Mostrar mensagens com a etiqueta Saber. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Saber. Mostrar todas as mensagens

domingo, 30 de junho de 2024

A Esmeralda Partida. Fernando Campos. «Sacrifiquei os meus vinte anos a tratar do pai e dos irmãos. Agora, com trinta e cinco, não achas que é tempo de casar? ... e de ter filhos... Mais uma razão para lhe fazeres companhia»

jdact

A Tempestade

«São grandes senhores!, disse frei Zedilho. Sim, eram! Mas, com o serem, continuavam escravos do grão-turco e se não cumpriam os seus ofícios e governos como deviam, não se ensaiava nada em tirá-los do cargo e com facilidade os mandava matar, se lhe parecia, sem haver quem lho ousasse contradizer. Se porém serviam fiel e louvavelmente, promovia-os de uma dignidade pequena a outra maior. Ordinariamente não dava estas funções senão por três anos, já se via com que intenção...

Tínhamos passada toda a Albânia com a diversidade dos seus portos, cidades e lugares, entre os quais a famosa Castória, edificada dentro do mar como a rica Veneza, e a inexpugnável Valona, onde ao presente o grão-turco tem a sua esquadra de galés e naus de que se serve nas batalhas navais. Pérides, com o seu olhar habituado a perscrutar o horizonte onde começava a sombrear a mancha de uma ilha, disse: Tenho de vos deixar. Estamos a chegar a Corfu. Bateu-me mais forte o coração e senti subitamente um grande medo do que iria encontrar naquela ilha.

Não tardou muito que a víssemos com nitidez, suas muralhas edificadas sobre a rocha viva, e pouco tempo depois dávamos entrada pelo estreitíssimo canal que vai entre a ilha e a terra dos Turcos, tão estreito que as embarcações que entram não podem fazer manobra para se voltarem e necessitam de um vento para entrar e outro para sair. Por isso muitas vezes sucede estarem ali detidas sem poderem fazer viagem, salvo sendo ajudadas pelas galés que a senhoria veneziana ali tem continuamente para guarda e defensão da ilha.

A muita proximidade da terra dos Turcos faz que estes a cobicem e mais que uma vez tentaram tomá-la, mas sem resultado, pois Veneza tem sabido defendê-la, com a guarnição militar dos seus dois fortíssimos castelos roqueiros sobre o mar e as suas cerca de trinta galés.

Enigma Alfa. 1501 - 1545

O que murmuram os canaviais

Herdou as saboarias paterna, mas não a provedoria, que o pai vendera para pagar dívidas. Casava assim a irmã Inês com um homem bem dotado e rico. Uma pontinha de inveja? Ana era mais velha que Inês e lá se quedava naquele casarão de Santarém, condenada a cuidar do pai viúvo e dos irmãos, sem a companhia da irmã nem da aia Maria do Céu que Inês levava consigo. Súbito veio o luto: Inês morria do parto do filho Francisco; o cunhado casava segunda vez, com uma prima dele, Filipa, de quem teve o filho Fruitos; falecida a segunda mulher, volta a contrair matrimónio, agora Isabel Vieira que se finou de peste sem lhe dar geração: e pela quarta vez com Isabel Gomes Limi que gerou cinco filhos: primeiro Rui como o pai, falecido ainda no berço, o segundo Manuel e depois Damião, Baltasar e Antónia. A aia ia ficando na casa a cuidar das crianças.

Em mil e quinhentos e onze, Isabel viu-se viúva. Foi então que ao menino Damião, nascera em mil e quinhentos e dois como o príncipe João, recordava Ana, após o saimento do pai levou-o para a corte, ainda na idade do eixo e do pião, o meio-irmão Fruitos, a sugestão de el-rei de quem era moço da guarda-roupa. Aí vão os dois rapazes a entrar nos Paços da Ribeira. Largo e comprido corredor de portadas de vidro viradas ao terreiro e, ao fundo, às naus varadas no Tejo. Grossos tocheiros em castiçais dourados. A espaços certos, pesadas portas de carvalho polido e nos intervalos, em frente das portadas, grandes espelhos a beberem a luz e a espalharem claridade.

Soam-lhes os passos nas lajes de mármore, os de Fruitos mais largos, os do irmão miudinhos. Na última porta dois archeiros fardados de librés com galões de ouro fazem sentinela. Na antecâmara vem recebê-los o guarda-mor: por aqui. Vais ver o senhor do mundo, segreda Fruitos ao ouvido do irmão.

O rei Emanuel estava sentado em cadeirão de espaldar, junto a uma mesa com papéis, a ditar suas cartas ao secretário. Ao vê-los, parou de ditar e ergueu o olhar para o menino. Damião arregalou os olhos de água. O rei sorria-lhe: aproxima-te. Beija a mão a Sua Alteza, disse-lhe Fruitos em voz baixa. Damião, num dobrar de joelhos, os olhos cheios de lágrimas, beijou a mão do rei. Estás espantado, moço? Nunca viste um rei? Que se passa com teu irmão, Fruitos? Senhor, nosso pai foi a enterrar. E ver-te agora…, a tua parecença com ele... Até eu, habituado a ti, estou torvado. Vá meu filho, disse o rei afagando a cabeça do menino, enxuga-me essas lágrimas. Serei para ti um pai, verás. Ana Macedo recordava estas coisa com o susto na alma e, quando Maria do Céu se preparava para ingressar num convento… Volta para Santarém, propõe-lhe. A nossa casa continua a ser a tua. Maria do Céu ripostava: mas, menina… Céu, estou sozinha, meu paizinho Deus o chamou, meus irmãos na Índia... Cá me soou que a menina vai casar…

Sacrifiquei os meus vinte anos a tratar do pai e dos irmãos. Agora, com trinta e cinco, não achas que é tempo de casar? ... e de ter filhos... Mais uma razão para lhe fazeres companhia. Recordaremos os tempos felizes e tu ajudas-me a tratar das crianças que nascerem… Quem é ele? Um cavaleiro-fidalgo chamado Simão Vaz. Vem. Contar-te-ei tudo quando estiveres comigo. Um dia, já casada, foram viver para Lisboa e por essa altura vira Ana o rei pela primeira vez e logo notara a extrema semelhança dele com o defunto marido da sua defunta irmã, que ambos Deus fosse servido de ter em sua glória, amém. Homem de boa estatura de corpo el-rei Emanuel, mais delgado que grosso, a cabeça sobre o redondo, cabelos castanhos, a testa desanuviada deles, olhos alegres, de um verde quase branco, alvo, semblante bem-assombrado, risonho nas covas da face e na comissura dos lábios, os braços carnudos, tão compridos que as mãos lhe passavam abaixo dos joelhos, as pernas proporcionadas ao corpo...» In Fernando Campos, A Esmeralda Partida, 1995, Difel, Lisboa, 2008, ISBN 978-972-290-330-1.

Cortesia de Difel/JDACT

D. João II, JDACT, Literatura, Saber, Fernando Campos,

sábado, 29 de junho de 2024

A Esmeralda Partida. Fernando Campos. «Que as mandava criar com muito cuidado e diligência, doutrinar na bruta e maldita seita do sancarrão Mafamede e instruir em todas as boas artes militares: na cavalaria, no pelejar com toda a sorte de armas. Com que fim?»

jdact

O Rei de Marfim

«(…) Falas de outra luta? Tu, minha irmã, é que referiste esse rei de Mmarfim como sendo o bom rei Duarte nosso avô. À roda dele giravam nobres senhores e esboçavam-se as lutas que ao depois se seguiram. Marfim, ébano... eu sei. encetaremos outra jogada, outras jogadas. reveremos tudo. com a morte recente da nossa avó Isabel de Urgel fecha-se um círculo de tamanho ódio! Psiu! falasse baixo! Tia Filipa podia ouvir pobre senhora de luto pela mãe...

Tudo aí começou  voltou-se Filipa em lágrimas. Não chores, minha tia! Então? Levantava-se Joana a abraçá-la, a sentá-la ao pé de si, trinta e um anos secos e martirizados. Tudo aí começou ..., abriu-se em soluços,  e agora, de uma casa tão grande e tão feliz, só eu e a triste da minha irmã Catarina encerrada na casa.

(…)

A Tempestade

No dia seguinte, a fúria do vento minguava e nós fomos costeando a Dalmácia, Argentina, Zara, Lissa, Meleda, Cúrsula, terras sujeitas umas a Veneza e outras à senhoria de Aragusa. Vinham-me à lembrança fragmentos de antigas e recentes leituras: a Dalmácia era a pátria de São Jerónimo e também do papa mártir São Caio, da parentela do imperador Diocleciano; Aragusa ou Ragusa, o antigo Epidauro, era ao presente dos Turcos e chamava-se Dobrónica, cidade grandíssima, rica, muito nomeada naquelas partes, terra de grandes tratos e mercadores, onde se fazem muitas naus, as maiores e mais grossas de todo o Levante. É daqui o nosso padre guardião, frei Bonifácio. Seguimos sempre ao longo da costa, o que amenizava a viagem, pois tinham nossos olhos com que se entreterem. Que montes seriam aqueles?, apontava frei Zedilho. Eu consultava o meu enquirídio e não demorava muito a identificá-los: eram os montes Acroceráunios, muito afamados na Antiguidade.

Ah! Deles fazia memória São Jerónimo no segundo prólogo da Bíblia, comentava o meu teólogo. Vinha depois a costa do Epiro, a que está ligada a Macedónia, pátria de Alexandre Magno, do qual tantas grandezas contam tantos escritores gregos e latinos.

As línguas de todas estas terras são muito diversas umas das outras, mas os Aragúsios e os Dalmacianos entendem-se bem entre si pela contínua comunicação. Os Albaneses e os Epirotas usam comumente o grego, mas, como presentemente estão submetidos aos Turcos, toda a gente principal e nobre fala a língua turca. Estas informações colhi-as eu de um marinheiro grego chamado Pérides, a quem frequentemente fazíamos perguntas quando queríamos saber alguma coisa.

Era muito sensível ao facto de a sua pátria grega estar sob o domínio turco. Isolava-se amiúde junto à amurada a olhar a linha da costa passar, os montes e vales, as lágrimas a desfiarem-lhe pelas faces e cantando baixinho, só para si, saudosas melopeias que aprendera em menino. Ansiava pelo dia em que a Grécia sua bem-amada recobrasse a independência. Mal adivinhava eu, naquele tempo, que também me estava destinado ter, a respeito do meu país, essa dolorosíssima experiência!... Contava-nos ele factos nunca ouvidos.

De todas as partes e províncias e em especial do Epiro, da Macedónia e da Albânia, todas as pias de baptizar eram obrigadas cada ano a dar certas crianças de tributo ao grão-turco... Dar crianças ao turco?, admirava-se, escandalizado, frei Zedilho. Para quê?, secundava eu. Que as mandava criar com muito cuidado e diligência, doutrinar na bruta e maldita seita do sancarrão Mafamede e instruir em todas as boas artes militares: na cavalaria, no pelejar com toda a sorte de armas. Com que fim?

Criavam assim um corpo militar de eleição, no qual residia toda a força e potência humana do grão-turco. Era com eles que fazia a guerra a todo o mundo..., e conquistava tantos reinos e províncias como tinha tomado aos cristãos, por nossos pecados, rematava eu tomando calor no que dizia, e pela ambição e cobiça de alguns príncipes católicos, se este nome lhes cabia, que procurando com injustas guerras o alheio perdiam o próprio...

Aqueles eram os guerreiros a que se chamava janízaros. Mas não era só nas guerras que o grão-turco deles se servia. Usava-os também no governo da sua corte e de todos os seus reinos e províncias. Segundo o esforço, a prudência, a valentia e virtude que cada um demonstrava ia-lhes dando os ofícios e honras, dignidades e prémios que lhe parecia merecerem: a uns fazia baxás, que eram uma espécie de vizo-reis de reinos e províncias, a outros sanjacos, que eram governadores das cidades e seus termos, a outros berebés, chauses, cádis, que eram como justiças-mores das terras onde residiam...» In Fernando Campos, A Esmeralda Partida, 1995, Difel, Lisboa, 2008, ISBN 978-972-290-330-1.

Cortesia de Difel/JDACT

D. João II, JDACT, Literatura, Saber, Fernando Campos, Conhecimento,

Madeline Hunter. Deslumbrante. «Já fui em outras festas com as crianças presentes. Não me lembro de vê-la nessas. Só estive com elas um ano, antes de conhecer o capitão Joyes e deixar minha posição. Na cidade ninguém ouviu falar que houvesse algum homem na casa»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…)  Então deixarei a indicação para ela vir para aqui assim que retornar. Olhou para o lado. Lizzie, pode... Ora essa, onde é que ela se enfiou? Estava aqui mesmo antes de a Celia trazê-lo e até leu o seu cartão... Estalou a língua em sinal de exasperação. Por favor, aguarde aqui, lord Sebastian, enquanto vou pessoalmente dizer para nos enviarem miss Kelmsleigh.

Deixou-o no meio da vegetação. O ar tinha um aroma luxuriante cuja densidade húmida continha um pouco de tudo. Citrinos e rosas e até o laivo fresco da erva. Uma pessoa podia se inebriar com um perfume daqueles. Enfiou o dedo na terra de um dos vasos em que mrs. Joyes estivera trabalhando. Tocou no volume de um bulbo. Desceu tranquilamente o corredor, passando por vários limoeiros em vasos e por mesas de botões floridos. No fundo do edifício uma videira crescia dentro do vidro. A raiz encontrava-se do lado de fora, mas o pé espesso entrava por um buraco aberto na parede de tijolo. As várias gavinhas trepavam por apoios robustos, estirando-se depois por barras de ferro, colocadas meio metro acima da sua cabeça. Debaixo deste frondoso caramanchão interior, estavam uma mesa de pedra e quatro cadeiras, compondo uma vinheta toscana.

Foi uma experiência, esclareceu mrs. Joyes, regressando. A videira, não pensei que resultasse. Deve ser agradável ficar sentado a esta mesa nos dias ensolarados de Inverno. Tem um belo conservatório de plantas.

É uma estufa. A maior parte daquilo que as pessoas chamam conservatórios na realidade são estufas, ou estufas de forçagem. Imagino que a palavra não seja suficientemente requintada e por isso a designação incorrecta se tenha tornado comum. Um verdadeiro conservatório de plantas faz isso mesmo, limita-se a conservar as plantas durante o Inverno, período em que estão em dormência. Temos um desses, também, no fundo do jardim. O rosto dela voltou a prender sua atenção.

Queira me desculpar, acho que fui inadvertidamente grosseiro. Já nos cruzamos, tenho certeza, mas não consigo me lembrar onde. Já nos cruzamos, realmente, anos atrás. Eu trabalhava como governanta para a família do duque de Becksbridge. Fomos apresentados um ao outro numa recepção no jardim, à qual fui autorizada a ir com a mais velha das minhas pupilas. Tem uma memória excelente para as pessoas insignificantes com as quais se cruza na vida, lord Sebastian. Se ela fosse de facto insignificante, ele poderia merecer o elogio, mas duvidava de que algum homem esquecesse que a conhecera.

Já fui em outras festas com as crianças presentes. Não me lembro de vê-la nessas. Só estive com elas um ano, antes de conhecer o capitão Joyes e deixar minha posição. Na cidade ninguém ouviu falar que houvesse algum homem na casa. O seu marido está ao serviço da marinha?

Esteve no exército. Morreu na Guerra Peninsular. A pergunta não alterou a graciosidade da sua postura, mas os olhos, escurecendo um pouco, revelaram que o assunto ainda lhe causava dor. Se me der licença novamente, vou ver porque demora Audrianna. Já devia ter voltado». In Madeline Hunter, Deslumbrante, Edições ASA, 2013, ISBN 978-989-232-372-5.

Cortesia de EASA/JDACT

JDACT, Madeline Hunter, Escrita, Saber,

Deslumbrante. Madeline Hunter. «Olhou para cima. Metade do tecto era composto também por pequenos painéis de vidro. Aguarde aqui, por favor, indicou ela, desaparecendo por trás de uma enorme palmeira num vaso»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Era o tipo de casa boa e sólida que se encontrava por toda a Inglaterra. Bonita, na sua alvenaria de pedra cinzenta, era grande demais para uma simples casa rústica e pequena demais para ser um solar. No topo, um sótão com telhado duplo erguia-se em dois pisos de altura tendo apenas janelas bem proporcionadas decorando a fachada simples.

Não apareceu ninguém para ficar com seu cavalo, por isso Sebastian atou as rédeas a um poste. O tempo que esperou depois de bater à porta deixava a entender que poucos criados trabalhavam lá, apesar da propriedade deixar transparecer alguma riqueza. A porta finalmente abriu. Uma governanta muito magra de meia-idade espreitou-o por entre os folhos da touca. Leu o cartão dele e voltou a espreitar. O olhar dela se demorou na caixa de madeira comprida que ele trazia debaixo do braço.

Disseram-me que miss Kelmsleigh vive aqui, explicou ele. Vim devolver uma coisa que ela perdeu.  Uma moça loira, bonita, surgiu. Também leu o cartão. Eu trato disto, mrs. Hill.  A mulher mais velha se retirou. A loira indicou que entrasse. Devia falar com mrs. Jones, prosseguiu. É a proprietária da casa. Está na estufa. Vou levá-lo até lá. Num passo tranquilo, levou-o até aos fundos da casa. Passaram por uma biblioteca com bonitas estantes e muitas cadeiras estofadas. Uma segunda sala de estar ocupava a parte de trás da casa. Através de uma das janelas, viu uma estufa.

Situada a vinte metros da casa, a estufa era muito maior do que as encontradas em casas rurais, a não ser que fossem propriedades muito grandes. A metade de cima das paredes era de vidro, num mosaico de painéis rectangulares suportados por ferro. A entrada para a estufa ficava no fundo de um corredor que saía da sala de estar. A mulher que o guiava abriu uma porta e ele foi envolvido por um calor húmido. Olhou para cima. Metade do tecto era composto também por pequenos painéis de vidro. Aguarde aqui, por favor, indicou ela, desaparecendo por trás de uma enorme palmeira num vaso. Momentos depois reapareceu e gesticulou para que se aproximasse. Apontou mrs. Joyes e se despediu.

Mrs. Joyes trabalhava sentada a uma mesa coberta de vasos cheios de terra. A mesma terra sujava o avental, as mãos e a touca. Enquanto ele se aproximava, ela pegou um trapo para limpar a pior parte.

Tinha um rosto muito bonito. Muito pálido. Muito perfeito. Olhos cinza-escuro. Possuía uma elegância natural que afectava até sua postura de pé. Se ele nunca a tivesse visto, poderia ter ficado embasbacado. Só que ele já a vira antes. Tinha certeza.

Lord Sebastian Summerhays, que honra. Não é frequente termos visitas tão ilustres. Procura uma flor para dar de presente a uma pessoa da sua estima? Temos pelargónios raros de nossa própria hibridação que são sempre apreciados. Procuro uma mulher que, segundo me disseram, vive aqui. miss Kelmsleigh. Indicou com a cabeça a caixa que trazia. – Devo devolver-lhe algo que lhe pertence. Miss Kelmsleigh não está em casa. Deve voltar muito em breve, se quiser aguardar. Ou pode deixar a caixa comigo.

Bom, era aquilo. Podia largar a caixa e ir embora. Não havia razão para não confiar que mrs. Joyes a entregasse a miss Kelmsleigh quando voltasse. Se avisasse para não abri-la, era bastante provável que controlasse a curiosidade.  Se estiver voltando em breve, eu mesmo lhe darei». In Madeline Hunter, Deslumbrante, Edições ASA, 2013, ISBN 978-989-232-372-5.

Cortesia de EASA/JDACT

 JDACT, Madeline Hunter, Escrita, Saber, 

Madeline Hunter. Deslumbrante. «A chegada de Sebastian, portanto, não atraiu grande atenção. Desceu a rua principal, passando por lojas em edifícios velhos de tabique e casas de pedra alinhadas. Procurou uma taverna»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Demais então. Avise a Fenwood para não recebê-la na próxima vez. Não permita que ela se assenhore do seu apartamento e entre nele a seu bel-prazer. Existira sempre o perigo de a mãe deles transformar Morgan numa criança assim que tivesse a oportunidade. Intrometia-se, o mimando e dominando, até ele perder o direito de ser um homem distinto. Esse havia sido o motivo de Sebastian se mudar para aquela casa quando o irmão voltou da guerra. Sua presença assegurava que a mãe não expandiria demais o seu domínio, especialmente no que dizia respeito ao filho mais velho. Sempre foi melhor em lidar com ela do que eu. Como em tantas outras coisas, declarou Morgan. Não havia nada que dizer adiante daquilo, por isso ambos voltaram-se aos jornais. Disse que esteve perto de Brighton, ontem? Ouviu alguma coisa acerca do espectáculo no Duas Espadas? Espectáculo? Morgan estreitou os olhos para ler as letras impressas. Deixou sair um sorriso. Um homem levou um tiro de uma amante. Aquilo é que deve ter sido um bom teatro. Ele não morreu, parece. Mesmo assim, não se deve ter falado de outra coisa lá em baixo. O que está lendo aí? Morgan corou. Um dos jornais cor-de-rosa da nossa mãe. De Brighton? Londres.

Maldição! Sir Edwin estava certo. A história provavelmente chegara à cidade antes de qualquer uma das suas vítimas. Evidentemente, não havia nomes no jornalzinho, porém. Ainda. O ritual terminou às onze horas. Sebastian se despediu e voltou ao próprio quarto. O criado pessoal o saudou com uma carta selada na mão. O endereço não estava correcto, meu senhor. Sebastian pegou a carta. Escrevera-a para miss Kelmsleigh e enviara-a por um mensageiro para a casa do pai. Não vivem mais lá? Mrs. Kelmsleigh sim, e miss Sarah Kelmsleigh. Audrianna Kelmsleigh, porém, não. O lacaio perguntou e lhe disseram que ela fora morar no Middlesex, perto da aldeia de Cumberworth. Sebastian levou a carta para o quarto. Abriu uma gaveta e olhou para a pistola que trouxera do Duas Espadas. Suas tentativas de devolvê-la de forma discreta não tinham dado certo. Podia mandar o despachante a Cumberworth. Se miss Kelmsley havia se mudado para o campo, bastariam algumas perguntas para localizá-la. Podia igualmente embrulhar a pistola e dá-la ao criado, e dar o assunto por encerrado. Viu a pistola numa mão suave, feminina. Viu olhos verdes de mulher cintilando de vida, depois acendendo de fascínio e paixão, e, por fim, esmaecendo de melancolia. Imaginou ela atravessando a hospedaria até à carruagem, fingindo não reparar que os outros clientes olhavam e sussurravam. Disse ao criado para mandar buscar o cavalo.

Cumberworth continuava uma aldeia rural, mas Londres se aproximava a cada ano que passava. Já fora absorvida pelos subúrbios da cidade, um dos muitos vilarejos do Middlesex que viam recém-chegados se misturar com velhos residentes e agentes imobiliários decompor quintas em pequenas propriedades para as famílias prósperas da sua vizinha maior. A chegada de Sebastian, portanto, não atraiu grande atenção. Desceu a rua principal, passando por lojas em edifícios velhos de tabique e casas de pedra alinhadas. Procurou uma taverna.

O Baron’s Board não estava muito cheio às duas da tarde e a cerveja de Sebastian chegou rápido. Bebeu em pé, submetendo-se à inspecção curiosa do proprietário. Também está assim húmido na cidade?, perguntou o homem, secando canecas de cerveja. Pior, respondeu Sebastian. Está a caminho de um lugar mais seco? Não, vim à procura de uma pessoa para tratar de negócios. Talvez a conheça. Miss Kelmsleigh. O proprietário estalou a língua… Eu conheço ela e as amigas. Todas as pessoas de Cumberworth conhecem as hóspedes de mrs. Jones. Ah, conhecem? Acho que miss Kelmsleigh é prima dela, não sua hóspede. É difícil saber do que chamar aquelas mulheres, não acha? O resto não são parentes, não me parece. Só um grupo de mulheres que vieram de visita e nunca mais foram embora. Mrs. Joyes vive na aldeia? Tem propriedade a pouca distância. Uma casa boa e um bom pedaço de terra. Cultiva flores numa estufa grande. Vende-as em Londres a floristas chiques. A casa dela fica um tanto afastada da rua, por isso há uma placa pintada no local onde é preciso virar. Flores Preciosas, é assim que o negócio dela se chama. Estalou novamente a língua. Até parecem boa gente. São reservadas. Não há razão para pensar que haja alguma coisa imprópria, mas as pessoas falam, não é mesmo? Sem dúvida. Sebastian acabou de beber a cerveja e pediu indicações para chegar ao letreiro do Flores Preciosas. Quinze minutos depois, seguia pelo caminho privado que conduzia à casa de mrs. Joyes». In Madeline Hunter, Deslumbrante, Edições ASA, 2013, ISBN 978-989-232-372-5.

Cortesia de EASA/JDACT

JDACT, Madeline Hunter, Escrita, Saber, 

sexta-feira, 28 de junho de 2024

A Esmeralda Partida. Fernando Campos. «Meu pai falava mas o conto por vezes era completado, em hora de recreio, na roda de meus irmãos Pedro e Jaime, com cores mais vivas e a rudeza de palavras…»

jdact

O Rei de Marfim

«(…) Por areias e papirais marginam o rio sagrado e junto de frescas nascentes avistam enfim, a brilhar ao sol, o palácio das portas de cedro e janelas de cristal, e ante o trono encastoado de safiras ajoelham e beijam a mão do Preste João das Índias... ai menina! Dizem que no regresso lutou com os gigantes de um só olho e com a dextra alçando a cruz da espada fez frente aos enleios da feiticeira circe... o infante, minha dona, não é criatura deste mundo ... Tu ouvias, calado, a cismar, pensavas já, talvez, que um dia haverias de enviar teus embaixadores a esse rei cristão das terras distantes... mas a tua tia Filipa ali estava a falar vestida de negro, cabelo negro, o poço dos olhos negrume de água salobra fetos e salamandras... saíra à mãe, ao sangue de Urgel... sua irmã Isabel, a tua mãe, dizia ela que era branca, esguia, loira, tu não chegaste a conhecê-la...

Era verdade, senhor meu pai? Ele sorria entre sisudo que sempre se mostrava. Não, não era verdade, invenções de simples e crédulos, de servos e gente do povo, de algum jogral cego a cantar fadários nos arcos da rua Nova, com seu espantado respeito e maravilhamento, como se estivessem a imaginar seres fabulosos, cosiam lá entre si ao que ouviam e iam passando de boca a orelha acrescentamentos e remendos de fantasia. Não, saíra do reino por fins de Junho de vinte e cinco, depois de ter ido à corte tomar a bênção do rei seu pai e despedir-se do irmão Duarte, que ajudava já nas canseiras da governação, entrara em Castela por alfaiates e ao fim de três jornadas atingia Ciudad Rodrigo, subira até Valladolid, corte de poetas, a ver em seu paço o rei João primo co-irmão, longas caminhadas de paladinos...

Meu pai falava mas o conto por vezes era completado, em hora de recreio, na roda de meus irmãos Pedro e Jaime, com cores mais vivas e a rudeza de palavras não dizidoiras, a brejeirice dos trovadores, ouvidas aos cavaleiros sem a presença feminina... fungavam risotas ao pronunciá-las, eu até gostava... porque é que a aia as queria esconder dos meus ouvidos? Não as declaravam diante das damas nos serões reais?..., com seus quarenta cavaleiros e homens de pé, a carriagem bem aparelhada, seguia o infante pelas sendas do vento e da água, por florestas cerradas, vales descobertos, desfiladeiros cortados no cerne de montanhas de lobo, urso e javali, descansando no desconforto de albergues ermos, em catraias de portelas onde sob o cascalho esfarelado e nas frinchas das penhas o tojo rasteiro, a urze, a carqueja, o espinheiro, enregelados da nortada ou queimados do Suão, sugam a última lentura da terra. Não, não se tratava de peregrinação de cavaleiros da Távola Redonda em demanda do Santo Graal nem desafio de magriços e seus companheiros para desagravo de damas... pelo caminho iam conversando: Quando chegares a Inglaterra, infante, receberás a garroteia, estou em crer... Cala-te, Álvaro Vaz, também terás a tua, como teu pai». In Fernando Campos, A Esmeralda Partida, 1995, Difel, Lisboa, 2008, ISBN 978-972-290-330-1.

Cortesia de Difel/JDACT

 D. João II, JDACT, Literatura, Saber, Fernando Campos,

A Esmeralda Partida. Fernando Campos. «… de seu jeito, bem diferente, mas contava a minha aia e eu trazia os ouvidos cheios de histórias maravilhosas: que é dele o cavaleiro louro de olhos azuis?»

jdact

O Rei de Marfim

«(…) Para onde mais podia ela ir, senão ali ficar na cela em que recolheu o último bafo da mãe?..., tudo aí começou. Tânger foi o descalabro de todos nós..., do cativeiro do infante, da morte prematura do rei na menoridade do filho, do rebentar dessa semente funesta da malquerença contra o regente meu pai..., porque não se cansava a tia Filipa de falar nisso?, ainda lhe doía a morte do pai, agora avivada pela da mãe?, raiva, ódio, desejo de vingança?..., que outra coisa havias tu e tua irmã de fazer senão afagar-lhe o ombro, abraçá-la, tomar-lhe as mãos, a consolá-la à tia Filipa, irmã de vossa mãe?..., nunca te haveria de esquecer o olhar dela molhado a erguer-se para ti, para Joana: devereis saber, meus sobrinhos..., e as palavras se lhe mergulhavam atrás a revolver no poço do tempo... bom monteiro e caçador, não há que ver, como todos os varões dessa família ..., eu sei, eu sei, minha senhora tia, intervinhas tu. Meu bisavô João até escreveu aquele livro ..., sim, e nosso avô Duarte, lembrava Joana, compôs também um outro ..., assim é. E este nosso avô Pedro ...

É isso, sim, meus sobrinhos, mas particularmente do que vosso avô Pedro mais gostava era de ocupar suas horas..., com que minúcia repartia cada tarefa, cada obrigação pelas horas do dia!..., deixa-me ver se adivinho, deixa ..., diz, meu sobrinho. Do que ele mais gostava era de ocupar suas horas metido na livraria ..., a estudar ..., completava tua irmã. E a verter do latim o livro dos ofícios de Marco Túlio Cicerão..., costumava dizer que cada livro era uma janela do universo, mas acrescentava pensativo: Mais se aprende dos costumes a índole dos homens do que pela leitura de grossos volumes, homem sábio, meu pai! Arrumado nas ideias e na acção, o cuidado que punha em mandar abrir valas para enxugar os pântanos do Mondego..., bom administrador de sua casa como dos negócios da república, conhecedor como poucos da arte da guerra, perito do regimento da corte..., que saudades as minhas! Quando ele aparecia à porta da câmara cansado do estudo, meus meninos, desembaraçava-me eu do colo da ama e corria a estender-lhe os braços para o alto, ele avançava no seu andar manso, dobrava-se, içava-me a beijar-me..., a mim, enquanto sentia aquela barba ruiva arranhar-me a cara, semelhava-me estar a ver do cimo da torre de um castelo a sala e as pessoas lá em baixo muito pequenas..., depois sentava-se..., quantas vezes o fazia, com os filhos em roda e a minha mãe ao lado, a recordar as suas viagens por essa Europa fora..., de seu jeito, bem diferente, mas contava a minha aia e eu trazia os ouvidos cheios de histórias maravilhosas: que é dele o cavaleiro louro de olhos azuis?, lá vai cavalgando em seu corcel de prata e de arreios de ouro, seguem-no atrás os doze companheiros, Cristo mai-los discípulos, como fantasmas caminham sobre as montadas tarrenego mafarrico, não parecem desta vida, bestas do apocalis a correr campos de turcos, ladeiam já as margens do termodonte no país das amazonas, atravessam desertos em cima de dromedários e chegam à Noruega onde os dias não luzem mais do que quatro horas, passam Babilónia, a província dos centauros, a terra dos alarves em que os filhos são sepultura dos pais, nas serranias da arménia vêem a arca de noé, por damasco descem à Terra Santa, ao Egipto, onde assistem ao suplício de um mouro que por ter dado uma bofetada num peregrino é empalado numa vara afiada que lhe saía pela boca..., visitam a região dos gigantes, dos homens com cabeça de cão, dos pigmeus que têm guerra com as aves... em Meca admiram, suspenso no ar por seis pedras imãs, o moimento de mafoma... e entram no paraíso terreal, que é banhado por quatro rios: do Tigre, que corre por território dos assírios, saem ramos de ciprestes e de oliveiras; das ondas do Eufrates erguem-se palmeirais agitados pelo vento; do Géon, que circunda o chão da Etiópia, surgem homens cor de bronze; do Físon, que rodeia a região de Hevilath, onde nasce o ouro e se encontra o Bdélio e a Cornalina, esvoaçam papagaios coloridos em seus ninhos pelas águas... » In Fernando Campos, A Esmeralda Partida, 1995, Difel, Lisboa, 2008, ISBN 978-972-290-330-1.

Cortesia de Difel/JDACT

D. João II, JDACT, Literatura, Saber, Fernando Campos,

domingo, 23 de junho de 2024

A Esmeralda Partida. Fernando Campos. «Como é que sabes isso?, contou-mo meu aio Diogo Soares..., bem conhecia, respondeu o rei, o grande amor que mestre Guedelha lhe tinha e não duvidava ser a astronomia ciência boa e entre outras permitida e aprovada…»

jdact

O Rei de Marfim

«(…) Que me estás tu a cantar, mofino?, agastado que te mostravas! Vendo-te tão apaixonado, juntei duas folhas de papel, desenhei um tabuleiro e aproximei-me da mesa, o rei ralhava o moço chorava: Senhor, trago aqui tabuleiro e com um pouco de cera apeguei-o ao tampo da mesa. Logo te serenou a ira: Ora estais a ver? Exclamaste sorrindo a todos. Para que é trazer tabuleiro nem coisa nenhuma? Basta trazer Resende…, contar as tuas bondades, reconhecer como eras agradecido de qualquer coisa pequena que fosse..., e tentar compreender como é que um homem tão generoso podia dar criamento dentro de si àquela fera, bicho era a tua expressão, que te impelia a praticares actos tão temerosos e cruentos como os que levaste a cabo em tua vida. Como os que levaste a cabo em tua vida. Res dura et regni novítas me talia cogunt molirí, ouvi-te certa ocasião dizer. Res dura, era matéria grave, sim, essa que te coagiu a derramares tanto sangue pelo caminho. Como foi tudo isso possível? Aí vais tu, hirto, deitado na tumba, frio como a alma do gelo, à luz das tochas. Esperam-te diante três alcofas de cal virgem para te ajudarem a seres comido mais cedo. Tinhas tu sete meses morre-te a mãe lacerada de desgostos..., que vozes grita a ventania nos galhos das árvores? Parecem embuçados a arranhar ameaças nos refegos da noite..., paira sobre esta família o espectro da morte violenta e da bastardia..., joga o teu xadrez, rei, um trebelho, outro e outro e outro, cabeças coroadas, bispos, cavaleiros, peões humildes, as paredes cruas de castelos e de paços..., pretas ou brancas, meu irmão?, perguntava-te Joana. sentados à sombra de um carvalho, nos paços de Santo Elói. Sobre a mesa de pedra o tabuleiro. Vestida de dó, de costas à borda do tanque, alheada, a tia Filipa dava migalhas às pombas.

Tanto faz, escolhe tu, irmã. Prefiro  as brancas. É cor de bodas. dezasseis anos...  pretendes casar? É cor de outra coisa, ordena as tuas figuras, não queres começar o torneio? Não te praz a conversa, bem te entendo. o rei nosso pai deve ter sobre isso suas tenções. Andar, andar. Gosto do teu sorriso, apesar da tristeza dos olhos e de..., ora!  Estou pronto! Torneio e justas é comigo. Avança. Este é o rei Duarte..., nosso avô paterno? Então já sei que vou ganhar o jogo. Como assim? Após a morte do pai, nosso bisavô João..., primeiro deste nome. Tu serás um dia o segundo. Não quis o rei Duarte dilatar para depois do meio-dia a cerimónia do seu alevantamento nem sofreu aguardar melhor conjunção dos astros. Mestre Guedelha, seu físico e astrólogo, bem o avisava: Júpiter encontrava-se retrogradado, o Sol em caimento e havia no céu sinais de mau agouro...

Como é que sabes isso?,  contou-mo meu aio Diogo Soares..., bem conhecia, respondeu o rei, o grande amor que mestre Guedelha lhe tinha e não duvidava ser a astronomia ciência boa e entre outras permitida e aprovada, e estarem os corpos inferiores sujeitos aos sobrecelestes, porém sobre todos pairar a mão e a ordenança de Deus. Justa sentença é essa na verdade. O judeu profetizou então a el-rei um reinado curto e atribulado, o que veio a acontecer, como adiante se viu. Por isso te digo, irmã, que este jogo será breve..., e eu o ganharei. Como ganharás?, queres ver? Dizias manobrando com cuidado as pedras. Com o desastre de Tânger e o cativeiro do irmão Fernando... Joana tentava defender-se contrapondo os cavalos, as torres, os peões, que iam caindo uns atrás dos outros. Move os cavaleiros, os bispos, frecheiros, archeiros, besteiros o que quiseres, eu ganharei. olha! Aí está: o rei morreu..., e deslocaste o trebelho fatal.

 Oh! Pensam alguns que da amargura de lhe aparecer em insónias o corpo do irmão a apodrecer de maus tratos nas masmorras de Fez. Corriam boatos de que se lhe havia empeçonhentado uma ferida de um ombro ou havia aspirado veneno ao abrir de uma carta... Falas de outra luta? Tu, minha irmã, é que referiste esse rei de marfim como sendo o bom rei Duarte nosso avô. À roda dele giravam nobres senhores e esboçavam-se as lutas que ao depois se seguiram. Marfim, ébano..., eu sei. Encetaremos outra jogada, outras jogadas. Reveremos tudo, com a morte recente da nossa avó Isabel de Urgel fecha-se um círculo de tamanho ódio! Psiu! Falasse baixo! Tia Filipa podia ouvir pobre senhora de luto pela mãe... Tudo aí começou » voltou-se Filipa em lágrimas. “ não chores, minha tia! então? Levantava-se Joana a abraçá-la, a sentá-la ao pé de si, trinta e um anos secos e martirizados. Tudo aí começou... Abriu-se em soluços, e agora, de uma casa tão grande e tão feliz, só eu e a triste da minha irmã Catarina encerrada na clausura de Santa Clara...» In Fernando Campos, A Esmeralda Partida, 1995, Difel, Lisboa, 2008, ISBN 978-972-290-330-1.

 Cortesia de Difel/JDACT

D. João II, JDACT, Literatura, Saber, Fernando Campos,

A Esmeralda Partida. Fernando Campos. «Três léguas bem puxadas de Alvor a Silves, todo o teu destino infeliz no meu pensamento. Morreres abandonado, um tal rei! Ires aí às costas de mula, metido em quatro tábuas disfarçadas à pressa de estofos reais…»

jdact

O Rei de Marfim

«(…) Terminado o casario, pelo adiantado da hora alguma gente vai-se deixando ficar para trás arrimada às paredes, os braços cruzados cingindo o próprio corpo transido da friagem que sopra das dunas e se escoa a zinir pelas ruelas estreitas. um pequeno grupo de mulheres chorosas ainda acena um pobre adeus, mas, com o decorrer da caminhada por trilhos rudes que sobem de leve a ladear a ribeira do Arade, aos gritos e carpidos sucede o silêncio de almas cansadas. Ouve-se apenas o som continuado do patear das cavalgaduras e do andar dos peões neste fúnebre seguir à luz das tochas. É como se eu aqui vá sozinho contigo pela última vez. Gosto das sendas solitárias abeiradas de pinheiros mansos e palmeiras africanas, das breves encostas de amendoeiras e alfarrobeiras, das figueiras que vergam até ao solo os ramos carregados de frutos roxos que pingam mel. Passam canaviais inclinados pelo suão. Amarelejam agora aqui ao lado, no lampejo dos brandões, como olhos de fogo a espiarem-nos no negrume, os pomos de um laranjal. Três léguas bem puxadas de Alvor a Silves, todo o teu destino infeliz no meu pensamento. Morreres abandonado, um tal rei! Ires aí às costas de mula, metido em quatro tábuas disfarçadas à pressa de estofos reais, aos solavancos por carreiros pedragulhentos no segredo da noite!... Ninguém se atreveu a clamar, embora a todos espantasse, que é uma vergonha o duque Manuel não estar presente ao teu saimento. Ninguém ousou gritar que foi uma infâmia a rainha Leonor não ter assistido ao esposo moribundo. Cada um de nós, no foro íntimo, busca encontrar explicação para zanga mais teimosa que a morte..., e os nobres senhores onde estão eles? Os poucos que te acompanham, teus próximos servidores, já nem avanço dizer teus fiéis servidores, sabe-se lá quem é que..., quando o caminho alarga achegam as montadas e cochicham apreensões ou..., assim que as veredas apertam, seguem em fila, calados, focinhudos, escoltados pelas caras vermelhas e suadas dos servos que se afadigam de facho em punho por igualar o andamento dos animais. Os outros, lá longe em seus castelos e palácios, aprestam o ouvido se nos ruídos do vento distinguem galopear de cavalo que, por paradas nas estradas do reino, tragam recado de esculcas de que tu já morreste. De manhã, sinos a dobrar a finado..., sinos algures a repicar regozijos..., em cada coração o amor ou o ódio..., no teu, Deus me perdoe e perdoa-me tu também, ambas as coisas. De onde te veio esse raiarem-se-te os olhos de sangue? Essa comissura descaída e raivosa dos lábios? Como a de tua irmã Joana. Que parecença! Que gana e força de alma num e noutro!... E no entanto que sorriso bondoso e aberto tantas vezes te surpreendi..., até para mim!... Caminhamos agora por um trecho de velha calçada romana com suas grandes lajes sulcadas pelo rodado de carroças de outros séculos. É mais vivo o patear dos cascos ferrados da cavalgada. Para lá do clarão dos archotes apenas se enxergam trevas, mas eu, que conheço esta paisagem, adivinho para além da planície a colina em que se ergue o castelo de Silves, de pedra rosada, o corpo esbranquiçado da sé catedral, as casas caiadas de fresco e, lá bem ao fundo, os contrafortes da serrania. Nunca me tinha acontecido olhar perfurando a escuridão com os olhos da memória. Vem a calhar, que todo o espírito se me vaza atrás a buscar as coisas passadas. Ainda há poucos dias descias tu, com toda a tua comitiva, a serra do Algarve, a pedir saúde às águas das caldas. sol a pino, vibravam alfarrobeiras e aloendros a zunideira das cigarras. Paraste para jantar junto de um ribeiro, à sombra de umas sovereiras.

Chegai-me o xadrez para eu espantar o sono, pediste depois de comer, estes médicos! prescrevem-me que beba algum vinho... É o mais aconselhável no caso presente, meu senhor, dizia o físico-mor. Dá-me sonolência e vindes-me com essa de que me faz mal dormir a sesta… Chegou o moço da guarda-roupa muito aflito: Senhor, a bolsa com os trebelhos... e então? Está aqui..., mas, põe aí. Senhor, o tabuleiro,.., o tabuleiro ... Já lá vai adiante com a cama..., por esquecimento...» In Fernando Campos, A Esmeralda Partida, 1995, Difel, Lisboa, 2008, ISBN 978-972-290-330-1.

Cortesia de Difel/JDACT

D. João II, JDACT, Literatura, Saber, Fernando Campos,

sexta-feira, 8 de dezembro de 2023

Portugal. A Primeira Nação Templária. Freddy Silva.«Pelos próprios actos, Godofredo de Bulhão revelara-se valoroso, discreto, digno e modesto. Os seus servos, em privado, atestaram a sua posse das virtudes que são postas em prática sem qualquer exibição»

jdact

1099. Junho. Fora dos portões de Jerusalém

«A conduta dos vitoriosos sobre os vencidos dependia muito de quem estava no comando de que exército, e as atrocidades, como em qualquer guerra, tornaram-se uma prática normal, a justaposição de extrema voolência e fé angustiada. O ar de repulsa de alguns cruzados estava empalado no cheiro a depravação dos restantes, mas o mesmo se aplicava aos árabes, que massacraram todos oscativos que haviam mantido prisioneiros dentro de uma mesquita.

Uma semana depois de a adrenalina da guerra diminuir, a 22 de Julho, o dia de Maria Madalena, realizou-se um conselho no interior refrescante da Igreja do Santo Sepulcro, para deliberar sobre a eleição de um rei para Jerusalém. De entre os líderes cujos nomes foram sugeridos, destacava-se um, pela antiguidade: o conde Raimundo de Toulouse, muito admirado como combatente e o primeiro a voluntariar-se para a cruzada naquele fatídico dia de Novembro em Clermont. Mas, no fim, os votos foram atribuídos ao homem que não procurara nenhuns.

Pelos próprios actos, Godofredo de Bulhão revelara-se valoroso, discreto, digno e modesto. Os seus servos, em privado, atestaram a sua posse das virtudes que são postas em prática sem qualquer exibição. Os seus ideais para o homem comum impressionaram até os xeques árabes, que se admiraram com a modéstia do príncipe flamengo, pois, quando foram levar oferendas a Godofredo, surpreenderam-se perante uma tenda real desprovida de sedas, e o seu rei sentado num fardo de palha. Informado dos seus comentários, Godofredo esclareceu que o homem deve lembrar-se de que é apenas pó e ao pó voltará. Godofredo marchara até à Cidade Santa com um princípio: libertar o Santo Sepulcro. O benefício pessoal não fora a sua motivação. Quando lhe apresentaram o título de rei de Jerusalém, recusou-se educadamente a ser coroado, aceitando antes o título alternativo de Advocatus Sancti Sepulchri (defensor do Santo Sepulcro) e adoptando o termo informal princeps (primeiro cidadão).

Como mais tarde diria, nunca usarei uma coroa de ouro no lugar onde o Salvador do mundo foi coroado de espinhos. Urbano II, cujas palavras tinham posto em movimento estes acontecimentos, para o bem ou para o mal, nunca saberia dos desenvolvimentos em Jerusalém, pois morreu duas semanas depois do fim do cerco e antes de a notícia lhe poder chegar aos ouvidos. Entretanto, o infatigável Godofredo de Bulhão atravessou o Portão de Sião a sul e saiu das muralhas de Jerusalém, para um caminho que subia um pequeno declive até uma colina calcária onde, segundo a tradição, a Virgem Maria passou para a eternidade e o seu filho fez a Última Ceia. Neste local sagrado, Godofredo encontrou uma igreja quase em ruínas, a Hagia Sião, a Basílica Bizantina da Assunção. O edifício dilapidado mal era habitável, quando mais por um rei, e a sua posição para lá das muralhas protectoras da cidade torná-la-ia difícil de defender, se e quando os exércitos árabes voltassem. Ainda assim, Godofredo fixou aí residência. Mas não iria ali viver sozinho, pois prontamente se lhe juntou um capítulo de cónegos de Santo Agostinho, bem como um ícone religioso por direito próprio, Pedro, o Eremita.

Acontece que, longe de ser um evangelista moribundo, Pedro era tido em grande estima, pois, logo após a conquista de Jerusalém, os cruzados embarcaram noutra campanha militar e deixaram o monge temporariamente no comando da cidade. Pedro , o Eremita, voltou eventualmente a França para se tornar prior de uma igreja do Santo Sepulcro, que fundou antes de entrar em retiro perto de Huy, onde também fundou um mosteiro. Os seus contemporâneos não foram ingratos, nem esqueceram o seu contributo para os mais puros ideais do cristianismo.

Os fiéis, moradores de Jerusalém, que, quatro ou cinco anos antes lá tinham visto o venerável Pedro, reconhecendo nesse tempo, na mesma cidade, aquele a quem o patriarca entregara cartas invocando o auxílio dos príncipes do Ocidente, dobraram os joelhos diante dele e prestaram-lhe os seus respeitos com toda a humildade. Lembraram as circunstâncias da sua primeira viagem; e louvaram o Senhor que o dotara de um efectivo poder de discurso e da força de despertar nações e reis para suportar tantos e tão  longos trabalhos por amor ao nome de Cristo. Tanto em privado como em público, todos os fiéis de Jerusalém se esforçaram por prestar a Pedro, o Eremita , as mais elevadas honras, e atribuíram-lhe a ele apenas, depois de Deus, a sua felicidade por terem escapado à dura servidão sob a qual durante tantos anos haviam gemido, e em ver a Cidade Santa recuperar a sua antiga liberdade. Godofredo de Bulhão». In Freddy Silva, Portugal. A Primeira Nação Templária, 2017, Alma dos Livros, 2018, ISBN 978-989-890-700-4.

Cortesia de EAlmadosLivros/JDACT

JDACT, Freddy Silva, Cultura, Conhecimento, Saber, Narrativa,

quarta-feira, 6 de dezembro de 2023

Portugal. A Primeira Nação Templária. Freddy Silva.«… o conde Henrique era conhecido do papa Urbano II, que o nomeou um dos doze líderes dessa expedição sagrada. E há mais. Os monges cistercienses eram escritores consumados…»

jdact

Numa terra do oeste da Ibéria chamada Lusitânia

«A aventura do conde Henrique raramente é reconhecida na história. No entanto, as suas viagens até à Palestina são asseveradas por um cronista da Ordem de Cister, que também observou como o conde era acompanhado por um monge português da Ermida de São Julião. Mais provas desta viagem vêm de fontes estrangeiras, nem todas apoiantes dos portugueses, além do mais, como o padre Zapater, cronista da Ordem de Cister na corte espanhola de Aragão. Um relato posterior de um membro da Ordem dos Templários vai ao ponto de afirmar que o conde Henrique era conhecido do papa Urbano II, que o nomeou um dos doze líderes dessa expedição sagrada. E há mais. Os monges cistercienses eram escritores consumados. Redigiram copiosos volumes sobre os acontecimentos do seu tempo, e num desses relatos afirmam que, na Palestina, Henrique venerou os locais sagrados, e, em troca da sua fiel assistência, um grato rei de Jerusalém, um cavaleiro flamengo, deu-lhe a custódia de várias relíquias sagradas, incluindo a lança usada na crucificação de Cristo, amostras da coroa de espinhos e o manto de Maria Madalena.

No fim de 1099, o mesmo rei enviou o conde Henrique de volta a Portugal. Ao chegar, partiu prontamente para a cidade de Braga, acompanhado por Geraldo, o em breve arcebispo francês dessa cidade, após o que depositaram as ditas relíquias sagradas dentro da sua igreja principal. Henrique passou os dois anos seguintes a viajar entre a cidade de Coimbra (para administrar os assuntos de Estado) e a sua corte em Guimarães (para atender à sua esposa negligenciada), antes de embarcar numa segunda viagem à Palestina em 1103, de novo com a frota genovesa, desta vez acompanhado por dom Maurício, bispo francês de Coimbra, juntamente com Guido da Lusitânia e outros nobres da região.Três anos depois, o conde Henrique e o bispo estão de volta a Coimbra, como é evidenciado pela assinatura do conde num documento. Portanto, não só os relatos põem o sempre viajante conde de Portucale em Jerusalém na altura da cruzada, duas vezes, como também oferecem outra revelação: enunciam o nome do cavaleiro flamengo, rei de Jerusalém, que originalmente lhe entregou os artefactos religiosos para que os guardasse em Portucale, pois na descrição dos movimentos do conde Henrique consta que o seu valor era estimado por Godofredo, rei de Jerusalém. O que leva à pergunta: o que aconteceu no cerco de Jerusalém, e como foi que um cavaleiro flamengo de classe social média atingiu o mais alto lugar do poder na cidade de Deus?

1099. Junho. Fora dos portões de Jerusalém

O contorno da cidade tremeluzia e refractava ao calor escaldante do sol de verão. Soldados choravam abertamente ao ver esta aparição divina, a miragem agora demasiado real. E embora se tivessem saído melhor do que a mal organizada Cruzada do Povo, só cerca de doze mil dos trinta e quatro mil cruzados originais chegaram ao destino pretendido. O terreno em torno da cidade no topo da colina era árido devido ao calor implacável. Os homens tinham sede e fome e eram em número insuficiente para montar um cerco. A única opção era um ataque total.

Cruzados vendo Jerusalém pela primeira vez.

Cinco semanas depois, as muralhas da cidade mantinham-se resilientes a todos os ataques. Melhores notícias chegaram a 17 de Junho, quando navios de Génova ancoraram em Jafa para fornecer aos líderes dos exércitos engenheiros competentes e, consequentemente, com a capacidade de construir armas de cerco a partir de madeira canibalizada dos seus navios. O ar abafado tornava a pressa impossível, até que a notícia da chegada iminente de reforços árabes que marchavam desde o Egipto motivou os cruzados a agir. Com um esforço final, lançaram todos os projécteis contra as muralhas da cidade a partir do norte e do sul, até que os muros que protegiam Jerusalém cederam. A vitória era deles». In Freddy Silva, Portugal. A Primeira Nação Templária, 2017, Alma dos Livros, 2018, ISBN 978-989-890-700-4.

Cortesia de EAlmadosLivros/JDACT

JDACT, Freddy Silva, Cultura, Conhecimento, Saber, Narrativa,

quarta-feira, 28 de dezembro de 2022

A Esmeralda Partida. Fernando Campos. «Meu pai falava mas o conto por vezes era completado, em hora de recreio, na roda de meus irmãos Pedro e Jaime, com cores mais vivas e a rudeza de palavras…»

jdact

O Rei de Marfim

«(…) Por areias e papirais marginam o rio sagrado e junto de frescas nascentes avistam enfim, a brilhar ao sol, o palácio das portas de cedro e janelas de cristal, e ante o trono encastoado de safiras ajoelham e beijam a mão do Preste João das Índias... ai menina! Dizem que no regresso lutou com os gigantes de um só olho e com a dextra alçando a cruz da espada fez frente aos enleios da feiticeira circe... o infante, minha dona, não é criatura deste mundo ... Tu ouvias, calado, a cismar, pensavas já, talvez, que um dia haverias de enviar teus embaixadores a esse rei cristão das terras distantes... mas a tua tia Filipa ali estava a falar vestida de negro, cabelo negro, o poço dos olhos negrume de água salobra fetos e salamandras... saíra à mãe, ao sangue de Urgel... sua irmã Isabel, a tua mãe, dizia ela que era branca, esguia, loira, tu não chegaste a conhecê-la...

Era verdade, senhor meu pai? Ele sorria entre sisudo que sempre se mostrava. Não, não era verdade, invenções de simples e crédulos, de servos e gente do povo, de algum jogral cego a cantar fadários nos arcos da rua Nova, com seu espantado respeito e maravilhamento, como se estivessem a imaginar seres fabulosos, cosiam lá entre si ao que ouviam e iam passando de boca a orelha acrescentamentos e remendos de fantasia. Não, saíra do reino por fins de Junho de vinte e cinco, depois de ter ido à corte tomar a bênção do rei seu pai e despedir-se do irmão Duarte, que ajudava já nas canseiras da governação, entrara em Castela por alfaiates e ao fim de três jornadas atingia Ciudad Rodrigo, subira até Valladolid, corte de poetas, a ver em seu paço o rei João primo co-irmão, longas caminhadas de paladinos...

Meu pai falava mas o conto por vezes era completado, em hora de recreio, na roda de meus irmãos Pedro e Jaime, com cores mais vivas e a rudeza de palavras não dizidoiras, a brejeirice dos trovadores, ouvidas aos cavaleiros sem a presença feminina... fungavam risotas ao pronunciá-las, eu até gostava... porque é que a aia as queria esconder dos meus ouvidos? Não as declaravam diante das damas nos serões reais?..., com seus quarenta cavaleiros e homens de pé, a carriagem bem aparelhada, seguia o infante pelas sendas do vento e da água, por florestas cerradas, vales descobertos, desfiladeiros cortados no cerne de montanhas de lobo, urso e javali, descansando no desconforto de albergues ermos, em catraias de portelas onde sob o cascalho esfarelado e nas frinchas das penhas o tojo rasteiro, a urze, a carqueja, o espinheiro, enregelados da nortada ou queimados do Suão, sugam a última lentura da terra. Não, não se tratava de peregrinação de cavaleiros da Távola Redonda em demanda do Santo Graal nem desafio de magriços e seus companheiros para desagravo de damas... pelo caminho iam conversando: Quando chegares a Inglaterra, infante, receberás a garroteia, estou em crer... Cala-te, Álvaro Vaz, também terás a tua, como teu pai». In Fernando Campos, A Esmeralda Partida, 1995, Difel, Lisboa, 2008, ISBN 978-972-290-330-1.

Cortesia de Difel/JDACT

D. João II, JDACT, Literatura, Saber, Fernando Campos,

terça-feira, 27 de dezembro de 2022

A Esmeralda Partida. Fernando Campos. «… de seu jeito, bem diferente, mas contava a minha aia e eu trazia os ouvidos cheios de histórias maravilhosas: que é dele o cavaleiro louro de olhos azuis?»

jdact

O Rei de Marfim

«(…) Para onde mais podia ela ir, senão ali ficar na cela em que recolheu o último bafo da mãe?..., tudo aí começou. Tânger foi o descalabro de todos nós..., do cativeiro do infante, da morte prematura do rei na menoridade do filho, do rebentar dessa semente funesta da malquerença contra o regente meu pai..., porque não se cansava a tia Filipa de falar nisso?, ainda lhe doía a morte do pai, agora avivada pela da mãe?, raiva, ódio, desejo de vingança?..., que outra coisa havias tu e tua irmã de fazer senão afagar-lhe o ombro, abraçá-la, tomar-lhe as mãos, a consolá-la à tia Filipa, irmã de vossa mãe?..., nunca te haveria de esquecer o olhar dela molhado a erguer-se para ti, para Joana: devereis saber, meus sobrinhos..., e as palavras se lhe mergulhavam atrás a revolver no poço do tempo... bom monteiro e caçador, não há que ver, como todos os varões dessa família ..., eu sei, eu sei, minha senhora tia, intervinhas tu. Meu bisavô João até escreveu aquele livro ..., sim, e nosso avô Duarte, lembrava Joana, compôs também um outro ..., assim é. E este nosso avô Pedro ...

É isso, sim, meus sobrinhos, mas particularmente do que vosso avô Pedro mais gostava era de ocupar suas horas..., com que minúcia repartia cada tarefa, cada obrigação pelas horas do dia!..., deixa-me ver se adivinho, deixa ..., diz, meu sobrinho. Do que ele mais gostava era de ocupar suas horas metido na livraria ..., a estudar ..., completava tua irmã. E a verter do latim o livro dos ofícios de Marco Túlio Cicerão..., costumava dizer que cada livro era uma janela do universo, mas acrescentava pensativo: Mais se aprende dos costumes a índole dos homens do que pela leitura de grossos volumes, homem sábio, meu pai! Arrumado nas ideias e na acção, o cuidado que punha em mandar abrir valas para enxugar os pântanos do Mondego..., bom administrador de sua casa como dos negócios da república, conhecedor como poucos da arte da guerra, perito do regimento da corte..., que saudades as minhas! Quando ele aparecia à porta da câmara cansado do estudo, meus meninos, desembaraçava-me eu do colo da ama e corria a estender-lhe os braços para o alto, ele avançava no seu andar manso, dobrava-se, içava-me a beijar-me..., a mim, enquanto sentia aquela barba ruiva arranhar-me a cara, semelhava-me estar a ver do cimo da torre de um castelo a sala e as pessoas lá em baixo muito pequenas..., depois sentava-se..., quantas vezes o fazia, com os filhos em roda e a minha mãe ao lado, a recordar as suas viagens por essa Europa fora..., de seu jeito, bem diferente, mas contava a minha aia e eu trazia os ouvidos cheios de histórias maravilhosas: que é dele o cavaleiro louro de olhos azuis?, lá vai cavalgando em seu corcel de prata e de arreios de ouro, seguem-no atrás os doze companheiros, Cristo mai-los discípulos, como fantasmas caminham sobre as montadas tarrenego mafarrico, não parecem desta vida, bestas do apocalis a correr campos de turcos, ladeiam já as margens do termodonte no país das amazonas, atravessam desertos em cima de dromedários e chegam à Noruega onde os dias não luzem mais do que quatro horas, passam Babilónia, a província dos centauros, a terra dos alarves em que os filhos são sepultura dos pais, nas serranias da arménia vêem a arca de noé, por damasco descem à Terra Santa, ao Egipto, onde assistem ao suplício de um mouro que por ter dado uma bofetada num peregrino é empalado numa vara afiada que lhe saía pela boca..., visitam a região dos gigantes, dos homens com cabeça de cão, dos pigmeus que têm guerra com as aves... em Meca admiram, suspenso no ar por seis pedras imãs, o moimento de mafoma... e entram no paraíso terreal, que é banhado por quatro rios: do Tigre, que corre por território dos assírios, saem ramos de ciprestes e de oliveiras; das ondas do Eufrates erguem-se palmeirais agitados pelo vento; do Géon, que circunda o chão da Etiópia, surgem homens cor de bronze; do Físon, que rodeia a região de Hevilath, onde nasce o ouro e se encontra o Bdélio e a Cornalina, esvoaçam papagaios coloridos em seus ninhos pelas águas... » In Fernando Campos, A Esmeralda Partida, 1995, Difel, Lisboa, 2008, ISBN 978-972-290-330-1.

Cortesia de Difel/JDACT

D. João II, JDACT, Literatura, Saber, Fernando Campos,

segunda-feira, 18 de julho de 2022

A Esmeralda Partida. Fernando Campos. «Como é que sabes isso?, contou-mo meu aio Diogo Soares..., bem conhecia, respondeu o rei, o grande amor que mestre Guedelha lhe tinha e não duvidava ser a astronomia ciência boa e entre outras permitida e aprovada…»

jdact

O Rei de Marfim

«(…) Que me estás tu a cantar, mofino?, agastado que te mostravas! Vendo-te tão apaixonado, juntei duas folhas de papel, desenhei um tabuleiro e aproximei-me da mesa, o rei ralhava o moço chorava: Senhor, trago aqui tabuleiro e com um pouco de cera apeguei-o ao tampo da mesa. Logo te serenou a ira: Ora estais a ver? Exclamaste sorrindo a todos. Para que é trazer tabuleiro nem coisa nenhuma? Basta trazer Resende…, contar as tuas bondades, reconhecer como eras agradecido de qualquer coisa pequena que fosse..., e tentar compreender como é que um homem tão generoso podia dar criamento dentro de si àquela fera, bicho era a tua expressão, que te impelia a praticares actos tão temerosos e cruentos como os que levaste a cabo em tua vida. Como os que levaste a cabo em tua vida. Res dura et regni novítas me talia cogunt molirí, ouvi-te certa ocasião dizer. Res dura, era matéria grave, sim, essa que te coagiu a derramares tanto sangue pelo caminho. Como foi tudo isso possível? Aí vais tu, hirto, deitado na tumba, frio como a alma do gelo, à luz das tochas. Esperam-te diante três alcofas de cal virgem para te ajudarem a seres comido mais cedo. Tinhas tu sete meses morre-te a mãe lacerada de desgostos..., que vozes grita a ventania nos galhos das árvores? Parecem embuçados a arranhar ameaças nos refegos da noite..., paira sobre esta família o espectro da morte violenta e da bastardia..., joga o teu xadrez, rei, um trebelho, outro e outro e outro, cabeças coroadas, bispos, cavaleiros, peões humildes, as paredes cruas de castelos e de paços..., pretas ou brancas, meu irmão?, perguntava-te Joana. sentados à sombra de um carvalho, nos paços de Santo Elói. Sobre a mesa de pedra o tabuleiro. Vestida de dó, de costas à borda do tanque, alheada, a tia Filipa dava migalhas às pombas.

Tanto faz, escolhe tu, irmã. Prefiro  as brancas. É cor de bodas. dezasseis anos...  pretendes casar? É cor de outra coisa, ordena as tuas figuras, não queres começar o torneio? Não te praz a conversa, bem te entendo. o rei nosso pai deve ter sobre isso suas tenções. Andar, andar. Gosto do teu sorriso, apesar da tristeza dos olhos e de..., ora!  Estou pronto! Torneio e justas é comigo. Avança. Este é o rei Duarte..., nosso avô paterno? Então já sei que vou ganhar o jogo. Como assim? Após a morte do pai, nosso bisavô João..., primeiro deste nome. Tu serás um dia o segundo. Não quis o rei Duarte dilatar para depois do meio-dia a cerimónia do seu alevantamento nem sofreu aguardar melhor conjunção dos astros. Mestre Guedelha, seu físico e astrólogo, bem o avisava: Júpiter encontrava-se retrogradado, o Sol em caimento e havia no céu sinais de mau agouro...

Como é que sabes isso?,  contou-mo meu aio Diogo Soares..., bem conhecia, respondeu o rei, o grande amor que mestre Guedelha lhe tinha e não duvidava ser a astronomia ciência boa e entre outras permitida e aprovada, e estarem os corpos inferiores sujeitos aos sobrecelestes, porém sobre todos pairar a mão e a ordenança de Deus. Justa sentença é essa na verdade. O judeu profetizou então a el-rei um reinado curto e atribulado, o que veio a acontecer, como adiante se viu. Por isso te digo, irmã, que este jogo será breve..., e eu o ganharei. Como ganharás?, queres ver? Dizias manobrando com cuidado as pedras. Com o desastre de Tânger e o cativeiro do irmão Fernando... Joana tentava defender-se contrapondo os cavalos, as torres, os peões, que iam caindo uns atrás dos outros. Move os cavaleiros, os bispos, frecheiros, archeiros, besteiros o que quiseres, eu ganharei. olha! Aí está: o rei morreu..., e deslocaste o trebelho fatal.

 Oh! Pensam alguns que da amargura de lhe aparecer em insónias o corpo do irmão a apodrecer de maus tratos nas masmorras de Fez. Corriam boatos de que se lhe havia empeçonhentado uma ferida de um ombro ou havia aspirado veneno ao abrir de uma carta... Falas de outra luta? Tu, minha irmã, é que referiste esse rei de marfim como sendo o bom rei Duarte nosso avô. À roda dele giravam nobres senhores e esboçavam-se as lutas que ao depois se seguiram. Marfim, ébano..., eu sei. Encetaremos outra jogada, outras jogadas. Reveremos tudo, com a morte recente da nossa avó Isabel de Urgel fecha-se um círculo de tamanho ódio! Psiu! Falasse baixo! Tia Filipa podia ouvir pobre senhora de luto pela mãe... Tudo aí começou » voltou-se Filipa em lágrimas. “ não chores, minha tia! então? Levantava-se Joana a abraçá-la, a sentá-la ao pé de si, trinta e um anos secos e martirizados. Tudo aí começou... Abriu-se em soluços, e agora, de uma casa tão grande e tão feliz, só eu e a triste da minha irmã Catarina encerrada na clausura de Santa Clara...» In Fernando Campos, A Esmeralda Partida, 1995, Difel, Lisboa, 2008, ISBN 978-972-290-330-1.

Cortesia de Difel/JDACT

D. João II, JDACT, Literatura, Saber, Fernando Campos,