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segunda-feira, 28 de maio de 2018

Poesia em Conflito. Cristovam Pavia. «Há de haver velas pela casa e xales negros e um silêncio que eu poderia entender»

Cortesia de wikipedia e jdact

Na Noite da Minha Morte
«Na noite da minha morte
Tudo voltará silenciosamente ao encanto antigo...
E os campos libertos enfim da sua mágoa
Serão tão surdos como o menino acabado de esquecer.

Na noite da minha morte
Ninguém sentirá o encanto antigo
Que voltou e anda no ar como um perfume...
Há de haver velas pela casa
E xales negros e um silêncio que eu
Poderia entender.

Mãe: talvez os teus olhos cansados de chorar
Vejam subitamente…
Talvez os teus ouvidos, só eles ouçam, no silêncio da casa velando,
Uma voz serena de infância, tão clara e tão longínqua...
E mesmo que não saibas de onde vem nem porque vem
Talvez só tu a não esqueças».


Ao Meu Cão
«Deixei-te só, à hora de morrer.
Não percebi o desabrigado apelo dos teus olhos
Humaníssimos, suaves, sábios, cheios de aceitação
De tudo..., e apesar disso, sem o pedir, tentando
Insinuar que eu ficasse perto,
Que, se me fosse, a mesma era a tua gratidão.

Não percebi a evidência de que ias morrer
E gostavas da minha companhia por uma noite,
Que te seria tão doce a minha simples presença
Só umas horas, poucas.
Não percebi, por minha grosseira incompreensão,
Não percebi, por tua mansidão e humildade,
Que já tinhas perdoado tudo à vida
E começavas a debater-te na maior angústia, a debater-te com a morte.
E deixei-te só, à beira da agonia, tão aflito, tão só e sossegado».
Poemas de Cristovam Pavia, in “35 Poemas”, 1959

Cortesia de wikipédia

sábado, 22 de maio de 2010

António Tavares Jacob: Um homem Bom! Um Portalegrense pugnador entusiasta da República

(1923-2010)
António Tavares Jacob
Toada de Portalegre,  poema de José Régio
(...)
Em Portalegre, cidade
Do Alto Alentejo, cercada
De serras, ventos, penhascos, oliveiras e sobreiros
Morei numa casa velha,
À qual quis como se fora
Feita para eu Morar nela...
Cheia dos maus e bons cheiros

Das casas que têm história,
Cheia da ténue, mas viva, obsidiante memória
De antigas gentes e traças,
Cheia de sol nas vidraças
E de escuro nos recantos,
Cheia de medo e sossego,
De silêncios e de espantos,
- Quis-lhe bem como se fora
Tão feita ao gosto de outrora
Como as do meu aconchego.
(...)
Ao frio que tosse e gela
E ao vento que anda, desanda,
E sarabanda, e ciranda
Derredor da minha casa,
Em Portalegre, cidade
Do Alto Alentejo, cercada
De serras, ventos, penhascos e sobreiros
Era uma bela varanda,
Naquela bela janela!
(...)
Lá num craveiro, que eu tinha,
Onde uma cepa cansada
Mal dava cravos sem vida,
Poisou qualquer sementinha
Que o vento que anda, desanda,
E sarabanda, e ciranda,
Achara no ar perdida,
Errando entre terra e céus...,
E, louvado seja Deus!,
Eis que uma folha miudinha
Rompeu, cresceu, recortada,
Furando a cepa cansada
Que dava cravos sem vida
Naquela
Bela
Varanda
Daquela
Minha
Janela
Da tal casa tosca e bela
Á qual quis como se fora
Feita para eu morar nela...
(...)
O dia 21 de Maio de 2010 foi um dia de dor! Faleceu o meu sogro, António Tavares Jacob, um portalegrense de alma e coração. Um Homem Bom!
Dedicou parte da sua vida a «cultivar amizades». Nos tempos livres, dialogava encostado nas grades do jardim pequeno. Conversando sobre os progressos que verificava no quotidiano da sua terra, na «passagem» dos amigos de Castelo de Vide e de Portalegre.
Que estejas bem, António ... 
Apenas um desabafo de desagrado contra o licenciado em Ciências Médicas, Carlos Cruz Villalon, de nacionalidade espanhola, pela sua falta de Humanismo.
«O valor das coisas não está no tempo que elas duram, mas na intensidade com que acontecem». In Fernando Pessoa.

António Tavares Jacob, um homem Bom! Um portalegrense pugnador entusiasta da República.
Morreu os 86 anos de idade.
JDACT