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terça-feira, 26 de março de 2019

O Fogo e as Cinzas. Manuel da Fonseca. «Lá isso é verdade, concordava eu, inquieto. Vinha-me à ideia Antoninha das Dores e, muito embora preferisse calar-me, era certo acrescentar. É isso mesmo... Já não há incêndios...»

Cortesia de wikipedia e jdact

«Que o meu canto seja no meio do temporal uma chicotada de vento que estremeça as estrelas desfaça mitos e rasgue nevoeiros, escancarando sóis!» In Manuel da Fonseca

«(…) Veio um dia, e vimo-nos obrigados a mudar de rumo. Quisemos acertar o passo, segundo as regras, e começaram as topadas, escorregadelas, desvios. No dia-a-dia enviusado e traiçoeiro da vila, onde muitos dos choramingas da escola ganhavam dinheiro grosso e honestas reputações, nós caímos de desilusão em desilusão. Não sei como isto foi. Mas, anos depois, vencido, eu emagrecera; secara, nodoso e cheio de rugas, como o tronco carcomido de um sobreiro. Pelo contrário, derrotado na luta inglória com o forreta do pai, André Juliano engordou, engordou muito. Apesar disso, quando às vezes o olhava, com aquele olhar distraído mas que, de súbito, parece atingir a verdade que há nos homens e nas coisas, eu julgava estar a ver-me diante de um espelho côncavo. Sim, senhor, tal qual como eu : todas as raivas, todos os ciúmes, as invejas, os fracassos, mas inchado e balofo. Nestes momentos, o ódio contraía-me as feições, e largava um palavrão. Fitava-o com o olhar endurecido: estamos tramados, André, estamos tramados! Nunca consegui saber se ele adivinhava os meus pensamentos; o certo, é que me respondia de beiço caído, como num eco: tramados, amigo, tramados...
Olho o relógio. Quatro horas. Doidas, as moscas tecem um emaranhado de círculos em volta dos cemitérios. Ponho-me a observá-las, e faço cálculos sobre qual dos papéis cobertos de melaço peganhento atrairá a primeira. Por fim, cansado, caio numa modorra. Um murmúrio distante vem devagar, engrossa, até soar nitidamente dentro de mim. É a voz autoritária de mestre Poupa bombeiro. Vejo-o e oiço-o como se realmente ele estivesse sentado à minha mesa. Fogo?!, exclama a voz. E, logo, desiludida, já não há incêndios... Era o seu assunto preferido. Mestre Poupa tinha artes de ir desviando qualquer conversa até aparecer com naturalidade o caso de um fogo. Hoje em dia, já não há incêndios, comentava ele. Vejam vocês: toca o sino da igreja; a auto-bomba desce do quartel, puxa-se a mangueira e, pronto!, está o fogo apagado. Fogo?... Qual fogo, se nem deixamos atear nada! Lá isso é verdade, concordava eu, inquieto. Vinha-me à ideia Antoninha das Dores e, muito embora preferisse calar-me, era certo acrescentar. É isso mesmo... Já não há incêndios...
Como que saindo da névoa do fumo do tabaco que enche o Café, André Juliano surge do outro lado da mesa. Enrola um cigarro entre os dedos enormes, e os olhos, caídos, desaparecem-lhe sob a gordura das pálpebras. Abana a cabeça, suspirando: já não há nada... Até dá doença uma vida destas!... Ora lá disse você uma verdade. Isto, hoje, até dá doença. Porque seria que eu me fiz amigo de mestre Poupa? Sempre que me interrogo a este respeito, ocorrem-me várias razões capazes de justificar o facto. Mas, a todas abandono e acabo por concluir que foi obra do acaso. Por esse tempo, a vila andava acesa em discussões originadas pela acção dos bombeiros voluntários. As coisas não podem continuar assim!, dizia-se alto e em bom som. As coisas, era isto: fogo que houvesse, os prejuízos maiores não os faziam as chamas ruas os bombeiros improvisados, na ânsia de tudo molharem e de tudo salvarem. Abriam caminho à machadada, arrombavam tabiques, partiam mobílias e loiças, sem dó nem piedade. Estragos do lume apenas uma que outra chaminé, ou um carunchoso soalho.
Enfim, chegaram a tais termos que um dia, ao declarar-se incêndio na chaminé do Elias Tarro, como alguém corresse a puxar o badalo da igreja velha, o homem postou-se entre os umbrais da porta de espingarda em riste: quem entrar, morre! E impediu que os bombeiros lhe assaltassem a casa, enquanto, com baldes de água, pelo quintal, a família apagava as labaredas. Choveram ameaças e insultos, de parte a parte. À má cara, os bombeiros abandonaram a presa. E, não era passada uma semana, quando o Elias Tarro apareceu com a cabeça cheia de pensos e ataduras. Fora o Chico Biló que o esmurrara, após breve discussão. Ao pagar a conta na farmácia do Durães onde andara a tratar-se, Elias Tarro deu graças pelo preço em que lhe ficara o incêndio.
Vá lá... Antes isto que os malandros me terem invadido a casa. Mas a vila, aterrada, mudou a direcção dos bombeiros voluntários. E, por cartas, ajustou com um técnico de Lisboa a chefia da mal afamada corporação. Foi mestre Poupa quem apareceu. Dias depois, já eu passava horas a ouvi-lo. Havia sido um incêndio que me arruinara a vida, e para ele os incêndios, que o tinham enchido de glória, eram agora a causa da sua amargura. O material moderno, as muitas bocas de água espalhadas pelas ruas e a técnica moderna tornavam, conforme nos dizia, a extinção fácil e rápida, o que era impossível antigamente. Só queria que vocês assistissem ao incêndio da rua de Madelena, lá em Lisboa. Isso é que foi um fogo bom!, recordava ele, animado e feliz. Morreram dezenas de pessoas». In Manuel da Fonseca, O Fogo e as Cinzas, Wikipedia, 1951, Editorial Caminho, 1998, ISBN 978-972-212-431-7.

Cortesia de Wikipedia/ECaminho/JDACT

O Fogo e as Cinzas. Manuel da Fonseca. «André Juliano, meu amigo de infância, como nós mudámos... Sim, senhor, como mudámos. Na escola éramos temidos»

Cortesia de wikipedia e jdact

«Que o meu canto seja no meio do temporal uma chicotada de vento que estremeça as estrelas desfaça mitos e rasgue nevoeiros, escancarando sóis!» In Manuel da Fonseca

«(…) E, de tronco direito, sopro para longe as primeiras fumaças. Mas ninguém se importa com estes ares de desafio. Aos poucos, a cabeça vai-me tombando entre os ombros vergados pela vida. Os meus olhos, nevoentos, voltam-se para o passado. O passado. Do fundo do tempo, aparecem pedaços de recordações. Demoram-se um instante, doem-me suavemente e somem-se, num tropel, da memória cansada. Caio numa complicada malha de coisas vagas e sem nexo. Para ali fico dobrado num sonolento quebranto. De súbito, estremeço: lá vem Antoninha das Dores semi-nua! Lá vem ela nos braços do Chico Biló fardado de bombeiro! Apavorado, ergo a cabeça e olho em roda. Não, ninguém pode descobrir o que estou pensando. E, impune, revejo gulosamente a imagem da minha noiva em fralda de camisa. As fontes vão-se-me perlando de um suor gelado; amarfanha-me a raiva de não poder voltar atrás, mudar o tempo, e recomeçar a vida. Se fosse possível! Que me importava a mim o que aconteceu!... Poltrão! Porque não casei eu com Antoninha das Dores?
Enrolo novo cigarro. Mas, agora, com a pressa, caem-me pedaços de tabaco dos dedos trémulos. Fumo lume e sorvo uma ansiada fumaça. O espelho, em frente, mostra-me o meu carão esverdinhado de velho. Vejo-me, de queixo caído, a apertar as mãos uma na outra até os ossos dos dedos estalarem. Poltrão. É isso: um cobarde. Sempre o fui, e só a presença dos meus amigos me ajudava a suportar melhor a imagem tão odiada e tão querida de Antoninha das Dores. Eu chegava sempre primeiro ao Café. Depois, mestre Poupa. Mal encetávamos a conversa, víamos através do vidro da montra, o corpo enorme de André Juliana sair de casa e iniciar lentamente a custosa subida. Com alvoroço, eu dizia: lá vem o André! Nunca passou uma tarde sem que o dissesse. Às vezes, pensava: amanhã, não digo aquilo. Pois se mestre Poupa o vê ao mesmo tempo que eu... Ora bem; ao outro dia, a porta abria-se, o corpo pachorrento saía para a rua, e era fatal a minha inquieta alegria: lá vem o André!...
Agora mesmo ia jurar que o estou a ver despegar-se com moleza dos umbrais. Mas, na realidade, apenas vejo para lá do vidro, ao fundo da rua, a casa destruída pelo fogo. Tudo tal qual como no fim do incêndio: a parede negra, sem portas nem janelas... Foi aí que mestre Poupa bombeiro morreu, lutando contra as chamas. André Juliano, esse ainda está vivo; mas, em Lisboa, atrás das grades da Penitenciária. Dou voltas na cadeira, torço-me, enterro o chapéu pela cabeça abaixo. Tudo em vão. Antoninha das Dores continua na minha frente, deitada nos braços do Chico Biló. Saem-lhe da camisa as pernas, o ventre e um pedaço do seio; de volta, o povo arregala os olhos. Vejo-os a todos, rosto a rosto, com a facilidade de quem está olhando vagarosamente uma fotografia. Como os odeio! Depressa, Maneta, outro café! Espero, esfregando as mãos. E, ao esvaziá-lo, de queixo erguido, vejo no espelho o meu carão de tal forma espantado que me parece ter acabado de beber veneno. Coberto de suor, lá vou aos poucos serenando.
André Juliano, meu amigo de infância, como nós mudámos... Sim, senhor, como mudámos. Na escola éramos temidos. Passávamos as tardes de castigo e, um dia, armámos uma desordem medonha. Partimos carteiras, o quadro grande, e saímos cheios de troféus: pedaços de bibes rasgados, os peitos das camisolas salpicados de medalhas de tinta. Fomos expulsos. Acabámos por aprender as letras, os números e uma fantástica História de Portugal com o bebedola do Jaime Ursulino, que nos ia matando à varada e a quem, por fim, esmurrámos de sociedade. Nossos pais consideraram maduramente no caso, e concluíram que estávamos quites com a cultura. Foi um alívio. O largo, e mais tarde os bailes desordeiros do campo e a noite sem lei das ruas da vila passaram a ser o nosso mundo. Um mundo cheio de sustos, mas mais leal que as aritméticas do Ursulino e as falinhas choronas dos moços da escola». In Manuel da Fonseca, O Fogo e as Cinzas, Wikipedia, 1951, Editorial Caminho, 1998, ISBN 978-972-212-431-7.

Cortesia de Wikipedia/ECaminho/JDACT

O Fogo e as Cinzas. Manuel da Fonseca. «Que querem? Estou aqui, paguei o meu café, faço o que me apetece!»

Cortesia de wikipedia

«Que o meu canto seja no meio do temporal uma chicotada de vento que estremeça as estrelas desfaça mitos e rasgue nevoeiros, escancarando sóis!» In Manuel da Fonseca

«Mestre Poupa bombeiro, André Juliano e eu formávamos uma trindade falhada. Positivamente, três velhos falhados e tontos. Há momentos em que vejo isto com uma grande clareza. Mas de nada me vale. Os factos miúdos que me estragaram a vida pegam de novo em mim e arrastam-me. Desviam-me cada vez mais de toda a gente e isolam-me numa apatia da qual não tenho forças para escapar-me. Serei acaso um cobarde? Talvez. Ao certo, apenas sei que, volta não volta, Antoninha das Dores me vem à memória com uma nitidez atroz. Aparece-me, não recatada e séria como ela sempre foi, mas em fralda de camisa. Sim, senhor; no meio da rua, em fralda de camisa. E deitada nos braços do grandalhão do Chico Biló! Foi isto que me estragou trinta anos de vida. Já a mágoa que consumia mestre Poupa não era de ordem amorosa. Lamentava a toda a hora que tivessem acabado os incêndios grandes e devastadores, como havia antigamente. Vamos lá a perceber tal coisa! Poderá acaso ser este o drama de um chefe de bombeiros? Pois era. Quanto a André Juliano as razões do seu desgosto toda a vila as sabe. Com cinquenta anos, e o pai, homem rico, ainda lhe não consentia mandasse no tio que viria a ser seu, e apenas lhe dava vinte e cinco tostões por dia. Vinte e cinco tostões! Enfim, éramos os três inseparáveis, cada um roendo o seu osso.
Hoje, praticamente, só resto eu. Mestre Poupa morreu num incêndio; um fogo dos bons, como ele gostava. E André Juliano jaz, à espera da morte, no fundo de uma cadeia. No entanto, estão tão presentes na minha memória que a todo o momento me parece natural ir encontrá-los, ao voltar duma esquina. E posso, sem o mínimo esforço, engendrar uma conversa. Sei e oiço as suas respostas às minhas palavras, vejo as maneiras peculiares de mexerem os lábios, de sorrirem com tristeza, ou de ficarem taciturnos por largos espaços. De tal modo ainda fazem parte da minha vida que, todos os dias, mal acabo de almoçar, saio de casa direitinho ao Café onde costumávamos encontrar-nos. Hoje aconteceu atardar-me, interessado na leitura do jornal. Quando dei por mim e olhei para o relógio, ergui-me num salto, e lá vim eu cheio de pressa pelas ruas fora. Cheio de pressa, como se eles estivessem à minha espera...
Mas, como sempre sucede, ao entrar, o entusiasmo arrefeceu e fui sentar-me, desconfiado, na mesa do canto. Como sempre, pus-me a pensar por que seriam aquelas pressas. Para que faço eu isto todos os dias? Vai o cafezinho do costume, senhor Portela? Surpreendido, encaro o criado. E grito-lhe, sem querer, com a voz transtornada: han?!..., mas, logo, as palavras me ocorrem, submissas. Pois..., o cafezinho do costume... Passava aqui todas as tardes com André Juliano e mestre Poupa bombeiro. Agora, sozinho, mal o Maneta põe sobre o mármore sujo a chávena fumegante e se afasta, eu começo com as manigâncias habituais para matar o tempo. Demoro o café, adoçando-o com pitadas, colher a colher; bebo-o a pequenos goles. Isto dá-me à volta de quinze minutos. De soslaio, lanço uma mirada pelos grupos que falam de mesa para mesa. Passeio o olhar pelo grande espelho suspenso da parede, pelas moscas que volteiam em redor dos nojentos cemitérios caídos do tecto, em espiral. Belo, digo eu de mim para mim, já lá se foi um quarto de hora...
Segue-se o cigarro, muito embora o médico me aconselhe a não fumar. Quero lá saber! Aí uns dois minutos lucro eu enquanto meto as mãos pelos bolsos à procura das mortalhas, da onça e do isqueiro.
Coloco tudo isto em cima da mesa segundo uma ordem: o livro das mortalhas, à esquerda; ao meio, a onça; e o isqueiro, à direita. Despego a mortalha, dobro-lhe uma estreita tira no sentido longitudinal e rasgo-a, pois gosto do cigarro delgado. Abro a onça com uns vagares ronceiros e calculo sobre a palma da mão a quantidade de tabaco precisa; cato entre os fios as impurezas, e só então o começo a enrolar. Guardo as mortalhas e a onça, pego no isqueiro e raspo lume. Outros quinze minutos! Estas e outras coisas acarretam-me a fama de ter o miolo avariado. Eu sei. Até há quem se ponha a seguir as minhas manobras e sorria. Que querem? Estou aqui, paguei o meu café, faço o que me apetece!» In Manuel da Fonseca, O Fogo e as Cinzas, Wikipedia, 1951, Editorial Caminho, 1998, ISBN 978-972-212-431-7.

Cortesia de Wikipedia/ECaminho/JDACT

terça-feira, 12 de abril de 2016

A Harmonia do Quotidiano. A Primavera. «A poesia não é feita por um nem por todos. A poesia está na aspereza das coisas contra nós, tão mais nítidas ao nosso olhar isento quanto mais doem no coração silencioso»

jdact

Tejo que levas as águas
«Tejo que levas as águas
correndo de par em par
lava a cidade de mágoas
leva as mágoas para o mar

Lava-a de crimes e espantos
de roubos fomes terror
lava a cidade de quantos
do ódio fingem amor

Leva nas águas as grades
de aço e silêncio forjadas
deixa soltar-se a verdade
das bocas amordaçadas

Lava bancos e empresas
dos comedores de dinheiro
que dos salários de tristeza
arrecadam lucro inteiro

Lava palácios vivendas
casebres bairros da lata
lava negócios e rendas
que a uns farta a outros mata

Lava avenidas de vícios
vielas de amores venais
lava albergues e hospícios
cadeias e hospitais

Afoga empenhos favores
vãs glórias ocas palmas
leva o poder de uns senhores
que compram corpos e almas

Das camas de amor comprado
desata abraços de lodo
rostos corpos destroçados
lava-os com sal e iodo»


O senhor gerente
«Para falar ao gerente
em nome de todos nós
se algum de nós o procura
assoma logo pela frente
um homem de cara dura
a dizer em alta voz:
Não está o senhor gerente.

Nunca está presente
Anda sempre ausente
Bem longe da gente
O senhor gerente.

Todos os dias à gente
repetem que ele saiu
e só amanhã virá.
Assim nenhum de nós viu
jamais o senhor gerente
mas ordens que ele dá
essas sente-as a gente.

Mesmo quando ausente
Está sempre presente
A mandar na gente
O senhor gerente.

Lá no escritório o gerente
sem dar ouvidos à gente
e nós cá nas oficinas.
O esforço da nossa lida
guarda-o com unhas ferinas
somos a fonte da vida
o dinheiro é para o gerente.

Nunca está presente
Anda sempre ausente
Bem longe da gente
O senhor gerente.

Eis então a causa assente
de fingir-se sempre ausente
dos rogos da nossa gente.
Mas ouça senhor gerente
se mantém a causa assente
de fingir-se sempre ausente
que fará então a gente?

Já que não consente
Vai ficar assente
Passa a ser a gente
O novo gerente».
Poemas de Manuel da Fonseca, in “Que nunca mais”

ISBN 978-989-619-124-5

JDACT

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

A Bela Música. Rodrigo Leão e Carlos Mendes. «Não tenho escala marcada nem hora para chegar: é tudo conforme o vento, tudo conforme a maré...»

Cortesia de mymusicquotes






Cortesia de dedicala





Letra de Manuel da Fonseca.


O Vagabundo do Mar
Sou barco de vela e remo
sou vagabundo do mar.
Não tenho escala marcada
nem hora para chegar:
é tudo conforme o vento,
tudo conforme a maré...

Muitas vezes acontece
largar o rumo tomado
da praia para onde ia...

Foi o vento que virou?
foi o mar que enraiveceu
e não há porto de abrigo?
ou foi a minha vontade
de vagabundo do mar?

Sei lá.

Fosse o que fosse
não tenho rota marcada
ando ao sabor da maré.

É, por isso, meus amigos,
que a tempestade da Vida
me apanhou no alto mar.

E agora,
queira ou não queira,
cara alegre e braço forte:
estou no meu posto a lutar!
Se for ao fundo acabou-se.
Estas coisas acontecem
aos vagabundos do mar.
Poema de Manuel da Fonseca

JDACT

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

A Bela Poesia. Manuel da Fonseca. «Tu e eu meu amor, meu amor eu e tu, que o amor meu amor é o nu contra o nu»

Cortesia de filhodovento2006

Tu e Eu Meu Amor
Tu e eu meu amor
meu amor eu e tu
que o amor meu amor
é o nu contra o nu.

Nua a mão que segura
outra mão que lhe é dada
nua a suave ternura
na face apaixonada
nua a estrela mais pura
nos olhos da amada
nua a ânsia insegura
de uma boca beijada.

Tu e eu meu amor
meu amor eu e tu
que o amor meu amor
é o nu contra o nu.

Nu o riso e o prazer
como é nua a sentida
lágrima de não ver
na face dolorida
nu o corpo do ser
na hora prometida
meu amor que ao nascer
nus viemos à vida.

Tu e eu meu amor
meu amor eu e tu
que o amor meu amor
é o nu contra o nu.

Nua nua a verdade
tão forte no criar
adulta humanidade
nu o querer e o lutar
dia a dia pelo que há-de
os homens libertar
amor que a eternidade
é ser livre e amar.

Tu e eu meu amor
meu amor eu e tu
que o amor meu amor
é o nu contra o nu.
Manuel da Fonseca, in «Poemas para Adriano»

Cortesia de O CItador/JDACT

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Maria Alzira Seixo. Os Poemas da Minha Vida. «Cada um de nós é decerto poeta, à sua maneira, até mesmo sem escrever. Não posso adiar para outro século a minha vida nem o meu amor nem o meu grito de libertação»

Cortesia de publico 

Não Posso Adiar o Amor para Outro Século
Não posso adiar o amor para outro século
não posso
ainda que o grito sufoque na garganta
ainda que o ódio estale e crepite e arda
sob montanhas cinzentas
e montanhas cinzentas

não posso adiar este abraço
que é uma arma de dois gumes
amor e ódio
não posso adiar
ainda que a noite pese séculos sobre as costas
e a aurora indecisa demore
não posso adiar para outro século a minha vida
nem o meu amor
nem o meu grito de libertação

não posso adiar o coração
Poema de António Ramos Rosa

Cortesia de institutoportuguesdecultura

Romance do terceiro oficial de Finanças
Ah! As coisas incríveis que eu te contava
assim misturadas com luas e estrelas
e a voz vagarosa como o andar da noite!

As coisas incríveis que eu te contava
e me deixavam hirto de surpresa
na solidão da vila quieta!...
Que eu vinha alta noite
como quem vem de longe
e sabe o segredo dos grandes silêncios
- os meus braços no jeito de pedir
e os meus olhos pedindo
o corpo que tu mal debruçavas da varanda!...

(As coisas incríveis eu só as contava
depois de as ouvir do teu corpo, da noite
e da estrela, por cima dos teus cabelos,
Aquela estrela que parecia de propósito para enfeitar os teus
cabelos
quando eu ia namorar-te...)

Mas tudo isso, que era tudo
não era nada da vida!---
Da vida é isto que a vida faz
Ah! sim, isto que a vida faz!...
- isto de tu seres a esposa série e triste
de um terceiro oficial de finanças da Câmara Municipal!...
Poema de Manuel da Fonseca

In Maria Alzira Seixo. Os Poemas da Minha Vida. Público, 2005, ISBN 972-8892-78-0.

Cortesia de Público/JDACT

sábado, 14 de maio de 2011

A Bela Poesia: Manuel da Fonseca. «... ondas do ondear revolto, das ondas do corpo dela tão dominado e tão solto tão vencedor, tão vencido...»

Cortesia de virtualiaomanifesto

Noite de Sonhos Voada
Noite de sonhos voada
cingida por músculos de aço,
profunda distância rouca
da palavra estrangulada
pela boca armodaçada
noutra boca,
ondas do ondear revolto
das ondas do corpo dela
tão dominado e tão solto
tão vencedor, tão vencido
e tão rebelde ao breve espaço
consentido
nesta angústia renovada
de encerrar
fechar
esmagar
o reluzir de uma estrela
num abraço
e a ternura deslumbrada
a doce, funda alegria
noite de sonhos voada
que pelos seus olhos sorria
ao romper de madrugada:
— Ó meu amor, já é dia!...
Manuel da Fonseca

Adormecer
Vai vida na madrugada fria.

O teu amante fica,
na posse deste momento que foi teu,
amorfo e sem limites como um anjo;
a cabeça cheia de estrelas...
Fica abraçado a esta poeira que teu pé levantou.
Fica inútil e hirto como um deus,
desfalecendo na raiva de não poder seguir-te!
Manuel da Fonseca
 
JDACT

Alves Redol e Manuel da Fonseca: O ciclo histórico do Neo-Realismo português no centenário do nascimento dos dois escritores.

 Cortesia de bnp 

Alves Redol, Manuel da Fonseca e o ciclo histórico do Neo-Realismo português.
«No centenário do nascimento dos dois escritores, a mostra bibliográfica pretende situar a obra de ambos no contexto histórico em que a corrente neo-realista configurou um ciclo de pertinência (1937-1959) de uma opção realista na literatura e na arte, não obstante as soluções de mediação estética diversas. Ora, justamente, o autor de Glória, uma Aldeia do Ribatejo e do romance Gaibéus, com forte influência etnográfica inicial, surge na linha de um realismo documental que forma dicotomia com o autor dos poemas de Rosa dos Ventos ou dos contos de Aldeia Nova, cujo realismo é marcadamente lírico.

Alves Redol (1911-1969) e Manuel da Fonseca (1911-1991) iriam posteriormente evoluir:
  • o primeiro para a sua obra clássica, abandonada a tendência para a recolha de campo, a partir do romance A Barca dos Sete Lemes, em 1958, a Muro Branco, de 1966;
  • o segundo, abandonada a tematização alentejana, deu lugar aos temas citadinos de Um Anjo no Trapézio, de 1968, ou de Tempo de Solidão, em 1969.

O cabeçalho do artigo mostra os dois autores, em fotografia,pormenor, de cerca de 1940, da Col. de António da Mota Redol». In Biblioteca Nacional de Portugal.

Cortesia de BN de Portugal/JDACT

domingo, 5 de setembro de 2010

Manuel da Fonseca: «Horizonte todo de roda caiado de sol. Ao meio do cerro gretado esguia cabeça de cobra olha assobios de lume...» (Seara)

Cortesia de yingeyang

Antes que Seja Tarde
Amigo,
tu que choras uma angústia qualquer
e falas de coisas mansas como o luar
e paradas
como as águas de um lago adormecido,
acorda!
Deixa de vez
as margens do regato solitário
onde te miras
como se fosses a tua namorada.
Abandona o jardim sem flores
desse país inventado
onde tu és o único habitante.
Deixa os desejos sem rumo
de barco ao deus-dará
e esse ar de renúncia
às coisas do mundo.
Acorda, amigo,
liberta-te dessa paz podre de milagre
que existe
apenas na tua imaginação.
Abre os olhos e olha,
abre os braços e luta!
Amigo,
antes da morte vir
nasce de vez para a vida.
Manuel da Fonseca, in «Poemas Dispersos»

Ansiedade
Quero compor um poema
onde fremente
cante a vida
das florestas das águas e dos ventos.

Que o meu canto seja
no meio do temporal
uma chicotada de vento
que estremeça as estrelas
desfaça mitos
e rasgue nevoeiros — escancarando sóis!
Manuel da Fonseca, in «Poemas Dispersos»

Cortesia de O Citador/JDACT

sábado, 14 de agosto de 2010

Manuel da Fonseca: «Horizonte todo de roda caiado de sol. Ao meio do cerro gretado esguia cabeça de cobra olha assobios de lume...» (Seara)

Cortesia de falcaodejade

Noite de Sonhos Voada
Noite de sonhos voada
cingida por músculos de aço,
profunda distância rouca
da palavra estrangulada
pela boca armodaçada
noutra boca,
ondas do ondear revolto
das ondas do corpo dela
tão dominado e tão solto
tão vencedor, tão vencido
e tão rebelde ao breve espaço
consentido
nesta angústia renovada
de encerrar
fechar
esmagar
o reluzir de uma estrela
num abraço
e a ternura deslumbrada
a doce, funda alegria
noite de sonhos voada
que pelos seus olhos sorria
ao romper de madrugada:
— Ó meu amor, já é dia!...
Manuel da Fonseca, in «Poemas Dispersos»

Ansiedade
Quero compor um poema
onde fremente
cante a vida
das florestas das águas e dos ventos.

Que o meu canto seja
no meio do temporal
uma chicotada de vento
que estremeça as estrelas
desfaça mitos
e rasgue nevoeiros — escancarando sóis!
Manuel da Fonseca, in «Poemas Dispersos»

JDACT

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Manuel da Fonseca: Um dos representantes do neo-realismo português

Cortesia de centrodeartesdesines
(1911-1993)
Manuel Lopes Fonseca,  foi um  poeta, contista, romancista e cronista português.
Estudou na Escola de Belas-Artes. Existem alguns desenhos e retratos dos companheiros de tertúlias lisboetas. Viajava muito para o seu Alentejo de origem, razão pela qual, o mote dos seus primeiros textos fosse o Alentejo. Anos mais tarde, a partir de «Um Anjo no Trapézio» o espaço das suas obras passa a ser a cidade de Lisboa.
Manuel da Fonseca fez parte do grupo do Novo Cancioneiro, sendo considerado como um dos melhores escritores do neo-realismo português.
«A obra de Manuel da Fonseca "acaba por realizar (...) o destino interventivo que desejou. De tal modo que não é possível estudá-la hoje à margem da mitologia revolucionária de que se alimentou, por longas décadas, a resistência ao regime, mitologia para a qual, afinal, contribuiu decisivamente. De certo modo poderíamos mesmo dizer que a sua obra coloca, como nenhuma outra, a questão da mitologia neo-realista - assim como a do neo-realismo enquanto mitologia». In Osvaldo Silvestre, 1996
Nas suas obras, carregadas de intervenção social e política, relata, como poucos, a vida dura do Alentejo e dos alentejanos.Quando era presidente da Sociedade Portuguesa de Escritores, esta atribuiu o Grande Prémio da Novelística a José Luandino Vieira pela obra Luuanda, levando, posteriormente, ao encerramento desta instituição.
Destacam-se na sua obra: «Rosa dos Ventos», poesia, 1940; «Planície»,  poesia, 1941; «Aldeia Nova», contos, 1942; «Cerro-Maior», romance, 1943; «O Fogo e as Cinzas», contos, 1951; «Seara de Vento», romance, 1958; «Poemas Completos» 1958; «Um Anjo no Trapézio», contos,1968; «Antologia de Fialho d´Almeida», 1984. Trata-se de uma obra essencialmente virada para o espaço físico e humano do Alentejo.
«As personagens dos contos de Manuel da Fonseca são elaboradas, estruturadas, dificilmente surpreendem dentro do imprevisto. As personagens adquirem uma personalidade psicológica que evoluí conforme o meio social em que se encontra, mantendo sempre uma estrutura equilibrada, de onde a razão vai de encontro ao que esperamos da vida, do quotidiano, seja ele vivido no campo ou na cidade. Cada personagem ficcional de Manuel da Fonseca parece a reunião de três indivíduos reais, ou seja, o autor transporta para a ficção duas ou três personalidades reais, fazendo assim, um trabalho de elaboração, onde a história contada tende a um clímax esperado». In virtualiaomanifesto. Em íntima relação com sua produção literária, Manuel da Fonseca desenvolveu uma intensa militância social, política e cultural.
Morre aoa 81 anos de idade.
Antes que Seja Tarde
Amigo,
tu que choras uma angústia qualquer
e falas de coisas mansas como o luar
e paradas
como as águas de um lago adormecido,
acorda!
Deixa de vez
as margens do regato solitário
onde te miras
como se fosses a tua namorada.
Abandona o jardim sem flores
desse país inventado
onde tu és o único habitante.
Deixa os desejos sem rumo
de barco ao deus-dará
e esse ar de renúncia
às coisas do mundo.
Acorda, amigo,
liberta-te dessa paz podre de milagre
que existe
apenas na tua imaginação.
Abre os olhos e olha,
abre os braços e luta!
Amigo,
antes da morte vir
nasce de vez para a vida.
Manuel da Fonseca, in «Poemas Dispersos»
Biblos-Enciclopédia Verbo das Literaturas de Língua portuguesa/JDACT

Adriano Correia de Oliveira: Uma das vozes mais límpidas da nossa terra. Um «espelho» para a juventude

Cortesia de pedroturner
(1942-1982)
Adriano Maria Correia Gomes de Oliveira foi um músico português, intérprete do Fado de Coimbra e elemento da geração de cantores da resistência ao Estado Novo, conhecida como música de intervenção. Foi militante do PCP a partir da década de 1960, envolvendo-se nas greves académicas de 1962. Concorreu à Direcção da Associação Académica de Coimbra  numa lista apoiada pelo MUD.



Em 1963 editou o primeiro disco, «Fados de Coimbra», acompanhado por António Portugal e Rui Pato. Este disco continha o poema «Trova do vento que passa» de Manuel Alegre. Uma balada que o acompanhou ao longo da vida. Adriano foi um «modelo» onde nós nos revíamos, inclusivé com a minha barba «passa-piolho». Foi um «espelho» para a massa estudantil da minha época. 
Cortesia de José Santos Silva
Trocou a cidade do «bazófias», Coimbra,  pela cidade de Lisboa, onde trabalhou como produtor da Editora Orfeu. Em 1969, editou «O Canto e as Armas» com poemas de Manuel Alegre. Nesse mesmo ano ganhou o Prémio Pozal Domingues.
Em 1971 é editado o disco «Gente d'Aqui e de Agora», que marca o primeiro arranjo do maestro José Calvário. José Niza foi o principal compositor neste disco.
Em 1975 lançou «Que Nunca Mais», com direcção musical de Fausto e textos de Manuel da Fonseca. Este álbum levou a revista inglesa Music Week a elegê-lo como Artista do Ano.
Foi co-fundador da Cooperativa Cantabril. O seu último álbum, «Cantigas Portuguesas» foi editado em 1980.
Morre aos 40 anos de idade na sua terra natal de Avintes.

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