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domingo, 24 de outubro de 2021

Sedução da Seda. Loretta Chase. «Todos os dias, um menino de roupas imundas levava para elas o jornal que trazia os mais recentes escândalos tão logo era impresso…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Como nenhuma das irmãs Noirot fez nada tão óbvio quanto gritar ou tropeçar, ou mesmo erguer uma sobrancelha, ninguém que estivesse observando poderia ter imaginado que elas consideravam aquela notícia de extrema importância. Elas continuaram com suas tarefas, servindo às duas damas e a outras pessoas que adentrassem seu estabelecimento. Naquela noite, mandaram a costureira para casa e fecharam a loja. Subiram as escadas para seus humildes aposentos e fizeram uma leve refeição, como de costume. Marcelline contou uma história para a filha de 6 anos, Lucie Cordelia, antes de colocá-la na cama. Lucie dormia o sono dos inocentes, ou o mais inocente possível para uma criança nascida numa família em ruínas, quando as três irmãs desceram as escadas que levavam até o atelier da loja. Todos os dias, um menino de roupas imundas levava para elas o jornal que trazia os mais recentes escândalos tão logo era impresso, em geral, antes que a tinta estivesse seca, e o entregava na porta dos fundos da loja. Leonie pegou o lote do dia e espalhou as folhas pela mesa de trabalho. As irmãs começaram a vasculhar as colunas. Está aqui, disse Marcelline depois de alguns instantes. O conde de L. voltou de Paris ontem à noite… Fomos informados de que certo duque, que actualmente reside na capital francesa, foi avisado, em termos inequívocos, que lady C. estava cansada de esperar pelo prazer… Sua Graça deve voltar a Londres antes das celebrações do aniversário do rei… Noivado a ser anunciado durante um baile na Residência Warford, no fim da estação… Casamento antes do fim do verão. Ela passou a página para Leonie, que prosseguiu a leitura: Se o tal cavalheiro não cumprir seu compromisso, a dama considerará o entendimento como um mal-entendido. Ela riu. Seguem algumas conjecturas interessantes sobre qual cavalheiro será favorecido em seu lugar. Empurrou o jornal na direcção de Sophia, que balançava a cabeça.

Ela seria uma tola em abrir mão dele. Um ducado, pelo amor de Deus. E um duque solteiro, jovem, bonito e saudável? Posso contar, num único dedo, quantos desses há por aí. Ela enfiou o dedo indicador na coluna do jornal. Ele. Fico-me perguntando qual o motivo da pressa, disse Marcelline. Ela só tem 21 anos. E o que ela tem para fazer, além de ir a festas, óperas, bailes, jantares, passeios etc.?, comentou Leonie. Uma moça da aristocracia que tem beleza, nível e um dote respeitável não devia se preocupar em atrair candidatos. Essa moça… Nem precisou completar a frase. Elas já tinham visto lady Clara Fairfax em várias ocasiões. Sua beleza era impressionante: cabelos louros, olhos azuis, pele clara. Suas numerosas qualidades incluíam alta classe, uma linhagem impecável e um dote esplêndido; os homens se jogavam a seus pés por onde quer que ela passasse. Nunca mais na vida aquela moça será capaz de exercer tanto poder sobre os homens como agora, comentou Marcelline. Ela devia esperar chegar mais perto dos 30 anos para se casar. Imagino que lorde Warford jamais pudesse esperar que o duque ficasse longe por tanto tempo, afirmou Sophia. Dizem que ele sempre obedeceu ao marquês, respondeu Leonie. Desde que o pai dele morreu de tanto beber. Não se pode culpar Sua Graça por fugir.

Talvez lady Clara tenha ficado ansiosa, argumentou Sophia. Ninguém parecia preocupado com a ausência de Clevedon, mesmo quando lorde Longmore voltou para casa sem ele. Porque se preocupariam?, perguntou Marcelline. Todos os consideram noivos. Quebrar o compromisso com lady Clara seria o mesmo que romper com toda a família. Talvez exista outro pretendente… Um que lorde Longmore não aprovaria, arriscou Leonie. Lady Warford não deixaria um ducado lhe escapar, disse Sophia. Que ameaça lorde Longmore teria usado?, indagou Sophia. Ambos têm fama de serem desvairados e violentos. Ele não poderia tê-lo ameaçado com um duelo. Matar o duque iria contra todos os seus objectivos. Talvez tenha ameaçado apenas espancá-lo até ele perder os sentidos. Isso eu gostaria de ver, disse Marcelline. Eu também, concordou Sophia. E eu, acrescentou Leonie. Dois homens aristocráticos e bonitos lutando, disse Marcelline, com um sorriso nos lábios. Como Clevedon havia partido de Londres várias semanas antes de ela e as irmãs voltarem de Paris, até aquele momento elas ainda não o haviam conhecido». In Loretta Chase, Sedução da Seda, 2011, Edições Chá das Cinco, 2016, ISBN 978-989-710-184-7.

Cortesia de ECdasCinco/JDACT

JDACT, Loretta Chase, Literatura,

sábado, 23 de outubro de 2021

Sedução da Seda Loretta Chase. «Infelizmente, Noirot havia sido ludibriado pela sua futura esposa, que, da maneira mais encantadora possível, era tão dedicada a mentir e a enganar quanto ele»

Cortesia de wikipedia e jdact

«No Verão de 1810, Edward Noirot fugiu para a vila de Gretna Green, no sul da Escócia, famosa por permitir o casamento de jovens sem o consentimento dos pais, levando consigo Catherine DeLucey. O Noirot estava convencido de que sua companheira era uma legítima herdeira inglesa, cuja fortuna, como resultado desse acto impetuoso, acabaria caindo exclusivamente em suas mãos. Uma fuga eliminaria toda a burocracia cansativa, sob a forma de contratos de casamento elaborados por pais e advogados. Ao se evadir com uma jovem rica, de sangue nobre, Edward Noirot dava seguimento a uma antiga tradição familiar: sua mãe e avó eram inglesas.

Infelizmente, Noirot havia sido ludibriado pela sua futura esposa, que, da maneira mais encantadora possível, era tão dedicada a mentir e a enganar quanto ele. Sim, existiu uma fortuna. Pertencera à mãe da jovem, que John DeLucey seduziu e levou para a Escócia, seguindo a sua venerável tradição familiar. A essa altura, a suposta fortuna desaparecera e DeLucey tentava melhorar sua situação financeira da mesma maneira que todas as mulheres de sua família: casando-se com um ingénuo cavalheiro de sangue azul, com bolsos cheios e um coração ardente. Mas ela também havia sido enganada, pois Edward Noirot não detinha nenhuma fortuna. Ele era, de facto, descendente de um conde francês. Mas a riqueza de seus antepassados se extinguira havia anos, durante a Revolução, junto com as cabeças de vários membros de sua família. Graças a essa comédia de erros, o braço mais infame de uma das mais nobres famílias da França uniu-se à sua contraparte inglesa, mais conhecida, e odiada, nas Ilhas Britânicas como os Terríveis DeLuceys. O leitor deve estar imaginando o desgosto do casal quando a verdade veio à tona, logo após a cerimónia do casamento. Sem dúvida, imagina que houve gritos, berros e recriminações. Engana-se. Sendo tão patifes, e realmente apaixonados, eles riram até não poder mais. Em seguida, juntaram suas forças. E decidiram seduzir e enganar todo e qualquer incauto que cruzasse seu caminho. Foi um percurso longo e cheio de curvas que os levou de um canto a outro da Europa, mudando-se sempre que um desses locais se tornava desconfortável para o casal. Nessas idas e vindas, Catherine e Edward Noirot geraram três filhas.

 

Londres, Março de 1835

Marcelline, Sophia e Leonie Noirot, irmãs e proprietárias da Maison Noirot, na rua Fleet, em West Chancery Lane, estavam presentes quando lady Renfrew, esposa de sir Joseph Renfrew, lançou a bomba. Marcelline, com seus cabelos negros, moldava um laço em forma de borboleta, com o objectivo de seduzir a senhora para que comprasse a sua mais recente criação. A loura Sophia recolocava em ordem uma gaveta, que havia sido desarrumada mais cedo para uma das suas clientes mais exigentes. Leonie, a ruiva, começava a ajustar a bainha da roupa de Sharp, amiga íntima de lady Renfrew. Embora fosse apenas um mexerico que surgiu casualmente na conversa, Sharp deu um grito estridente, quase como se uma bomba realmente tivesse explodido, tropeçou e pisou na mão de Leonie. Leonie não rogou pragas em voz alta, mas Marcelline viu os lábios da irmã formarem uma palavra que ela duvidava que suas clientes estivessem acostumadas a ouvir. Sem demonstrar nenhuma emoção pela dor causada à insignificante costureira, Sharp perguntou: O duque de Clevedon está voltando? Sim, respondeu lady Renfrew, demonstrando uma boa dose de presunção. Soube de fontes seguras. O que aconteceu? Lorde Longmore ameaçou-lhe dar um tiro? Qualquer modista que tivesse a ambição de vestir as mulheres da classe alta mantinha-se sempre actualizada sobre os últimos acontecimentos. Assim sendo, Marcelline e as irmãs já estavam familiarizadas com todos os detalhes daquela história. Sabiam que Gervaise Angier, o sétimo duque de Clevedon, estivera sob a guarda do marquês de Warford, o pai do conde de Longmore. Estavam cientes de que Longmore e Clevedon eram grandes amigos e que Clevedon e lady Clara Fairfax, a mais velha entre as três irmãs de Longmore, estavam prometidos um para o outro. Clevedon era apaixonado por ela desde a infância e jamais demonstrara nenhuma inclinação para fazer a corte a quem quer que fosse, embora por certo mantivesse vários relacionamentos de outra natureza, em especial durante os três anos que passara no exterior.

Apesar de o casal jamais ter noivado oficialmente, o facto era considerado mera formalidade. Todos sabiam que o duque se casaria com ela tão logo retornasse com Longmore de sua tradicional viagem pela Europa. Toda a sociedade ficou chocada quando, cerca de um ano antes, Longmore voltou e Clevedon continuou levando uma vida de devassidão. Aparentemente alguém da família perdera a paciência, pois, de acordo com os boatos, lorde Longmore viajara para Paris havia duas semanas e confrontara o amigo sobre as tão aguardadas núpcias. Acho que ele ameaçou chicoteá-lo, mas não há como saber, comentou lady Renfrew. Tudo o que me disseram foi que lorde Longmore foi a Paris e fez uma ameaça, o que resultou numa promessa do amigo de que voltaria a Londres antes do aniversário do rei. Embora Sua Majestade tivesse nascido em Agosto, seu aniversário seria comemorado no dia 28 de Maio daquele ano». In Loretta Chase, Sedução da Seda, 2011, Edições Chá das Cinco, 2016, ISBN 978-989-710-184-7.

 Cortesia de ECdasCinco/JDACT

 JDACT, Loretta Chase, Literatura,