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quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

Elvas na Idade Média. Fernando B. Correia. «Gaio Axónio, recordado em Elvas, nasceu em Firmum Picenum, colónia situada junto à costa adriática, hoje Fermo»

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Época romana
«(…) Mais recentemente, Marques Faria continua a pôr a hipótese de Dipo, onde se cunharam asses no século II a.C., ter-se localizado perto de Elvas. A zona de Elvas era atravessada por uma das principais vias da Lusitânia, que ligava a capital administrativa da província com o litoral, mais concretamente Emerita Augusta com Salacia (o autor refere a descoberta, na herdade de Alcobaça que se encontra na freguesia da Terrugem, de um marco miliário que indica a milha 65ª, o que equivale, sensivelmente, aos 95 Km que separam a referida localidade da antiga capital da Lusitânia romana). Jorge Alarcão que reviu de forma sistemática o traçado das principais vias de época romana que atravessavam Portugal, não deixa de fazer coincidir com a zona de Elvas o entroncamento de estradas que, vindo de Mérida, se dirigiam para o Ocidente, mais concretamente para Olisipo (Mérida é o nó fundamental que permite a compreensão do papel da região de Elvas no contexto das estradas que, a partir de época romana, se dirigem daquela cidade para ocidente). Uma delas dirigia-se para Évora; a outra, à qual a região de Elvas se ligaria por um ramal, seguia em direcção a Alter do Chão, e depois para Santarém. Na região de Elvas não faltam vestígios de época romana. Trabalhos de índole arqueológica, realizados no século passado e na primeira metade da presente cenúria revelaram muitos vestígios de ocupações desta época (é de salientar que, a nível regional, a zona de Elvas está rodeada por uma zona mais vasta que, grosso modo, vai de Évora à antiga cidade da Ammaia, S. Salvador da Aramenha, Marvão, onde a implantação de estações romanas tem algum relevo), havendo a destacar o aparecimento de pavimentos em mosaico em Vila Fernando, em Alfarófia, junto ao Caia, (não muito longe de Alfarófia, na herdade das Caldeiras, junto ao Caia, foi encontrada há poucos anos uma nova inscrição romana, de tipo funerário), na Quinta das Longas (onde, desde há poucos anos, decorrem campanhas arqueológicas sistemáticas) e na Torre de Cabedal (que desde as reformas administrativas do século passado passou a pertencer ao concelho de Vila Viçosa, fez parte no período medieval cristão, do alfoz de Elvas) que, em alguns casos, passam por estruturas hidráulicas (na herdade do Carrão, situado na zona oeste do concelho, junto a Vila Fernando, foram encontrados vestígios, cronologicamente variados, de edifícios, cerâmicas, moedas e restos de duas represas; quanto às cerâmicas, alguns formas são do séc. I d.C.; as moedas são quase exclusivamente do Baixo Imperio e os restos das duas represas ainda eram aproveitadas na década de 50 deste século; na herdade de Chaminé, perto da Atalaia dos Sapateiros, na mesma freguesia, foram também encontrados abundantes vestígios deste período; em outras freguesias do concelho de Elvas não faltam os vestígios da ocupação romana; é o que se pode constatar a norte da Terrugem, junto de Torre de Ovilheira, Sto Ildefonso, em S. Rafael, junto ao Guadiana, pouco a norte de Juromenha e na freguesia de Vila Boim». Alguns dos que aqui viveram e faleceram vieram de longe (um tal Gaio Axónio, natural de uma colónia romana da zona do Adriático, foi sepultado nesta região; Gaio Axónio, recordado em Elvas, nasceu em Firmum Picenum, colónia situada junto à costa adriática, hoje Fermo). Em várias zonas do termo de Elvas, foram encontradas necrópoles, tanto de incineração (na herdade do Padrão, freguesia da Ajuda, muito perto do caminho que se dirige para Juromenha, foi descoberta uma necrópole de incineração, da qual se exploraram, até 1953, 22 sepulturas de que se obteve abundante e importante espólio; cerca de 5 Km a Norte de Elvas, na Horta das Pinas, freguesia de S. Vicente, foi encontrada uma necrópole de incineração na qual foram exploradas 61 tumulações, nas quais há a referir o aparecimento quase constante de armas nessas sepulturas; na horta da Serra, freguesia S.. Brás, para além de uma necrópole de incineração encontraram-se vestígios construtivos possivelmente da mesma época romana), como de inumação (uma necrópole romana de inumação, encontrada na herdade da Camuge, freguesia de Vila Boim, revelou duas lápides com inscrições a3) ou até mistas (a herdade de Torre das Arcas revelou uma extensa necrópole de incineração e de inumação de que foram exploradas quase oito dezenas; também na zona de Vila Fernando, mais concretamente na herdade de Serrones, se encontrou uma necrópole de incineração, de que se escavaram 72 tumulações, com abundante espólio; contudo, neste sítio arqueológico também se encontraram inumações, pobres a nível de espólio; encontrou-se na região de Elvas uma tampa de sarcófago, decorada com um baixo-relevo com um putto funerário, datável dos séculos I a.C. ou I d.C.; junto a Elvas têm sido encontradas algumas inscrições romanas; curiosamente, pelo menos duas delas dizem respeito a indivíduos do sexo masculino que faleceram com mais de 70 anos de idade).
Um dos componentes da ocupação romana que é de destacar é o da hidráulica. Embora o estudo dos sistemas hidráulicos das várias villae romanas encontradas em Elvas esteja por fazer, foram localizados, nas suas imediações, vários vestígios de sistemas hidráulicos datando de época romana (a construção de barragens é apenas um dos aspectos da nova tecnologia introduzida pelos Romanos; mas, ao contrário do que muitas vezes se supõe, os Romanos não exploraram apenas as águas de pé, deixando aos Árabes a introdução do poço e dos sistemas de elevação das águas profundas; os vestígios de poços romanos são frequentes), tendo-se detectado, até ao momento, três construções desta época (trata-se das barragens de Moralves e do Carrão e do conjunto tanque, canal subterrâneo e aqueduto do Correio-Mor). E difícil dizer de quando data a construção (só a título comparativo e sem querer fazer qualquer género de extrapolações, refira-se que a chamada barragem de Proserpina, em Mérida, se considera datar do século II d.C.) destas estruturas hidráulicas e saber até quando estiveram em utilização. No entanto, tem aceitação a hipótese de que estes sistemas possam ter continuado em utilização após o fim do Império Romano do Ocidente (os Visigodos teriam tido consciência da necessidade da rega e do controlo da água em Espanha e teriam usado as estruturas legadas pelos Romanos; lembram que o Liber Judiciorum não esquece a prescrição de penalidades para quem utiliza mal a água; já quanto ao domínio islâmico, atribuem aos muçulmanos unicamente a construção de pequenas barragens de derivação [açudes?] em rios com regime de caudais adequados e nunca barragens para criar albufeiras de armazenamento; contudo, tal não significa que se não tivessem utilizado, pontualmente, estruturas romanas já existentes e úteis; por outro lado, a existência de elementos que comprovam a construção de barragens para armazenamento, em Espanha, no século XIII, pode significar que na Baixa Idade Média teria voltado a haver um interesse na utilização de estruturas deste tipo)». In Fernando Branco Correia, Elvas na Idade Média, Edições Colibri, CIDEHUS, Universidade de Évora, 2013, ISBN 978-989-689-365-1.

Cortesia de EColibri/JDACT

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

Elvas na Idade Média. Fernando B. Correia. «Dippo, cidade ainda não localizada, talvez na área de Évora ou de Elvas ou algures entre Elvas e Évora?; a sua terminação em ippo parece levar à atribuição de uma origem túrdula a este topónimo; o mesmo autor, noutro trabalho, sugere que Dipo poderia corresponder à actual localidade de Évora-Monte

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Época romana
«(…) O castro ou oppidum de Segóvia parece ter feito parte do roteiro das lutas que se travaram entre atacantes e apoiantes de Sertório em 75 a. C.. Com as campanhas de Júlio César a região teria ficado controlada pelos romanos. O território no qual se insere Elvas fazia parte da Lusitânia. A província fora criada não se sabe bem se antes ou depois de escolhida Emerita para sua capital. Através da Epigrafia pode-se afirmar que a região de Elvas estava integrada no territorium de Augusta Emerita. Assim, durante a época romana, em termos administrativos, judiciais e de afinidades em termos gerais, a zona de Elvas relacionava-se preferencialmente com Emerita e, ao localizar-se num dos extremos de territorium de Emerita, virado para Oeste, deve ter sido um ponto de ligação com Ebora e com a linha do Tejo. Com a criação, no século I d. C., de um novo tipo de circunscrições administrativas, com funções essencialmente judiciais, os conventus, a zona de Elvas pode ter continuado estreitamente ligada à capital provincial. Na verdade, os autores fazem normalmente coincidir a linha divisória entre os conventus emeritense e pacense mais ou menos com a actual linha fronteiriça de Portugal e Espanha. contudo, o mapa elaborado por Jorge Alarcão para o seu trabalho Roman Portugal parece querer deixar claro que a zona de Elvas (bem como Ammaia, mais ao Norte) teria ficado integrada na área do conventus de Emerita e não no de Pax Julia (do qual dependia Ebora).
Outros autores que se debruçaram sobre a questão da pertença de Elvas a um dos conventus revelam algumas dúvidas. José d’Encarnação, tendo em conta a pertença das zonas de Elvas, Juromenha, Vila Boim e Veiros à tribo Papíria, bem como o facto de o marco miliário encontrado na Terrugem (Elvas) referir a distância reportando-se a Mérida, pergunta se, com base nesses elementos, não se poderá concluir da pertença desses territórios ao conventus emeritensis. Elvas; segundo Jorge Alarcão, deveria ter sido um vicus, um núcleo urbano de carácter secundário, importante (Alarcão afirma que vici importantes a su1 do Tejo, além de Tróia. seriam os de Nossa Senhora de Aires, Santana do Campo, Elvas. Alter do Chão; o mesmo autor esclarece àcerca do significado urbanístico e económico desta designação: vicus designava um núcleo urbano menos importante em termos jurídico-administrativos, que uma capital de civitas. Apesar disso, um vicus poderia ser mais extenso ou populoso, e mais activo, industrial ou comercialmente, que certas capitais; poderia ter obras públicas ou residências particulares mais ricas que as sedes de alguns municipia». Este autor justifica a importância de Elvas em época romana tendo em consideração os achados epigráficos de carácter funerário encontrados, o aparecimento de um fragmento de mosaico na área urbana, para além da grande quantidade de estações arqueológicas desta época referenciadas nos arredores do núcleo urbano.
No entanto, atendendo à topografia da zona, favorável à existência de um ponto fortificado, talvez não seja de excluir a hipótese de ter tido também instalações de tipo militar, o que a aproximaria de um oppidum, ou que, hipótese talvez também a considerar, que, de um oppidum inicial, a ocupação pudesse ter evoluído no sentido de se tornar numa estrutura de assentamento mais identificável com um vicus. Sendo um vicus ou um oppidum, o que não está ainda esclarecido é o nome que se aplicava, então, ao local em causa. Se Alarcão não lhe atribui nenhum nome, autores há que, a partir da toponímia referenciada nas fontes antigas, sobretudo as informações provenientes de itinerários, fazem coincidir (não sem interrogações) Elvas (ou a sua região) com Dippo (Dippo, cidade ainda não localizada, talvez na área de Évora ou de Elvas ou algures entre Elvas e Évora?; a sua terminação em ippo parece levar à atribuição de uma origem túrdula a este topónimo; o mesmo autor, noutro trabalho, sugere que Dipo poderia corresponder à actual localidade de Évora-Monte; as reticências não largam este topónimo, que alguns autores grafam com um e outros com dois pp, de que resulta Dipo e Dippo; José d’Encarnação é um dos cientistas que coloca, como hipótese, a identificação de Dippo com Elvas; recentemente autores há que, não retirando a Elvas a possibilidade de ter albergado a antiga Dippo, propõem a sua localização em Juromenha; segundo Luis Berrocal-Rangel, Dipo poder-se-ia localizar na zona definida pelo cabeço de Segóvia, a norte, e Juromenha, a sul, pela grande quantidade de necrópoles céltico-romanas aí detectadas e que se localizam maioritariamente no termo de Elvas; este autor não esconde as condições topogáficas óptimas oferecidas por Elvas para poder ter sido o local de assentamento de Dipo; porém, sem mais argumentos, o autor inclina-se para Jnromenha como local mais provável de coincidência com a antiga Dipo, Los Pueblos Célticos del Suroeste de la Península Ibérica, Madrid, Edicão Complutense, 1992)». In Fernando Branco Correia, Elvas na Idade Média, Edições Colibri, CIDEHUS, Universidade de Évora, 2013, ISBN 978-989-689-365-1.

Cortesia de EColibri/JDACT

Elvas na Idade Média. Fernando B. Correia. «Embora não fosse, certamente, um caso isolado na região, a ocupação durante a I Idade do Ferro deixou fortes marcas no “castro de Segóvia”, implantado de forma dominante sobre o Caia, a norte de Elvas»


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Antecedentes Históricos
«(…) A Idade do Bronze deixou também vestígios na zona de Elvas. Já as relações entre o mundo mediterrâneo e os povos de origem indo-europeia assentados no interior da Península no período pré-romano parecem ter passado por várias vias de penetração. Para além das cidades do litoral do actual Algarve, a zona de Elvas deve ter desempenhado também um papel difusor. Embora não fosse, certamente, um caso isolado na região, a ocupação durante a I Idade do Ferro deixou fortes marcas no castro de Segóvia, implantado de forma dominante sobre o Caia, a norte de Elvas. Vários cientistas que trabalharam neste local e outros que se têm debruçado sobre Segóvia consideram que, pelo espólio encontrado, aqui chegaram nos séculos VIII e VII a.C., influxos de procedência centro-europeias. Essa circunstância leva alguns autores a afirmar que Segóvia é um povoado importante ligado ao processo de expansão das comunidades de feição cultural continental para ocidente. Contudo, as influências de tipo continental cruzam-se neste território com outras, de proveniência mediterrânea. Na verdade, em Segóvia encontraram-se cerâmicas orientalizantes, relacionadas com a presença da actividade comercial fenícia, nas escavações arqueológicas, além de cerâmicas pintadas ibero-púnicas e de campanienses, que surgem desde os níveis médios, e até de sigillatas que surgem nos níveis superiores, de plena romanização, encontram-se inúmeras cerâmicas indígenas... Para este período, as fontes escritas permitem já lançar alguma luz sobre os povos proto-históricos que viveriam nesta zona. O Alentejo, mais concretamente a zona entre o Tejo e o Guadiana, parece ter sido uma zona influenciada pelos Célticos, povo pré-romano referido por autores clássicos; contudo, na zona do actual nordeste alentejano deveria haver Lusitanos. Assim, Célticos e Lusitanos, ambos de origem indo-europeia, parece terem-se fixado na região actualmente conhecida como Alto Alentejo.
Dipo, que alguns autores localizam nas cercanias de Elvas, bem como o cabeço de Segóvia, devem ter correspondido a antigos núcleos urbanos pré-romanos, ligados ao mundo dos Célticos. Contudo, em Segóvia, onde se realizaram escavações arqueológicas, os resultados preliminares indicam que se trata de um povoado aparentemente fundado no século VII a.C., mas que indicia, a partir de achados cerâmicos de tipo púnico, ibero-púnico e grego, contactos com áreas mediterrânicas. Teresa Gamito identificou 16 povoados na II Idade do Ferro em redor de Santa Eulália, um dos quais Segóvia, que estaria ligado, entre outros aspectos, à mineração. Outros vestígios da Idade do Ferro se têm encontrado perto de Elvas; ou seja, em termos gerais, no período proto-histórico, a zona de Elvas parece localizar-se numa zona onde confluem influências culturais de proveniência diversa, registando-se uma espécie de encontro de culturas: centro-europeia por um lado, (tendo em conta os vestígios encontrados em Segóvia e a permanência de povos de origem céltica) e oriental de procedência mediterrânea, por outro (no século XVII, o cónego Aires Varela interessa-se pela questão da origem e fundação de Elvas, e sem ter nas suas mãos os elementos arqueológicos hoje disponíveis, pensa que a região de Elvas foi cruzada por várias influências, de origem céltica; este autor afirma que Elvas teria sido fundada pelos celtas, em 999 a.C.; refere, porém. que outros autores discordam da sua proposta apontando outros povos como fundadores de Elvas, pelo que, o historiógrafo elvense admite que, com os Celtas viessem alguns Helvécios, Elvecios, e que, dessa forma, o nome Elvas teria surgido devido à semelhança, a nível de riqueza, encontrada pelos ditos Helvécios, entre a sua região de origem e a zona de Elvas. Ainda segundo Aires Varela, os cartagineses teriam estado em Elvas, convivendo pacificamente com os seus moradores; para este autor a riqueza e prosperidade de Elvas já se manifestava claramente nestes tempos). Não será a última vez que se assiste à chegada de influências destas procedências.

Época romana
Os romanos entram na Península Ibérica em 218 a. C.. Contudo, o domínio do que mais tarde se virá a chamar o Alentejo só terá lugar entre 202 e 139 a.C.. Em meados do século II a.C., o Alentejo é teatro de operações entre lusitanos e romanos, sucedendo-se os raids, nos quais se destaca a acção do chefe lusitano Viriato». In Fernando Branco Correia, Elvas na Idade Média, Edições Colibri, CIDEHUS, Universidade de Évora, 2013, ISBN 978-989-689-365-1.

Cortesia de EColibri/JDACT

quarta-feira, 2 de novembro de 2016

Elvas na Idade Média. Fernando Branco Correia. «A região de Elvas apresenta evidências de ocupação humana desde os tempos mais remotos, ou seja, desde o Paleolítico Inferior»

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Clima
«(…) Segundo Lautensach, e de acordo com as medições efectuadas entre 1903 e 1932 na zona de Elvas, a precipitação média anual vai dos 500-600 mm a 700-800 mm anuais; precipitações semelhantes à registadas na Estremadura portuguesa, embora a zona mais oriental do termo de Elvas já registe precipitações mais fracas, comparáveis com as que se registam no actual Baixo Alentejo. Trabalhos posteriores de Orlando Ribeiro acentuam a variedade de quantidades de precipitação registada na área do alfoz de Elvas, mostrando claramente que a zona Este e NE do seu termo são menos visitadas pela chuva e apresentam claras semelhanças com os campos das vizinhas terras da actual Extremadura espanhola. Elvas integra-se, tal como todo o Alto Alentejo e o Vale de Tejo, numa região em que é de três o número de meses em que se registam chuvas escassas. Segundo trabalhos mais recentes de Suzanne Daveau, Elvas localiza-se numa das zonas do actual território nacional continental em que a quantidade de precipitação anual média é menor (segundo um mapa publicado em 1977, elaborado a partir de medições efectuadas entre os anos de 1931 e 1960, a área do termo de Elvas é uma das que tem uma menor distribuição da precipitação anual média). Quanto a temperaturas, o alfoz de Elvas encontra-se maioritariamente dentro das zonas que, segundo a terminologia empregue por Suzanne Daveau, apresenta Inverno fresco e Verão muito quente, com temperaturas médias superiores a 32° no mês mais quente e 120 ou mais dias com máximas superiores a 25°C de temperatura. Sob o ponto de vista bioclimático, Elvas integra-se numa região bioclimática de tipo Pré-Mediterrâneo interior. Para Mariano Feio, o clima português, pelo facto de ter chuvas a mais no Inverno e de menos no Verão, só é apto para algumas culturas, de entre as quais se destacam a vinha, a oliveira, algumas árvores florestais (sobreiro, pinheiro e eucalipto) e determinadas culturas regadas. Este panorama, a que não falta até o regadio, será útil para compreender alguns aspectos do quotidiano dos espaços peri-urbanos da Elvas medieval. Quanto ao clima específico de Elvas, estudos da década de 70 do século passado, demonstram que, apesar de ser uma localidade meridional, apresenta características continentais, com uma amplitude térmica diária média mais acentuada no Verão (17°C) que no Inverno (estação em que essa amplitude térmica desce para 9°C), devido à forte insolação estival (Elvas possui um clima de feição mediterrânea mas com características de continentalidade, na medida em que, para além de uma secura estival acentuada e um Outono e Inverno pluviosos, há que ter em conta as grandes amplitudes térmicas resultantes das disparidades entre as altas temperaturas obtidas nos Verões e os Invernos pródigos em geadas e com temperaturas muito baixas). Todos estes factores condicionam o tipo de cobertura vegetal dominante na região. A nível florístico Lautensach integrou Elvas na região que denominou Alentejo Oriental, a qual considerou ser a zona continental que apresenta a maior percentagem de espécies mediterrâneas. Já se referiu a existência de nítidas semelhanças entre a geologia das zonas de Elvas e de Badajoz. Porém, as semelhanças entre essas duas terras vizinhas não se ficam pela geologia. Na verdade, já Amorim Girão tinha posto em evidência a existência de semelhanças entre a paisagem física, animal e humana da Extremadura espanhola com a do Alentejo.
Antecedentes históricos
A região de Elvas apresenta evidências de ocupação humana desde os tempos mais remotos, ou seja, desde o Paleolítico Inferior. Nos terraços fluviais do Guadiana e do Caia, junto a Elvas e entre esta e Juromenha, foram encontrados vestígios do Paleolítico Inferior, o período que, cronologicamente, se situa entre 9000 / 8000 e 6000 a.C. tem a ver com comunidades de caçadores-recolectores dos inícios do período chamado de Epipaleolítico. Nos vales dos rios Guadiana e Caia, entre outros locais, em redor de Elvas, foram detectados vestígios de comunidades deste período. A neolitização e o fenómeno do megalitismo estão representados através de vários vestígios existentes na área do termo de Elvas e nos arredores». In Fernando Branco Correia, Elvas na Idade Média, Edições Colibri, CIDEHUS, Universidade de Évora, 2013, ISBN 978-989-689-365-1.

Cortesia de EColibri/JDACT

domingo, 23 de outubro de 2016

Elvas na Idade Média. Fernando Branco Correia. «O território do termo de Elvas, excepto uma pequena franja ocidental do mesmo, integra-se na área da bacia vertente para o Guadiana, rio este que se sabe ser bastante irregular»

Cortesia de wikipedia e JDACT

Altimetrias
«(…) O relevo assume na região uma oscilação morna, variando entre os 150 e os 500 metros de altitude. Dentro deste intervalo dominam as altitudes inferiores a 400 metros, embora a zona oeste do termo de Elvas, junto a Vila Boim, apresente já altitudes superiores às demais zonas do território do termo. Aliás o alto de Vila Boim, entre esta localidade e a capela de S. Lourenço, é precisamente o ponto do termo de Elvas em que se regista a cota de maior altitude, precisamente 495 m de altitude. Em redor do núcleo urbano de Elvas dominam as cotas próximas dos 300 metros. A cota máxima urbana quase atinge este valor. A norte, no cabeço em que se encontra o forte da Graça e que, no período medieval, era conhecido como serra de S. Domingos, encontra-se a cota mais alta das suas imediações, precisamente 383 m. Trata-se de um relevo que nunca impediu a penetração de ventos de civilização vindos sobretudo do sul.

Hidrografia
Sente-se a falta de um estudo aprofundado sobre as linhas de água na região, situação comum a outras regiões de Portugal. Não faltam, porém, na região as linhas de água. No entanto, a quantidade de água disponível é, geralmente, escassa e, a esse nível, Elvas não foge às características próprias da zona raiana (pode aplicar-se, mas de forma cautelosa, a opinião de Amorim Girão de que no sul de Portugal, como na sua zona fronteiriça de este, a escassez da água é o fenómeno geográfico por excelência, causa das causas). Assumindo papel de destaque está o rio Guadiana que corre sensivelmente a SE e ao qual se junta o rio Caia que corre na parte norte do termo de Elvas. A maior parte das ribeiras e dos pequenos ribeiros é a estas duas linhas de água que se vão juntar. O território do termo de Elvas, excepto uma pequena franja ocidental do mesmo, integra-se na área da bacia vertente para o Guadiana, rio este que se sabe ser bastante irregular, mas cujo regime continua muito pouco conhecido (o próprio projecto da barragem do Alqueva, que atinge áreas do termo de Elvas, tenha dado origem a um estudo hidrológico e geográfico aprofundado). Para a zona do curso médio do Guadiana, junto a Elvas, escasseiam as informações. Em geral, as várias linhas de águas da zona de Elvas têm um regime muito irregular, dependente da pluviosidade e da dureza das estiagens. Parece não terem sido publicados estudos específicos quanto às características da região a nível de águas subterrâneas. Na verdade, registam-se algumas fontes e nascentes, locais de abastecimento de água de relevante importância. Orlando Ribeiro inclui o troço do Guadiana, que se localiza próximo de Elvas até montante de Mérida, numa zona de navegação fluvial importante, o que transforma este troço médio do Guadiana numa estrada de indiscutível interesse, sobretudo para os tempos mais recuados». In Fernando Branco Correia, Elvas na Idade Média, Edições Colibri, CIDEHUS, Universidade de Évora, 2013, ISBN 978-989-689-365-1.

Cortesia de EColibri/JDACT

Elvas na Idade Média. Fernando Branco Correia. «… a grande “falha da Messejana” que atravessa todo o Alentejo numa diagonal ascendente, sensivelmente no sentido SW-NE (e que desde Odemira se prolonga até cerca de Ávila, em Espanha)»

Cortesia de wikipedia e jdact

«Vais pela estrada que é de terra amarela e quase sem nenhuma sombra. As cigarras cantarão o silêncio de bronze. À tua direita irá primeiro um muro caiado que desenha a curva da estrada. Depois encontrarás as figueiras transparentes e enroladas; mas os seus ramos não dão nenhuma sombra. E assim irás sempre em frente com a pesada mão do Sol pousada nos teus ombros, mas conduzida por uma luz levíssima (...) Até chegares às muralhas antigas da cidade que estão em ruínas. Passa debaixo da porta e vai pelas pequenas ruas estreitas, direitas e brancas (...) E olha bem o branco, o puro branco, o branco da cal onde a luz caia direito». In Sophia de Mello Breyner Andresen, Caminho da manhã.

«Conhecida por ter Badajoz à vista, a história de Elvas durante muito tempo era quase que exclusivamente lembrada quando se tratava de glorificar o papel desta cidade durante o período da chamada Guerra da Restauração. Contudo, esta terra de fronteira e de fronteiras teve, durante o período medieval, uma existência e uma dinâmica que têm passado algo despercebidas. Da sua fundação quase nada se sabe e a sua integração na coroa portuguesa ainda hoje se reveste de contornos que se não dominam com toda a exactidão. Integrada num território onde não faltam as marcas de ocupações muito antigas, localizada junto a um dos mais importantes rios do sul ibérico, o Guadiana, a cidade de Elvas situa-se numa zona de cruzamento de caminhos e civilizações. Desde tempos pré-históricos que o seu território sentiu o pulsar do movimento dos povos a quem não foi indiferente o valor das suas terras e das suas águas. Porém, só durante o período islâmico é que surge claramente identificada nas fontes escritas, mantendo estreitas ligações com a cidade de Badajoz que vê crescer em frente de si. A sua integração nas terras dos reinos cristãos que se expandem para sul separam Elvas de Badajoz, colocando cada uma delas em reinos diferentes.
Vizinha e por vezes rival, Elvas não deixará de ter o seu quotidiano marcado pela proximidade com Badajoz que sempre estará à vista. É desta cidade de fronteira e de fronteiras que agora se falará, tendo como ponto de partida uma dissertação de mestrado em História Medieval com mais de dez anos. Muito mudou, para melhor, em termos historiográficos. Apesar do tempo passado e das marcas que esse tempo deixou neste texto, não há possibilidade de o alterar em tudo o precisa de revisão. É um texto datado, que passou pelo atento acompanhamento de Maria Ângela Beirante e pela crítica e arguição de A. Oliveira Marques. A ambos estou grato, muito grato. Porém, algumas explicações redundantes foram retiradas e houve actualizações que não se puderam ignorar. Os vários séculos do período medieval cristão foram tratados sem perder de vista a compreensão das continuidades e rupturas em relação ao período islâmico, sobretudo no que diz respeito à paisagem urbana e ao quotidiano dos grupos humanos nela assentes. Continuidades e rupturas essas que se sentem na vila de Elvas a nível político, social e económico, mas também no que diz respeito ao urbanismo, aos equipamentos urbanos e à sua importância estratégica. Algumas dessas fontes são inéditas; outras foram já dadas a conhecer por eminentes eruditos locais que, com uma grande e persistente dedicação, contribuíram de forma inultrapassável para a divulgação da História e tradições de Elvas e da sua região. Esta obra nunca pretendeu abarcar a totalidade dos aspectos de que se revestiu o quotidiano da urbe e do território da Elvas islâmica e cristã até ao século XV muito está ainda por estudar. Se este livro vier a ser útil para as gerações futuras, como foram os eruditos elvenses de outrora para o autor destas páginas, então terá cumprido o seu desígnio.

Enquadramento geográfico
Fazendo parte da região actualmente designada como Alto Alentejo, o território em redor de Elvas possui características morfológicas e geológicas semelhantes às da região em que se integra. Não deixa, porém, de sugerir algumas particularidades, situação que não é de estranhar dado que o Alentejo tem sido perspectivado geograficamente como mais que uma simples região (já se escreveu que o Alentejo não é uma província, é um  país, tal a variedade de aspectos que nos apresenta). Por outro lado, o facto de o Alto Alentejo (se Lautensach inclui Elvas no Alto Alentejo, Orlando Ribeiro, em 1955, introduz uma curiosa nuance, na medida em que, para este geógrafo, a região de Elvas pertence ao Alentejo, embora dentro de uma unidade de paisagem que denomina de Alto Alentejo), em geral, e a região de Elvas, em particular, carecerem de aprofundados estudos de carácter geomorfológico (ainda recentemente a geógrafa Suzanne Daveau considerava que o Alto Alentejo continua [a ser], em conjunto, uma das regiões portuguesas menos estudadas do ponto de vista geomorfológico) leva a que se coloque particular cuidado na caracterização de Elvas e da sua região. É sobre um naco de Maciço Antigo moldado por uma erosão intensa, onde dominam os suaves ondulados das peneplanícies, que se localiza a região de Elvas [o interflúvio (...) que separa o Tejo do Guadiana, apresenta paisagens variadas, onde formas suavemente abauladas são dominadas por colinas e serras circunscritas, geralmente alinhadas de NW para SE]. Mas essa antiguidade, em termos geológicos, de grande parte das suas terras, não significa que não tenha conhecido novidades. De facto, a região em que se insere Elvas, sob o ponto de vista geológico, é de grande riqueza e variedade. A complexidade geológica da região deve-se também ao facto de a grande falha tectónica que atravessa o Alentejo também por aqui passar [a grande falha da Messejana que atravessa todo o Alentejo numa diagonal ascendente, sensivelmente no sentido SW-NE (e que desde Odemira se prolonga até cerca de Ávila, em Espanha), passa junto a Elvas, dotando esta zona de uma maior complexidade e riqueza geológica], considerando-se provável que a dita falha (detectada a cerca de 3 Km para SW e a cerca de 6 Km para NE) atravesse o próprio núcleo urbano. Parte do subsolo urbano e uma grande mancha em seu redor são ricos em rochas eruptivas (destas rochas eruptivas destacam-se os gabros anfibólicos e piroxénicos, para além de ante-estefanianas). Entre Elvas e os campos da vizinha Espanha há semelhanças evidentes. Se as formações geológicas que se encontram ao longo do curso médio do Guadiana são idênticas junto a Elvas e a Badajoz, também no caso das formações do período Câmbrico do sistema da Era Paleozóica, essas mesmas formações continuam para Espanha». In Fernando Branco Correia, Elvas na Idade Média, Edições Colibri, CIDEHUS, Universidade de Évora, 2013, ISBN 978-989-689-365-1.

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