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quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

Dominus. Tom Fox. «Ele tinha-lhe dado esse processo como um caso menor e uma perda de tempo, um presente envenenado destinado a humilhá-la e frustrá-la. Mas, às vezes, os presentes surpreendem quem os dá»

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«(…) O Comandante, apesar da sua longa experiência, ainda não se tinha recomposto completamente da missa. Todas? Viteri repetiu a ordem com a voz a denotar uma determinação que não estava aberta a discussão. Pousou os olhos idosos directamente em Raber. Neste momento, não eram as janelas robustas de uma alma inabalável que todos conheciam. Os olhos castanhos do cardeal estavam preocupados, com os sulcos profundos dos cantos a parecerem trincheiras, como se a gravidade da sua ordem tivesse afectado na mesma medida autor e recipiente. A própria expressão do Oberst Raber só denunciou surpresa durante uma fração de segundo. Tinha tido demasiados anos de treino para permitir que se prolongasse mais tempo. Mas no seu íntimo, a surpresa do comandante era avassaladora. Em todas as suas décadas de serviço, nunca tinha sido emitida tal ordem. Toda a basílica? A Basílica de São Pedro era uma estrutura vasta. Construída de acordo com os padrões engrandecedores de um papa que tinha inadvertidamente promovido a Reforma Protestante ao tentar pagá-la vendendo indulgências às massas; estendia-se por mais de dois hectares, com mais de 15000 metros quadrados de superfície e um dos maiores recintos de culto do planeta, onde o percurso desde a porta principal até à capela-mor se prolonga por mais de 200 metros sob tectos majestosos e dourados. E embora algumas partes da basílica tivessem estado ocasionalmente fechadas ao público e a clérigos menores, era inaudito que todo o complexo estivesse fechado. A Basílica de São Pedro era o coração da cristandade, a sede do reino de Deus na Terra, e as suas portas não deviam fechar-se até ao fim dos tempos. Não, respondeu o cardeai Viteri, da basílica não.
Apesar de se esforçar por ser estoico, Raber sentia a expressão da sua cara mudar. Até a lendária compostura suíça tinha os seus limites. Se o cardeal Secretário de Estado não se estava a referir à basílica, então Viteri só podia querer dirigir a sua ordem para uma coisa. Vossa Eminência quer dizer o..., a voz do Raber sumiu-se. Todos os portões. Todas as ruas. Todas as entradas, confirmou o cardeal Viteri. Colocou uma mão envelhecida no ombro do comandante com o anel episcopal dourado a tremeluzir debaixo da luz alaranjada da basílica. A mão de Viteri era tão firme como o seu olhar. Tira o resto das pessoas daqui, disse ele fazendo um gesto indicando os fiéis e turistas que ainda enchiam a igreja, e depois fecha o Vaticano.

Polizia di Stato, 16.ª esquadra de Monteverde. Roma: 9h 34
A 16.ª esquadra de Monteverde da Polizia di Stato italiana é um edifício pouco inspirador, localizado no meio de um bloco residencial numa zona urbana perto do centro da cidade. A maior parte das pessoas passa por lá sem se aperceber de que a fachada discreta esconde um dos departamentos de Polícia mais activos de Roma, com os seus membros a trabalharem concertados com os Carabinieri e a Guardia di Finanza para completar a infraestrutura local do fantasticamente complexo sistema de policiamento nacional de Itália. Nas entranhas da esquadra, num gabinete ainda menos inspirador do que o edifício onde se situa, a inspetora Gabriella Fierro dá um longo suspiro de frustração. A secretária metálica a que se encontrava sentada era produzida em série, e dizer que privilegiava a funcionalidade sobre a forma seria um eufemismo espectacular. Era feia, tal como o eram as prateleiras metálicas tortas numa das paredes e os dois armários metálicos noutra, todos parecendo que estavam gastos e exaustos desde o dia em que foram feitos. Não havia janelas, e Gabriella nunca se tinha dado ao trabalho de decorar as paredes com placas comemorativas ou pósteres. Nunca tinha valido o esforço. Ninguém vinha ter com a inspetora Fierro para ser impressionado com credenciais. Na verdade, poucos entravam sequer no seu gabinete. E o que era feio era feio, mesmo que se lhe pusesse um póster por cima.
Gabriella olhou para baixo para o seu minúsculo relógio Bulova, um dos poucos luxos na sua vida bastante desinteressante. O estômago estava a dar horas. Para as pessoas normais faltavam poucas horas para o almoço, mas ela sabia que não teria essa sorte. Hoje não. Se tivesse tempo para almoçar de todo, isso teria de acontecer muito mais tarde. Estava enterrada debaixo de uma montanha de papelada que faria o próprio Atlas encolher-se, e sempre que conseguia diminuí-lo um pouco, o seu repugnante supervisor, o comissário-adjunto Enzo D’António, encarregava-se de reconstituir o monte. Ia ser um dia muito, muito longo. Gabriella Fierro estava na Polizia di Stato há mais de quatro anos, e todos eles tinham sido uma batalha constante com o chefe. Quando inicialmente saiu do estatuto de cadete, D’Antonio tinha-a mantido no posto mais baixo de agente muito mais tempo do que teria sido normal. Durante uns tempos, Gabriella questionou-se sobre se se ia reformar da Polícia no mesmo posto com o qual tinha entrado, mas a determinada altura, D’Antonio concedera-lhe a promoção, forçado a isso, quando um caso que ela tinha conduzido dois anos antes tinha feito manchetes nos órgãos de comunicação nacionais. Ele tinha-lhe dado esse processo como um caso menor e uma perda de tempo, um presente envenenado destinado a humilhá-la e frustrá-la. Mas, às vezes, os presentes surpreendem quem os dá. O caso, afinal, esteve nas parangonas dos jornais: escândalos financeiros na Igreja e um cardeal assassinado do outro lado do Atlântico. O seu supervisor não tinha conseguido impedir que ela mostrasse o seu mérito com o caso, mas tinha-lho reconhecido de má vontade». In Tom Fox, Dominus, 2015, tradução de Ângelo Santana, Topseller, 20/20 Editora, ISBN 978-989-883-913-8.

Cortesia de Topseller/20/20 Editora/JDACT

Dominus Tom Fox. «Tranquem as portas. Já! A voz do cardeal Secretário de Estado Donato Viteri era intensa e ressonante. Há 23 anos que tinha esta função…»

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«(…) Gesticulava amplamente ao falar, levantando a voz a ponto de gritar, o que fazia estrategicamente com frequência. Pretendia claramente que o ralhete fosse notado por todo o escritório, embora poucos para lá da divisória do cubículo estivessem a prestar atenção à troca de palavras. Alexander suspirou, afundou-se na sua cadeira e puxou o cigarro para si. Estaria muito mais disposto a brigar, a ripostar energicamente e a retaliar se lá no fundo não concordasse com as questões levantadas pelo miúdo. Ninguém queria saber destas histórias, muito menos ele. Alexander tinha entrado para o jornal não por causa do seu zelo, mas pela sua disponibilidade. Não se pode dizer que um homem a caminho dos 40 anos e aproximando-se da meia-idade, com duas licenciaturas em teologia e uma curta carreira como pároco, estivesse primorosamente preparado para o século XXI. Quando finalmente renegou o colarinho branco e abandonou a vida para a qual se tinha preparado desde a infância, desiludido com o conflito inconciliável entre uma instituição que devia ser santa e os homens que a dirigiam, que bastas vezes eram tudo menos isso, tinha-se deparado com um conjunto limitado de opções. Ele não era um programador que deixava a Apple para ir para a Google. Era um padre que saía da Igreja para um mundo que, a cada ano que passava, tinha cada vez menos certezas quanto ao que a Igreja representava e que estava cada vez mais convencido de que era anacrónica, desligada da realidade e irrelevante.
Mas Alexander tinha sido sempre um bom comunicador. Desde que não tivesse como objectivo as áreas de grande visibilidade ou competitivas do jornalismo, tipo pelo qual os jornalistas de vinte e tal anos lutavam e a que os repórteres mais velhos se agarravam com unhas e dentes, o jornal era uma opção viável. Junte-se-lhe o ângulo jornalisticamente sexy do ex-padre ressentido e seria o candidato certo para a secção Vida Eclesiástica do La Repubblica, que, no fundo, mais não era do que uma coluna de coscuvilhice sobre o que quer que conseguissem desenterrar das entranhas obscuras dos assuntos eclesiásticos correntes.
E pronto. Durante três anos tinha vasculhado os limites mais baixos daquilo por que a atenção humana podia ser persuadida a interessar-se. Sim, ocasionalmente havia escândalos sexuais, e a eleição de um novo papa, que tinha ocorrido apenas l1 meses antes, e estes assuntos traziam sempre agitação e atenção. Mas o resto do tempo..., o resto do tempo apenas podia aspirar a atingir um cume moderadamente interessante no seu trabalho. E a maior parte dos dias estava perfeitamente disposto a sentar-se na base dessa montanha, importando-se tanto com estas coisas como o leitor habitual do jornal. Levantou o olhar vazio da secretária. para sua infelicidade, o seu editor ainda lá estava. Alexander esperou pela seguinte rajada de insultos coreografados, mas a cara vermelha de Laterza estava lentamente a voltar à cor normal. Por instantes, parecia uma criança a quem os pais tinham dito que tinha de fazer qualquer coisa boa pelo rapaz que vivia ao lado, embora ele preferisse atá-lo a uma árvore e roubar-lhe a bicicleta. Vou atribuir-te um trabalho, Trecchio. As palavras saíam como se Laterza sentisse repugnância em dizê-las. Alexander estava surpreendido. A Direcção do jornal normalmente preferia que fosse ele próprio a encontrar as suas histórias. Que tipo de trabalho? Laterza franziu o sobrolho.
Aconteceu qualquer coisa na Basílica de São Pedro, qualquer coisa que tem que ver com o aleijado a pôr-se de pé. Há uma grande agitação na Internet desde o fim da missa desta manhã. De certeza que já soubeste de alguma coisa. A agitação na Internet não tem grande utilidade para mim, respondeu Alexander. Para mim é o derradeiro bastião dos idiotas e da coscuvilhice. Tudo bem, mas esses idiotas e coscuvilheiros têm andado aos saltos nas últimas duas horas e o alvoroço está a alastrar. Laterza deitou-lhe um olhar de pena. Alguns gravaram vídeos. Estou certo de que até tu consegues fazer uma história com isso.

Vaticano: 9h 31
Tranquem as portas. Já! A voz do cardeal Secretário de Estado Donato Viteri era intensa e ressonante. Há 23 anos que tinha esta função, a mais alta do Estado da Cidade do Vaticano depois da do pontífice, tendo passado pelos reinados de três papas diferentes. O homem alto de ombros largos era conhecido por não ser nem simpático nem verboso: o tipo de administrador clerical mais velho, que quem conhecia o Vaticano considerava da velha guarda e as multidões de fiéis de todos os outros sítios raramente viam. Viteri era um homem cuja espiritualidade era interior, nunca chegando à superfície em demonstrações de piedade ou reverência explícita, um prelado que se sentia mais à vontade atrás de uma secretária do que de um altar, que rezava com o mesmo tom pragmático com que dirigia as reuniões ou supervisionava as funções políticas. Dizia ocasionalmente que o seu amor pela Igreja se manifestava na maneira prática, incansável e assertiva com que supervisionava os assuntos da mesma. Não dava sermões, mas ordens, e quando falava, esperava ser obedecido. Que portas?
Christoph Raber, o comandante da Guarda Suíça, estava junto dele, ainda com as coloridas vestes cerimoniais que usara durante a missa que tinha acabado apenas minutos antes. Com o posto de Oberst, coronel, o mais elevado de todos os postos na Santa Sé e detido por apenas um homem, Raber era um oficial entroncado com puro músculo a cobrir os ossos firmes que nem os tufos da vestimenta formal conseguiam fazer parecer menos imponente. Na hierarquia do Vaticano, só o papa e o próprio cardeal Viteri podiam dar ordens a Raber. Todas, respondeu o cardeal, completando a sua ordem. Uma pausa longa e estranha. Mas lá está, pensou Raber consigo próprio, tudo nessa manhã tinha sido estranho». In Tom Fox, Dominus, 2015, tradução de Ângelo Santana, Topseller, 20/20 Editora, ISBN 978-989-883-913-8.

Cortesia de Topseller/20/20 Editora/JDACT

domingo, 10 de julho de 2016

Dominus. Tom Fox. «Tinha de confirmar umas fontes, disse ele finalmente, arrancando uma desculpa que soasse a plausível. Era bom nisso, resultado de anos de treino. E havia sempre muitas à escolha»

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«(…) Chegaste atrasado na semana passada. Por falar em coisas que trazem pouco conforto ou tranquilidade. A voz irritante de chihuahua do editor de Alexander quebrou a serenidade do momento. Manteve o fumo nos pulmões mais tempo do que o costume, na esperança de que quando exalasse, o homem se evaporasse com ele. Mas a sorte não estava com Alexander Trecchio esta manhã. Os domingos traziam bênçãos e paz a muitos, mas raramente ao pessoal do jornal que preparava a edição de segunda-feira de manhã. Sabes quais são os prazos de entrega. Estás a dez metros do meu gabinete, continuou Antonio Laterza, como um rato a latir. Alexander abriu os olhos e olhou fixamente para o homem. Laterza era de estatura mediana, bem-constituído, bem-apessoado e com todos os sinais de estar completamente obcecado com a sua aparência física. O seu cabelo castanho caía de forma cuidada na direcção do pescoço, com remoinhos fixados com spray e pontas aclaradas para garantir que as madeixas e tons de luz contrastavam tão intensamente dentro de portas como no exterior. O fato que trazia compensava uma constituição física mediana com um estilo bem acima do médio: um monumento imaculado à alta-costura, em seda castanho-clara, sublinhado com um cinto e sapatos a condizer, vestígios caros do crocodilo que foram em tempos.
Jovens de 27 anos endinheirados, ambiciosos e com assinaturas da revista GQ: se viessem embalados em vácuo e pré-fabricados, parecer-se-iam com Antonio Laterza. Não tens desculpa nenhuma, Alexander, continuou o homem polido. A sua expressão e tom eram reprovadores, como um pai a ralhar. Isto apesar do facto de ser mais de década e meia mais novo do que Trecchio. Tinha de confirmar alguns factos. É por isso que te damos sete dias. Não estás a escrever uma coluna diária, coglione. Que diabo andaste a fazer toda a semana? Alexander deu outra passa no cigarro que ia murchando e expirou o fumo ostensivamente na direcção de Laterza, ignorando o insulto italiano sobejamente utilizado. Já lhe tinham chamado coisas piores do que um par de testículos. A verdade é que Alexander não fazia ideia do que tinha andado a fazer toda a semana. A falar com um padre ao telefone? A analisar os registos financeiros de uma paróquia local? Pesquisando a cronologia do Facebook de um animador social inconsequente como um obcecado. Talvez uma destas opções. Talvez todas. Era tudo a mesma coisa e tudo tão chato.
Tinha de confirmar umas fontes, disse ele finalmente, arrancando uma desculpa que soasse a plausível. Era bom nisso, resultado de anos de treino. E havia sempre muitas à escolha. Sabes que de vez em quando é preciso. Tretas. Laterza lança-lhe um olhar furioso. Alexander sabia que não o convencia, mas também sabia que o editor excessivamente perfumado e desmedidamente ambicioso não o podia despedir. Os assuntos religiosos não eram propriamente uma secção do jornal pela qual os repórteres se digladiassem para conseguirem alguns centímetros da coluna da página 11 a que o trabalho dava direito. E Alexander tinha duas importantes vantagens: tinha feito uma história importante anos antes que provara que não era completamente inútil e era um velho amigo do dono do La Repubblica, Niccolò Marre. O seu emprego era tão seguro quanto os empregos deste sector podiam ser. Andas a ficar preguiçoso, continuou Laterza. A sua face ostentava algo que se aproximava do despeito adolescente, e Alexander questionava-se agora, como fazia com mais frequência ultimamente, se as pessoas de vinte e tal anos estavam a ficar mais novas ou se era ele que estava a ficar mais careta. Com 44 anos não era assim tão velho, mas comparado com Laterza, Alexander sentia-se pré-histórico.
Não tens ambição e o teu trabalho está saturado, bufou o Laterza. Mesmo assim publica-lo todas as semanas. Roma não é Roma sem a Igreja, e um jornal de Roma não vale nada sem umas colunas de reportagens sobre escândalos do Vaticano. Especialmente o La Repubblica. Isto soube-lhe bem. Responder com algumas alfinetadas àquela atitude rebaixante, especialmente se conseguisse fazer parecer que o homem não sabe do seu próprio mister. Desde que Eugenio Scalfari fundou o La Repubblica em 1976 que o jornal tinha reputação de ser um crítico acérrimo da Igrela Católica. Não era um jornal que fosse desistir das reportagens religiosas, por muito vistas que estivessem. Aquela história por que nos fizeste esperar na semana passada, desdenhou o Laterza por sua vez. Duas paróquias com sobre orçamentação nas suas despesas de renovação. Sobre orçamentação. Achas que isso conta minimamente como escândalo no Vaticano? Achas que os nossos leitores querem saber desses disparates?» In Tom Fox, Dominus, 2015, tradução de Ângelo Santana, Topseller, 20/20 Editora, ISBN 978-989-883-913-8.

Cortesia de Topseller/20/20 Editora/JDACT

quarta-feira, 8 de junho de 2016

Dominus. Tom Fox. «O fumo prateado subia em círculos com as suas gavinhas a dobrarem-se sobre si próprias em plumas que se dissipavam lentamente no ar estagnado. As que desciam chegavam às unhas»

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«(…) Tu és um homem de fé, disse o estranho suavemente ao papa, e a tua fé curou-te. Estendeu o seu outro braço, pegou nas mãos dos dois assistentes que seguravam os ombros do pontífice e afastou-as suavemente. Eles apenas resistiram um momento, deixando depois silenciosamente o homem retirar-lhes as mãos do seu fardo. O papa ficou de pé, sem apoio e dobrado, hesitante. Levanta-te, Pedro, disse o estranho. O que estava torto ficou direito. O papa olhava fixamente para ele, com os olhos arregalados. Respirou fundo. Engoliu. E depois o Santo Padre manteve-se de pé por si só pela primeira vez na sua vida. Nenhum dos dois homens pareceu notar os gritos de espanto dos cardeais e clérigos que os rodeavam, ou das massas boquiabertas que estavam por trás deles, quando a multidão testemunhou a cura do seu líder espiritual. Os olhos do papa ficaram vidrados com uma película de admiração e gratidão. Com a sua mão direita, o estranho levantou o cálice de ouro e voltou a colocá-lo na mão do papa, certificando-se de que estava bem seguro. Agora, Vossa Santidade acabará o que veio aqui fazer. Sem dizer mais uma palavra, contornou o altar para a esquerda do pontífice e sentou-se num dos lugares clericais por trás dele. Depois, fechando os olhos e cruzando as mãos calmamente em cima das suas calças de ganga, o estranho começou a rezar.

Freguesia de Fidene. Roma, manhã
Seis quilómetros a norte, numa curva fechada e isolada do rio Tibre, um corpo flutuava na água fria com a cara voltada para baixo. O seu cabelo dourado agitava-se de forma quase bela na suave corrente. A esta hora tão matutina, ninguém lamentava a sua ausência. Ninguém andava à sua procura. Ninguém sequer sabia que ele tinha desaparecido. Em menos de 48 horas, toda a nação havia de conhecer a cara do homem. Daria origem a controvérsia. Incitaria raiva e desconfiança e suscitaria gritos de fraude. Viria a abalar a fé numa escala impensável. Mas neste momento o cadáver andava solitariamente à deriva no rio com a cara escondida nas águas turvas. O assassinato que tinha tirado a vida ao homem era uma coisa do passado, e as correntes que tinha nos tornozelos eram insuficientes para submergir o cadáver como o assassino tinha esperado. E, assim, o cadáver flutuava persistentemente em direção ao centro da cidade. Como se soubesse que mais estava para vir.

Sede do jornal La Repubblica. Roma
O fumo prateado subia em círculos com as suas gavinhas a dobrarem-se sobre si próprias em plumas que se dissipavam lentamente no ar estagnado. As que desciam chegavam às unhas, à pele e ao nó do dedo, acariciando a carne e deixando a sua marca inconfundível: amarela e leve, um indício de alcatrão e respiração solidificados. O problema do fumo eram os malditos dedos amarelos. Com os anos, Alexander Trecchio tinha experimentado mil posturas diferentes de segurar os seus MS Filtro favoritos nas mãos para evitar o recuo do fumo e a acumulação amarela e pegajosa que invariavelmente se formava em volta dos nós dos dedos, mas nada funcionou. O médico já lhe tinha dito ainda mais vezes do que isso que a pele amarelecida era a menor das suas preocupações. Mas Trecchio era um homem que baseava as suas acções, e especialmente os seus hábitos, em factos concretos. A possibilidade de enfisema ou uma longevidade mais curta era assustadora, mas descartavelmente hipotética. Pelo contrário, o facto de os dedos estarem amarelos era incontornável. Deu uma longa passa pelo papel fino e pelo tabaco bem apertado, com os olhos fechados. Observou o carvão vermelho queimando um rastilho pelos fragmentos desfeitos e secos de folha curada e o fumo seguindo o seu serpenteante caminho pelo seu canal, precipitando-se ao seu encontro. Quando o sabor familiar lhe passou pelas papilas da língua e para dentro dos pulmões, Alexander percebeu que na verdade não queria mesmo saber das inconveniências, nem sequer dos dedos. O seu vício era uma coisa pequena que lhe dava conforto e tranquilidade quando pouco mais o fazia. E ele aceitava-o assim». In Tom Fox, Dominus, 2015, tradução de Ângelo Santana, Topseller, 20/20 Editora, ISBN 978-989-883-913-8.

Cortesia de Topseller/20/20 Editora/JDACT

quinta-feira, 12 de maio de 2016

Dominus. Tom Fox. «Quem és tu?, perguntou na sua voz trémula, mas sonora e familiar. O homem olhou tranquilamente nos olhos do pontífice. Enquanto o povo havia de lembrar o mistério do silêncio que encheu o vasto espaço durante este longo olhar entrecruzado»


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Basílica de São Pedro. Cidade do Vaticano: domingo, manhã
«(…) Quando o estranho se aproximou da periferia, os guardas eram o último corpo antes do baldaquino e dos clérigos que se encontravam por baixo dele. Por tradição e honra, bem como pelo juramento que cada um tinha feito aquando da contratação no Cortile di San Damaso, não permitiriam que ninguém passasse a linha que constituem. A santidade suscitava reverência, mas também ódio, e durante séculos as fileiras da Guarda Suíça tinham garantido que, pelo menos em termos práticos, o ódio não vencesse o amor. Contudo, o estranho continuava a aproximar-se, tornando-se claro que o caminho que tencionava seguir não terminava na extremidade do cordão de segurança. Os dois guardas mais próximos da nave central retesaram-se, as suas posições bloqueando-lhe o trajecto, as mãos apertando com segurança as alabardas cerimoniais. Por trás do homem que se aproximava, era como se toda a basílica tivesse ficado em silêncio e suspensa. O espaço estava electrizado com atenção. Milhares de olhos fixavam-se neste homem, totalmente fascinados.
O estranho desacelerou o passo, parecendo flagrantemente ainda mais deslocado nas suas calças de ganga ao abeirar-se dos antigos uniformes erradamente atribuídos a um modelo feito por Miguel Ângelo. Parou a apenas alguns metros dos guardas. Não disse nada. os seus olhos fixados apenas no papa, por trás daqueles homens, alguns degraus acima. Firmes como esteios, os guardas ficaram rígidos, com a devoção e o treino incansável a chamá-los ao seu dever sagrado. E foi então, quando o estranho parou à frente deles, que se ajoelharam. Todo o esquadrão de soldados de elite, as forças militares efectivas do Vaticano, se ajoelhou em uníssono quase perfeito. Os dois guardas mais próximos do estranho desviaram-se para o lado, em atitude deferente e respeitadora, permitindo-lhe a livre passagem. Ouviram-se suspiros abafados vindos da multidão quando o estranho retomou o seu avanço, caminhando suavemente em volta da cripta de São Pedro. Alguns passos depois, começou a sua subida para o altar-mor. O corpulento maestro do coro vestido de vermelho olhou por cima do ombro, em choque, virando em seguida as costas ao grupo que dirigia. Os braços ainda estavam suspensos na sua pose habitual quando por trás dele o coro hesitou e depois emudeceu.
A súbita ausência de som na basílica era esmagadora. Os passos do homem ouviam-se agora nitidamente, ecoando pelo espaço hipnotizado, enquanto subia os degraus finais. Ficou finalmente olhos nos olhos com o Santo padre, que estava do outro lado do altar. O corpo do papa estava dobrado para a sua direita, com os seus assistentes a agarrarem-lhe a parte superior dos braços com firmeza para o apoiarem. Ele manteve-se estático no seu lugar, a ponta dos dedos ainda tocando no cálice cintilante, e os olhos presos nos do estranho. Quem és tu?, perguntou na sua voz trémula, mas sonora e familiar. O homem olhou tranquilamente nos olhos do pontífice. Enquanto o povo havia de lembrar o mistério do silêncio que encheu o vasto espaço durante este longo olhar entrecruzado, o papa havia de recordar que tinha sido como se estivesse a olhar para a eternidade, com o seu coração cheio da mesma sensação de deslumbramento e majestade que tinha antes experienciado ao observar as ondulantes ondas do mar, enquanto contemplava a vastidão da glória de Deus. Depois, com voz suave, estendendo as duas mãos viradas para cima, o estranho falou finalmente. Não me conheces, Pedro?
A basílica encheu-se de expressões sonoras de espanto. A quietude deu lugar a uma onda de sibilante tensão quando a resposta do homem foi sussurrada pelas filas dos fiéis. Os visitantes ocasionais que povoavam a multidão esforçavam-se por compreender o que significava, mas o significado das palavras só era claro para os homens e mulheres de fé. Claro e explosivo. Pedro era o nome do primeiro sumo pontífice, o homem que tinha negado Cristo três vezes. Estas eram palavras que o Salvador diria aos seus. Os flashes das máquinas fotográficas começaram a relampejar às centenas. No entanto, o papa mantinha o seu olhar fixo nas mãos estendidas do estranho. Os olhos pontifícios encheram-se de lágrimas inesperadas. Meu servo fiel, disse o estranho um momento mais tarde, com uma voz intensa e estranhamente apaziguadora. Pousou uma das mãos no ombro trémulo do pontífice. O assistente que segurava o braço direito do pontífice agarrou-o com mais força, mas o estranho manteve o seu olhar suave no Santo Padre, sem qualquer vestígio de ameaça. Não tenhas medo. Sou eu.
Os olhos do Papa eram como vidro, a sua respiração fraca. À distância, as últimas palavras do estranho tinham sido ouvidas e o seu conteúdo ainda mais directo incendiou os fiéis, que tiravam fotografias com as suas máquinas fotográficas, filmavam a cena com os seus telefones móveis, dezenas deles caindo de joelhos, a rezar. As dezenas tornaram-se uma centena, e uma centena tornou-se duas. Mas o pontífice olhava fixamente na cara do estranho. Todo o seu corpo tremia. E então deu-se o milagre». In Tom Fox, Dominus, 2015, tradução de Ângelo Santana, Topseller, 20/20 Editora, ISBN 978-989-883-913-8.

Cortesia de Topseller/20/20 Editora/JDACT

quarta-feira, 11 de maio de 2016

Dominus. Tom Fox. «Apenas o tinham fortalecido, e o homem que os ‘media’ tinham denominado com crueldade “o papa aleijado” era tanto mais amado pelo seu rebanho…»

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Basílica de São Pedro. Cidade do Vaticano: domingo, manhã
«Ele não desceu dos Céus com trompetes. Os anjos não começaram a cantar. O Sol não escureceu, e a estrutura da antiga basílica permaneceu incólume. Entrou devagarinho, sem fanfarra, embora a cada passo que desse o mundo começasse a mudar. Não que a sua aparência exterior desse qualquer indicação do que estava para vir. Um homem despretensioso com calças de ganga gastas. Uma camisa cinzenta, ligeiramente amarrotada. Os sapatos moderadamente estafados. Ele dava tudo menos nas vistas. Mais tarde, ninguém conseguia lembrar-se de o ver entrar na Basílica de São Pedro. Nem um, dos milhares que ali se juntaram, o viu passar pela ampla porta ocidental, nem entrar no grande espaço concebido para reflectir a reunião gloriosa do Céu e da Terra. A única coisa de que se lembravam foi da maneira como a sua caminhada silenciosa lhes tinha chamado a atenção quando já se encontrava entre eles. Mas da sua atitude, ali no coração secular da Cristandade, lembravam-se de cada detalhe. A maneira como se deslocava calmamente pela nave central durante a Missa Solene pontifícia. A maneira como homens e mulheres se tinham inconscientemente afastado para lhe abrir caminho, enquanto os seus filhos tentavam chegar a ele, inexplicavelmente atraídos. A maneira como todos fizeram silêncio quando ele se aproximou, e como os seus olhares se demoraram nele, enquanto se deslocava. Lembravam-se disso.
A sua postura mostrava determinação, embora caminhasse despreocupadamente pelo meio da multidão. O cabelo com apenas alguns centímetros de comprimento, ligeiramente ondulado e com tons de castanho-dourado, parecia estranhamente claro na luz alaranjada da igreja antiga. Ao deslocar-se na direcção do grande baldaquino de Bernini, os seus olhos olhavam em frente. Suaves e serenos, mas fortes. Todos se lembravam dos seus olhos. Na outra extremidade da nave de 211 metros, estava o celebrante principal da missa, todo de branco reflectindo a luminosidade, dobrado sobre o altar-mor. Embora a sua debilidade corporal transmitisse a mensagem eficazmente por si só, o magnífico trabalhado de bronze por cima dele reforçava o facto de que, apesar de toda a fama e poder mundanos do pontífice, era, mesmo assim, uma figura menor perante a majestade de Deus.
Estava rodeado por dois cardeais concelebrantes, e entre eles e ele estavam os habituais auxiliares que iam para todo o lado com o papa atormentado pela doença, segurando pelos cotovelos a sua figura torcida nos momentos do culto que exigiam que ele estivesse de pé. Estava longe de ser um idoso, mas o tipo específico de estenose espinhal de que sofria desde criança tinha-o deixado permanentemente desfigurado e incapaz de estar de pé sem ajuda. Os efeitos crónicos dessa enfermidade, contudo, nunca lhe tinham enfraquecido o espírito. Apenas o tinham fortalecido, e o homem que os media tinham denominado com crueldade o papa aleijado era tanto mais amado pelo seu rebanho, quanto mais fraco era o corpo que lhe tornava as suas convicções espirituais interiores tão evidentes. O papa e os seus auxiliares tinham ao seu lado um conjunto de padres e uma corte completa de servidores engalanados com as suas roupagens litúrgicas mais vistosas. Atrás deles, em estrados especialmente construídos para o efeito, os elementos do coro da Capela Sistina enchiam o espaço com o latim angélico do Sanctus. Os próprios anjos, havia mais tarde de lembrar uma idosa, não conseguiriam produzir um som mais glorioso do que aquele.

Santo, Santo, Santo,
Senhor Deus do universo...
Bem-aventurados os que vêm em nome do Senhor.

O estranho dirigiu-se lentamente para a frente. O papa levantou os olhos dos instrumentos do sacrifício sem sangue, o cálice e a patena de ouro martelado, com o seu rosto reflectindo a glória que sentia em cada celebração do culto sagrado. Podia ver-se claramente, quando levantou o pescoço dorido e olhou para os fiéis, com os olhos cor de avelã a reflectirem os reflexos do vinho carmesim do cálice, que o herdeiro da função do Apóstolo Pedro estava completamente absorvido no sacrossanto rito litúrgico. Só quando olhou por cima do seu rebanho é que o pontífice viu a aproximação do estranho pela primeira vez. Foi, então, que o inexplicável começou a acontecer. À frente da fila de cadeiras na nave central da basílica, logo a seguir às cordas vermelhas que mantinham os fiéis a uma distância respeitável das eminências clericais, os vívidos uniformes cerimoniais azuis, vermelhos e laranja da Guarda Suíça formavam uma meia-lua à frente do altar-mor. Os homens dentro dos uniformes, que pareciam saídos de um carnaval renascentista, figuravam entre os elementos de protecção militar mais devotados e mais bem treinados do mundo». In Tom Fox, Dominus, 2015, tradução de Ângelo Santana, Topseller, 20/20 Editora, ISBN 978-989-883-913-8.

Cortesia de Topseller/20/20 Editora/JDACT