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quarta-feira, 16 de abril de 2025

A Ponte dos Suspiros. Fernando Campos. «Coisa que me não parece curial. Quê? Afinal, porque o prendestes? De que o acusais? Ele é réu de que crime?»

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O Sósia

«(…) Parece que a Senhoria procedeu assim a instigação do embaixador de Espanha. E como poderia o embaixador de Espanha saber?, perguntou frei Estêvão. Nem quero pensar, disse frei Crisóstomo com ar grave, que entre nós haja um traidor. Pode lá ser!, exclamou Pimentel levando a mão ao punhal. Teria de se haver comigo. E comigo, disse Pessoa. Tens razão, Pimentel, secundou Nuno Costa. Não pode ser. Talvez, antes, tenha havido inconfidência saída de casa do arcebispo... E lançava aos companheiros um olhar sagaz. Vou à Senhoria, disse Frei Estêvão. Hei-de falar com alguém do Conselho. Quero saber o que se passa. No palácio o juiz Marco Quirini recebeu-o com solicitude, disse que o processo estava confiado a mais três juízes, além dele, e que seguia com todas as cautelas dada a gravidade e o melindre da situação. Queremos honestamente esclarecer a identidade do preso e apurar a verdade. Temos-lhe feito constantes interrogatórios... E ele?..., afirma e confirma o que vós bem sabeis. Não me conformo, disse frei Estêvão. Há aqui qualquer coisa que me não parece curial. Quê? Afinal, porque o prendestes? De que o acusais? Ele é réu de que crime?

Visivelmente embaraçado, Marco Quirini respondeu: Ele foi intimado pela Senhoria a, no prazo de oito dias, sair dos territórios da República. Não obedeceu. E que crime cometeu ele para ser expulso da República?... Não respondeis. Respondo eu: o crime de afrontar a Espanha. Examinamos o caso com isenção... Sob a pressão do embaixador castelhano. Não nos deixamos conduzir por qualquer influência. Se chegardes à conclusão de que ele é um embusteiro..., será condenado. Se finalmente acreditardes que ele é o rei de Portugal... Teremos de enfrentar a inimizade da Espanha. Da Espanha?, exclamou frei Estêvão levantando-se. E a França? E a Flandres? E a Inglaterra?... Marco Quirini acompanhou-o à porta: Poderei dar-vos um conselho? Agradeço-vo-lo. Ide a Portugal. Procurai obter dados, sinais, indícios, traços concretos da identidade de el-rei Sebastião... Estai certo de que assim farei. Não desistirei enquanto não libertardes o meu rei.

A Ponte dos Suspiros

Gaivotas e pombas são as minhas visitas, às vezes um ou outro pardal pousa a medo no beiral do meu janelo de grades. Dou-lhes migalhas do meu pão. Habituam-se ao ritual e acabam por também eles serem o meu relógio dos dias intermináveis. A única vantagem deste meu cárcere é não se situar nos caboucos do palácio, mas alcandorar-se cá em cima no balouçar dos nevoeiros, sobre a ponte dos Suspiros. Sinto a maresia subir até mim, mas não vejo o canal nem a laguna. Esta experiência me faltava, ser encarcerado e ter a fragilidade ameaçada com a prepotência de interrogatórios, a iminência de torturas e talvez até de morte ignominiosa. Que fazer? Luto por que tempo e lugar se não alonguem de mim e me não deixem abandonado à impotência da angústia, suspenso sem amarras que me amparem a queda no aniquilamento. Acuda-me este pombo que agora aí pousou e se está meneando em vénias e arrulhos. Parece saudar-me. Estendo-lhe a palma da mão cheia de migalhas, como costumava em San Beneto, em casa de Jerónimo Migliori, com os pombos a esvoaçarem-me em redor, a pousarem-me nos ombros, nas mãos» In Fernando Campos, A Ponte dos suspiros, 1999, Difel SA, 2000, ISBN 978-972-290-806-1.

Cortesia de Difel/JDACT

 JDACT, Fernando Campos, História, Literatura, 

terça-feira, 26 de março de 2024

A Ponte dos Suspiros. Fernando Campos. «Chegava Maio. Frei Estêvão e Marco Túlio que, disfarçados, rondavam o Bargello, certa madrugada viram el-rei ser levado, sob forte escolta, numa carroça, atravessar o Arno por il ponte Vecchio e, pela porta Romana, abandonar a cidade em direcção ao sul»

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A Ponte dos Suspiros. Os Sinais do Corpo

«... que ele nunca chegou a usar, adiantou frei Estêvão. Depois, enquanto el-rei ajoelhava diante do túmulo a rezar, os companheiros passeavam os olhos pelo recinto, desde o pavimento em cosmatesco à abóbada com medalhões de Luca della Robbia, aos frisos com os brasões da família, ao painel dos três santos... Que santos são?, perguntava Túlio em voz baixa. São Tiago, e o frade apontava, aquele São Vicente e este Santo Eustáquio.

Porquê? O primeiro, patrono do cardeal. Sabeis latim? Não? Iacobus é o nome latino de Jaime. O segundo por ser padroeiro de Lisboa, de que ele foi bispo... o terceiro, concluía el-rei que se lhes juntara, por ser o santo de seu título cardinalício. Observavam agora a estátua jacente, a serenidade da expressão do cardeal, os dois puni segurando o manto mortuário...

Nada melhor que o mármore, observou Marco Túlio, para dar a ideia do sono eterno... e liam o epitáfio... MORS IVVENEM RAPVIT... VIX.NA.XXV.M.XI.D.X. OBIIT AN.SAL.MCCCCLIX..., morreu na idade de vinte e cinco anos, traduzia frei Estêvão, onze meses e dez dias, em mil quatrocentos e cinquenta e nove...

Ao descerem da colina, disse el-rei: Procuremos agora a protecção do grão-duque meu primo. Seguiram pela margem do Arno em direcção ao palácio ducal. Aguardava-os a sombra negra de Filipe de Espanha: o grão-duque, receoso de outro sucesso como o de Veneza, negou-se a recebê-lo e ordenou que o prendessem no Bargello.

Frei Estêvão e Marco Túlio ficaram cá fora descoroçoados, sem bem saberem que fazer. Enfadados se viram também os fidalgos portugueses, em Veneza, com as novas que lhes chegavam das buscas castelhanas. Ordenaram de partir todos, cada um por seu caminho, uns por mar, outros por terra, para Florença e lá se ajuntarem.

Acrescentou-se-lhes o enfado, aí chegados, com saberem pelos dois amigos da prisão de el-rei e ainda mais quando se acharam, por ordem do grão-duque, intimados a sair do estado da Toscana.

Os meses escoavam-se. O grão-duque carteava-se com Filipe terceiro. Dispunha-se, com ânimo servil, a entregar-lhe o prisioneiro. Dissesse Sua Majestade o que houvesse por bem. Faz o rei de Espanha reunir o conselho de estado, que sugere seja o homem entregue ao vice-rei de Espanha em Nápoles. Devia este averiguar las senales públicas y secretas del charlatán... quien es y de que lugar y que el lo confiese y quien le há metido en este enbuste. Não o condenassem à morte, mas a galeras perpétuas, vindo depois a Espanha para que en todas partes sea visto y con esso se desenganen deste falso rumor...

Chegava Maio. Frei Estêvão e Marco Túlio que, disfarçados, rondavam o Bargello, certa madrugada viram el-rei ser levado, sob forte escolta, numa carroça, atravessar o Arno por il ponte Vecchio e, pela porta Romana, abandonar a cidade em direcção ao sul. Afastados e escondidos, vigiavam também os olhos de Nuno da Costa». In Fernando Campos, A Ponte dos suspiros, 1999, Difel SA, 2000, ISBN 978-972-290-806-1.

Cortesia de Difel/JDACT

JDACT, Fernando Campos, História, Literatura,

A Ponte dos Suspiros. Fernando Campos. «Sem demora atravessaram o rio por San Nicolò e por Monte alle Croci subiram a San Miniato. Pararam a olhar do alto o casario, do vermelho dos telhados a erguerem-se as torres de pedra alvacenta…»

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A Ponte dos Suspiros. Os Sinais do Corpo

«A manhã clareava, avistava-se a grande distância o casario de uma cidade, algumas ribas mais elevadas do Pó erguiam-se um pouco acima do trasvaze das águas, vararam o barco na raiz de uma colina, junto a um açude abeberado de choupos e canaviais.

Há muito que desconfiava, disse frei Estêvão. Julgo saber quem é. El-rei acordava. Não prosseguiram a conversa. Saíram em terra e, um pouco acima, abrigados da nortada na concha de uma lapa, sentaram-se. Marco Túlio fez-lhes sinal que aguardassem. Viram-no desaparecer na lomba do teso e daí a obra de alguns minutos chegava ele com um molho de lenha e, pendente da cintura pelas patas, um corpulento coelho de olho vidrado e pingando sangue dos narizes: O vosso dejejum, Alteza.

O rei lembrou-se de Telo e o seu olhar entristeceu. Petiscado lume, levaram as cavacas algum tanto a pegar, mas ao fim, com a paciência e a arte de Túlio, uma boa fogueira crepitava e o coelho, esfolado e estripado pela destreza do pajem, assava num espeto de salgueiro ressumando banha.

Se me não engano, disse frei Estêvão, aquela cidade além... deve ser Ferrara... acrescentou el-rei. É Ferrara, asseverou Túlio. Conheço-lhe as muralhas e, lá dentro, as flechas da catedral e a torre do castelo. Apesar de terra do papa, propôs frei Estêvão, será melhor evitá-la... os espanhóis já devem estar avisados... alongarmo-nos mais adiante, por Bolonha, caminho de Florença e daí rumar a Livorno no mar da Ligúria, a tomarmos barco para França...

Para prevenirem serem reconhecidos por possíveis esculcas, Marco Túlio, useiro nestas artes, vestiu-se de florentino, el-rei largou o capelo e tomou chapéu e espada, só frei Estêvão permaneceu com seu hábito de São Domingos. Fizeram jornada por Bolonha até Florença.

Eis terra amiga!, disse el-rei à vista da cidade. Seremos aqui bem acolhidos. De onde vos vem essa esperança, Alteza?, perguntou o frade. É meu primo o duque da Toscana, Fernando primeiro. Deus vos ouça. Mas, antes de lhe irmos falar, desejo visitar o túmulo de um ilustre príncipe português. Aqui? De quem falais? Do cardeal dom Jaime, filho do infante dom Pedro e neto de el-rei dom João primeiro. Está sepultado na basílica de San Miniato al Monte.

Sem demora atravessaram o rio por San Nicolò e por Monte alle Croci subiram a San Miniato. Pararam a olhar do alto o casario, do vermelho dos telhados a erguerem-se as torres de pedra alvacenta, em volta colinas azuladas, as manchas verde-negras esguias dos ciprestes, a cinza rebolada dos olivais, o espelho do rio a cintilar.

Quem mandou construir a capela do cardeal de Portugal?, perguntava Marco Túlio ao entrarem na basílica. Não sei grandes pormenores, respondeu el-rei. Dinheiros do infante dom Pedro, seu pai, depositados em Florença e distribuídos pelos irmãos herdeiros, parecem ter pago os custos. Caminharam em silêncio até à entrada da capela e logo na fachada depararam, ao alto, com o brasão do príncipe encimado pelo chapéu cardinalício...» In Fernando Campos, A Ponte dos suspiros, 1999, Difel SA, 2000, ISBN 978-972-290-806-1.

Cortesia de Difel/JDACT

JDACT, Fernando Campos, História, Literatura,

domingo, 24 de março de 2024

A Ponte dos Suspiros. Fernando Campos. «Tire-se um rei, ponha-se outro, conquanto, na floresta de enganos e desenganos, permaneça a ressurreição... Sabeis, que temos entre nós um traidor? Acordou Marco Túlio a frei Estêvão do solilóquio interior»

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A Ponte dos Suspiros. Os Sinais do Corpo

«Dobaram as horas até que, alta madrugada, regressou frei Estêvão com o hábito. Vós, senhores, dizia enquanto ajudava el-rei a vestir-se, ficai aqui quietos, como se Sua Alteza estivesse pousando. Sem fazerem bulha saíram ambos, com Marco Túlio, e se foram pelo Grande Canal, entrando pelo rio de San Vio, ao mosteiro de São Domingos. Aqui, senhor, dizia o frade, estais seguro e fora de perigo daquela canalha que pela boca da rua fervia. Agora, disse el-rei, é urgente que eu saia da cidade. Estará tudo prestes em pouco espaço, Alteza.

Foi dentro e tornou com um fradinho velho que faria companhia a el-rei naquela jornada. Mas o frade, mal se viu embarcado na gôndola com um mar alteroso, apertou-se-lhe o coração e saiu fora, não havendo maneira de o convencer a acompanhar o viajante. Vejo-me forçado a ir convosco, disse frei Estêvão. Seria melhor que eu ficasse, para desnorteio dos Castelhanos. Sou mais conhecido e de maior suspeita. Mas, a Deus graças, que serei vosso ditoso companheiro neste transe.

Marco Túlio por barqueiro, na manhã nascente se partiram, com vento teso, fazendo-se às águas revoltas que, não fossem as casas, confundiam canais, rios e ruas da cidade. Em redor da casa de dom João, os Espanhóis alvoroçavam-se. Corria que alguns deles haviam visto entrar um frade e saírem dois. Informado, o embaixador expediu logo correio por mar para ir dando rebate dos frades por todas as ribas e costas. Mas já, esgueirando-se por entre canaviais, sinuosidades de ribeiras, véus de choupais, moitas de funchos na pantanosa planície, os fugitivos iam longe. Sob o toldo da ré acomodou-se o rei, fatigado. El-rei adormeceu, disse Marco Túlio em voz baixa manobrando o timão.

Frei Estêvão olhou o rei e o pensamento enfunou-se-lhe como as velas da falua. Aqui vou eu com Sua Alteza. Aqui vou eu a caminho do futuro, de não sei onde nem quando, a caminho de algures, de alhures, escoltando uma ideia. As mudanças não alteram a natureza das pessoas. Arreiem-se bandeiras dos mastros, para ver ondular ao vento outras cores e outros símbolos, abafem-se hinos, amordacem-se gritos de guerra, para gritar outros ideais, cantar outras verdades. Anatematizem-se reformas, para decretar em concílios dogmas de outra fé, caminhos das consciências. Apeia daí o teu ídolo, o teu herói, para eu lá colocar o meu. Sábio foi aquele príncipe que não permitiu lhe erguessem estátua nos Estaus. Troquem-se os nomes de ruas, de pontes, de castelos e palácios, de cidades, nações e reinos. Não se muda o essencial, que é o destino e a morte.

Tanta canseira, meu Deus! Doem-me os ossos da alma. Amortalha-te, também tu, no capote e dormita... Mas esta luta não é de casca de ovo, de cortiça de árvore, senão do âmago, do cerne, da gema, da seiva. El-rei é a ressurreição da liberdade dos antepassados, que lavraram a terra, o mar e a história... Como ele dorme! Que frágil parece! E se os inimigos o alcançam? Se mo matam?... Não matam a ideia. Irei até ao fim. Para o proteger ou para o ressuscitar fá-lo-ei, se for preciso, substituir por esse outro que, parecido com ele, aí vai a velejar o seu sonho. Tire-se um rei, ponha-se outro, conquanto, na floresta de enganos e desenganos, permaneça a ressurreição... Sabeis, que temos entre nós um traidor? Acordou Marco Túlio a frei Estêvão do solilóquio interior». In Fernando Campos, A Ponte dos suspiros, 1999, Difel SA, 2000, ISBN 978-972-290-806-1.

Cortesia de Difel/JDACT

JDACT, Fernando Campos, História, Literatura, 

quinta-feira, 21 de março de 2024

A Ponte dos Suspiros. Fernando Campos. «Fez menção Nuno da Costa, que se mantivera à porta, de o acompanhar, mas Marco Túlio adiantou-se-lhe: Eu vou com frei Estêvão. Saíram os dois e, tomando a barca que o frade havia fretado, desapareceram na noite»

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A Ponte dos Suspiros. Os Sinais do Corpo

«Foi Sebastião Neto, o meu barbeiro, quem mo tirou. Quem me sabe dar notícias dele? Frei Estêvão Sampaio... Lembro-me dele... deve estar a chegar. Quando foi a Lisboa pelos sinais, falou com ele... Quiseram calçar-lhe o sapato. Com o peito do pé tão alto não conseguiram. Então el-rei, com a maior das facilidades, o calçou.

Senhor, disse dom Cristóvão, tendes de comer qualquer coisa de alimento. Deveis estar fraco. Não, primo, não. Hoje é sexta-feira, não quero quebrar o voto de jejum. Com graciosidade notava a diferença de vestimentas dos que o rodeavam: Diogo Manuel veste à francesa, Sebastião Figueira à flamenga, meu primo dom Cristóvão à italiana... e eu, meu Senhor, disse rindo dom João Castro, à veneziana...

É verdade, é verdade. À portuguesa só vejo Pimentel e Neiva, que os irmãos vestem seus hábitos e Francisco António... bordão e sombreiro como peregrino... vestes que eu tantas vezes usei por esse mundo de Deus... Rogou então dom João Castro a el-rei que, pois tinham a dita de terem vivo ali na sua presença o seu rei, lhes fizesse Sua Alteza a graça de lhes contar alguma coisa de sua fadigosa peregrinação.

Não me lembreis mágoas de meus trabalhos. Tempo virá de minha prosperidade e então, com grande gosto, vos contarei o que agora me seria tão penoso se o renovasse na memória. Dai-me antes vós notícias de Portugal. Que é feito, Dom João, de vossos irmãos? Lembro-me de que vossos pais tiveram uma ninhada de filhos... Oh, Senhor! Lembrar o que lá passa é coisa triste, um vazio de alma. Nada sei de meus irmãos João, Fernando, Francisco... Manuel casou com Beatriz de Vilhena, Violante com o conde de Odemira, Luís morreu em Alcácer... Mea culpa.

Dos tios pouco sei. Fernando morreu abrasado na mina do baluarte de Dio, Miguel morreu capitão em Malaca... E Cristóvão? Do tio Cristóvão não sei nada, nada... - Sabeis alguma coisa de dona Catarina de Bragança? Quando, depois da morte do cardeal vosso tio, respondeu o cónego Rodrigues, se apresentaram os herdeiros ao trono de Portugal, a senhora duquesa era na primeira linha dos direitos... Eu sei. Depois... contra a força dos exércitos do duque de Alba e a inércia no interior do reino...

Era doloroso recordar tais factos; e os senhores, para poupar el-rei, falavam-lhe de coisas menores, dos paços da Ribeira, do Castelo, de Enxobregas, da torre de São Gião... E ainda fazem em Lisboa a procissão de São Sebastião que se ordenou pelo meu nascimento? Os mais não sabiam responder, mas o cónego acudia dizendo que em algumas paróquias dirigidas por padres velhos ainda se fazia sem serem molestados. Perguntava el-rei por om Teodósio, arcebispo de Évora, por dom Fernando de Meneses, o Boca Aberta, por dom Luís de Noronha, por dona Maria de Alcáçova...

Ah! Dona Maria!, exclamou dom João. Poderei ser um pouco irreverente convosco, meu senhor? Aquele jovem rei orgulhoso, colérico, intratável, egoísta, que vós conhecestes, morreu há muito tempo. Falai à vontade. Senhor, todos julgavam, nesse tempo, que vos era indiferente senão incómodo o trato com mulheres. E agora perguntais vós por tão formosa dona?... Eu sei. A evocação do seu nome traz-nos ao teatro da memória o de seu pai, Pedro de Alcáçova, fidalgo de vossa casa e de vossa confiança... Como mudam os tempos e as vontades! Com a notícia da vossa morte, o cardeal vosso tio mandou-o prender...  chorava ele a morte de dois filhos na batalha de Alcácer... disse frei Lourenço… fê-lo julgar... Alcáçova, por ressabio e aliciado pelo traidor Cristóvão de Moura, tomou o partido de Filipe segundo. Já rei usurpador de Portugal, Filipe restituiu-lhe os bens, fê-lo conde de Idanha, membro do conselho do vice-rei o cardeal Alberto...

Coisas tristes me contais. Mas não é triste certamente, meu senhor, a lembrança daquela belíssima criatura que era dona Maria de Alcáçova... Quereis lembrar-me que ainda não respondi à vossa pergunta, não é? Se assim o quiserdes entender, Senhor... É, sim, uma grata recordação... aqueles olhos, aqueles cabelos em ondas de oiro sobre os ombros, o donaire do andar, do busto, das... Olhai, amigos. Parecia eu indiferente? Nesse tempo considerava com raiva por que razão não podia um rei casar senão com uns fantoches sem alma que lhe propunham os reis e príncipes dos outros reinos da Europa... Que é feito dela, de dona Maria? Casou, claro. Com dom Álvaro de Melo, senhor, neto de dom Rodrigo, conde de Tentúgal e marquês de Ferreira.

Nisto irrompeu porta dentro frei Estêvão de Sampaio e, logo após, Nuno da Costa. Senhores!, dizia o frade com calor. Estamos rodeados de espiões. Que aconteceu? Esta gente do embaixador de Castela que vejo em duas ou três faluas a rondar-vos a casa?... Deu-se conta, de súbito, do estranho acatamento com que todos, de pé, rodeavam aquele homem sentado com natural dignidade em frente da lareira. O silêncio que mantiveram e aqueles olhos espetados a fitar-lhe a entrada tempestuosa fê-lo compreender:

Meu senhor!, arrojou-se frei Estêvão aos pés de el-rei. Então fostes vós, frei Estêvão, que vos destes à canseira de ir a Portugal... dizia el-rei tomando-lhe os braços para que se levantasse. Meu senhor, agora há urgência em vos tirar daqui sem serdes reconhecido... Sugiro, disse dom João de Castro, que vós ou frei Lourenço vá a um dos vossos mosteiros por um hábito em que Sua Alteza se possa salvar pelo meio desses aleivosos que espreitam lá fora. Mais despachado, frei Estêvão logo se prontificou: Pois Nosso Senhor tem guardado Vossa Alteza de tantos perigos, vos há-de salvar de mais este.

Fez menção Nuno da Costa, que se mantivera à porta, de o acompanhar, mas Marco Túlio adiantou-se-lhe: Eu vou com frei Estêvão. Saíram os dois e, tomando a barca que o frade havia fretado, desapareceram na noite». In Fernando Campos, A Ponte dos suspiros, 1999, Difel SA, 2000, ISBN 978-972-290-806-1.

Cortesia de Difel/JDACT

JDACT, Fernando Campos, História, Literatura,

quarta-feira, 13 de março de 2024

O Astrólogo e o Rei. Brigid Hampton. «Isto é mais do que uma mera tempestade. A voz do Pai vacila. Inclina o ouvido para o canto da cozinha, como se ouvisse uma tempestade levantar-se ao longe»

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Salamanca

«Batem com força à porta de entrada, acordando Ari das suas divagações. Ouve vozes no átrio, pousa a pena e levanta-se, para dar com o Pai a tentar apoiar um homem velho e pequeno, que se arrasta a custo no outro lado do átrio. Assim que Ari vê os seus rostos cor de cinza, sabe que aconteceu mesmo qualquer coisa especial, e que hoje não será um dia igual aos outros.

Pai! Rabi Isaac!, grita, correndo em seu auxílio. O que se passa? O idoso rabi faz uma careta de dor quando o sentam com cuidado numa cadeira da cozinha. Tem a respiração ofegante e o rosto, coberto por tufos de barba branca, reluz brandamente sob uma fina camada de suor. Ari vai buscar água e leva o copo aos lábios do rabi. Ele bebe devagar, parando entre goles para balbuciar em voz baixa. Engasga-se e gagueja como se ainda tivesse qualquer coisa do pequeno-almoço presa na garganta. Finalmente, numa voz rouca do esforço, sai-lhe uma palavra de um jacto. Exílio!

As quatro sílabas ficam suspensas no ar. Atónito, Ari agarra no braço do Pai e sonda-lhe o rosto. Ele sabe pela Torá que o exílio é o caminho para a redenção. Então, porque se mostra o rabi tão receoso?

Não faz sentido! De certeza que o Pai, com todo o seu saber, vai conseguir explicar! Mas os olhos do Pai, normalmente calmos, estão agora vítreos. Tem as feições de pedra e o sangue fugiu-lhe da face, como se tivesse uma dor de dentes. Também está a ter dificuldade em mover o queixo.

Saiu um édito, balbucia, com a voz pesada de desespero. Temos três meses para ir embora. O choque invade Ari de repente. O mesmo choque que sentiu quando era criança, quando caiu da ponte para o rio. A torrente engole-o, tirando-lhe o ar dos pulmões. Não consegue respirar. Sente o sangue a latejar-lhe nos ouvidos. Está a afogar-se, vira-se para o Pai, à procura de ajuda, mas ele já se deixou cair como uma trouxa mal feita na cadeira ao lado do rabi.

Samuel deve ter ouvido toda aquela agitação, porque está encostado à porta, a fungar e a assoar-se com um lenço húmido. Apoiando-se na mesa de madeira acabada de esfregar, Ari olha de novo para o Pai, à espera de uma orientação. Mas o Pai tem os olhos fechados e uma expressão de descrença no rosto, como se tivesse acabado de descobrir que uma das leis universais que tanto ama tivesse sido violada.

Uma onda de vergonha apodera-se de Ari. E se os céus o ouviram? E se tudo aquilo for culpa dele? Desejara que acontecesse qualquer coisa de empolgante. Esperara que houvesse uma mudança. Não vale a pena tentar negá-lo. A culpa é mesmo dele. Devia ter estado a trabalhar nos seus  cálculos. Em vez disso, rezara para que acontecesse qualquer coisa de extraordinário. E agora tinha acontecido. Mas era uma coisa tão terrível que ninguém no seu perfeito juízo o teria desejado alguma vez!

Inclina-se para a frente e sussurra ansiosamente ao ouvido do pai: Pai, a culpa e minha! Sou eu o culpado. Desejei que acontecesse qualquer coisa especial que mudasse tudo! O Pai ergue os olhos para ele, espantado. Depois o rosto dele suaviza-se, e os seus olhos cinzentos enchem-se de lágrimas. Não! A culpa não é tua, Art, diz ele, estendendo a mão e pegando-lhe no braço. Estavas só a sonhar outra vez. Ainda nem sequer és um homem. Como poderia a culpa ser tua?

O ar volta a entrar nos pulmões de Ari. O Pai tem razão. Como poderia ser culpa dele? Um rapaz de 14 anos? Quase 15! As suas ideias arrebatadas? Era impossível, mas então de quem era a culpa? Quem faria uma coisa destas? Deve haver um engano qualquer. As lágrimas descem pelo rosto do Pai sem que ele se aperceba. Tem uma expressão perplexa. No silêncio da cozinha, o rabi é o primeiro a falar.

Não há engano nenhum, diz, com a voz estrangulada. O inquisidor da rainha proclamou o édito na praça ainda esta manhã. Está uma cópia afixada na porta da catedral. Mas porquê?, pergunta Ari. É o castigo de Deus. Mas que mal é que nós fizemos? Com os olhos vermelhos, Samuel aperta o lenço na mão.

Foram o rei e a rainha que assim planearam, diz o rabi, passando uma mão cansada pela face. Ari vê uma luz de esperança acender-se no rosto do Pai. A rainha, diz ele, com os lábios a tremer. Talvez eu consiga uma audiência na Corte. Pedir que atenda ao nosso caso. Por causa do meu trabalho...

Não se trata só do rei e da rainha, diz o rabi Isaac. Trata-se do inquisidor-mor e da Santa Irmandade, com todo o poder da Igreja Católica a apoiá-los.

O Pai passa os dedos trémulos pela barba. Tosse e tenta de novo. Talvez a rainha abra uma excepção para nós... Não, Abraão, não haverá excepções. Tem razâo. O Pai torce as mãos; desapareceu-lhe a luz da face. Tenho andado a estudar as constelações e vi os sinais que vêm dos céus.

Coragem, diz o rabi Isaac, reunindo as suas forças. Pense em das as tempestades celestiais que já nos caíram sobre a cabeça. Isto é mais do que uma mera tempestade. A voz do Pai vacila. Inclina o ouvido para o canto da cozinha, como se ouvisse uma tempestade levantar-se ao longe. Há indícios de grandes mudanças, conjunções dos Planetas que significam destruição e revolta. Nunca acreditei nisso até agora.

Lembra-te, Abraão, diz o rabi. Não há nenhum Planeta que tenha poderes para nos governar. Não. A voz do Pai adquire uma ênfase súbita. Vem aí o fim do mundo. Isto é o Apocalipse». In Brigid Hampton, O Astrólogo e o Rei, Porto Editora, 2022, ISBN 978-972-003-487-8.

 Cortesia de PortoE/JDACT

JDACT, Brigid Hampton, História, Conhecimento, João II, Cartografia, Literatura, 

terça-feira, 12 de março de 2024

O Astrólogo e o Rei. Brigid Hampton. «Os teus cálculos estão péssimos. Devias estar a estudar. Ari baixa os olhos para o exercício, molha a pena no tinteiro e segura-a, suspensa, sobre o papel»

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Sevilha, 1492

«(Ismael desviou ou olhos. Não disse o que Paloma já tinha adivinhado. Os documentos que planeara esconder continham cópias de um mapa . que ele e o Papá tinham roubado da Corte. Se fossem apanhados, seriam todos julgados como traidores e queimados nas piras da Inquisição (maldita).

Ao longe, ouve-se ladrar um cão solitário. A alça do saco de Paloma enterra-se-lhe dolorosamente no ombro, e sente um bater desordenado no peito, no sítio onde o Papá diz que fica o coração. Tropeça e pega na mão de David, rezando para conseguirem passar em segurança. Isto é só o princípio do fim. Não é o fim. O que lhes trará a manhã?

Esforça-se por pensar na rota que Ismael planeia seguir, atravessando o rio Guadalquivir, passando pelas ruínas de Itálica através dos velhos campos de trigo de Roma, e depois subindo as colinas. Avançam-apressadamente e em silêncio. O vapor da sua respiração ofegante flutua acima deles, dissolvendo-se na noite.

Salamanca

O fumo é sempre a primeira coisa que Ari procura quando abre a janela. Nos dias em que queimam conversos na praça, consegue ouvir os gritos e os uivos da multidão.

Sente o estômago às voltas só de pensar nisso. Nesses dias, é-lhe impossível concentrar-se. Tem de trancar as janelas para evitar o fedor enjoativo que o vento traz da pira, e ao cair da tarde há uma camada de cinzas gordurentas que se lhe cola aos dedos se não limpar primeiro o beiral da janela.

Debruça-se sobre o parapeito para afastar as portadas. Hoje a viela está silenciosa. O céu é de um azul transparente. Ao longe, consegue ver os contornos do pináculo da catedral. Abaixo, nas margens do rio, há mulheres a lavar roupa e a pendurá-la nas cordas que se estendem entre as árvores, com as suas vozes cantadas a erguer-se por cima do rio'

Nem um sopro de vento. Nem o mais pequeno cheiro a fumo. Graças sejam dadas a Deus! Hoje não há autos de fé na praça. Com um suspiro de alívio, volta para o escritório. Há uma tira de luz que se projecta à sua frente, lançando uma luz dourada sobre a página em branco do seu livro, numa dança brincalhona. O irmão mais velho, Samuel, já está sentado à secretária. Com a pena na mão, tem o olhar fixo nos cálculos que o Pai lhes deixou para completar.

Fecha a janela, diz Samuel, sem erguer os olhos. Espirra e limpa com um lenço o nariz a pingar. O Pai quer que acabemos estes hoje. Ari fecha a janela e senta-se ao lado do irmão. Distraído, agita-se no lugar, brinca com a pena de junco, fazendo agitar à volta do dedo. O dia estende-se à sua frente numa monotonia sufocante e interminável.

Se ao menos acontecesse qualquer coisa. Uma coisa diferente. Uma coisa fora do comum. Nada que se pareça com mais autos de fé na praça. Deus nos livre! Mas uma coisa especial. Uma mudança qualquer que lhe desse uma desculpa para sair da secretária, da interminável rotina de tabelas e ângulos e cálculos feitos sob o olhar cinzento e incansável do Pai.

E vê lá se estás quieto. Samuel afasta dos olhos uma mecha de cabelo. Estás a sonhar outra vez. Os teus cálculos estão péssimos. Devias estar a estudar.

Ari baixa os olhos para o exercício, molha a pena no tinteiro e segura-a, suspensa, sobre o papel. O Pai vai regressar em breve para verificar o trabalho deles. Diz que só através do estudo se ganha mérito. Os números são tudo o que conta, segundo o Pai. São o padrão e a razão do mundo, explicam as leis do universo.

Se o mérito se ganha através dos números, então ele, Ari, nunca terá nenhum. Samuel é bom a fazer cálculos. Tem carradas de mérito. Com um mérito daqueles, seria de esperar que ele se entendesse com o mundo. Ou, pelo menos, que aprendesse a amar melhor o próprio irmão!» In Brigid Hampton, O Astrólogo e o Rei, Porto Editora, 2022, ISBN 978-972-003-487-8.

Cortesia de PortoE/JDACT

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segunda-feira, 12 de fevereiro de 2024

A Ponte dos Suspiros. Fernando Campos. «… ajoelhou-se-lhe em frente e descalçou-lhe o pé direito como para o beijar e, dissimuladamente, correu-lhe com a mão pelos dedos e logo achou o calo que buscava, tão grande que parecia um sexto dedo…»

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A Ponte dos Suspiros. Os Sinais do Corpo

«Apresentados todos e acabados de lhe beijarem as mãos, pareceu-lhes bem que se passassem a casa de Sebastião Figueira, que era duas ruas acima. Foram, mas pelo muito tráfego, não lhe pareceu bem a el-rei e pediu-lhes que se reunissem em rua mais escusa, por via do perigo que todos corriam. Dirigiram-se então a casa de dom João Castro.

Aquela noite saiu o mar Adriático do seu leito e já corria por muitas ruas de Veneza. Tiveram de fazer o percurso em gôndolas, pelas quais se distribuíram, que eram muitos. Temos de prevenir frei Estêvão Sampaio, lembrou Nuno Costa sem embarcar. Ide seguindo, que eu irei chamá-lo ao convento dos beneditinos.

Na gôndola da frente, com el-rei iam dom João e dom Cristóvão. Coisa nunca vista, senhores!, dizia o gondoleiro. E isto é só o princípio. E olhai o prejuízo que já está a causar!... Lojas alagadas, andavam os comerciantes, à luz de archotes, a tentar salvar ricos panos de seda, telas, brocados, peças de cristal finíssimo, especiarias... Isto é dano para mais de vinte mil cruzados. Podeis acreditar... Achais que as águas ainda vão subir mais?, perguntou el-rei. Por este andar! Os meus cabelos brancos não se lembram de cheia assim... E se chega ao tesouro da basílica? Nem quero pensar...

É esta a casa, disse dom João. Quem me houvera de dizer, dizia o gondoleiro, parando a uma porta, que havia de trazer a barca a navegar por cima de terra! Tende cuidado ao sair, que a maré já está muito alta. Saltaram à água, que lhes deu pela cintura, dom João e dom Cristóvão, fizeram Cadeira com os braços para que el-rei se não molhasse.

Arrivederci, buon uomo, disse el-rei. Arrivederci, signor, respondeu o gondoleiro, olhando o homem que de costas, sentado nos braços dos outros dois, se sumia casa adentro. Estas palavras e esta voz!, murmurou persignando-se e afastando-se.

Assentou-se el-rei ao lume e disse: Senhores. Sei muito bem que tendes uma lista dos sinais naturais do meu corpo, trazida de Lisboa por um dos vossos companheiros. Significa isso que vos quereis inteirar de ser eu ou não o vosso rei... Senhor, nós..., ia a entremeter-se dom Cristóvão, mas um gesto de el-rei calou-o: Pois Nosso Senhor foi servido de mos estampar no corpo, por eles se justificará a verdade que minhas palavras por si sós não podem autenticar... e, levantando-se, ante o espanto interdito de todos, despiu seu jubão, sua camisa, suas meias-calças e mostrou honestamente o seu corpo. Pôs-se de joelhos, para que vissem que era mais curto da parte esquerda que da direita... Dai-me a vossa chinela, dom João... Dom João tirou a chinela do pé e entregou-lha. Meteu-a el-rei debaixo do joelho esquerdo e logo o corpo se lhe endireitou.

Fez menção de tirar os cueiros que lhe tapavam as vergonhas, para que nada do seu corpo ficasse por vistoriar, mas não lho permitiu o respeito que os presentes tinham à sua qualidade real. De dor e compaixão, alguns não continham algum soluço abafado. Não nos tenhais, meu senhor, disse dom João Castro com a voz embargada, por tão desconfiados. Nós estamos crentes da verdade.

Cristo, respondeu el-rei, para inteirar a um só homem, descobriu-se e levou-o a meter a mão no lado chagado do seu peito. Então eu, um pecador, não hei-de dar satisfação de mim a tantos de vós?... e, chamando um por um, tomava-lhes das mãos e levava-os a palpar-lhe as feridas recebidas na batalha: ... aqui... isso sim... uma pelourada no bucho do braço esquerdo... não, não, não fiquei aleijado... aqui na sobrancelha direita, de um golpe de cimitarra... aí, aí, sobre a cabeça, da parte esquerda, de uma porrada com maça de armas que fez amolgadela no casco... e a mão direita maior que a esquerda... os dedos longos, unhas compridas... e o braço direito mais comprido que o esquerdo... e o corpo, dos ombros à cintura, dobrado e curto, e da cintura aos joelhos alongado... e a perna direita mais que a esquerda já sabeis... vede aí, no ombro esquerdo, junto ao fio do lombo, um sinal... pardo, com cabelos, como um vintém... e no direito, ao pé do pescoço... outro sinal, preto, como uma unha... e lentilhas nas mãos e sardas... não se enxergam bem... e as pernas encurvadas...

Tornou-se el-rei ao lume e assentou-se entre aqueles seus portugueses radiantes, de sorriso aberto. Dom João Castro ajoelhou-se-lhe em frente e descalçou-lhe o pé direito como para o beijar e, dissimuladamente, correu-lhe com a mão pelos dedos e logo achou o calo que buscava, tão grande que parecia um sexto dedo, enquanto ia falando: Para quem tantos anos já não falava português, pronunciais bem, meu senhor, embora com algum acento estranho, palavras que os estrangeiros não conseguem pronunciar.

Esforço-me por recuperar a boa fala... Mas vejo que no meu pé encontrastes o meu calo. Tendes ainda dúvida?... Oh, meu senhor! ... olhai aqui, dom João, e abria a boca quanto podia, na queixada direita... dom João espreitava: faltava a el-rei um queixal». In Fernando Campos, A Ponte dos suspiros, 1999, Difel SA, 2000, ISBN 978-972-290-806-1.

Cortesia de Difel/JDACT

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sábado, 10 de fevereiro de 2024

A Ponte dos Suspiros. Fernando Campos. «É o senhor dom Cristóvão, filho segundo de vosso primo o senhor dom António I, Prior do Crato, que Deus tenha em sua glória. Olhou-o atentamente: Meu primo dom Cristóvão»

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A Ponte dos Suspiros. Os Sinais do Corpo

«A Deus graças, que a tarde foi de festa. A música que não se fez ouvir na capela cantaram-na os anjos nos corações dos noivos. Umas boas centenas de cruzados farão a alegria da boda, doces e vinho no himeneu. Que sejam felizes... Vê se dormes... As chaves na porta? A estas horas?... A luz das tochas iluminou a quadra. O prisioneiro levantou-se, entravam os juízes.

Não protelemos, disse um deles para Marco Quirini. Lede-lhe a sentença. O juiz leu a sentença. Que dentro de vinte e quatro horas se saísse da cidade e dentro de três dias abandonasse para sempre os estados de Veneza, sem réplica, sob pena de galés perpétuas. A quem o descobrisse e prendesse em contravenção davam mil cruzados. Poderia a sua vida correr risco daquela hora por diante. Que se fosse em boa hora... Os juízes fizeram vénia, viraram costas e saíram. Tomai as vossas coisas, disse o carcereiro, e vinde comigo. Vou acompanhar-vos até à saída.

Por uma pequena porta dos baixos saiu às traseiras do palácio ducal e da basílica de São Marcos. Eram dez horas da noite, soprava um vento crespo que encrespava as águas dos rios, que quase transbordavam. Caminhou lesto em direcção a San Beneto. Quando lá chegou, já a água começava a alagar as margens e a atingir as soleiras mais baixas e o rés-do-chão da casa não tardaria a estar inundado. Jerónimo Migliori e as filhas, com a ajuda de Marco Túlio, andavam a remover para cima os principais trastes... Subia o pajem as escadas com um pote ao ombro esquerdo e outro na mão direita, quando o viu entrar. A largueza das espáduas, acentuada pela extrema magreza, a pele sobre os ossos, o cabelo e a barba tamalavez crescidos, os olhos metidos, as maçãs das faces levantadas, o nariz comprido e um pouco afilado, os beiços delgados, o de baixo ressaindo, de começo Marco Túlio não reconheceu o seu senhor. Mas, quando el-rei sorrindo: Marco Túlio!, disse. Tão atarefado vos faz andar à água?

Meu Senhor!, pousou ele os potes num degrau e desceu açodado a tomar-lhe as mãos. Meu Senhor! Deixaram-vos sair! Ninguém sabia. Subi, subi. Estão na sala alguns senhores portugueses..., e nomeava-os... À entrada da sala, o pajem, na grande expectativa do encontro, ficou especado.

El-rei parou também no limiar. Ao fundo uma grande lareira acesa lampejava clarões de luz e bafos de calor no aposento. Em redor, alguns sentados, outros de pé, conversavam em voz repousada.

É isso que pensais, senhor dom Cristóvão? A Senhoria não pode, perante tão fortes pressões e influências..., de tanta banda e tão altas pessoas... Espanha não dorme. … amanhã ou depois... E porque não hoje?, disse da porta el-rei. Todos se voltaram àquela voz. Senhores, disse Túlio solene: Sua Alteza! Ergueram-se dos assentos e olharam a figura que avançava para eles, como visão, alumiada pelo luar das chamas. Meu rei e senhor! rojava-se-lhe aos pés dom Cristóvão, já os outros se curvavam em vénias e procuravam beijar-lhe as mãos. João de Castelobranco inclinou levemente a cabeça duvidoso, não o reconhecendo, levantava el-rei dom Cristóvão: Senhores, tende calma.

Meu senhor, dizia João Castro, que magro vindes! Sentai-vos aqui à lareira. Marco, trazei alguma colação para Sua Alteza. Não desejo comer, disse, sentando-se. Tenho pressa de sair da cidade... e contou-lhes o teor da sentença. O embaixador de Espanha, disse João Castro, conseguiu ainda botar veneno em tão agra sentença que só o ânimo de Vossa Alteza o consegue suportar. As barbas encanecidas, mas lembro-me muito bem de vós, dom João, e lançava os olhos em redor. Folgo de ver que saístes com vida da batalha... E vós, tão jovem, sois..., fitava dom Cristóvão.

Foi dom João quem respondeu: É o senhor dom Cristóvão, filho segundo de vosso primo o senhor dom António I, Prior do Crato, que Deus tenha em sua glória. Olhou-o atentamente: Meu primo dom Cristóvão. Muito grato em ter-vos comigo. Sabeis que sois parecido com vosso pai e com o infante dom Luís vosso avô? Permita Deus que nas obras os semelheis também». In Fernando Campos, A Ponte dos suspiros, 1999, Difel SA, 2000, ISBN 978-972-290-806-1.

Cortesia de Difel/JDACT

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A Ponte dos Suspiros. Fernando Campos. «… os guardas e o carcereiro acompanharam o prisioneiro aos seus aposentos. Não demorou a noite a cair no quarto mal alumiado. Pão e água,.., pão e água... Deitemo-nos. Vê se dormes»

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A Ponte dos Suspiros. Os Sinais do Corpo

«Chegava também, de Paris, Diogo Manuel Lopes, com seu criado francês Aloé. Vinha como embaixador de França, com as credenciais competentes para se apresentar perante a Senhoria. Acompanhava-o Sebastião Figueira, que servira na Índia, combatera em Alcácer onde caíra prisioneiro e, resgatado, emigrara para Paris após a refrega de Alcântara. Era portador de mensagens dos Estados Gerais dos Países Baixos e cartas do príncipe Maurício Nassau e de dom Manuel de Portugal para o doge.

Chegava ainda Cipriano Figueiredo, herói da resistência da Ilha Terceira aos Castelhanos, que el-rei António I fizera conde de São Sebastião... Não percamos tempo, disse Cristóvão. Solicitemos audiência à Senhoria. Não no-la poderá negar. E não negou. Foram recebidos no salão das recepções solenes, ouvidos com atenção e respeito protocolares e obtiveram do doge a promessa de que o Conselho dos Dez resolveria com presteza o caso do prisioneiro. Ao retirarem-se, frei Estêvão, que os acompanhara, deu-se conta de que se cruzavam com o embaixador de Espanha, que vinha subindo a escadaria com semblante pesado.

Vai contrapesar com ameaças pensou. Para que lado penderá a balança da Senhoria?

Dois anos e vinte e um dias. Não dizeis que hoje são quinze de Dezembro do ano de mil e seiscentos? É há quanto tempo me tendes preso. E ainda me chamais a perguntas? Não bastaram as que já tantas vezes fizestes? O juiz Marco Quirini, sem abrir o carrego do rosto, dirigindo um olhar conivente aos outros juízes, disse: Vimos buscar-vos para uma pequena cerimónia na capela. Uma cerimónia? Mas hoje não é dia nem esta é a hora, tão tardia, da costumada missa dos presos. Vinde. Logo vereis.

À porta da câmara o carcereiro sorriu-lhe desdentado, quando ele passou. Teimais então em afirmar que sois...?. ia o juiz a perguntar enquanto seguiam por um longo corredor.

Não teimo. respondeu. Vós é que me obrigais a repetir a verdade, apesar de a saberdes. Estais cansados de a ouvir? Fechai os ouvidos, que a vou reiterar: eu... sou... Está bem, está bem, cortou Quirini. Não é a isso que viemos. A Senhoria, tocada pela vossa disposição de quererdes casar duas órfãs venezianas da esmola do vosso prato..., da minha miséria..., delegou em nós a efectivação do acto. Os noivos esperam-nos na capela com o sacerdote...

Folgo de saber que a Senhoria deu consentimento. O doge recomendou-nos que estivéssemos presentes e fôssemos, além de vós, os padrinhos. O arcebispo de Espálato, sabendo do caso, rogou-lhe que aceitasse como oficiante o seu secretário, o cónego Battista.

Caminharam em silêncio alguns momentos e, antes de chegarem à porta da capela, ao fundo do corredor, o juiz acrescentou com voz grave: Mais ninguém foi autorizado a assistir senão nós e o carcereiro. Os guardas ficam de serviço à porta. Não tomeis como abrandamento do nosso ministério de juízes a nossa presença. Não tem nada a ver uma coisa com a outra. Estais a prevenir-me para a severidade do vosso julgamento? E quando será esse julgamento? Começo a desesperar de que o despacheis.

Marco Quirini não respondeu e, os semblantes compostos para o recolhimento do lugar e da função, entraram na capela. A cerimónia foi simples e rápida. Assinados os termos do matrimónio, os guardas e o carcereiro acompanharam o prisioneiro aos seus aposentos.

Não demorou a noite a cair no quarto mal alumiado. Pão e água,.., pão e água... Deitemo-nos. Vê se dormes». In Fernando Campos, A Ponte dos suspiros, 1999, Difel SA, 2000, ISBN 978-972-290-806-1.

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terça-feira, 30 de janeiro de 2024

No 31. A Ponte dos Suspiros. Fernando Campos. «… barbas venerandas a escorrerem adelgaçadas até ao peito, acolhia-o paternal de braços abertos Dom João Castro. Permitiam-lho os cinquenta anos e a amizade fraternal que o unira ao pai, o rei Dom António»

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A Ponte dos Suspiros. Os Sinais do Corpo

«Para os que levantaram cabelo, o confisco, o cárcere, o patíbulo, o homizio... Vós também estais homiziado. E falais assim? Medito em voz alta. Não vos ofendais. Não nos resta outro caminho... A unificação ibérica? Que somos nós? África, Ásia, as Índias são pasto de estrangeiros. Portugal é uma região, uma província de Espanha e, quando toda a Europa, sob o domínio de Filipe...

Não estais bom da cabeça. ... quando toda a Europa for unida... Não é essa a realidade, não é isso que se passa. Por toda a parte há mas é movimentos que se reclamam a identidade própria, a libertação, a independência. Olhai a Catalunha, a Vascóvia, a Irlanda, a Escócia, os Países Baixos, a Grécia... Portugal não morreu, não morrerá. Por mais uniões que se façam, existem fundas e surdas correntes de afirmação de identidade... Não somos nós, os  que aqui estamos, disso exemplo?, ponderou o cónego Rodrigues. Nós, menos ele, levantou-se exaltado Pimentel, que até ali se mantivera calado. E apontava Nuno Costa: Aquilo cheira a fala de renegado.

Renegado, eu? Não segui eu a parte de Dom António, que Deus tenha? - Dais Portugal como morto. Esqueceis-vos de que el-rei está vivo.

Falta provar que é el-rei... Olhai, olhai, amigos!, vinham entrando frei Crisóstomo e Brito Almeida, o riso aberto, e logo atrás Pantaleão Pessoa. Alvíssaras! Que aconteceu?, perguntou frei Lourenço. Postos ao corrente da publicação do breve pontifício, não se cansavam de o passar de olhos a olhos, com os corações açodados e exclamações de júbilo. Vedes?, mostrava Pimentel o documento a Nuno Costa, que se mantivera um pouco arredado.

Portugal não morreu!, disse Lourenço com a voz embargada e os olhos húmidos. Morreu, respondeu entre dentes Nuno Costa, pegando no breve. Leu-o em silêncio. Depois, levantando os olhos, disse: Inacreditável! Inacreditável quê? Dir-se-ia uma contrafacção... Como vos chegou isto às mãos? Lá estais vós com as vossas dúvidas, arrancou-lhe Pessoa das mãos o papel.

Formavam grupo a comentar a boa notícia, afastava-se Nuno Costa dos amigos... Dançam-te nos olhos da memória tantas imagens de invejas recalcadas durante a vida, cacos de episódios vividos, desejos e ambições inconfessas, ambiguidades elaboradas, mentira pronta, rancores abafados, crimes meditados que a cobardia arredara... Borra da alma, negrume, náusea... É isso, Nuno Costa. Que outro caminho te resta senão o da traição? Diante destes, veste a capa da prudência. Ainda há pouco te expuseste sem indústria... Dissimulação é a tua arma. Não afies garras, não arreganhes dentes, não arrepies pêlo. O teu coração são as tripas. Insensível... na mostra. Guarda-te para as horas mortas. Vingança de teres sempre rastejado, ciúmes das asas dos outros...

Chegou, enfim, vindo de Roma, na qualidade de embaixador de Sua Santidade e de príncipe português, o senhor Dom Cristóvão Portugal. Logo ao entrar da porta dos paços de Dom João Castro, era ver-lhe aquela cabeça a emergir da gola de folhos rendados, o semblante iluminado por um leve sorriso de bonomia interior que lhe transparecia da expressão da boca e do olhar. Um jovem cavaleiro ainda não chegado aos trinta anos, estatura média no jubão de guarnições lavradas, a meia-calça ajustada na perna magra... Cabelo encaracolado, testa alta, olhos claros, nariz comprido ondeado a terminar em bico, lábios finos bem recortados, bigode encrespado com guias reviradas para cima, sob o lábio inferior a breve mosca, pêra espetada no queixo.

Príncipe!, do alto da sua estatura esguia e barbas venerandas a escorrerem adelgaçadas até ao peito, acolhia-o paternal de braços abertos Dom João Castro. Permitiam-lho os cinquenta anos e a amizade fraternal que o unira ao pai, o rei Dom António». In Fernando Campos, A Ponte dos suspiros, 1999, Difel SA, 2000, ISBN 978-972-290-806-1.

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No 31. A Ponte dos Suspiros. Fernando Campos. «Passavam na piazza os foliões. Don Francisco atravessou por entre a multidão ululante em direcção à embaixada. Marco Túlio saiu de detrás de uma das colunas da arcada, colocando na cara uma máscara de nariz arrebitado…»

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A Ponte dos Suspiros. Os Sinais do Corpo

«Voltou atrás. Entrou nos paços. Procurou Marco Quirini. Vós? Senhor! Como vos atreveis a...? Que é lá, embaixador? ... a... a..., sufocava. Que se passa? ... a libertar o prisioneiro, mal eu viro costas? Libertar o prisioneiro? Vi-o agora mesmo a passear-se sob as arcadas. Estais a sonhar. Vinde comigo. Desceram aos baixos do edifício, meteram por sob a escadaria aos calabouços e chegaram a uma porta. Espreitai, disse o juiz.

Don Francisco espreitou pelo postigo. O prisioneiro dormitava, estendido no catre. O embaixador fechou o postigo, desorientado. Subiram em silêncio. Até à vista, embaixador, despediu-se o juiz, virando costas com desprezo.

Passavam na piazza os foliões. Don Francisco atravessou por entre a multidão ululante em direcção à embaixada. Marco Túlio saiu de detrás de uma das colunas da arcada, colocando na cara uma máscara de nariz arrebitado, misturou-se com a turba e seguiu-o de perto até o ver entrar em casa. Depois deixou-se ir no grupo mimando dança e cantares com as moças:

Brunetta ch'hai le rose alle mascelle le labbra dello zucchero rosato garofolate porti le mamelle che ali piú che non fa lo moscato...

Na face rosa a preceito trigueira lábios de mel dois cravos as

flores do peito embriagas que nem moscatel...

No canto da piazza saiu para o Salvádego, guardou a máscara e meteu para Beneto. Quem és tu, Marco Túlio, meu farsante acabado? De Sebastião meu senhor, que ainda há pouco assustaste Don Francisco de Vera y Aragón, passaste a comediante pimpão. Dias atrás, os esculcas espanhóis que, para interceptarem o correio, esperavam a posta numa encruzilhada de Val Venosta, não se aperceberam do pobre almocreve que seguia com a caravana. Lembras-te do frade que foste, a bater ao portão do padre José Teixeira no convento dos jacobinos em Paris? Do guarda-costas de aspecto temível, pistolões à cinta, que comboiou o senhor Dom João de Castro na viagem para Veneza? Tua mulher Paola Galardetta se te visse agora não te reconheceria. Coitada! Já não sabe qual, entre tantos, é o seu marido...

E tu, sabes quem és? Qual és tu? De tão mal habituado, já nem sabes, não é?... E isso que importa, se a fidelidade a um amigo o dita? Caminhas na baliza oposta da traição. Também usa máscaras Nuno Costa. Só tu o sabes, mas aguardas em silêncio o momento propício de o desmascarar. Despojar-se homem de si, supremo sacrifício, a menos que seja despojamento fictício como o desse traidor: finge um coração que não tem, por mor da ganância de poder, de dinheiro, de se sobrelevar aos outros... Eu te amanharei, fi de pu…, eu te amanharei... Não, não é um nariz artificial, o cetim da mascarilha, os postiços de bigodes, suíças, cabelo. Isso é disfarce, travestimento, mime que eu faço por jogo e diversão.

Importa é a identidade intrínseca, o eu íntimo. Meu senhor rei, não sei quem sou...

Estavam reunidos em San Beneto. Aguardavam a chegada, a todo o momento, dos que frei Estêvão convocara de fora. Marco Túlio fora ajudar Dom João de Castro a instalar-se. Na sala discutiam alguns amigos.

Como é possível pensardes assim?, levantou-se quase apopléctico Pantaleão Pessoa Neiva. Isso é renegardes a pátria, a vossa condição de português. Não renego coisa nenhuma, respondeu Nuno Costa de má cara. Não se renega aquilo que não existe. Não existe? Isso a que chamais pátria morreu. Como ousais? Sois apátrida ou substituístes a vossa por outra alheia?

Que coisa é pátria? Há hoje em Portugal, sabeis muito bem, quem tenha pejo de pronunciar sequer a palavra. O último que a pronunciou foi um poeta que teve a sorte de morrer antes de lhe assistir ao enterro. Enterrou-a a loucura de um rei que levou o reino a fazer a guerra de África...

Recuso-me a ouvir-te, saiu da sala Pessoa, incomodado. Frei Lourenço olhou para Nuno Costa e, com voz que forçava ser apaziguada, perguntou: E pode saber-se em que assenta tão funesta opinião? Na realidade, respondeu o companheiro. Nada mais do que na realidade. Não lhe chameis funesta. Vinte e poucos anos, reparai, bastaram vinte e poucos anos para se apagar a identidade da pátria e da nacionalidade. Não se apagarão. Jamais! A flor do reino morreu em Alcácer. A nobreza que restou bandeou-se com Castela... Quem vos ouvir pensará que...» In Fernando Campos, A Ponte dos suspiros, 1999, Difel SA, 2000, ISBN 978-972-290-806-1.

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No 31. A Casa do Pó. Fernando Campos. «Ajudai-me, irmão!, sinto-me puxar pela manga do hábito esta doce voz portuguesa. É uma preta dos seus quarenta anos, de alma branca como arminho segundo depreendi da sua muita virtude, confessando-a em Veneza…»

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O Breviário

«De encontro às rochas via-se a nau partida, meia submersa, toda ela pelas junturas desfeitas tangendo com o movimento das ondas, ostentando ainda num pedaço da popa o seu nome, Quirina! Restos de corpos desmembrados jaziam entre tábuas ou pendiam, presos por fragmentos de roupa esfarrapada de algum cavilhame desventrado. Acenava tristemente ao vento que amainara uma tira de vela rasgada. Mastros e vergas, desconjuntados e estilhaçados, boiavam nas águas, precariamente ligados ao tombadilho. Na praia rolavam corpos na fímbria espumosa das ondas e outros, lançados já do mar, secavam na areia nus, inchados, esquálidos, de borco ou de barriga para o ar, cheios de pútrido mosquedo, apodrecendo com um fétido e insuportável cheiro. Debicavam já abutres nos cadáveres mais afastados de gente viva e outros pousavam, rondando, nas árvores e penedias próximas, à espera do sinistro festim.

Estando nós por algum tempo olhando em silêncio aquele lastimável destroço, disse-nos o patrão da nossa nau: Senhores, é mais tempo de obrar que de olhar. Movidos desta palavra, começámos todos a acudir aos feridos, lavando chagas com vinho e fazendo com muita diligência tudo o que o cirurgião mandava, procurando roupas para a nudez, pão para a fome, palavras de conforto para o desconsolo de alma, e com a ajuda da muita gente que tinha acorrido procedeu-se pelo dia fora ao enterramento dos mortos. Era quase fim da tarde quando, tendo preparado com dois pobres lenhos uma cruz para uma das últimas sepulturas, dei comigo a olhar fixamente a cara do morto. Estava nu, mas não me foi difícil recordar a figura viva e inquieta, vestida de peles, que mimava um frade que passeia de um lado para o outro lendo o seu breviário de capas de carneira castanhas, cantos de prata e letras gravadas a ouro. Era Argirópolos.

Perante a morte, perdoei-lhe o mal que, querendo fazer-me a mim, causara a meus irmãos Pietro e Bertino e, quando a última pazada de terra foi atirada sobre o seu corpo, coloquei-lhe na cabeceira da campa o tosco crucifixo feito de lascas dos madeiros da nau destruída.

O rei de Chipre

Emmanuelisque nomen et Lusítanae gentis virtutem laudibus summis exornavit.

Exaltou com os maiores louvores o nome de Manuel e o valor da gente lusitana. (Jerónímo Osório, De Rebus Emmanuelis Gestis)

Não mais que uma alfândega e casas térreas para recolher mercadorias, um pequeno hospital e uma igreja de São Lázaro, mas o branco vivo das paredes, quase a cegar os olhos, no verde-azul de montanha e céu, ria alegremente para a baía em que se espelhava, em chapadas e laminações de cal ondulante. Havia barcos de olhos arregalados no porto e as algas voluteavam e rendilhavam marulhos salgados, espumosos, por entre cintilações de prata e ouro. Acenavam perto, rente à água, asas lentas de gaivotas, dando as boas-vindas.

Voltava à minha boa disposição e aos meus sonhos, à paz comigo próprio. Mas seria eu o mesmo? Sentia-me diferente por dentro. Quantas coisas haviam passado, marcado para sempre a minha alma!... Tínhamos chegado a Salinas, ou Salamina como dizem outros, depois de três dias em que o vento nos fizera negaças, ora arremedando soprar de feição ora virando contrário. Fomos até obrigados a parar a meio caminho, em Limison. Mas eis-nos chegados a Salinas! Grande azáfama de carregar e descarregar mercadorias, que este é o principal porto da ilha de Chipre, o mais frequentado por navios estrangeiros e onde necessariamente hão-de aportar as naus venezianas que vêm a estas partes. Aguarda-nos uma pequena multidão de pessoas quando atracamos. Saídos ao cais, dirigem-se-nos com expressão e palavras aflitas, pedindo ajuda.

Aiuto, aiuto, signori! Siamo pellegrini! Apontam-nos no porto, sem qualquer espécie de actividade, a nau dos peregrinos do ano passado, que, por desordem e pouca diligência do patrão, tinha ali invernado, com grande detrimento e prejuízo dos romeiros, no regresso da Terra Santa. Vendo-se enganados, os ricos buscaram seu remédio por onde puderam, indo-se para Veneza em outras embarcações, a queixarem-se à Senhoria da sem-razão e quebra de contrato que lhes fora feita; os pobres aqui ficaram na ilha, padecendo mil necessidades e misérias, aguardando que aquela mesma nau que os trouxera os tornasse a levar de regresso na Primavera que está ai a chegar.

Aíuto, aiuto, signori! Siamo pellegrini! Abbiamo fame e miseria! Ajudai-me, irmão!, sinto-me puxar pela manga do hábito esta doce voz portuguesa. É uma preta dos seus quarenta anos, de alma branca como arminho segundo depreendi da sua muita virtude, confessando-a em Veneza antes da sua partida para a Terra Santa. É Deus que vos envia para acudir à nossa necessidade!

Natural da Guiné, criada em Portugal, vendo-se um dia forra, não descansou enquanto não fez esta santa jornada, não pedindo de porta em porta, como muitos fazem, mas com o suor do seu rosto. Deu-se antes, alguns anos, a lavar roupa por dinheiro, até amealhar o que lhe pareceu bastar para a peregrinação. Não podia, todavia, contar com o percalço de uma tão prolongada paragem em Chipre, agravada pela total ausência do apoio a que, por contrato, os serviços da nau se haviam obrigado, e viu-se sem dinheiro sequer para comer. Mas como foi possível um tal desleixo do patrão?» In Fernando Campos, A Casa do Pó, Difel, 1986, Alfaguara, 2012, ISBN 978-989-672-114-5.

Cortesia de Difel/Alfaguara/JDACT

JDACT, Fernando Campos, Literatura, A Arte da Escrita, História,