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segunda-feira, 7 de setembro de 2026

O Homem de Constantinopla. José Rodrigues Santos. «De repente, como por encanto, ou talvez graças a um desconcertante passe de ilusionismo, os acontecimentos aceleram e tudo se precipita»


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«Nenhum ser humano esquece o dia em que o pai morreu. 

Dizem que é o momento em que nos tornamos adultos e o futuro nos é confiado como a chave de uma mansão de que somos enfim herdeiros. Fingimos que assumimos a vida como senhores do nosso destino, mas a orfandade nada nos oferece a não ser a solidão dos que se descobrem entregues à sua sorte. Vivi essa tragédia pessoal numa jornada estranha, uma daquelas tardes em que tudo parece suceder ao mesmo tem o, como se Deus jogasse com a nossa desgraça tirando-nos com uma mão o que nos dá com a outra. A vida tem, aliás, destas coisas. Tropeçamos nos anos como se estivéssemos anestesiados, não passamos de sonâmbulos a vaguear por um sonho cujos contornos mal discernimos, perdidos num labirinto tecido pelos mistérios que assombram os caminhos abertos diante de nós. De repente, como por encanto, ou talvez graças a um desconcertante passe de ilusionismo, os acontecimentos aceleram e tudo se precipita. Foi o que se passou naquele dia em que entrei no hotel, um estabelecimento de luxo instalado num palacete perdido nos confins ocidentais da Europa. Franqueei o átrio como um animal acossado, ansioso e deprimido, vergado pelo futuro que intuía incerto. A viagem para Lisboa havia sido cansativa e quando por fim me deixei cair no sofá, depois de falar com o médico e de ir ao primeiro andar espreitar o meu pai moribundo, fiquei com a impressão de que já não seria capaz de me levantar, tão macias achei as almofadas e tão fatigado me sentia. Olhei em volta e respirei o ambiente sereno do hotel. O grande salão estava finamente decorado, como sempre, mas o que mais me encantou, admito, foi o tapete fofo no qual os meus pés se afundavam com infinito deleite.

Enquanto saboreava o whisky com gelo que fui buscar ao bar para me forçar a descontrair, deixei a mente vagabundear pelos acontecimentos das últimas vinte e quatro horas. Tudo começara quando me chegou o telegrama com as notícias do colapso que o meu pai tinha sofrido em Lisboa. Apesar de estar plenamente consciente de que, com aquela idade, qual­quer situação do género poderia ocorrer a todo o momento, foi como se alguém me tivesse despertado com uma bofetada. Uma coisa é pensarmos em abstracto na possibilidade de isto acontecer, outra é algo assim suceder de facto. Descobrimos nesse instante que nunca estamos realmente preparados.

O que se passou a seguir à chegada da notícia transformara-se já numa amálgama confusa de pedaços de imagens que flutuavam caoticamente na minha memória, como folhas secas que o vento do Outono atirava em sucessivos remoinhos pelo ar. Lembro-me vagamente de ir a Piccadilly comprar à pressa um bilhete da BOAC, depois a corrida desenfreada no meu Morgan até ao aeródromo de Croydon, o interminável voo de seis horas sobre o Atlântico, a aterragem aos solavancos do De Havilland na pista de Lisboa, as cores das casas que a luz límpida da cidade tornava alegremente garridas, os rostos apreensivos que me acolheram no Aviz, a placidez vertida pela face impassível do meu pai no momento em que o vi estendido na cama. Estava a morrer e parecia dormitar.

Uma mão amiga apertou-me o ombro, trazendo-me de volta ao salão do hotel. Alors, mon cheri?, perguntou-me a voz feminina num tom maternal. T'es bien? Virei a cabeça e reconheci o vulto alquebrado de madame Duprés. Tinha o olhar cansado de quem não dormia havia alguns dias e dava a impressão de que envelhecera consideravelmente desde que com ela me cruzara pela última vez, uns três anos antes. Seria da fadiga ou do choque? A verdade é que a senhora contava mais de oitenta anos, pelo que a única verdadeira surpresa deveria ser a energia que a animou até tão avançada idade. Qualquer que fosse a sua fonte, todavia, a vitalidade manifestamente apagara-se e dela apenas sobrava um clarão difuso, como o hálito do sol no langor moribundo do crepúsculo.

Ainda não estou em mim, confessei. Alguma novidade? A velha francesa abanou a cabeça, os olhos a pestanejarem com uma tristeza prenhe de resignação. Infelizmente não. Madame Duprés acomodou-se numa chaise longue ao meu lado, os gestos suaves e melancólicos, o corpo aterradoramente frágil. Parecia um espectro prestes a quebrar-se. Ele alguma vez recuperou a consciência? De início sim. O doutor disse-me que se trata de um tipo raro de coma, como se a consciência fosse sucessivamente ligada e desligada. Mas os momentos em que está desperto são cada vez mais raros, curtos e espaçados. O olhar dela pousou em mim e pareceu acender-se por momentos, como a chama mortiça de uma vela que desperta ao sabor de uma aragem súbita. Por isso, se ele acordar outra vez, aproveita.

Aproveita cada segundo, frui cada palavra, guarda cada olhar. Poderá não haver outra oportunidade, entendeste? Assenti com a cabeça, perfeitamente consciente de que, se voltasse a falar com o meu pai, seria decerto para lhe dizer adeus. O médico português já me tinha aliás dado conta da gravidade da situação, sublinhando que a questão se encontrava para além dos conhecimentos da medicina. Se nutria ainda algumas ilusões quanto ao verdadeiro estado em que ele se encontrava, perdi-as por completo nessa conversa. Nos últimos tempos, perguntei de repente, ele falou de mim?

Madame Duprés abanou a cabeça. Como sabes, o teu pai não era muito expansivo, murmurou de olhos submissos. Mas não tenhas dúvidas de que a vossa zanga o deixou muito abatido. Nunca mais foi o mesmo. O era que ela utilizou para se referir a meu pai soou-me amargamente a requiem antecipado; dava a impressão de que já tinha desistido dele e se resignara ao inevitável. A pessoa mais afectada, talvez por ter vivido de perto toda a situação, era de facto madame Duprés. Apesar de ser eu o filho, dei comigo a tentar consolá-la e a fazer-lhe ver que a vida é uma viagem com ponto de partida e de chegada. O meu pai estava no fim do caminho, tínhamos de nos preparar e aceitar o inevitável desenlace. Ela chorou ali ao lado de mim, em pleno salão do Aviz, os pés afundados naquele tapete fofo, as mãos a taparem o rosto molhado de lágrimas. Não me envergonho de dizer que chorei também». In José Rodrigues Santos, O Homem de Constantinopla, Edições Gradiva, 2013, ISBN 978-989-616-549-9.

Cortesia de EGradiva/JDACT

JDACT, José Rodrigues dos Santos, Literatura, A Arte, 

sábado, 31 de agosto de 2024

No 31. Por Amor a uma Mulher. Domingos Amaral. «Em Toledo, o seu destino estava traçado. A sua única possibilidade era uma imediata fuga, e fora isso que fizera»

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NOTA: Afonso Henriques, nascido em 1109, filho do conde Henrique e de dona Teresa, neto de Afonso VI de Leão e primo direito de Afonso VII. Tem uma relação amorosa com Elvira Gualter, da qual nasceram duas filhas, Urraca e Teresa Gualter; e outra com Chamoa Gomes, de quem tem dois filhos, Fernando e Pedro Afonso. Será reconhecido com rei de Portugal, em 1143, em Zamora.

Coimbra, Maio de 1126

«Nesse momento, Fátima olhou para a irmã Zaida, com um sorriso triunfante, mas a outra fez-lhe uma careta. Sem ligar às diatribes silenciosas das filhas, Zulmira prosseguiu: Para mais, Afonso VI nunca ajudou meu avô Al-Mutamid. Tempos depois, chegou a segunda notícia fatal: Sevilha fora também tomada pelos almorávidas de Yusuf, e Al-Mutamid tinha sido levado preso para Marraquexe, onde morreria.

A minha raiva tornou-se gigantesca, confessou Zulmira. Ainda mais enfurecida ficou quando Afonso VI se passou a intitular o «Imperador das Duas Religiões», argumentando que o seu herdeiro legítimo, o príncipe Sancho, era tão cristão como muçulmano. Era o cúmulo da afronta!, exclamou.

Como Zulmira viria a descobrir, não era a única a ter tais sentimentos. Os nobres e os bispos de Castela e Leão abominavam aquela farsa da união das duas religiões, e a hostilidade ao varão do imperador crescia, contaminando Dona Urraca e Dona Teresa, iradas por terem sido ultrapassadas por Sancho na linha sucessória.

Certo dia, quando Zulmira passeava pelas ruas de Toledo, dois homens obrigaram-na a segui-los. Fora levada a uma casa e, num ambiente escuro, tinham-lhe proposto um sinistro acordo. Desafiaram-na a matar o meio-irmão Sancho, coisa que ela podia fazer facilmente, pois circulava à vontade na corte. Em troca, o grupo dos conspiradores garantia-lhe proteção contra a fúria de Afonso VI. Zulmira suspirou e depois disse:

Não posso jurar, pois não lhes vi bem as caras, mas suspeito de que entre aquelas pessoas estavam Dona Urraca e Dona Teresa. Zaida levou a mão à boca, compreendendo o perigo que ainda corria a mãe. Se um dia a reconhecesse, Dona Teresa podia mandar matá-la! Há nove anos, em Coimbra, achei que ela me identificara, mas depois percebi que não, recordou Zulmira. Mas outros podem fazê-lo, por isso não fui a Ricobayo nem a Toledo, e fingi doenças. .

Fascinada pelo intrigante golpe palaciano, Fátima perguntou se a mãe havia tentado matar o seu meio-irmão, mas Zulmira contou que, saída daquela obscura casa, rapidamente chegara à crua conclusão de que, fizesse o que fizesse, morreria. Se matasse Sancho, seria eliminada, ou pelo vingativo imperador, no caso de ser descoberta, ou pelos conspiradores, para garantirem que não os denunciava. Mas, se não matasse Sancho, os conspiradores também não a iam deixar viver. Em Toledo, o seu destino estava traçado. A sua única possibilidade era uma imediata fuga, e fora isso que fizera». In Domingos Amaral, Assim Nasceu Portugal, Por Amor a uma Mulher, Casa das Letras, LeYa, 2015, ISBN 978-989-741-262-2.

Cortesia de CdasLetras/LeYa/JDACT

JDACT, Domingos Amaral, A Arte, Literatura,

sexta-feira, 12 de julho de 2024

Fernando Campos. Psiché. «Uma caixa de fósforos, se faz favor. O gesto mecânico do empregado, olhar distante, rosto enjoado, passando o pano sórdido sobre o mármore do balcão…»

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A memória do esquecimento

«Levanto‑me. Vou comprar qualquer coisa e depois venho olhando de frente, digo, deixando António a puxar de um cigarro. Caminho até ao bar. Uma caixa de fósforos, se faz favor. O gesto mecânico do empregado, olhar distante, rosto enjoado, passando o pano sórdido sobre o mármore do balcão, os ombros e a cabeça recortados na superfície polida do grande espelho que corre a todo o comprimento da parede. Procuro nos retalhos de imagens, entre prateleiras de garrafas, reconstituir o cenário atrás de mim, enquanto pago os fósforos. No embaciamento daqueles estilhaços de prata velha a custo reconheço António sentado à mesa e, três filas além, a mancha de um vestido claro, uma vaga sombra de mulher que se ergueu e se afasta. Volto‑me para regressar. E este voltar‑me... Como o virar de página do tempo! Trinta anos transcorridos!... Aquele meu voltar‑me para não encontrar ninguém! Apenas uma mesa vazia. No pires, junto à chávena, um guardanapo de papel amarrotado, uma ponta de cigarro esmagada... Perdi para sempre a ocasião de alguma vez me encontrar com ela? De saber quem era?... Os anos desataram a transformar em húmus e a diluir em éter, numa vertigem, aqueles que foram protagonistas ou meras testemunhas desses insólitos acontecimentos. Caíram na voragem novos e velhos: Silva Lisboa, Albertina, outros... Os que ficaram, ainda quando aqui e ali roçaram por eles vestígios vivos desse passado, fecharam‑se numa cómoda ausência de curiosidade ou uma estudada distanciação e apatia. Como que acabaram por esquecer.

Nem esquecer‑me nem lembrar‑me podia eu. Factos que mal conhecera fragmentariamente esbateram‑se em nebuloso fundo de outras preocupações que vieram relevar‑se longos anos, em nitidez e luz, na ribalta da vida. Andanças de errante saltimbanco do ofício de professor... Terras distantes escondidas nas voltas das estradas, no tramontar das serras.... Muralhas tisnadas dos séculos e dos sonhos, vigiando a veiga expectante e úbere do vale imenso... Perfumes e cores exalando‑se do seio do oceano na ilha perdida como nenúfar que floriu no cume de um vulcão extinto... Banho de brancura luminosa, olhos magoados da claridade do céu e da cal de paredes e açoteias mouriscas... Maresia ribeirinha de gaivotas e traineiras ondulando no porto fenício... Até vir aproar na cidade de Ulisses a lustrar‑me de rosa... Que me chamou então de novo, decorrido tanto tempo, a atenção para o mistério?...

Toma!‑ disse‑me Fernanda um dia ajoelhada no chão à boca da antiga mala abaulada, enquanto me ia entregando livros, embrulhos, velhas fotografias. "Esta mala! Viajou connosco tantos anos por todo o lado!...E parava, cansada, com as mãos no regaço, o olhar tresmalhado no passado. De súbito acordava e tornava a mexer na papelada. Estes são os álbuns dele. Que canseira miúda e aturada! As mãos dele! Estou a vê‑las, habilidosas, a recortar, a colar... Que paciência! Coligidos quase dia a dia, recortes de jornais, postais ilustrados, recordações dos teatros em que actuou, de amigos, artistas, personalidades que conheceu... O desnovelar da vida!... Tudo passou!» In Fernando Campos, Psiché, Difel, Lisboa, 1987, Dl nº 83973.

Cortesia de Difel/JDACT

JDACT, Fernando Campos, Conhecimento, Educação, Literatura, A Arte,

Fernando Campos. Psiché. «Uma caixa de fósforos, se faz favor. O gesto mecânico do empregado, olhar distante, rosto enjoado, passando o pano sórdido sobre o mármore do balcão…»

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A memória do esquecimento

«Pairava no ar um certo receio de se virem a descobrir realidades penosas que fossem contra as conveniências. Ela, sim. Sentia‑se desinibida à beira dele, a conversar com ele. O visconde de Cairu? surpreendi‑a uma vez a perguntar‑lhe. É verdade, respondia ele. E o pai?... Como é que o vovô soube?..., tornava ela. E ele lá contava, com a voz um pouco sumida, à puridade, a estranha história... Flanela azul às riscas... sentado na borda da cama..., o faiscar do anel no dedo mindinho... Basta um pormenor para lhe avivar a imagem! Ela estendia‑lhe as mãos de costas para cima. Ah! É um rapaz! Vou ter um bisnetinho! Mas a vinte e seis de Dezembro nascia uma menina que ele já não pôde conhecer. Foi por isso que não desci esse Natal ao Porto. Tampouco pela Páscoa me fiz à estrada. Tinha, entretanto, tirado a carta e comprara um carro, motorizando‑me, fazendo preito ao progresso. Só lá para os fins dos exames, em Julho, princípios desse outro Agosto, de cinquenta e seis, cheguei do nordeste, nos olhos ainda a longa negra fita de alcatrão ou paralelipípedos a enrolar‑se no galgar dos quilómetros, nos rins o cansaço das intermináveis horas sentado ao volante do Volkswagen, que vinha todo vomitado das voltinhas do Marão. Foi António o primeiro que falou. Não porque sentisse necessidade de abordar o assunto. Aliás, posteriormente, quando eu já me encontrava senhor dos acontecimentos, compreendi aquele como que preconceituoso pudor da família em rodear o caso de um espesso mutismo. O que o fez falar foram as circunstâncias... Aí estava ela! Não, não olhasse ainda, para não dar nas vistas!... A mesa da terceira fila, atrás de mim...

Animava‑se o café àquela hora, onze e meia da manhã, acabada a missa. Homens fumando, chávena vazia à frente ou por instantes aflorada aos lábios, jornal aberto, folheado, saboreado. Fatos cuidados, na ausência de nódoa ou enxovalho, no vinco recente da calça. Barba escanhoada, camisa lavada. Catarro matinal, tabacal. Aos pés de um deles, cabelo ralo todo lambido de brilhantina, para trás, cara chupada, o macaco coçado, os tornozelos escanzelados a saírem das peúgas lassas e do calçado cambado, faz o engraxador chiar e estalar a tira de pano lustroso ao polir do sapato. Dá‑se um casal ao luxo da fofa loira torrada com manteiga, em palitos, lambuzando os dedos. Os dela são papudos e brilham de jóias. Por detrás do tinir das xícaras, pires e talheres, das vozes dos empregados de mesa a comunicarem ao bufete os pedidos dos clientes (Sai um galão! Três pingos e um copo de leite com canela!...), por entre a névoa que paira no ar, misto de fumo e de vapor que embacia as vidraças, vêm de fora as vibrações do tanger dos sinos. Coisa concreta, que quase se corta à faca, a respiração e o perfume domingueiro. Que semelhança!, continuava António. Enquanto o escutava, eu ia esperando a oportunidade de me voltar para trás. Aparecia por ali muitas vezes, no Amial, dizia a voz dele. Morava talvez perto ou então andava a espiá‑lo, a persegui‑lo. Isto pelo menos era o que insinuava sua mulher, a Catalina, desconfiada... Cruzava com a desconhecida na rua, nos lugares mais diversos e imprevisíveis da cidade, na Cordoaria, na Avenida dos Aliados, na Lapa. Olá, sobrinho!, palavras dela no ar quando passava... As feições um pouco menos amaciadas mas muito parecidas com as de Fernanda e com um retrato antigo que ele vira da avó Ana... Teria aí uns vinte e dois anos. Parece que aquilo fora caso acontecido aquando da morte de Raquel... Estranha coincidência! O nascimento e a morte! Para Silva Lisboa tornara‑se motivo de funda meditação. Albertina, porém, não podia admitir a junção dos dois factos, das duas dores a lancear‑lhe a alma. Em cima da perda da filha, aquilo!... Olá, sobrinho! Que queria tudo isso dizer?...» In Fernando Campos, Psiché, Difel, Lisboa, 1987, Dl nº 83973.

Cortesia de Difel/JDACT

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Fernando Campos. Psiché. «Ela estendia‑lhe as mãos de costas para cima. Ah! É um rapaz! Vou ter um bisnetinho! Mas a vinte e seis de Dezembro nascia uma menina que ele já não pôde conhecer»

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A memória do esquecimento

«O telefone tocara no meio da barafunda do início do ano lectivo e das preocupações. Não se deve expor a uma tal viagem agora, foi a proibição do Mário Carneiro. Nem pensar! Ela concordava, virava‑se para mim: tu... Também não podes ir. Não há ninguém para te substituir no colégio. Foi assim que não estive presente no funeral de Silva Lisboa. Escrevo Silva Lisboa e não meu avô porque, como narrador que conta os factos muitos anos volvidos, desejo aproveitar esse distanciamento para ganhar a perspectiva e imparcialidade possíveis e desfazer a natural emoção. Silva Lisboa e Albertina, Raquel e Alberto Tavares, Fernanda e Alberto Campos..., e Mário..., e Ana de Jesus..., e Maria José..., e João..., e Josué..., e a desconhecida... Pessoas, personagens de romance. Lembro a última imagem que dele me ficou. Chegara o fim de Agosto e partíamos, eu e Maria Olga, com as duas filhas, acabadas as férias grandes, para o nosso castelo roqueiro, por causa da abertura do colégio. Fomos ao quarto dele despedirmo‑nos. Olhou‑nos com um sorriso a disfarçar o ar triste, sentado na borda da cama, seu pijama de flanela azul às riscas. Mostre‑me as suas mãos!, recordo‑lhe a voz dirigindo‑se à Maria Olga. Pegou‑lhas vivamente quando ela as estendeu de costas para cima. Gostava de falar com ela, que tinha muita paciência para o escutar, lhe fazia atenciosa companhia quando lá passávamos uns dias. Deixava‑a arrancar‑lhe pormenores da sua vida que a mais ninguém confidenciara. Talvez porque mais ninguém lhe fazia ou ousava fazer perguntas ou se sentia à vontade para lhas fazer.

Pairava no ar um certo receio de se virem a descobrir realidades penosas que fossem contra as conveniências. Ela, sim. Sentia‑se desinibida à beira dele, a conversar com ele. O visconde de Cairu? surpreendi‑a uma vez a perguntar‑lhe. É verdade, respondia ele. E o pai?... Como é que o vovô soube?..., tornava ela. E ele lá contava, com a voz um pouco sumida, à puridade, a estranha história... Flanela azul às riscas... sentado na borda da cama..., o faiscar do anel no dedo mindinho... Basta um pormenor para lhe avivar a imagem! Ela estendia‑lhe as mãos de costas para cima. Ah! É um rapaz! Vou ter um bisnetinho! Mas a vinte e seis de Dezembro nascia uma menina que ele já não pôde conhecer». In Fernando Campos, Psiché, Difel, Lisboa, 1987, Dl nº 83973.

Cortesia de Difel/JDACT

JDACT, Fernando Campos, Conhecimento, Educação, Literatura, A Arte, 

Fernando Campos. Psiché. «Escrevo Silva Lisboa e não meu avô porque, como narrador que conta os factos muitos anos volvidos, desejo aproveitar esse distanciamento para ganhar a perspectiva e imparcialidade…»

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A memória do esquecimento

«Lembrava‑se apenas de que se esquecera... ou esquecera‑se de se lembrar. Que queria? Fraca memória a sua!, suspirava. Os anos!... Fernanda tinha muitas vezes comigo este desabafo e eu tomava‑lhe a preocupação, procurava colar‑lhe os restos das lembranças, reconstituía‑as em mantas de retalhos, a tentar conservar o calor das veias, a cor das faces, o brilho de um olhar, o tom de uma voz, o latejar dos corações atingidos pelo gelo do tempo que chegou ao seu limite... Procurar trabalhar a matéria perpetuável, no limiar do eterno... e transpô‑lo! Tomar o esquecimento e recolocá‑lo na memória! Repor a memória no pedestal do esquecimento, na cidade indiferente e distraída..., nas cidades, vilas, aldeias e lugares distraídos e indiferentes por onde Silva Lisboa espalhou a rodos a fantasia e o riso!... Antes que o verme pontual e infalível roa com suas mandíbulas tenazes os últimos músculos putrefactíveis, ainda vivos, que o sal do artista fez contrair num sorriso, vibrar e estalar numa gargalhada. Fixar as recordações para ao menos essas se não transformarem em cinza!... Descuidados que somos até da única certeza indesmentível! Dir‑se‑á não querermos acreditar que nascemos mortais. Surpreende‑nos sempre desprevenidos a notícia da morte. A carta, o telegrama que nos bate à porta quando se está longe. O telefone que toca como tantas vezes rotineiras... Está? Fernando?, Sim. É para te dizer que o avô...

O gesto lento, interiorizado, de pousar no descanso o telefone. Então aquele foi mesmo o último suspiro?... E aquele corpo vai arrefecer?... Do espantoso lance teatral inesperadamente surgido no cemitério junto ao corpo exânime do actor, ao fechar do caixão, quando o padre pronunciava as últimas encomendações, lançava as derradeiras aspersões de água‑benta, traçava no ar a cruz do requiem e um coveiro avançava com a pá de cal viva, far‑me‑iam relato mais tarde os parentes que assistiram. Estranha realidade: nenhuma das versões é coincidente! Eu encontrava‑me no norte, para lá das montanhas, desmaiava Setembro. Grande a azáfama do abrir das aulas. A mulher, pesadona, a três meses do fim do tempo. Eu não possuía ainda carta nem carro nesse tempo e a única possibilidade de me deslocar para ir assistir ao enterro era aquele comboiinho de brincar que levava meio dia a chegar, depois de fumegar e resfolegar as voltinhas gaiatamente apitadas, trepando a montes de vento e lobos, espreitando telhados isolados, adormecidos em vales perdidos, bordejando pegos e córregos de vertigem. Apareciam os pais a trazerem os filhos para o internato, os professores vinham pelos horários e as cadernetas. Tudo eu fazia ali, naquele colégio que era de brincar como o comboio. A única coisa bonita que tinha era estar alcandorado nas velhas muralhas medievais bordadas de lírios a olhar o rio largo e lento sob a ponte de Trajano. De resto achava‑me praticamente só num barco a naufragar. Trinta alunos que mal davam para as despesas, um sócio que fugira mal cheirara o descalabro, deixando‑me com as suas dívidas. Director, prefeito, administrador, professor de tudo e mais alguma coisa, português, francês, inglês, desenho, treinador de jogos, para evitar ter de pagar a outros aquilo que eu não recebia. Vinte e seis anos de idade..., a construção do meu futuro!».. In Fernando Campos, Psiché, Difel, Lisboa, 1987, Dl nº 83973.

Cortesia de Difel/JDACT

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sexta-feira, 28 de junho de 2024

Domingos Amaral. Por Amor a uma Mulher. «Disse que se chamava Elvira e sorriu levemente quando Ramiro lhe perguntou onde podia encontrar uma montada. Ides roubar um cavalo? Não era boa ideia, explicou, amanhã seria procurado como ladrão»

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NOTA: Afonso Henriques, nascido em 1109, filho do conde Henrique e de dona Teresa, neto de Afonso VI de Leão e primo direito de Afonso VII. Tem uma relação amorosa com Elvira Gualter, da qual nasceram duas filhas, Urraca e Teresa Gualter; e outra com Chamoa Gomes, de quem tem dois filhos, Fernando e Pedro Afonso. Será reconhecido com rei de Portugal, em 1143, em Zamora.

Viseu, Domingo de Páscoa, Abril de 1126

«(… ) Nem isso fez recuar o príncipe, que reafirmou, convicto: É como vos digo. Só irei a Ricobayo se me casar com Chamoa. Preocupado, Fernão Peres murmurou: Isso é a guerra. Que seja, ripostou Afonso Henriques. E se a temeis, minha mãe sabe como pará-la. De cabeça perdida, a rainha enfureceu-se e apontou o dedo ao filho: Ainda não chegou o vosso tempo. Chamoa vai casar com Paio Soares e ireis a Ricobayo! São as minhas ordens, sou a rainha! Afonso Henriques, cada vez mais furioso, ripostou com desdém: Não, minha mãe, não sois uma rainha. Sois apenas uma condessa mentirosa, e não farei o que me ordenais! Irado, deu meia-volta e saiu, fechando a porta com estrondo. Na sala, deu de caras com as suas irmãs, Bermudo e as três mouras. Urraca Henriques ainda tentou acalmá-lo, dizendo: Meu irmão, não vos zangueis com nossa mãe!

Porém, o descontrolo apoderou-se dele. Aproximou-se de uma arca e com um gesto brusco levantou-a e atirou-a à parede. Depois, num acesso de cólera imparável, pegou num banco corrido e lançou-o contra a porta do quarto da mãe. De seguida, dirigiu-se a uma mesa, onde estavam inúmeras escudelas de barro, e varreu-as com o braço para o chão, onde se desfizeram em cacos. As únicas pessoas que se aproximaram foram Sancha Henriques e Fátima, mas logo que as viu perto o príncipe ergueu o braço e preparava-se para o descer quando Fátima, entredentes, o provocou: Não lutais com mulheres, já sabeis que perdeis.

Aquela antiga lembrança pareceu desequilibrá-lo e, enfurecido, deu meia-volta e saiu do quarto. Desceu as escadas a correr, pregando no final um violento pontapé na porta, que saltou das dobradiças. A sua fúria parecia impossível de estancar, e atravessou o pátio às biqueiradas em barris e fardos de palha. Por fim, entrou de rompante na casa onde pernoitava e logo saiu de volta, com uma espada na mão. Colérico, vergastou o alpendre, sulcando as vigas de madeira, e trespassou mais barris e fardos, desvairado e aos urros: Canalhas, malditos! Só perante a chegada de meu pai, Egas Moniz, o meu melhor amigo acalmou e suspendeu aquelas brutais investidas. Eu estava na varanda, e vi-o a arfar e a ranger os dentes. Meu pai e ele ficaram a olhar um para o outro calados, como se soubessem que um novo tempo, conturbado e perigoso, iria começar. Depois, estranhamente sereno, Afonso Henriques disse a meu pai, antes de entrar em casa: Preparai-vos para a guerra.

Meu pai ficou no alpendre, pensativo, a mirar a habitação da rainha, no interior da qual se via ainda a luz trémula das velas. Depois, minha prima Raimunda apareceu, vinda do escuro onde se escondia para todos espiar, e quando se preparava para entrar meu pai apenas lhe disse: Hoje não, deixai-o sozinho.

Viseu, Domingo de Páscoa, Abril de 1126

Quando se soube da sua partida, suspeitei de que Ramiro decidira fugir do pai. É evidente que ele teria preferido mil vezes que Chamoa casasse com o príncipe, pois assim ficaria longe dela, e o seu coração não sofreria tanto. Com aquela decisão da rainha, sentia-se a enlouquecer. Não podia regressar à Maia, seria incapaz de ver Chamoa nas mãos e na cama do seu progenitor. Ao planear a sua escapada, confessou-me tempos mais tarde, lembrara-se de Gondomar. Ouvira-o dizer que partiria de Viseu no domingo e a ideia de se juntar à Ordem dos Pobres Cavaleiros de Cristo pareceu-lhe a única saída. Ao fazê-lo, aproximava-se perigosamente do segredo da relíquia, que só seu pai conhecia. Naquela noite, Ramiro levou apenas o arco e as flechas, e correu pelas ruas, saindo por uma das portas da muralha. Já na estrada, além de vários mendigos que se arrastavam, gemendo enregelados, viu uma mulher, que caminhava à sua frente. Era alta e forte, e estava enrolada num manto, para se proteger do frio da noite. Ao ouvir passos, virou-se para ver quem a seguia e Ramiro perguntou-lhe pelos homens de Gondomar. Acho que já partiram, informou ela.

Disse que se chamava Elvira e sorriu levemente quando Ramiro lhe perguntou onde podia encontrar uma montada. Ides roubar um cavalo? Não era boa ideia, explicou, amanhã seria procurado como ladrão. Curiosa, Elvira questionou-o: Porque quereis fugir? Num arremesso de honestidade só possível perante estranhos, Ramiro contou-lhe a verdade. A normanda suspirou, desalentada. Quem me dera ir convosco, mas eles só levam homens. Intrigado, Ramiro perguntou-lhe se estava enamorada de alguém, mas ela apenas encolheu os ombros. Ninguém me quer». In Domingos Amaral, Assim Nasceu Portugal, Por Amor a uma Mulher, Casa das Letras, LeYa, 2015, ISBN 978-989-741-262-2.

Cortesia de CdasLetras/LeYa/JDACT

JDACT, Domingos Amaral, A Arte, Literatura, Conhecimento, 

Domingos Amaral. Por Amor a uma Mulher. «Dona Teresa também teria de se apresentar, bem como o seu filho, herdeiro do Condado Portucalense. Não o fazer seria um insulto, um desafio que só poderia trazer desgraças aos ausentes»

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NOTA: Afonso Henriques, nascido em 1109, filho do conde Henrique e de dona Teresa, neto de Afonso VI de Leão e primo direito de Afonso VII. Tem uma relação amorosa com Elvira Gualter, da qual nasceram duas filhas, Urraca e Teresa Gualter; e outra com Chamoa Gomes, de quem tem dois filhos, Fernando e Pedro Afonso. Será reconhecido com rei de Portugal, em 1143, em Zamora.

 

Viseu, Domingo de Páscoa, Abril de 1126

«(… ) Na cama, seminus, estavam Fernão Peres Trava e a rainha, nos seus jogos amorosos, mas nem essa visão deteve Afonso Henriques. Porque me haveis mentido?, gritou. O seu berro ouviu-se pela casa toda. À porta do quarto da rainha juntou-se um preocupado grupo, que incluía as duas irmãs do príncipe, Urraca e Sancha Henriques, bem como o marido da primeira, Bermudo, e ainda as três mouras. Como vos atreveis?, replicou dona Teresa. Fernão Peres Trava saltou da cama e enrolou-se num manto escarlate, protegendo o seu exposto corpo. Afonso Henriques ignorou-o e os seus olhos fixaram-se na mãe, que se cobrira rapidamente com um cobertor de seda.

Porque me haveis traído?, perguntou. Dona Teresa parecia confundida. De que falais? Então, Afonso Henriques recordou a conversa da véspera e Fernão Peres Trava pasmou-se. A rainha não lhe dera a conhecer as promessas trocadas. Aflita, sentindo-se a perder a confiança do amante, dona Teresa declarou: Disse-vos que tinha dúvidas sobre a lealdade de Paio Soares! Nunca vos prometi nada! Hoje de manhã, o Fernão conversou com o Paio e tudo ficou esclarecido! O seu amante relaxou, aliviado. Porém, Afonso Henriques berrou: Mentira! Haveis dito que não iam casar, que Chamoa seria minha! Apontou para Fernão Peres e prosseguiu: Agora, que ele está aqui, falta-vos coragem! Foi ele quem vos fez mudar de ideias! O vosso amante é mais importante do que o vosso filho! O Trava, enrolado no seu manto, falou pela primeira vez. Príncipe, se já eram conhecidas as intenções de vossa mãe em casar Chamoa com Paio Soares, porque a haveis seduzido? Com habilidade manipuladora, o nobre galego tentava inverter a situação, mas o príncipe não o deixou.

E como podia saber das vossas ideias? Acaso me informaram delas? Governais o Condado na vossa cama! Casais os meus melhores amigos e nem sequer me consultais! Atrapalhado pelas duras acusações de Afonso Henriques, o casal de amantes não reagiu, e ele continuou: Mas isto, isto é muito mais grave! Fui falar convosco ontem! Pedi-vos que cancelassem o casamento de Chamoa com Paio Soares! Disse-vos que me enamorara dela! Não vos interessam os meus pedidos? Com uma voz serena e pausada, e depois de um curto silêncio, Fernão Peres tentou chamar o príncipe à razão. Afonso VII ameaçou Toronho! Casar Chamoa com Paio Soares anula esse desejo bélico, sem ofender o novo rei. Já o vosso casamento com Chamoa seria perigoso, pois Toronho passaria a ser pertença do Condado Portucalense, e não do rei de Leão, Castela e Galiza! Desejais uma guerra com vosso primo? Mantendo o mesmo tom de voz calmo, o nobre galego admitiu: Não podeis enfrentá-lo, não tendes força para tal. A Galiza e o Condado terão de unir-se devagar, passo a passo, a vossa pressa é má conselheira.

Irritado com as insinuações do Trava, de que ele era impetuoso, mas pouco inteligente, Afonso Henriques gritou-lhe: Decerto julgais que sou estúpido? Todo o Condado conhece a vossa vontade de ter um filho varão! É por isso que quereis tempo! O receio de perder Toronho é uma miserável desculpa! Com asco estampado no rosto, o príncipe exclamou: Afonso VII tem mais com que se preocupar do que com Toronho! Se me casasse com Chamoa e lhe fosse prestar vassalagem a Ricobayo, meu primo esquecia qualquer agravo! Na cara de Fernão Peres nasceu um misto de admiração e espanto. Por um lado, surpreendia-o o conhecimento que o príncipe tinha das intenções íntimas da mãe; por outro, admirava os seus raciocínios rápidos sobre os supostos desejos de Afonso VII. A surpresa venceu a admiração, pois sorriu levemente e murmurou: Estais bem informado. Suspeito de que andais a espiar a rainha. Dona Teresa, indignada, explodiu: Meu Deus, e chamais-me traidora! Afonso Henriques ignorou este contra-ataque e enfrentou a mãe. Se não for cancelado o casamento de Chamoa com Paio Soares, não vou a Ricobayo prestar vassalagem ao meu primo! Dona Teresa mostrou-se verdadeiramente espantada. O que dizeis?, balbuciou. Estais louco?

A cerimónia de coroação de Afonso Raimundes como Afonso VII estava marcada para breve, e já chegara a Viseu a notícia de que o novo rei exigira aos principais nobres de Leão, Castela e Galiza, que se dirigissem a Ricobayo, onde lhe teriam de prestar vassalagem. Dona Teresa também teria de se apresentar, bem como o seu filho, herdeiro do Condado Portucalense. Não o fazer seria um insulto, um desafio que só poderia trazer desgraças aos ausentes». In Domingos Amaral, Assim Nasceu Portugal, Por Amor a uma Mulher, Casa das Letras, LeYa, 2015, ISBN 978-989-741-262-2.

Cortesia de CdasLetras/LeYa/JDACT

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sábado, 23 de dezembro de 2023

Por Amor a uma Mulher. Domingos Amaral. «… os seus versos à Zulmira. É disso que vou ter saudades. Não é de ter sido governador, ou de ter morto tantos cristãos. Vou é sentir saudades deste castelo de arenito vermelho, e da minha Zulmira a passear no jardim, entre as margaridas e as rosas»

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NOTA: Afonso Henriques, nascido em 1109, filho do conde Henrique e de dona Teresa, neto de Afonso VI de Leão e primo direito de Afonso VII. Tem uma relação amorosa com Elvira Gualter, da qual nasceram duas filhas, Urraca e Teresa Gualter; e outra com Chamoa Gomes, de quem tem dois filhos, Fernando e Pedro Afonso. Será reconhecido com rei de Portugal, em 1143, em Zamora.

Viseu, Domingo de Páscoa, Abril de 1126

«Alamut... A lenda era antiga, Taxfin já a escutara na boca dos que haviam visitado a Pérsia. Cinquenta anos antes, um homem sábio tomara conta de um castelo inexpugnável, construído no topo de um monte íngreme, onde só se chegava por uma das encostas. O Ninho da Águia, como chamavam ao castelo de Alamut, ficava numa região montanhosa no extremo norte da Pérsia. O homem que durante décadas ali reinara tinha por nome Hassan-Ibn-Sabbah, e criara uma legião de seguidores islâmicos. Chamavam-lhe o Velho da Montanha, e a sua fama sanguinária espalhara-se.

Foi ele quem me treinou,  revelou a Morte com Duas Pernas. Aos dez anos, fora retirado aos pais e entregue em Alamut, como acontecia a muitos rapazes na região. Ali conhecera o líder espiritual e fora educado com a leitura dos textos sagrados do Corão. Éramos os seus filhos queridos e todos o amávamos. Hassan-Ibn-Sabbah treinava-os não só para serem dedicados muçulmanos, mas também para se tornarem guerreiros extraordinários, uma cavalaria espiritual para seu uso exclusivo. Selecionava os mais hábeis e formou um pequeno grupo de leais soldados, os fedayin, que davam a vida por ele e pelo Corão.

Se nos mandasse atirar de um penhasco, assim fazíamos. Vários morreram à minha frente, e a sua alma foi ter com as setenta virgens que por nós esperam no céu, contou o fedayin. Com o tempo, a seita de Alamut tornou-se perigosa para os seus vizinhos e o califa de Bagdad decidiu destruí-la. Porém, Hassan-Ibn-Sabbah era um génio e começou a usar tácticas até aí nunca tentadas. O Velho da Montanha enviava fedayin para as cortes dos inimigos, para matarem alguém, e cumprido o seu dever matarem-se também. As pessoas começaram a chamar-lhes haschischins ou assassins, pois eram certeiros e letais. Quem Hassan-Ibn-Sabbath declarasse que devia morrer era morto por um seu leal servidor. Depois, o assassin matava-se, para não ser preso.

Taxfin mantinha-se em silêncio. A Morte com Duas Pernas nunca deixara ninguém com vida, degolava todos os seus opositores. Contudo, nunca se matara, ao contrário do que dizia ter acontecido aos seus colegas de Alamut. Um dia fui escolhido por Hassan-Ibn-Sabbath para uma missão muito perigosa e longínqua, no Egipto. E cumpri-a, matando quem ele me ordenara. Mas não me matei como os outros fedayin. O homem riu-se para si próprio, emitindo um som maligno, como se estivesse possuído por um demónio. Depois, acrescentou: Já sabia o que ia acontecer em Alamut. Nem um homem santo e glorioso consegue enganar a morte, explicou o fedayin. Nenhum dos seguidores e sucessores de Hassan-Ibn-Sabbath conseguiu manter a união, e pouco a pouco os valorosos fedayin foram partindo. Apesar de bons religiosos e bons guerreiros, muitos perderam a fé, outros a capacidade de lutar. Sem Hassan-Ibn-Sabbath para iluminar as suas almas, apagaram-se na escuridão dos tempos.

Fui o único que prossegui o destino em que me iniciaram. Do Egipto, partira à procura de quem pagasse os seus serviços. Sabia matar muito bem, mas só no califado almorávida encontrara alguém que o compreendera. Ali Yusuf acolheu-me, disse o fedayin. Há quase uma década que aquele carniceiro matava para o califa de Marraquexe, e Taxfin suspirou de novo. A perna doía-lhe, mexeu-se um pouco na cama. Depois, perguntou: É verdade o que dizem dos fedayin, que fumam muito haxixe antes de matarem, para terem mais coragem? O outro respondeu a Taxfin com uma pergunta: Queres fumar haxixe antes de morrer? O marido de Zulmira disse que sim e então o persa atirou-lhe um saco e um cachimbo e Taxfin encheu-o. Depois, perguntou: Como o acendo? Pela primeira vez, o homem mexeu-se e dirigiu-se à lareira. Taxfin viu-o apanhar carvão em brasa com uma pinça de ferro. Depois, aproximou-se da cama e estendeu-lhe a pinça, e Taxfin acendeu o cachimbo nela. Deu umas passas, saboreando o fumo. Sabia bem, era haxixe de Marrocos. Uma onda de nostalgia invadiu-o. Sabes, disse ao homem, fumei muito haxixe aqui, em Hisn Abi Cherif, com alguns dos maiores poetas da Andaluzia a declamarem os seus versos à Zulmira. É disso que vou ter saudades. Não é de ter sido governador, ou de ter morto tantos cristãos. Vou é sentir saudades deste castelo de arenito vermelho, e da minha Zulmira a passear no jardim, entre as margaridas e as rosas».  In Domingos Amaral, Assim Nasceu Portugal, Por Amor a uma Mulher, Casa das Letras, LeYa, 2015, ISBN 978-989-741-262-2.

Cortesia de CdasLetras/LeYa/JDACT

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Por Amor a uma Mulher. Domingos Amaral. «… neto de Afonso VI de Leão e primo direito de Afonso VII. Tem uma relação amorosa com Elvira Gualter, da qual nasceram duas filhas, Urraca e Teresa Gualter…»

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NOTA: Afonso Henriques, nascido em 1109, filho do conde Henrique e de dona Teresa, neto de Afonso VI de Leão e primo direito de Afonso VII. Tem uma relação amorosa com Elvira Gualter, da qual nasceram duas filhas, Urraca e Teresa Gualter; e outra com Chamoa Gomes, de quem tem dois filhos, Fernando e Pedro Afonso. Será reconhecido com rei de Portugal, em 1143, em Zamora.

Viseu, Domingo de Páscoa, Abril de 1126

«O que coçava muito a cabeça voltou a fazê-lo e riu-se. O Rato juntou-se ao gordo, cujo rabo era enorme, e deu-lhe uma palmada nas costas. Este adora as soldadeiras, mas elas chamam-lhe Peida Gorda. E nós gostámos do nome! Peida Gorda, Peida Gorda, passa o dia a comer açorda!, trauteou. O visado riu-se. Parecia bonacheirão e amável, mas também devia ser tímido, como o Santinho, pois nada disse. Ramiro olhou para o que faltava, a quem inicialmente não vira a cara, pois guiava o cavalo onde ia o Ameixa. Era muito mais velho do que os outros, tinha os cabelos brancos e o rosto cheio de rugas, e Ramiro admitiu que fosse até mais idoso do que Gondomar. Chamam-me Velho, apresentou-se ele. E é o que eu sou, pois lutei ainda com El Cid em Valência, há mais de quatro décadas!

A referência ao grande guerreiro que os trovadores louvavam fez nascer um silêncio respeitoso no grupo, mas o Velho quebrou-o, perguntando se Ramiro já tinha morto alguns mouros. O rapaz confessou que nunca estivera em combates e o Velho orgulhou-se: Matei mais de cem sarracenos. Apontou para o arco e para as flechas de Ramiro e previu: E vós também ides matar em breve. Ramiro acenou com a cabeça, mas o velho rematou: Ou morrer. Os outros riram-se muito e nesse momento Gondomar reapareceu e disse que estava na altura de continuarem, e todos montaram os cavalos, dois a dois, e regressaram à estrada.

Por vezes, levantam-se-me dúvidas sobre a forma como Gondomar aceitou Ramiro na Ordem. Porque mudou de ideias? Só porque admirou a persistência do rapaz? Terá ele pensado que Ramiro, por ser filho de Paio Soares, sabia do segredo da relíquia? Ou terá desejado mantê-lo por perto, na esperança de que o pai viesse procurá-lo a Soure? É difícil ter a certeza, à luz dos acontecimentos posteriores. É por essas e por outras que esta foi uma investigação tão longa e difícil. A verdade podia estar escondida em qualquer lado, ou em lado nenhum.

Serra Morena, Córdova, Abril de 1126

A velha criada de Zulmira foi a única testemunha dos acontecimentos trágicos que a seguir descrevo. Escondida dentro de um armário, jurou a Mem que sobrevivera por acaso. Ela dormia com a outra criada lá em baixo, junto às cozinhas, mas ouvira uma portada bater, no andar de cima, e levantara-se para a ir fechar. O ferrolho deve estar estragado, pensou. Tinha de dizer a Taxfin que mandasse substituí-lo. Podiam pedir ao almocreve que trouxesse outro de Córdova, havia lá bons ferreiros. De súbito, alarmou-se! Ouviu um gemido de sofrimento no andar de baixo. Abu Zhakaria já partira, mas as pessoas em Córdova e nas aldeias em redor consideravam o castelo de Hisn Abi Cherif seguro, os portões estavam sempre cerrados à noite, era praticamente impossível alguém entrar. Contudo, uma vaga de medo percorreu o seu corpo. Num pulo, aproximou-se de um armário, na sala ao lado do quarto de Taxfin. Já enfiada lá dentro, ouviu passos e pouco depois uma voz, no quarto de Taxfin. Matei a vossa criada, cortei o pescoço à velha. Taxfin estava deitado, acordara com o barulho da portada a bater e vira um vulto entrar no quarto. Agitado, reconheceu de imediato aquela voz, ouvira-a muitas vezes, nos nove anos que estivera com o califa. Aquele timbre rouco e ciciado era inconfundível. A Morte com Duas Pernas encontrava-se ali, no seu quarto, no seu castelo! Encostou-se para trás na cama, com as costas apoiadas na parede.

O outro continuou junto à porta, talvez temesse a chegada de alguém. De repente, atirou algo na direcção de Taxfin, algo que atravessou o quarto a voar e aterrou aos pés dele. Era a cabeça de uma das criadas velhas. Em silêncio, Taxfin rezou pela mulher morta. O homem acrescentou: Nem me viu. Depois, perguntou: Há mais alguém neste castelo, além de vós? O marido de Zulmira manteve-se calado e o homem insistiu: Vi roupas de outra mulher. Onde está ela? Taxfin não o iria ajudar. Por isso, mentiu: Partiu ontem à noite, para Córdova. O filho está doente. Ouviu o outro suspirar e afirmar: Estais a mentir. Foi com Abu Zhakaria para Coimbra? Taxfin ficou aterrado. Como é que ele sabia? O homem devia ler os seus os pensamentos, pois elucidou-o: O vosso leal Abu foi imprudente. Falou de mais em Córdova. Por lá ninguém gosta muito de vós. Não era novidade, mas pelo menos Taxfin conseguira desviar a atenção dele.

Esperava que a segunda criada se conseguisse manter escondida. Onde estaria? Olhou para a cabeça cortada na sua cama. A outra criada, mais nova do que a que morrera, costumava ir muitas vezes à arrábida onde estava enterrado o primeiro marido de Zulmira. No dia em que Abu Zhakaria partira, Taxfin vira-a caminhar para lá, um pouco antes de o grupo se fazer à estrada. Rezou para que estivesse escondida, e que depois o sepultasse no mausoléu. O outro falou novamente. Haveis ouvido falar de Alamut? Apesar da escuridão, Taxfin reparou que o homem usava vestes claras. Lembrou-se de que ele andava sempre com uma túnica branca, apenas com um cinto vermelho, onde trazia o alfange e dois punhais». In Domingos Amaral, Assim Nasceu Portugal, Por Amor a uma Mulher, Casa das Letras, LeYa, 2015, ISBN 978-989-741-262-2.

Cortesia de CdasLetras/LeYa/JDACT

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quinta-feira, 16 de novembro de 2023

Memorial do Convento. José Saramago. «Foi João Francisco tirar os arreios ao animal e voltou em tempo que estava o padre dizendo a Baltasar e Blimunda que cearia com o vigário, pois este o convidara…»

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«Estava o padre Bartolomeu Lourenço sentado ao lume, que a noite refrescava, quando chegaram Baltasar e o pai. Viram a mula à porta, ainda arreada debaixo da oliveira, Quem terá vindo, perguntou João Francisco, e Baltasar não respondeu, mas adivinhou que seria padre, as mulas que carregam gente eclesiástica exibem uma certa e evangélica mansidão, quiçá induzida, que contrasta com o viço ainda rebelde das que só dão cavalaria a laicos, e sendo de padre a mula, com ar de vir de longe, não se esperando legado do papa nem aviso do núncio, tinha de ser Bartolomeu Lourenço, como logo se viu que era. A quem estranhar que tanto tivesse visto Baltasar Sete-Sóis quando já a noite se fechava, responda-se que o resplendor dos santos não é vã miragem do espírito perturbado dos místicos ou mera propaganda da fé em pintura a óleo, e que, de tanto dormir com Blimunda, e com ela quase todas as noites ter dares e tomares da carne, começava a haver em Baltasar um luzeiro espiritual de dupla visão, que, não

dando para mais profundas penetrações, é quanto basta para observações sumárias como esta.

Foi João Francisco tirar os arreios ao animal e voltou em tempo que estava o padre dizendo a Baltasar e Blimunda que cearia com o vigário, pois este o convidara, e em casa dele passaria a noite, primeiro, por não haver cómodos suficientes na morada dos Sete-Sóis, segundo, porque não faltaria estranhar Mafra que escolhesse padre vindo de longe para albergue, este só, pouco mais abrigado que o telheiro de Belém, em vez dos mimos paroquiais ou o palácio dos viscondes, onde não se recusaria aposento a um futuro doutor em cânones, e Marta Maria disse, Se estivéssemos prevenidos de que vinha vossa reverência, ao menos matava-se o galo, o resto que temos não é coisa que se apresente, Disso mesmo que têm é que eu comeria com gosto, mas é melhor para todos que cá não fique nem coma, e quanto ao galo, senhora Marta Maria, deixe-o cantar, por melhor que ele soubesse depois de tirado da panela, muito maior alegria é o canto da sua garganta, nem era coisa que às galinhas fizéssemos.

Com esta tirada riu João Francisco, Marta Maria não pôde porque lhe deu o ventre uma guinada de dor, Blimunda e Baltasar apenas sorriram, não precisavam mais, se bem sabiam que os ditos do padre sempre iam cair ao lado das palavras esperadas, como por estas outras novamente se averiguava, Amanhã, uma hora antes do nascer do sol, levam-me a mula ao presbitério, arreada, vão os dois porque teremos de falar antes de eu partir para Coimbra, e agora, senhor João Francisco, senhora Marta Maria, aí vos fica a minha bênção, se para alguma coisa serve aos olhos de Deus, que é forte presunção cuidarmos que somos nós os juízes da bondade das bênçãos, mais uma vez, não se esqueçam, uma hora antes de nascer o sol, e tendo dito saiu, foi Baltasar acompanhá-lo com uma candeia que pouco alumiava, era só como se fosse dizendo à noite, Sou uma luz, e durante o breve caminho nem falou um nem falou outro, regressou Baltasar às escuras, vêem os pés onde assentam, e quando entrou na cozinha Blimunda perguntou, Então, disse o padre Bartolomeu o que queria, Não disse nada, amanhã o saberemos, e João Francisco, lembrando-se, ria, Teve sua graça a do galo.

Quanto a Marta Maria, estava adivinhando mistério, agora, Vamos cear, sentaram-se os dois homens à mesa, as mulheres de parte, o costume das famílias». In José Saramago, Memorial do Convento, 1998, Editorial Caminho, 1998, ISBN 972-210-026-2.

 Cortesia de ECamunho/JDACT

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Memorial do Convento. José Saramago. «Foi Blimunda quem veio abrir a porta. Estava escurecendo a tarde, mas ela reconheceu o vulto do padre que desmontava, quatro anos não é tanto tempo assim…»

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«É cedo ainda para estes acidentes. Quando o padre Bartolomeu Lourenço, na última volta do caminho, começou a descer para o vale, deu com uma multidão de homens, exagero será dizer multidão, enfim, umas centenas deles, e primeiro não entendeu o que se passava, porque toda aquela gente estava correndo a um lado, ouvia-se tocar uma trombeta, seria festa, seria guerra, deram então em rebentar tiros de pólvora, terra e pedras violentamente atiradas aos ares, foram os tiros vinte, tornou a tocar a trombeta, agora diferente toque, e os homens avançaram para o terreno revolvido, com carros de mão e pás, enchendo aqui, no monte, despejando além, na encosta para Mafra, ao passo que outros homens, de enxada ao ombro, desciam aos caboucos já fundos, neles desapareciam, enquanto mais homens lançavam cestos para dentro e depois os puxavam para cima, cheios de terra, e os iam despejar afastadamente, aonde outros homens iam por sua vez encher carros de mão, que lançavam no aterro, não há diferença nenhuma entre cem homens e cem formigas, leva-se isto daqui para ali porque as forças não dão para mais, e depois vem outro homem que transportará a carga até à próxima formiga, até que, como de costume, tudo termina num buraco, no caso das formigas lugar de vida, no caso dos homens lugar de morte, como se vê não há diferença nenhuma.

Com os calcanhares, o padre Bartolomeu Lourenço tocou para diante a mula, experiente animal que nem com a artilharia se assustara, é o que faz não ser de raça pura, estes já viram muito, a mestiçagem tornou-os pouco espantadiços, que é a maneira melhor de viverem neste mundo as bestas e os homens. Pelo caminho atascado de lama, sinal de que as fontes da terra andavam perdidas naquela comoção e surdiam onde não podiam aproveitar-se, ou em muito delgadas linfas se dividiam até de todo se separarem os átomos da água e ficar o monte seco, por esse caminho, tocando suavemente a mula, desceu o padre Bartolomeu Lourenço à vila e foi perguntar ao vigário onde moravam os Sete-Sóis. Tinha este pároco feito um bom negócio de terrenos por serem dele algumas das terras do alto da Vela, e, ou por valerem elas muito, ou por muito valer o proprietário, fez-se a avaliação pelo alto, cento e quarenta mil réis, nada que se possa comparar com os treze mil e quinhentos que foram pagos a João Francisco.

É um vigário feliz, com a promessa de tão grande convento, oitenta frades confirmados, ali mesmo à porta de casa, com o que muito crescerá a vila em baptizados, casamentos e passamentos, cada sacramento dispensando a sua parte material e espiritual, desta maneira tanto se reforçando a burra como a esperança de salvação, na directa razão dos vários actos e prestações, Pois, padre Bartolomeu Lourenço, é grande honra minha recebê-lo nesta casa, os Sete-Sóis moram aqui perto, tinham um terreno ao lado dos meus no alto da Vela, mais pequeno, deve-se dizer, agora o velho e a família vivem de granjear um casal que tinham de renda, quem voltou há quatro anos foi o filho, o Baltasar, veio da guerra maneta, maneta da guerra, quero dizer, e trouxe mulher, acho que não estão casados à face da Santa Igreja, e ela tem um nome nada cristão, Blimunda, disse o padre Bartolomeu Lourenço, Conhece-a, Fui eu que os casei, Ah, então sempre são casados, Fui eu que os casei, em Lisboa, e tendo o Voador agradecido, que ali não era conhecido por tal, as efusões do vigário só tinham que ver com as particulares recomendações do paço, saiu a procurar os Sete-Sóis, contente por assim ter mentido à face de Deus e saber que Deus não se importava, um homem tem de saber, por si próprio, quando as mentiras já nascem absolvidas.

Foi Blimunda quem veio abrir a porta. Estava escurecendo a tarde, mas ela reconheceu o vulto do padre que desmontava, quatro anos não é tanto tempo assim, beijou-lhe a mão, não andassem por ali vizinhos curiosos e seria diferente a saudação, que estes dois, estes três, quando estiver Baltasar, têm razões do coração que os governam, e, em tantas noites passadas, uma terá havido, pelo menos, em que sonharam o mesmo sonho, viram a máquina de voar batendo as asas, viram o sol explodindo em luz maior, e o âmbar atraindo o éter, o éter atraindo o íman, o íman atraindo o ferro, todas as coisas se atraem entre si, a questão é saber colocá-las na ordem justa, e então se quebrará a ordem, Esta é a minha sogra, senhor padre Bartolomeu, aproximara-se Marta Maria, intrigada por não ouvir palavras, sendo certo que Blimunda fora abrir a porta sem que alguém a ela batesse, e agora estava ali um padre novo que perguntava por Baltasar, não é assim que costumam passar-se as visitas deste tempo, mas há excepções, como em todos os tempos sempre se disse, vir um padre de Lisboa a Mafra para falar a um soldado manco, e a uma mulher que é visionária da pior maneira, porque vê o que existe, como já secretamente o sabe Marta Maria que, queixando-se de ter uma nascida na barriga, Blimunda lhe respondeu que não tinha, mas era verdade que sim e ambas o sabiam, Come o teu pão, Blimunda, come o teu pão». In José Saramago, Memorial do Convento, 1998, Editorial Caminho, 1998, ISBN 972-210-026-2.

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quarta-feira, 1 de novembro de 2023

O Homem de Constantinopla. José Rodrigues Santos. «Desde o colapso financeiro que as contas do império ficaram a descoberto e o sultão precisa urgentemente de dinheiro. Ora, dinheiro já ele tem, observou a mulher com sarcasmo. E muito! Estás enganada»

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O Homem de Constantinopla

«Veron soergueu a sobrancelha, subitamente desconfiada; sabia tão bem como o marido que ninguém no palácio, a começar pelo seu amigo Salim Bey, oferecia nada desinteressadamente. Quanto quer ele? Cinco mil libras de ouro à cabeça e quinze por cento dos lucros. Fez-se silêncio no salão. Sentado no seu tapete de pele de cordeiro, Kaloust esforçava-se por permanecer invisível enquanto acompanhava a conversa; fascinava-o ouvir falar de negocies, mas tentava a todo o custo não se tornar notado, não o fossem mandar embora como aos criados.

Cinco mil libras de ouro é muito dinheiro, observou ela pausadamente. Onde as iremos arranjar? Vendemos as nossas propriedades em Kadi Keui, sugeriu Vahan. Temos mil libras de ouro, não temos? Essas propriedades hão-de render outras duas mil. Quanto às restantes duas mil, pedila-emos emprestadas aos bancos em Constantinopla. Encolheu os ombros, num gesto de impotência. Ficaremos depenados, claro, mas valerá a pena. O olhar de Veron desviou-se para a chama que ainda ardia na ponta do fio de algodão.

Não sei, hesitou. É muito dinheiro ... Mas não achas que é um bom negócio? A mulher estreitou as pálpebras enquanto ponderava o assunto. Aquela decisão era importante e antes de pronunciar o seu veredicto precisava de saber mais. Em que consiste o negócio exactamente?, quis ela saber, fazendo um gesto na direcção da lâmpada. Ficamos com o exclusivo da importação dessa geringonça? É isso? O marido soltou uma gargalhada Não das lâmpadas, corrigiu. Do querosene. Salim Bey oferece-nos o exclusivo da venda de querosene ao sultão.

Aliás, as cinco mil libras de ouro destinam-se às finanças pessoais do sultão. Salim Bey contenta-se com os quinze por cento do negócio. Veron manteve a expressão inquisitiva; ainda não tinha informação suficiente para tomar uma decisão segura. Mas afinal o que é isso do querosene?, perguntou. Onde se vai buscar essa coisa? O querosene é um derivado de um óleo que nasce nas pedras. Daí o seu nome, óleo das pedras. Pedra em grego é petra. Petra óleo. Agora até há uma expressão mais moderna, petróleo. Parece que foram descobertas grandes quantidades desse óleo na América.

E tu vais comprar o óleo à América? Claro! Se o negócio avançar, vou tornar-me o representante oficial do maior dos exportadores americanos, a Stand Oil, que ... Standard Oil, corrigiu o sogro. Pois, isso. Com o dedo debaixo da pálpebra direita acrescentou: E já ando de olho na Rússia também. Encontraram óleo das pedras bem perto daqui, em Baku. Indicou a chama tremeluzente. Isto é o futuro, mulher! Quando os candeeiros estiverem à venda, as pessoas vão deixar de usar velas de cera. Toda a gente vai querer estes candeeiros a óleo. No momento em que isso acontecer..., ficaremos ricos! Vacilou, tentando ler o pensamento de Veron pela expressão do seu olhar. Ou achas que não?

Os olhos da mulher não descolavam do candeeiro. De facto, como resistir à sedução de uma chama sem cheiro nem fumo? Cinco mil libras de ouro era uma verdadeira fortuna, estava realmente nos limites das suas capacidades financeiras ou até para lá deles. Os riscos pareciam-lhe enormes. Não lhes restaria um tostão e ficariam de tal modo endividados que poderiam ser arrastados para a bancarrota, contra a qual a sua prudência de mulher a alertava. Mas até um idiota perceberia as potencialidades comerciais encerradas naquela maravilhosa chama azulada.

Porquê nós? Porque nos oferecem o negócio a nós? Porque Salim Bey confia em mim. Veron inclinou a cabeça com uma expressão céptica muito sua, como se pedisse que a poupassem a conversa fiada. Vá, agora a sério. Porque estamos no sítio certo, corrigiu Vahan. Basta aliás olhar para o mapa. Temos negócios em Constantinopla, onde os Americanos podem descarregar o seu produto. E estamos em Trebizonda, que se encontra a dois passos de Batum e a meio caminho do óleo das pedras de Baku. Além disso, vamos dar-lhes a ganhar muito dinheiro. Desde o colapso financeiro que as contas do império ficaram a descoberto e o sultão precisa urgentemente de dinheiro. Ora, dinheiro já ele tem, observou a mulher com sarcasmo. E muito! Estás enganada». In José Rodrigues Santos, O Homem de Constantinopla, Edições Gradiva, 2013, ISBN 978-989-616-549-9.

Cortesia de EGradiva/JDACT

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sexta-feira, 13 de outubro de 2023

Por Amor a uma Mulher. Domingos Amaral. «Aproximou-se de Ramiro, ficando com o rosto em frente ao dele, para que o rapaz olhasse para as suas horríveis feições, e resmungou: Se tendes medo do que vedes, é melhor regressardes a Coimbra, pois irei para a cova assim, não vou sarar»

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NOTA: Afonso Henriques, nascido em 1109, filho do conde Henrique e de dona Teresa, neto de Afonso VI de Leão e primo direito de Afonso VII. Tem uma relação amorosa com Elvira Gualter, da qual nasceram duas filhas, Urraca e Teresa Gualter; e outra com Chamoa Gomes, de quem tem dois filhos, Fernando e Pedro Afonso. Será reconhecido com rei de Portugal, em 1143, em Zamora.

Viseu, Domingo de Páscoa, Abril de 1126

«Gondomar examinou-o e perguntou: Que idade tendes? Ramiro disse-lhe que tinha dezassete anos, e o velho murmurou: Idade suficiente para decidir pela vossa cabeça. Ao escutar esta mudança de opinião, o rapaz sorriu, animado, mas o cavaleiro avisou-o: Se Paio Soares se zangar, tereis de dizer a verdade, que é por vossa vontade que aqui estais, não por minha. Ramiro prometeu fazê-lo, embora tivesse a certeza de que tal não seria necessário. Com uma força inesperada para alguém da sua idade, Gondomar içou-o para o seu cavalo, e Ramiro sentou-se atrás dele na sela. Mal o animal recomeçou a andar, o rapaz sentiu um enorme alívio. Parecia que as pernas e os pés se distendiam e o seu corpo finalmente descansava.

Nas horas seguintes, é provável que tenha adormecido, embalado pelo andar do animal e encostado a Gondomar. Só quando a madrugada chegou é que espevitou e observou com atenção os restantes cavaleiros do grupo. Todos tinham um manto branco a cobri-los, usavam vestes modestas por baixo e pareciam homens de poucas posses. Um deles era muito grande, mas o seu companheiro de cavalo era o oposto, com o cabelo cortado rente, ao contrário dos outros, que usavam todos barba.

No segundo cavalo, ia montado um homem que tinha um rabo muito gordo, que caía para cima da garupa do animal, e à sua frente seguia outro que estava sempre a coçar a cabeça. Por fim, na garupa do terceiro cavalo, encontrava-se um indivíduo de cara disforme, com enormes elevações nas bochechas, cuja cor era avermelhada. Metia impressão olhar para ele e por isso Ramiro evitou fazê-lo, nem reparando bem no seu companheiro da frente, que guiava o animal.

Ninguém falou até que Gondomar deu ordem de paragem, já o céu estava alaranjado pelo nascer do Sol. Encontravam-se no meio de uma floresta e ouviam-se os pássaros lançando os seus agitados piares matinais. À beira da estrada havia uma clareira, e Gondomar disse-lhes que desmontassem ali, mandou-os colocar em círculo e depois ajoelhou e rezou uma oração em latim.

Ramiro reparou que o velho cavaleiro tinha os olhos avermelhados, parecia estar sempre a chorar. No final da reza, ouviu-o dizer: Comamos. O mestre foi junto do seu cavalo, trouxe um saco com pães e distribuiu-os. Comeram em silêncio e, depois de terminarem, Gondomar tomou a palavra.

Na nossa Ordem, não interessa o passado, mas sim o futuro. Olhando para Ramiro, prosseguiu: Temos um novo membro. Vai seguir connosco para Soure. Entre nós não há bastardos nem infanções, nem ricos-homens nem cavaleiros-vilões. Sereis igual a todos e a cada um, um monge guerreiro. Ramiro reparou que nenhum dos presentes parecia lavrador ou artífice. Deviam ser gente da floresta, antigos soldados ou servos, malados ou mesmo salteadores. Gondomar continuou: O nosso novo companheiro chama-se Ramiro, e é por esse nome que o devem tratar, a não ser que ele deseje outro.

Ramiro negou, abanando a cabeça. Então, Gondomar afastou-se um pouco, desaparecendo atrás de uma árvore. Os restantes homens cercaram o novo recruta e começaram a apresentar-se. O mais baixinho do grupo disse que o tratavam por Rato, pois era pequeno e conseguia enfiar-se nos locais mais difíceis.

Ramiro viu um punhal, com uma pérola no seu topo, enfiado no cinto do homem, e estremeceu. Era o punhal do seu pai! O mesmo que ele na sexta-feira quase usara para se matar, e que desaparecera no sábado! O pai perguntara pela arma, mas Ramiro lembrava-se de o ter deixado em casa, em cima de uma mesa, e vira-o no cinto de Paio Soares, sábado à tarde, durante o jantar.

De repente, reconheceu o homem: era o criado que chocara com o pai à entrada da tenda! Decerto fora nesse momento que roubara o punhal, aproveitando o descontrolo do seu progenitor. O Rato era um ladrão, fugira de Coimbra para evitar ser descoberto, mas Ramiro nada disse e deixou o homem seguinte apresentar-se. Era o maior e mais forte de todos, afirmou que lhe chamavam Urso, por ser assim, e os outros riram-se, divertidos. De mim ninguém se ri, disse o homem da cara disforme. Aproximou-se de Ramiro, ficando com o rosto em frente ao dele, para que o rapaz olhasse para as suas horríveis feições, e resmungou: Se tendes medo do que vedes, é melhor regressardes a Coimbra, pois irei para a cova assim, não vou sarar.

O Rato disse que o grotesco se chamava Ameixa, e que nem as mulheres da rua o queriam, pois desmaiavam se ele se aproximasse, e os outros riram novamente. Então, o Ameixa apontou para o que viera com ele no cavalo e avisou: Não vos chegueis ao Santinho, tem piolhos». In Domingos Amaral, Assim Nasceu Portugal, Por Amor a uma Mulher, Casa das Letras, LeYa, 2015, ISBN 978-989-741-262-2.

 Cortesia de CdasLetras/LeYa/JDACT

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