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quinta-feira, 4 de junho de 2020

Decameron. Giovanni Boccaccio (1313-1375). «Filomena disse então: isso não importa: desde que eu viva com decência e a consciência não me acuse de nada, que fale quem quiser o contrário»


Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Enquanto as mulheres assim conversavam, eis que três rapazes entravam na igreja, mas não eram tão jovens que o mais novo tivesse menos de vinte e cinco anos; neles nem a perversidade dos tempos nem a perda de amigos ou parentes nem o temor por si mesmos tinham conseguido arrefecer o amor, que dirá extingui-lo. Um se chamava Pânfilo, o segundo, Filostrato, e o terceiro, Dioneu, sendo todos bastante agradáveis e de bons costumes; e, para se consolarem em meio a tanta perturbação das coisas, iam em busca de ver as suas amadas, que por acaso estavam, as três, entre as referidas sete; das outras, algumas eram parentes deles. Assim que o olhar deles caiu sobre elas, foram eles também vistos por elas; então Pampineia começou, sorrindo: vejam que a sorte é propícia à nossa iniciativa e pôs diante de nós jovens discretos e valorosos que de bom grado serão nossos guias e servidores, se não nos furtarmos a lhes dar essa incumbência. Neifile então, com o rosto totalmente enrubescido pelo pudor, pois era uma das amadas dos jovens, disse: Pampineia, por Deus, veja o que está dizendo; sei perfeitamente que de qualquer um deles só é possível falar bem, e creio que eles sejam aptos a feitos muito maiores que esse; também acho que podem oferecer companhia boa e honesta não só a nós, como também a mulheres muito mais belas e prezadas que nós. Mas, visto que é bem conhecido o facto de estarem enamorados de algumas de nós, temo que, levando-os connosco, possamos incorrer em infâmia e desaprovação, sem culpa nossa ou deles.
Filomena disse então: isso não importa: desde que eu viva com decência e a consciência não me acuse de nada, que fale quem quiser o contrário; Deus e a verdade empunharão armas por mim. Ora, se eles estiverem dispostos a ir connosco, realmente, como disse Pampineia, poderíamos dizer que a sorte é favorável à nossa partida.
As outras, ouvindo-a falar desse modo, não só não discordaram como também disseram unanimemente que deveriam chamá-los, dizer-lhes qual era a intenção delas e solicitar que lhes dessem o prazer de sua companhia naquela viagem. Assim, sem mais palavras, Pampineia, que tinha laços de consanguinidade com um deles, levantou-se e, dirigindo-se a eles, que estavam parados a olhá-las, cumprimentou-os com um sorriso alegre, comunicou-lhes as suas intenções e pediu-lhes em nome de todas que se dispusessem a fazer-lhes companhia com ânimo puro e fraterno. De início, os jovens acharam que estavam sendo burlados, mas depois, vendo que aquela dama falava seriamente, responderam com alegria que estavam prontos para atendê-las; e, passando à acção sem mais delongas, antes de partirem dispuseram tudo o que deveria ser feito para a viagem. E, depois de arrumarem ordenadamente todas as coisas necessárias e de enviarem um mensageiro ao lugar aonde pretendiam ir, na manhã seguinte, ou seja, na quarta-feira ao romper do dia, as mulheres com algumas serviçais e os três jovens com três criados saíram da cidade e puseram-se a caminho; não tinham se afastado mais de duas pequenas milhas quando chegaram ao lugar que haviam determinado como primeiro.
O referido lugar ficava numa pequena montanha, um tanto distante das nossas estradas por todos os lados, era coberto por vários arbustos e plantas com verdes frondes, de aspecto muito agradável; no ponto mais alto ficava um palácio com um pátio bonito e espaçoso no meio, galerias, salas e quartos, tudo belíssimo e ornado com pinturas alegres e notáveis, tendo prados ao redor, jardins maravilhosos, poços de água fresquíssima e adegas cheias de vinhos preciosos: coisas mais adequadas a curiosos bebedores do que a mulheres sóbrias e recatadas. E, para seu grande prazer, o grupo que chegava encontrou tudo varrido, leitos arrumados nos quartos, estando todas as coisas cheias das flores que era possível encontrar na estação, assim como cobertas de junco. E, ao se sentarem assim que chegaram, disse Dioneu, que mais que qualquer outro era encantado e cheio de argúcia: foi a sensatez das senhoras, mais que nossa astúcia, que nos trouxe aqui. Não sei o que pretendem fazer de seus cuidados; os meus eu deixei atrás das portas da cidade quando há pouco saí de lá; por isso, ou se dispõem a divertir-se, rir e cantar comigo (quero dizer, tanto quanto convier à dignidade das senhoras), ou me dão permissão para voltar aos meus cuidados e ficar na cidade atribulada». In Giovanni Boccaccio (1313-1375), Decameron, 1354, Relógio d’Água, ISBN 978-972-708-879-9, L&Pm, 2013, ISBN 978-852-542-941-4.
                                         
Cortesia de Ed’Água/L&Pm/JDACT

Decameron. Giovanni Boccaccio (1313-1375). «Portanto, nenhuma repreensão caberá se tomarmos tal decisão; dor, desgosto e talvez morte poderão advir, se não o fizermos»

Cortesia de wikipedia e jdact

«[…]
E não só ouvi dizer como também vi várias vezes que esses tais (se é que alguns há), sem fazerem distinção alguma entre coisas honestas e desonestas, movidos somente pelo apetite, sozinhos ou acompanhados, de dia e de noite, fazem tudo o que lhes dê na telha. E não só o fazem as pessoas sem vínculos religiosos, mas também as enclausuradas dos mosteiros, que, convencidas de que aquilo lhes convém e só é proibido às outras, transgredindo as leis da obediência, entregam-se aos prazeres carnais e, imaginando assim salvar-se, tornam-se lascivas e dissolutas. E se assim é (como se vê claramente que é), que fazemos aqui? Que esperamos? Que sonhamos? Porque somos mais preguiçosas e lerdas com nossa saúde do que todo o restante dos cidadãos? Acaso nos consideramos menos importantes que todas as outras? Ou acreditamos que nossa vida está ligada ao corpo com cadeias mais fortes do que as dos outros, de modo que não precisamos nos preocupar com nada que seja capaz de prejudicá-la? Estamos erradas, enganadas; que estupidez a nossa, se acreditarmos nisso! Sempre que nos lembrarmos de quantos e quais homens e mulheres foram vencidos por essa cruel pestilência, encontraremos fortíssimo argumento. Por isso, para não incidirmos, por renitência ou desleixo, naquilo de que podemos escapar de alguma maneira, desde que queiramos (não sei se as senhoras pensarão como eu), creio que seria óptimo se, tal como estamos, tal como muitos antes de nós fizeram e fazem, saíssemos desta cidade; e, fugindo como da morte aos exemplos indecorosos dos outros, fôssemos decorosamente para as propriedades do campo que cada uma de nós tem em grande quantidade; e ali gozássemos da festa, da alegria e do prazer que pudéssemos, sem ultrapassar de modo algum os limites da razão. Ali se ouvem pássaros cantar, veem-se colinas e planícies verdejantes, e os campos cobertos de trigo não ondeiam menos que o mar; árvores há de muitos tipos, e o céu, principalmente, por mais tormentoso que esteja, não nos nega suas belezas eternas, muito mais dignas de admirar do que as muralhas vazias da nossa cidade. Além disso, o ar ali é bem mais fresco, e das coisas todas de que a vida carece nestes tempos a quantidade lá é maior, sendo menor o número de contrariedades. E, embora os lavradores morram tanto quanto aqui os cidadãos, ali a tristeza é menor porque as casas são mais esparsas e há menos habitantes que na cidade. Aqui, por outro lado, se bem percebo, não abandonaremos ninguém; aliás, sem fugir à verdade, podemos dizer que abandonadas fomos nós; porque os nossos, ou por morrerem ou por fugirem da morte, deixaram-nos sozinhas nesta aflição, como se não lhes fôssemos tão próximas. Portanto, nenhuma repreensão caberá se tomarmos tal decisão; dor, desgosto e talvez morte poderão advir, se não o fizermos. Para tanto, quando lhes parecesse melhor, creio que faríamos bem em tomar nossas serviçais e, fazendo-nos acompanhar por todas as coisas necessárias, passarmos um dia num lugar e outro dia em outro, entregues à alegria e à festa que estes tempos podem nos propiciar; e assim permaneceríamos até percebermos (se antes a morte não nos surpreender) que fim o céu destina a estas coisas. E lembrem-se de que é mais conveniente ir embora com decência do que, como ocorre a grande número das outras, ficar sem decência.

As outras senhoras, depois de ouvirem Pampineia, não só louvaram sua sugestão como também desejavam segui-la e já tinham começado a tratar entre si do modo de fazê-lo, como se, levantando-se de seus assentos, quisessem ir já se pondo a caminho. Mas Filomena, que era sensatíssima, disse: senhoras, embora as palavras de Pampineia tenham sido bem pensadas, não será por isso que havemos de fazer tudo correndo, como parece que querem. É bom lembrar que somos todas mulheres, e não há aqui nenhuma que seja tão nova para não saber como as mulheres convivem e se governam sem a previdência de algum homem. Somos volúveis, briguentas, desconfiadas, pusilânimes e medrosas; por isso, duvido muito que este grupo não se dissolva bem mais cedo do que seria necessário e com menos honra para nós, caso não busquemos orientação diferente da nossa; por isso, é bom tomar providências antes de começarmos.
Então Elissa disse: realmente, os homens são cabeças das mulheres, e sem a ordem deles raramente alguma obra nossa chega a bom termo; mas como podemos obter esses homens? Cada uma de nós sabe que a maior parte dos seus morreu, e dos outros que ficaram vivos, uns aqui, outros acolá, sabe-se lá onde, em diferentes companhias vão todos fugindo daquilo de que estamos procurando fugir; e aceitar estranhos não seria conveniente; por isso, se quisermos cuidar de nossa saúde, será bom encontrarmos um modo de nos organizarmos de tal sorte que ao lugar aonde formos em busca de deleite e repouso não sejamos seguidas por contrariedades e escândalos». In Giovanni Boccaccio (1313-1375), Decameron, 1354, Relógio d’Água, ISBN 978-972-708-879-9, L&Pm, 2013, ISBN 978-852-542-941-4.
                                         
Cortesia de Ed’Água/L&Pm/JDACT

quarta-feira, 3 de junho de 2020

Decameron. Giovanni Boccaccio (1313-1375). «Minhas caras senhoras já terão muitas vezes ouvido dizer, assim como eu, que quem usa honestamente sua razão não comete injúria contra ninguém»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) A mim mesmo desagrada ficar ruminando demoradamente tais misérias: por isso, desejando agora deixar de lado aquelas que posso oportunamente evitar, direi que, estando nossa cidade em tal situação, quase vazia de habitantes, certa terça-feira pela manhã, conforme fiquei sabendo por pessoa digna de fé, na venerável igreja de Santa Maria Novella, onde não havia quase mais ninguém, sete donzelas assistiam aos divinos ofícios em trajes lutuosos, como a tal momento convinha; eram elas unidas entre si por amizade, vizinhança ou parentesco, nenhuma delas passara dos vinte e oito anos nem estava abaixo dos dezoito, sendo todas sérias, de sangue nobre, formosas e dotadas de bons costumes e elevada dignidade. Seus nomes eu declararia na forma devida, caso não tivesse boas razões para deixar de fazê-lo, e as razões são as seguintes: não quero que, ouvindo no futuro as coisas que narraram (e que seguem adiante), alguma delas venha a sentir-se envergonhada, visto que hoje são um tanto estritas as leis que regem o divertimento, ao passo que então, pelos motivos acima descritos, eram relaxadas, não só para a idade delas, como também para idades muito mais maduras; também não quero dar ocasião para que os invejosos, sempre prontos a criticar toda e qualquer vida louvável, deslustrem de algum modo a honra das valorosas senhoras com palavras indecorosas. No entanto, para que adiante seja possível entender sem confusão aquilo que cada uma disse, pretendo designá-las com nomes ajustados no todo ou em parte às suas respectivas qualidades: a primeira, que era a mais velha, será chamada Pampineia; a segunda, Fiammetta; Filomena será a terceira; e a quarta, Emília; Lauretta será o nome da quinta; e o da sexta, Neifile, sendo a última chamada Elissa, não sem razão.
Estas, sem serem levadas por propósito algum, mas sim pelo acaso, reuniram-se numa das partes da igreja e, sentadas quase em círculo, depois de vários suspiros, deixaram de rezar pais-nossos e começaram a conversar sobre as condições da época e de muitas e várias coisas. Depois de algum tempo, como as outras se calassem, Pampineia começou a falar da seguinte maneira:

Minhas caras senhoras já terão muitas vezes ouvido dizer, assim como eu, que quem usa honestamente sua razão não comete injúria contra ninguém. Dita a razão natural que todos os que aqui nascem podem manter, conservar e defender sua própria vida na medida do possível: e é isso autorizado a tal ponto, que algumas vezes, para defendê-la, houve quem matasse outras pessoas, sem por isso incorrer em culpa. E, se as leis, cuja preocupação é o bem-estar de todos os mortais, fazem tais concessões, muito mais honesto é para nós e para qualquer outro, sem ofender ninguém, adoptar as medidas possíveis para conservar a própria vida! Observando bem, como venho, os nossos comportamentos nesta manhã e ainda mais o de outras manhãs passadas, e pensando em quais são as nossas conversas, compreendo, e as senhoras também poderão compreender, que cada uma de nós teme por si mesma: eis aí algo que não me surpreende nem um pouco, mas me surpreende muito que, tendo todas nós sentimentos de mulher, não se tome medida nenhuma para remediar aquilo que cada uma teme fundamentadamente. Permanecemos aqui, segundo penso, como se quiséssemos ou devêssemos ser testemunhas de quantos cadáveres são trazidos à sepultura ou para ouvirmos se os frades daqui, cujo número está quase reduzido a nada, cantam seus ofícios nas horas devidas, ou para demonstrar a quem quer que apareça, em nossos trajes, a qualidade e a quantidade de nossas misérias. E, se saímos daqui, vemos mortos ou doentes transportados por todos os lados, ou então vemos aqueles que, já condenados ao exílio pela autoridade pública, em decorrência de seus malfeitos, agora escarnecem dessas mesmas leis, ao saberem que seus executores estão mortos ou doentes, e percorrem a região com ímpeto desagradável; ou então vemos o poviléu de nossa cidade, aquecido com nosso sangue, autodenominando-se coveiro, cavalgar e percorrer todos os lugares, zombar de nós e jogar-nos ao rosto os nossos males com canções indecorosas. E não ouvimos outra coisa senão: fulanos estão mortos e sicranos estão para morrer; e, se houvesse gente para chorar, ouviríamos prantos dolorosos por toda a parte. E, se voltamos para casa, não sei se com as senhoras ocorre o mesmo que a mim: eu, que tinha grande número de serviçais, encontrando lá agora apenas minha criada, fico apavorada e tenho arrepios por quase todo o corpo; e, seja qual for a parte da casa aonde vá ou permaneça, parece que vejo as sombras daqueles que se foram, mas não com as expressões que costumavam ter, e sim assombrando-me com uma aparência horrível, que não sei de onde lhes veio depois que morreram. Por todas essas coisas, aqui, fora daqui e em casa eu me sinto mal; principalmente porque também me parece que ninguém que tenha alguma energia e lugar aonde ir, como nós, continua aqui, excepto nós mesmas».
[…]
In Giovanni Boccaccio (1313-1375), Decameron, 1354, Relógio d’Água, ISBN 978-972-708-879-9, L&Pm, 2013, ISBN 978-852-542-941-4.
                                         
Cortesia de Ed’Água/L&Pm/JDACT

terça-feira, 16 de outubro de 2018

Decameron. Giovanni Boccaccio (1313-1375). «… pela manhã comeram com familiares, companheiros e amigos, e à noite cearam no outro mundo com os seus antepassados!»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Era uso (tal como ainda hoje se vê) as parentes e vizinhas do morto se reunirem em casa deste para chorar com as mulheres que lhe fossem mais chegadas; por outro lado, em frente à casa do morto, os vizinhos e muitos outros cidadãos reuniam-se com os seus parentes, e o clero comparecia em conformidade com a posição social do morto; e, sobre os ombros dos seus pares, com pompa fúnebre, círios e cantos, este era levado à igreja escolhida por ele mesmo antes da morte. Essas coisas, depois do aumento da ferocidade da peste, acabaram-se de todo ou na maior parte, surgindo outras no seu lugar. Por isso, não só as pessoas morriam sem muitas mulheres ao redor, como também havia muitos que saíam desta vida sem testemunho de ninguém; e a pouquíssimos foram concedidos o pranto piedoso e as lágrimas amargas dos cônjuges; em vez disso, na maioria dos casos era costume rir, gracejar e festejar entre amigos; e as mulheres, abandonando em grande parte a piedade feminina, aprenderam muitíssimo bem esses usos em nome de sua própria saúde. E eram raros aqueles cujos corpos fossem acompanhados à igreja por mais de dez ou doze vizinhos; seu ataúde não era levado sobre os ombros de honrados e prezados cidadãos, mas alçado aos ombros de uma espécie de sepultureiros surgidos na arraia miúda, que eram chamados coveiros e prestavam serviços mediante pagamento; estes, com passos apressados, na maioria das vezes não o levavam à igreja escolhida antes da morte, e sim à mais próxima, atrás de quatro ou seis clérigos com pouco lume, e em certas ocasiões até sem nenhum; e estes, com a ajuda dos referidos coveiros, sem se afadigarem em ofícios longos ou solenes, metiam o corpo na primeira sepultura que encontrassem vaga. Maior era o espectáculo da miséria da gente miúda e, talvez, em grande parte da mediana; pois essas pessoas, retidas em casa pela esperança ou pela pobreza, permanecendo na vizinhança, adoeciam aos milhares; e, não sendo servidas nem ajudadas por coisa alguma, morriam todas quase sem nenhuma redenção. Várias expiravam na via pública, de dia ou de noite; muitas outras, que expiravam em casa, os vizinhos percebiam que estavam mortas mais pelo fedor do corpo em decomposição do que por outros meios; e tudo se enchia destes e de outros que morriam por toda parte. Os vizinhos, em geral, movidos tanto pelo temor de que a decomposição dos corpos os afectasse quanto pela caridade que tinham pelos falecidos, observavam um mesmo costume. Sozinhos ou com a ajuda de carregadores, quando podiam contar com estes, tiravam os finados de suas respectivas casas e os punham diante da porta, onde, sobretudo pelas manhãs, um sem-número deles podia ser visto por quem quer que passasse; então, providenciavam ataúdes e os carregavam (alguns corpos, por falta de ataúdes, foram carregados sobre tábuas). Um mesmo ataúde podia carregar dois ou três mortos juntos, e isso não ocorreu só uma vez, mas seria possível enumerar vários que continham marido e mulher, dois ou três irmãos, pai e filho, e assim por diante. E foram inúmeras as vezes em que, indo dois padres com uma cruz para alguém, três ou quatro ataúdes, levados por carregadores, se puseram atrás dela: e os padres, acreditando que tinham um morto para sepultar, na verdade tinham seis, oito e às vezes mais. E tampouco eram estes honrados por lágrimas, círios ou séquito; ao contrário, a coisa chegara a tal ponto, que quem morria não recebia cuidados diferentes dos que hoje seriam dispensados às cabras; porque ficou bastante claro que, se o curso natural das coisas, com pequenos e raros danos, não pudera mostrar aos sábios o que devia ser suportado com paciência, a enormidade dos males conseguiu tornar mais sagazes e resignados até mesmo os ignorantes. Não sendo bastante o solo sagrado para sepultar a grande quantidade de corpos que chegavam carregados às igrejas a cada dia e quase a cada hora (principalmente se se quisesse dar a cada um o seu lugar próprio, segundo o antigo costume), abriam-se nos cemitérios das igrejas, depois que todos os lugares ficassem ocupados, enormes valas nas quais os corpos que chegavam eram postos às centenas: eram eles empilhados em camadas, tal como a mercadoria na estiva dos navios, e cada camada era coberta com pouca terra até que a vala se enchesse até a borda. E, deixando de lado todas as particularidades das passadas misérias sofridas pela cidade, direi que aqueles tempos tão adversos que a devastavam nem por isso pouparam os campos circundantes, onde (sem mencionarmos os castelos, que eram cidades em miniatura), nas aldeias esparsas e nas plantações, os lavradores miseráveis e pobres e suas famílias, sem nenhum socorro de médicos nem ajuda de serviçais, morriam nas ruas, nas lavouras e nas casas, de dia e de noite, indiferentemente, não como homens, mas quase como animais. Em vista disso, tornando-se dissolutos como os citadinos nos seus costumes, eles não cuidavam das suas coisas nem dos seus afazeres; ao contrário, como se esperassem a chegada da morte para aquele mesmo dia, não se preocupavam com os futuros frutos da criação, das terras e do trabalho já realizado, e esforçavam-se com todo o empenho em consumir tudo o que tivessem no presente. Com isso, bois, asnos, ovelhas, cabras, porcos, frangos e até os fidelíssimos cães, expulsos de suas próprias casas, saíam andando a esmo pelos campos (onde a messe ainda estava abandonada, sem ser ceifada, para não dizer colhida). E muitos, como se fossem racionais, depois de terem se apascentado bem durante o dia, voltavam saciados à noite para casa, sem serem tangidos por pastores. Que mais se pode dizer (deixando os campos e voltando à cidade), senão que foi tamanha a crueldade do céu, e talvez em parte dos homens, que se tem por certo que do mês de Março a Julho (por força da doença pestífera e porque muitos doentes foram mal atendidos ou abandonados nas suas necessidades, devido ao medo que os sãos sentiam) mais de cem mil criaturas humanas perderam a vida dentro dos muros da cidade de Florença, e que talvez, antes dessa mortandade, não se imaginasse que lá haveria tanta gente assim? Oh, quantos grandes palácios, quantas belas casas, quantas nobres moradas, antes cheios de criados, senhores e senhoras, esvaziaram-se de todos, até o mais ínfimo serviçal! Oh, quantas memoráveis linhagens, quantas grandes heranças, quantas famosas riquezas ficaram sem seus devidos sucessores! Quantos homens valorosos, quantas belas mulheres, quantos jovens airosos, que ninguém mais que Galeno, Hipócrates ou Esculápio teriam considerado saudabilíssimos, pela manhã comeram com familiares, companheiros e amigos, e à noite cearam no outro mundo com os seus antepassados!» In Giovanni Boccaccio (1313-1375), Decameron, 1354, Relógio d’Água, ISBN 978-972-708-879-9, L&Pm, 2013, ISBN 978-852-542-941-4.
                                         
Cortesia de Ed’Água/L&Pm/JDACT

segunda-feira, 15 de outubro de 2018

Decameron. Giovanni Boccaccio (1313-1375). «E, dentre esses que tinham tão variadas opiniões, embora não morressem todos, também nem todos se salvavam: ao contrário, adoeciam muitos que pensavam de modos diversos, em todos os lugares»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) De tais coisas e de muitas outras semelhantes ou piores originaram-se diferentes medos e imaginações nos que continuavam vivos, e quase todos tendiam a um extremo de crueldade, que era esquivar-se e fugir aos doentes e às suas coisas; e, assim agindo, todos acreditavam obter saúde. Alguns, considerando que viver com temperança e abster-se de qualquer superfluidade ajudaria muito a resistir à doença, reuniam-se e passavam a viver separados dos outros, recolhendo-se e encerrando-se em casas onde não houvesse nenhum enfermo e fosse possível viver melhor, usando com frugalidade alimentos delicadíssimos e óptimos vinhos, fugindo a toda e qualquer luxúria, sem dar ouvidos a ninguém e sem querer ouvir notícia alguma de fora, sobre mortes ou doentes, entretendo-se com música e com os prazeres que pudessem ter. Outros, dados a opinião contrária, afirmavam que o remédio infalível para tanto mal era beber bastante, gozar, sair cantando, divertir-se, satisfazer todos os desejos possíveis, rir e zombar do que estava acontecendo; e punham em prática tudo o que diziam sempre que podiam, passando dia e noite ora nesta taverna, ora naquela, bebendo sem regra nem medida, fazendo tais coisas muito mais nas casas alheias, apenas por sentirem gosto ou prazer em fazê-las.
E podiam assim agir estouvadamente porque os outros, como se já não precisassem viver, tinham abandonado as suas coisas e a si mesmos; de modo que as casas, na sua maioria, tinham-se tornado comuns e eram usadas pelos estranhos que porventura chegassem, tal como teriam sido usadas por seus próprios donos; e, apesar desse comportamento animalesco, fugiam dos doentes sempre que podiam. E, em meio a tanta aflição e miséria da nossa cidade, a veneranda autoridade das leis divinas e humanas estava quase totalmente decaída e extinta porque os seus ministros e executores, assim como os outros homens, estavam mortos ou doentes, ou então se encontravam tão carentes de servidores que não conseguiam cumprir função alguma; por esse motivo, era lícito a cada um fazer aquilo que bem entendesse. Muitos outros observavam uma via intermediária entre as duas descritas acima, não se restringindo na alimentação, como os primeiros, nem se entregando à bebida e a outras dissipações como os segundos, mas usavam as coisas na quantidade suficiente para atender às necessidades, não se encerravam em casa, iam a toda parte, alguns com flores nas mãos, outros com ervas aromáticas, outros ainda com diferentes tipos de especiaria, que levavam com frequência ao nariz, pois consideravam óptimo aliviar o cérebro com tais odores, visto que o ar todo parecia estar impregnado do fedor dos cadáveres, da doença e dos remédios. Outros tinham sentimento mais cruel (se bem que talvez fosse a atitude mais segura) e diziam que contra a peste não havia remédio melhor nem tão bom como fugir; e, convencidos disso, não se preocupando com nada a não ser consigo, vários homens e mulheres abandonaram a sua cidade, as suas casas, as suas propriedades, os seus parentes e as suas coisas, buscando os campos da sua região ou das alheias, como se com aquela peste a ira de Deus não tencionasse punir as iniquidades dos homens onde quer que eles estivessem, mas só afligisse aqueles que ficassem dentro dos muros da sua cidade, ou como se achassem que ninguém deveria ficar nela, chegada que era a sua hora derradeira.
E, dentre esses que tinham tão variadas opiniões, embora não morressem todos, também nem todos se salvavam: ao contrário, adoeciam muitos que pensavam de modos diversos, em todos os lugares; e esses doentes, que, quando estavam sãos, tinham dado exemplo àqueles que agora continuavam sãos, definhavam quase abandonados por todas as partes. E, sem contar que um cidadão evitava o outro, que quase nenhum vizinho cuidava do outro e que os parentes raramente ou nunca se visitavam, e só o faziam à distância, era tamanho o pavor que essa tribulação pusera no coração de homens e mulheres, que um irmão abandonava o outro, o tio ao sobrinho, a irmã ao irmão e muitas vezes a mulher ao marido; mas (o que é pior e quase incrível) os pais e as mães evitavam visitar e servir os filhos, como se seus não fossem. Por todas essas coisas, para a multidão incalculável de homens e mulheres que adoeciam não restava outro socorro senão a caridade dos amigos (e destes houve poucos) ou a ganância dos serviçais, que trabalhavam em troca de gordos salários e acordos abusivos, se bem que com tudo aquilo não restassem muitos: e os que havia eram homens ou mulheres de tosco engenho, a maioria não acostumada a tais serviços, que só serviam para pôr nas mãos dos doentes algumas coisas que estes pedissem ou para velar a sua morte; e, cumprindo tal serviço, muitas vezes pereciam junto com os seus ganhos. E, do facto de estarem os doentes abandonados por vizinhos, parentes e amigos e de serem poucos os serviçais, decorreu um costume quase desconhecido antes: nenhuma mulher que adoecesse, por mais graciosa, bela ou fidalga que fosse, se importava de ter um homem ao seu serviço, fosse ele jovem ou não, e de lhe expor todas as partes do corpo sem nenhum pudor, tal qual teria exposto a uma mulher, desde que a doença impusesse essa necessidade; e, nos tempos que se sucederam, isso talvez tenha sido razão de menor honestidade daquelas que se curaram. Além disso, morreram muitos que, se porventura ajudados, teriam escapado; assim, tanto por falta do devido atendimento, que os doentes não podiam ter, quanto pela força da peste, era tamanha a multidão de gente a morrer noite e dia na cidade que causava espanto ouvir dizer, quanto mais presenciar. Desse modo, como que por necessidade, entre os que sobreviveram, surgiram usos contrários aos primitivos costumes dos cidadãos». In Giovanni Boccaccio (1313-1375), Decameron, 1354, Relógio d’Água, ISBN 978-972-708-879-9, L&Pm, 2013, ISBN 978-852-542-941-4.

Cortesia de Ed’Água/L&Pm/JDACT

terça-feira, 10 de abril de 2018

Decameron. Giovanni Boccaccio (1313-1375). «… ceifando a vida de incontável número de pessoas, e, sem se deter, continuou avançando de um lugar a outro até se estender desgraçadamente em direcção ao ocidente»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Graciosas senhoras, quanto mais penso cá comigo e contemplo como são as senhoras naturalmente piedosas, mais concluo que esta obra lhes parecerá austera e pesada no princípio, assim como o é a dolorosa lembrança da última peste, com que ela se inicia, para todos os que a viram ou que de algum outro modo souberam de seus estragos. Mas não quero que isso as assuste e impeça de prosseguir, como se, lendo, houvessem de estar sempre entre suspiros e lágrimas. Este horripilante início não deve ser diferente do que é para o caminhante a montanha acidentada e íngreme, atrás da qual se encontre uma planície belíssima e amena, que lhe parecerá tanto mais agradável quanto maior tiver sido o padecimento da subida e da descida. E, assim como os confins da alegria são ocupados pela dor, as misérias têm os seus limites no contentamento que sobrevém. A este breve aborrecimento (digo breve porque contido em poucas linhas) seguem-se logo o deleite e o prazer já prometidos, que talvez não fossem esperados de tal início, caso isto não fosse dito. Na verdade, se me tivesse sido possível levá-las convenientemente àquilo que desejo por outro caminho, e não por esta senda tão árdua, eu o teria feito de bom grado: mas como, sem esta rememoração, não seria possível explicar por qual razão ocorreram as coisas que a seguir serão lidas, disponho-me a descrevê-las como que impelido pela necessidade.
Digo, pois, que os anos da frutífera encarnação do Filho de Deus já haviam chegado ao número 1348 quando, na insigne cidade de Florença, a mais bela de todas as da Itália, ocorreu uma peste mortífera, que, fosse ela fruto da acção dos corpos celestes, fosse ela enviada aos mortais pela justa ira de Deus para correcção das nossas obras iníquas, começara alguns anos antes no lado oriental, ceifando a vida de incontável número de pessoas, e, sem se deter, continuou avançando de um lugar a outro até se estender desgraçadamente em direcção ao ocidente. E, de nada havendo servido os saberes e as providências humanas, como a limpeza das imundícies da cidade por funcionários encarregados de tais coisas, a proibição de entrada dos doentes e os muitos conselhos dados para a conservação da salubridade, e tampouco encontrando efeito as humildes súplicas feitas a Deus pelos devotos, não uma vez, mas muitas, em procissões e de outros modos, era já quase início da Primavera do ano acima quando começaram a manifestar-se de maneira prodigiosa os seus horríveis e dolorosos efeitos. Não se manifestavam como na parte oriental, onde expelir sangue pelo nariz era sinal manifesto de morte inevitável, mas começavam com o surgimento de certas tumefacções na virilha ou nas axilas de homens e mulheres, algumas das quais atingiam o tamanho de uma maçã comum e outras o de um ovo, umas mais e outras menos, e a elas o povo dava o nome de bubões. E os referidos bubões mortíferos, não se limitando às duas citadas partes do corpo, em breve espaço de tempo começaram a nascer e a surgir indiferentemente em todas as outras partes, após o que a qualidade da enfermidade começou a mudar, passando a manchas negras ou lívidas, que em muitos surgiam nos braços, nas coxas e em qualquer outra parte do corpo, umas grandes e ralas, outras diminutas e espessas. E, tal como ocorrera e ainda ocorria com o bubão, tais manchas eram indício inegável de morte próxima para todos aqueles em quem aparecessem.
Para tratar tais enfermidades não pareciam ter préstimo nem proveito a sabedoria dos médicos e as virtudes da medicina: ao contrário, seja porque a natureza do mal não admitisse tratamento, seja porque a ignorância dos que o tratavam (cujo número era enorme, havendo, além dos cientistas, também mulheres e homens que jamais haviam feito estudo algum de medicina) não permitisse conhecer a sua causa, nem portanto usar o devido remédio, não só eram poucos os que se curavam, como também quase todos morriam nos três dias seguintes ao aparecimento dos sinais acima referidos, uns mais cedo, outros mais tarde, a maioria sem febre alguma ou qualquer outra complicação. E a peste ganhou maior força, porque dos doentes passava aos sãos, que com eles conviviam, de modo nada diferente do que faz o fogo com as coisas secas ou engorduradas que lhe estejam muito próximas. E mais ainda avançou o mal: pois não só falar e conviver com os doentes causava a doença nos sãos ou os levava igualmente à morte, como também as roupas ou quaisquer outras coisas que tivessem sido tocadas ou usadas pelos doentes pareciam transmitir a referida enfermidade a quem as tocasse.
É espantoso ouvir aquilo que devo dizer: se tais coisas não tivessem sido vistas pelos olhos de muitos e também pelos meus, eu mal ousaria acreditar nelas, muito menos descrevê-las, por mais fidedigna que fosse a pessoa de quem as ouvisse. Digo que era tamanha a eficácia de tal peste em passar de um ser a outro, que ela não o fazia apenas de homem para homem, mas fazia muito mais (coisa que indubitavelmente ocorreu várias vezes), ou seja, o animal não pertencente à espécie do homem que tocasse as coisas do homem que adoecera ou morrera dessa doença não só adoecia também como morria em brevíssimo espaço de tempo. Tive, entre outras, a seguinte experiência, coisa vista com meus próprios olhos, como há pouco disse: um dia tendo os farrapos de um pobre homem morto da doença sido jogados na via pública, dois porcos se aproximaram deles e, conforme é seu costume, primeiro os fuçaram e depois os tomaram entre os dentes para sacudi-los; em pouco tempo, como se tivessem tomado veneno, após algumas contorções ambos caíram mortos sobre os trapos que em má hora haviam puxado». In Giovanni Boccaccio (1313-1375), Decameron, 1354, Relógio d’Água, ISBN 978-972-708-879-9, L&Pm, 2013, ISBN 978-852-542-941-4.

Cortesia de Ed’Água/L&Pm/JDACT

Decameron. Giovanni Boccaccio (1313-1375). «E quem negará que, seja ele quanto for, convirá dá-lo muito mais às amáveis senhoras do que aos homens? Porque elas, temerosas e envergonhadas, guardam as chamas amorosas escondidas…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«É humano ter compaixão dos aflitos: e, embora em todos ela caia bem, espera-se compaixão máxima daqueles que já precisaram de conforto e o encontraram; entre estes, se alguém há que já precisou dele, que o prezou ou já sentiu a alegria de tê-lo, esse sou eu. Pois, tendo sido sobremaneira inflamado desde a primeira juventude até ao presente por elevadíssimo e nobre amor (talvez, pelo modo como falo, bem mais do que pareceria conveniente à minha baixa condição), ainda que para os atilados que dele tiveram notícia eu fosse louvado e muito mais reputado por tal facto, nem por isso deixou de me ser penoso suportá-lo, não decerto pela crueldade da mulher amada, mas pelo excessivo ardor concebido na mente por um desejo pouco temperado: e este, não me permitindo outrora ficar dentro de limites convenientes, com frequência me fazia penar mais do que seria necessário. E a tais penas deram tanto refrigério os agradáveis colóquios com alguns amigos e suas louváveis consolações que acredito firmemente dever a isso o facto de não estar morto. Mas, como quis Aquele que, sendo infinito, ditou a lei imutável de que todas as coisas do mundo devem ter fim, meu amor, que era mais fervoroso que qualquer outro e não pudera ser destruído nem vergado por nenhuma força de vontade, sensatez, vergonha evidente ou perigo que dele pudesse decorrer, com o passar do tempo diminuiu sozinho, a tal ponto que em minha mente deixou de si apenas o prazer que de hábito ele concede a quem não tenha navegado por seus mais tenebrosos pélagos; porque, embora costumasse ser tão penoso, eliminadas as suas inquietudes, sinto que permaneceu o seu deleite.
Contudo, embora as penas tenham cessado, nem por isso me fugiu a lembrança dos benefícios recebidos daqueles que, tratando-me com benevolência, ficavam pesarosos com as minhas atribulações: tal lembrança nunca desaparecerá, a não ser com a morte, disso estou certo. E como, segundo creio, de todas as virtudes a gratidão é a mais recomendável, sendo condenável o seu contrário, para não parecer ingrato decidi propôr-me, dentro das minhas pequenas possibilidades, oferecer algum alívio (agora que posso dizer-me livre) em troca do que recebi, se não àqueles que me ajudaram e, por serem sensatos e venturosos, talvez não precisem dele, pelo menos àqueles aos quais ele venha a caber. E, embora o meu apoio ou conforto (se quisermos assim dizer) possa ser, como de facto é, pouca coisa para os necessitados, parece-me bom oferecê-lo onde a necessidade se mostrar maior, seja porque então será mais útil, seja porque lhe será dado mais apreço.
E quem negará que, seja ele quanto for, convirá dá-lo muito mais às amáveis senhoras do que aos homens? Porque elas, temerosas e envergonhadas, guardam as chamas amorosas escondidas dentro do peito delicado, e, como bem sabe quem as sentiu, têm estas muito mais força que as chamas declaradas: além disso, coagidas por vontades, gostos e ordens de pai, mãe, irmãos e marido, ficam a maior parte do tempo encerradas no pequeno circuito dos seus aposentos, permanecendo quase ociosas e, querendo e não, revolvendo num mesmo instante diversos pensamentos que não podem ser todos sempre alegres. E, se, em decorrência de tais pensamentos, nascer na sua mente alguma melancolia trazida por ardente desejo, esta ali haverá de ficar, para seu grande pesar, caso não seja afastada por novas conversações: sem contar que as mulheres são muito menos fortes que os homens para opôr resistência; coisa que não ocorre com os homens enamorados, como podemos ver claramente. Estes, se afligidos por alguma melancolia ou por pensamentos pesarosos, têm muitos modos de encontrar alívio ou esquecimento, pois, desde que queiram, não lhes falta a possibilidade de passear, ouvir e ver muitas coisas, praticar lavores em forma de cetra, caça e pesca, cavalgar, jogar ou comerciar: desses modos cada um encontra forças para recobrar o ânimo, no todo ou em parte, e para afastar-se do pensamento pesaroso pelo menos por algum tempo, após o que, de um modo ou de outro, ou se alcança o consolo ou o pesar diminui.
Portanto, para que por meu intermédio seja corrigido o pecado da fortuna, que, onde menos devia, mais avara de amparo foi, tal como vemos nas mulheres delicadas, pretendo prestar socorro e refúgio àquelas que amam, pois às outras bastam a agulha, o fuso e a dobadoura, contando cem novelas ou fábulas ou parábolas ou histórias, como se queira chamar, narradas em dez dias por um honesto grupo de sete senhoras e três rapazes, formado nos tempos mortíferos da peste que passou, bem como algumas canções, cantadas pelas senhoras acima referidas, para seu deleite. Em tais novelas haverá casos de amor agradáveis e pungentes, bem como outras aventuras ocorridas nos tempos actuais e nos antigos; e das coisas divertidas que nelas são mostradas as senhoras que as lerem poderão extrair não só prazer como também orientações úteis, pois reconhecerão aquilo de que se deve fugir e aquilo que deve ser seguido: coisas que não podem ocorrer sem que se livrem de seu pesar. Queira Deus que isso ocorra; e caberá agradecer ao Amor, que, libertando-me das suas cadeias, concedeu-me o poder de dar atenção aos prazeres delas». In Giovanni Boccaccio (1313-1375), Decameron, 1354, Relógio d’Água, ISBN 978-972-708-879-9, L&Pm, 2013, ISBN 978-852-542-941-4.

Cortesia de Ed’Água/L&Pm/JDACT