Mostrar mensagens com a etiqueta Kate Mosse. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Kate Mosse. Mostrar todas as mensagens

sábado, 14 de agosto de 2021

Labirinto. Kate Mosse. «Naquele silêncio, o eco de sua voz parece de certa forma hostil e ameaçador. P-A-S A P-A-S... Pas a pas. Passo a passo? Passo a passo o quê?»

Cortesia de wikipedia e jdact

Segunda-feira, 4 de Julho de 2005

«(…) Ela torna a subir. Há uma profunda depressão no solo na entrada da caverna, onde antes ficava a pedra. A terra húmida fervilha com a frenética actividade de minhocas e besouros subitamente expostos à luz e ao calor depois de tanto tempo. Seu boné está no chão no mesmo lugar onde caiu. Sua colher de pedreiro também está lá, exactamente onde ela a deixou. Alice espia para dentro da escuridão. A abertura não tem mais de um metro e meio de altura por cerca de um metro de largura, e suas bordas são irregulares e ásperas. Parece uma abertura natural, não algo feito pelo homem, mas quando ela passa os dedos pela rocha, para cima e para baixo, encontra trechos curiosamente lisos nos pontos onde a pedra repousava. Lentamente, seus olhos se acostumam à penumbra. O preto aveludado cede lugar a um cinza escuro, e ela vê que está diante de um túnel comprido e estreito. Sente os cabelos finos se eriçarem na nuca, como a avisá-la de que na escuridão há algo à espreita que seria melhor deixar em paz. Mas é só uma superstição infantil, e ela não se permite pensar nisso. Alice não acredita em fantasmas nem em premonições.

Apertando a fivela na mão com força, como um talismã, ela respira fundo e dá um passo para dentro da passagem. No mesmo instante, o cheiro de um ar subterrâneo há muito escondido a envolve, enchendo sua boca, sua garganta, seus pulmões. O ambiente é fresco e húmido, sem os gases secos, venenosos de uma caverna lacrada com os quais lhe avisaram para tomar cuidado, então ela conclui que deve existir alguma fonte de ar puro. Porém, para garantir, vasculha os bolsos dos shorts até encontrar seu isqueiro. Acende-o e ergue-o em direcção ao espaço escuro, confirmando que há oxigénio. A chama é sacudida por uma corrente de ar, mas não se apaga. Sentindo-se nervosa e ligeiramente culpada, Alice enrola a fivela num lenço e a enfia no bolso, em seguida avança com cautela. A luz da chama é fraca, mas ilumina o caminho imediatamente à sua frente, lançando sombras sobre as paredes cinza e ásperas. À medida que avança mais, ela vai sentindo o ar frio se enroscar por suas pernas e braços nus como um gato. Está caminhando sobre uma rampa. Pode sentir o chão descendo sob seus pés, irregular e arenoso. O atrito das pedras e do cascalho ressoa alto naquele espaço confinado, silencioso. Ela tem consciência de que, quanto mais longe e mais fundo avança, mais a luz do dia vai ficando pálida atrás de si.

De repente, ela não quer mais continuar. Não sente nenhuma vontade de estar ali. Mas é como se houvesse algo irresistível naquilo, algo a puxá-la para as entranhas profundas da montanha. Dez metros mais adiante, o túnel termina. Alice se vê na soleira de uma câmara fechada como uma caverna. Ela está em pé sobre uma plataforma de pedra natural. Um ou dois degraus rasos e largos bem na sua frente levam à área principal onde o chão foi nivelado até ficar plano e liso. A caverna tem cerca de dez metros de comprimento e talvez cinco de largura, e foi obviamente construída por mãos humanas, e não só pela natureza. O tecto é baixo e abobadado, como o de uma cripta.

Alice olha fixamente, segurando mais alto a chama tremeluzente e incomodada por uma curiosa familiaridade que a vai dominando e que ela não consegue explicar. Está prestes a descer os degraus quando percebe letras gravadas na pedra do degrau de cima. Inclina-se e tenta ler o que está escrito. Apenas as três primeiras palavras e a última letra, N, ou talvez H, estão legíveis. As outras estão carcomidas ou lascadas. Alice limpa a poeira com os dedos e recita as letras em voz alta. Naquele silêncio, o eco de sua voz parece de certa forma hostil e ameaçador. P-A-S A P-A-S... Pas a pas. Passo a passo? Passo a passo o quê? Uma vaga lembrança percorre a superfície de sua mente consciente, como uma canção há muito esquecida. E logo desaparece. Pas a pas, murmura ela dessa vez, mas aquilo não significa nada. Uma prece? Um aviso? Sem saber o que vem depois, não faz sentido». In Kate Mosse, Labirinto, Editora Suma de Letras, 2006, ISBN 978-857-302-768-6.

Cortesia de ESumafrLetras/JDACT

JDACT, Kate Mosse, Literatura, Cátaros, Languedoc,

Labirinto. Kate Mosse. «Levanta a mão e está prestes a gritar para atrair a atenção de alguém quando percebe uma estreita abertura visível no flanco da montanha onde antes estava a pedra»

Cortesia de wikipedia e jdact

Segunda-feira, 4 de Julho de 2005

«(…) Nos dias e semanas que estão por vir, Alice vai se lembrar desse instante. Vai lembrar-se da qualidade da luz, do gosto metálico de sangue e poeira na sua boca, e vai perguntar-se como as coisas poderiam ter sido diferentes se ela tivesse resolvido descer, e não ficar. Se tivesse seguido as regras. Ela sorve a última gota de água da garrafa e a joga dentro da mochila. Durante uma ou duas horas depois disso, enquanto o sol vai ficando mais alto no céu e a temperatura vai subindo, Alice continua a trabalhar. Os únicos barulhos são o raspar do metal na pedra, o zumbido dos insetos e o ronco ocasional de um pequeno avião ao longe. Ela pode sentir gotas de suor brotando acima do seu lábio superior e entre seus seios, mas continua até que, finalmente, o vão debaixo da pedra fica grande o suficiente para ela poder pôr a mão lá dentro. Alice se ajoelha no chão e encosta a bochecha e o ombro na pedra para se apoiar. Então, com um pequeno estremecimento de ansiedade, insere os dedos bem no fundo da terra escura e cega. Percebe imediatamente que seu palpite estava certo e que encontrou alguma coisa importante. O objecto tem uma textura lisa e escorregadia; parece feito de metal e não de pedra. Empunhando-o com firmeza e dizendo a si mesma para moderar as próprias expectativas, vai trazendo-o muito devagar até à luz. A terra parece estremecer, sem querer entregar seu tesouro.

O cheiro forte e pungente de terra húmida invade seu nariz e sua garganta, embora ela mal perceba. Já está perdida no passado, fascinada pelo pedaço de história que segura na palma das mãos. E uma fivela pesada e redonda, manchada de pontinhos pretos e verdes devido à idade e ao longo tempo debaixo da terra. Alice a esfrega com os dedos e sorri quando os detalhes de prata e cobre começam a se revelar debaixo da sujeira. A primeira vista, também parece ser medieval, o tipo de fivela usado para fechar um  manto ou uma túnica. Ela já viu alguma coisa parecida antes. Alice conhece os perigos de tirar conclusões apressadas ou de ser seduzida por primeiras impressões, mas não consegue evitar pensar no dono daquela fivela, morto há tanto tempo, e que pode ter andado por aqueles mesmos caminhos. Um desconhecido cuja história ela ainda precisa descobrir. A conexão é tão forte e Alice está tão entretida que não percebe a pedra se mexendo na sua base. Então alguma coisa, algum sexto sentido, a faz olhar para cima. Por uma fracção de segundo, o mundo parece estar suspenso, fora do espaço, fora do tempo. Ela fica inteiramente hipnotizada pelo pedaço de rocha antiquíssimo que balança, se inclina, e então, graciosamente, começa a cair na sua direcção. No último instante, a luz muda. O feitiço se rompe.

Alice se joga para longe, meio se arrastando, meio escorregando de lado, bem a tempo de evitar ser esmagada. A pedra bate no chão com um baque surdo, levantando uma nuvem de pó marrom claro, depois sai rolando, como em câmera lenta, até parar mais abaixo na montanha. Alice se agarra desesperadamente aos arbustos e à vegetação rasteira para evitar escorregar mais. Por um instante, fica estendida no chão, tonta e desorientada. Quando percebe que só não foi esmagada por um triz, seu corpo congela. Foi por pouco, pensa. Respira fundo. Espera o mundo parar de girar. Aos poucos, o latejar na sua cabeça diminui. O enjôo passa e tudo começa a voltar ao normal, o suficiente para ela poder se sentar e avaliar a situação. Seus joelhos estão esfolados e riscados de sangue, e ela bateu com o pulso ao cair de mau jeito, ainda segurando a fivela na mão para protegê-la, mas no geral escapou ilesa a não ser por alguns cortes e hematomas. Não me machuquei.

Ela se levanta e sacode a poeira do corpo, sentindo-se uma completa idiota. Não consegue acreditar que cometeu um erro tão elementar quanto não escorar a pedra. Então Alice lança um olhar para a sede da escavação lá em baixo. Fica espantada, e aliviada, ao constatar que ninguém no acampamento parecer ter visto nem ouvido nada. Levanta a mão e está prestes a gritar para atrair a atenção de alguém quando percebe uma estreita abertura visível no flanco da montanha onde antes estava a pedra. Como uma porta escavada na rocha. Dizem que essas montanhas são coalhadas de passagens e cavernas escondidas, de modo que ela não fica surpresa. Porém, pensa Alice, de alguma forma ela sabia que a porta estava ali, embora não seja possível vê-la do exterior. Ela sabia. Na verdade, eu adivinhei, diz a si mesma. Ela hesita. Alice sabe que deveria chamar alguém para entrar com ela. É estúpido, e talvez até perigoso, entrar sozinha sem nenhum tipo de apoio. Ela sabe todas as coisas que podem dar errado. Mas, de todo modo, não deveria estar trabalhando ali em cima sozinha. Shelagh não sabe. E, além disso, algo a está atraindo lá para dentro. Parece pessoal. Aquela descoberta é sua. Alice diz a si mesma que não faz sentido incomodar o grupo, aumentar suas expectativas sem motivo. Se houver alguma coisa que valha a pena investigar, então ela contará a alguém. Não vai fazer nada. Quer apenas olhar. Vai levar só um minuto». In Kate Mosse, Labirinto, Editora Suma de Letras, 2006, ISBN 978-857-302-768-6.

Cortesia de ESumafrLetras/JDACT

JDACT, Kate Mosse, Literatura, Cátaros, Languedoc,

Labirinto. Kate Mosse. «Mais cedo, ela reparou em alguma coisa cintilando debaixo de uma pedra grande, encostada na lateral da montanha, arrumada e posicionada como se houvesse sido posta ali pela mão de um gigante»

Cortesia de wikipedia e jdact

Segunda-feira, 4 de Julho de 2005

«(…) Um único filete de sangue escorre pela parte interna muito pálida do braço dela, como uma costura vermelha num tecido branco. De início, Alice pensa que é só uma mosca e não liga. Numa escavação, os insectos são ossos do ofício, e por algum motivo há mais moscas no alto da montanha onde ela está trabalhando do que na escavação principal mais abaixo. Então uma gota de sangue pinga sobre a sua perna nua, explodindo como um fogo de artifício no céu em noite de ano-novo. Dessa vez ela olha e vê que o corte na parte interna do seu cotovelo abriu de novo. É uma ferida funda, que não quer sarar. Ela dá um suspiro e aperta mais contra a pele o curativo. Em seguida, como não há ninguém por perto para ver, lambe a mancha vermelha no próprio pulso. Fios de cabelo, claros como açúcar queimado, soltaram-se debaixo do seu boné. Ela os ajeita atrás das orelhas e enxuga a testa com o lenço, antes de apertar outra vez o rabo de cavalo na nuca. Desconcentrada, Alice se levanta e estica as pernas esguias, levemente queimadas de sol. Vestindo uma calça, jeans cortada, uma camiseta branca justa e sem mangas e um boné, ela mais parece uma adolescente. Antigamente se importava com isso. Agora, à medida que vai ficando mais velha, entende as vantagens de parecer mais jovem do que de facto é. Os únicos toques de elegância são seus delicados brincos de prata em forma de estrelas, que reluzem como paetês. Alice desenrosca a tampa de seu cantil. A água está morna, mas a sede é tanta que ela não liga e sorve longos goles. Lá em baixo, o calor forma uma névoa que cintila sobre o asfalto esburacado da estrada. Por cima dela, o céu tem um azul infinito. As cigarras prosseguem seu coro incessante, escondidas na sombra da grama seca. É a primeira vez que Alice visita os Pirenéus, embora se sinta praticamente em casa ali. Já lhe disseram que, no Inverno, os cumes pontiagudos dos Montes Sabarthès ficam cobertos de neve. Na Primavera, delicadas flores cor-de-rosa, lilases e brancas surgem de seus esconderijos nos enormes rochedos. No início do Verão, os pastos ficam verdes e salpicados de botões de ouro. Agora, porém, o sol achata a Terra, subjugando-a, transformando os verdes em marrom. É um lugar bonito, pensa ela, mas de certa forma inóspito. Um lugar de segredos, que já viu coisas demais e escondeu coisas demais para poder estar em paz consigo mesmo.

Na sede do acampamento, mais abaixo na encosta, Alice pode ver os colegas em pé sob o grande toldo de lona. Com esforço, consegue distinguir Shelagh na roupa preta que a caracteriza. Fica surpresa que já tenham parado. E cedo demais para um intervalo, mas a verdade é que a equipe toda está meio desanimada. Cavar e raspar, catalogar e anotar, tudo isso é na maior parte do tempo um trabalho árduo e monótono, e até agora eles desenterraram poucas coisas que valham a pena a ponto de justificar seus esforços. Encontraram alguns fragmentos de antigos jarros e vasilhas da Alta Idade Média e uma ou duas pontas de lança do final do século XII ou início do XIII, mas certamente não acharam nenhum sinal do núcleo de povoamento paleolítico que é o foco da escavação. Alice sente-se tentada a descer para juntar-se aos amigos e colegas, e refazer seu curativo. O corte está ardendo, e suas batatas da perna estão doloridas de tanto ficar de cócoras. Os músculos de seus ombros estão tensos. Mas ela sabe que, se parar agora, perderá o pique. Se tudo der certo, sua sorte pode estar prestes a mudar.

Mais cedo, ela reparou em alguma coisa cintilando debaixo de uma pedra grande, encostada na lateral da montanha, arrumada e posicionada como se houvesse sido posta ali pela mão de um gigante. Embora ainda não consiga ver que objecto é aquele, nem sequer determinar seu tamanho, passou a manhã inteira cavando e acha que não vai demorar muito para conseguir alcançá-lo. Ela sabe que deveria chamar alguém. Ou pelo menos falar com Shelagh, sua melhor amiga, vice-directora da escavação. Alice não tem formação de arqueóloga; é só uma voluntária dedicando parte das suas férias de verão a alguma ocupação útil. Mas aquele é seu último dia completo na escavação, e ela quer provar seu valor. Se descer agora até à sede da escavação e admitir que pensa ter descoberto alguma coisa, todos vão querer participar, e não vai ser mais a sua descoberta». In Kate Mosse, Labirinto, Editora Suma de Letras, 2006, ISBN 978-857-302-768-6.

Cortesia de ESumafrLetras/JDACT

JDACT, Kate Mosse, Literatura, Cátaros, Languedoc, 

Labirinto. Kate Mosse. «Em Labirinto, para distinguir entre os habitantes do Pays d’Oc e os invasores franceses, usei occitano ou francês conforme o caso. O resultado é que alguns nomes e lugares aparecem tanto em francês quanto em occitano…»

Cortesia de wikipedia e jdact

Uma história de coragem, destino e traição na França contemporânea e na medieval.

«Julho de 1209: na cidade francesa de Carcassonne, uma moça de 17 anos recebe do pai um misterioso livro, que ele diz conter o segredo do verdadeiro Graal. Embora Alaïs não consiga entender as estranhas palavras e símbolos escondidos naquelas páginas, sabe que seu destino é proteger o livro. Serão necessários enormes sacrifícios e uma fé inabalável para preservar o segredo do labirinto, um segredo que remonta a milhares de anos e aos desertos do antigo Egipto.

Julho de 2005: durante uma escavação arqueológica nas montanhas ao redor de Carcassonne, Alice Tanner descobre dois esqueletos. Dentro da tumba na qual repousavam os antigos ossos, experimenta uma sensação de malignidade impressionante e percebe que, por mais impossível que pareça, de alguma forma, ela é capaz de entender as misteriosas palavras ancestrais gravadas nas pedras. Porém, é tarde demais, Alice acaba de desencadear uma aterrorizante sequência de acontecimentos incontroláveis, e agora seu destino está irremediavelmente ligado à sorte dos cátaros, oitocentos anos atrás.

Nota História

Em Março de 1208, o papa Inocêncio III convocou uma cruzada contra uma seita de cristãos do Languedoc. Hoje em dia, seus membros são geralmente conhecidos como cátaros. Eles chamavam a si mesmos de bons chrétiens; Bernard de Clairvaux os chamava de albigenses, e os registos inquisitoriais se referem a eles como heretici. O objectivo do papa Inocêncio era expulsar os cátaros da região do Midi e restaurar a autoridade religiosa da Igreja Católica. Barões franceses do norte que abraçaram sua cruzada viam nela uma oportunidade de obter terras, riqueza e vantagens comerciais subjugando a nobreza do sul, conhecida por sua feroz independência. Embora o princípio das cruzadas fosse um aspecto importante da vida cristã medieval desde o final do século XI, e em 1204, durante o cerco a Zara na quarta cruzada, os cruzados houvessem atacado irmãos cristãos, era a primeira vez que se pregava uma guerra santa contra cristãos e em solo europeu. A perseguição aos cátaros levou directamente à fundação da Inquisição (maldita) em 1233, sob os auspícios dos dominicanos, os frades negros. Quaisquer que tenham sido as motivações religiosas da Igreja Católica e de alguns dos líderes cruzados laicos, como Simon de Montfort, a cruzada albigense foi em última análise uma guerra de ocupação, e marcou uma guinada na história do que hoje é a França. Ela significou o fim da independência do sul e a destruição de muitas das suas tradições, ideais e modos de vida.

Assim, como o termo cátaro, a palavra cruzada não era usada nos documentos medievais. Estes se referiam ao exército como a Hoste, ou l’Ost em occitano. No entanto, como ambos os termos são hoje de uso corrente, empreguei-os algumas vezes para facilitar as referências.

Durante o período medieval, a langue d’Oc, origem do nome da região do Languedoc, era a língua falada na região do Midi, da Provença à Aquitânia. Era também a língua da Jerusalém cristã e das terras ocupadas pelos cruzados a partir de 1099, e era falada em algumas partes do norte da Espanha e do norte da Itália. A língua occitana tem um parentesco estreito com o provençal e o catalão. No século XIII, a langue d’oil precursora do francês moderno, era falada nas regiões setentrionais do que é hoje a França. Durante as invasões do sul pelo norte, a partir de 1209, os barões franceses impuseram a sua língua à região que conquistaram. A partir de meados do século XX, houve um ressurgimento da língua occitana, conduzido por escritores, poetas e historiadores como René Nelli, Jean Duvernoy, Déodat Roché, Michel Roquebert, Anne Brenon, Claude Marti e outros. Na data da redacção deste livro, existe uma escola bilíngue occitano/francês em La Cité, no coração da cidade medieval de Carcassonne, e a grafia occitana de cidades e regiões figura ao lado da grafia francesa nas placas rodoviárias.

Em Labirinto, para distinguir entre os habitantes do Pays d’Oc e os invasores franceses, usei occitano ou francês conforme o caso. O resultado é que alguns nomes e lugares aparecem tanto em francês quanto em occitano, por exemplo, Carcassonne e Carcassona, Toulouse e Tolosa, Béziers e Besièrs. Inevitavelmente, há diferenças entre a grafia occitana medieval e o uso contemporâneo. Para manter a coerência, na maior parte das vezes usei como guia o dicionário occitano-francês de André Lagarde, La Planqueta». In Kate Mosse, Labirinto, Editora Suma de Letras, 2006, ISBN 978-857-302-768-6.

Cortesia de ESumafrLetras/JDACT

JDACT, Kate Mosse, Literatura, Cátaros, Languedoc,

quarta-feira, 18 de setembro de 2019

O Labirinto Perdido. Kate Mosse. «Chama pela última vez. É a voz de um amigo. Não de alguém que lhe quer mal. Alice se esforça para abrir os olhos, sabendo que, se conseguisse ver, entenderia. Não consegue. Não completamente»

Cortesia de wikipedia e jdact

Pic de Soularac. Montes Sabarthés
(…) Um pilar de fogo em movimento, branco, dourado e vermelho, vergando-se em todas as direcções, mudando constantemente de forma. Por instinto, Alice ergue as mãos para proteger o rosto do calor intenso, embora não consiga senti-lo. Pode ver rostos presos nas chamas que dançam, bocas contorcidas em silenciosa agonia enquanto o fogo as acaricia e devora. Alice tenta parar. Precisa parar. Os seus pés estão feridos e sangrando, a sua longa saia está molhada, atrapalhando os seus movimentos, mas quem a persegue está logo atrás dela e algo além de seu controle a está conduzindo para o abraço fatal do fogo. Ela não tem outra escolha senão pular, para evitar ser consumida pelas chamas. Lança-se no ar em espiral como uma coluna de fumaça, flutuando bem alto acima dos amarelos e laranjas. O vento parece sustentá-la, liberando-a da terra. Alguém está chamando o seu nome, uma voz de mulher, embora a pronúncia seja estranha. Alaïs. Ela está segura. Livre.
Então sente a conhecida pressão de dedos frios nos seus tornozelos, prendendo-a ao chão. Não, não são dedos, são correntes. Alice então percebe que está segurando alguma coisa nas mãos, um livro, fechado por tiras de couro. Entende que é aquilo que ele quer. Que eles querem. Ê a perda desse livro que os deixa zangados. Se ao menos ela conseguisse falar, talvez pudesse fazer um acordo. Mas sua cabeça está vazia de palavras, e a sua boca é incapaz de falar. Ela debate-se, chuta tentando escapar, mas está presa. A pressão inflexível nas suas pernas é forte demais. À medida que é arrastada de volta para o fogo, ela começa a gritar, mas tudo é silêncio. Ela grita de novo, sentindo a voz lutar bem dentro de si para ser ouvida. Dessa vez, o som sai num jacto. Alice sente o mundo real voltar a toda velocidade. Som, luz, cheiro, o gosto metálico do sangue na sua boca. Até que, por uma fracção de segundo, ela pára, subitamente, envolta por um frio translúcido. Não é o frio conhecido da caverna, mas algo diferente, intenso e brilhante. Dentro dele, Alice consegue distinguir com dificuldade o turvo contorno de um rosto, bonito, indistinto. A mesma voz torna a chamar seu nome.
Alaïs.
Chama pela última vez. É a voz de um amigo. Não de alguém que lhe quer mal. Alice se esforça para abrir os olhos, sabendo que, se conseguisse ver, entenderia. Não consegue. Não completamente.
O sonho começa a se dissipar, libertando-a. Hora de acordar. Preciso acordar. Então ouve outra voz na sua cabeça, diferente da primeira. A sensação retorna aos seus braços e pernas, os seus joelhos esfolados ardendo e a sua pele arranhada e dolorida no ponto onde ela caiu. Pode sentir alguém segurar o seu ombro com força, sacudindo-a de volta à vida. Alice! Alice, acorde!

A Cité na Colina. Carcassone. 1209
Alaïs acordou sobressaltada, arregalando os olhos. O medo pulava no seu peito como um passarinho preso numa rede que luta para se libertar. Ela apertou as costelas com as mãos para sossegar o coração disparado. Por um instante, não ficou nem dormindo nem acordada, como se alguma parte dela mesma houvesse sido deixada para trás no sonho. Sentiu que flutuava, e olhava para si mesma de uma grande altura, como as gárgulas de pedra que faziam caretas para os passantes do telhado da catedral de Sant-Nasari. O quarto tornou a entrar em foco. Ela estava sã e salva na sua própria cama, no Château Comtal. Gradualmente, os seus olhos foram-se acostumando ao escuro. Estava a salvo das pessoas magras, de olhos negros que a assombravam à noite, seus dedos afiados arranhando-a e puxando-a. Elas não podem alcançar-me agora. A linguagem esculpida nas pedras, mais imagens do que palavras, que nada significava para ela, tudo se dissolveu como colunas de fumaça no ar outonal. O fogo também se tinha apagado, deixando apenas uma lembrança na sua mente. Uma premonição? Ou apenas um pesadelo?
Ela não tinha como saber. Tinha medo de saber. Alaïs estendeu a mão para as cortinas penduradas ao redor da cama, como se ao tocar algo concreto ela própria fosse se sentir menos transparente e abstrata. O tecido surrado, repleto da poeira e dos cheiros conhecidos do castelo, reconfortou-a com a aspereza sob seus dedos». In Kate Mosse, O Labirinto Perdido, Labyrinth, 2005, Publicações dom Quixote, 2006, ISBN 978-972-202-969-8.
                                                                              
Cortesia de PdomQuixote/JDACT

quinta-feira, 20 de dezembro de 2018

O Labirinto Perdido. Kate Mosse. «O instante do impacto nunca chega. Os ossos não se partem nas pedras e sílices cinzentos. Em vez disso, Alice cai no chão correndo, e segue aos tropeços por um caminho íngreme»

Cortesia de wikipedia e jdact

Chartres. Norte da França
«(…) Os quatro ajudantes mais graduados deixam as suas posições e se movem para junto da Sacerdotisa. A sua cabeça é inclinada para trás, com delicadeza, e um líquido espesso e doce escorre por entre os seus lábios. É o que esperava, e ele não resiste. Conforme o calor se espalha pelo seu corpo, ele levanta os braços e os seus companheiros ajeitam um manto dourado sobre os seus ombros. Aquelas pessoas estão acostumadas com o ritual, mas mesmo assim ele pode sentir o nervosismo. De repente, ele sente algo como uma tira de ferro em volta do pescoço, apertando a sua traqueia. Suas mãos voam para a própria garganta enquanto ele luta para respirar. Tenta gritar, mas as palavras não vêm. A nota aguda e cortante do sino começa outra vez a ressoar, constante e persistente, submergindo-o. Uma onda de náusea percorre o seu corpo. Ele pensa que vai desmaiar e agarra o objecto na sua mão em busca de conforto, com tanta força que as suas unhas cortam a pele macia da palma da sua mão. A dor intensa o ajuda a não cair. Agora ele entende que as mãos nos seus ombros não são reconfortantes. Não o estão amparando, mas sim segurando-o. Outra onda de náusea o 13 submerge e a pedra parece mover-se e escorregar sob o peso do seu corpo.
Seus olhos estão embaçados e ele não consegue focalizar nada, mas pode ver que a Sacerdotisa está segurando uma faca, embora não tenha ideia de como a lâmina prateada foi parar na sua mão. Tenta se levantar, mas a droga é forte demais e já lhe tirou as forças. Ele não consegue mais controlar os braços e pernas. Non!, tenta gritar, mas é tarde demais. De início, pensa ter levado um soco entre os ombros, só isso. Então uma dor difusa começa a espalhar-se pelo seu corpo. Algo morno e macio escorre lentamente por suas costas. Sem aviso, as mãos o soltam e ele cai para a frente, desabando como uma boneca de pano enquanto o chão parece erguer-se e vir ao seu encontro. Não sente dor quando a sua cabeça bate no chão, cujo contacto na sua pele parece de alguma forma fresco e agradável. Todo o barulho, toda a confusão e medo estão indo embora. As uas pálpebras estremecem e se fecham. Ele não tem mais consciência de nada a não ser da voz dela, que parece vir de muito longe.
Une leçon. Pour tous, ela parece dizer, embora isso não faça sentido. Em seus últimos e entrecortados instantes de consciência, o homem acusado de revelar segredos, condenado por ter falado quando deveria ter ficado calado, segura o cobiçado objecto com força na mão até a sua ligação à vida cessar e o pequeno disco cinza, do tamanho de uma moeda, rolar para o chão. Numa das faces do disco estão inscritas as letras NV. Na outra está gravado um labirinto.

Pic de Soularac. Montes Sabarthés
Por um instante, tudo é silêncio. Então a escuridão se dissolve. Alice não está mais na caverna. Está flutuando num mundo branco, sem gravidade, transparente, pacífico e silencioso. Está livre. Segura. Alice tem a sensação de deslizar para fora do tempo, como se estivesse caindo de uma dimensão para outra. A linha entre passado e presente agora desaparece nesse lugar onde não existe tempo nem espaço. Então, como o alçapão de um cadafalso, Alice sente um súbito puxão, uma queda, e começa a despencar pelo céu aberto, caindo, caindo em direcção à encosta coberta de florestas da montanha. O ar frio silva nos seus ouvidos enquanto ela mergulha, cada vez mais depressa e com mais força, rumo ao chão. O instante do impacto nunca chega. Os ossos não se partem nas pedras e sílices cinzentos. Em vez disso, Alice cai no chão correndo, e segue aos tropeços por um caminho íngreme e irregular no meio da floresta, entre duas colunas de árvores altas. Densas, imponentes, elas se erguem acima dela tornando impossível ver o que há atrás. Rápido demais.
Alice agarra-se aos galhos como se eles pudessem reduzir a velocidade da sua queda, impedir esse voo de cabeça rumo a um lugar desconhecido, mas as suas mãos passam directo pela vegetação como se ela fosse um fantasma ou espírito. As uas mãos arrancam tufos de pequenas folhas, como cabelos numa escova. Ela não pode senti-los, mas a seiva tinge de verde as pontas dos seus dedos. Ela os leva até ao rosto para inalar o seu aroma delicado, acre. Tampouco consegue sentir o seu cheiro. Alice sente uma dor na lateral do abdómen, mas não consegue parar porque há algo atrás dela, se aproximando cada vez mais. O caminho continua muito íngreme sob os seus pés. Pela textura, tem consciência de que raízes secas e pedras substituíram a terra macia, o musgo e os galhos no caminho. Mesmo assim, não há ruído. Nenhum pássaro canta, nenhuma voz chama, não se ouve nada a não ser a sua respiração irregular. O caminho arqueia e se dobra para um lado e para o outro, lançando-a para lá e para cá, até que ela faz uma curva e vê o silencioso muro de chamas que impede a passagem logo adiante». In Kate Mosse, O Labirinto Perdido, Labyrinth, 2005, Publicações dom Quixote, 2006, ISBN 978-972-202-969-8.
                                                                              
Cortesia de PdomQuixote/JDACT

O Labirinto Perdido. Kate Mosse. «Graças aos documentos que recebeu, ele decorou a disposição do aposento, e enquanto caminha em direcção ao sepulcro no seu centro pode sentir os olhos de todos nas suas costas»

Cortesia de wikipedia e jdact

Chartres. Norte da França
«(…) Mantendo-se no mesmo passo, as três figuras se adiantam devagar. Ele ensaiou isso e sabe o que esperar, sabe o que se espera dele, embora sinta os próprios pés um pouco instáveis. Faz calor ali dentro em comparação com o corredor, e está escuro. A única luz vem das velas arrumadas nas alcovas e sobre o altar, projectando sombras que dançam pelo chão. A adrenalina corre pelo seu corpo, embora ele se sinta estranhamente alheio aos acontecimentos. A porta fechando-se atrás dele o faz sobressaltar. Os quatro ajudantes mais graduados estão em pé marcando norte, sul, leste e oeste do aposento. Ele quer desesperadamente levantar os olhos e ver melhor, mas força-se a manter a cabeça baixa e o rosto escondido, como foi instruído a fazer. Pode sentir as duas fileiras de iniciados alinhadas nas laterais mais compridas da câmara 12 rectangular, seis de cada lado. Pode sentir o calor de seus corpos e ouvir o subir e descer da sua respiração, mesmo que ninguém se mova nem diga nada.
Graças aos documentos que recebeu, ele decorou a disposição do aposento, e enquanto caminha em direcção ao sepulcro no seu centro pode sentir os olhos de todos nas suas costas. Pergunta-se se conhece algum deles. Colegas de profissão, mulheres de outros homens, qualquer um pode ser membro. Não pode evitar que um ténue sorriso lhe suba aos lábios enquanto se permite fantasiar, por um instante, sobre a diferença que fará o facto de ele ser aceite na sociedade. É trazido bruscamente de volta ao presente quando tropeça e quase cai por cima da pedra que serve de genuflexório na base do sepulcro. A câmara é menor do que a planta o fizera pensar, mais confinada e claustrofóbica. Ele esperava que a distância entre a porta e a pedra fosse maior.
Quando ele se ajoelha sobre a pedra, ouve-se um arquejo vindo de alguém perto dele, e ele pergunta o motivo. O seu coração começa a bater mais depressa e, quando baixa os olhos, ele vê que as articulações dos seus dedos estão brancas. Envergonhado, junta as mãos, antes de se lembrar e tornar a deixar os braços caírem ao lado do corpo, onde devem ficar. Há uma leve depressão no centro da pedra, que parece dura e fria sob seus joelhos através do fino tecido da túnica. Ele mexe o corpo de leve, tentando encontrar uma posição mais confortável. O desconforto lhe dá algo em que se concentrar, e ele se sente grato por isso. Ainda está tonto e tem dificuldade para se concentrar ou se lembrar da ordem em que as coisas devem acontecer, muito embora a tenha repassado vezes sem conta na mente.
Um sino começa a soar dentro da câmara, uma nota aguda, cortante; um cântico baixo a acompanha, de início ténue, mas rapidamente mais alto à medida que vai ganhando novas vozes. Fragmentos de palavras e expressões reverberam por sua cabeça: montanhas; noblesa, nobreza; libres, livros; graal... A Sacerdotisa desce do grande altar e caminha pela câmara. Ele mal pode escutar o arrastar dos seus pés e imagina como sua túnica dourada deve cintilar e ondular à luz vacilante das velas. Esse é o momento pelo qual ele estava esperando. Je suis prêt, repete entre os dentes. Dessa vez, com convicção.
A Sacerdotisa se imobiliza diante dele. Ele pode sentir o seu perfume, subtil e leve sob o aroma pungente do incenso. Solta um arquejo quando ela se inclina e segura a sua mão. Os dedos dela estão frescos e as unhas bem-feitas, e um espasmo de eletricidade, quase desejo, sobe pelo seu braço quando ela aperta algo pequeno e redondo na palma da sua mão, e em seguida faz seus dedos fecharem-se sobre o objecto. Nesse momento, mais do que tudo que jamais quis na vida, ele quer ver o rosto dela. Mas mantém os olhos voltados para o chão, como lhe foi ensinado». In Kate Mosse, O Labirinto Perdido, Labyrinth, 2005, Publicações dom Quixote, 2006, ISBN 978-972-202-969-8.
                                                                              
Cortesia de PdomQuixote/JDACT

O Labirinto Perdido. Kate Mosse. «O homem faz uma pausa e estende a mão para pegar os óculos. Seus olhos estão anuviados de lembranças, mas o guignolet é forte e doce, e reacende a sua energia»

Cortesia de wikipedia e jdact

Los Seres. Sudoeste de França
«(…) Vi o verde da Primavera dar lugar ao dourado do Verão, o cobre do Outono dar lugar ao branco do Inverno, enquanto eu, sentado, esperava a luz se esvanecer. Muitas e muitas vezes perguntei a mim mesmo: por quê? Se eu soubesse como seria viver em tamanha solidão, suportar, como única testemunha, o ciclo interminável de nascimento, vida e morte, o que eu teria feito? Alais, o fardo da minha solidão tornou-se prolongado demais para que eu o possa suportar. Eu sobrevivi esta longa vida com um vazio no coração, um vazio que, ao longo dos anos, não parou de aumentar até se tornar maior do que o meu próprio coração. Eu lutei para manter as minhas promessas. Uma delas foi cumprida, a outra não. Pelo menos até agora. Já faz algum tempo que o sinto perto. Nossa hora está quase chegando de novo. Tudo aponta para isso. Logo a caverna será aberta. Sinto a verdade disso à minha volta. E o livro, que durante tanto tempo repousou em segurança, também será encontrado.
O homem faz uma pausa e estende a mão para pegar os óculos. Seus olhos estão anuviados de lembranças, mas o guignolet é forte e doce, e reacende a sua energia. Eu a encontrei. Enfim. E me pergunto, se puser o livro nas suas mãos, será que ela o reconhecerá? Estará a sua lembrança escrita no sangue e nos ossos dela? Será que ela se lembrará de como a capa cintila e muda de cor? Se desatar a sua tira e o abrir, tomando cuidado para não danificar o velino seco e quebradiço, será que se lembrará das palavras ecoando pelos séculos passados? Rezo para que, à medida que os meus longos dias se aproximam do fim, eu tenha enfim a oportunidade de consertar o que um dia estraguei, para que eu enfim conheça a verdade. A verdade me libertará. O homem se recosta na cadeira e estende diante de si, sobre a mesa, as mãos cobertas pelas manchas marrons da idade. A oportunidade de saber, tanto tempo depois, o que aconteceu no final. Isso é tudo que ele quer.

Chartres. Norte da França
Mais tarde, nesse mesmo dia, quase mil quilómetros para o norte, outro homem está de pé num corredor mal iluminado sob as ruas de Chartres, esperando a cerimônia começar. As palmas de suas mãos estão suadas, sua boca está seca e ele tem consciência de cada nervo, cada músculo do seu corpo, até mesmo do pulsar das veias nas suas têmporas. Sente-se pouco à vontade, aéreo, embora não saiba dizer se isso se deve ao nervosismo e à expectativa ou aos efeitos do vinho. A túnica branca pesa nos seus ombros, um peso pouco familiar, e as cordas feitas de cânhamo torcido repousam sem naturalidade sobre os seus quadris ossudos. Ele olha de relance para as duas figuras silenciosas de pé ao seu lado, mas os capuzes escondem-lhes o rosto. Ele não sabe dizer se estão tão ansiosos quanto ele ou se já passaram por esse mesmo ritual muitas vezes antes. Estão vestidos da mesma maneira que ele, mas as suas túnicas são douradas em vez de brancas, e eles estão calçados. Os seus próprios pés estão descalços, e as pedras do piso são frias.
Bem lá em cima, acima da rede escondida de túneis, os sinos da grande catedral gótica começam a badalar. Ele sente os homens ao seu lado se retesarem. E o sinal pelo qual estavam esperando. Imediatamente, ele abaixa a cabeça e tenta se concentrar no momento presente. Je suis prêt, murmura, mais para reconfortar a si mesmo do que em uma afirmação. Nenhum dos seus dois companheiros esboça qualquer reacção. Quando a última reverberação dos sinos se transforma novamente em silêncio, o acólito à sua esquerda dá um passo à frente e, com uma pedra parcialmente escondida na palma da mão, desfere cinco batidas na porta maciça. Lá de dentro vem a resposta. Dintrar. Entrar. O homem pensa por um instante que reconhece a voz da mulher, mas não tem tempo de adivinhar de onde nem de quando, porque a porta já está abrindo para revelar a câmara que ele esperou tanto tempo para ver». In Kate Mosse, O Labirinto Perdido, Labyrinth, 2005, Publicações dom Quixote, 2006, ISBN 978-972-202-969-8.

Cortesia de PdomQuixote/JDACT

segunda-feira, 29 de maio de 2017

O Labirinto Perdido. Kate Mosse. «Alice vira-se, alarmada, deixando cair o isqueiro. A caverna mergulha na escuridão. Ela tenta correr, mas fica desorientada no escuro»

cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Eles não lhe podem fazer mal. Determinada a não se deixar dominar pelo medo, Alice se força a se agachar, tomando cuidado para não desarrumar mais nada. Corre os olhos pela sepultura. Uma adaga repousa entre os corpos, o fio cego devido aos anos, assim como alguns fragmentos de tecido. Ao lado da adaga há uma bolsa de couro fechada por uma tira embutida, grande o suficiente para conter uma pequena caixa ou um livro. Alice franze o cenho. Tem certeza de ter visto algo assim antes, mas a lembrança não vem. O objecto redondo e branco encaixado entre os dedos que parecem garras do esqueleto menor é tão pequeno que Alice quase não o vê. Sem parar para pensar se é a coisa certa a fazer-se, tira rapidamente a sua pinça do bolso. Abaixa-se e, com cuidado, retira o objecto, em seguida ergue-o em direcção à chama, soprando delicadamente a poeira para ver melhor.
E um pequeno anel de pedra, simples e sem atractivos, com uma faceta redonda e lisa. O anel também é estranhamente familiar. Alice olha mais de perto. Há um desenho gravado no interior. No início, ela pensa que é algum tipo de selo. Então, com um choque, percebe. Levanta os olhos para as marcas na parede dos fundos da câmara, depois torna a olhar para o anel. Os desenhos são idênticos. Alice não é religiosa. Não acredita nem no céu nem no inferno, nem em Deus nem no diabo, nem nas criaturas que dizem assombrar aquelas montanhas. Mas, pela primeira vez na vida, sente-se dominada pela sensação de estar na presença de algo sobrenatural, algo que ultrapassa a sua experiência e a sua compreensão. Pode sentir a maldade esgueirando-se sob a sua pele, seu couro cabeludo, as solas dos seus pés.
Ela perde a coragem. A caverna parece subitamente fria. O medo aperta a sua garganta, congelando o ar nos seus pulmões. Alice põe-se de pé atabalhoadamente. Não deveria estar ali, naquele lugar ancestral. Agora está desesperada para sair da câmara, para se distanciar das provas de violência e do cheiro da morte, para estar novamente na luz do sol, segura e brilhante. Mas é tarde demais. Acima ou atrás de si, não consegue distinguir onde, ela ouve passos. O som ecoa pelo espaço confinado, ricocheteando nos rochedos e nas pedras. Vem vindo alguém.
Alice vira-se, alarmada, deixando cair o isqueiro. A caverna mergulha na escuridão. Ela tenta correr, mas fica desorientada no escuro e não consegue achar a saída. Tropeça. As suas pernas parecem incapazes de sustentá-la. Ela cai. O anel é lançado de volta para junto da pilha de ossos, onde é o seu lugar.

Los Seres. Sudoeste de França
Alguns quilómetros em linha recta a leste dali, num vilarejo perdido nos Montes Sabarthès, um homem alto e magro vestido com um casaco claro está sentado sozinho diante de uma mesa de madeira escura e encerada. O tecto onde ele está é baixo, e o chão feito de grandes quadrados de cerâmica da cor da terra vermelha da montanha, que mantêm o aposento fresco apesar do calor lá fora. A única janela está fechada, tornando o lugar escuro excepto por uma pequenina luz lançada por uma pequena lamparina a óleo, em cima da mesa. Ao lado da lamparina há um copo de vidro cheio quase até à borda com um líquido vermelho. Espalhadas pela mesa há várias folhas de um papel grosso cor de creme, cada uma delas inteiramente coberta de linhas em tinta preta com uma caligrafia perfeita. O quarto está silencioso, excepto pelo arranhar e deslizar da caneta e pelo tilintar das pedras de gelo nas laterais do copo quando ele bebe. Paira no ar um leve cheiro de álcool e frutas. As batidas do relógio marcam a passagem do tempo enquanto ele pára, pensa, e torna a escrever. O que deixamos para trás nesta vida é a lembrança de quem fomos e do que fizemos. Uma marca, não mais do que isso. Eu aprendi muito. Tornei-me sábio. Mas será que fiz alguma diferença? Não saberia dizer. Pas a pas, se va luènh». In Kate Mosse, O Labirinto Perdido, Labyrinth, 2005, Publicações dom Quixote, 2006, ISBN 978-972-202-969-8.

Cortesia de PdomQuixote/JDACT

O Labirinto Perdido. Kate Mosse. «De repente, ela não quer continuar. Não sente nenhuma vontade de estar ali»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Sentindo-se nervosa e ligeiramente culpada, Alice enrola a fivela num lenço e a enfia no bolso, em seguida avança com cautela. A luz da chama é fraca, mas ilumina o caminho imediatamente à sua frente, lançando sombras sobre as paredes cinza e ásperas. À medida que avança mais, ela vai sentindo o ar frio se enroscar pelas suas pernas e braços nus como um gato. Está caminhando sobre uma rampa. Pode sentir o chão descendo sob seus pés, irregular e arenoso. O atrito das pedras e do cascalho ressoa alto naquele espaço confinado, silencioso. Ela tem consciência de que, quanto mais longe e mais fundo avança, mais a luz do dia vai ficando pálida atrás de si. De repente, ela não quer continuar. Não sente nenhuma vontade de estar ali. Mas é como se houvesse algo irresistível naquilo, algo a puxá-la para as entranhas profundas da montanha.
Dez metros mais adiante, o túnel termina. Alice vê-se na soleira de uma câmara fechada como uma caverna. Ela está em pé sobre uma plataforma de pedra natural. Um ou dois degraus rasos e largos bem na sua frente levam à área principal onde o chão foi nivelado até ficar plano e liso. A caverna tem cerca de dez metros de comprimento e talvez cinco de largura, e foi obviamente construída por mãos humanas, e não só pela natureza. O tecto é baixo e abobadado, como o de uma cripta.
Alice olha fixamente, segurando mais alto a chama tremeluzente e incomodada por uma curiosa familiaridade que a vai dominando e que ela não consegue explicar. Está prestes a descer os degraus quando percebe letras gravadas na pedra do degrau de cima. Inclina-se e tenta ler o que está escrito. Apenas as três primeiras palavras e a última letra, N, ou talvez H, estão legíveis. As outras estão carcomidas ou lascadas. Alice limpa a poeira com os dedos e recita as letras em voz alta. Naquele silêncio, o eco de sua voz parece de certa forma hostil e ameaçador. P-A-S A P-A-S... Pas a pas. Passo a passo? Passo a passo o quê? Uma vaga lembrança percorre a superfície de sua mente consciente, como uma canção há muito esquecida. E logo desaparece. Pas a pas, murmura ela dessa vez, mas aquilo não significa nada. Uma prece? Um aviso? Sem saber o que vem depois, não faz sentido.
Agora nervosa, ela endireita-se e desce os degraus um a um. Curiosidade e um mau pressentimento brigam no seu íntimo, e ela sente a pele dos braços finos e descobertos arrepiarem-se, embora não saiba se é por ansiedade ou por causa do frio da caverna. Alice levanta a chama bem alto para iluminar o caminho, tomando cuidado para não tropeçar nem tirar nada do lugar. No nível inferior, pára. Respira fundo e dá mais um passo rumo à escuridão de ébano. Mal consegue distinguir a parede da câmara. Aquela distância, é difícil ter certeza se não se trata apenas de uma ilusão criada pela luz ou de uma sombra lançada pela chama, mas parece haver um desenho circular de linhas e semicírculos pintados ou esculpidos na pedra. No chão em frente ao desenho está uma mesa de pedra de pouco mais de um metro de altura, como um altar.
Mantendo o olhar fixo no símbolo na parede para se guiar, Alice avança mais. Agora pode ver o desenho com mais clareza. Parece algum tipo de labirinto, embora a sua memória lhe diga que há algo errado com ele. Não é um labirinto de verdade. As linhas não conduzem ao centro como deveriam. O desenho está errado. Alice não consegue explicar por que tem tanta certeza disso, só sabe que está certa. Mantendo os olhos cravados no labirinto, vai chegando cada vez mais perto. O seu pé bate em algo duro no chão. Ouvem-se um baque leve e oco e o barulho de algo rolando, como se um objecto houvesse sido deslocado. Alice olha para baixo.
As suas pernas ficam bambas. A pálida chama na sua mão estremece. Chocada, ela não consegue respirar. Está de pé na beira de uma cova rasa. Uma leve depressão no solo, não mais do que isso. Nela há dois esqueletos do que um dia foram seres humanos, os ossos totalmente limpos pelo tempo. Os buracos vazios dos olhos de um dos crânios a encaram. O outro crânio, deslocado por seu pé, está virado de lado como alguém que desvia o olhar. Os corpos estão dispostos um ao lado do outro, de frente para o altar, como estátuas numa tumba. Estão simétricos e perfeitamente alinhados, mas não há nada de plácido naquele túmulo. Nenhuma sensação de paz. Os ossos malares de um dos crânios estão esmagados, amassados para dentro como uma máscara de papier maché. Várias costelas do outro esqueleto estão partidas e apontam para fora de modo estranho, como os galhos secos de uma árvore morta». In Kate Mosse, O Labirinto Perdido, Labyrinth, 2005, Publicações dom Quixote, 2006, ISBN 978-972-202-969-8.

Cortesia de PdomQuixote/JDACT

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

O Labirinto Perdido. Kate Mosse. «Alice espia para dentro da escuridão. A abertura não tem mais de um metro e meio de altura por cerca de um metro de largura, e suas bordas são irregulares e ásperas»

jdact

4 de Julho de 2005. Pic de Soularac. Montes Sabarthès. SW da França
«(…) Alice conhece os perigos de tirar conclusões apressadas ou de ser seduzida por primeiras impressões, mas não consegue evitar pensar no dono daquela fivela, morto há tanto tempo, e que pode ter andado por aqueles mesmos caminhos. Um desconhecido cuja história ela ainda precisa descobrir. A conexão é tão forte e Alice está tão entretida que não percebe a pedra se mexendo em sua base. Então alguma coisa, algum sexto sentido, a faz olhar para cima. Por uma fração de segundo, o mundo parece estar suspenso, fora do espaço, fora do tempo. Ela fica inteiramente hipnotizada pelo pedaço de rocha antiquíssimo que balança, se inclina, e então, graciosamente, começa a cair em sua direção. No último instante, a luz muda. O feitiço se rompe. Alice se joga para longe, meio se arrastando, meio escorregando de lado, bem a tempo de evitar ser esmagada. A pedra bate no chão com um baque surdo, levantando uma nuvem de pó marrom claro, depois sai rolando, como em câmera lenta, até parar mais abaixo na montanha. Alice se agarra desesperadamente aos arbustos e à vegetação rasteira para evitar escorregar mais. Por um instante, fica estendida no chão, tonta e desorientada. Quando percebe que só não foi esmagada por um triz, seu corpo congela. Foi por pouco, pensa. Respira fundo. Espera o mundo parar de girar. Aos poucos, o latejar em sua cabeça diminui. O enjoo passa e tudo começa a voltar ao normal, o suficiente para ela poder se sentar e avaliar a situação. Seus joelhos estão esfolados e riscados de sangue, e ela bateu com o pulso ao cair de mau jeito, ainda segurando a fivela na mão para protegê-la, mas no geral escapou ilesa a não ser por alguns cortes e hematomas. Não me machuquei. Levanta-se e espana a poeira do corpo, sentindo-se uma completa idiota. Não consegue acreditar que cometeu um erro tão elementar quanto não escorar a pedra. Então Alice lança um olhar para a sede da escavação lá em baixo. Fica espantada, e aliviada, ao constatar que ninguém no acampamento parecer ter visto nem ouvido nada. Levanta a mão e está prestes a gritar para atrair a atenção de alguém quando percebe uma estreita abertura visível no flanco da montanha onde antes estava a pedra. Como uma porta escavada na rocha. Dizem que essas montanhas são coalhadas de passagens e cavernas escondidas, de modo que ela não fica surpresa. Porém, pensa Alice, de alguma forma ela sabia que a porta estava ali, embora não seja possível vê-la do exterior. Ela sabia. Na verdade, eu adivinhei, diz a si mesma. Ela hesita. Alice sabe que deveria chamar alguém para entrar com ela. É estúpido, e talvez até perigoso, entrar sozinha sem nenhum tipo de apoio. Ela sabe todas as coisas que podem dar errado. Mas, de qualquer modo, não deveria estar trabalhando ali em cima sozinha. Shelagh não sabe. E, além disso, algo a está atraindo lá para dentro. Parece pessoal. Aquela descoberta é sua. Alice diz a si mesma que não faz sentido incomodar os outros, aumentar suas expectativas sem motivo. Se houver alguma coisa que valha a pena investigar, então ela contará a alguém. Não vai fazer nada. Quer apenas olhar. Vai levar só um minuto. Ela torna a subir. Há uma profunda depressão no solo na entrada da caverna, onde antes ficava a pedra. A terra húmida fervilha com a frenética actividade de minhocas e besouros subitamente expostos à luz e ao calor depois de tanto tempo. Seu boné está no chão no mesmo lugar onde caiu. Sua colher de pedreiro também está lá, exactamente onde ela a deixou. Alice espia para dentro da escuridão. A abertura não tem mais de um metro e meio de altura por cerca de um metro de largura, e suas bordas são irregulares e ásperas. Parece uma abertura natural, não algo feito pelo homem, mas quando ela passa os dedos pela rocha, para cima e para baixo, encontra trechos curiosamente lisos nos pontos onde a pedra repousava. Lentamente, seus olhos se acostumam à penumbra. O preto aveludado cede lugar a um cinza escuro, e ela vê que está diante de um túnel comprido e estreito. Sente os cabelos finos se eriçarem na nuca, como a avisá-la de que na escuridão há algo à espreita que seria melhor deixar em paz. Mas é só uma crença infantil, e ela não se permite pensar nisso. Alice não acredita em fantasmas nem em premonições. Apertando a fivela na mão com força, como um talismã, ela respira fundo e dá um passo para dentro da passagem. No mesmo instante, o cheiro de um ar subterrâneo há muito escondido a envolve, enchendo sua boca, sua garganta, seus pulmões. O ambiente é fresco e húmido, sem os gases secos, venenosos de uma caverna lacrada com os quais lhe avisaram para tomar cuidado, então ela conclui que deve existir alguma fonte de ar puro. Porém, para garantir, vasculha os bolsos dos shorts até encontrar seu isqueiro. Acende-o e ergue-o em direcção ao espaço escuro, confirmando que há oxigénio. A chama é sacudida por uma corrente de ar, mas não se apaga». In Kate Mosse, O Labirinto Perdido, Labyrinth, 2005, Publicações dom Quixote, 2006, ISBN 978-972-202-969-8.

Cortesia de PdomQuixote/JDACT

terça-feira, 25 de outubro de 2016

O Labirinto Perdido. Kate Mosse. «Alice a esfrega com os dedos e sorri quando os detalhes de prata e cobre começam a se revelar debaixo da sujeira. À primeira vista, também parece ser medieval…»

jdact

4 de Julho de 2005. Pic de Soularac. Montes Sabarthès. SW da França
«(…) É a primeira vez que Alice visita os Pirenéus, embora se sinta praticamente em casa ali. Já lhe disseram que, no Inverno, os cumes pontiagudos dos Montes Sabarthès ficam cobertos de neve. Na Primavera, delicadas flores cor-de-rosa, lilases e brancas surgem de seus esconderijos nos enormes rochedos. No início do Verão, os pastos ficam verdes e salpicados de botões de ouro. Agora, porém, o sol achata a Terra, subjugando-a, transformando os verdes em marrom. É um lugar bonito, pensa ela, mas de certa forma inóspito. Um lugar de segredos, que já viu coisas demais e escondeu coisas demais para poder estar em paz consigo mesmo. Na sede do acampamento, mais abaixo na encosta, Alice pode ver os colegas em pé sob o grande toldo de lona. Com esforço, consegue distinguir Shelagh na roupa preta que a caracteriza. Fica surpresa que já tenham parado. E cedo demais para um intervalo, mas a verdade é que a equipa toda está meio desanimada. Cavar e raspar, catalogar e anotar, tudo isso é na maior parte do tempo um trabalho árduo e monótono, e até agora eles desenterraram poucas coisas que valham a pena a ponto de justificar seus esforços. Encontraram alguns fragmentos de antigos jarros e vasilhas da Alta Idade Média e uma ou duas pontas de lança do final do século XII ou início do XIII, mas certamente não acharam nenhum sinal do núcleo de povoamento paleolítico que é o foco da escavação. Alice sente-se tentada a descer para juntar-se aos amigos e colegas, e refazer seu curativo. O corte está ardendo, e suas batatas da perna estão doloridas de tanto ficar de cócoras. Os músculos de seus ombros estão tensos. Mas ela sabe que, se parar agora, perderá o pique. Se tudo der certo, sua sorte pode estar prestes a mudar. Mais cedo, ela reparou em alguma coisa cintilando debaixo de uma pedra grande, encostada na lateral da montanha, arrumada e posicionada como se houvesse sido posta ali pela mão de um gigante. Embora ainda não consiga ver que objecto é aquele, nem sequer determinar o seu tamanho, passou a manhã inteira cavando e acha que não vai demorar muito para conseguir alcançá-lo. Ela sabe que deveria chamar alguém. Ou pelo menos falar com Shelagh, sua melhor amiga, vice-directora da escavação. Alice não tem formação de arqueóloga; é só uma voluntária dedicando parte de suas férias de verão a alguma ocupação útil. Mas aquele é o seu último dia completo na escavação, e ela quer provar o seu valor. Se descer agora até à sede da escavação e admitir que pensa ter descoberto alguma coisa, todo mundo vai querer participar, e não vai ser mais a sua descoberta. Nos dias e semanas que estão por vir, Alice vai se lembrar desse instante. Vai lembrar-se da qualidade da luz, do gosto metálico de sangue e poeira em sua boca, e vai se perguntar como as coisas poderiam ter sido diferentes se ela tivesse resolvido descer, e não ficar. Se tivesse seguido as regras. Ela sorve a última gota de água da garrafa e a joga dentro da mochila. Durante uma ou duas horas depois disso, enquanto o sol vai ficando mais alto no céu e a temperatura vai subindo, Alice continua a trabalhar. Os únicos barulhos são o raspar do metal na pedra, o zumbido dos insectos e o ronco ocasional de um pequeno avião ao longe. Ela pode sentir gotas de suor brotando acima de seu lábio superior e entre seus seios, mas continua até que, finalmente, o vão debaixo da pedra fica grande o suficiente para ela poder pôr a mão lá dentro. Alice ajoelha-se no chão e encosta a face e o ombro na pedra para se apoiar. Então, com um pequeno estremecimento de ansiedade, insere os dedos bem no fundo da terra escura e cega. Percebe imediatamente que o seu palpite estava certo e que encontrou alguma coisa importante. O objecto tem uma textura lisa e escorregadia; parece feito de metal e não de pedra. Empunhando-o com firmeza e dizendo a si mesma para moderar as próprias expectativas, vai trazendo-o muito devagar até à luz. A terra parece estremecer, sem querer entregar seu tesouro. O cheiro forte e pungente de terra húmida invade o seu nariz e sua garganta, embora ela mal perceba. Já está perdida no passado, fascinada pelo pedaço de história que segura na palma das mãos. É uma fivela pesada e redonda, manchada de pontinhos pretos e verdes devido à idade e ao longo tempo debaixo da terra. Alice a esfrega com os dedos e sorri quando os detalhes de prata e cobre começam a se revelar debaixo da sujeira. À primeira vista, também parece ser medieval, o tipo de fivela usado para fechar um manto ou uma túnica. Ela já viu alguma coisa parecida antes». In Kate Mosse, O Labirinto Perdido, Labyrinth, 2005, Publicações dom Quixote, 2006, ISBN 978-972-202-969-8.

Cortesia de PdomQuixote/JDACT

O Labirinto Perdido. Kate Mosse. «Desconcentrada, Alice se levanta e estica as pernas esguias, levemente queimadas de sol. Vestindo uma calça, jeans cortada, uma camiseta branca justa e sem mangas e um boné»

jdact

Sinopse
«Uma história de coragem, destino e traição na França contemporânea e na medieval. Julho de 1209: na cidade francesa de Carcassonne, uma moça de 17 anos recebe do pai um misterioso livro, que ele diz conter o segredo do verdadeiro Graal. Embora Alais não consiga entender as estranhas palavras e símbolos escondidos naquelas páginas, sabe que seu destino é proteger o livro. Serão necessários enormes sacrifícios e uma fé inabalável para preservar o segredo do labirinto, um segredo que remonta a milhares de anos e aos desertos do antigo Egipto. Julho de 2005: durante uma escavação arqueológica nas montanhas ao redor de Carcassonne, Alice Tanner descobre dois esqueletos. Dentro da tumba na qual repousavam os antigos ossos, experimenta uma sensação de malignidade impressionante e percebe que, por mais impossível que pareça, de alguma forma, ela é capaz de entender as misteriosas palavras ancestrais gravadas nas pedras. Porém, é tarde demais, Alice acaba de desencadear uma aterrorizante sequência de acontecimentos incontroláveis, e agora seu destino está irremediavelmente ligado à sorte dos cátaros, oitocentos anos atrás. Em Março de 1208, o papa Inocêncio III convocou uma cruzada contra uma seita de cristãos do Languedoc. Hoje em dia, seus membros são geralmente conhecidos como cátaros. Eles chamavam a si mesmos de bons chrétiens; Bernard de Clairvaux os chamava de albigenses, e os registos inquisitoriais se referem a eles como heretici. O objectivo do papa Inocêncio era expulsar os cátaros da região do Midi e restaurar a autoridade religiosa da Igreja Católica. Barões franceses do norte que abraçaram sua cruzada viam nela uma oportunidade de obter terras, riqueza e vantagens comerciais subjugando a nobreza do sul, conhecida por sua feroz independência. Embora o princípio das cruzadas fosse um aspecto importante da vida cristã medieval desde o final do século XI, e em 1204, durante o cerco a Zara na quarta cruzada, os cruzados houvessem atacado irmãos cristãos, era a primeira vez que se pregava uma guerra santa contra cristãos e em solo europeu. A perseguição aos cátaros levou directamente à fundação da Inquisição (maldita) em 1233, sob os auspícios dos dominicanos, os frades negros. Quaisquer que tenham sido as motivações religiosas da Igreja Católica e de alguns dos líderes cruzados laicos, como Simon de Montfort, a cruzada albigense foi em última análise uma guerra de ocupação, e marcou uma guinada na história do que hoje é a França. Ela significou o fim da independência do sul e a destruição de muitas de suas tradições, ideais e modos de vida. Assim como o termo cátaro, a palavra cruzada não era usada nos documentos medievais. Estes se referiam ao exército como a Hoste, ou l’Ost em occitano. No entanto, como ambos os termos são hoje de uso corrente, empreguei-os algumas vezes para facilitar as referências. Durante o período medieval, a langue d’Oc, origem do nome da região do Languedoc, era a língua falada na região do Midi, da Provença à Aquitânia. Era também a língua da Jerusalém cristã e das terras ocupadas pelos cruzados a partir de 1099, e era falada em algumas partes do norte da Espanha e do norte da Itália. A língua occitana tem um parentesco estreito com o provençal e o catalão. No século XIII, a langue d’oil, precursora do francês moderno, era falada nas regiões setentrionais do que é hoje a França. Durante as invasões do sul pelo norte, a partir de 1209, os barões franceses impuseram a sua língua à região que conquistaram. A partir de meados do século XX, houve um ressurgimento da língua occitana, conduzido por escritores, poetas e historiadores como René Nelli, Jean Duvernoy, Déodat Roché, Michel Roquebert, Anne Brenon, Claude Marti e outros. Existe uma escola bilíngue occitano/francês em La Cité, no coração da cidade medieval de Carcassonne, e a grafia occitana de cidades e regiões figura ao lado da grafia francesa nas placas rodoviárias. Em Labirinto, para distinguir entre os habitantes do Pays d’Oc e os invasores franceses, usei occitano ou francês conforme o caso. O resultado é que alguns nomes e lugares aparecem tanto em francês quanto em occitano, por exemplo, Carcassonne e Carcassona, Toulouse e Tolosa, Béziers e Besièrs.

4 de Julho de 2005. Pic de Soularac. Montes Sabarthès. SW da França
Um único filete de sangue escorre pela parte interna muito pálida do braço dela, como uma costura vermelha num tecido branco. De início, Alice pensa que é só uma mosca e não liga. Numa escavação, os insectos são ossos do ofício, e por algum motivo há mais moscas no alto da montanha onde ela está trabalhando do que na escavação principal mais abaixo. Então uma gota de sangue pinga sobre a sua perna nua, explodindo como um fogo de artifício no céu em noite de ano-novo. Dessa vez ela olha e vê que o corte na parte interna de seu cotovelo abriu de novo. É uma ferida funda, que não quer sarar. Ela dá um suspiro e aperta mais contra a pele o curativo. Em seguida, como não há ninguém por perto para ver, lambe a mancha vermelha no próprio pulso. Fios de cabelo, claros como açúcar queimado, soltaram-se de baixo de seu boné. Ela os ajeita atrás das orelhas e enxuga a testa com o lenço, antes de apertar outra vez o rabo de cavalo na nuca. Desconcentrada, Alice se levanta e estica as pernas esguias, levemente queimadas de sol. Vestindo uma calça, jeans cortada, uma camiseta branca justa e sem mangas e um boné, ela mais parece uma adolescente. Antigamente importava-se com isso. Agora, à medida que vai ficando mais velha, entende as vantagens de parecer mais jovem do que de facto é. Os únicos toques de elegância são os seus delicados brincos de prata em forma de estrelas, que reluzem como paetês. Alice desenrosca a tampa de seu cantil. A água está morna, mas a sede é tanta que ela não liga e sorve longos goles. Lá em baixo, o calor forma uma névoa que cintila sobre o asfalto esburacado da estrada. Acima dela, o céu tem um azul infinito. As cigarras prosseguem o seu coro incessante, escondidas na sombra da erva seca». In Kate Mosse, O Labirinto Perdido, Labyrinth, 2005, Publicações dom Quixote, 2006, ISBN 978-972-202-969-8.

Cortesia de PdomQuixote/JDACT