Malines a informar de tudo isto o duque Filipe, que tinha regressado à Flandres para combater revoltas e por Philippe de Brabante estar perante a morte (4 de Agosto de 1430). A braços com outras inquietações, como a de ter perdido muitas peças de artilharia nas bastilhas abandonadas em volta de Compiègne, o duque Filipe pôs-se igualmente de lado para não descontentar o rei. Todavia, Carlos VII, que Joana havia apoiado em Orleães, manteve a sua passividade e, estranhamente, não se manifestou. O regente Bedfort, irmão de Henrique V, que dirigia os interesses ingleses na menoridade de Henrique VI, acabou por se apossar da célebre prisioneira, num golpe de Judas, em troca da tentadora soma de 10 000 escudos em ouro. Serviu-se da astúcia do bispo Pierre Cauchon como intermediário desta sórdida negociação. Estabilizada a prisão de Joana em Ruão, aí lhe farão um processo viciado, a fim de justificar o crime: a sua condenação à fogueira. A violência da justiça senhorial, dominante na época, não evitou que se suscitasse por parte do povo uma inegável simpatia pela valorosa Pucelle, vítima da crueldade provocada pelas ambições dos grandes senhores dos dois lados da Mancha.
Por falta de documentos não sabemos exactamente como viveu a duquesa esta tragédia, que teve lugar, como referimos, nos primeiros meses após a sua chegada à Flandres. A exemplo das senhoras de Luxemburgo, podemos acertar, com alguma imaginação, a simpatia que a figura da jovem iluminada terá despertado no coração de Isabel. Alfredo Gândara (1896- 1972), jornalista nacionalista e espiritualista português, é autor de uma brochura sobre a duquesa na qual transpõe para Isabel a sua própria crença em Joana d'Arc enquanto mensageira do divino, fazendo, desta forma, tábua rasa dos documentos ao afirmar que a duquesa Isabel a visitou em Noyon e que, impressionada pela Pucelle, trabalhou para romper o entendimento dos borgonheses com os ingleses. Esta história foi esquecida tal como as ideias irracionais do seu autor. Sabemos que Isabel acompanhou o duque Filipe quando ele dirigiu a campanha militar em que as suas tropas cercaram Compiègne; residindo, de resto, em Péronne de onde, a 7 de Junho de 1430, saiu para Noyon (Picardia), aí ficando até 11 de Agosto, antes da sua viagem para o Norte, a fim de estar em Lille a 22 de Agosto e em Bruxelas a 28. Ora, depois da sua prisão, a 23 de Maio, nos arredores de Compiègne, Joana d'Arc esteve encarcerada em Beaulieu-lès-Fontaines, a dois passos de Noyon. Mas o cronista Monstrelet, que acompanhava Filipe, o Bom, não reporta qualquer contacto entre as duas mulheres». In Daniel Lacerda, Isabelle de Portugal – duchesse de Bourgogne, Éditions Lanore, 2008, Isabel de Portugal, Duquesa de Borgonha, Uma Mulher de Poder no coração da Europa Medieval, tradução de Júlio Conrado, Editorial Presença, Lisboa, 2010, ISBN 978-972-23-4374-9.

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terça-feira, 27 de agosto de 2013

Isabel de Portugal. Duquesa de Borgonha. Uma Mulher de Poder no coração da Europa Medieval. Daniel Lacerda. «Outros conselheiros coadjuvaram-na particularmente, sempre que, na sua ausência, a duquesa substituía Filipe no governo. Esta partilha era já praticada anteriormente, tendo em conta a dispersão geográfica do estado borgonhês»

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O papel de Isabel na corte
«(…) A situação que Isabel tinha de enfrentar não era um prado tranquilo. Para alguns, a escolha de Filipe fora motivada pelo interesse em obter vantagens junto dos Lencastre, cujas ambições sobre a França eram manifestas. Com efeito, a duquesa recebera do duque a missão de obter o maior número possível de vantagens nas discussões com os ocupantes ingleses. Ela tomou o partido destes, não somente porque sua mãe, Filipa de Lencastre, era inglesa, mas também porque os combatentes ingleses tinham ajudado seu pai, o rei João I, a triunfar sobre os espanhóis em Aljubarrota (1385).
Tudo deixa crer que Isabel participou no governo desde o primeiro momento, assistida por João de Pernes, que tinha servido, depois de Filipe, o Audaz, viários senhores vassalos do duque. Outros conselheiros coadjuvaram-na particularmente, sempre que, na sua ausência, a duquesa substituía Filipe no governo. Esta partilha era já praticada anteriormente, tendo em conta a dispersão geográfica do estado borgonhês.
A duquesa Isabel tinha a seu crédito possuir um coração doce de benfeitora, que ficou gravado nestes versos de Martin de France:

A cada um a dama abençoa
pela sua doçura, pela sua sabedoria.
Viva a senhora, e bendito seja
quem nos dá tal princesa!

Podemos admitir que a função áulica, que ela representava por um comportamento próprio das grandes damas de ontem como de hoje, era ultrapassada por um sentimento particular de justiça e de bondade manifestado por diversas acções empreendidas no seu círculo. Chastellain conta que a sobrinha da duquesa, Beatriz de Coimbra, que se casou com Adolphe de Clèves, sobrinho do duque, que ele adorava, trazia um cilício de crina debaixo dos vestidos, jejuava frequentemente e, na ausência do esposo, dormia sobre palha. Ele acrescenta que nessa época, certos senhores e damas faziam de vez em quando retiros nos conventos observando a respectiva regra. O mestre da Chambre aux Deniers (Câmara dos Dinheiros) reservava para despesas da duquesa e suas damas 40 mil libras por ano.
Isabel foi instruída dos usos dominantes em França e na Borgonha por Jeanne d'Harcourt, condessa de Namur, que se viu, por ironia do destino, afastada por Carlos VII, durante uma cerimónia de casamento, do lugar que a etiqueta lhe conferia. Aliénor de Poitiers completa estas descrições na sua obra Les honneurs de la Cour, na qual ela registou as minúcias do cerimonial contadas por sua mãe, Isabel de Sousa, mulher da alta nobreza portuguesa que veio para a Borgonha a fim de fazer companhia à duquesa, aí tendo casado com Jean de Poitiers, camareiro do duque. Uma e outra, no estrito respeito por este formalismo, sublinham tratar-se de uma ordem que permite manter a hierarquia da obediência, dos vassalos ao duque e deste a uma entidade superior. Para seu desgosto, no entanto, foram introduzidas mudanças que levaram Aliénor, que era dama de honor da condessa de Charolais, a dizer agora cada um age de sua maneira. A influência de Isabel na fixação deste protocolo, que sequencialmente se aplicou à corte da Áustria e mais tarde à de França, levou alguns a atribuir-lhe a obra produzida por Aliénor.
O duque ditava igualmente a moda e por vezes via-se posto em causa pelos predicadores que, por necessidade, regressavam às prescrições das epístolas de Paulo, condenando os cabelos longos, por exemplo. Depois dos casamentos de Filipe e de seu filho Carlos, o trânsito de pessoas levou os borgonheses a descobrir os costumes dos ingleses e dos portugueses. Jean Lefèvre de Saint-Remy descreve os hábitos da infanta Isabel que tocaram os membros da delegação enviada a Portugal e que Cartellieri resume assim: sobre um manto cortado dos dois lados, trazia um capuz de veludo azul e ainda por cima um chapéu de Brabante.

A duquesa e Joana d'Arc
Alguns meses depois da sua chegada à Flandres, à duquesa deparou-se-lhe um problema de consciência, a partir de um acontecimento cujo desenlace se revestiu de uma grande brutalidade. Joana d'Arc, que acabava de libertar Orleães dos ingleses, convencendo assim Carlos VII da estranha missão que encarnava, foi feita prisioneira junto das muralhas de Compiègne a 24 de Maio de 1430 por tropas borgonhesas sob as ordens de João de Luxemburgo, que comandava o cerco ao burgo. Tendo vindo a tornar-se o principal obstáculo à política expansionista dos ingleses, a jovem guerreira estava a ser procurada como uma fora-da-lei».

In Daniel Lacerda, Isabelle de Portugal – duchesse de Bourgogne, Éditions Lanore, 2008, Isabel de Portugal, Duquesa de Borgonha, Uma Mulher de Poder no coração da Europa Medieval, tradução de Júlio Conrado, Editorial Presença, Lisboa, 2010, ISBN 978-972-23-4374-9.

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segunda-feira, 20 de maio de 2013

Isabel de Portugal. Duquesa de Borgonha. Uma Mulher de Poder no coração da Europa Medieval. Daniel Lacerda. «Isabel de Portugal tinha uma personalidade muito afirmada e dirigia a casa ducal com competência e grandeza. O duque atribuía-lhe todas as honras, embora secretamente a enganasse»

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A corte de Borgonha
«(…) A residência ducal abriga o pessoal político e o pessoal doméstico ligados à Casa. Entre os primeiros encontram-se o chanceler, os membros do Conselho, os camareiros, os oficiais de justiça, os contabilistas, os grandes oficiais, secretários, escrivães, ocupando-se das diferentes funções da administração sob supervisão do duque. A Casa divide-se por três Serviços: A Capela, a Câmara e o Palácio (Hôtel). O serviço de Capela ocupa 40 pessoas, incluído o confessor do duque e os capelães, a que se junta uma importante secção musical. Compete ao Serviço da Câmara, com o primeiro camareiro à frente, presidir ao Conselho de guerra. Sob as ordens de Filipe, Antoine de Croy foi primeiro camareiro durante muito tempo. Ele possui a chave do quarto do duque e os aposentos de ambos são contíguos. Dezasseis escudeiros dormem por perto enquanto vários despenseiros assistem o duque e asseguram o arranjo dos espaços. É preciso ainda juntar, ao sector da saúde, seis médicos, quatro cirurgiões e boticários. Finalmente, o guarda das jóias e das economias do duque. Os primeiros, durante as refeições, inteiram o duque da qualidade das carnes e das iguarias. O Serviço Residencial é o mais importante, tendo a chefiá-lo um mordomo que participa nos conselhos ducais e dirige outros subalternos. Ele tem sob sua direcção todo o pessoal que se ocupa do palácio, os diversos furriéis, os serviços de boca, distribuidores do pão, copeiros, cozinheiros e talhantes, e de corpo do príncipe. Este último agrupa um leque de pessoal mais vasto, sob a direcção de um grande escudeiro, que é portador do estandarte e da espada de parada do duque; mantém sob as suas ordens 60 escudeiros e pajens de cavalariça tratadores de cavalos, palafreneiros, armeiros, ferradores, cocheiros, postilhões, carroceiros. Têm a seu cargo as frequentes deslocações do duque e da corte. A montaria e a falcoaria são dirigidas por mestres, apoiados pelos chefes dos tratadores de cães.
A guarda de corpo do duque é constituída por seis reis de armas e oito arautos; estes estão incumbidos de missões oficiais e de espalhar proclamações, desafios e anúncios. Qualquer que seja a deslocação, o duque é sempre escoltado por 62 archeiros envergando um paletó vistoso. Cavalgando na frente dos cortejos vão jovens nobres, escudeiros, adornados com ricos mantos ducais, em número que chega frequentemente aos 120. Filipe, o Bom, devia inclinar-se perante o rei de França, de quem era vassalo. Na sua própria corte fazia respeitar uma etiqueta rigorosa aos numerosos servidores, porquanto, à parte a administração de imensos territórios, essa mesma corte, poderosa, apoiava-se na guarda e no exército. Entre os grandes pensionistas contava seis duques e 12 príncipes, marqueses e condes, além de outros grandes aristocratas e cavaleiros. Havia audiências públicas várias vezes por semana. Um Conselho especial ocupava-se da guerra. A Câmara das Finanças tinha à testa o mestre da Chambre aux Deniers que era apoiada pelo guarda das jóias, o primeiro camareiro que conservava a chave do tesouro. A organização da corte repartia-se entre o mordomo-mor, os escudeiros, os médicos e os criados de quarto. A Câmara heráldica era dirigida por seis reis de armas. O cerimonial atrás esboçado contribuiu notavelmente para a eficácia da corte de Borgonha, com as suas frequentes deslocações, o seu empenhamento nas festas, torneios, encontros e capítulos do Tosão de Ouro, cada um deles possuindo um ritual complementar. Isabel de Portugal tinha uma personalidade muito afirmada e dirigia a casa ducal com competência e grandeza. O duque atribuía-lhe todas as honras, embora secretamente a enganasse, segundo um costume principesco largamente praticado na época. O número dos seus bastardos excedia a dúzia: exerciam altas funções administrativas, militares ou religiosas (dois bispos), e compunham uma parte do círculo da corte. Tolerante quanto a esta estranha herança, associada à sensualidade flamenga, Isabel não deixou de censurar ao duque a infidelidade, fazendo-lhe sentir o seu sofrimento moral.

NOTA: Filipe fez educar os seus filhos bastardos na corte, junto de si. Corneille de Borgonha, senhor de Beures, morto na batalha de Ruppelmonde; Jean de Borgonha, senhor de Elverdingue e soberano bailio de Flandres, conselheiro e camareiro de Filipe, morto de armas na mão; Antoine, filho de Jeanne de Presle, senhor de Beures e conde de La Roche, o mais ilustre, foi feito cavaleiro do Tosão de Ouro em 1456 e participou numa expedição de socorro a Ceuta; David, bispo de Thérouanne (1451) e de Ytrecht (1455); Filipe de Borgonha, senhor de Sommerdie e de Blaton, almirante de Flandres e cavaleiro do Tosão de Ouro; Raphael, dito de Marcatel, abade da abadia de Saint-Pierre d'Aldenbourg, depois de Saint-Bavon de Gand; Jean, preboste de Saint-Omer ou de St. Donatien de Bruges; Baudouin, nascido em 1445 de Catherine de Thieffries, senhor de Fallais, de Bredan e de Zomeldie, genro de Manuel de La Cerda. Jerónimo e Filipe morreram cedo. No que concerne às filhas bastardas, há menos informação. Maria desposou Pierre de Bauffremont, senhor de Charny, camareiro e cavaleiro do Tosão de Ouro; Ana casou-se sucessivamente com Adrien de Borselle, senhor de Brigdam, depois com Adolphe de Clèves, senhor de Ravenstein, príncipe de justadores e cavaleiro do Tosão de Ouro; Yolande foi mulher de Jean d'Ailli, visconde de Amiens; Corneille casou-se com Adrien de Toulongeon, senhor de Mornay; Maria de Borgonha entrou para um convento; Catarina, a última, desposou o cavaleiro Hubert de Lurieu, senhor de La Queille.

De facto, a duquesa obrigou-se a restabelecer a etiqueta na corte de Borgonha, empenhando-se igualmente em restaurar os costumes dos conventos, concertadamente com as abadessas. Esta rectidão moral, tocando o puritanismo, foi mal aceite por Filipe, que se queixava do seu carácter de suspeição. A educação do filho de ambos, Carlos, segundo certos historiadores, teria guardado os traços de uma rigidez idêntica. Mas Isabel tinha no seu activo a divisa que o duque estabelecera quando do casamento: Aultre n'auray, a qual não podia ser desvalorizada sem que fosse ferido o seu orgulho». In Daniel Lacerda, Isabelle de Portugal – duchesse de Bourgogne, Éditions Lanore, 2008, Isabel de Portugal, Duquesa de Borgonha, Uma Mulher de Poder no coração da Europa Medieval, tradução de Júlio Conrado, Editorial Presença, Lisboa, 2010, ISBN 978-972-23-4374-9.

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sábado, 27 de abril de 2013

Isabel de Portugal. Duquesa de Borgonha. Uma Mulher de Poder no coração da Europa Medieval. Daniel Lacerda. «Para melhor a honrar o duque instituiu a ‘ordem do Tosão de Ouro’, tornando-se assim a infanta a primeira conquista do seu fundador»

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O casamento
«As festividades duraram oito dias, durante os quais diversas qualidades de vinhos foram servidas sem restrições: o vinho claro do Reno, o tinto de Beaune e até o doce moscatel trazido de Portugal, a que se juntou o hipocraz, infusão de canela e amêndoa misturadas com aguardente e açúcar. Tanto no interior do palácio como na cidade sucederam-se os divertimentos: danças, corridas de cavalos, jogos e atracções. O duque fez a sua entrada pela praça do mercado acompanhado por 24 cavaleiros e escudeiros envergando ricas vestes guarnecidas a fio de ouro e prata, precedidos de justas anunciadas por 164 trombetas. Ao cair da noite serviu-se o jantar no palácio, seguindo-se o baile. O duque, sempre rodeado de cavaleiros, dançou com Isabel mas também com outras damas e donzelas, reporta Monstrelets.
Em 1430, Filipe, então com 34 anos, chegava ao apogeu do prestígio, da glória e da prosperidade. Com Isabel, a corte de Borgonha podia ser reconhecida entre as mais poderosas da Europa. Os banquetes, os jogos, os torneios, as festas populares e sobretudo o reagrupamento da nobreza dos seus estados, a aristocracia e os famosos cavaleiros, todo este conjunto contribuía para pôr em alta o ânimo do grão-duque do Ocidente. A sua visão de homem de Estado, que lhe permitiu criar afinidades com as grandes famílias do mundo, de que resultaram laços sólidos, não podia senão reforçar-se com a presença da duquesa, que lhe trouxera respeito e estabilidade. O duque estava realmente feliz por ter a seu lado uma mulher que assumia com distinção as funções de majestade real, além de saber zelar pelo seu lugar de primeira-dama entre as damas de corte de Borgonha.
A beleza de Isabel causou viva impressão na corte de Filipe, que adoptou então a divisa Autre n'antray. Para melhor a honrar o duque instituiu a ordem do Tosão de Ouro, tornando-se assim a infanta a primeira conquista do seu fundador. O Tosão dourado figurando sobre a capa dos cavaleiros podia ser uma referência à cabeleira da futura duquesa mas talvez também, como outros sugeriam, quem sabe!, uma inspiração devida a uma das várias favoritas do duque. Estas desencontradas alusões, sublinhando os costumes liberais de Filipe, o Bom, chocavam com a solenidade gravada para sempre nos documentos que autenticavam a criação da ordem de cavalaria e cuja data coincidia com a do casamento:
  • A dez de Janeiro, que era o dia da solenidade do casamento em Bruges entre nós e a nossa muito querida e muito amada esposa Elizabeth, instituímos esta Ordem.
Outros historiadores vêem nesta reapropriação dos ideais da cavalaria a ambição de Filipe em dotar-se de meios para igualar a grandeza dos reis que o rodeavam e ameaçavam, fossem os de França, da Inglaterra ou da Alemanha. Por isso ele selou igualmente um pacto de honra com os fundamentos da Cristandade, dotando os cavaleiros de uma mística que transcendia o interesse imediato da sorte das batalhas. As Cartas desta fundação diziam:
  • Por grande amor pela nobre classe dos cavaleiros, da qual temos no coração a honra e o desenvolvimento, a fim que a verdadeira fé católica, a fé da nossa mãe a Santa Igreja, e para que a tranquilidade e a prosperidade da coisa pública sejam defendidas, guardadas e mantidas, para glória e elogio do Todo-Poderoso, nosso Criador e Redentor, em honra da Virgem Maria, sua gloriosa mãe e de Nosso Senhor, de Santo André, dos apóstolos e dos mártires, pela recompensa da virtude e dos bons costumes.
Os deveres dos cavaleiros estavam definidos em 94 artigos que punham igualmente em relevo a defesa da honra do duque e a segurança do Estado. Os primeiros 24 cavaleiros que Filipe havia escolhido, entre os mais valorosos, foram imediatamente designados. O infante Fernando, irmão da recém-casada, desfilou à frente deles ao longo das ruas de Bruges, todos cobertos pelo amplo manto vermelho de estrias negras e amarelas, exibindo os seus colares de pedras, precedidos por uma liteira onde seguia a infanta. Mal a festa terminou, o casal rumou a Gand antes de visitar as principais cidades da Flandres. Isabel teve aí um primeiro contacto com os habitantes. No fim de Fevereiro, os duques fizeram a sua entrada em Arras.

A corte de Borgonha
Segundo os cronistas, da corte ducal irradiava um brilho só comparável ao do Rei-Sol. Para mais, os duques tanto se deslocavam de Bruges a Gand e a Bruxelas como a outros castelos das suas terras do Norte e a Dijon, na Borgonha. Os móveis, as tapeçarias, a baixela, seguiam os senhores e os serviçais, num longo comboio de viaturas. Veremos que o cerimonial, a etiqueta e o fausto tinham uma função política, permitindo assegurar a obediência do povo e dos vassalos aos duques. Por outro lado, estas normas determinavam a repartição das atribuições e o lugar de cada servidor. A residência ducal abriga o pessoal político e o pessoal doméstico ligados à Casa. Entre os primeiros encontram-se o chanceler, os membros do Conselho, os camareiros, os oficiais de justiça, os contabilistas, os grandes oficiais, secretários, escrivães, ocupando-se das diferentes funções da administração sob supervisão do duque». In Daniel Lacerda, Isabelle de Portugal – duchesse de Bourgogne, Éditions Lanore, 2008, Isabel de Portugal, Duquesa de Borgonha, Uma Mulher de Poder no coração da Europa Medieval, tradução de Júlio Conrado, Editorial Presença, Lisboa, 2010, ISBN 978-972-23-4374-9.

Cortesia de Presença/JDACT

Isabel de Portugal. Duquesa de Borgonha. Uma Mulher de Poder no coração da Europa Medieval. Daniel Lacerda. «Mandou construir novas salas ao lado do palácio ducal, para nelas alojar a infanta, assim como um pavilhão monumental em madeira no interior do qual foi servido um banquete grandioso…»

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A negociação do casamento
«Foi difícil largar do porto de Lisboa devido à ausência de ventos favoráveis e as três primeiras naus só chegaram a Vigo a 27 de Outubro, voltando a partir a 6 de Novembro. Obrigada a suportar novas tempestades entre o Norte de Espanha e as costas francesas, a frota dispersou-se e a caravela em que seguia Isabel, mais algumas outras, rumou a Plymouth, onde se abrigou. Este atraso levou Filipe, sem notícias durante meses, a temer o pior; a 29 de Dezembro, a frota alcançou finalmente o porto flamengo de Écluse e a infanta chegava sã e salva. Aguardando o apronto das festividades que Filipe preparava em Bruges, Isabel ficou alguns dias em Écluse, recebendo a visita do duque bem como da duquesa de Bedfort, sua cunhada, que se encontrava na cidade. A dar crédito ao relato do cronista, as jovens senhoras, para selar a sua amizade, passaram juntas duas noites na mesma, cama.

O casamento
Na manhã de 7 de Janeiro de 1430, o duque Filipe ratificou o contrato de casamento na presença do infante Fernando, do duque de Ourém e do bispo de Évora. De tarde, Isabel veio de barco pelo canal até Bruges, onde foi recebida na porta de Speypoort (ou de Damme) pelos condes de Conversan e de Brienne, pelo senhor de Enghien e por grande número de cavaleiros, escudeiros e gentis-homens, precedidos pelos bispos, e ainda gente da Igreja e notáveis burgueses. O cortejo da noiva foi recebido no palácio ducal pelas duquesas de Bedfort e de Clèves, as condessas de Namur e da Lorena, a senhora de Luxemburgo e muitas outras damas e senhores.
Filipe, o Bom, ficou à testa do ducado, com a idade de 33 anos, de maneira algo inusitada: seu pai, João Sem Medo, sucumbiu vítima de uma emboscada na ponte de Montereau onde devia encontrar-se com o delfim, o futuro Carlos VII. Este acontecimento marcaria para sempre a personalidade do filho que, sedento de vingança, voltou a aliar-se aos ingleses que em território francês disputavam os domínios reais. O duque havia casado em primeiras núpcias com Michelle, irmã do delfim, tendo depois desposado Bonne d'Artois, viúva do duque de Nevers, antes de se empenhar nesta aliança física com a princesa portuguesa, já que nenhuma daquelas esposas lhe dera um sucessor. Filipe era então um dos soberanos mais ricos do seu tempo.
A grandeza da corte, onde triunfavam as regras da cavalaria assim como a protecção aos artistas, distinguia o seu reino, sempre em busca do espectacular. Nos anos que precederam o casamento, Filipe havia acrescentado consideravelmente os seus domínios no Norte. Tinha obtido confirmação da administração das cidades do Norte de França dadas em garantia do dote de Michelle. Num tempo em que as linhagens senhoriais prevaleciam, a morte dos parentes chegados, envolvendo verdadeiras heranças, podia também trazer um acréscimo de bens e títulos. Filipe, o Bom, antes de cair nesse torpor familiar, revelou menos tristeza com a morte, surgida em plena juventude, de Philipe de Saint-Pol, duque de Brabante, seu herdeiro, em Agosto de 1430, em Lovaina. Ele tirou partido do falecimento deste infeliz primo, filho do conde Philippe de Nevers, que reclamava o lugar de Filipe à frente da Casa de Borgonha.
Essa morte inesperada permitiu ao duque, seguro do seu poder militar, tomar o controlo dos feudos correspondentes, negligenciando os direitos de Margarida de Baviera e de seus primos. Filipe juntou assim aos títulos que já possuía os de duque de Brabante, de Limbourg e de Lothier (Baixa Lorena). Em seguida, o duque conseguiu fazer-se reconhecer herdeiro de João de Baviera, disputando pelas armas as vastas terras de Jacqueline de Hainaut (Holanda , Zelândia, Frise, Hainaut), tendo obtido o direito de gerência pelo tratado de Delft, em 1428. Após a morte desta impressionante condessa, falecida nos arredores de Leyde, em 1436, o duque tomará posse completa destas regiões imensas, apesar dos veementes protestos de Segismundo de Baviera. Filipe, o Bom, para lograr com êxito a unificação dos condados que formariam posteriormente os Países Baixos, teve de dar provas de uma tenacidade tão grande como a sua ambição, a fim de eliminar não somente as pretensões e direitos de Jacqueline, mas também as de João de Baviera, de Gloucester, de Van Borselem e mesmo de Bedford. No fim de Outubro de 1430, Filipe, o Bom, faz a sua entrada em Lovaina, onde funda a Universidade, para em seguida se instalar em Bruxelas, tomando aí várias medidas com o objectivo de conquistar o coração dos seus vassalos. A Casa de Borgonha deslocava assim o eixo da vida política para o Norte, tornando-se Bruxelas a sede principal da corte.
Por ocasião do terceiro casamento, o duque preparou festas que deveriam ultrapassar em magnificência as duas anteriores. A recepção a oferecer à noiva portuguesa revestiu-se de um esplendor inigualável e de um fausto a que só a Casa de Borgonha estava habituada. Mandou construir novas salas ao lado do palácio ducal, para nelas alojar a infanta, assim como um pavilhão monumental em madeira no interior do qual foi servido um banquete grandioso, com a mesa ducal sobrelevada a dominar a dos príncipes e senhores. As ruas foram decoradas com auriflamas, tecidos da Flandres e variadas preciosidades». In Daniel Lacerda, Isabelle de Portugal – duchesse de Bourgogne, Éditions Lanore, 2008, Isabel de Portugal, Duquesa de Borgonha, Uma Mulher de Poder no coração da Europa Medieval, tradução de Júlio Conrado, Editorial Presença, Lisboa, 2010, ISBN 978-972-23-4374-9.

Cortesia de Presença/JDACT