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segunda-feira, 7 de setembro de 2026

O Homem de Constantinopla. José Rodrigues Santos. «De repente, como por encanto, ou talvez graças a um desconcertante passe de ilusionismo, os acontecimentos aceleram e tudo se precipita»


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«Nenhum ser humano esquece o dia em que o pai morreu. 

Dizem que é o momento em que nos tornamos adultos e o futuro nos é confiado como a chave de uma mansão de que somos enfim herdeiros. Fingimos que assumimos a vida como senhores do nosso destino, mas a orfandade nada nos oferece a não ser a solidão dos que se descobrem entregues à sua sorte. Vivi essa tragédia pessoal numa jornada estranha, uma daquelas tardes em que tudo parece suceder ao mesmo tem o, como se Deus jogasse com a nossa desgraça tirando-nos com uma mão o que nos dá com a outra. A vida tem, aliás, destas coisas. Tropeçamos nos anos como se estivéssemos anestesiados, não passamos de sonâmbulos a vaguear por um sonho cujos contornos mal discernimos, perdidos num labirinto tecido pelos mistérios que assombram os caminhos abertos diante de nós. De repente, como por encanto, ou talvez graças a um desconcertante passe de ilusionismo, os acontecimentos aceleram e tudo se precipita. Foi o que se passou naquele dia em que entrei no hotel, um estabelecimento de luxo instalado num palacete perdido nos confins ocidentais da Europa. Franqueei o átrio como um animal acossado, ansioso e deprimido, vergado pelo futuro que intuía incerto. A viagem para Lisboa havia sido cansativa e quando por fim me deixei cair no sofá, depois de falar com o médico e de ir ao primeiro andar espreitar o meu pai moribundo, fiquei com a impressão de que já não seria capaz de me levantar, tão macias achei as almofadas e tão fatigado me sentia. Olhei em volta e respirei o ambiente sereno do hotel. O grande salão estava finamente decorado, como sempre, mas o que mais me encantou, admito, foi o tapete fofo no qual os meus pés se afundavam com infinito deleite.

Enquanto saboreava o whisky com gelo que fui buscar ao bar para me forçar a descontrair, deixei a mente vagabundear pelos acontecimentos das últimas vinte e quatro horas. Tudo começara quando me chegou o telegrama com as notícias do colapso que o meu pai tinha sofrido em Lisboa. Apesar de estar plenamente consciente de que, com aquela idade, qual­quer situação do género poderia ocorrer a todo o momento, foi como se alguém me tivesse despertado com uma bofetada. Uma coisa é pensarmos em abstracto na possibilidade de isto acontecer, outra é algo assim suceder de facto. Descobrimos nesse instante que nunca estamos realmente preparados.

O que se passou a seguir à chegada da notícia transformara-se já numa amálgama confusa de pedaços de imagens que flutuavam caoticamente na minha memória, como folhas secas que o vento do Outono atirava em sucessivos remoinhos pelo ar. Lembro-me vagamente de ir a Piccadilly comprar à pressa um bilhete da BOAC, depois a corrida desenfreada no meu Morgan até ao aeródromo de Croydon, o interminável voo de seis horas sobre o Atlântico, a aterragem aos solavancos do De Havilland na pista de Lisboa, as cores das casas que a luz límpida da cidade tornava alegremente garridas, os rostos apreensivos que me acolheram no Aviz, a placidez vertida pela face impassível do meu pai no momento em que o vi estendido na cama. Estava a morrer e parecia dormitar.

Uma mão amiga apertou-me o ombro, trazendo-me de volta ao salão do hotel. Alors, mon cheri?, perguntou-me a voz feminina num tom maternal. T'es bien? Virei a cabeça e reconheci o vulto alquebrado de madame Duprés. Tinha o olhar cansado de quem não dormia havia alguns dias e dava a impressão de que envelhecera consideravelmente desde que com ela me cruzara pela última vez, uns três anos antes. Seria da fadiga ou do choque? A verdade é que a senhora contava mais de oitenta anos, pelo que a única verdadeira surpresa deveria ser a energia que a animou até tão avançada idade. Qualquer que fosse a sua fonte, todavia, a vitalidade manifestamente apagara-se e dela apenas sobrava um clarão difuso, como o hálito do sol no langor moribundo do crepúsculo.

Ainda não estou em mim, confessei. Alguma novidade? A velha francesa abanou a cabeça, os olhos a pestanejarem com uma tristeza prenhe de resignação. Infelizmente não. Madame Duprés acomodou-se numa chaise longue ao meu lado, os gestos suaves e melancólicos, o corpo aterradoramente frágil. Parecia um espectro prestes a quebrar-se. Ele alguma vez recuperou a consciência? De início sim. O doutor disse-me que se trata de um tipo raro de coma, como se a consciência fosse sucessivamente ligada e desligada. Mas os momentos em que está desperto são cada vez mais raros, curtos e espaçados. O olhar dela pousou em mim e pareceu acender-se por momentos, como a chama mortiça de uma vela que desperta ao sabor de uma aragem súbita. Por isso, se ele acordar outra vez, aproveita.

Aproveita cada segundo, frui cada palavra, guarda cada olhar. Poderá não haver outra oportunidade, entendeste? Assenti com a cabeça, perfeitamente consciente de que, se voltasse a falar com o meu pai, seria decerto para lhe dizer adeus. O médico português já me tinha aliás dado conta da gravidade da situação, sublinhando que a questão se encontrava para além dos conhecimentos da medicina. Se nutria ainda algumas ilusões quanto ao verdadeiro estado em que ele se encontrava, perdi-as por completo nessa conversa. Nos últimos tempos, perguntei de repente, ele falou de mim?

Madame Duprés abanou a cabeça. Como sabes, o teu pai não era muito expansivo, murmurou de olhos submissos. Mas não tenhas dúvidas de que a vossa zanga o deixou muito abatido. Nunca mais foi o mesmo. O era que ela utilizou para se referir a meu pai soou-me amargamente a requiem antecipado; dava a impressão de que já tinha desistido dele e se resignara ao inevitável. A pessoa mais afectada, talvez por ter vivido de perto toda a situação, era de facto madame Duprés. Apesar de ser eu o filho, dei comigo a tentar consolá-la e a fazer-lhe ver que a vida é uma viagem com ponto de partida e de chegada. O meu pai estava no fim do caminho, tínhamos de nos preparar e aceitar o inevitável desenlace. Ela chorou ali ao lado de mim, em pleno salão do Aviz, os pés afundados naquele tapete fofo, as mãos a taparem o rosto molhado de lágrimas. Não me envergonho de dizer que chorei também». In José Rodrigues Santos, O Homem de Constantinopla, Edições Gradiva, 2013, ISBN 978-989-616-549-9.

Cortesia de EGradiva/JDACT

JDACT, José Rodrigues dos Santos, Literatura, A Arte, 

terça-feira, 18 de agosto de 2026

A Herança de Rosa-Cruz. Jorge Durão. «Senhor Carlos, acho que está com sorte. Tenho aqui um livro antiquíssimo, está datado de 1797. Foi um grande amigo que mo arranjou, disse o homem num sussurro, trabalha no Palácio Nacional de Mafra»


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Karlruhe. Alemanha, Dezembro de 1649

«(…) Há cerca de vinte anos atrás, Carlos Nóbrega tinha conseguido comunicar com um nómada vendedor de antiguidades, que ia estar um dia inteiro num pequeno mercado medieval nas Caldas da Rainha. O Historiador tinha conseguido o seu cartão-de-visita através de um amigo, também fascinado por história e literatura em geral, que lhe houvera referido que o homem tinha sempre umas raridades literárias de se lhes tirar o chapéu. Num telefonema que o Historiador fez para o número iniciado por 02, que o cartão dizia pertencer a Bernardo Faria, ficou a saber que o homem detinha algo que lhe poderia interessar. Sim?... Boa tarde... Boa tarde, rosna uma voz dura do outro lado. É o senhor Bernardo Faria, das antiguidades?..., perscruta o Historiador. O próprio. Estou a falar com?... Carlos Nóbrega, Historiador e um fascinado por raridades da literatura... Nacional...

Já entendo a razão da sua chamada. Onde viu o meu número?! Carlos Nóbrega percebeu uma desconfiança na expressão do homem, talvez algum trauma com as autoridades. Não sou Polícia, esteja à vontade comigo. Foi um grande amigo meu que me facultou o seu cartão-de-visita, diz que lhe comprou umas revistas de mil oitocentos e tal, aqui há tempos, estava o senhor a vender antiguidades numa pequena feira nas imediações do Palácio de Queluz... Isso foi há dois anos... Sim, confirmou o homem, impregnado de uma forte pronúncia nortenha. Dessa forma, estou a ligar-lhe porque o meu amigo me referiu que o senhor tinha mesmo muita coisa interessante, em variedade e quantidade... Sim, sim. É verdade. Fruto também de uma paixão por tudo o que é antigo. Procuro exaustivamente coisas de interesse histórico... Cá para nós, diz o homem num sussurro, fotocopio aquilo que acho verdadeiramente interessante e vendo tudo o que compro ou me dão, tenho que comer, certo?... Claro, claro. Não seriam os originais em si que lhe dariam de comer. Negócio é negócio... Mas diga-me uma coisa, dirige-se Carlos Nóbrega à razão da chamada, tem algo relacionado com a vila de Óbidos ou com a sociedade secreta Rosa-Cruz?..., no deixe-me pensar do homem e no barulho do remexer de coisas que o telefone deixava ouvir, o coração do Historiador acelerou, não vendo o momento de lhe voltar a ouvir a voz.

Senhor Carlos, acho que está com sorte. Tenho aqui um livro antiquíssimo, está datado de 1797. Foi um grande amigo que mo arranjou, disse o homem num sussurro, trabalha no Palácio Nacional de Mafra. Quando andaram lá com obras, alguns dos livros da biblioteca andavam para lá aos pontapés. Pensou em mim, pegou no exemplar, guardou-o, telefonou-me naquele dia e encontrámo-nos na semana seguinte na Ericeira... Qual é o título, senhor Bernardo? Lendas e factos de Óbidos... Autor ou autores? O único nome que vislumbro por aqui é Pedro José Gonzaga Morgado... Nunca ouvi falar! Tenho que pesquisar sobre este nome, o Historiador aponta o nome num bloco de notas.

É um livro grosso, capa dura com incrustações douradas, e está um pouco deteriorado... Quanto é que está a pedir por ele? Seis contos. Parece-me bem, é uma obra do século XVIII, pensa Carlos Nóbrega, não conseguindo conter a excitação que lhe percorria as veias. Onde e quando é que me posso encontrar consigo? O senhor é de onde? Vivo e trabalho em Lisboa. Vou estar amanhã todo o dia numa pequena feira medieval nas Caldas da Rainha, no jardim das termas. Vá até lá. Sim, sim. Estou a pensar nisso. Conto lá estar por volta das dez. Ficou assim marcado o encontro para um sábado do Verão de 93. Carlos Nóbrega foi logo relatar à mulher a conversa que havia tido com o vendedor, dizendo-lhe que iriam no dia seguinte, logo de manhã, até à cidade das Caldas da Rainha, onde já haviam estado uma meia dúzia de vezes. Maria João ficava feliz com a felicidade do marido, não obstante o achar demasiado obcecado com todas aquelas coisas que o moviam, principalmente com aquela ideia de que por baixo dos seus pés se escondiam incontáveis tesouros à espera de serem vislumbrados pela luz. Naquele dia acordaram bem-dispostos, tomaram um bom pequeno-almoço e fizeram-se à estrada. Nada fazia prever que aquela viagem iria terminar de trágica forma pouco depois do Bombarral». In Jorge Durão, A Herança de Rosa-Cruz, O Tesouro Perdido de Óbidos, Edição do Autor, 2013, ISBN 978-989-866-401-3.

Cortesia de JDurão/JDACT

JDACT, Jorge Durão, Óbidos, Literatura, 

 A Herança de RosaCruz. Jorge Durão. «Temos de conseguir!. Agarrando toda a réstia de força e motivação, o homem leva o cavalo a se encostar de repente ao do seu perseguidor»


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Karlruhe. Alemanha, Dezembro de 1649

«(…) Eles estão mesmo atrás de nós!, gritava o último dos três, mais próximo dos guardas que os outros, tão próximo que quase via as expressões de fúria estampada nos seus rostos. Vamos! Vamos! Temos de conseguir!, todos eles imprimiam a máxima força aos cansados equídeos, que exalavam um denso e branco vapor que se misturava no gélido ar que por eles passava. As espadas estavam já em riste, os guardas sentiam que os estavam a alcançar, e os fugitivos sentiam que estavam prestes a ser capturados. Cavalgaram alguns quilómetros tendo guardas e fugitivos essa sensação. Mas a sensação acabara por se materializar. Um guarda alcança o último dos cavaleiros e coloca-se a seu lado. O fugitivo tenta imprimir mais força ao cavalo, mas o animal estava esgotado, não conseguindo responder à sua demanda. A espada é içada para o golpe sobre o homem, que a olha com temor, aquela lâmina brilhante, reflectindo um Sol frouxo, o seu laranja a passar pela aragem. Um turbilhão de imagens, sons e emoções o assola. Vamos conseguir! Temos de conseguir!. Agarrando toda a réstia de força e motivação, o homem leva o cavalo a se encostar de repente ao do seu perseguidor. Nesse instante, levanta a perna esquerda e imprime movimento ao pé recorrendo a todas as reservas de força de que ainda dispunha. Com a força do impacto, o guarda cai para o lado ainda com a espada no ar, o que atrapalhara momentaneamente o avanço de todos os que cavalgavam atrás. O cavalo solitário continua com o galope, detendo-se a pastar alguns metros para lá do trilho. Os restantes guardas estão quase a intersecptar os três homens, que dão no momento o tudo por tudo para passarem os marcos... Quando os fugitivos voltam a olhar para trás, já os guardas se estão a deter no trilho, sabendo perfeitamente que haviam chegado aos germânicos limites administrativos, não tendo qualquer autoridade nas terras onde aquelas três figuras cavalgavam no momento. O baú e tudo o que o mesmo protegia e escondia estavam no momento a salvo.

Lisboa. Junho de 2003

Senhor doutor, os livros acabaram de chegar, diz a elegante secretária da Biblioteca Nacional, entregando a Carlos Nóbrega uma folha A4 dos CTT com o registo da entrega. Ah... Obrigado, Dulce... Obrigado, diz o sexagenário, esticando o braço para a folha. Todos os anos, o Historiador tinha legitimidade para gastar 100€ na aquisição de novos volumes, raridades que procurava na Internet recorrendo a importantes contactos e ao estatuto que as provas dadas como Historiador e como Bibliotecário da Biblioteca Nacional lhe conferiam. Onde estão? No momento a serem transportados para a sala de catalogação... Muito bem. Dulce, não quero ser incomodado até dar ordens em contrário! Apague todos os fogos que se atearem! Pode vir o Presidente, a chanceler alemã, o Papa... Não quero ser incomodado!

Sim senhor, dr. Carlos. Assim, anui a mulher. Carlos Nóbrega era um homem agastado, mal-humorado, possuidor de uma acutilante personalidade. O baixo e careca passa os olhos pela folha enquanto inicia a deslocação para a sala de catalogação, em frente e à direita em relação à recepção, onde estava Maria Dulce, a secretária que já pertencia à casa quando Carlos Nóbrega fora convidado para bibliotecário da Biblioteca Nacional. Dedicara toda a sua vida ao estudo, à busca de pistas de relíquias escondidas, sendo para ele uma espécie de obsessão o compilar de informação relativamente a possíveis tesouros escondidos pelos povos que passaram pelo nosso país durante os séculos da história. Para ele, o chão de todos os recantos do nosso pequeno país estaria impregnado de relíquias perdidas, riquezas escondidas para a posteridade, ou apenas para escaparem à pilhagem e à destruição.

A Urbe das Rainhas; Óbidos e os Séculos; História de Óbidos; Sociedades Secretas em Portugal; e A Fraternidade Rosa-Cruz eram os títulos adquiridos naquele ano, volumes que o homem ansiava por tocar, abrir, cheirar, folhear. Com licença, dr. Carlos... Sim, Armando. Força. Posso deixá-los aí na secretária? Ponha. Ponha aqui, Armando. Com licença. Estão-me a pedir lá em baixo esta folha assinada, a confirmar a recepção dos livros. Era o original da folha que Dulce lhe havia entregue. O Historiador assina o impresso e volta a olhar para os exemplares, ávido de os devorar mesmo antes de os catalogar e disponibilizar para leitura. Já está. Mais alguma coisa, Armando? Pergunta, esticando o braço de modo a facultar a folha ao funcionário. Está tudo. Já havia referido à Dulce que a partir deste momento não quero ser incomodado até ordens em contrário.

Muito bem. Com licença, o sexagenário despede-se do rapaz com um trejeito de cabeça. O rapaz sai e fecha a porta atrás de si». In Jorge Durão, A Herança de RosaCruz, O Tesouro Perdido de Óbidos, Edição do Autor, 2013, ISBN 978-989-866-401-3.

Cortesia de JDurão/JDACT

 

JDACT, Jorge Durão, Óbidos, Literatura, 

 A Herança de RosaCruz Jorge Durão. «Temos de continuar a cavalgar! Temos que chegar à França antes que os guardas nos alcancem!»


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Óbidos. 16 de Abril de 1650; madrugada

«A noite estava calma, serena, amena... O silêncio que a pautava era denunciador, acusador. A Lua projectava nas polidas pedras daquela principal rua a reflectida luz de um Sol que, naquele momento, iluminava e preenchia de vida outras paragens mais para oeste.

Três figuras haviam, no início da madrugada, começado a perscrutar o labirinto de ruas e ruelas da pequena urbe, munidas de um pequeno baú de madeira, sem quaisquer relevos, incrustações ou decorações, devidamente trancado, e de duas rudimentares ferramentas, um esguio ferro e uma pá. Àquela hora os guardas já haviam recolhido, e apenas as sentinelas que se encontravam nas portas da muralha estavam em riste face a quaisquer ameaças. Como aqueles três homens provinham da estalagem, que se situava logo na entrada este da urbe, nenhum tumulto fora suscitado ao guarda que fazia a vigilância daquele posto.

Os três homens olham a Lua pela janela e olham-se mutuamente, olhares que diziam que chegara o momento. Um deles deixa o quarto, desce cerca de um terço da escadaria que acede ao piso térreo e percebe que o pó que havia sido comprado naquele dia a um mercador, e que havia sido misturado na cerveja do estalajadeiro, estava a fazer o seu efeito. O homem dormia como uma pedra, ressonado de forma ensurdecedora, o que ajudaria a camuflar algum barulho que fizessem a descer as escadas e a sair. Todos os habitantes e os próprios guardas não viam com bons olhos aqueles alemães, que haviam chegado a Óbidos há cerca de três semanas, mas como eram grandes consumidores de cerveja e de tudo o que se mercava por ali, eram vistos como alguém que ajudava muito à pequena economia local.

Com o homem a dormir que nem um urso, juntam-se os três naquele pequeno hall empedrado, abrindo um deles a porta com cuidado e olhando para o posto do sentinela. A luz da Lua deixava perceber a silhueta do guarda. O homem sai e desloca-se com cautela para uma sombra, arremessando para bem longe, por cima da muralha, uma redonda pedra que já tinha nas mãos. Enquanto o guarda tentava perceber se era animal ou se era gente que por ali se movimentava, já com a corneta em riste, os outros dois abandonam a estalagem, deixando a pesada porta encostada, deslocando-se todos para as sombras que iam encontrando no sentido norte. Mais à frente, perto da torre, sobem para a muralha e começam a caminhar de modo a circundarem a urbe e a verificarem se a calma seria real ou apenas aparente. As ruas estavam mortas, toda a gente jazia no sono da noite e o silêncio era límpido.

Descem a muralha já perto da porta sul e, segundo os esquemas já estudados, que tinham a ver com o momento e com a posição da Lua, colocam-se no início da rua principal, a qual desembocava na torre. Aí, uma das primeiras pedras do chão é levantada sob a força dos três transmitida ao esguio ferro, debaixo da qual fora colocado um pergaminho, a decifração dos latentes indícios que a luz da Lua imprimia nas paredes, consistindo muitos desses indícios em indicações configuradas em sombras. A pedra foi colocada no sítio, viraram depois à direita, à esquerda, de novo à esquerda, e subiram outra vez à rua principal. Caminharam uns metros na rua e viraram depois à esquerda, subindo até à base da muralha do lado oeste, virando depois à direita e detendo-se uns metros mais à frente. Aí, levantam uma grande pedra, escavam um pouco por baixo, colocam no pequeno buraco o pequeno baú, repõem a terra e selam tudo com a grande pedra, varrendo com as mãos e os pés os resquícios de terra que ainda por ali permaneciam. Olham uma última vez para o local e dirigem-se de novo para a estalagem. Ao virarem para esquerda, já na rua principal, a brilhante lâmina de uma adaga que um encapuzado ostentava petrificara os seus olhares. Uma rude luta entre as rudimentares ferramentas e a brilhante adaga começara. O barulho da luta atraíra para o local os guardas que perscrutavam nas ruas por algo que lhes fora relatado. Ao chegarem ao local, os três alemães encontravam-se prostrados no chão, golpeados de profunda forma e com as vestes abertas. Mais para sul, de sombra em sombra, aquela figura encapuzada, que fora impedida de seguir todos os passos dos três rosacrucianos pela movimentação dos guardas, dirigia-se para casa, transportando dentro das vestes a réplica do papiro enterrado com que os três homens haviam ficado. Entra em casa e no imediato parecera que não era aquela noite mais que uma igual a tantas outras... Silenciosa, a envolver no sono todos os habitantes das muralhas... Ou quase todos.

Karlruhe. Alemanha, Dezembro de 1649

Temos de continuar a cavalgar! Temos que chegar à França antes que os guardas nos alcancem!, profere um dos três cavaleiros, virado para trás, tomando a liderança da deslocação. Era fim de tarde de um dia gélido, e a gélida aragem parecia cortar a carne como adagas bem afiadas. Os três homens cavalgavam pela protecção de algo que lhes proporcionava serem perseguidos pelos guardas alemães, que lhes seguiam o rasto a alguns quilómetros atrás. Aquele líder transportava no regaço um pequeno baú de madeira, simples, sem quaisquer incrustações ou relevos. Os homens davam na altura tudo por tudo para chegarem a terras francesas antes que aqueles que os perseguiam os capturassem em terras germânicas, ficando os cavaleiros imunes assim que atravessassem a fronteira». In Jorge Durão, A Herança de RosaCruz, O Tesouro Perdido de Óbidos, Edição do Autor, 2013, ISBN 978-989-866-401-3.

Cortesia de JDurão/JDACT

JDACT, Jorge Durão, Óbidos, Literatura, 

sábado, 19 de abril de 2025

Fernando Campos. A Casa do Pó. «… a frei Bonifácio, a quem muito reverenciava, não achais que toda esta pompa e sumptuosidade nada têm a ver com o Senhor Jesus Cristo?»

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Veneza... 

«Todos os anos os incorpora na triunfal e soleníssima procissão de Corpus Christi. Este ano de sessenta e dois, depois de escolhida a família franciscana, dirigimo-nos a Veneza a fim de providenciar-lhe a partida. Assistimos então àquela opulentíssima cerimónia, que caiu a quatro de Maio. Tantas e tão momentosas eram as solicitações que me faziam aos sentidos as imagens da cidade em festa que se me torna difícil captar todas as minúcias. Pareciam ganhar vida e ao mesmo tempo insistir comigo, chamar-me, puxar-me pela dobra da manga, ínsinuar-se-me nos ouvidos, no olfato e gritar-me: olha-me! Escuta-me! Aprecia a minha forma, a minha cor, o meu gosto, o meu brilho, o meu som, o meu aroma!...

Linda é Veneza, a dos palácios de fachadas rendilhadas e varandins de nobres e formosas damas, a espelhar-se ondulante nas águas verde-negras de canais por onde vogam gôndolas esbeltas; das finas pontes solícitas, em que suspiram amantes enlaçados; das arcadas debruando praças; das torres altaneiras que espreitam o Adriático e as ilhas dispersas da laguna; das líquidas ruas angustiadas entre paredes lavradas; dos sinos que ressoam e tangem pratas na atmosfera húmida; do suave marulhar das águas nas noites calmas de luar! Mas em festa atavia-se até ao pormenor requintado, até à orquestração delirante das formas. Paganiza-se, paganiza a festa litúrgica que, por excelência, não deverá de ser paganizável. Ao meu espírito de franciscano é uma demonstração de fausto e de riqueza que ofende a humildade e a pobreza cristã, não obstante a argumentação de frei Bonifácio procurando convencer-me do contrário e até da necessidade da pompa para dignificar a Igreja e os seus ministros.

Meu padre, dizia eu a frei Bonifácio, a quem muito reverenciava, não achais que toda esta pompa e sumptuosidade nada têm a ver com o Senhor Jesus Cristo? O meu pensamento está-me dizendo que toda esta luxúria, este fausto, esta opulência e ostentação exterior de riqueza desviam as almas do verdadeiro espírito de cerimónia tão santa. A Igreja, visse o seu bom Pantaleão, tinha necessidade de dar de si uma alta imagem, à altura se possível, e oxalá pudesse!, da majestade divina.

Cristo era pobre ..., e era Deus... O anel que o imperador, o rei, o príncipe, oferecia à desposada não era, não podia ser, de modo algum, igual àquele outro, de ouropel ou latão, que o mesteiral, o camponês, entregava à namorada. Cristo era o esposo dos esposos. Que espanto que a Igreja, sua desposada, fosse procurar aos mais remotos confins do mundo a jóia mais rara, o marfim mais branco, o mármore mais puro? Nenhum ouro, nenhuma prata podiam ser bastantes a celebrar a majestade das majestades.

Nosso padre São Francisco não pensava assim... Nosso padre São Francisco comporia um hino em que cantariam os louvores do Criador a safira de azul mais imaculado, o rubi de vermelho mais sanguíneo, grande e invulgar, o topázio cor de laranja, a verde esmeralda, o peridoto, o diamante, a opala, o ónix, a ágata, a cornalina, restituindo, devolvendo assim a Deus estas maravilhosas obras de Deus. A argumentação de frei Bonifácio apanhava-me como em ratoeira construída por mim próprio». In Fernando Campos, A Casa do Pó, Difel, 1986, Editora Objectiva, Alfaguara, 2012, ISBN 978-989-672-114-5.

Cortesia de Difel/Alfaguara/JDACT

JDACT, Fernando Campos, Veneza, Literatura, 

quarta-feira, 16 de abril de 2025

A Ponte dos Suspiros. Fernando Campos. «Coisa que me não parece curial. Quê? Afinal, porque o prendestes? De que o acusais? Ele é réu de que crime?»

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O Sósia

«(…) Parece que a Senhoria procedeu assim a instigação do embaixador de Espanha. E como poderia o embaixador de Espanha saber?, perguntou frei Estêvão. Nem quero pensar, disse frei Crisóstomo com ar grave, que entre nós haja um traidor. Pode lá ser!, exclamou Pimentel levando a mão ao punhal. Teria de se haver comigo. E comigo, disse Pessoa. Tens razão, Pimentel, secundou Nuno Costa. Não pode ser. Talvez, antes, tenha havido inconfidência saída de casa do arcebispo... E lançava aos companheiros um olhar sagaz. Vou à Senhoria, disse Frei Estêvão. Hei-de falar com alguém do Conselho. Quero saber o que se passa. No palácio o juiz Marco Quirini recebeu-o com solicitude, disse que o processo estava confiado a mais três juízes, além dele, e que seguia com todas as cautelas dada a gravidade e o melindre da situação. Queremos honestamente esclarecer a identidade do preso e apurar a verdade. Temos-lhe feito constantes interrogatórios... E ele?..., afirma e confirma o que vós bem sabeis. Não me conformo, disse frei Estêvão. Há aqui qualquer coisa que me não parece curial. Quê? Afinal, porque o prendestes? De que o acusais? Ele é réu de que crime?

Visivelmente embaraçado, Marco Quirini respondeu: Ele foi intimado pela Senhoria a, no prazo de oito dias, sair dos territórios da República. Não obedeceu. E que crime cometeu ele para ser expulso da República?... Não respondeis. Respondo eu: o crime de afrontar a Espanha. Examinamos o caso com isenção... Sob a pressão do embaixador castelhano. Não nos deixamos conduzir por qualquer influência. Se chegardes à conclusão de que ele é um embusteiro..., será condenado. Se finalmente acreditardes que ele é o rei de Portugal... Teremos de enfrentar a inimizade da Espanha. Da Espanha?, exclamou frei Estêvão levantando-se. E a França? E a Flandres? E a Inglaterra?... Marco Quirini acompanhou-o à porta: Poderei dar-vos um conselho? Agradeço-vo-lo. Ide a Portugal. Procurai obter dados, sinais, indícios, traços concretos da identidade de el-rei Sebastião... Estai certo de que assim farei. Não desistirei enquanto não libertardes o meu rei.

A Ponte dos Suspiros

Gaivotas e pombas são as minhas visitas, às vezes um ou outro pardal pousa a medo no beiral do meu janelo de grades. Dou-lhes migalhas do meu pão. Habituam-se ao ritual e acabam por também eles serem o meu relógio dos dias intermináveis. A única vantagem deste meu cárcere é não se situar nos caboucos do palácio, mas alcandorar-se cá em cima no balouçar dos nevoeiros, sobre a ponte dos Suspiros. Sinto a maresia subir até mim, mas não vejo o canal nem a laguna. Esta experiência me faltava, ser encarcerado e ter a fragilidade ameaçada com a prepotência de interrogatórios, a iminência de torturas e talvez até de morte ignominiosa. Que fazer? Luto por que tempo e lugar se não alonguem de mim e me não deixem abandonado à impotência da angústia, suspenso sem amarras que me amparem a queda no aniquilamento. Acuda-me este pombo que agora aí pousou e se está meneando em vénias e arrulhos. Parece saudar-me. Estendo-lhe a palma da mão cheia de migalhas, como costumava em San Beneto, em casa de Jerónimo Migliori, com os pombos a esvoaçarem-me em redor, a pousarem-me nos ombros, nas mãos» In Fernando Campos, A Ponte dos suspiros, 1999, Difel SA, 2000, ISBN 978-972-290-806-1.

Cortesia de Difel/JDACT

 JDACT, Fernando Campos, História, Literatura, 

segunda-feira, 14 de abril de 2025

O Cavaleiro de Olivença João Paulo Costa. «…  os domínios da coroa portuguesa há duzentos anos, no tempo d’el-rei Dinis I. pelo tratado de Alcanizes, a fronteira fora definida para sempre e Olivença….»

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O pedido da Rainha

«O grupo português trotava calmamente. O Relâmpago estava esgotado e uma montada levava dois cavaleiros. Quando contornaram nova curva, ao fundo surgiu a vila. Olivença, guarda avançada de Portugal além-Guadiana, ostentava poder e riqueza. A vila integrara definitivamente os domínios da coroa portuguesa há duzentos anos, no tempo d’el-rei Dinis I. pelo tratado de Alcanizes, a fronteira fora definida para sempre e Olivença ficara do lado certo. O rei lavrador povoara-a e defendera-a, mas a cerca velha cedo se mostrou insuficiente para proteger todos os oliventinos, pois a vila cresceu depressa, até que el-rei Fernando I ordenara a construção de novas muralhas.

Os cavaleiros aproximavam-se, e aos seus olhos destacava-se a torre de menagem altaneira, reconstruída no tempo de João II. No alto, flutuava a bandeira branca com a esfera armilar e uma outra com o escudo de Portugal. Já havia novos bairros desprotegidos, pelo que a cerca fernandina carecia de acrescentamento. Quando se acercaram, já distinguiam o fosso que contornava a muralha e ouviram o relógio dando as horas. Fora colocado numa esquina da cerca velha, em torre reforçada para o efeito. Ao longe, nas colinas sobranceiras à vila, erguiam-se duas atalaias que vigiavam Castela; uma espreitava para as bandas de Alconchel e a outra na direcção de Badajoz e de Jerez de los Caballeros.

Agora sinto-me mesmo de volta a Portugal, suspirou Francisco. Ainda bem que Vossa Senhoria andava por perto. Estava preocupado com o teu atraso e nossas atalaias avisaram que tinham avistado um cavaleiro a ser perseguido, vindo nesta direcção, e saí logo com estes homens. Estava certo que irias entrar por aquele vau, e ao deixar os castelhanos entrar em nosso reino, ficámos em vantagem. Além disso, eles estavam pior armados do que nós.

O grupo entrou pela Porta de São Sebastião, junto à torre de menagem, e foi saudado pela soldadesca que aguardava notícias. Francisco, vem comigo, ordenou Vasco. Pouco depois estavam na casa do Melo, que se situava na parte velha da vila, próxima da Porta de Alconchel. O que tens para mim? O correio pousou o bornal, despiu as calças e tirou um envelope que estava num bolso por dentro da perna; com uma faca descoseu sua capa e tirou um macinho com vários papéis em letra miudinha; finalmente, acionou o mecanismo que abria a sola se sua bota e retirou saí uma nova missiva. Parece que foste reconhecido, Francisco.

O meu contacto em Mérida estava nervoso. Fostes a Mérida? Não vieste directo de Cáceres? Não, senhor. O nosso amigo de Cáceres disse-me que havia novidades para mim em Mérida. Então o nosso agente de Cáceres bandeou-se e tu estás mesmo identificado. Qual é a carta que te deram em Mérida? É essa com o brasão. Vasco deu um estalo com a língua, ao ver o símbolo dos Pachecos, e sua perna direita escoiceou. Foi uma armadilha para se certificarem que eras um dos nossos correios.

O que diz a carta? Não te interessa, tolo. Temos que te mudar. Dentro de duas semanas partes comigo para a Flandres. Lá faz frio. E aqui cortam-te o pescoço num instante. E Vossa Senhoria não poderia aceitar que eu deixasse este serviço? Se assim o queres, serei eu próprio a cortar-te o pescoço, rosnou Vasco Melo, com o nariz mexendo-se desenfreadamente». In João Paulo Oliveira Costa, Círculo de Leitores, Temas e Debates, 2012, 978-989-644-184-5.

 Cortesia de CL/TDebates/JDACT

 JDACT, Olivença, Conhecimento, Literatura,

segunda-feira, 14 de outubro de 2024

Todas as Almas. Javier Marías. «.. de 1930 o tinha acordado sem um tostão no bolso e com os olhos cautelosos e tímidos de quem tem de pedir emprestado e ainda não decidiu a quem»

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«Havia dias em que, mais do que acreditar que estava, na verdade estava em 1947, ou em 1914, ou em 1935, ou em 1960, ou em 1926, ou em qualquer um dos anos da sua longuíssima vida. Às vezes era possível intuir se Will se encontrava instalado num ano mau mediante uma leve expressão de temor (era um ser demasiado puro para que nele houvesse espaço para a preocupação, pois carecia absolutamente da visão de futuro sempre associada a tal sentimento) que, no entanto, nunca chegava a assombrar o seu olhar confiante e ufano.

Podíamos suspeitar que uma manhã de 1940 estava para ele dominada pelo medo dos bombardeamentos da noite anterior ou da seguinte, e que uma manhã de 1916 o podia encontrar um pouco abatido com as más notícias procedentes da ofensiva do Somme, e que uma de 1930 o tinha acordado sem um tostão no bolso e com os olhos cautelosos e tímidos de quem tem de pedir emprestado e ainda não decidiu a quem.

Noutros dias, o ligeiríssimo apagamento do seu imenso sorriso ou do brilho do seu olhar tão afectuoso era de todo indecifrável, nem sequer objecto de fabulação, porque, sem dúvida, devia-se a pesares e sensaborias da sua vida pessoal, que nunca interessou a um professor ou aluno. Nessa viagem contínua pela sua existência, quase tudo era insondável para os demais (tal como os retratos de séculos passados ou uma fotografia tirada anteontem). Como podíamos saber em que aflitiva jornada dos seus inúmeros dias se encontrava Will quando o víamos cumprimentar apenas com um meio sorriso, em vez Marías, Literatura, Espanha,

Como saber que troço melancólico do seu infindável trajecto estava a percorrer quando não erguia a mão naquele seu gesto infantil enquanto dava os bons-dias? Aquela mão verticalmente erguida, que nos fazia ter a convicção de que naquela cidade inóspita alguém ficava realmente alegre por nos ver, embora esse alguém não soubesse quem éramos ou, melhor dizendo, nos visse todas as manhãs como alguém diferente do dia anterior. Só por uma vez soube, graças a Cromer-Blake, em que momento exacto daquela sua vida sem sobressaltos, passada durante tantas horas atrás dos vidros da sua cabina, se encontrava Will. Cromer-Blake esperou por mim à porta do edifício e avisou-me: Diz algo ao Will, umas palavras de conforto.

Aparentemente, hoje está a viver no dia em que lhe morreu a mulher, em 1962, e ficaria muito magoado se um de nós não se apercebesse do sucedido ao entrar. Está muito triste, mas o seu bom humor natural permite-lhe usufruir do seu protagonismo de hoje apenas na medida certa para não perder de todo o sorriso. De modo que, até certo ponto, também está satisfeitíssimo. E, já sem olhar para mim,  fazer as suas deslocações sempre a correr para darem a impressão de um perpétuo sufoco e ocupação extrema nos intervalos entre uma e outra aula, as quais, no entanto, decorreram ou teriam de decorrer no mais absoluto sossego e despreocupação, como parte que eram do estar e não do fazer e nem sequer do fingir. Era o caso de Cromer-Blake e também do Inquisidor, também conhecido por Carniceiro ou Estripador, e cujo nome verdadeiro era Alec Dewar.» In Javier Marías, Todas as Almas, Editora Martins Fontes, 1998, Alfaguara, 2019, ISBN 978-989-665-914-4.

Cortesia de EMFontes/EAlfaguara/JDACT

 JDACT, Javier Marías, Literatura, Espanha,

domingo, 13 de outubro de 2024

Todas as Almas. Javier Marías. «Aquele que aqui conta o que viu e o que lhe aconteceu não é aquele que o viu e a quem aconteceu, nem o seu prolongamento nem a sua sombra nem o seu herdeiro nem o seu usurpador»

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«Dois dos três morreram desde que saí de Oxford, e isso faz-me pensar, supersticiosamente, que talvez tenham estado à espera de que eu chegasse e esgotasse o meu tempo ali para me darem a oportunidade de os conhecer e poder agora falar deles. É possível, portanto, e sempre supersticiosamente, que seja obrigado a falar deles. Não morreram senão quando deixámos de nos dar.

Pensamento não é apenas supersticioso, é também vaidoso. Mas para falar deles tenho de falar também de mim e da minha estada na cidade de Oxford. Mesmo que aquele que fala não seja o mesmo que lá esteve. Parece, mas não é o mesmo. Se a mim próprio me chamo eu ou se utilizo um nome que me tem acompanhado desde que nasci e pelo qual alguns me hão-de lembrar ou se conto coisas que coincidem com coisas que outros me atribuíram ou se chamo minha casa à casa que antes e depois foi ocupada por outros, mas que habitei durante dois anos, é só porque prefiro falar na primeira pessoa, não porque acredite que a faculdade da memória é suficiente para continuar a ser o mesmo em diferentes tempos e em diferentes espaços.

Aquele que aqui conta o que viu e o que lhe aconteceu não é aquele que o viu e a quem aconteceu, nem o seu prolongamento nem a sua sombra nem o seu herdeiro nem o seu usurpador. A minha casa tinha três andares e forma piramidal e nela passava muito tempo, dado que as minhas obrigações na cidade de Oxford eram praticamente nulas ou inexistentes. Com efeito, Oxford é, sem dúvida, uma das cidades do mundo onde menos se trabalha, e nela o facto de se estar revela-se muito mais decisivo que o de fazer ou até mesmo o de fingir.

Estar exige ali tanta concentração e paciência, e tanto esforço para lutar contra a letargia natural do espírito, que seria uma exigência desmesurada pretender que, além disso, os seus habitantes ainda se mostrassem activos, principalmente em público, apesar de alguns colegas costumarem fazer as suas deslocações sempre a correr para darem a impressão de um perpétuo sufoco e ocupação extrema nos intervalos entre uma e outra aula, as quais, no entanto, decorreram ou teriam de decorrer no mais absoluto sossego e despreocupação, como parte que eram do estar e não do fazer e nem sequer do fingir.

Era o caso de Cromer-Blake e também do Inquisidor, também conhecido por Carniceiro ou Estripador, e cujo nome verdadeiro era Alec Dewar. Mas quem negava todos os simulacros de agitação e dava corpo e verbo ao estatismo ou estabilidade do lugar era Will, o velho porteiro do edifício (a Institutio Tayloriana, assim chamada com pompa e em latim) onde eu costumava trabalhar em sossego e sem preocupações. Nunca vi um olhar tão limpo (certamente não na minha cidade, Madrid, onde não existem olhares limpos) quanto o daquele homem de quase noventa anos, pequeno e polido, invariavelmente vestido com uma espécie de macacão azul, a quem era permitido permanecer muitas manhãs na sua cabina envidraçada a dar os bons-dias aos professores à medida que iam entrando. Will não sabia, literalmente, em que dia vivia, e assim, sem que ninguém pudesse prever a data que escolhera e menos ainda saber o que determinava a sua escolha, passava todas as manhãs em anos diferentes, a viajar para trás e para a frente no tempo de acordo com a sua vontade ou, melhor dizendo, provavelmente à margem da sua vontade». In Javier Marías, Todas as Almas, Editora Martins Fontes, 1998, Alfaguara, 2019, ISBN 978-989-665-914-4.

 Cortesia de EMFontes/EAlfaguara/JDACT

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sábado, 28 de setembro de 2024

Milan Kundera. A Brincadeira. «Saídos do recinto do hospital, logo fomos dar a um grupo de edifícios novos que, uns a seguir aos outros, se elevavam desarmoniosamente de um solo poeirento desnivelado (sem relva, sem passeios, sem asfalto) e formavam um triste cenário nos confins dos campos, vastos e planos, estendidos a perder de vista»

Cortesia de wikipedia e jdact

«Era um ser estranho, simultaneamente de uma moralidade rígida e cu-riosamente inquieto e instável, de quem, pelo que eu sabia, a mulher se tinha divorciado ao fim de vários anos pelo simples facto de ele viver indiscriminadamente em qualquer lado, desde que fosse longe da mulher e dos filhos. Assustava-me a ideia de que ele se pudesse ter voltado a casar, circunstância propícia a complicar a satisfação do meu pedido, e apressei o passo em direcção ao hospital.

O hospital é um conjunto de edifícios e pavilhões semeados aqui e ali sobre um vasto espaço de jardins; entrei na pequena guarita junto ao portão e pedi ao porteiro sentado atrás de uma mesa para me pôr em contacto com a secção de virologia; ele empurrou o telefone para o canto da mesa do meu lado e disse: Zero dois!  Marquei o zero dois e fiquei a saber que o doutor Kostka saíra há alguns segundos e que estaria prestes a chegar à saída. Sentei-me num banco perto da porta principal para me assegurar de que o não perderia, e olhava distraidamente os homens passeando-se em roupão de hospital, de riscas azuis e brancas, quando o vi: vinha pensativo, alto, magro, simpático na sua falta de presença, sim, era mesmo ele. Levantei-me do meu banco e fui direito a ele como se fosse empurrá-lo; deitou-me um olhar de desagrado, mas depressa me reconheceu e me abriu os braços. Senti que a sua surpresa foi de quase felicidade, e a espontaneidade do seu acolhimento deu-me prazer.

Expliquei-lhe que tinha chegado havia uma hora para tratar de um assunto sem importância que me reteria ali perto de dois dias, e ele logo me manifestou a surpresa feliz por a minha primeira visita lhe ter sido dedicada. Foi-me subitamente desagradável não o ter vindo procurar com um espírito desinteressado, por ele só, e a pergunta que lhe fiz (perguntei-lhe jovialmente se voltara a casar) pareceu reflectir uma atenção sincera, quando, no fundo, provinha de um calculismo baixo. Disse-me (para minha satisfação) que continuava só. Declarei que tínhamos muito que contar um ao outro. Ele concordou e lamentou não dispor, infelizmente, de pouco mais de uma hora, visto ter ainda que voltar ao hospital e, no fim da tarde, ter de apanhar um autocarro para fora da cidade. Não mora aqui?, digo, assustado. Assegurou-me que sim, um estúdio num edifício novo, mas que é penoso viver solitário. Soube que Kostka tinha, numa outra cidade a vinte quilómetros, uma noiva professora, possuindo, também ela, um pequeno apartamento de duas assoalhadas. Vai viver com ela futuramente?, perguntei-lhe.

Disse-me que dificilmente encontraria trabalho noutro sítio tão interessante como aquele que lhe arranjara e que, pelo contrário, a sua noiva teria dificuldade em arranjar um lugar aqui. Pus-me a vituperar (de bom coração) as demoras da burocracia, incapaz de facilitar as coisas de maneira a que um homem e uma mulher possam viver juntos. Sossegue, Ludvik, disse-me com uma doce indulgência, que não é assim tão insuportável. A viagem custa-me, é certo, dinheiro e tempo, mas a minha solidão permanece intacta e sou livre. Porque tem um tal desejo de liberdade?, perguntei-lhe. Evocê?, disse ele. Eu ando atrás das raparigas, respondi-lhe. Não é pelas mulheres, é por mim que me faz falta a minha liberdade, disse, e acrescentou: Oiça, venha um momento a minha casa antes de eu me ir embora. Eu não pedia mais que isso.

Saídos do recinto do hospital, logo fomos dar a um grupo de edifícios novos que, uns a seguir aos outros, se elevavam desarmoniosamente de um solo poeirento desnivelado (sem relva, sem passeios, sem asfalto) e formavam um triste cenário nos confins dos campos, vastos e planos, estendidos a perder de vista. Atravessámos uma porta, subimos uma escada demasiado estreita (o elevador estava avariado) e detivemo-nos no terceiro andar, onde reconheci o nome de Kostka no cartão-de-visita. Quando, tendo atravessado a entrada, nos encontrámos na sala, senti-me mais que satisfeito: um grande e confortável divã ocupava um canto; além do divã, havia uma pequena mesa, uma poltrona, uma grande biblioteca, um gira-discos e um aparelho de rádio». In Milan Kundera, A Brincadeira, Publicações Dom Quixote, 1967, 4ª edição 1994, ISBN 972-200-014-4.

 Cortesia de PDQuixote/JDACT

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A Brincadeira. Milan Kundera. «… percorri cinicamente com os olhos a praça desengraçada antes de lhe voltar costas e tomar a rua do hotel onde tinha um quarto alugado para essa noite. O porteiro estendeu-me uma chave pendurada numa pêra de madeira…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«Asssim, depois de tantos anos, voltava de novo a casa. De pé, na praça principal (que, criança, depois rapaz, depois jovem, atravessara mil vezes), não sentia qualquer emoção; pelo contrário, pensava que aquele es-paço onde a torre do sino (parecida com um antigo cavaleiro sob o seu elmo) se vê acima dos telhados, lembrava a vasta parada de um quartel, e que o passado militar daquela cidade da Morávia, outrora muralha contra as incursões dos Magiares e dos Turcos, imprimira nela a marca de uma irrevogável fealdade.

Durante anos, nada me atraíra à minha cidade natal. Dizia-me que ela se me tinha tornado indiferente, e isso parecia-me natural: ao fim de quinze anos vividos fora, só me restam alguns conhecidos, ou mesmo os amigos (que prefiro, de resto, evitar); a minha mãe está enterrada num túmulo estrangeiro, que não visito. No entanto iludia-me: aquilo que eu chamava indiferença era na realidade rancor; escapavam-me as razões, pois tinham-me acontecido coisas boas ou coisas más nesta cidade como em todas as outras, em todo o caso esse rancor existia; percebera-o durante a minha viagem: a missão que aqui me trazia poderia, bem vistas as coisas, cumpri-Ia igualmente bem em Praga, mas tinha sido, num repente, irresistivelmente atraído pela ocasião oferecida de executá-la na minha cidade natal, precisamente por se tratar de uma missão cínica e terra-a-terra que, por ironia, me absolvia da suspeita de aqui voltar sob o efeito de um enternecimento piegas pelo tempo perdido.

Uma vez mais, percorri cinicamente com os olhos a praça desengraçada antes de lhe voltar costas e tomar a rua do hotel onde tinha um quarto alugado para essa noite. O porteiro estendeu-me uma chave pendurada numa pêra de madeira dizendo segundo andar. O quarto não era muito convidativo: uma cama contra a parede. no meio uma mesinha com uma única cadeira, ao lado da cama um pretensioso toucador de mogno com espelho, junto da porta um lavatório lascado absolutamente minúsculo. Pousei a toalha na mesa e abri a janela: a vista dava sobre um pátio e sobre casas com as traseiras nuas e sujas viradas para o hotel. Fechei a janela, corri os cortinados e aproximei-me do lavatório, que tinha duas torneiras, uma com sinal encarnado, outra azul; experimentei-as, a água correu igualmente fria em ambas. Examinei a mesa, que, em rigor, chegava, visto que nela cabiam perfeitamente uma garrafa e dois copos; infelizmente, à falta de uma segunda cadeira no quarto, só uma pessoa se poderia lá instalar. Tendo puxado a mesa para perto da cama, tentei sentar-me nesta, mas era demasiado baixa e a mesa alta de mais; mais ainda, encovava de tal maneira que logo foi evidente que não só constituía um mau assento, corno desempenharia de maneira duvidosa a sua função de cama. Apoiei-me nos punhos; depois estendi-me levantando cuidadosamente os pés calçados para evitar sujar a coberta e o lençol. Com o colchão cavado sob o meu peso, encontrava-me estendido como numa rede ou numa campa estreita: não me era possível imaginar partilhar aquela cama com alguém.

Sentei-me na cadeira, o olhar perdido nas cortinas iluminadas em transparencia, e reflecti. Nesse momento, fizeram-se ouvir passos e vozes no corredor; duas pessoas, um homem e uma mulher, e cada palavra era inteligível: falavam de um certo Petr, que tinha fugido de casa, e de uma tal Mara, que era idiota e estragava o pequeno; depois ouviu-se uma chave a rodar na fechadura, uma porta que se abria e as vozes que continuavam no quarto ao lado; ouvi os suspiros da mulher (sim, até os suspiros me chegavam!) e a decisão do homem de dizer de vez duas palavras à Mara.

Levantei-me, a minha resolução estava tomada; lavei ainda as mãos no lavatório, limpei-as com a toalha, e deixei o hotel sem saber ao certo para onde ia. Sabia simplesmente que, se não quisesse comprometer o bom sucesso de toda a minha viagem (viagem consideralvelmente longa e fatigante) por causa da única imperfeição do meu quarto de hotel, devia, por muito que não me apetecesse, fazer um discreto apelo a qualquer amigo local. Passei rapidamente em revista todas as caras do tempo da minha juventude, para logo as afastar, pois o carácter confidencial do favor solicitado me iria obrigar a construir uma ponte laboriosa sobre os muitos anos em que nos perdêramos de vista, e isto desagradava-me. Depois lembrei-me de que aqui vivia sem dúvida um homem a quem outrora tinha, aqui mesmo, arranjado um emprego e que ficaria, pelo que conheço dele, muito contente por me fazer por sua vez um favor». In Milan Kundera, A Brincadeira, Publicações Dom Quixote, 1967, 4ª edição 1994, ISBN 972-200-014-4.

Cortesia de PDQuixote/JDACT

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sábado, 31 de agosto de 2024

No 31. Por Amor a uma Mulher. Domingos Amaral. «Em Toledo, o seu destino estava traçado. A sua única possibilidade era uma imediata fuga, e fora isso que fizera»

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NOTA: Afonso Henriques, nascido em 1109, filho do conde Henrique e de dona Teresa, neto de Afonso VI de Leão e primo direito de Afonso VII. Tem uma relação amorosa com Elvira Gualter, da qual nasceram duas filhas, Urraca e Teresa Gualter; e outra com Chamoa Gomes, de quem tem dois filhos, Fernando e Pedro Afonso. Será reconhecido com rei de Portugal, em 1143, em Zamora.

Coimbra, Maio de 1126

«Nesse momento, Fátima olhou para a irmã Zaida, com um sorriso triunfante, mas a outra fez-lhe uma careta. Sem ligar às diatribes silenciosas das filhas, Zulmira prosseguiu: Para mais, Afonso VI nunca ajudou meu avô Al-Mutamid. Tempos depois, chegou a segunda notícia fatal: Sevilha fora também tomada pelos almorávidas de Yusuf, e Al-Mutamid tinha sido levado preso para Marraquexe, onde morreria.

A minha raiva tornou-se gigantesca, confessou Zulmira. Ainda mais enfurecida ficou quando Afonso VI se passou a intitular o «Imperador das Duas Religiões», argumentando que o seu herdeiro legítimo, o príncipe Sancho, era tão cristão como muçulmano. Era o cúmulo da afronta!, exclamou.

Como Zulmira viria a descobrir, não era a única a ter tais sentimentos. Os nobres e os bispos de Castela e Leão abominavam aquela farsa da união das duas religiões, e a hostilidade ao varão do imperador crescia, contaminando Dona Urraca e Dona Teresa, iradas por terem sido ultrapassadas por Sancho na linha sucessória.

Certo dia, quando Zulmira passeava pelas ruas de Toledo, dois homens obrigaram-na a segui-los. Fora levada a uma casa e, num ambiente escuro, tinham-lhe proposto um sinistro acordo. Desafiaram-na a matar o meio-irmão Sancho, coisa que ela podia fazer facilmente, pois circulava à vontade na corte. Em troca, o grupo dos conspiradores garantia-lhe proteção contra a fúria de Afonso VI. Zulmira suspirou e depois disse:

Não posso jurar, pois não lhes vi bem as caras, mas suspeito de que entre aquelas pessoas estavam Dona Urraca e Dona Teresa. Zaida levou a mão à boca, compreendendo o perigo que ainda corria a mãe. Se um dia a reconhecesse, Dona Teresa podia mandar matá-la! Há nove anos, em Coimbra, achei que ela me identificara, mas depois percebi que não, recordou Zulmira. Mas outros podem fazê-lo, por isso não fui a Ricobayo nem a Toledo, e fingi doenças. .

Fascinada pelo intrigante golpe palaciano, Fátima perguntou se a mãe havia tentado matar o seu meio-irmão, mas Zulmira contou que, saída daquela obscura casa, rapidamente chegara à crua conclusão de que, fizesse o que fizesse, morreria. Se matasse Sancho, seria eliminada, ou pelo vingativo imperador, no caso de ser descoberta, ou pelos conspiradores, para garantirem que não os denunciava. Mas, se não matasse Sancho, os conspiradores também não a iam deixar viver. Em Toledo, o seu destino estava traçado. A sua única possibilidade era uma imediata fuga, e fora isso que fizera». In Domingos Amaral, Assim Nasceu Portugal, Por Amor a uma Mulher, Casa das Letras, LeYa, 2015, ISBN 978-989-741-262-2.

Cortesia de CdasLetras/LeYa/JDACT

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sexta-feira, 12 de julho de 2024

Fernando Campos. Psiché. «Uma caixa de fósforos, se faz favor. O gesto mecânico do empregado, olhar distante, rosto enjoado, passando o pano sórdido sobre o mármore do balcão…»

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A memória do esquecimento

«Levanto‑me. Vou comprar qualquer coisa e depois venho olhando de frente, digo, deixando António a puxar de um cigarro. Caminho até ao bar. Uma caixa de fósforos, se faz favor. O gesto mecânico do empregado, olhar distante, rosto enjoado, passando o pano sórdido sobre o mármore do balcão, os ombros e a cabeça recortados na superfície polida do grande espelho que corre a todo o comprimento da parede. Procuro nos retalhos de imagens, entre prateleiras de garrafas, reconstituir o cenário atrás de mim, enquanto pago os fósforos. No embaciamento daqueles estilhaços de prata velha a custo reconheço António sentado à mesa e, três filas além, a mancha de um vestido claro, uma vaga sombra de mulher que se ergueu e se afasta. Volto‑me para regressar. E este voltar‑me... Como o virar de página do tempo! Trinta anos transcorridos!... Aquele meu voltar‑me para não encontrar ninguém! Apenas uma mesa vazia. No pires, junto à chávena, um guardanapo de papel amarrotado, uma ponta de cigarro esmagada... Perdi para sempre a ocasião de alguma vez me encontrar com ela? De saber quem era?... Os anos desataram a transformar em húmus e a diluir em éter, numa vertigem, aqueles que foram protagonistas ou meras testemunhas desses insólitos acontecimentos. Caíram na voragem novos e velhos: Silva Lisboa, Albertina, outros... Os que ficaram, ainda quando aqui e ali roçaram por eles vestígios vivos desse passado, fecharam‑se numa cómoda ausência de curiosidade ou uma estudada distanciação e apatia. Como que acabaram por esquecer.

Nem esquecer‑me nem lembrar‑me podia eu. Factos que mal conhecera fragmentariamente esbateram‑se em nebuloso fundo de outras preocupações que vieram relevar‑se longos anos, em nitidez e luz, na ribalta da vida. Andanças de errante saltimbanco do ofício de professor... Terras distantes escondidas nas voltas das estradas, no tramontar das serras.... Muralhas tisnadas dos séculos e dos sonhos, vigiando a veiga expectante e úbere do vale imenso... Perfumes e cores exalando‑se do seio do oceano na ilha perdida como nenúfar que floriu no cume de um vulcão extinto... Banho de brancura luminosa, olhos magoados da claridade do céu e da cal de paredes e açoteias mouriscas... Maresia ribeirinha de gaivotas e traineiras ondulando no porto fenício... Até vir aproar na cidade de Ulisses a lustrar‑me de rosa... Que me chamou então de novo, decorrido tanto tempo, a atenção para o mistério?...

Toma!‑ disse‑me Fernanda um dia ajoelhada no chão à boca da antiga mala abaulada, enquanto me ia entregando livros, embrulhos, velhas fotografias. "Esta mala! Viajou connosco tantos anos por todo o lado!...E parava, cansada, com as mãos no regaço, o olhar tresmalhado no passado. De súbito acordava e tornava a mexer na papelada. Estes são os álbuns dele. Que canseira miúda e aturada! As mãos dele! Estou a vê‑las, habilidosas, a recortar, a colar... Que paciência! Coligidos quase dia a dia, recortes de jornais, postais ilustrados, recordações dos teatros em que actuou, de amigos, artistas, personalidades que conheceu... O desnovelar da vida!... Tudo passou!» In Fernando Campos, Psiché, Difel, Lisboa, 1987, Dl nº 83973.

Cortesia de Difel/JDACT

JDACT, Fernando Campos, Conhecimento, Educação, Literatura, A Arte,

Fernando Campos. Psiché. «Uma caixa de fósforos, se faz favor. O gesto mecânico do empregado, olhar distante, rosto enjoado, passando o pano sórdido sobre o mármore do balcão…»

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A memória do esquecimento

«Pairava no ar um certo receio de se virem a descobrir realidades penosas que fossem contra as conveniências. Ela, sim. Sentia‑se desinibida à beira dele, a conversar com ele. O visconde de Cairu? surpreendi‑a uma vez a perguntar‑lhe. É verdade, respondia ele. E o pai?... Como é que o vovô soube?..., tornava ela. E ele lá contava, com a voz um pouco sumida, à puridade, a estranha história... Flanela azul às riscas... sentado na borda da cama..., o faiscar do anel no dedo mindinho... Basta um pormenor para lhe avivar a imagem! Ela estendia‑lhe as mãos de costas para cima. Ah! É um rapaz! Vou ter um bisnetinho! Mas a vinte e seis de Dezembro nascia uma menina que ele já não pôde conhecer. Foi por isso que não desci esse Natal ao Porto. Tampouco pela Páscoa me fiz à estrada. Tinha, entretanto, tirado a carta e comprara um carro, motorizando‑me, fazendo preito ao progresso. Só lá para os fins dos exames, em Julho, princípios desse outro Agosto, de cinquenta e seis, cheguei do nordeste, nos olhos ainda a longa negra fita de alcatrão ou paralelipípedos a enrolar‑se no galgar dos quilómetros, nos rins o cansaço das intermináveis horas sentado ao volante do Volkswagen, que vinha todo vomitado das voltinhas do Marão. Foi António o primeiro que falou. Não porque sentisse necessidade de abordar o assunto. Aliás, posteriormente, quando eu já me encontrava senhor dos acontecimentos, compreendi aquele como que preconceituoso pudor da família em rodear o caso de um espesso mutismo. O que o fez falar foram as circunstâncias... Aí estava ela! Não, não olhasse ainda, para não dar nas vistas!... A mesa da terceira fila, atrás de mim...

Animava‑se o café àquela hora, onze e meia da manhã, acabada a missa. Homens fumando, chávena vazia à frente ou por instantes aflorada aos lábios, jornal aberto, folheado, saboreado. Fatos cuidados, na ausência de nódoa ou enxovalho, no vinco recente da calça. Barba escanhoada, camisa lavada. Catarro matinal, tabacal. Aos pés de um deles, cabelo ralo todo lambido de brilhantina, para trás, cara chupada, o macaco coçado, os tornozelos escanzelados a saírem das peúgas lassas e do calçado cambado, faz o engraxador chiar e estalar a tira de pano lustroso ao polir do sapato. Dá‑se um casal ao luxo da fofa loira torrada com manteiga, em palitos, lambuzando os dedos. Os dela são papudos e brilham de jóias. Por detrás do tinir das xícaras, pires e talheres, das vozes dos empregados de mesa a comunicarem ao bufete os pedidos dos clientes (Sai um galão! Três pingos e um copo de leite com canela!...), por entre a névoa que paira no ar, misto de fumo e de vapor que embacia as vidraças, vêm de fora as vibrações do tanger dos sinos. Coisa concreta, que quase se corta à faca, a respiração e o perfume domingueiro. Que semelhança!, continuava António. Enquanto o escutava, eu ia esperando a oportunidade de me voltar para trás. Aparecia por ali muitas vezes, no Amial, dizia a voz dele. Morava talvez perto ou então andava a espiá‑lo, a persegui‑lo. Isto pelo menos era o que insinuava sua mulher, a Catalina, desconfiada... Cruzava com a desconhecida na rua, nos lugares mais diversos e imprevisíveis da cidade, na Cordoaria, na Avenida dos Aliados, na Lapa. Olá, sobrinho!, palavras dela no ar quando passava... As feições um pouco menos amaciadas mas muito parecidas com as de Fernanda e com um retrato antigo que ele vira da avó Ana... Teria aí uns vinte e dois anos. Parece que aquilo fora caso acontecido aquando da morte de Raquel... Estranha coincidência! O nascimento e a morte! Para Silva Lisboa tornara‑se motivo de funda meditação. Albertina, porém, não podia admitir a junção dos dois factos, das duas dores a lancear‑lhe a alma. Em cima da perda da filha, aquilo!... Olá, sobrinho! Que queria tudo isso dizer?...» In Fernando Campos, Psiché, Difel, Lisboa, 1987, Dl nº 83973.

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