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sábado, 31 de março de 2018

A Dor no 31. A Mulher do Vaso de Alabastro. Margaret Starbird. «Ele aproximou-se com Yoshua e disse-lhe o nome da irmã. Mas não foi preciso apresentá-los: quando se olharam pela primeira vez, ela percebeu que ele já a conhecia»

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«(…) Sem dizer mais nenhuma palavra, ela olhou fixamente para o jardim, sentindo um perfume de visco e lírios, a poeira no ar. Estou deixando a minha casa, pensou. Talvez para sempre. Meu irmão e minha irmã, a casa onde cresci, o jardim onde brincávamos. O jardim onde, pela primeira vez, encontrei o meu Senhor. Nosso jardim reservado. Ela fez uma pausa, perdida nas lembranças. Levando Miriam pela mão, Yosef caminhou lentamente até ao portão da casa. A areia fria da pequena passagem pressionava os pés, pois as sandálias abertas não eram capazes de protegê-las. Ele ajudou a viúva do amigo a montar no jumento e desamarrou-o. Andando devagar, o cajado na mão, ele conduziu o animal, levando-o para longe da vila. De vez em quando, olhava para Miriam. Ela parecia mergulhada no seu mundo interior e não percebia mais a presença do homem que a acompanhava. Ele seguia ao lado dela em silenciosa comunhão, conduzindo-a pela estrada sinuosa distante da casa onde ela vivera a infância, afastando-se de Betânia e do Monte das Oliveiras, mergulhando no deserto, no caminho iluminado pela luz da lua. Ela podia sentir o cheiro e o gosto da areia que, transportada pelo vento do deserto, se lançava contra o seu corpo. Os lábios entreabertos, os olhos queimando. Miriam mantinha-os quase fechados para protegê-los do sol ardente e da areia que esfolava. Enrolou-se mais no manto, formando um casulo de lã branca que a protegia da hostilidade da natureza. Yosef caminhava ao seu lado em silêncio, perdido nos seus próprios pensamentos. De vez em quando, ele procurava saber se ela estava muito cansada, incomodada com a aridez que os envolvia, zelava pelo seu conforto, embora ciente de que precisavam seguir em frente e sem demora.
Sentada no jumento, Miriam balançava suavemente de um lado para o outro, e os pensamentos tornavam-se difusos, como acontecera tantas vezes nos últimos dias. Os devaneios não se deixavam perturbar por distracções exteriores, uma vez que a paisagem era sempre igual. Lembrou-se de quando conheceu Yoshua. Ela estava sozinha no banco do jardim da sua casa, em Betânia. O seu irmão Lázaro levou Yoshua até ao jardim, e os dois caminharam um pouco na sombra fria, falando em voz baixa, sem perceberem a presença dela. Miriam já ouvira falar daquele homem, quem não ouvira? Ele era aclamado por toda a Judeia. Ela sabia o quanto seu irmão o admirava. Agora, vendo-o de perto, também se sentiu atraída. Era um homem mais alto do que a média, de feições magras e alongadas e lindas mãos. O cabelo e a barba estavam cuidadosamente aparados, os olhos eram escuros e intensos. Mas a característica que mais a impressionava era a segurança tranquila, um ar de autoridade e integridade que lhe realçava a estatura.
Então, Lázaro descobriu-a, silenciosa, sob a amendoeira. Ele aproximou-se com Yoshua e disse-lhe o nome da irmã. Mas não foi preciso apresentá-los: quando se olharam pela primeira vez, ela percebeu que ele já a conhecia. Ele sorriu: Shalom. A paz esteja convosco, ela respondeu àquele cumprimento ancestral. O olhar que ele lhe lançou fez sentir-se linda. Podia perceber isso nos olhos dele. E, naquele instante, Miriam soube que amaria para sempre Yoshua, o amigo de seu irmão. Confusa, ela desviou o olhar para o chão e corou, deixando as longas tranças negras cobrirem o seu rosto. Vou pedir à Marta que prepare uma bebida para refrescá-los, murmurou ela. E saiu correndo do jardim, quase tropeçando de tanta pressa. Vários meses depois, eles se casaram. Um sorriso veio aos seus lábios quando se lembrou de como ficara surpresa ao ouvir de Lázaro que ele havia aceitado o forasteiro da Galileia como cunhado. Herdeira das terras que faziam fronteira com Jerusalém, ela seria a mulher de Yoshua de Nazaré, descendente do rei David.
O casamento teve importância dinástica, unindo as famílias de dois grandes amigos: David, filho de Jessé, e Jónatas, filho de Saul. A história da amizade entre os dois era contada havia vários séculos nas casas dos judeus. Como Lázaro explicara à irmã, o casamento dela com Yoshua também envolvia questões políticas. Mas era, acima de tudo, a realização de uma profecia. Lázaro e seus amigos zelotes membros da seita e do partido político judaico Zelote, uma facção fundamentalista, estavam convictos de que os tetrarcas herodianos que colaboraram com os romanos haviam usurpado o trono de David. Estavam convencidos, ainda, de que Deus enviaria um Messias davídico que libertaria a nação da tirania de Roma, dando início à era de paz e prosperidade prometida pelos profetas. O forasteiro da Galileia tinha a genealogia correcta. E não era, também, um fazedor de milagres e prodígios, curando doentes e exorcizando demónios? Ele era, claramente, uma escolha de Deus. Agora, deveria optar por uma noiva na tribo de Benjamim, pois estava escrito no primeiro livro da Tora que o cálice de prata encontrava-se escondido na saca de Benjamim. De acordo com os seus inspiradores mestres, isso queria dizer que uma mulher da tribo de Benjamim seria o instrumento para a reconciliação e o restabelecimento de Israel. Nada disso tinha importância para Miriam. Os mais velhos podiam apresentar os motivos que quisessem para a decisão que tomaram. Mas não eram capazes de ouvir o sangue cantarolando nas suas veias, não tinham como escutar a música silenciosa do seu coração: não faz diferença por que ele me escolheu, o importante é que fui a escolhida!» In Margaret Starbird, Maria Madalena e o Santo Graal, Mulher do Vaso de Alabastro, Quetzal Editores, colecção Referências, ISBN 978-972-564-624-3.

Cortesia deSextante/QuetzalE/JDACT

Religião no 31. A Mulher do Vaso de Alabastro. Margaret Starbird. «Vamos partir agora, disse ele, suavemente. Deixei os jumentos amarrados no portão. Falei com Lázaro e Marta. Vamos mandar buscá-los quando o perigo cessar»

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«(…) Shalom, Miriam. Sou eu, Yosef. A figura esguia à frente de Yosef relaxou visivelmente ao ouvir aquela voz familiar. Oh, Yosef, a sua voz ficou embargada. Ele a olhou intensamente, com enorme compaixão. Ela estava pálida e emocionada, mergulhada em imensa dor. Ele ergueu a mão, um gesto involuntário para transpor a escuridão perfumada que os separava naquele jardim à luz da lua. Yosef, sussurrou ela, não sei se vou conseguir suportar. Ele tentou prevenir-me, e eu pensei que havia entendido. Ela tremia. O seu corpo estremecia na escuridão. Yosef tomou-a pelos ombros e segurou-a com firmeza. Ele não havia percebido a profundidade da sua própria dor até aquele momento. O cabelo longo e escuro da moça reflectia a luz da lua, as lágrimas faziam os seus olhos brilharem. Miriam, disse ele, suavemente. Mas parou de falar, hesitante. Será que ela já não estaria angustiada demais? Mas ele prometera ao amigo que a protegeria. E só havia uma maneira de fazê-lo: precisavam sair dali imediatamente, aproveitando a escuridão da noite. Ninguém poderia prever quando as autoridades apareceriam para buscá-la. Miriam, eu recebi um aviso. Temos que sair de Jerusalém esta noite. Não é seguro continuar aqui. Pilatos e Herodes Antipas podem estar à sua procura. Ela virou-se de costas para Yosef, os olhos perdidos na escuridão. Lentamente, voltou-se de novo para ele.
Acha mesmo que preciso fugir?, a sua voz era quase inaudível. Ele hesitou. Precisa, sim, Miriam. É a única maneira. Prometi a Yoshua que a protegeria com a minha vida. Não há outra escolha. Ela fez um gesto, demonstrando compreender. Está certo, Yosef. Eu sei. Ele leu para mim as palavras de Miquéias, o profeta. Eu compreendo. É por causa da promessa. Vou fazer como me pediu. Mas o que faremos com Marta e Lázaro? Yosef balançou a cabeça. Eu não lhes contei para onde iremos. Disse apenas que vou escondê-la na cidade. Até que o perigo acabe, ninguém deve saber que vamos partir. Por enquanto, Marta e Lázaro ficarão aqui. Eles dirão que está doente, para que não sintam a sua falta. Mais tarde, mandaremos buscá-los. Yosef havia planeado tudo: viajariam como pai e filha, evitando ao máximo atrair a atenção. Ninguém deveria saber qual era a identidade da jovem que o acompanhava. As autoridades pensavam que eles tentariam fugir pelo mar, por isso os portos seriam os locais mais perigosos. Em vez disso, preferiu seguir com ela por terra, atravessando o deserto. Ele havia separado alguns artigos de primeira necessidade para a jornada, mas dependeriam de amigos para ajudá-los até que chegassem ao destino planeado. Fugiriam para o Egipto, para Alexandria.
Ele sorriu, um sorriso abatido. A juventude e a beleza de Miriam eram tão cativantes... A Magdal-eder, a fortaleza da filha de Sião, a torre do rebanho. Ela precisava partir, aventurar-se pelos campos, viver no exílio. Exactamente como o profeta Miquéias prenunciara. Mas, por meio dela; a soberania seria devolvida a Sião. Mais uma vez, ele se sentiu maravilhado ao se lembrar do amigo que lhes mostrou os versículos da profecia de Miquéias, falando do exílio, do retorno e do restabelecimento da casa real de David. Ele, Yosef de Arimateia, recebera a responsabilidade de zelar pela segurança de Miriam. E não decepcionaria o amigo.
Vamos partir agora, disse ele, suavemente. Deixei os jumentos amarrados no portão. Falei com Lázaro e Marta. Vamos mandar buscá-los quando o perigo cessar. Prometo. Ela sabia que o amigo estava certo. Ficara o dia inteiro pensando que seria preciso fugir do ódio e da inveja de Herodes Antipas, tão inseguro do próprio trono ao ponto de não tolerar nenhum rival. E dos romanos também. Eles temiam uma insurreição da nação judaica. O ódio dos judeus pelas forças romanas de ocupação era intenso. E seu amor e entusiasmo pelo Filho de David, que fora tão brutalmente executado, poderia iniciar uma revolução a qualquer momento. Era melhor que fugisse, para que os rumores sobre o desaparecimento do corpo não gerassem um confronto suicida do povo contra o poder das legiões romanas. Mesmo sendo ainda tão jovem, ela sabia disso. O seu marido lhe havia explicado tudo, segurando-a gentilmente enquanto ela derramava lágrimas no aconchego dos seus ombros. Ele tentou confortá-la; e, pelo bem do homem a quem amava, ela tentara ser corajosa. Mas não conseguiu e pôde ver nos olhos dele toda a angústia que sentia pelo destino da mulher. Estou pronta, Yosef. Vamos partir». In Margaret Starbird, Maria Madalena e o Santo Graal, Mulher do Vaso de Alabastro, Quetzal Editores, colecção Referências, ISBN 978-972-564-624-3.

Cortesia deSextante/QuetzalE/JDACT

No 31. Páscoa. A Mulher do Vaso de Alabastro. Margaret Starbird. «Também são muito significativas as numerosas aparições recentes da Virgem Maria, a única imagem de deusa permitida pela cristandade»

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«(…) Existem várias possibilidades sobre a heresia do casamento de Jesus. Talvez ela seja autêntica e tenha sobrevivido porque os que a defendiam não apenas acreditavam nela como sabiam que era verdadeira (por exemplo, por meio de provas como o célebre tesouro dos templários: sob a forma de documentos ou artefactos genuínos). Ou talvez ela tenha sido disseminada na tentativa de devolver o princípio do feminino perdido ao dogma cristão, que estava claramente desequilibrado em favor do masculino. Essa restauração do equilíbrio dos opostos, base da filosofia clássica, pode ter sido considerada necessária para o bem-estar da civilização. O culto do feminino floresceu em Provença no século XII. Tentativas confluentes dos cabalistas judeus de resgatar a Senhora Matronit como a esposa perdida de Jeová, na mitologia judaica, comprovam o facto de que esse resgate do feminino era visto como importante, ou mesmo vital. Um movimento semelhante acontece hoje no mundo ocidental, revelando-se em estudos junguianos na área da psicologia, nos conceitos asiáticos do yin/yang e na consciência da deusa. Também são muito significativas as numerosas aparições recentes da Virgem Maria, a única imagem de deusa permitida pela cristandade. E as suas imagens têm sido vistas derramando lágrimas em igrejas cristãs por todo o mundo. Esses fenómenos vêm ganhando destaque na comunicação social nos últimos nos. Até as pedras choram! O feminino desprezado e esquecido está suplicando para ser reconhecido e abraçado por nossa era moderna.
A perda do feminino teve um impacto desastroso na nossa cultura. Masculino e feminino estão profundamente feridos neste início do terceiro milénio. As dádivas do feminino não foram aceitas ou apreciadas por completo. Enquanto isso, o masculino, frustrado pela incapacidade de harmonizar as suas energias com um feminino bem desenvolvido, continua a liderar o mundo empunhando a espada, brandindo armas irresponsavelmente, atacando com violência e destruição.
No mundo antigo, o equilíbrio entre as energias opostas era compreendido e respeitado. Mas, no mundo moderno, as atitudes e os atributos masculinos têm dominado. A adoração do poder e da glória do princípio masculino/solar está a poucos passos da adoração do filho: um culto que, com frequência, produz um homem mimado e imaturo- zangado, frustrado, entediado e, muitas vezes, perigoso. Sem poder integrar-se à sua outra metade, o masculino se exaure. O resultado final do princípio feminino desvalorizado não é apenas a poluição ambiental, o hedonismo ou a criminalidade desenfreada. O resultado fundamental é o holocausto. Este livro é uma exploração da heresia do Santo Graal e um argumento a favor do resgate da mulher de Jesus, com base em importantes provas circunstanciais. É também uma busca do significado da Noiva Perdida na psique humana, na esperança de que seu retorno ao nosso paradigma de completude possa nos ajudar a restaurar a terra infértil. Aqui, registei os resultados da minha busca pessoal pela Noiva Perdida na história cristã. Procurei explicar de que modo ela foi esquecida e como esse facto tem sido devastador para a civilização ocidental.
Tentei, ainda, visualizar o que aconteceria se conseguíssemos restituí-la ao paradigma. Os anos que passei pesquisando acarretaram consequências. Levei o assunto a sério. Doutrinas nas quais acreditei pela fé tiveram que ser arrancadas e descartadas para que novas crenças fossem plantadas e cuidadas até formarem raízes. Toda a estrutura da Igreja Católica da minha infância precisou ser desmontada para deixar à mostra a perigosa falha existente em suas fundações, permitindo que um novo sistema de crenças pudesse ser cuidadosamente reconstruído quando a fissura tivesse se fechado. Esse processo durou muitos anos. Em algum momento, desisti de ser apologista da doutrina e embarquei na busca pela verdade. Estou dolorosamente consciente de que minhas conclusões não são ortodoxas, mas isso não significa que não sejam verdadeiras. Muitas pessoas estão se tornando cada vez mais conscientes do abismo que separa as descobertas dos modernos estudiosos da Bíblia da versão de cristandade ensinada nos púlpitos das igrejas.

Miriam do Jardim
Ela sentiu um calafrio ao enrolar-se no manto e cobrir o corpo delgado. O tempo estava frio. O sol flamejante já se havia escondido além do muro do jardim, atrás do Templo do Monte Sião. As fragrâncias no ar a acalentavam, suavizando seus nervos retesados, enquanto permanecia sentada no banco de pedra sob a amendoeira. O brilho prateado do luar lançava sombras na passagem que levava até ao portão. Ela esfregou os dedos dos pés na areia macia, formando pequeninos montes de terra seca. Um leve barulho de passos assustou-a. Tentou distinguir de quem era o vulto cujo rosto estava na sombra e que tinha o corpo coberto por um manto escuro. O homem a observou em silêncio por alguns instantes. Como um passarinho. Tão vulnerável, pensou ele. O homem falou num sussurro, tentando não assustá-la». In Margaret Starbird, Maria Madalena e o Santo Graal, Mulher do Vaso de Alabastro, Quetzal Editores, colecção Referências, ISBN 978-972-564-624-3.

Cortesia deSextante/QuetzalE/JDACT

segunda-feira, 5 de maio de 2014

O Santo Graal. Maria Madalena. Mulher do Vaso de Alabastro. Margaret Starbird. «Ao seleccionar o material, trabalhei baseada na teoria de que onde há fumaça há fogo. Quando tantas evidências de fontes tão numerosas e diversas podem ser reunidas para comprovar uma única hipótese, há uma boa razão para levá-la a sério»

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Introdução
«O cristianismo institucional, que tem alimentado a civilização ocidental há mais de dois mil anos, pode ter sido construído sobre uma gigantesca falha na sua doutrina: a Negação do feminino. Durante muitos anos convivi com uma vaga sensação de que algo estava radicalmente errado com o meu mundo. Sentia que, por um período longo demais, o feminino na nossa cultura vinha sendo desprezado e desvalorizado. Mas foi somente em 1985 que encontrei provas documentais de uma devastadora fractura na história cristã. Em Abril daquele ano, sabendo do meu grande interesse pelas Escrituras judaico-cristãs e pela origem do cristianismo, uma amiga indicou-me o livro O Santo Graal e a linhagem sagrada. Após essa leitura, fiquei completamente atónita. Minha primeira reacção foi achar que os autores, Michael Baigent, Richard Leigh e Henry Lincoln, tinham que estar errados. A sua obra era quase uma blasfémia. Eles sugeriam que Jesus Cristo havia sido casado com a outra Maria citada nos Evangelhos: a que chamavam a Madalena: a mulher que, na arte ocidental, era mostrada carregando um vaso de alabastro, a santa a quem a Igreja chama de prostituta penitente. Não fiquei apenas chocada com essa ideia, mas profundamente abalada. Como a Igreja não teria mencionado esse facto caso fosse verdade? Uma afirmação de tamanha importância não poderia ter sido negligenciada durante os dois mil anos de história dessa instituição! Entretanto, as evidências coleccionadas por esses escritores sugeriam que a verdade havia sido suprimida de maneira implacável pela Inquisição (maldita). Como filha leal da Igreja Católica Romana, logo presumi que os autores de tamanha heresia estavam enganados. Mas a tese central, de que Jesus teria sido casado, não me deu descanso. Ela me assombrava. E se fosse verdade? E se Maria Madalena, a suposta mulher de Jesus, tivesse sido apagada da história, e a Igreja, que se iniciava, tivesse continuado a desenvolver-se sem a delicada presença dessa mulher?
Pensar sobre as implicações de tão terrível perda para a Igreja e para a humanidade era algo insuportável para mim. Aos prantos, orei para entender essa versão herética do Evangelho. Eu sabia que precisava descobrir a verdade. Amparada nos meus conhecimentos académicos em literatura comparada, linguística e estudos medievais e bíblicos, enxuguei as lágrimas e comecei a pesquisar a heresia, presumindo que logo encontraria meios de refutá-la. O livro envolvera muitas áreas do meu interesse pessoal e da minha formação profissional: religião, civilizações medievais, arte, literatura e simbolismo. Havia ensinado estudos bíblicos e educação religiosa durante vários anos, por isso conhecia bem o terreno em que estava pisando. No início, imaginei que desmascarar a heresia seria uma tarefa simples. Fui directamente às pinturas dos artistas citados pelos autores de O Santo Graal e a linhagem sagrada como coniventes com a heresia do Graal. Examinei os símbolos naqueles trabalhos, comparando-os com as marcas-d'água dos albigenses (hereges que se disseminaram no Sul da França entre 1020-1250 d.C.) que eu havia encontrado alguns anos antes numa obscura obra de Harold Bayley, The Lost Language of Symbolism (A linguagem perdida do simbolismo). Fiquei desconcertada ao descobrir que as produções daqueles artistas medievais continham claras referências que reforçavam a heresia do Graal. Incapaz de refutá-la com base nesse facto, prossegui na minha busca. A pesquisa acabou por me levar às profundezas da história europeia, da heráldica, dos rituais da maçonaria, da arte medieval, do simbolismo, da psicologia, da mitologia, da religião e das Escrituras judaicas e cristãs. Em todos os lugares nos quais procurava, encontrava evidências do feminino que haviam sido perdidas ou negadas pela tradição judaico-cristã e das várias tentativas de devolver à Noiva a sua antiga e acalentada condição. Quanto mais eu me envolvia com o material, mais claro ficava que existia algo de real nas teorias propostas no livro que eu lera. E, aos poucos, fui-me rendendo aos dogmas centrais da heresia do Graal, a mesma teoria que eu havia proposto a desacreditar.
Ao seleccionar o material para este livro, trabalhei baseada na teoria de que onde há fumaça há fogo. Quando tantas evidências de fontes tão numerosas e diversas podem ser reunidas para comprovar uma única hipótese, há uma boa razão para levá-la a sério. Portanto, poderia mesmo existir alguma verdade nos rumores que persistiram por dois mil anos e que vieram à tona mais recentemente, para que todos pudessem ver, nos filmes Godspell – A esperança, Jesus Cristo superstar e A última tentação de Cristo, os quais mostram o relacionamento de Jesus e Maria Madalena como algo muito significativo e com uma intimidade toda especial. Eu não posso provar que os dogmas da heresia do Graal são verdadeiros, nem que Jesus se casou, nem que Maria Madalena era mãe de seu filho. Não posso sequer provar que Maria Madalena era a mulher do vaso de alabastro que ungiu Jesus em Betânia. Mas posso constatar que esses eram dogmas de uma heresia amplamente aceita na Idade Média e que seus resquícios estão contidos em numerosos trabalhos de arte e literatura. Ela foi veementemente atacada pela hierarquia da Igreja de Roma, mas conseguiu sobreviver, apesar da incansável perseguição que sofreu. A heresia que manteve viva a outra versão da vida de Jesus foi impiedosamente perseguida, julgada e condenada à extinção. Mas a história do Noivo Sagrado/Rei de Israel mostrou-se virulenta demais, até para a Inquisição (maldita). E continuou a frutificar de tempos a tempos, como uma robusta videira que se espalha debaixo da terra e depois vem à superfície. Ela apareceu em situações em que a Inquisição (maldita) e a Igreja não podiam arrancar suas raízes, nos contos do folclore europeu, na sua arte e literatura, sempre escondida, frequentemente codificada em símbolos, mas onipresente. Manteve viva a esperança da linhagem davídica, que muitas vezes era chamada de Videira». In Margaret Starbird, Maria Madalena e o Santo Graal, Mulher do Vaso de Alabastro, Editora Sextante, Wikipédia.

Cortesia Sextante/JDACT