Mostrar mensagens com a etiqueta Constança Manuel. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Constança Manuel. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

Memória de Inês de Castro. António C. Franco. «As pazes e as tréguas, estou em crer, as concede o domínio que capitula e não a vontade que sujeita. A intervenção de Génova, ao lado do rei de Marrocos, foi, porém, decisiva para alterar os planos do rei castelhano»

jdact

«A vitória do estreito obtida em 1333 com a tomada de Gibraltar tinha sido, para Ali Boacem, decisiva. Ao regressar de Fez o sultão levara centenas de prisioneiros que ficaram durante três dias expostos no Souk do centro da cidade, que tinha sido fundada quatro séculos antes. Fez está no contraforte do Atlas--Médio e representa, por isso, a ideia duma estabilidade central, que está tão perto do Rife como dos poderosos picos, com mais de três mil metros de altitude, do grande Atlas. A cidade foi durante muitos anos o centro cultural e religioso de Marrocos, com a sua bela universidade e a célebre mesquita Karouim.
Era a capital de Marrocos na época de Ali Boacem e para ali confluía todo o grande exército que este rei decidira preparar para invadir a Península. Era um batalhão gigantesco que se avolumou cada vez mais à medida que o tempo passava. Quando se pôs mais tarde em movimento, demorou alguns dias a sair dos arredores da cidade.
Foram os ecos desta expedição militar à Península que levaram o rei de Castela a tentar por todos os meios a paz com o rei de Aragão. Indiferente às pretensões de sua irmã D. Leonor, que reclamava as cidades que lhe tinham sido doadas por casamento com Afonso IV de Aragão, e indiferente às queixas dos sobrinhos, Fernando e João, que eram meio-irmãos do rei de Aragão, Afonso de Castela pensa, frente às alarmantes notícias que correm sobre o exército que se estava a organizar em Fez, conseguir uma aliança com Aragão, que lhe seria em todos os sentidos indispensável. Sem uma armada naval experiente e desenvolvida, contando apenas com homens que se tinham formado na transumância do planalto, ele sentia absolutamente necessária a perícia naval catalã e indispensável a utilização da forte e desenvolvida marinha de guerra que os catalães possuíam. E a imagem que projectamos nos outros, reflecte-se logo sobre nós. O seu plano, tecido em Sevilha com a ajuda da família Gusmão que o servia nos lugares-chave da burocracia militar, era, mesmo sem Algeciras e Gibraltar, irremediavelmente perdidas, impedir a entrada do exército africano em território interior. Parecia-lhe mais fácil dar batalha no mar, do que fazer a guerra em terra. Exigia-lhe isso uma enorme fidelidade às águas e uma cerrada vigilância do estreito, que só podia ser eficaz se fosse coadjuvada pela marinha catalã.
Os boatos que corriam de que se se repetisse uma nova batalha de Guadalete, a costa de-Múrcia-Alicante seria a primeira a cair, logo seguida por Valência e pelas Baleares, levou Pedro IV a um compromisso como o rei de Castela, que foi assinado em 1338 em Múrcia por intermédio de João Manuel, que continuava ao serviço do rei de Aragão. As naus de Gilberto de Cruilhas partiram poucos dias depois para o estreito de Gibraltar onde as de Joffre Tenório, o almirante castelhano que acabara de fazer uma razia nos portos do Algarve, já sulcavam. Afonso XI não sentiria qualquer necessidade de fazer as pazes com Portugal e aproveitara mesmo o facto de estar a concentrar forças na região de Huelva para exercitar duas ou três mesnadas de homens, invadindo com eles Portugal pela fronteira do Algarve, atravessando o Guadiana junto de Alcoutim e pondo fogo a Castro Marim, Tavira, Loulé e Faro. Retirara-se depois calmamente, enquanto que o rei português, apanhado de surpresa, preferia invadir pessoalmente a Galiza, atravessando o rio Minho. Era violenta a firmeza, onde era natural a inconstância.
As pazes e as tréguas, estou em crer, as concede o domínio que capitula e não a vontade que sujeita. A intervenção de Génova, ao lado do rei de Marrocos, foi, porém, decisiva para alterar os planos do rei castelhano. As tréguas entre Castela e Portugal foram feitas desde os finais do ano 1338 e as pazes foram assinadas em Sevilha, onde o almirante Pessanha e o seu filho Carlos continuavam a passear ao longo dos claustros fechados, enquanto lá fora se ouviam cantar os ciganos. Afonso de Castela pensava reforçar a sua esquadra com Pessanha, o que significava poder dispor dum técnico genovês que conhecia muitíssimo bem todas as manobras de navegação de guerra do inimigo. Por outro lado, a belíssima posição dos portos portugueses dava ao castelhano uma rectaguarda marítima. A curiosidade genovesa, e sabe-se como a curiosidade era importante para navegar sem declinação magnética ou sem astrolábio, agudizava-se ao contacto com o Atlântico e bem apetrechados duma experiência secular os genoveses eram preciosos auxiliares de todo e qualquer empreendimento naval. Prostituta sagrada dos mares, Génova, de corpo febril, iniciou a Península numa espécie de febre marítima.
As pazes entre Portugal e Castela foram assinadas em Sevilha em 10 de Julho de 1339. Estava um dia de ardente calor e os homens tinham de se refugiar depois do almoço debaixo dos tectos de cal dos seus quartos, onde se sentia o fresco da sombra. A sombra é nesses dias uma expectativa silenciosa, a única companhia e desapaixonada. A paixão é do sol, como a serenidade é da sombra. As cartas foram assinadas ao fim da tarde, quando o Sol declinava já no horizonte. A sua labareda envolvia ainda, como flamejante cauda de cometa, toda a superfície da terra. O sol era, de Verão, uma estrela que se desfazia em sucessivas combustões. Vivia-se mais de noite, porque esta, no seu azul profundo, trazia uma frescura consoladora. O dia doía, enquanto que a noite consolava.
A partir das dez horas da manhã as ruas ficavam desertas e as fasquias de madeira das gelosias cerravam-se. Há nessas vilas do Sul uma solidão maravilhada e perene que muito tem a ver com essa luminosidade insuportável». In António Cândido Franco, Memória de Inês de Castro, Publicações Europa-América, 1990.

Cortesia de PE América/JDACT

quarta-feira, 1 de maio de 2013

Inês de Castro. Leituras. Maria Pilar del Hierro. «… a sua amada filha D. Constança Manuel estava comprometida a casar-se com o infante Pedro, herdeiro do trono português. ‘Não’. Não lhe pareceu justo que “Constança” não tivesse ‘sido avisada antes do anúncio’. Não achou bem que não tivessem pedido consentimento à interessada»


jdact e cortesia de costapinheiro

«Os anos tinham convertido Inês numa adolescente desenvolta e esbelta. O sol que se filtrava através da janela enorme fazia brilhar ainda mais aquela abundante cabeleira dourada e o pescoço comprido, o colo de garça, cantado pelos artistas que frequentavam o castelo, parecia ainda mais branco e mais perfeito. Não. Não lhe faltavam qualidades, nem aspecto. Inês tinha, sem dúvida, porte de rainha. Alheia às reflexões da amiga Inês continuava a palrar sem descanso. Que sim, que Constança havia nascido para reinar que o manto real lhe faria realçar ainda mais os cabelos de azeviche e os olhos escuros, que sim, que a brancura da sua pele era digna de um rei; e continuava a falar, sem cessar, das amenidades de um Portugal que, nas recordações dos seus anos de criança, assimilava às verdes colinas e à placidez das suas terras galegas.
 - Sim - concluiu. - O meu amado senhor João quer dar-te o destino de rainha que te corresponde. Vendo-te assim, uma moça tão bela, bem deve lamentar o nosso rei Afonso XI, que Deus guarde, a maneira como te tratou em menina É claro que… - aqui sorriu, com brejeirice, talvez não te agrade a ideia de virem a chegar a Portugal as palavras bonitas de certo jovem, aquele que nas justas enverga a faixa que lhe bordaste e que gosta de te acompanhar durante o passeio matinal. Constança não deu resposta. Inês até tinha razão. Álvaro Fáñez de Valbuena costumava concorrer, como fidalgo da terra, às justas e torneios realizados no castelo. Em mais de uma ocasião, sendo um apaixonado das rimas, havia dedicado versos a Constança e, durante o último torneio, tinha defendido as suas cores. Também era verdade que, em mais de uma ocasião, dera consigo a pensar nele e ficava nervosa sempre que ele estava presente, mas sabia que o seu destino estava nas mãos do pai e que este não perderia a ocasião se aparecesse um casamento vantajoso. Não se importava.
Aceitava de bom grado ser a peça decisiva para o culminar da carreira política do infante João Manuel. No fim de contas, como dizia a ama o amor era um sentimento próprio dos livros e dos romances. As mulheres da classe a que pertencia tinham um destino a cumprir: ser úteis aos pais, dar sucessão aos maridos e educar os filhos de acordo com a fé e a honra. Ela seria fiel à sua condição e agiria como tal. Continuou em silêncio. Sabia que se falasse acabaria a discutir com Inês. A amiga era mais sonhadora. Apaixonava-se com facilidade e em várias ocasiões havia suspirado ante os requebros de algum cortesão. Além do mais, recusava-se a aceitar as limitações próprias da sua condição de mulher. Certamente gostava tanto do arranjo pessoal como dos livros, dos bailes como das rezas, mas, para desespero da ama, obstinava-se em lançar-se a galope pela veiga, ou a conversar com rapazes que haviam sido companheiros de folguedos infantis, a quem agora, já crescidos, devia mostrar a reserva aconselhada pela sua condição de donzela. Uma e outra vez, evocando a figura de D. Maria de Molina, discutia com mestres e prelados as razões por que o mundo das armas e das letras estava vedado às mulheres, recusando-se a aceitar que estas devessem limitar-se ao papel de sujeitos passivos na vida. Quando, farta do discurso, Constança lhe perguntava o que faria se pudesse mudar a situação, calava-se, matutava durante uns segundos, para a seguir responder: - Não sei, mas não é justo.
Tampouco lhe pareceu justo que, poucos dias depois da partida dos portugueses, o infante João Manuel reunisse os cortesãos na grande sala abobadada e anunciasse solenemente que, segundo o acordo alcançado com o Rei de Portugal, a sua amada filha D. Constança Manuel estava comprometida a casar-se com o infante Pedro, herdeiro do trono português. Não. Não lhe pareceu justo que Constança não tivesse sido avisada antes do anúncio. Não achou bem que não tivessem pedido consentimento à interessada». In Inês de Castro, María Pilar Queralt de Hierro, Editorial Presença, Lisboa, 2006, ISBN 978-972-23-3081-7.

Cortesia de Editorial Presença/JDACT

sexta-feira, 19 de abril de 2013

Memória de Inês de Castro. António C. Franco. «As pazes e as tréguas, estou em crer, as concede o domínio que capitula e não a vontade que sujeita. A intervenção de Génova, ao lado do rei de Marrocos, foi, porém, decisiva para alterar os planos do rei castelhano»


jdact

«A vitória do estreito obtida em 1333 com a tomada de Gibraltar tinha sido, para Ali Boacem, decisiva. Ao regressar de Fez o sultão levara centenas de prisioneiros que ficaram durante três dias expostos no Souk do centro da cidade, que tinha sido fundada quatro séculos antes. Fez está no contraforte do Atlas--Médio e representa, por isso, a ideia duma estabilidade central, que está tão perto do Rife como dos poderosos picos, com mais de três mil metros de altitude, do grande Atlas. A cidade foi durante muitos anos o centro cultural e religioso de Marrocos, com a sua bela universidade e a célebre mesquita Karouim.
Era a capital de Marrocos na época de Ali Boacem e para ali confluía todo o grande exército que este rei decidira preparar para invadir a Península. Era um batalhão gigantesco que se avolumou cada vez mais à medida que o tempo passava. Quando se pôs mais tarde em movimento, demorou alguns dias a sair dos arredores da cidade.
Foram os ecos desta expedição militar à Península que levaram o rei de Castela a tentar por todos os meios a paz com o rei de Aragão. Indiferente às pretensões de sua irmã D. Leonor, que reclamava as cidades que lhe tinham sido doadas por casamento com Afonso IV de Aragão, e indiferente às queixas dos sobrinhos, Fernando e João, que eram meio-irmãos do rei de Aragão, Afonso de Castela pensa, frente às alarmantes notícias que correm sobre o exército que se estava a organizar em Fez, conseguir uma aliança com Aragão, que lhe seria em todos os sentidos indispensável. Sem uma armada naval experiente e desenvolvida, contando apenas com homens que se tinham formado na transumância do planalto, ele sentia absolutamente necessária a perícia naval catalã e indispensável a utilização da forte e desenvolvida marinha de guerra que os catalães possuíam. E a imagem que projectamos nos outros, reflecte-se logo sobre nós. O seu plano, tecido em Sevilha com a ajuda da família Gusmão que o servia nos lugares-chave da burocracia militar, era, mesmo sem Algeciras e Gibraltar, irremediavelmente perdidas, impedir a entrada do exército africano em território interior. Parecia-lhe mais fácil dar batalha no mar, do que fazer a guerra em terra. Exigia-lhe isso uma enorme fidelidade às águas e uma cerrada vigilância do estreito, que só podia ser eficaz se fosse coadjuvada pela marinha catalã.
Os boatos que corriam de que se se repetisse uma nova batalha de Guadalete, a costa de-Múrcia-Alicante seria a primeira a cair, logo seguida por Valência e pelas Baleares, levou Pedro IV a um compromisso como o rei de Castela, que foi assinado em 1338 em Múrcia por intermédio de João Manuel, que continuava ao serviço do rei de Aragão. As naus de Gilberto de Cruilhas partiram poucos dias depois para o estreito de Gibraltar onde as de Joffre Tenório, o almirante castelhano que acabara de fazer uma razia nos portos do Algarve, já sulcavam. Afonso XI não sentiria qualquer necessidade de fazer as pazes com Portugal e aproveitara mesmo o facto de estar a concentrar forças na região de Huelva para exercitar duas ou três mesnadas de homens, invadindo com eles Portugal pela fronteira do Algarve, atravessando o Guadiana junto de Alcoutim e pondo fogo a Castro Marim, Tavira, Loulé e Faro. Retirara-se depois calmamente, enquanto que o rei português, apanhado de surpresa, preferia invadir pessoalmente a Galiza, atravessando o rio Minho. Era violenta a firmeza, onde era natural a inconstância.
As pazes e as tréguas, estou em crer, as concede o domínio que capitula e não a vontade que sujeita. A intervenção de Génova, ao lado do rei de Marrocos, foi, porém, decisiva para alterar os planos do rei castelhano. As tréguas entre Castela e Portugal foram feitas desde os finais do ano 1338 e as pazes foram assinadas em Sevilha, onde o almirante Pessanha e o seu filho Carlos continuavam a passear ao longo dos claustros fechados, enquanto lá fora se ouviam cantar os ciganos. Afonso de Castela pensava reforçar a sua esquadra com Pessanha, o que significava poder dispor dum técnico genovês que conhecia muitíssimo bem todas as manobras de navegação de guerra do inimigo. Por outro lado, a belíssima posição dos portos portugueses dava ao castelhano uma rectaguarda marítima. A curiosidade genovesa, e sabe-se como a curiosidade era importante para navegar sem declinação magnética ou sem astrolábio, agudizava-se ao contacto com o Atlântico e bem apetrechados duma experiência secular os genoveses eram preciosos auxiliares de todo e qualquer empreendimento naval. Prostituta sagrada dos mares, Génova, de corpo febril, iniciou a Península numa espécie de febre marítima.
As pazes entre Portugal e Castela foram assinadas em Sevilha em 10 de Julho de 1339. Estava um dia de ardente calor e os homens tinham de se refugiar depois do almoço debaixo dos tectos de cal dos seus quartos, onde se sentia o fresco da sombra. A sombra é nesses dias uma expectativa silenciosa, a única companhia e desapaixonada. A paixão é do sol, como a serenidade é da sombra. As cartas foram assinadas ao fim da tarde, quando o Sol declinava já no horizonte. A sua labareda envolvia ainda, como flamejante cauda de cometa, toda a superfície da terra. O sol era, de Verão, uma estrela que se desfazia em sucessivas combustões. Vivia-se mais de noite, porque esta, no seu azul profundo, trazia uma frescura consoladora. O dia doía, enquanto que a noite consolava.
A partir das dez horas da manhã as ruas ficavam desertas e as fasquias de madeira das gelosias cerravam-se. Há nessas vilas do Sul uma solidão maravilhada e perene que muito tem a ver com essa luminosidade insuportável». In António Cândido Franco, Memória de Inês de Castro, Publicações Europa-América, 1990.

Cortesia de PE América/JDACT

António C. Franco. Memória de Inês de Castro. «A verdadeira Espanha islâmica, tolerante, filosófica, aberta e até aristotélica, quando isso não implica a sujeição dum neo-platonismo extremamente importante, ardia debaixo do fanatismo militar europeu ou africano»

jdact

«A filosofia, que tanto floresceu nas escolas da Hespanha muçulmana, numa das raras épocas em que se pode com propriedade falar de Hespanha, não era decerto o melhor sinal desse instinto de organização militar, já que a liberdade de saber não se ajustava de modo nenhum ao rigor e à paixão da guerra. A Hespanha muçulmana existiu como um dado social e antropológico indesmentível, a ponto de ter sido o único ponto do mundo árabe onde se criou um califado novo. O califado era, em princípio, o ponto único de obediência do mundo muçulmano, uma espécie de pedra colocada no meio do deserto, e o califa o representante de Maomé na terra. A existência dupla de dois califados no mundo árabe, veio desde logo criar problemas inumeráveis, que pareciam desmentir o intransigente monoteísmo islâmico. Os Omíadas, que foram os cisionistas, foram acusados de politeístas e Córdova, sede escolhida para novo Califado, tornou-se de facto numa cidade única no mundo árabe, cheia de plurais interesses, que contrastava, pela sua rica diversidade, com todas as outras. Córdova no século X, quando Abd-ar-Rahman disse, com lucidez, pretender a fusão de todas as raças da Península, devia ter quase meio milhão de habitantes e os mercadores de livros abundavam quase tanto como os de tâmaras e passas secas.
Toda a filosofia ou estratégia militar da Península não pertenceu nunca ao árabe, que veio mais das refrescantes praias litorais do Iémen do Sul do que dos ardentes palmares de Medina ou Meca, onde o profeta entrou em 629,mas sim ao berbere do Norte de África que, arrancado aos altos contrafortes dos sistemas montanhosos do Magreb, possuía uma intrepidez que conjugava um máximo de aspiração religiosa com um máximo de astúcia política e eficácia militar. O Magreb é, nesse sentido, ao contrário da Hespanha árabe, uma repetição ainda mais acentuada do que aconteceu com os caraveneiros da Arábia Saudita.
Foi o génio africano de Marrocos que deu ao islamismo o carácter dum a religião intolerante, mantendo uma ortodoxia e desenvolvendo um espírito de imposição militar que não estava no espírito mais fundo, que é ainda o mais religioso, da hégira de Maomé. Os almorávidas pertenciam a várias tribos berberes do Sara e os almóadas eram berberes do Atlas marroquino. Ambos tinham conquistado o Norte de África, unificando sob um comando único várias tribos, e intervindo decisivamente na política militar da Península, acabando por conquistar o que restava da Espanha muçulmana. Indiferentes às particularidades do mundo árabe peninsular, os berberes do Norte de Africa saqueiam sinagogas, incendeiam igrejas e substituem a filosofia, tão própria do espírito islâmico peninsular, pela religião. Era uma asfixia brutal do passado e a introdução duma mentalidade de antagonismos e de divisões brutais, que continuou depois a sangrar, como uma ferida ou uma pústula mal sarada. Em línguas religiosas diversas, por vezes mesmo anti-religiosas, a oração, daí por diante, sempre a mesma: Em Espanha não se permitem heresias.
Toda a tentativa, feita a partir de 1330 por Ali Boacem, sultão de Fez, de contra reconquistar a Península aos Almóadas no domínio do Norte de Africa, era exactamente igual ao dos seus predecessores. A verdadeira Espanha islâmica, tolerante, filosófica, aberta e até aristotélica, quando isso não implica a sujeição dum neo-platonismo extremamente importante, ardia debaixo do fanatismo militar europeu ou africano. Era sempre a medo que os reis das últimas províncias árabes de Hespanha se dirigiam ao rei de Marrocos, pedindo auxílio. Este recebia-os em Fez a comer tâmaras e a beber leite coalhado com cardo do deserto, ouvia-os atentamente e preparava-se dias depois para reconquistar a Península tanto aos cristãos como aos muçulmanos das províncias do Sul. Aconteceu isso com os Almorávidas, com os Almóadas e agora com Ali Boacem.
Quando este foi chamado por Muahmad de Granada, em 1330, não se deixou convencer senão exteriormente das razões indicadas pe1o rei de Granada. No fundo, ele entrevia uma grande epopeia militar, capaz de refazer o brilho e o esplendor dos tambores almorávidas, que na célebre batalha de Sacralias, que se deu em 1086, entre Elvas e Badajoz, cantaram toda a noite a sangrenta vitória que o africano obteve sobre o poderoso rei Afonso VI de Leão. Na madrugada duma batalha o almorávida, praticamente depois de desembarcar na Península, enviava como sinal, para os quatro cantos da Hespanha muçulmana, pilhas de cadáveres degolados. Era sobre eles que devia começar, por ordem expressa do africano, a oração da manhã». In António Cândido Franco, Memória de Inês de Castro, Publicações Europa-América, 1990.

Cortesia de PE América/JDACT

Memória de Inês de Castro. António C. Franco. «O último reino árabe que sobrevivia, ou que coexistia na Península, era o de Granada. Compreendia toda a região que se estendia pela Serra Nevada, um dos mais belos sítios do mundo…»

jdact

«O infante usava uma blusa de linho branco e tinha à cintura um punhal fino de prata enfiado num pequeno estojo de carneira. Parecia-lhe inconcebível que a Hespanha se agitasse tanto com o seu casamento. Disse ao pai: - O meu coração, como já vos disse, não é conforme a este assunto e não posso deixar de ser perfeitamente indiferente a ele. A guerra, neste caso, parece-me afinal um daqueles remédios que apenas agravam o mal.
Afonso era um homem ainda jovem, de quarenta e poucos anos, a quem o trono tinha reconfortado e até, sob certos aspectos, rejuvenescido. Desde o seu encontro, doze anos antes, na Roca, com aquele estranho leão de pêlo amarelo que Afonso parecia imitar o Sol. Sentava-se no trono como o Sol se fixa no céu. E os que baixam os olhos é que podem suportar o Sol. Estava mais louro, mais branco, mais luminoso. Raramente usava a coroa, mas irradiava um esplendor íntimo que se prende mais com a situação interior dos homens, o seu estado de plenitude e agrado, que se traduz em brilho, do que propriamente com os seus ornamentos exteriores. O Sol é o esplendor da vulgaridade e os que cerram as pálpebras não só suportam o Sol, como se libertam para o infinito. As trevas são o silêncio sem referências, porque são, por excelência, o longe. E tudo é paraíso ao longe. Num certo sentido, o crepúsculo de Afonso principiou nesse dia de Maio, quando o Infante, cheio de luz ou de sombra, lhe virou as costas. Um crepúsculo ainda radioso e que, com o fulgor próprio dos grandes poentes estivais, não tardaria a iluminar toda a Península. Viver é arder, viver é queimar a vida. Os homens não se distinguem das estrelas.
Recolheu-se o príncipe à Atouguia levando consigo, depois de ter avistado Branca nos corredores do paço de Lisboa, o ânimo ainda mais frio. E o frio cristaliza, é geométrico. Dir-se-ia que o infante se afastava definitivamente para uma região polar e desconhecida, porque a adolescência é a zona dos gelos. Só a morte os haveria de fundir. Deu o rei ordem, contrariado que estava no seu esplendor de tarde, a Manuel Pessanha de ir, o mais rapidamente possível, às costas andaluzes. Este Manuel Pessanha era almirante do mar desde 1317, ano em que tinha celebrado um contrato com o rei Dinis. Vinha de Génova, estava ligado à família Pessagno, e tinha atrás de si séculos e séculos dum conhecimento marítimo que, nos seus inícios, se devia prender à própria formação do comércio na bacia do mediterrâneo. E verdade que Génova estava virada a Ocidente e que os-seus marinheiros tinham um tipo de melancolia, que se diria já própria do Atlântico. O Atlântico é como o céu, dá aos homens a confrontação nítida do infinito. Mas nada disso lhes retirava o seu ancestral passado mediterrânico, essa bacia de água morna onde todos os povos da Antiguidade lavaram os dedos dos pés, que, no seu meio-termo, pode também fazer lembrar esses outros marinheiros peninsulares, os catalães, os únicos que puderam depois competir com os portugueses. Contra todas as previsões, a esquadra portuguesa foi apanhada de imprevisto no Algarve pela esquadra castelhana e no próprio Cabo de S. Vicente, onde teve lugar a mais importante batalha de mar destes distúrbios, foram aprisionadas todas as naus portuguesas e capturado o seu Almirante, que foi levado para Sevilha não como assaltante mas como prisioneiro. Era Julho e a luz solar tinha, no seu esplendor, algo de crepuscular.

O último reino árabe que sobrevivia, ou que coexistia na Península, era o de Granada. Compreendia toda a região que se estendia pela Serra Nevada, um dos mais belos sítios do mundo, e constituía em si não tanto um último reduto, mas um sentido natural da Península. Depois da dissolução do império almóada, a Península voltou a encontrar uma nova e decisiva etapa do seu contonalismo muçulmano. As taifas, e o que delas resta, são no princípio do século XIII os novos reinos árabes da Península, dos quais irá sobreviver depois, durante séculos, o de Granada. Mas o cantonalismo muçulmano, se se caracteriza pela tolerância e pela liberdade religiosa, caracteriza-se também pela debilidade da instituição militar que, pela sua hierarquia a hermetismo, pode coexistir melhor com um poder autoritário». In António Cândido Franco, Memória de Inês de Castro, Publicações Europa-América, 1990.

Cortesia de PE América/JDACT

sexta-feira, 15 de março de 2013

Memória de Inês de Castro. António C. Franco. «Estavam nos claustros da Sé, em Lisboa, sobre uma varanda ampla, onde nos dias quentes a corte bebia água com limão e mel. Montavam toldos e olhavam as velas que atravessavam o rio para Almada»

jdact

«O Alentejo, sobretudo na parte Oriental, aparecia, depois desta ronda, como devastado, cheio de ruínas e de cadáveres, e o rei de Castela tinha-se retirado apenas por razões de foro íntimo. Leonor de Gusmão esperava-o em Sevilha. Foi por essa altura que o rei chamou o infante Pedro a Lisboa. As naus de Manuel Pessanha acabavam de descer das costas galegas, onde tinham incendiado alguns portos e feito alguns prisioneiros. Preparavam-se agora para saquear Sevilha, a Lisboa castelhana, passando pela costa algarvia e subindo de imprevisto o Guadalquivir, que pode perfeitamente ser visto como um outro Tejo. Estávamos em Maio e o Minho acabava de se livrar de outra invasão castelhana. Apodreciam cadáveres de homens e de animais entre os rebentos do centeio e viam-se corpos enforcados nas latadas de pedra das quintas. Corriam névoas e havia crianças perdidas na estrada de Braga com os lábios rebentados de fome. Tinham-se separado dos pais no temporal dos saques e tinham visto arder, em poucos segundos, o telhado de colmo das suas casas. A situação estava cada vez mais indecisa e o rei português tinha decidido reforçar as acções, aplicando todos os seus homens nas próximas operações militares. Mandou chamar o infante, que estava com dezasseis anos, e disse-lhe:
  •  - Aragão mantém esforços contra o adiantado de Múrcia e João Manuel, agora duque de Vilhena, entrou já, por mais duma vez, nos campos de Albacete. Vamos carregar em Sevilha e olhar a Andaluzia da Giralda. Preciso que tu acudas a todo este reboliço e que temperes o braço no ferro.
Estavam nos claustros da Sé, em Lisboa, sobre uma varanda ampla, onde nos dias quentes a corte bebia água com limão e mel. Montavam toldos e olhavam as velas que atravessavam o rio para Almada. O infante estava sentado e olhava perdidamente a extensão azul duma água que tinha mais de mar do que de rio. Subiam marés e desciam marés, rolavam ondas nos areais de Alcochete, boiavam nas águas salgadas cadáveres de gaivotas e de flamingos. O infante usava uma blusa de linho branco e tinha à cintura um punhal fino de prata enfiado num pequeno estojo de carneira. Parecia-lhe inconcebível que a Hespanha se agitasse tanto com o seu casamento». In António Cândido Franco, Memória de Inês de Castro, Publicações Europa-América, 1990.

Cortesia de PE América/JDACT

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Inês de Castro. Memória de Inês de Castro. António C. Franco. «Não bastava ao rei mobilizar a classe nobre que, melhor ou pior, se sentia a ele presa por laços de vassalagem ou de senhorio. Era preciso mobilizar a intimidade da consciência popular, escalando um reduto último que era essencial a qualquer vitória militar»


jdact

«O delírio é o primeiro indício da morte, mesmo quando se está no zênite da vida. Viver é queimar a vida, transformá-la em calor e claridade. A morte de Isabel de Aragão foi talvez o último gesto do seu apostolado. Saiu de Coimbra com destino a Estremoz, onde o rei Afonso então estagiava, e chegou ao Alentejo, no meio dos mais abrasados calores, a pensar partir para Valadolid, onde o rei de Castela, seu neto, então estava. A vida é breve, a alma é vasta. Ia requerer, de saquitel ao ombro, a vinda de Constança Manuel, garantindo-lhe a amizade do rei de Portugal. Pode-se, por isso, dizer que Isabel morreu num campo de batalha e que a sua morte foi nomeadamente uma trégua natural que se estabeleceu, em sua volta, entre Portugal e Castela. Isabel, mais do que Dinis, é a voz da terra ansiando pelo mar. D. Leonor de Aragão, sua neta e irmã do rei de Castela, veio a Santa Clara, para onde a rainha foi trasladada no meio dos grandes calores de Junho.
Essa trégua desfez-se mal os ecos da sua morte se desfizeram no horizonte. Em Setembro, Pedro, o conde de Barcelos e meio-irmão de Afonso de Portugal, sai de Lamego, por ordem do rei, à frente dum pequeno exército que atravessa o rio Minho e cerca o castelo de Entienza, onde se acolhera o arcebispo de Santiago de Compostela. Poucos dias depois, Afonso IV, atravessando o Tejo, põe cerco a Badajoz e assola Cortegana e Aracena. A guerra estava declarada e Afonso IV de Portugal contava que o flanco oriental de Castela fosse pressionado por Pedro IV que tinha já recebido a coroa real das mãos do arcebispo Pedro de Luna, na catedral de Saragoça. Saragoça é uma cidade triste, poeirenta e só a proximidade dos Pirenéus a justifica espiritualmente. Todavia, a sua posição frente à meseta castelhana justifica-a e justificou-a sempre como centro político por excelência, já que a independência de Aragão se esclarece tanto na luta contra Castela como no seu destino épico e marítimo. Saragoça foi assim uma primeira defesa natural da Catalunha e foi aí que Pedro IV jurou os foros e os privilégios do reino de Aragão, no ano de 1336. A discórdia que este rei mantinha com Afonso XI de Castela a propósito dos direitos de D. Leonor, sua madrasta, permitia ao rei português pensar que a necessidade de fazer guerra em duas frentes, a aragonesa e a portuguesa, lhe seria fatal. Não pensou assim Afonso de Castela e nomeou fronteiro de Múrcia Pedro de Erésia, guardando-se o rei para a fronteira ocidental.
A guerra era, independentemente de dois ou três sucessos ocasionais, um estado de espírito que se interiormente tinha alguma coisa a ver com o amor ou com a paixão, aparecia com o factor de coesão nacional. O maior ou menor grau de mobilização significava o grau de empenhamento colectivo, o que, por sua sua vez, indicava desde logo as possibilidades de envolver e superar todas as dificuldades. Pode-se ganhar uma guerra perdendo todas as batalhas, desde que o povo tenha consciência de que os seus valores e as suas tradições próprias não são alienáveis. Há rosas que subjugam cedros, como há sorrisos que desarmam um exército. Não bastava, por isso, ao rei mobilizar a classe nobre que, melhor ou pior, se sentia a ele presa por laços de vassalagem ou de senhorio. Era preciso mobilizar a intimidade da consciência popular, escalando um reduto último que era, como depois se viu, essencial a qualquer vitória militar. E, salvas raríssimas excepções, a guerra é, para consciência do povo, uma catástrofe que toma proporções de flagelo.
Foi isso que aconteceu no ano de 1337 quando Afonso de Castela passou por Elvas, Arronvhes, Veiros, Avis, Vila Viçosa e Olivença, deixando um rasto de cinzas e terrenos pisados. Ficaram casas incendiadas e houve gente que se deslocou a pé para Évora, para Santarém, onde estava o rei, e até para Lisboa. Passavam descalços, embrulhados em papéis ou em trapos, levando ao colo galinhas ou alguidares. Havia velhos que ficavam sentados nos caminhos, com os olhos parados na planície e a mão estendida. Os cães vinham-nos cheirar. A água desabava em bátegas inesperadas e foi deplorável o trajecto de todos esses refugiados. Chegaram a Santarém praticamente nus, onde o rei os mandou vestir e agasalhar. O Alentejo, sobretudo na parte Oriental, aparecia, depois desta ronda, como devastado, cheio de ruínas e de cadáveres, e o rei de Castela tinha-se retirado apenas por razões de foro íntimo. Leonor de Gusmão esperava-o em Sevilha». In António Cândido Franco, Memória de Inês de Castro, Publicações Europa-América, 1990.

Cortesia de PE América/JDACT

domingo, 16 de dezembro de 2012

Inês de Castro. Memória de Inês de Castro. António C. Franco. «A liberdade que há naqueles montados é em tudo superior ao ordenamento que os próprios homens põem nas coisas. Vejo na solidão da natureza um respeito que me surpreende e prezo por isso a sua convivência»

jdact

«A liberdade que há naqueles montados é em tudo superior ao ordenamento que os próprios homens põem nas coisas. Vejo na solidão da natureza um respeito que me surpreende e prezo por isso a sua convivência. Afonso tinha a mão esquerda assente no joelho. O passado nunca é, na sua aparência, como o futuro, ainda que, no seu núcleo interno, eles nem sequer se diferenciem como momentos distintos. Deus é o homem dum outro Deus maior. Acreditava conhecer a idade do filho, que tinha nascido num período conturbado da sua vida. Recordava-se desse tempo e da pouca fé que tinha tido do seu nascimento. Anteriormente tinha já tido dois varões que tinham durado apenas escassos meses. A liberdade do seu filho era por isso a liberdade dum filho segundo que ascendia, porém, à sucessão do reino. Aceitando o silêncio como um sinal submisso, o rei fechou a porta: - Não respondas, Pedro. Dá-me apenas o que te peço, porque é o rei que to pede como pai.
Realizou-se o casamento do infante com D. Constança Manuel por procuração. Foram os procuradores de Portuga1 a Cuenca e vieram os de João Manuel á Évora. Acto jurídico por excelência, o casamento era assim um acto de confiança entre dois Estados ou entre duas casas. Os festejos foram concorridos, provaram-se vinhos e celebrou-se missa pontifical na diocese de Cuenca, onde D. Constança foi autorizada a ir. Cuenca fazia fronteira entre o reino de Castela e o reino de Aragão e distava pouco de Valência João Manuel possuía nessa diocese amplas propriedades, que se estendiam até Albarracim, e escolheu-a talvez para mostrar que entre Aragão e Castela existia um-terceiro espaço, neutro, de que ele era o senhor. Entre Aragão e Castela ele próprio dispunha de terceiras forças importantes, que podiam mesmo ser essenciais, tudo dependendo das alianças, quer a um lado, quer a outro.
Estava previsto que D. Constança Manuel regressasse depois do casamento não a Touro, onde o rei a tinha retido, mas a Penafiel, onde se prepararia para partir para Portugal. Partiu com a comitiva do pai em finais de Fevereiro, de Cuenca, e não evitou passar em Valadolid, onde estava a corte de Castela. O esplendor dos festejos tinha já ecoado como um desagravo explícito de João Manuel, que assim esperava redimir o fracassado casamento anterior da filha.
O prato não produz o menor murmúrio. É preciso esperar pelas festas, as ostensivas festas, para que alguém se digne olhar para nós. Foi talvez isto, e não qualquer ciúme, que motivou a apreensão de D. Constança Manuel em Valadolid, apesar dos violentos protestos do pai. Incapaz de se bater com o rei, ele procurou imediatamente refúgio junto do rei de Aragão, Pedro IV, que acabava de assumir, com dezasseis anos, a coroa, por morte de seu pai, Afonso IV. Afonso, que morreu de hidropesia aos trinta e poucos anos, deixava dois filhos de um segundo casamento com Leonor de Castela, irmã de Afonso XI, que eram deste modo rivais do herdeiro. Leonor de Castela, talvez devido às dissensões com o enteado, e pressentindo a morte de Afonso de Aragão, procurou, nos finais de 1335, refugio junto do seu irmão, o rei de Castela. Não se enganou, pois logo em Janeiro, dois ou três dias depois da morte de seu pai, que ocorreu no palácio de Barcelona, Pedro se apressou a ordenar as primeiras disposições contra os bens de Leonor de Castela. Estavam pois dispostas no tabuleiro da Península as peças que iriam doravante, durante um largo período, comandar a política externa dos três estados cristãos peninsulares. Dum lado, os reis de Portugal e Castela, e do outro o rei de Castela. João Manuel, aliado preferencial tanto do rei catalão como do rei português, era uma espécie de castelo avançado destes mesmos reinos.
As verdadeiras discórdias entre Portugal e Castela só começaram depois da morte de Isabel de Aragão em 4 de Julho de 1336. Tinha sessenta e seis anos e morreu em Estremoz depois de ter deixado Coimbra no mês de Junho. Nasceu-lhe um fleimão no braço esquerdo, que cresceu desmedidamente e lhe foi chupando, dia a dia, as poucas forças. Não se podia levantar e vinham todas as manhãs abrir-lhe a janela da câmara para entrar o fresco. Um dia, quando D. Brites lhe veio lavar o corpo e pentear o cabelo, encontrou-a a falar sozinha, desconjuntadamente sentada na cama. Gesticulava com os braços no ar e fitava fixamente os zambujeiros dos campos, que lhe ficavam em frente. Brites, que trazia toalhas húmidas para lhe refrescar o corpo e serenar a fronte, perguntou-lhe o que se passava. Ela respondeu: - Filha, atentai nessa Dona que aí vai. Brites como não viesse ninguém disse-lhe: - Que Dona é, senhora? - Essa que está no parapeito da janela como se estivesse num altar e que se veste das mais finas sedas brancas. As suas vestiduras esvoaçam brandamente, mais frescas do que a água, no lume». In António Cândido Franco, Memória de Inês de Castro, Publicações Europa-América, 1990.

Cortesia de PE América/JDACT

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Inês de Castro. António C. Franco: Memória de Inês de Castro. «Conhecia a Lagoa de Óbidos palmo a palmo e tinha percorrido os areais do Litoral, pelos dias ventosos de Janeiro, desde a Atouguia até à foz do Sizandro. O seu coração pertencia a esses lugares calados que tinham entrado na sua vida e eram nela apertadas sementes»



jdact

«Avistaram Coimbra nos últimos dias de Setembro, quando o céu ele próprio parece ao entardecer uma vinha acabada de vindimar. E uma nudez que ainda não esfriou e onde há, todavia, um mosto quente e pegajoso. O sol aquece as tinas que estão com as uvas nos campos e tisna a pele dos homens ou dos peregrinos. O grupo tinha engrossado com a chegada a Coimbra e desde Vila do Conde que outros peregrinos se tinham juntado ao grupo para fazerem em conjunto as duas ou três últimas etapas. A presença da rainha já era conhecida e o filho do rei Dinis, o conde de Barcelos, que deixaria um espólio poético importante, mandou gente de sua casa. Vivia no solar de Lalim, ao pé de Lamego, sob o céu da igreja de Almacave, e aí havia de compor o célebre “Livro de Linhagens” e compilar a crónica medieval portuguesa mais antiga, a ‘Crónica Geral de Espanha’, de 1334, arredado que estava de todas as lutas pelo poder. Há na arte, e sobretudo na escrita, uma força de austeridade que faz que se descubra uma disciplina e se imponha uma orientação que tem alguma coisa de voto de silêncio. O místico aproxima-se do poeta, porque ambos vivem não daquilo que os rodeia, mas daquilo que imaginam. A compreensão e a conformidade de entendimento entre Isabel de Aragão e o conde de Barcelos, bastardo de seu marido, era imediata e não exigia de parte a parte qualquer esforço. O conde estava casado em segundas núpcias com uma senhora duma das mais poderosas famílias de Aragão, Maria Ximenes, e o catalão falava-se mais no seu paço de Lamego do que na corte de Lisboa. Foram esperá-la a Vila do Conde e acompanharam-na a Coimbra onde a esperava também o seu filho, rei de Portugal.
Vinha falar-lhe do infante e do casamento deste, por procuração, com Constança Manuel, que se previa para os primeiros meses do ano de 1336.
O ano de 1336 entrou carregado de nuvens e forte de águas. Algumas pontes tinham ruído, o que era sinal de isolamento, e transitava-se com dificuldade no interior. Tempestades de vento tinham feito derrocadas de árvores seculares arrancadas no meio dos campos e nos caminhos. Carvalhos gigantescos tinham sido abatidos. Os camponeses resguardavam-se em casa ateando braseiros de vide. Cortavam vime, modelavam barro, abriam pipos, limpavam lagares, mas praticamente não se afastavam de casa onde viviam paredes-meias com os animais. O rei estava em Coimbra com D. Brites, no paço de Santa Clara, onde alojaram também Branca, que devia ser entregue ao rei de Castela logo que este deixasse vir para Portugal Constança Manuel, que continuava idilicamente retida na cidade de Touro. Foi aí, no paço de Santa-Clara a Velha, que o infante Pedro, chegado da Atouguia, interpelou o pai, dizendo-lhe, a dois dias de partirem para Évora onde se deveriam realizar as festas de casamento entre Constança e Pedro, o seguinte:

 - Meu pai, ireis desculpar, mas é sem ânimo que encaro este casamento. O coração não me é conforme neste jeito e para ele vos peço outra compreensão e outro juízo, que deve ser de pai e não de rei.

Pedro era agora um corpo teso, membrudo, onde despontavam todos os sinais duma virilidade animal. Estava corpulento e tinha mãos pesadas, revestidas duma crosta dura e amarelada, calosa, que resultava do trato diário que ele tinha com as pedras, as silvas e os javalis. Calçava borzeguins de atacadores e o cabelo caía-lhe já sobre os ombros. O pai respondeu-lhe:

 - O rei é pai por afeição, mas é senhor por obrigação. Estimam-se os homens como filhos, mas é também por isso que se governam como vassalos. Irás dar a tua mão a Constança Manuel e saberás a seu tempo quanto foi acertada esta escolha. É como pai que te caso, mas é como rei que o maior cuidado tenho no que importa à conservação do reino.

Pedro olhava para os campos. Estava sentado na borda duma arca de madeira de castanho e o seu coração estava limpo de paixões. Conhecia a Lagoa de Óbidos palmo a palmo e tinha percorrido os areais do Litoral, pelos dias ventosos de Janeiro, desde a Atouguia até à foz do Sizandro. O seu coração pertencia a esses lugares calados que tinham entrado na sua vida e eram nela apertadas sementes. A experiência com Branca de Castela tinha-o  aborrecido até às raízes e a mulher era para ele, ao nível da consciência, um ser decididamente encoberto a que só, muito fragmentariamente, no domínio dos seus sonhos, ele tinha acesso. O pai disse-lhe ainda:

 - Não respondes, Pedro?

Pedro retirou então os olhos dos campos e fechou-os. Abriu-os depois e fitou a estatura avantajada do pai. Disse:

 - A liberdade que há naqueles montados é em tudo superior ao ordenamento que os próprios homens põem nas coisas. Vejo na solidão da natureza um respeito que me surpreende e prezo por isso a sua convivência.

In António Cândido Franco, Memória de Inês de Castro, Publicações Europa-América, 1990.

Cortesia de PE América/JDACT

segunda-feira, 25 de junho de 2012

Inês de Castro. António C. Franco: Memória de Inês de Castro. «O som executa um itinerário que o leva do Oriente ao Ocidente, repetindo também ele o caminho dos homens que demandam Compostela. A cidade está a três ou quatro léguas dum cabo que os romanos, depois dos celtas, apelidaram de Finisterra»



jdact

«O solstício de Verão, com a entrada do Sol na constelação do caranguejo, é como uma noite de lua-cheia. E dia claro em todo o lado e pode-se peregrinar pelos caminhos à noite como se houvesse sol. Foi a 21 de Junho de 1335 que a rainha Isabel com o seu rajo de peregrina, o seu bordão de romeira e o seu fardel de pedinte deixou Coimbra a pé, apenas acompanhada de duas noviças de Santa Clara e dum irmão da Confraria do Espírito Santo de Alenquer, que tinha a seu cargo o zelo do hospital e da albergaria da mesma vila. A tenacidade e a austeridade desta mulher não deixam de espantar, ainda que no contexto do franciscanismo da altura, muito influente na Catalunha devido à proximidade desta com o Sul de França e o Norte de Itália, este desejo de pobreza fosse fácil de entender. A viagem era distribuída por várias etapas, pernoitava-se ao ar livre ou pedia-se hospício a casas religiosas ou civis. Essas quarenta léguas que separavam Coimbra de Santiago eram assim percorridas no anonimato duma peregrinação, que se abrigava da publicidade ou do ruído dos solares mais nobres. A rainha e o seu pequeno séquito viviam de esmolas e repetiam pela segunda vez uma peregrinação que muitos, em Portugal, não se lembravam de ter realizado uma única vez.
O objectivo da viagem era poder atingir no período que medeia entre a lua nova e o quarto crescente de Julho a cidade de Compostela. A 25 de Julho a cidade celebra a sua festa, lembrando o irmão do evangelista João, que parece ter peregrinado nos primeiros anos do Cristianismo em direcção do Ocidente, provavelmente nas embarcações fenícias que na altura partiam de Sidon ou de Tiro. O Sol está na constelação do Leão, onde acabou de entrar, e com os campos já segados a festa tem qualquer coisa de pagão ou de céltico como se em vez de adoração dum túmulo cristão se adorasse a memória do Sol vivo nos espigueiros de pedra. A luz que jorra nesses dias é impiedosa e pede sacrifícios.
O som executa um itinerário que o leva do Oriente ao Ocidente, repetindo também ele o caminho dos homens que demandam Compostela. A cidade está a pouco mais de três ou quatro léguas dum cabo que os romanos, depois dos celtas, que são porventura o fundo étnico mais original de toda a região, apelidaram de Finisterra. É Verdade que o caminho que leva o homem português a Santiago é diferente do caminho que leva o homem europeu à mesma cidade. Este último percurso na terra a mesma rota que o sol percorre no céu, deslocando-se de Oriente para Ocidente, enquanto que o homem português se desloca de Sul para Norte, relembrando mais um centro perdido que ele próprio, conhecedor desse centro, foi desmultiplicando, do que um centro desconhecido que era preciso procurar. O homem português é já em relação a Santiago futuro, enquanto que o homem europeu é em relação a essa mesma cidade passado.
Desde Aveiro, primeiro ponto litoral que o grupo de peregrinos tocou, que esta dualidade aparecia clara aos olhos de Isabel. O próprio aragonês participa ainda desse esforço que coloca Compostela como o ponto mais ocidental de toda a Europa e por isso ponto onde se venerava o Sol ao venerar-se Cristo. A rota do catalão passava ainda pelos Pirenéus e por Jaca. A rota das constelações estelares era completamente outra e só o eixo Norte-Sul criava uma dicotomia inovadora, em que se escolhia entre a Ursa Polar e Oríon. Há em torno do polo um eixo de constelações que se movem lentamente e que parece evocar um centro fixo que tem por paradigma maior a Estrela Polar. É uma coroa muito bela que engloba constelações como a Cassiopeia, o Dragão, Cefeus e que está certamente na origem de múltiplas procuras. Mas todas as constelações que estão viradas ao Hemisfério Sul e que tocam a linha do horizonte exercem um fascínio desmultiplicador, que tem mais de dádiva do que de procura. É por isso que Isabel ao vir a Santiago de Compostela, nos primeiros dias de Setembro, tinha o pressentimento de realizar o próprio percurso do português. Em vez de deixar o finisterra regressando ao meio da terra, o mediterrâneo, ela avançava em direcção ao mar, acrescentando novas marcas ao fim da terra». 
In António Cândido Franco, Memória de Inês de Castro, Publicações Europa-América, 1990.

Cortesia de PE América/JDACT

terça-feira, 29 de maio de 2012

Inês de Castro. António C. Franco: Memória de Inês de Castro. «A sua força advém-lhe desse poder de espiritualizar a matéria, e quando transformou pão em rosas ou abriu em Aveiro os olhos a uma menina cega, transformando as trevas em luz, nada mais fez do que aperfeiçoar a matéria. O ignoto que ela adorou era já o mar português. Pela primeira vez, através dela, conquistámos a distância»


jdact

A Guerra
«As hostilidades entre Portugal e Castela começaram logo nas primeiras semanas do ano de 1335 com a recusa, mais ou menos explícita, do rei de Castela deixar vir para Portugal a filha de João Manuel. Chamou-a à cidade de Touro e lembrou-lhe certas promessas amorosas que dez anos antes lhe tinha feito nesses mesmos campos. Não lhe propunha evidentemente casamento, mas olhava-a longamente. Mandava-lhe ao quarto laranjas doces de Múrcia ainda com flores nos ramos e entretinha com ela uma relação de silêncio e amuo que podia bem lembrar, ou substituir, a ligação amorosa. Constança tinha então 22 anos e penteava amiudadamente, com ar de descuido, o seu longo cabelo. Pousava os pentes de ouro em cima dos baús do quarto e dirigia-se à janela onde contemplava as águas do rio Douro com a mesma serenidade. Apesar do seu estatuto ser cada vez mais o de uma prisioneira, a proximidade de Afonso inspirava-lhe uma paz que, apesar de emblemática e até de artificiosa, lhe espiritualizava o sacrifício. Nada havia entre eles, mas a tensão política entre João Manuel e o rei obrigava este a um jogo cada vez mais prudente em que Constança representava um trunfo considerável.
Tal tensão assumia em Portugal sinais de preparativos militares. A velha rainha, Isabel de Aragão, mãe de Afonso de Portugal, decide fazer uma peregrinação a Santiago de Compostela em sinal de reconciliação e paz entre aquele que era seu filho e aquele que era seu neto, já que a mãe do rei de Castela era sua filha. Não é fácil explicar as virtualidades desta mulher criada num ambiente que se não era único na Europa de então, era pelo menos dos mais expressivos e cultos daquela época. Aquilo que a desgostou ao longo da sua vida não foi tanto a rivalidade constante que sentiu entre pais e filhos, mas sobretudo a ignorância que a rodeava. Não que a expressão viva da humanidade fosse para esta mulher o médico ou o matemático, mas porque para ela só estes podiam ser santos. Raimundo Lúlio, a quem de resto conheceu, é no masculino a obra feminina de Isabel. O saber nela era uma expressão de infinito, que evaporava números e formas. Atravessou várias guerras fratricidas e em todas elas se manteve de fora, dando-nos constantemente a ideia de que o seu lugar não pretendia competir com o dos homens. Isabel de Aragão deve ser vista como o produto dum meio que criou nessa mesma época homens como Lúlio ou Arnaldo Villanova. E neta de Jaime I, esse magnífico rei que se sentava à mesa das tabernas de Barcelona a fazer negócios com os armadores, e filha de Pedro III, que ficou na história com o cognome de “Grande”, porque foi no seu reinado que se conquistou a Sicília e se colonizou o Norte de África. A Catalunha cristaliza neste momento da história peninsular as mais sérias aspirações humanas e os seus homens têm sempre a têmpera dum Lúlio, dum Villanova, dum Muntaner ou então duma Isabel. A conquista progressiva da Península feita no reinado de Jaime I, que chegou às portas de Alicante e conquistou Múrcia em 1266, é depois substituída por uma expansão no Mediterrâneo, que tem tanto de militar e de comercial como de espiritual. A “Ars Magna” de Lúlio é a própria humanidade espiritualizada. Numa fabulosa árvore, ao coexistirem unidamente vários ramos, Lúlio dava-nos uma imagem mesma do Mediterrâneo onde também coexistiam vários ramos, árabes, judeus e cristãos, que possuíam, contudo, a mesma raiz.
Há um sopro épico na história catalã desta época que é a todos os títulos notável. Pedro III é, por exemplo, duma heroicidade mítica que deve ser comparada apenas à dos heróis da Antiguidade Clássica ou celta. Conta-se que no ano de 1285 para festejar as vitórias políticas e militares no Norte de Africa, o rei decidiu escalar o pico do Canigou, uma belíssima montanha que se avistava de Perpignan, atravessando vales e desfiladeiros. Estávamos em Outubro e as primeiras borrascas começaram a cair, amedrontando os dois cavaleiros que estavam com ele. A neve caiu já de noite, toldando tudo, e de manhã os pulmões magoados respiravam a custo no ar gelado de neve. Pedro acabou por escalar sozinho as escarpas mais altas do Canigou e diz-se que trouxe dum lago a cabeça dum enorme dragão, que semeava o pânico entre os camponeses da região.
Estamos frente ao herói mítico solar que decapita as forças obscuras das trevas. Ora Pedro de Aragão é o pai de Isabel que lhe herdou, em toda a extensão, o génio, espiritualizando mesmo a força de seu pai numa direcção que se mostrou depois surpreendente. A sua força advém-lhe desse poder de espiritualizar a matéria, e quando transformou pão em rosas ou abriu em Aveiro os olhos a uma menina cega, transformando as trevas em luz, nada mais fez do que aperfeiçoar a matéria. Os seus milagres são sobretudo milagres do saber, ou, se quisermos, milagres alquímicos. A crença nos milagres tem uma origem sublime. Resulta dum desejo sobrenatural e não da ignorância desprezível. E por isso que Isabel é um Lúlio feminino que em vez de ouro fez luz. Numa altura em que os melhores pilotos europeus eram catalães ou genoveses, esta mulher foi em Portugal como que um primeiro piloto que nos alertou para o desconhecido. O ignoto que ela adorou era já o mar português. Pela primeira vez, através dela, conquistámos a distância».  
In António Cândido Franco, Memória de Inês de Castro, Publicações Europa-América, 1990.


 Cortesia de PE América/JDACT

terça-feira, 24 de abril de 2012

Inês de Castro. António C. Franco: Memória de Inês de Castro. «A madrugada esfriou definitivamente essas cinzas e ao acordar com os ouvidos atentos ao mar, o infante recordou um sonho que estava ainda preso à retina e à memória. Eram imagens flagrantes, mas límpidas na sua desconexão»



jdact

A Guerra
«A construção deste touril na Atouguia foi como que o primeiro acto político de Pedro, e simultaneamente o seu primeiro acto simbólico. Nele Pedro está em corpo e em alma. Ele tanto é o sol negro da noite que o touro corporiza, como a força humana que está decidida a fitar de frente as trevas. Acto talvez gratuito, quer dizer acidental, esse acto revelou contudo, a frio, o seu destino futuro.
A aproximação do Natal trouxe de novo um retraimento interior. Encostava-se no paço às janelas que dão para Ocidente e fitava as ilhas. Peniche distinguia-se saliente e maciça sobre o lado esquerdo. Pensava no touril. Era um rectângulo de terra que parecia ter as dimensões do universo. Estávamos no Outono e a Lua banhava os campos. Os pescadores aproveitavam a serenidade destes últimos dias da estação para atravessarem o canal, que no Inverno se tornava intransitável. Passavam horas nas pedras mais salientes da ilha, onde tinham pequenos barracões de madeira, construídos há muitos anos. Era um esboço de colonização primária e um primeiro contacto humano com uma terra que se haveria depois, passados séculos, de tornar um pólo de desenvolvimento e atracção. O homem português, por outro lado, ensaiava também aí os primeiros passos dum contacto marítimo e povoador que haveria depois de se revelar de forma absolutamente universal. Peniche era então uma ilha habitada por gaivotas e outras aves marinhas. Ela exercia sobre os homens da costa um fascínio, que só os rigores do Inverno acalmavam. O Inverno fazia levantar as vozes do mar que se tornavam intransponíveis. O volume do mar dominava tudo, inclusive o próprio medo. Aproveitavam-se assim os últimos dias limpos de 1334 para revisitar as pedras da ilha, arrumar os barracões e armar os derradeiros laços na maré vazia. Os homens prendiam os barcos e não se afastavam dessa orla costeira, preferindo o arranjo rápido, em harmonia com o diminuto arco dos dias, às longas excursões pela lombada extensa da ilha. Tais excursões eram guardadas para Os meses de Verão, em que alguns desembarcavam até com pessoas de família ou com visitantes ocasionais do porto das naus da Atouguia.
Foi numa dessas rápidas embarcações que atravessava ainda o canal em Dezembro que o infante desembarcou em Peniche. Os homens riam-se para ele e alguns levavam os olhos quase rasos de lágrimas, enquanto remavam. Eram homens de olhos claros e de pele pergaminhada e branca, que se emocionavam com facilidade. Admiravam no infante o seu jeito popular e a sua facilidade viril que exigia um trato rude e áspero. Nessa noite ele dormiria num dos barracões da praia, por entre caixas armadilhadas, pilhas de rede e panos tingidos de castanho. Recolhiam-no no outro dia, pois as embarcações, nesta época do ano, regressavam sempre à Atouguia antes do anoitecer. As noites de Lua nova são noites em que se passa da expectativa à contemplação. A ideia de que a Lua é um outro sol e a noite um outro dia, dá aí lugar ã uma animação fantástica de estrelas, que contrasta ainda mais devido à pobreza inconforme que a escuridão da terra revela. Se a terra sofre uma quebra de luminosidade devida à ausência da Lua, o céu, por sua vez, encontra nas estrelas substitutos inesperados que parecem animar de vida o mundo. São as noites de Lua nova, noites em que os homens dormem duplamente recolhidos e em que apenas as estrelas, na conjugação extraordinária das suas formas, vivem.
Dormiu, por isso, o infante sossegado durante muitas horas. As noites nessa altura têm uma duração descomedida e pouco depois do meio-dia a tarde começa a declinar para Ocidente, afastando-se no seu rasto a luz. Nos dias límpidos de Dezembro é possível ver o sulco que o Sol deixa no céu e o clarão anoitecido e azulado, Cor de sombra, que desponta a Oriente. Olham-se das escarpas os vales da terra e vêem-se no horizonte as nuvens pálidas arrastar a face miúda da noite. Passam as últimas aves em direcção das planícies do Sul e a noite vem mostrar ao mundo a sua identidade húmida e marinha.
Ficaram na soleira do barracão as brasas acesas dum fogo que na solidão escura da terra aparecia como imagem crepitante dum céu povoado de estrelas.
A madrugada esfriou definitivamente essas cinzas e ao acordar com os ouvidos atentos ao mar, o infante recordou um sonho que estava ainda preso à retina e à memória. Eram imagens flagrantes, mas límpidas na sua desconexão.
Há uma figura de mulher que tem cabelos ondulados e líquidos como a água, apesar de serem da cor do fogo e parecerem arder como labaredas. É uma mulher que está no meio dos campos, como um turbilhão silencioso e que o salva de morrer envenenado numa sala onde ele está, no sonho, deitado, entre paredes estreitas. A mulher dá-lhe o seio moreno e Pedro, que estava deitado, levanta-se de olhos abertos. Desperta no interior do sonho.
Há sonhos que impressionam pelo enredo da história e o tempo do seu sucesso. Mas há outros que impressionam pela vitalidade das suas imagens, que nos surgem mais vivas e reais do que a própria realidade física que nos circunda. Um-sonho desses é então como uma ruína: levantam-se das suas paredes desconexas certezas inelutáveis, premonições inabaláveis. Mas é este tipo de sonho que nos predispõe a um contacto privilegiado com o mundo, pois ele é a revelação profunda duma existência encoberta que vive em nós. Conhecer esses seres é conhecer os seres que nos hão-de dar a mão, ajudando-nos a subir ou ajudando-nos a descer, conforme os desígnios do nosso ser, depois da morte. É uma corte fantástica que povoa os nossos sonhos e que se alimenta às vezes do nosso corpo. Essa mulher, revelada pela primeira vez nos sais de prata dessa noite, estava lá, como arcano. Que papel ela iria desempenhar na vida de Pedro era ainda impossível de dizer, tanto mais que a mulher, apesar de arrancada das vértebras mais interiores do homem, permanece sempre um segredo inviolável e distante. Seja como for, foi nessa noite que Pedro viu, pela primeira vez, a mulher, percebendo-a na sua lógica fatal e angélica, na sua lógica devoradora e instigadora, ainda que a impressão que isso lhe produzisse fosse demasiado instantânea para ter algum efeito preventivo».
In António Cândido Franco, Memória de Inês de Castro, Publicações Europa-América, 1990.

Cortesia de PE América/JDACT