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domingo, 23 de abril de 2023

1Q84. Haruki Murakami. «Tengo pensou no que acabara de ouvir. Precisava admitir que de alguma forma Komatsu tinha razão. Afinal, era a intuição de um editor. Mas não seria nada mau dar uma chance a ela, não acha?»

 

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Você me pediu para aguardar com expectativa a próxima obra, disse Komatsu. É claro que eu gostaria de ter essa expectativa. Não há nada mais gratificante para um editor do que criar com carinho um jovem escritor dando-lhe tempo. É emocionante ser o primeiro a descobrir uma estrela nova numa noite de céu límpido. Mas, sinceramente, acho difícil essa garota ter uma segunda chance. Vivo nesse mundo literário há vinte anos. Vi muitos escritores surgindo e desaparecendo. Por isso, posso dizer que aprendi a discernir aqueles que vão vingar daqueles que não. Eu diria que essa garota não terá uma próxima vez. Sinto muito dizer isso, mas não vai ter a próxima nem a próxima da próxima. Para começar, não é uma questão de tempo e estudo o que irá melhorar o texto. Por mais que se espere, a espera será em vão. Sabe porquê? Porque essa pessoa não tem nenhuma gota de vontade de escrever um texto bom, um texto benfeito. Só há duas maneiras de uma pessoa escrever bem: ou ela já nasce com esse talento literário ou ela precisa se empenhar, e muito, para conseguir aprimorar a redacção. E essa garota chamada Fukaeri não se enquadra em nenhuma dessas possibilidades. Como mesmo deve ter notado, ela não tem vocação e, pelo visto, não tem também vontade de se esforçar para tal. Não sei dizer-te o porquê disso. Mas me parece que ela não tem nenhum interesse pela escrita. Só que uma coisa é certa: vontade de contar uma história ela tem. E essa vontade é extremamente forte. Isso eu tenho que reconhecer. E foi essa vontade, expressa de forma espontânea, que te fisgou e igualmente me fez ler a história até ao fim. De certa forma, é realmente admirável. Mas, apesar disso, como escritora, ela não tem futuro. As chances de vingar como escritora são praticamente nulas. Sei que estou decepcionando, mas essa é a minha opinião.

Tengo pensou no que acabara de ouvir. Precisava admitir que de alguma forma Komatsu tinha razão. Afinal, era a intuição de um editor. Mas não seria nada mau dar uma chance a ela, não acha?, perguntou Tengo. Quer dizer, jogá-la na água para ver se ela nada ou afunda? Simplificando, é isso. Até hoje, fui responsável pela morte literária de muita gente. Não quero ver mais gente se afogando. E a minha situação? Você pelo menos está se esforçando, disse Komatsu, escolhendo as palavras. Para mim, é uma qualidade. Você tem uma postura extremamente humilde em relação ao acto de escrever. Sabe porquê? Porque você gosta de escrever. Isso também é algo que valorizo em você. Gostar de escrever é muito importante para quem quer se tornar um escritor, sabia? Mas isso não é tudo.

É claro que não é tudo. É preciso ter algo especial. Eu sou da opinião de que uma obra precisa, no mínimo, ter algo de imprevisível. O que mais valorizo, especialmente num romance, são essas coisas que eu não consigo prever. Quando leio algo que facilmente consigo desvendar, perco totalmente o interesse. Parece óbvio, não parece? Nada mais natural». In Haruki Murakami, 1Q84, 2009, Casa das Letras, 2011, ISBN 978-972-462-053-4.

Cortesia de CasadasLetras/JDACT

Haruki Murakami, Literatura, JDACT,

domingo, 9 de fevereiro de 2020

1Q84. Haruki Murakami. «Significa que nela existe algo. Não é mesmo? Komatsu deixou o cigarro apoiado no cinzeiro e coçou a ponta do nariz com o dedo médio da mão direita»

Cortesia de wikipedia e jdact

Tengo. Uma ideia inusitada
«(…) O que é que estávamos conversando mesmo?, perguntou Tengo, numa tentativa de retomar o assunto. Hum... Do que é que estávamos falando?, disse Komatsu, olhando para o vazio enquanto se tentava lembrar. Ou talvez estivesse apenas fingindo tentar. Tengo não saberia dizer. Os gestos e a fala de Komatsu tinham uma certa dose de encenação. Ah! Já sei. Falávamos sobre a garota chamada Fukaeri e da Crisálida de ar. Tengo concordou, balançando afirmativamente a cabeça. Conversavam sobre Fukaeri e a Crisálida de ar. Tengo começara a falar disso com Komatsu quando, de repente, sofrera o ataque e tivera de interromper a conversa. Tengo tirou da maleta um calhamaço, uma cópia do texto, e deixou-o sobre a mesa. Em seguida, colocou as mãos sobre os papéis para sentir, através do toque, a certeza de que tudo estava ali. Como já te falei rapidamente pelo telefone, o principal mérito da Crisálida de ar é o facto de ela não imitar ninguém. E é muito raro na obra de uma novata não encontrar trechos com a pretensão de querer ser como alguém, disse Tengo, escolhendo cuidadosamente as palavras. É claro que as frases estão mal-elaboradas e o vocabulário é infantil. A começar pelo título, em que ela confunde crisálida e casulo. Se o intuito fosse o de apontar os defeitos, a lista seria enorme. Mas o facto é que essa história possui algo que nos encanta. O enredo em si é fantasioso, mas os detalhes são descritos de maneira extremamente objectiva. O equilíbrio entre fantasia e realidade é muito bom. Não sei se o termo mais adequado para isso seria originalidade ou fatalidade. Se disser que o texto não é isso tudo, vou ter de concordar. Mas só sei que, quando li essa obra, ainda que com muita dificuldade, a minha reacção foi a de um reticente silêncio. Um silêncio que provocava uma sensação estranhamente incómoda, eu diria até desagradável, um sentimento difícil de explicar.
Komatsu olhava em silêncio o rosto de Tengo, aguardando mais explicações. Tengo continuou: eu não queria descartá-la simplesmente porque a redacção é infantil. Nestes últimos anos, o meu trabalho tem sido ler pilhas e mais pilhas de originais. Se bem que o certo seria admitir que eu os lia pulando trechos. Alguns eram bem-escritos, já outros nem valiam a pena serem lidos; e é claro que a maioria se enquadrava neste último caso. Mas, enfim, de tudo que pude ler até agora, a única obra que realmente me fez sentir algo foi a Crisálida de ar. E também foi a única que, após o término da leitura, senti vontade de reler desde o começo. Entendo... Komatsu disse. Após soprar a fumaça do cigarro, calou-se, com uma expressão de total desinteresse. Mas, como não era de hoje que Tengo o conhecia, ele não se deixou enganar por essa atitude. Ele sabia que Komatsu era do tipo que, às vezes, expressava no rosto sentimentos opostos ao que sentia no seu íntimo. Ciente disso, Tengo aguardou pacientemente a iniciativa de Komatsu começar a falar. Eu também li, disse Komatsu, um tempo depois. Assim que recebi seu telefonema, imediatamente resolvi ler o texto. Mas, cá entre nós, ele realmente é muito ruim. Além dos erros gramaticais, há frases em que simplesmente não dá para entender o que se está querendo dizer. Você não acha que, em vez de fazer romances, o melhor seria primeiro aprender a escrever, do zero? Mas mesmo assim você leu até ao fim, não leu? Komatsu sorriu. Um sorriso que pareceu tirar do fundo de uma gaveta pouco usada. Está certo. Você tem razão. Li até ao fim. Eu mesmo me surpreendi, pois nunca fui de ler por inteiro essas obras inscritas para concorrer ao Prémio Literário de Autor Revelação. Ainda por cima, me dei o trabalho de reler certos trechos. Nesse sentido, tenho que admitir que, apesar dos pesares, essa obra tem potencial.
Significa que nela existe algo. Não é mesmo? Komatsu deixou o cigarro apoiado no cinzeiro e coçou a ponta do nariz com o dedo médio da mão direita. A pergunta de Tengo, porém, ficou sem resposta. Essa menina tem apenas dezassete anos e ainda está no colegial. O que ela precisa é apenas ler mais romances e praticar exercícios de redacção. Reconheço que será difícil essa obra ganhar o concurso, mas, sinceramente, acho que vale a pena passá-la para a fase final. Você tem esse poder de decisão, não tem? Se assim o fizer, ela com certeza deve vencer numa outra vez, disse Tengo. Hum... Komatsu limitou-se a soltar uma interjeição e, entediado, bocejou. Em seguida, pegou o copo e tomou um gole de água. Pense nisso, Tengo. Imagine só se um texto tão malfeito como esse for seleccionado para a fase final. Os professores da comissão julgadora vão cair para trás. E, com razão, vão insultá-lo. Se bem que, para começar, eles nem vão ler até ao fim. Os quatro membros da comissão julgadora são escritores. Todos muito ocupados. Eles vão apenas passar os olhos nas duas primeiras páginas e imediatamente descartar o texto. Vão pensar que é uma redacção de algum aluno do ginásio. Acha que, se eu tentar persuadi-los dizendo que nessa obra existe um diamante que só precisa ser lapidado, alguém vai dar-me ouvidos? Se a minha opinião vale alguma coisa, prefiro que ela seja usada para indicar alguém que seja realmente promissor». In Haruki Murakami, 1Q84, 2009, Casa das Letras, 2011, ISBN 978-972-462-053-4.

Cortesia de CasadasLetras/JDACT

quarta-feira, 22 de maio de 2019

1Q84. Haruki Murakami. «Não é nada grave. É como uma vertigem. Se bem que um pouco mais intensa..., explicou Tengo. Sua voz não soava como sua, mas já estava bem-parecida»

Cortesia de wikipedia e jdact

Tengo. Uma ideia inusitada
«(…) Os sons no seu entorno também soavam distantes. E essa imagem que lhe era tão habitual projectava-se inúmeras vezes na sua tela mental. Seu corpo começava a transpirar. Sob a camisa, sentia o suor brotar nas axilas. O corpo dava leves tremeliques. Os batimentos cardíacos aceleravam, provocando intensa palpitação. Quando estava com alguém, Tengo fingia estar com vertigens. De facto, os sintomas eram semelhantes, e era só uma questão de tempo para o seu estado voltar ao normal. Nessas ocasiões, ele tirava o lenço do bolso e, levando-o à boca, mantinha-se quieto. Para tranquilizar quem o acompanhava, costumava levantar a mão sinalizando que estava tudo bem. Às vezes, passava em trinta segundos; em outras, levava pouco mais de um minuto. Durante esse tempo, a mesma imagem se repetia várias e várias vezes de modo automático, como se a tecla de repetição do vídeo-cassete estivesse accionada: sua mãe soltava a alça da camisola e um homem chupava os seus bicos empinados. Ela fechava os olhos e ofegava em longos suspiros. Um ténue cheiro nostálgico de leite materno pairava no ar. O olfacto é o órgão mais desenvolvido do bebé. Ensinava-lhe muita coisa. Em certas ocasiões o olfacto é que lhe ensinava tudo. Não se ouvia nenhum som. O ar se transformava num líquido pastoso. A única coisa que parecia audível eram as suaves batidas do seu coração. Veja isso, os dois lhe diziam. Veja somente isso, eles lhe diziam. V. está aqui e não tem para onde ir, diziam eles. Mensagem que se repetia várias e várias vezes.

Desta vez, o ataque demorou a passar. Tengo mantinha os olhos fechados e, como de costume, segurava o lenço sobre a boca mordendo-o com força. Ele não saberia dizer quanto tempo durou. O único jeito de sabê-lo era por meio da exaustão física que sentia após o ataque. Seu corpo estava muito fatigado. Era a primeira vez que sentia tamanha exaustão. Levou tempo até poder abrir novamente os olhos. Os sentidos queriam despertar o quanto antes, mas seus músculos e órgãos ofereciam resistência. Ele se sentia como um animal em hibernação que, confundindo a estação, despertara antes do previsto. Ei... Tengo!, alguém o chamava havia algum tempo. Era uma voz que parecia vir das profundezas de uma caverna. Foi quando se lembrou de que esse era o seu nome. O que aconteceu? É aquilo de novo? Está tudo bem?, perguntava a voz. Desta vez, ela parecia mais próxima. Tengo finalmente abriu os olhos e os fixou na sua mão direita, agarrada à borda da mesa. Certificou-se de que o mundo não se havia desintegrado e que ele continuava a ser ele mesmo. Ainda sentia uma certa dormência, mas, com certeza, aquilo que via era realmente a sua mão direita. Também sentiu cheiro de suor. Era um odor estranhamente selvagem, como aquele que sentimos em frente à jaula dos animais no zoológico. No entanto, não havia nenhuma dúvida de que o odor era seu.
Sentiu sede. Esticou o braço, pegou o copo sobre a mesa e tomou metade da água, cuidando para não derramá-la. Descansou um pouco para retomar a respiração e, em seguida, bebeu o restante da água. Foi recobrando a consciência e, gradativamente, reanimando os sentidos. Colocou o copo de volta na mesa e enxugou a boca com o lenço. Desculpe-me. Já estou melhor, disse Tengo. Em seguida, assegurou-se de que Komatsu era quem se sentava à sua frente. Os dois estavam conversando numa cafeteria na proximidade da estação Shinjuku. As vozes ao redor voltaram a soar como de costume. Um casal sentado na mesa ao lado olhava-o, indagando entre eles o que teria acontecido. A garçonete estava em pé, ao lado da mesa, parecendo apreensiva. Possivelmente temerosa de que ele vomitasse no assento. Tengo ergueu o rosto e sorriu para ela, na tentativa de acalmá-la. Por acaso isso é algum tipo de ataque?, perguntou Komatsu.
Não é nada grave. É como uma vertigem. Se bem que um pouco mais intensa..., explicou Tengo. Sua voz não soava como sua, mas já estava bem-parecida. Se isso acontecer quando estiver dirigindo, é um perigo, disse Komatsu, olhando para Tengo. Eu não dirijo. É melhor. Um amigo meu, que é alérgico a pólen de cedros, começou a espirrar enquanto dirigia e acabou batendo no poste. Mas, no seu caso, não se trata de espirros. Na primeira vez que te vi assim, confesso que fiquei assustado, mas, como é a segunda vez, a gente já não se assusta tanto. Sinto muito. Tengo pegou a xícara de café e tomou um gole. Não sentiu gosto de nada. Era como engolir um líquido morno. Quer que eu peça mais água?, perguntou Komatsu. Tengo recusou: não, não precisa. Já estou melhor. Komatsu tirou do bolso do blazer um maço de Marlboro e acendeu um cigarro com os fósforos da cafeteria. Depois, lançou um rápido olhar ao seu relógio de pulso». In Haruki Murakami, 1Q84, 2009, Casa das Letras, 2011, ISBN 978-972-462-053-4.

Cortesia de CasadasLetras/JDACT

Caçando Carneiros. Haruki Murakami. «Até chegar ao meu destino, eu já tinha perdido a conta dos maços de cigarro comprados em troca de informações»

Cortesia de wikipedia e jdact

O piquenique das tardes de quarta-feira
«Soube da sua morte por um amigo. Ele viu a notícia quando passava os olhos pelas páginas de um matutino, e a leu lentamente para mim ao telefone. Texto simples. Tipo de artigo em geral delegado a repórteres recém-formados à guisa de treino. No dia tanto do mês tal, um caminhão dirigido por alguém, atropelou outro alguém, em certa esquina. Alguém estava sendo investigado por homicídio involuntário. Parecia um poema curto, desses de primeira página de revista. Onde vai ser o enterro?, perguntei. Não faço ideia, respondeu. Para começo de conversa, ela tinha casa e família? Tinha, é claro. Liguei no mesmo dia para a esquadra de polícia e obtive o seu endereço e o número do telefone. Liguei para o número e informei-me a respeito dos detalhes do enterro. Quase tudo se consegue com um pequeno esforço, já disse alguém.
A sua casa ficava na parte baixa da cidade. Abri um mapa regional de Tóquio e marquei a área com esferográfica vermelha. Típico bairro de cidade baixa. Linhas férreas, de metropolitano e de autocarro entrecruzavam-se como fios de uma teia tecida por aranha desnorteada. Incontáveis ruas e canais atulhavam a área e agarravam-se à crosta terrestre como rugas em casca de melão. No dia do enterro tomei um carro eléctrico em Waseda. Saltei perto do fim da linha e consultei o mapa, que, naquelas condições, me foi quase tão útil quanto o mapa-múndi. Até chegar ao meu destino, eu já tinha perdido a conta dos maços de cigarro comprados em troca de informações.
Era uma casa velha de madeira circundada por uma cerca de tabuinhas marrom. À esquerda do portão havia um jardim minúsculo, de utilidade discutível, e a um canto, abandonado, um velho fogareiro portátil de cerâmica com quase quinze centímetros de água de chuva estagnada. A terra do jardim era preta e húmida. Ela tinha saído de casa aos dezasseis anos. Isso podia explicar o clima melancólico do funeral. Estavam presentes apenas os familiares, gente idosa na sua maioria. A cerimónia foi presidida pelo irmão mais velho, ou quem sabe cunhado, um homem aparentando pouco mais de trinta anos. O pai devia andar pela casa dos cinquenta. Era miúdo e usava faixa de luto na manga do casaco preto. Em pé, ao lado do portão, manteve-se quase imóvel durante todo o tempo. O seu aspecto lembrava asfalto depois que a água da enchente escoa.

Conheci-a no Outono de 1969. Eu tinha vinte anos na época, e ela, dezassete. Havia uma pequena cafeteria perto da faculdade onde eu costumava reunir-me com colegas. Não era grande coisa de estabelecimento, mas ali V. podia sempre tomar um café horroroso ao som de hard rock. Ela se sentava sempre no mesmo lugar, cotovelos fincados na mesa, absorta na leitura de um livro qualquer. Usava óculos que lembravam aparelho ortodóntico e tinha mãos esqueléticas, mas conseguia ser de algum modo atraente. O seu café estava sempre frio, e o cinzeiro, sempre cheio de pontas de cigarro. As únicas variantes eram os livros. Ora Mickey Spillane, ora Kenzaburo Oe, ora Allen Ginsberg. Não lhe importavam autores ou temas, bastava-lhe apenas que fossem livros, quase sempre emprestados de estudantes que frequentavam o local. Ela os lia vorazmente de cabo-a-rabo, como se roesse uma espiga de milho. Naquela época as pessoas emprestavam com prazer, de modo que nunca lhe faltou material para leitura. Eram tempos também do The Doors, dos Stones, dos Byrds, do Deep Purple e dos Moody Blues. Havia certa dose de tensão e instabilidade no ar, dando a impressão de que um bom pontapé seria capaz de deitar abaixo quase tudo. Passávamos os dias bebendo uísque barato, praticando um sexo chocho, discutindo sem chegar a conclusão alguma ou emprestando livros uns aos outros. Enquanto isso, a cortina caía rangendo sobre a década de sessenta, de incómoda memória.

Esqueci o nome dela. Posso procurar o recorte do jornal e verificar, mas nome é o que menos importa agora. Eu o esqueci. Só isso. Uma vez ou outra acontece de me reunir com velhos amigos e de, por acaso, ser ela o assunto da conversa. Ninguém se lembra do nome dela. Dizem, naqueles velhos tempos tinha uma garota que dormia com qualquer um, lembra, como era mesmo o nome dela?, esqueci completamente, eu mesmo dormi com ela algumas vezes, por onde andará agora, ia ser engraçado topar com ela de repente no meio da rua. Era uma vez uma garota que dormia com qualquer um. Eis o seu nome». In Haruki Murakami, Caçando Carneiros, 1982, Alfaguara, 978-857-962-308-0, Casa das Letras, 2007, ISBN 978-972-461-715-2.

Cortesia de Alfaguara/CasadasLetras/JDACT

quinta-feira, 3 de janeiro de 2019

1Q84. Haruki Murakami. «Essa nítida imagem, de cerca de dez segundos, surgia de repente, sem se anunciar, sem aviso prévio, sem hesitação e sem bater na porta, não importava onde Tengo estivesse»

Cortesia de wikipedia e jdact

Tengo. Uma ideia inusitada
«(…) A primeira lembrança de Tengo era de quando tinha um ano e meio de idade. A sua mãe tirava a blusa, soltava as alças da camisola branca, e um homem, que não era seu pai, chupava os bicos de seus seios. No berço, um bebé, que possivelmente era o próprio Tengo, observava a si mesmo como uma terceira pessoa. Ou seria aquele outro um irmão gémeo? Não. Não era. O bebé do berço só poderia ser Tengo com um ano e meio. Ele sabia disso, ainda que intuitivamente. O bebé dormia com um leve ressonar. Essa era a primeira lembrança que Tengo tinha da sua vida. Uma cena de dez segundos nitidamente gravada na tela da sua consciência. Não havia antes nem depois. Era uma lembrança única e isolada, como um campanário que desponta das águas turvas após uma grande inundação na cidade. Todas as vezes que surgia uma oportunidade, Tengo perguntava às pessoas com quem conversava qual era a primeira lembrança delas, e quantos anos tinham nessa época. A maioria respondia que tinha de quatro a cinco anos. Quando muito, três. Não encontrou ninguém que dissesse recordar de algo com menos idade. Dizem que somente a partir dos três anos é que uma criança consegue discernir uma situação que ela presencia. Antes, todas as cenas que passam diante dos seus olhos são caóticas e incompreensíveis: o mundo é como uma papa de arroz, sem estrutura óssea, difícil de encontrar. As cenas passam como que do lado de fora da janela, sem que a mente as registe.
Nesse sentido, era de supor que um bebé de um ano e meio fosse incapaz de entender a cena de um homem, que não era seu pai, chupando os seios da sua mãe. Isso era óbvio. Portanto, caso a lembrança fosse fidedigna, possivelmente era porque Tengo a gravara nas suas retinas sem julgá-la, como a película de uma câmara que regista mecanicamente amálgamas de luz e sombras do objecto. E, na medida em que a sua consciência foi-se desenvolvendo, aquela cena, até então enquadrada e conservada, foi sendo submetida à análise e, gradativamente, sentidos foram-lhe sendo agregados. Mas... Será realmente possível? Será que o cérebro de um bebé realmente é capaz de registar e guardar imagens como aquela?
Ou será que isso era apenas uma falsa lembrança? Uma invenção que a sua consciência criou aleatoriamente, motivada por um suposto objectivo ou artimanha? Invenção da memória: uma possibilidade que Tengo considerou, e muito. Mas, por fim, concluiu que aquilo não era fruto de sua imaginação. A lembrança era intensamente nítida e de forte apelo persuasivo, longe de ser uma mera invenção. Nela havia luz, cheiro, palpitação... Tudo muito real, impossível que fosse falso. Mesmo porque verdadeira, muitas coisas faziam sentido tanto no nível racional quanto no emocional.
Essa nítida imagem, de cerca de dez segundos, surgia de repente, sem se anunciar, sem aviso prévio, sem hesitação e sem bater na porta, não importava onde Tengo estivesse: no comboio, escrevendo equações na lousa, durante as refeições ou até mesmo conversando com alguém (como era o caso, agora). Ela surgia como um devastador e silencioso tsunami. Quando Tengo se dava conta, lá estava ela, bem diante dele, provocando imediato formigamento em seus braços e pernas. Por instantes, o tempo parava. O ar se tornava rarefeito, dificultando a respiração. As pessoas e as coisas ao seu redor desvinculavam-se dele. Uma parede líquida tragava seu corpo. Mas, ainda que sentisse o mundo se fechar em breu, sua consciência não chegava a desfalecer. Era como mudar a posição das agulhas dos trilhos de uma linha férrea. Os sentidos ficavam parcialmente mais aguçados. Não sentia medo. Embora não conseguisse manter os olhos abertos. As pálpebras ficavam pesadamente cerradas». In Haruki Murakami, 1Q84, 2009, Casa das Letras, 2011, ISBN 978-972-462-053-4.

Cortesia de CasadasLetras/JDACT

quarta-feira, 2 de janeiro de 2019

1Q84. Haruki Murakami. «Elas aguardavam em silêncio uma oportunidade que jamais teriam. Aomame contraiu um pouco o queixo, mordeu o lábio inferior e, através das lentes verde-escuras dos óculos»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) As únicas ocasiões em que ela se deixava ficar desse jeito era quando estava sozinha ou precisava afugentar algum homem inconveniente. Ao chegar no trecho de acostamento, Aomame olhou ao redor procurando a escada. Logo a encontrou. Assim como o motorista a precavera, logo na entrada havia um portão trancado e uma cerca de ferro da altura da cintura. Pular a cerca de minissaia era um pouco inconveniente, mas, desde que não se importasse com os olhares alheios, não era tão difícil. Sem titubear, tirou os sapatos e os guardou dentro da bolsa. Andar descalça certamente estragaria as suas meias finas, mas isso era o menos, depois poderia comprar outras. As pessoas, em silêncio, observaram Aomame tirar os sapatos e, em seguida, o casaco. Da janela aberta de um Toyota Celica preto, parado bem à sua frente, a voz aguda de Michael Jackson soava como música de fundo: Billie Jean. Ela se imaginou num palco de striptease. Tudo bem. Olhem à vontade. Vocês devem estar entediados com esse congestionamento, não é? Mas, senhoras e senhores, saibam que não vou tirar mais nada. Por hoje, somente os sapatos e o casaco. Sinto muito, pensou. Aomame colocou a bolsa a tiracolo para evitar que caísse. O novíssimo Toyota Crown Royal Saloon em que ela estivera momentos antes permanecia a uma certa distância. Com o reflexo da luz do entardecer, o para-brisa reluzia ofuscante como um espelho, impossibilitando-a de ver o rosto do motorista. No entanto, ela tinha certeza de que ele a observava.
Não se deixe enganar pelas aparências. A realidade é sempre única. Aomame inspirou e expirou o ar profundamente. E, ao som de Billie Jean, pulou a cerca de ferro. A minissaia subiu quase até a cintura. E eu com isso, pensou. Se querem ver, vejam à vontade. Isso não significa que conseguirão ver quem eu sou. Além disso, as suas belas pernas esguias eram a parte do seu corpo de que mais se orgulhava. Assim que pulou a cerca, Aomame ajeitou a minissaia, bateu as mãos para limpar a poeira, vestiu novamente o casaco e ajeitou a bolsa. Por fim, apertou a ponte dos óculos de sol contra a base do nariz. A escada de emergência estava diante dos seus olhos. Era de ferro e pintada de cinza. Uma escada que atendia às características de simplicidade e funcionalidade. Não era uma escada apropriada para uma mulher descalça, de meia-calça fina e minissaia. Junko Shimada certamente não havia desenhado aquele conjunto de blazer e minissaia imaginando que seria usado nas escadas de emergência de uma via rápida. Um caminhão de grande porte passou do outro lado da pista fazendo balançar a escada, e o vento assobiava ao passar por entre os vãos da armação de ferro. Enfim, a escada estava diante dos seus olhos. Agora era só uma questão de descê-la.
Porém, antes de descer, Aomame virou-se para dar um último olhar na interminável fila de carros, da esquerda para a direita e da direita para a esquerda, com a postura de quem acabou de proferir uma palestra e aguardava em pé, no palco, as perguntas da plateia. Os carros continuavam na mesma posição como que estacionados. As pessoas, confinadas ali e sem terem o que fazer, apenas a observavam, curiosas, possivelmente indagando o que aquela garota afinal estaria fazendo. Do outro lado da cerca, olhares que mesclavam curiosidade, desinteresse, inveja e desprezo convergiam na sua direcção. Os sentimentos dessas pessoas oscilavam como uma balança instável, impossibilitados de pender para um único lado. Um silêncio pesaroso pairava no ar. Ninguém ergueu o braço para fazer perguntas (e, mesmo que alguém as fizesse, Aomame não tinha intenção de respondê-las). Elas aguardavam em silêncio uma oportunidade que jamais teriam. Aomame contraiu um pouco o queixo, mordeu o lábio inferior e, através das lentes verde-escuras dos óculos, lançou um rápido olhar ao redor. Com certeza eles nem imaginam quem sou, para onde vou e o que pretendo fazer, pensou ela, sem mover os lábios. Estão presos aqui, impossibilitados de ir para qualquer lugar. Não podem avançar nem sequer voltar atrás. Mas eu não. Tenho um trabalho a fazer. Uma missão a cumprir. Por isso, peço licença a todos para seguir em frente. Por fim, sua vontade era de fechar a cara para os que ali estavam, mas tentou controlar o ímpeto. Não tinha tempo a perder. E, uma vez de cara fechada, demorava muito para que voltasse ao normal. Aomame ficou de costas para os espectadores silenciosos e, sentindo a rugosidade e a frieza do ferro na planta dos pés, começou a descer as escadas de emergência com passos cautelosos. Os ventos gelados do início de Abril balançavam os seus cabelos e, de vez em quando, deixavam à mostra a sua orelha esquerda assimétrica». In Haruki Murakami, 1Q84, 2009, Casa das Letras, 2011, ISBN 978-972-462-053-4.

Cortesia de CasadasLetras/JDACT

terça-feira, 1 de janeiro de 2019

1Q84. Haruki Murakami. «Aomame caminhou com os passos firmes, a postura erecta, o queixo retraído, os olhos atentos à frente, sentindo na pele uma enxurrada de olhares sobre ela»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) A mãe apenas se limitou a balançar a cabeça negativamente para, em seguida, lançar um rápido olhar de censura a Aomame. No entanto, esta foi a única voz e a única reacção percebida naqueles arredores. Os demais motoristas apenas fumavam e, como a observar algo ofuscante, acompanhavam, com as sobrancelhas levemente franzidas, os passos firmes de Aomame caminhando no vão entre os carros e o muro baixo. Eles pareciam ter suspendido temporariamente o exercício do raciocínio. Não era comum ver alguém andar pela via rápida com os carros parados. E assimilar essa cena inusitada no quotidiano era algo que levava um certo tempo para se aceitar como real. Ainda mais por se tratar de uma jovem de minissaia e salto alto.
Aomame caminhou com os passos firmes, a postura erecta, o queixo retraído, os olhos atentos à frente, sentindo na pele uma enxurrada de olhares sobre ela. Os saltos de seu Charles Jourdan castanho pisavam firmemente no pavimento ressoando batidas secas, e o vento incumbia-se de agitar as abas do seu casaco. Era Abril, mas os ventos ainda gelados traziam consigo um pressentimento hostil. Ela vestia um casaco de meia-estação bege sobre o conjunto de blazer e saia verde, de tecido fino de lã, da Junko Shimada, e carregava uma bolsa de alça de couro preta. Os seus cabelos na altura do ombro tinham um belo corte e eram bem-cuidados. Não usava nenhum tipo de acessório ou algo parecido. Tinha um metro e sessenta e oito de altura, músculos firmes, nenhum excesso de gordura, mas essa parte do corpo o casaco não deixava revelar.
Ao observar atentamente o seu rosto, notava-se que o formato e o tamanho da sua orelha direita eram consideravelmente diferentes dos da esquerda. Além de a orelha esquerda ser bem maior que a direita, era também disforme. Normalmente ninguém notava essa diferença oculta pelos cabelos. Os seus lábios, quando cerrados, desenhavam uma linha recta que lhe conferia um ar pouco expansivo. E o nariz pequeno e fino, as bochechas salientes, a testa larga, as sobrancelhas longas e rectas reforçavam ainda mais esse tipo de personalidade antissocial. Seu rosto era mais para oval. Gostos à parte, ela podia ser considerada bonita. O único porém era a extrema inexpressividade do seu rosto. Os seus lábios cerrados eram incapazes de esboçar um sorriso, a não ser em casos estritamente necessários. Seu olhar, como o de um exímio vigia de convés, era friamente indolente. E, sendo assim, o seu rosto nunca causava uma boa impressão às pessoas. Nem sempre o que chama a atenção e atrai as pessoas é o facto de a fisionomia ser bela ou feia, mas a naturalidade e o refinamento com que a pessoa sabe se expressar.
A maioria das pessoas não conseguia gravar as feições do seu rosto. Bastava desviar os olhos dela para não serem mais capazes de descrevê-lo. Digamos que, apesar do seu rosto possuir características singulares, estas, por incrível que pareça, nunca eram memorizadas. Nesse sentido, ela era como um insecto que habilmente mimetiza o ambiente. E conseguir se camuflar, mudando de cor e de formato, e, ainda, não chamar a atenção e ser uma pessoa difícil de ser lembrada era, de facto, o que Aomame mais desejava. Desde pequena, era o seu jeito de se proteger. No entanto, quando algo a desagradava, o semblante até então apático sofria uma radical transformação. Notava-se uma drástica contracção dos músculos faciais a destacar exageradamente a assimetria entre o lado direito e o esquerdo do seu rosto, um rosto que se deixava frisar por rugas bem acentuadas, olhos afundados, nariz e boca embrutecidos e tortos, queixo repuxado para um dos lados e lábios arreganhados, deixando à mostra dentes grandes e brancos. De uma hora para outra, como se a corda da máscara rebentasse, ela se transformava noutra pessoa. Os que presenciavam essa mudança ficavam aterrorizados com tão pavorosa metamorfose. O medo que eles expressavam era como o de alguém que, para fugir de algo assustador, se vê impelido a pular num abismo profundo. Por isso, diante de desconhecidos, ela se policiava para não fechar a cara». In Haruki Murakami, 1Q84, 2009, Casa das Letras, 2011, ISBN 978-972-462-053-4.

Cortesia de CasadasLetras/JDACT

sábado, 26 de maio de 2018

1Q84. Haruki Murakami. «Do banco do passageiro, a garotinha do Suzuki vermelho, com o rosto fora da janela, olhava boquiaberta para Aomame. Voltando-se para a mãe, perguntou: olha lá…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Aomame contraiu levemente o rosto, olhou o relógio de pulso e os carros em redor. À direita havia um Mitsubishi Pajero preto, coberto por uma fina camada de poeira esbranquiçada. No banco do acompanhante, um rapaz fumava um cigarro com a janela aberta, com ares de entediado. Os seus cabelos eram compridos, tinha a pele bronzeada e vestia uma jaqueta carmesim. Na bagageira havia várias pranchas de surf usadas e sujas. Na frente desse carro havia um Saab 900 cinza. As janelas com películas estavam totalmente fechadas e, de fora, não se enxergavam as pessoas no seu interior. A carroceria estava tão polida que daria para ver o seu rosto reflectido nela. Na frente do táxi em que Aomame estava, havia um Suzuki vermelho, com a traseira levemente amassada e a placa de Nerima. Uma jovem mãe estava ao volante. A criança, aborrecida, andava sobre o banco de trás, de um lado para o outro. A mãe, parecendo irritada, chamava-lhe a atenção. Os movimentos labiais podiam ser lidos através dos vidros. O cenário era o mesmo de dez minutos atrás. Nesses dez minutos, os carros não tinham avançado sequer dez metros.
Aomame pensou um pouco. Organizou mentalmente as suas prioridades e chegou a uma conclusão. Como se acompanhasse a sua decisão, a música de Janácek passou ao último movimento. Com as prioridades devidamente estabelecidas, Aomame tirou da sua bolsa os óculos de sol Ray-Ban e colocou-os. Depois, pegou em três notas de mil ienes da carteira e entregou-as ao motorista: vou sair aqui. Não me posso atrasar. O motorista concordou e, ao receber o dinheiro, perguntou: a senhora precisa de recibo? Não. Pode ficar com o troco, respondeu Aomame. O motorista agradeceu: muito obrigado. Ao descer as escadas, cuidado para não escorregar. O vento está forte. Tomarei cuidado, disse Aomame. E..., com o rosto voltado para o retrovisor, o motorista disse: nunca se esqueça de que as coisas não são o que aparentam ser. As coisas não são o que aparentam ser, Aomame repetiu a frase mentalmente. Franzindo levemente as sobrancelhas, indagou: o que quer dizer? O motorista respondeu escolhendo cuidadosamente as palavras: convenhamos que isso que você vai fazer não é algo comum, não é verdade? Uma pessoa comum jamais desceria a escada de emergência de uma via expresso em plena luz do dia. Ainda mais sendo mulher. Tem razão, concordou Aomame.
Quando se faz algo incomum, as cenas quotidianas se tornam... Digamos que se tornam ligeiramente diferentes do normal. Isso já aconteceu comigo. Mas não se deixe enganar pelas aparências. A realidade é sempre única. Aomame pensou no que o motorista lhe disse. Enquanto reflectia, a música de Janácek chegava ao fim com uma acalorada e ininterrupta salva de palmas da plateia. A rádio transmitia a gravação ao vivo de um concerto. Por um longo tempo, aplausos reverberaram entusiásticos com intercalados gritos efusivos de Bravo! Aomame imaginou o maestro sorrindo, curvando-se várias vezes diante de toda uma plateia em pé. Ele segue cumprimentando o primeiro violino com um aperto de mão para, em seguida, com os braços erguidos, aplaudir os demais membros da orquestra; e, por fim, voltar-se à plateia curvando-se demoradamente em reverência. Ao ouvir atentamente os aplausos durante um certo tempo, eles passaram a soar como uma ininterrupta tempestade de areia em Marte. A realidade é sempre única, reiterou o motorista, desta vez pausadamente, como que sublinhando algum trecho importante de um texto.
Tem razão, concordou Aomame. Isso mesmo. Um objecto só pode estar num determinado espaço e num determinado tempo. Albert Einstein provou isso. A realidade é sempre objectiva e indubitavelmente única. Aomame apontou para o stéreo do carro e disse: muito bom o som. O motorista concordou e perguntou: Como era o nome do compositor? Janácek. Janácek, repetiu o motorista como se memorizasse uma senha importante para, em seguida, destravar a porta automática do banco de trás. Tenha cuidado. Espero que consiga chegar a tempo. Aomame desceu do carro segurando a sua grande bolsa de couro e, no rádio, os aplausos continuavam ininterruptos. Ela caminhou cuidadosamente pelo canto da via expresso em direcção à saída de emergência, uns dez metros à frente. Todas as vezes que um caminhão grande passava no outro lado da via o chão parecia tremer debaixo dos seus sapatos de salto alto. Tremor que na verdade mais parecia uma ondulação. Era como andar na superfície de um porta-aviões, sobre ondas enfurecidas. Do banco do passageiro, a garotinha do Suzuki vermelho, com o rosto fora da janela, olhava boquiaberta para Aomame. Voltando-se para a mãe, perguntou: olha lá… O que aquela mulher está fazendo? Aonde ela vai? Também quero andar lá fora. Viu mãe, quero sair. Viu mãe..., a garotinha exigia e insistia aos berros para que a mãe a deixasse sair do carro». In Haruki Murakami, 1Q84, 2009, Casa das Letras, 2011, ISBN 978-972-462-053-4.

Cortesia de CasadasLetras/JDACT

sexta-feira, 12 de maio de 2017

1Q84. Haruki Murakami. «Ao olhar atentamente, Aomame viu que do lado esquerdo da via dupla havia um local reservado para os carros avariados»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) E onde é a próxima saída? É em Ikejiri, mas acho que só chegaremos lá de noite. De noite?, inquietou-se Aomame, ao imaginar que ficaria presa no táxi até ao anoitecer. A música de Janáček continuava a tocar. Os instrumentos de corda, em surdina, surgiam em primeiro plano como que para acalmar os ânimos exaltados. Aquela estranha sensação de estar sendo espremida já não era tão intensa como antes. O que será que aconteceu? Aomame pegara o táxi nas proximidades de Kinuta e, de Yôga, pedira para o motorista pegar a Rota 3 da via expressa. No começo, o tráfego fluía normalmente, mas, nas proximidades da Sangenjaya, de repente, a via tinha começado a ficar congestionada e o trânsito travou. Enquanto a expressa no sentido bairro fluía bem, no sentido oposto o congestionamento era monstruoso. Normalmente, a via expressa no sentido centro, após as três da tarde, não costumava parar. Razão pela qual Aomame havia pedido que o motorista fosse por ela. Na via expressa, a tarifa não é cobrada pelo tempo, disse o motorista, olhando o espelho retrovisor. Por isso, não se preocupe com isso. O problema é você se atrasar para o compromisso, não é? Realmente, não vai ser bom; mas não tem outro jeito, tem?
O motorista olhou de relance o rosto de Aomame moldado pelo espelho retrovisor. Ele usava óculos de sol, as lentes levemente escurecidas. De onde ela estava, a luminosidade não permitia que visse a expressão dele. Talvez exista um jeito. Digamos que é uma saída emergencial para você apanhar o comboio até Shibuya. Saída emergencial? Não é muito comum. Aomame aguardou a continuação da conversa com expectativa no olhar. Está vendo lá na frente um espaço reservado para o estacionamento?, perguntou o motorista apontando naquela direcção. É bem na altura daquela placa enorme da Esso.
Ao olhar atentamente, Aomame viu que do lado esquerdo da via dupla havia um local reservado para os carros avariados. Como não existem estacionamentos ao longo das vias expressas, determinados locais são reservados para encostar carros numa eventual emergência. Ali estão instaladas cabines amarelas com telefones de emergência para falar com o escritório da Companhia Metropolitana do Sistema Viário. Naquele momento, não havia nenhum carro no local. Em cima do prédio que ficava rente à via oposta havia um outdoor enorme com a propaganda da Esso: um tigre sorridente segurando o bico da bomba de combustível.
Lá existe uma escada para que os motoristas possam abandonar os carros e descer do viaduto em casos de incêndio ou terremoto. Mas, geralmente, são os operários que fazem a manutenção da via que costumam utilizá-la. Se você descer a escada, vai estar bem próxima da estação onde passa a linha Tokkyû. Apanhando o metro, estará em Shibuya num piscar de olhos. Eu não sabia que havia uma escada de emergência na via expressa, disse Aomame. Em geral, quase ninguém sabe. Mas..., se eu usar a escada sem ser em caso de emergência, não vai dar problema? O motorista fez uma pausa antes de responder. Será? Não conheço muito bem o regulamento dessas empresas públicas de trânsito, mas acho que eles fariam vista grossa; não estaria prejudicando ninguém. E acho difícil ter alguém vigiando o local. Afinal, todo mundo sabe que, apesar de ser grande o contingente de funcionários, são poucos os que realmente trabalham.
Como é essa escada? Bem, ela se parece com aquelas escadas de emergência utilizadas em casos de incêndio. Aquelas que se veem nos prédios antigos do lado de fora. Não é perigosa. A escada tem a altura de um prédio de dois andares e é relativamente fácil descer por ela. Logo na entrada há uma cerca, não muito alta, que não será difícil pular. O senhor já precisou usar essa escada? Não houve resposta. O motorista apenas esboçava um sorriso que Aomame viu através do espelho retrovisor. Um sorriso que dava margem a inúmeras interpretações. A decisão é sua, disse o motorista, batendo as pontas dos dedos no volante, ao ritmo da música. Se quiser ficar sentada ouvindo tranquilamente música num bom aparelho de som, por mim tudo bem. Nesse caso, só nos resta conformar, pois, seja como for, não iremos a lugar algum. Mas, se tem um compromisso urgente, há de convir que existe uma alternativa, ainda que emergencial». In In Haruki Murakami, 1Q84, 2009, Casa das Letras, 2011, ISBN 978-972-462-053-4.

Cortesia de CasadasLetras/JDACT

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

1Q84. Haruki Murakami. «Muito obrigado. A propósito..., indagou o motorista, virando um pouco a cabeça para o lado em que ela estava: está com pressa? Tenho um compromisso em Shibuya. Foi por isso que pedi para o senhor…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«Eis o mundo do espectáculo em que tudo é fantasia; mas, se você acreditar em mim, real ele se tornará»

Não se deixe enganar pelas aparências (Aomame)
«(…) Aomame concordou e, novamente, se recostou no assento. O jeito de o motorista falar a incomodava. Era como se ele sempre deixasse algo muito importante por dizer. Por exemplo (e esse é apenas um exemplo), era como se ele dissesse que não tinha nenhuma reclamação quanto ao isolamento acústico dos carros da Toyota, mas deixava implícito que outros requesitos ainda tinham algo a ser melhorado. Quando ele falava, pairava no ar uma pequenina, mas significativa massa de silêncio. Massa silenciosa a flutuar como uma minúscula nuvem imaginária no interior do carro. E isso a deixava incomodada. Realmente. É silencioso, disse Aomame, como que para afugentar essa pequenina nuvem. O aparelho de som parece ser de óptima qualidade! Tive de criar coragem na hora de comprá-lo, disse o motorista. Ele falava como um oficial aposentado do Estado-Maior comentando sobre as estratégias de guerra do passado. Como passo muitas horas dentro do carro, quero ouvir um bom som e... Aomame aguardou a continuação da conversa. Mas a espera foi em vão. Ela novamente fechou os olhos para apreciar a música. Aomame não tinha nenhuma ideia de como teria sido Janáček pessoalmente, mas de uma coisa ela sabia: ele nunca imaginou que em 1984 alguém escutaria sua música em Tóquio, dentro de um silencioso Toyota Crown Royal Saloon, em plena via expressa totalmente congestionada. Mas o mais incrível era o facto de Aomame saber prontamente que a música era a Sinfonietta de Janáček, e que havia sido composta em 1926. Ela nunca fora muito fã de música clássica e, tampouco, tinha alguma lembrança pessoal relacionada a Janáček. Mesmo assim, bastou ouvir os acordes iniciais para que inúmeros conhecimentos surgissem espontaneamente. Era como uma revoada de pássaros a adentrar pela janela aberta de um quarto. A música também provocava em Aomame uma estranha sensação, como se estivesse sendo retorcida. Sem dor, sem sofrimento. Uma sensação única, como se seu corpo estivesse sendo espremido lenta e firmemente. Aomame não sabia o que estava acontecendo. Será que a Sinfonietta é que provocava essa sensação estranha? Janáček, disse Aomame, espontaneamente. E logo se arrependeu de tê-lo dito. O que disse? Janáček. Foi quem compôs essa música. Nunca ouvi falar. É um compositor checo, disse Aomame. Ah é?, exclamou o motorista, parecendo admirado. O táxi é seu?, perguntou Aomame para mudar de assunto. É sim, respondeu o motorista e, um tempo depois, comentou: sou autónomo e este é o meu segundo carro. É muito confortável!
Muito obrigado. A propósito..., indagou o motorista, virando um pouco a cabeça para o lado em que ela estava: está com pressa? Tenho um compromisso em Shibuya. Foi por isso que pedi para o senhor pegar a via expressa. A que horas é o encontro? Quatro e meia, respondeu Aomame. Agora são três e quarenta e cinco. Creio que não chegaremos a tempo. O congestionamento está tão ruim assim? Parece que houve um acidente grave lá na frente. Esse congestionamento não é normal. Já faz um bom tempo que estamos aqui, praticamente sem sair do lugar. Aomame achou estranho o motorista ainda não ter procurado se informar sobre o trânsito pelo rádio. Normalmente, quando ocorre algum congestionamento que trava a via expressa, os taxistas costumam sintonizar a rádio numa frequência especial para obterem informações sobre o ocorrido. Dá para saber, mesmo sem ouvir as informações do trânsito?, perguntou Aomame.
Não se pode confiar nessas informações, respondeu o motorista, num tom de voz imparcial. Metade do que dizem é mentira. As concessionárias que administram essas rodovias públicas só informam o que lhes convêm. O único jeito de saber o que realmente está acontecendo é ver com os próprios olhos e tirar suas conclusões. Então, pelas suas conclusões, este congestionamento não vai melhorar tão cedo. Tão cedo, acho difícil, disse o motorista, maneando calmamente a cabeça, de modo afirmativo. Isso eu posso garantir. A via expressa, quando está desse jeito, fica um inferno. E..., esse seu compromisso é muito importante? Aomame pensou um pouco antes de responder: É. E muito. Vou me encontrar com um cliente. Sinto muito, mas acho que você não vai conseguir chegar a tempo. Dito isso, o motorista movimentou lentamente a cabeça como que para relaxar a rigidez dos músculos. As rugas detrás do pescoço mexiam como se fossem seres pré-históricos. Enquanto Aomame observava as rugas em movimento, de súbito, lembrou-se de que, no fundo de sua bolsa, havia um objecto extremamente pontiagudo. As palmas de suas mãos começaram a transpirar. Se é assim, o que o senhor acha que devo fazer? Não há o que fazer. Estamos numa via expressa e, até chegarmos à próxima saída, não tem jeito. Se estivéssemos numa via comum, bastaria descer do carro e pegar o comboio na estação mais próxima». In Haruki Murakami, 1Q84, 2009, Alfaguara, Editora Objectiva, 2012, ISBN 978-857-962-187-1.

Cortesia de EObjectiva/Alfaguara/JDACT

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

1Q84. Haruki Murakami. «O que mais chamava a atenção era o facto de o carro ser silencioso. O isolamento acústico bloqueava praticamente todo o ruído externo. Era como estar num estúdio à prova de som»


Cortesia de wikipedia e jdact

«Eis o mundo do espectáculo em que tudo é fantasia; mas, se você acreditar em mim, real ele se tornará»

Não se deixe enganar pelas aparências (Aomame)
«O rádio do táxi estava sintonizado em FM numa estação de música clássica. Tocava a Sinfonietta de Janácek. Aquela provavelmente não era uma das músicas mais apropriadas para se ouvir num táxi, em pleno congestionamento. O motorista também não parecia estar prestando muita atenção a ela. Como um experiente pescador que, de pé na proa de seu barco, pressente algo ruim ao observar o encontro das correntes marítimas, esse senhor de meia-idade olhava, em silêncio, a fileira de carros à sua frente. Aomame, confortavelmente recostada no banco de trás, escutava a música com os olhos levemente cerrados.Quantas pessoas no mundo seriam capazes de identificar que aquela era a Sinfonietta de Janácek, ouvindo apenas os primeiros acordes? Provavelmente seriam entre muito poucas a quase nenhuma. Por acaso, Aomame era uma delas. Janácek compôs a pequena sinfonia em 1926. A princípio, a parte introdutória fora composta para servir de tema de fanfarra numa competição desportiva. Aomame pôs-se a imaginar a Tchecoslováquia de 1926. Com o fim da Primeira Guerra Mundial e, finalmente, livres do longo período de domínio dos Habsburgo, as pessoas se reuniam em cafés e desfrutavam a paz momentânea na Europa Central, bebendo cerveja Pilsen enquanto outras fabricavam as legítimas e gélidas metralhadoras. Dois anos antes, Franz Kafka deixara este mundo após uma vida de infortúnios. Em breve, Hitler surgiria do nada e, num piscar de olhos, assolaria aquele país pequenino e belo; mas o facto é que, naquele momento, ninguém sequer imaginava quão cruelmente seriam devorados. A única máxima que a História parece nos revelar, de suma importância, é que naquela época, ninguém sabia o que estava para acontecer. Embalada pela música, Aomame imaginou uma delicada brisa deslizando sobre as planícies da Boémia; imagem que a instigou a pensar nos rumos da História. Em 1926, com a morte do Imperador Taishó, dava-se início ao período Shówa. Mudança que também marcava o começo de uma era negra e sombria, prestes a assolar o Japão. Findava o breve interlúdio entre o modernismo e a democracia; e o fascismo começava a mostrar suas garras.
História, assim como Desporto, era um dos assuntos preferidos de Aomame. Romances, quase não os lia, mas, em compensação, procurava ler tudo que estivesse relacionado a História. O que a fascinava era constatar que todos os acontecimentos estavam intrinsecamente relacionados a datas e locais específicos. Memorizar datas históricas não era algo tão difícil para ela. Nunca precisou decorá-las, pois bastava contextualizar os acontecimentos para que as datas surgissem espontaneamente. Durante o ginásio e o colegial, Aomame sempre se destacara nas provas de história. E toda vez que alguém reclamava da dificuldade de memorizar datas, Aomame pensava indignada: por que será que não consegue aprender algo tão fácil? Aomame, ou ervilha verde, era seu verdadeiro sobrenome. O avô paterno era da província de Fukushima e, nos vilarejos e cidadezinhas daquela região montanhosa, de facto, existiam pessoas com o mesmo sobrenome. Mas ela nunca chegou a conhecer o local. Antes mesmo de ela nascer, seu pai havia cortado relações com a família. Sua mãe fizera o mesmo. Razão pela qual Aomame não conhecia seus avós. Ela raramente viajava, mas, vez por outra, quando o fazia, tinha o hábito de folhear a lista telefónica do quarto do hotel para verificar se havia algum Aomame residente na região. No entanto, em todas as metrópoles e cidades em que esteve, nunca encontrou ninguém. Nessas ocasiões, ela se sentia totalmente só; solitária como um náufrago na vastidão do oceano. Ter de dizer o sobrenome sempre fora um transtorno. Ao se apresentar, as pessoas lhe lançavam um olhar perplexo ou se mostravam hesitantes: Aomame? Isso mesmo... Escreve-se ao, de aoi, verde; e mame, de ervilha; e se lê Aomame’, ervilha verde. Sem contar que, na época em que trabalhava numa empresa e precisava ter o cartão de visita sempre à mão, os aborrecimentos também não eram poucos. Tão logo mostrava o cartão de visita, a pessoa detinha-se a olhá-lo demoradamente. Era como se acabasse de receber uma carta inesperada com notícias desagradáveis. De vez em quando, ao atender uma ligação e se identificar, costumava ouvir risadinhas do outro lado da linha. Quando a chamavam nas salas de espera de repartições públicas ou hospitais, os demais logo olhavam para ela, curiosos em saber como seria a cara de uma Aomame: a cara da sra. Ervilha Verde.
Às vezes, as pessoas erravam seu nome e a chamavam de sra. Edamame, soja. Isso quando não a chamavam de Soramame, fava. Nessas ocasiões, ela corrigia: não é Edamame (ou Soramame), é Aomame. É quase tudo a mesma coisa, mas... A pessoa, constrangida, pedia desculpas e, com um sorriso sem graça, comentava: puxa... Que sobrenome diferente! Ela já havia perdido a conta de quantas vezes tivera de escutar a mesma ladainha nesses seus trinta anos de existência. Igualmente, perdeu a conta de quantas vezes seu sobrenome fora alvo de piadinhas infames. Se não tivesse nascido com ele, sua vida hoje poderia ser bem diferente. Se seu sobrenome fosse daqueles bem comuns, como Sató, Tanaka ou Suzuki, quem sabe sua vida teria sido bem menos estressante e ela seria hoje uma pessoa bem mais condescendente com o mundo. Quem sabe... Aomame apreciava a música com os olhos fechados, deixando-se envolver pelos belíssimos acordes em uníssono dos instrumentos de sopro. Foi quando, de repente, ocorreu-lhe que a qualidade do som era boa demais para um táxi. O som tinha densidade, e a harmonia dos instrumentos era nítida, a despeito de o volume estar baixo. Foi então que ela abriu os olhos e resolveu se debruçar para olhar o aparelho de som no painel. Era todo preto, sumptuosamente reluzente. E, apesar de não conseguir ver a marca, reconheceu, de imediato, que era de primeira linha. Havia diversos botões distribuídos no painel onde números verdes se destacavam com elegante luminosidade. Era, sem dúvida, um aparelho de última geração. Um taxista de frota jamais instalaria um equipamento de som tão sofisticado.
Aomame pôs-se a observar atentamente o interior do veículo. E, ainda que não tivesse reparado antes, de tão envolvida em mil pensamentos, agora se dava conta de que, realmente, não se tratava de um táxi comum. O acabamento interno era de boa qualidade, e o assento muito confortável. O que mais chamava a atenção era o facto de o carro ser silencioso. O isolamento acústico bloqueava praticamente todo o ruído externo. Era como estar num estúdio à prova de som. Devia ser um táxi particular, pois, dentre os autónomos, alguns realmente não se importavam em gastar com o carro. Movendo discretamente os olhos, Aomame procurou o registo do veículo, mas não o encontrou. O táxi, porém, não parecia ser clandestino. O taxímetro era oficial e marcava corretamente o preço: 2.150 ienes. O único problema era não encontrar o registo com o nome do motorista. Que carro óptimo! É bem silencioso..., comentou Aomame, do banco de trás. Como se chama este carro? É o Crown Royal Saloon, da Toyota, a resposta do motorista foi sucinta. O som é muito bom. É um carro silencioso. Foi um dos motivos que me fizeram ficar com ele. A tecnologia de isolamento acústico da Toyota é uma das melhores do mundo». In Haruki Murakami, 1Q84, 2009, Alfaguara, Editora Objectiva, 2012, ISBN 978-857-962-187-1.

Cortesia de EObjectiva/Alfaguara/JDACT

sábado, 12 de março de 2016

Caçando Carneiros. Haruki Murakami. «Estavam presentes apenas os familiares, gente idosa na sua maioria. A cerimónia foi presidida pelo irmão mais velho, ou quem sabe cunhado, um homem aparentando pouco mais de trinta anos»

jdact e wikipedia

O piquenique das tardes de quarta-feira
«Soube da sua morte por um amigo. Ele viu a notícia quando passava os olhos pelas páginas de um matutino, e leu-a lentamente para mim ao telefone. Texto simples. Tipo do artigo em geral delegado a repórteres recém-formados à guisa de treino. No dia tanto do mês tal, um caminhão dirigido por alguém atropelou outro alguém em certa esquina. Alguém estava sendo investigado por homicídio involuntário. Parecia um poema curto, desses de primeira página de revista. Onde vai ser o enterro?, perguntei. Não faço ideia, respondeu. Para começo de conversa, ela tinha casa e família? Tinha, é claro. Liguei no mesmo dia para a esquadra da polícia e obtive o seu endereço e o número de telefone. Liguei o número em seguida e informei-me a respeito dos detalhes do enterro. Quase tudo se consegue com um pequeno esforço, já disse alguém. A sua casa ficava na parte baixa da cidade. Abri um mapa regional de Tóquio e marquei a área com esferográfica vermelha. Típico bairro de cidade baixa. Linhas férreas, de metro e de autocarros entrecruzavam-se como fios de uma teia tecida por aranha desnorteada. Incontáveis ruas e canais atulhavam a área e agarravam-se à crosta terrestre como rugas em casca de melão. No dia do enterro tomei um autocarro em Waseda. Saí perto do fim da linha e consultei o mapa, que, naquelas condições, me foi quase tão útil quanto o mapa-múndi. Até chegar ao meu destino, eu já tinha perdido a conta dos maços de cigarro comprados em troca de informações. Era uma casa velha de madeira circundada por uma cerca de tabuinhas marrom. À esquerda do portão havia um jardim minúsculo, de utilidade discutível, e a um canto, abandonado, um velho fogareiro portátil de cerâmica com quase quinze centímetros de água de chuva estagnada. A terra do jardim era preta e húmida. Ela tinha saído de casa aos dezasseis anos. Isso podia explicar o clima melancólico do funeral. Estavam presentes apenas os familiares, gente idosa na sua maioria. A cerimónia foi presidida pelo irmão mais velho, ou quem sabe cunhado, um homem aparentando pouco mais de trinta anos. O pai devia andar pela casa dos cinquenta. Era miúdo e usava faixa de luto na manga do terno preto. Em pé ao lado do portão, manteve-se quase imóvel durante todo o tempo. O seu aspecto lembrava asfalto depois que a água da enchente escoa. Conheci-a no Outono de 1969. Eu tinha vinte anos na época, e ela, dezassete. Havia uma pequena cafetaria perto da faculdade onde eu costumava reunir-me com colegas. Não era grande coisa de estabelecimento, mas ali podia sempre tomar um café horroroso ao som de hard rock. Ela sentava-se sempre no mesmo lugar, cotovelos fincados na mesa, absorta na leitura de um livro qualquer. Usava óculos que lembravam aparelho ortodóntico e tinha mãos esqueléticas, mas conseguia ser de algum modo atraente. O seu café estava sempre frio, e o cinzeiro, sempre cheio de pontas de cigarro. As únicas variantes eram os livros. Ora Mickey Spillane, ora Kenzaburo Oe, ora Allen Ginsberg. Não lhe importavam autores ou temas, bastava-lhe apenas que fossem livros, quase sempre emprestados de estudantes que frequentavam o local. Ela os lia vorazmente de início ao fim, como se roesse uma espiga de milho. Naquela época as pessoas emprestavam com prazer, de modo que nunca lhe faltou material para leitura. Eram tempos também do The Doors, dos Stones, dos Byrds, do Deep Purple e dos Moody Blues. Havia certa dose de tensão e instabilidade no ar, dando a impressão de que um bom pontapé seria capaz de deitar abaixo quase tudo. Passávamos os dias bebendo uísque barato, praticando um sexo choço, discutindo sem chegar a conclusão alguma ou emprestando livros uns aos outros. Enquanto isso, a cortina caía rangendo sobre a década de sessenta, de incómoda memória. Esqueci o nome dela. Posso procurar o recorte do jornal e verificar, mas nome é o que menos importa agora. Eu esqueci-o. Só isso. Vez ou outra acontece de me reunir com velhos amigos e de, por acaso, ser ela o assunto da conversa. Ninguém se lembra do nome dela. Dizem, naqueles velhos tempos tinha uma garota que dormia com qualquer um, lembra, como era mesmo o nome dela?, esqueci completamente, eu mesmo dormi com ela algumas vezes, por onde andará agora, ia ser engraçado topar com ela de repente no meio da rua. Era uma vez uma garota que dormia com qualquer um. Eis o seu nome. Estritamente falando, não dormia com qualquer um, é claro. Devia ter os seus critérios. Por outro lado, e objectivamente falando, era também inegável que ela dormia com quase todo mundo. Eu quis saber desses critérios uma única vez, por pura curiosidade. Bem…, disse ela. Trinta segundos de silêncio pensativo se seguiram. Não é que eu aceite dormir com qualquer um, é claro. Alguns me enojam, às vezes. No fundo, talvez eu esteja apenas querendo conhecer as pessoas. Ou talvez seja desse modo que o mundo passe a fazer sentido para mim. Dormindo com homens? A-hã. Foi a minha vez de pensar por instantes. E…, fez sentido, por acaso? Algum, respondeu». In Haruki Murakami, Caçando Carneiros, 1982, tradução de Leiko Gotoda, Prisa Edições, Alfaguara, Editora Objectiva, 2014, ISBN 978-857-962-317-2.

Cortesia de Alfaguara/EObjectiva/JDACT