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quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Livro do Desassossego. Fernando Pessoa. «… se um determinado trecho sobre o Neopaganismo é de Ricardo Reis ou de António Mora, ou se tal poema é atribuível a Campos ou a Caeiro. O próprio Pessoa mudava essas atribuições, sendo os seis poemas de “Chuva Oblíqua” o caso mais notório»



jdact e cortesia de wikipedia

«Como homem de negócios era, todavia, péssimo e, no fundo, não gostava da vida activa, a que chamava ‘o menos cómodo dos suicídios’. Em 1929, se não já no ano anterior, voltou ao seu Desassossego, cujo carácter se alterou porque ele próprio mudara: Pessoa estava pronto para escrever Pessoa. Ainda recorria a heterónimos, alegando que estes podiam sentir o mundo de forma mais completa do que ele sozinho, mas eram claramente os seus próprios sentimentos, irreprimíveis, que habitavam os poemas do Campos tardio e a prosa de Bernardo Soares, nome que Pessoa passou a atribuir ao ajudante de guarda-livros e suposto autor do Livro do Desassossego. Soares, empregado num armazém de fazendas, nem sequer tinha o estatuto de um heterónimo a cem por cento, não por ser menos real do que Álvaro de Campos ou Alberto Caeiro, mas justamente pelo motivo contrário. Era mais Pessoa, e não um verdadeiro ‘outro eu’. Assim, Pessoa conferiu-lhe o estatuto de ‘semi-heterónimo’, dotado de uma personalidade ‘não diferente da minha, mas uma simples mutilação dela’, como explicou na sua célebre carta de 1935 sobre a génese dos heterónimos. O barão de Teive, que surgiu em 1928, tinha muitas afinidades com Soares e, para todos os efeitos, era também um semi-heterónimo, um Pessoa ‘mutilado’ que encarnava as suas pretensões aristocráticas e, sobretudo, a frustração de não conseguir levar ao cabo as obras que queria escrever.
E que destino teve Vicente Guedes, que durante muitos anos fora ‘responsável’, pelo Livro do Desassossego? Sumiu-se. Foi esvaziado, das suas funções e de tudo o resto. Bernardo Soares não só lhe ‘roubou’ a autoria do Livro como se apoderou da sua biografia: tinha a mesma profissão que o seu antecessor, a sua escrita era também, e sobretudo, a de um diarista, morava igualmente na Baixa lisboeta e num quarto andar, só que na Rua dos Douradores em vez de na Rua dos Retroseiros, e até pilhou algumas memórias de infância de Guedes, pois lembrava-se, tal como este, dos serões passados entre velhas tias, em miúdo. É possível distinguir Guedes de Soares, sendo o primeiro, que escrevia antes de 1920, mais friamente racional, algo distante do seu próprio mal existencial, e o segundo, que escreveu entre 1929 e 1935, mais emotivo, incapaz de se subtrair à sua angústia profunda. Sucede, porém, que esta mesma distinção pode ser estabelecida entre o Álvaro de Campos dos primeiros tempos (1914-1916) e aquele que surge a partir da “Tabacaria”, escrito em 1928, ou até entre a primeira poesia ortónima e a dos últimos anos. Tudo é, afinal de contas, Fernando Pessoa, que ia mudando ao longo dos anos, e com ele as suas personalidades literárias.
O fenómeno da heteronímia, a implacável atomização do ser, a total negação de um eu uno e coeso, é fundamental para compreendermos a obra de Pessoa, mas não vale a pena preocuparmo-nos excessivamente com questões de ‘autoria’ específicas: se um determinado trecho sobre o Neopaganismo é de Ricardo Reis ou de António Mora, ou se tal poema é atribuível a Campos ou a Caeiro. O próprio Pessoa mudava essas atribuições, sendo os seis poemas de “Chuva Oblíqua” o caso mais notório:
  • inicialmente pertencentes a Alberto Caeiro, passaram para Álvaro de Campos, foram publicados em 1915 como uma obra do próprio Pessoa e chegaram a ser ainda atribuídos, bem mais tarde e por um brevíssimo período, a Bernardo Soares.Pe ssoa tinha, evidentemente, o direito de mudar de ideias, e a sua vontade de transferir integralmente a autoria do Livro do Desassossego para Bernardo Soares ficou claramente registada.
No final dos anos 20, o nome de Vicente Guedes deixou de aparecer em projectos, apontamentos ou cartas onde o Livro é referido; Pessoa excluiu três pequenos trechos que nomeiam Guedes do grande envelope onde, nos últimos anos de vida, reuniu material para o Livro, e incluiu, no mesmo envelope, um frontispício identificando Soares como único autor da obra, e Fernando Pessoa como autor do autor.
Há, ainda, um plano dactilografado em que Bernardo Soares consta como autor não só dos textos que supostamente escreveria na Rua dos Douradores, a partir de 1929, mas também de ‘trechos vários’, mais antigos, tais como ‘sinfonia de uma Noite Inquieta’, ‘Marcha Fúnebre para o Rei Luís Segundo da Baviera’ e ‘Na Floresta do Alheamento’. É este mesmo plano que atribui ‘Chuva Oblíqua’ e outros poemas a Soares, decisão de imediato revogada». In Livro do Desassossego, Fernando Pessoa, Assírio & Alvim, edição de Richard Zenith, 2006, ISBN 978-972-37-1121-9.

Cortesia de Assírio & Alvim/JDACT

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Livro do Desassossego. Fernando Pessoa. «Esta desoladora análise surge num trecho que também fala especificamente do ‘desassossego político’, um conceito dolorosamente pertinente para os europeus da segunda década do século passado. Em finais de 1919, iniciou uma relação com uma mulher de carne e osso: “Ofélia Queiroz”»


jdact e cortesia de wikipedia

[…]
«Pouco tempo antes, Pessoa, cansado de encontros imaginários com mulheres sem sexo, procurou curar a sua virgindade recorrendo à ajuda de espíritos astrais, com quem comunicava através da escrita automática ou mediúnica. E logo depois, em finais de 1919, iniciou uma relação com uma mulher de carne e osso: “Ofélia Queiroz”.
O “Livro do Desassossego” também contém um ‘Diário Lúcido’, que parece ser quase contemporâneo do ‘Diário ao Acaso’, mas os dois têm uma única entrada. Talvez Pessoa tencionasse expandi-los, introduzindo novas entradas, ou transferindo para eles outros textos já escritos mas sem título. Os trechos mais antigos do ‘Livro’ geralmente ostentam títulos, mas a partir de 1915 poucos os têm, sendo cada vez mais diarísticos e dominados pelas inquietações intelectuais e emocionais de um homem de quase 30 anos, habituado a ‘pensar com as emoções e sentir com o pensamento’.
Estando também habituado a esconder-se por detrás de máscaras, Pessoa chamou a este homem Vicente Guedes, um ajudante de guarda-livros que escrevia nas horas vagas. Na verdade Vicente Guedes surgira bem mais cedo, antes de 1910, como poeta, contista e tradutor, mas a sua caracterização material e psicológica só ficou definida por volta de 1915, enquanto ‘autor’ do “Livro do Desassossego”. À semelhança do seu criador, Guedes era solitário, reservado, interiormente aristocrático e invulgarmente lúcido. Em ‘Fragmentos de uma Autobiografia’, e outros trechos sem título, narra os seus esforços angustiados e infrutíferos para descobrir a verdade através da metafísica, da ciência e da sociologia. Noutras passagens descreve o desassossego generalizado da sua geração, resultante do livre-pensamento desenfreado das gerações anteriores que, ‘ébrias de uma coisa incerta, a que chamaram positividade’, destruíram contentemente, o edifício moral, religioso e social da sociedade europeia, não deixando nada de sólido a que os seus descendentes se pudessem agarrar. Esta desoladora análise surge num trecho que também fala especificamente do ‘desassossego político’, um conceito dolorosamente pertinente para os europeus da segunda década do século passado.
A situação política de Portugal, já em plena crise, tornou-se insustentável na década seguinte. Só no ano de 1920 houve sete mudanças de governo, para além de inúmeras greves e manifestações, e o ano seguinte ficou famoso pela “Noite Sangrenta” de 19 de Outubro, em que vários dirigentes republicanos foram brutalmente assassinados. A República, que nunca fora forte, desmoronou-se pouco a pouco, instaurando-se uma primeira ditadura em 1926, na sequência do golpe do general Gomes da Costa, que abriu caminho ao advento do ditador Salazar, dois anos depois.
Talvez a agitação política e social tenha, de algum modo, distraído Pessoa do seu “Livro do Desassossego”, que entrou num estado de quase dormência no início dos anos 20. O autor dedicou-se a outros projectos, entre os quais vários artigos e ensaios em defesa de um nacionalismo místico e da vinda de um Quinto Império que ultrapassaria todas as modalidades políticas até então experimentadas em Portugal. Foi também nesta década que Pessoa tentou enveredar pela carreira de empresário comercial e cultural. Em 1921 fundou a Olisipo, concebida como uma grandiosa e multifacetada empresa de intercâmbio entre a Grã-Bretanha e Portugal, mas que acabou por funcionar como uma modesta agência comercial e igualmente modesta editora, nomeadamente de dois volumes da sua poesia escrita em inglês, 1921, e de uma edição aumentada das Canções, 1922, do poeta António Botto (1897-1959).Talvez para promover este último livro, Pessoa publicou um artigo em que justificava a homossexualidade de Botto como uma expressão natural do seu ideal estético inspirado na Grécia antiga. O artigo desencadeou uma guerra jornalística e panfletária de que Pessoa foi um dos combatentes mais destacados, batalhando não só com os seus pares literários mas também com um grupo de estudantes da extrema-direita. Em 1924, depois de a Olisipo ter fechado as portas, Pessoa fundou, com um amigo pintor, a revista Athena, onde publicou muitos poemas seus e várias traduções, e em 1926 ele e o cunhado lançaram a Revista de Comércio e Contabilidade.


Na década de 1920, já na casa dos trinta anos, Pessoa tornou-se um cidadão interveniente, assumindo um papel activo na economia e na sociedade onde vivia». In Livro do Desassossego, Fernando Pessoa, Assírio & Alvim, edição de Richard Zenith, 2006, ISBN 978-972-37-1121-9.

Cortesia de Assírio & Alvim/JDACT

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Fernando Pessoa. Livro do Desassossego. «A ti são oferecidos os dias e os seres; os astros são votos no teu templo, e o cansaço dos deuses volta ao teu regaço como a ave ao ninho que não sabe como fez»

Cortesia de pasunautre

In Memoriam de MLAC

«A inspiração chega de formas imprevisíveis, Uma imagem entrevista, uma frase entreouvida, um cheiro que desperta uma lembrança, uma conversação, uma notícia no jornal, uma repentina ideia surgida na cabeça, coisas tão simples podem dar origem a um poema, um quadro, uma sinfonia, ou até a um complexo sistema filosófico. Acontece que a mais deslumbrante obra em prosa de Fernando Pessoa, uma obra que perdurará como um dos monumentos literários do século XX, nasceu de uma só palavra: “desassossego”, que agitou a alma de Pessoa em 1913, mais precisamente em 20 de Janeiro.

Nesse dia redigiu, numa folha solta, o poema ‘Dobre’ que reza assim:

Peguei no meu coração
e pu-lo na minha mão.
Olhei-o como quem olha
grãos de areia ou uma folha.
Olhei-o pávido e absorto
como quem sabe estar morto;
Com a alma só comovida
do sonho e pouco da vida.

Ao lado do poema, pondo a folha na horizontal, rabiscou, em letras grandes, «O título “Desassocego”, sublinhando» o vocábulo em grafia antiga com um traço bem vincado. Trata-se de uma palavra simultaneamente comum e misteriosa, rica em matizes significativos e sem um bom equivalente noutras línguas, pois nem o ‘desasosiego’ do espanhol consegue ser tão «desassossegado». Todo o “Livro do Desassossego” é, em grande medida, uma exploração do vasto e variado território que ela designa». In Livro do Desassossego, Fernando Pessoa, Assírio & Alvim, 2008, ISBN 978-972-37-1121-9.

JDACT

sábado, 16 de abril de 2011

Fernando Pessoa: Os Grandes Trechos. Parte IX. «Uma brisa de atenção percorre as alas. Ei-lo que vai chegar, com a morte que ninguém vê e a que não chega nunca. Arautos, tocai! Atendei!»

Cortesia de bibliomanias

«...Senhor Rei do Desapego e da Renúncia, Imperador da Morte e do Naufrágio, sonho vivo errando, faustoso, entre as ruínas e as estradas do mundo!
Senhor Rei da Desesperança entre pompas, dono doloroso dos palácios que o não satisfazem, mestre dos cortejos e dos aparatos que não conseguem apagar a vida!...
Senhor Rei erguido dos túmulos, que viestes na noite e ao luar, contar a tua vida às vidas, pajem dos lírios desfolhados, arauto imperial da frieza dos marfins!
Senhor Rei Pastor das Vigílias, cavaleiro andante das Angústias, sem glória e sem dama ao luar das estradas, senhor nas florestas, nas escarpas, perfil mudo, de viseira caída, passando nos vales, incompreendido pelas aldeias, chasqueado pelas vilas, desprezado pelas cidades!
Senhor Rei que a Morte sagrou Seu, pálido e absurdo, esquecido e desconhecido, reinando entre pedras foscas e veludos velhos, no seu trono ao fim do Possível, com a sua corte irreal cercando-o, sombras, e a sua milícia fantástica, guardando-o, misteriosa e vazia.

Cortesia dedivulgandobd
Trazei, pajens; trazei, virgens; trazei servos e servas, as taças, as salvas e as grinaldas para o festim a que a Morte assiste! Tiazei-as e vinde de negro, com a cabeça coroada de mirtos.
Mandrágora seja o que tragais nas raças, nas salvas, e as grinaldas sejam de violetas E, das flores todas que lembrem a tristeza.Vai o Rei a jantar com a Morte, no seu palácio antigo, à beira do lago, entre as montanhas, longe da vida, alheio ao mundo.
Sejam de instrumentos estranhos, cujo mero som faça chorar, as orquestras que se preparam para a festa. Os servos vistam librés sóbrias, de cores desconhecidas, faustosos e simples como os catafalcos dos heróis.
E antes que o festim comece, passe pelas alamedas dos grandes parques o grande cortejo medieval de púrpuras mortes, o grande cerimonial silencioso em marcha, como a beleza num pesadelo.
A Morte é o triunfo da Vida!
Pela morte vivemos, porque só somos hoje porque morremos para ontem. Pela morte esperamos, porque só podemos crer em amanhã pela confiança na morte de hoje. Pela Morte vivemos quando sonhamos, porque sonhar é negar a vida. Pela morte morremos quando vivemos, porque viver é negar a eternidade! A Morte nos guia, a morte nos busca, a morte nos acompanha. Tudo o que temos é morte, tudo o que queremos é morte, é morte tudo o que desejamos querer.

Cortesia de aparecidaferreira
Uma brisa de atenção percorre as alas. Ei-lo que vai chegar, com a morte que ninguém vê e a que não chega nunca. Arautos, tocai! Atendei!». In Fernando Pessoa, Livro do Dessassossego, Richard Zenith, Assírio e Alvim, 2008, ISBN 978-972-37-1121-9.

Cortesia de Assírio e Alvim/JDACT 

terça-feira, 1 de março de 2011

Fernando Pessoa: Os Grandes Trechos. Parte VIII. Maneira de Bem Sonhar nos Metafísicos I

Cortesia de triplov

Com a devida vénia a Richard Zenith na edição do Livro do Desassossego, obra essencial de Fernando Pessoa, publico um dos Grandes Trechos.

Maneira de Bem Sonhar nos Metafísicos I
«Raciocínio, tudo será fácil porque é tudo para mim sonho. Mando-me sonhá-lo e sonho-o. Às vezes crio em mim um filósofo, que me traça cuidadosamente as filosofias enquanto eu, pajem, namoro a filha dele, cuja alma sou, à janela da sua casa.
Limitam-me, é claro, os meus conhecimentos. Não posso criar um matemático... Mas contento-me com o que tenho, que dá para combinações infinitas e sonhos sem número. Quem sabe, de resto, se à força de sonhar, eu não conseguirei ainda mais. Mas não vale a pena. Basto-me assim.
Pulverização da personalidade: não sei quais são as minhas ideias, nem os meus sentimentos, nem o meu carácter... Se sinto uma coisa, vagamente a sinto na pessoa visualizada de uma qualquer criatura que aparece em mim. Substituí os meus sonhos a mim próprio. Cada pessoa é apenas o seu sonho de si próprio. Eu nem isso sou.

Cortesia de dailychapter7wordpress
Nunca ler um livro até ao fim, nem lê-lo a seguir e sem saltar.
Não soube nunca o que sentia. Quando me falavam de tal ou tal emoção e a descreviam, sempre senti que descreviam qualquer coisa da minha alma, mas, depois, pensando, duvidei sempre. O que me sinto ser, nunca sei se o sou realmente, ou se julgo que o sou apenas. Sou uma personagem de dramas meus.
O esforço é inútil, mas entretém. o raciocínio é estéril, mas é engraçado. Amar é maçador, mas é talvez preferível a não amar. O sonho, porém, substitui tudo. Nele pode haver toda a noção do esforço sem o esforço real. Dentro do sonho posso entrar em batalhas sem risco de ter medo ou de ser ferido. Posso raciocinar, sem que tenha em vista chegar a uma verdade, a que nunca chegue; sem querer resolver um problema, que veja (que) nunca resolvo. Posso amar sem me recusarem ou me traírem, ou me aborrecerem. Posso mudar de amada e ela será sempre a mesma. E se quiser que me traia e se me esquive, tenho às ordens que isso me aconteça, e sempre como eu quero, sempre como eu o gozo. Em sonho posso viver as maiores angústias, as maiores torturas, as maiores vitórias. Posso viver tudo isso tal como se fora da vida:
  •  depende apenas do meu poder em tornar o sonho vívido, nítido, real.
Isso exige estudo e paciência interior.

Cortesia de Assírio e Alvim/JDACT

domingo, 10 de outubro de 2010

Fernando Pessoa. Grandes Trechos. Parte VII

Cortesia de umfernandopessoa

Com a devida vénia a Richard Zenith na edição do Livro do Desassossego, obra essencial de Fernando Pessoa, publico um dos Grandes Trechos.


MANEIRA DE BEM SONHAR (II)

- Adia tudo. Nunca se deve fazer hoje o que se pode deixar de fazer também amanhã. Nem mesmo é necessário que se faça qualquer coisa, amanhã ou hoje.

- Nunca penses no que vais fazer. Não o faças.

- Vive a tua vida. Não sejas vivido por ela. Na verdade e no erro, no gozo e no mal-estar, sê o teu próprio ser. Só poderás fazer isso sonhando, porque a tua vida real, a tua vida humana é aquela que não é tua, mas dos outros. Assim, substituirás o sonho à vida e cuidarás apenas em que sonhes com perfeição. Em todos os teus actos da vida real, desde o de nascer até ao de morrer, tu não ages: és agido; tu não vives: és vivido apenas.
Torna-te, para os outros, uma esfinge absurda. Fecha-te, mas sem bater com a porta, na tua torre de marfim. E a tua torre de marfim és tu próprio.

Cortesia de melancoliaeusou

E se alguém te disser que isto é falso e absurdo não o acredites. Mas não acredites também no que eu te digo, porque se não deve acreditar em nada.
- Despreza tudo, mas de modo que o desprezar te não incomode.

Não te julgues superior ao desprezares. A arte do desprezo nobre está nisso.


Cortesia de mermaidann3

Cortesia de Assírio e Alvim/JDACT

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Fernando Pessoa. Grandes Trechos. Parte VI

Cortesia de vigilanteecia  

Com a devida vénia a Richard Zenith na edição do Livro do Desassossego, obra essencial de Fernando Pessoa, publico um dos Grandes Trechos.

Uma singela homenagem a JLT e MLAC.

Maneira de Bem Sonhar (I)
Cuidarás primeiro em nada respeitar, em nada crer, em nada... . Guardarás da tua atitude ente o que não respeites, a vontade de respeitar alguma coisa; do teu desgosto ante o que não ames, o desejo doloroso de amar alguém; do teu desprezo pela vida guardarás a ideia de que deve ser bom vivê-la e amá-la. E assim terás construído os alicerces para o edifício dos teus sonhos.
Repara bem que a obra que te propões fazer é no mais alto de tudo.
Sonhar é encontrarmo-nos. Vais ser o Colombo da tua alma. Vais buscar as suas paisagens. Cuida bem pois em que o teu rumo seja certo e não possam errar os teus instrumentos.
A arte de sonhar é difícil porque é uma arte de passividade, onde o que é de esforço é na concentração da ausência de esforço. A arte de devaneio, se a houvesse, deveria ser de qualquer forma parecida com esta.

Cortesia de ponderacoes
Repara bem: a arte de sonhar não é a arte de orientar os sonhos. Orientar é agir. O sonhador verdadeiro entrega-se a si próprio, deixa-se possuir por si próprio.Foge a todas as provocações materiais. Há no início a tentação de te masturbares. Há a do álcool, a do ópio. Tudo isso é esforço e procura.
Para seres um bom sonhador, tens de não ser senão sonhador. Ópio e morfina compram-se nas farmácias - como, pensando nisto, queres poder sonhar através deles? Masturbação é uma coisa física.
Que te sonhes masturbando-te, vá; que em sonhar te vejas fumando ópio, recebendo morfina, te embriagues da ideia do ópio, ! da morfina dos sonhos - não há senão que elogiar-te por isso: estás no teu papel áureo de sonhador perfeito.

Julga-te sempre mais triste e mais infeliz do que és. Isso não faz mal.
É mesmo, por ilusão, um pouco escadas para o sonho.

Cortesia de amilcartavares

Cortesia de Assírio e Alvim/JDACT

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Fernando Pessoa. Grandes Trechos. Parte V

Cortesia de desarranjosintetico

Com a devida vénia a Richard Zenith na edição do Livro do Desassossego, obra essencial de Fernando Pessoa, publico um dos Grandes Trechos.

Lenda Imperial
«Minha imaginação é uma cidade no Oriente. Toda a sua composição de realidade no espaço tem a voluptuosidade de superfície de um tapete rico e mole. As tendas que multicoloram as suas ruas destacam-se sobre não sei que fundo que não é o delas, como bordados de amarelo ou vermelho sobre cetins azul claríssimo. Toda a história pregressa dessa cidade voa em torno à lâmpada do meu sonho como tuna borboleta apenas ouvida na penumbra do quarto. Minha fantasia habitou entre pompas outrora e recebeu das mãos de rainhas jóias veladas de antiguidade. Atapetaram molezas íntimas os areais da minha inexistência e, hálitos de penumbra, as algas boiaram à ostensiva dos meus rios. Fui por isso pórticos em civilizações perdidas, febres de arabescos em frisos mortos, enegrecimentos de eternidade nos coleios das colunas partidas, mastros apenas nos naufrágios remotos, degraus só de tronos abatidos, véus nada velando, e como que velando sombras, fantasmas erguidos do chão como fumos de turíbulos arremessados. Funesto foi o meu reinado e cheia de guerras nas fronteiras longínquas a minha paz imperial no meu palácio. Próximo sempre o ruído indeciso das festas afastadas; procissões sempre para ir passar Por sob as minhas janelas; mas nem peixes de ouro encarnado nas minhas piscinas, nem pomos entre as verduras paradas do meu pomar; nem mesmo, pobres choupanas onde os outros são felizes, o fumo de chaminés de além de árvores adormeceu com baladas de simplicidade o mistério congénito da minha consciência de mim». In Livro do Desassossego.

Cortesia de rosaleonor

Cortesia de Assírio e Alvim/JDACT

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Fernando Pessoa. Grandes Trechos. Parte IV

Cortesia de fernandopessoas
Com a devida vénia a Richard Zenith na edição do Livro do Desassossego, obra essencial de Fernando Pessoa, publico um dos Grandes Trechos.

Uma singela homenagem a Maria de Lourdes Ayres Costa.
DECLARAÇÃO DE DIFERENÇA
«As coisas do Estado e da cidade não têm mão sobre nós. Nada nos importa que os ministros e os áulicos façam falsa gerência das coisas da nação.Tudo isso se passa lá fora, como a lama nos dias de chuva. Nada temos com isso, que tenha que ver ao mesmo tempo connosco. Semelhantemente nos não interessam as grandes convulsões, como a guerra e as crises dos países. Enquanto não entram por nossa casa, nada nos importa a que portas batam. Isto, que parece que se apoia num grande desprezo pelos outros, realmente tem apenas por base o nosso apreço céptico por nós próprios.
Não somos bondosos nem caritativos - não porque sejamos o contrário, mas porque não somos nem uma coisa, nem a outra. A bondade é a delicadeza das almas grosseiras. Tem para nós o interesse de um episódio passado em outras almas, e com outras formas de pensar. Observamos, e nem aprovamos, nem deixamos de aprovar. O nosso mister é não ser nada. Seríamos anarquistas se tivéssemos nascido nas classes que a si próprias chamam desprotegidas, ou em outras quaisquer de onde se possa descer ou subir. Mas, na verdade nós somos, em geral, criaturas nascidas nos interstícios das classes e das divisões sociais - quase sempre naquele espaço decadente entre a aristocracia e a (alta) burguesia, o lugar social dos génios e dos loucos com quem se pode simpatizar. A acção desorienta-nos, em parte por incompetência física, ainda mais por inapetência moral. Parece-nos imoral agir. Todo o Pensamento nos parece degradado pela expressão em palavras, que o tornam coisa dos outros, que o fazem compreensível aos que o compreendem.

Crato
Cortesia de voyagevirtuel
A nossa simpatia é grande pelo ocultismo e pelas artes do escondido.
Não somos, porém, ocultistas. Falha-nos para isso a vontade inata, e, ainda, a paciência para a educar de modo a tornar-se o perfeito instrumento dos magos e dos magnetizadores. Mas simpatizamos com o ocultismo, sobretudo porque ele sói exprimir-se de modo a que muitos que lêem, e mesmo muitos que julgam compreender, nada compreendem. É soberbamente superior essa atitude misteriosa. É, além disso, fonte copiosa de sensações do mistério e de terror: as larvas do astral, os estranhos entes de corpos diversos que a magia cerimonial evoca nos seus templos, as presenças desencarnadas da matéria deste plano, que pairam em torno aos nossos sentidos fechados, no silêncio físico do som interior - tudo isso nos acaricia com uma mão viscosa, terrível, no desabrigo e na escuridão. Mas não simpatizamos com os ocultistas na parte em que eles são apóstolos e amadores da humanidade; isso os despe do seu mistério. A única razão para um ocultista funcionar no astral é sob a condição de o fazer por estética superior, e não para o sinistro fim de fazer bem a qualquer pessoa. Quase sem o sabermos morde-nos uma simpatia ancestral pela magia negra, pelas formas proibidas da ciência transcendente, pelos Senhores do Poder que se venderam à Condenação e à Reencarnação degradada. Os nossos olhos de débeis e de incertos perdem-se, com um cio feminino, na teoria dos graus invertidos, nos ritos inversos, na curva sinistra da hierarquia descendente. Satã, sem que o queiramos, possui para nós uma sugestão como que de macho para a fêmea. A serpente da Inteligência Material enroscou-se-nos no coração, como no Caduceu simbólico do Deus que comunica - Mercúrio, senhor da Compreensão. Aqueles de nós que não são pederastas desejariam ter a coragem de o ser. Toda a inapetência para a acção inevitavelmente feminiza. Falhámos a nossa verdadeira profissáo de donas de casa e de castelãs sem que fazer por um transvio de sexo na encarnação presente. Embora não acreditemos absolutamente nisto, sabe ao sangue da ironia fazer em nós como se o acreditássemos.
Tudo isto não é por maldade, mas por debilidade apenas. Adoramos, a sós, o mal, não por ele ser o mal, mas porque ele é mais intenso e forte que o Bem, e tudo quanto é intenso e forte atrai os nervos que deviam ser de mulher. Pecca fortiter não pode ser connosco, que não temos força nem sequer a da inteligência, que é a que temos. Pensa em pecar fortemente – é o mais que para nós pode valer essa indicação aguda. Mas nem mesmo isso às vezes nos é possível: a própria vida interior tem uma realidade que às vezes nos dói por ser uma realidade qualquer. Haver leis para a associação de ideias, como para todas as operações do espírito, insulta a nossa indisciplina nativa». In Livro do Desassossego.

Cortesia de Assírio e Alvim/JDACT

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Fernando Pessoa: Os Grandes Trechos. Parte III

Cortesia de eusouempreendedor
Com a devida vénia a Richard Zenith na edição do Livro do Desassossego, obra essencial de Fernando Pessoa, publico um dos Grandes Trechos.

Uma singela Homenagem a António Tavares Jacob

CASCATA
«A criança sabe que a boneca não é real, e trata-a como real, até chorá-la e se desgostar quando se parte. A arte da criança é a de irrealizar. Bendita essa idade errada da vida, quando se nega a vida por não haver sexo, quando se nega a realidade por brincar, tomando por reais a coisas que o não são!
Que eu seja volvido criança e o fique sempre, sem que importem os valores que os homens dão às coisas nem as relações que os homens estabelecem entre elas. Eu, quando era pequeno, punha muitas vezes os soldados de chumbo de pernas para o ar... E há argumento algum, com jeito lógico para convencer, que me prove que os soldados reais não devem andar de cabeça para baixo?
A criança não dá mais valor ao ouro do que ao vidro. E na verdade, o ouro vale mais? A criança acha obscuramente absurdos as paixões, as raivas, os receios que vê esculpidos em gestos adultos. E não são na verdade absurdos e vãos todos os nossos receios, e todos os nossos ódios, e todos os nossos amores?
Ó divina e absurda intuição infantil! Visão verdadeira das coisas, que nós vestimos de convenções no mais nu vê-las, que nós embrumamos de ideias nossas no mais directo olhá-las!
Será Deus uma criança muito grande? O universo inteiro não parece uma brincadeira, uma partida de criança travessa? Tão irreal.
Lancei-vos, rindo, esta ideia ao ar, e vede como ao vê-la distante de mim de repente vejo o que de horrorosa ela é (Quem sabe se ela não contém a verdade?). E ela cai e quebra-se-me aos pés, em pó de horror e estilhaços de mistério...
Acordo para saber que existo...
Um grande tédio incerto gorgoleja erradamente fresco ao ouvido, pelas cascatas, cortiçada abaixo, lá no fundo estúpido do jardim». In Livro do Desassossego

Cortesia de Assírio e Alvim/JDACT

sábado, 22 de maio de 2010

Fernando Pessoa: Os Grandes Trechos. Parte II




Cortesia de Richard Zenith


Com a devida vénia a Richard Zenith na edição do Livro do Desassossego, obra essencial de Fernando Pessoa, publico um dos Grandes Trechos.

Uma singela Homenagem a António Tavares Jacob. 
 
CARTA
Assim soubesses tu compreender o teu dever de seres meramente o sonho de um sonhador. Seres apenas o turíbulo da catedral dos devaneios.
Talhares os teus gestos como sonhos, para que fossem apenas janelas abertas para paisagens novas da tua alma. De tal modo arquitectar o teu corpo em arremedos de sonho que não fora possível ver-te sem pensar noutra coisa, que lembrasses tudo menos tu própria, que ver-te fosse ouvir música e atravessar, sonâmbulo, grandes paisagens de lagos mortos, vagas florestas silenciosas perdidas ao fundo doutras épocas, onde invisíveis pares diversos vivem sentimentos que não temos.
Eu não te quereria para nada senão para te não ter. Queria que, sonhando eu e se tu aparecesses, eu pudesse imaginar-me ainda sonhando - nem te vendo talvez, mas talvez reparando que o luar enchera de  lagos mortos e que ecos de canções ondeavam subitamente na grande floresta inexplícita, perdida em épocas impossíveis.
A visão de ti seria o leito onde a minha alma adormecesse, criança doente, para sonhar outra vez com outro céu. Falares? Sim, mas que ouvir-te fosse não te ouvir mas ver grandes pontes ao luar ligar as duas margens escuras do rio que vai ter ao ancião mar onde as caravelas são nossas para sempre.
Sorris? Eu não sabia disso, mas nos meus céus interiores andavam as estrelas. Chamas-me dormindo. Eu não reparava nisso mas no barco longínquo cuja vela de sonho ia sob o luar, vejo longínquas marinhas.

Este livro é um só estado de alma, analisado de todos os lados,
percorrido em todas as direcções (pág. 399).
Cortesia de Assírio e Alvim/JDACT

domingo, 16 de maio de 2010

Fernando Pessoa: Os Grandes Trechos. Parte I

Cortesia de Richard Zenith
Com a devida vénia a Richard Zenith na edição do Livro do Desassossego, obra essencial de Fernando Pessoa, publico um dos Grandes Trechos.

A DIVINA INVEJA

Sempre que tenho uma sensação agradável em companhia de outros invejo-lhes a parte que tiveram nessa sensação. Parece-me um impudor que eles sentissem o mesmo do que eu, que me devassassem a alma por intermédio da alma, unissonamente sentindo, deles.
A grande dificuldade do orgulho que para mim oferece a contemplação das paisagens, é a dolorosa circunstância de já as haver com certeza contemplado alguém com um intuito igual.
A horas diferentes, é certo, e em outros dias. Mas fazer-me notar isso seria acariciar-me e amansar-me com uma escolástica que sou superior a merecer. Sei que pouco importa a diferença, que com o mesmo espírito em olhar, outros tiveram ante a paisagem um modo de ver, não como, mas parecido com o meu.
Esforço-me por isso para alterar sempre o que vejo de modo a torná-lo irrefragavelmente meu - de alterar, mantendo-a mesmamente bela e na mesma ordem de linha de beleza, a linha do perfil das montanhas; de substituir certas árvores e flores por outras, vastamente as mesmas diferentissimamente; de ver outras cores de efeito idêntico no poente - e assim crio, de educado que estou, e com o próprio gesto de olhar com que espontaneamente vejo, um modo interior do exterior.
Isto, porém, é o grau ínfimo de substituição do visível. Nos meus bons e abandonados momentos de sonho arquitecto muito mais.
Faço a paisagem ter para mim os efeitos da música, evocar-me imagens visuais – curioso e dificílimo triunfo do êxtase, tão difícil porque o agente evocativo é da mesma ordem de sensações que o que há-de evocar.
O meu triunfo máximo no género foi quando, a certa hora ambígua de aspecto e luz, olhando para o Cais do Sodré nitidamente o vi um pagode chinês com estranhos guizos nas pontas dos telhados como chapéus absurdos - curioso pagode chinês pintado no espaço, sobre o espaço-cetim, não sei como, sobre o espaço que perdura na abominável terceira dimensão. E a hora cheirou-me verdadeiramente a um tecido arrastado e longínquo e com uma grande inveja de realidade... In Livro do Desassossego, Richard Zenith, Assírio e Alvim, 3ª edição, edição 1060 Setembro 2008, pág. 383-384, ISBN 972-37-1121-4
Este livro é um só estado de alma, analisado de todos os lados, percorrido em todas as direcções (pág. 399).
Eu não escrevo em português. Escrevo eu mesmo (pág. 353)
Cortesia de Assírio e Alvim/JDACT