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terça-feira, 7 de abril de 2015

Corpo Nu. Senti Amargo. Hélio C. Ferreira. «Assim como lavamos o corpo devíamos lavar o destino, mudar de vida como mudamos de roupa. Prouvera aos deuses, meu coração triste, que o destino tivesse um sentido…»

jdact

Corpo Nu
«Espaço solto
silêncio que não queima
a fenda corpo nu
exposta aqui em vão
sombreada parede
leito devoluto
glaciar parado
em mar revolto.
Só!

Escravos de cetim
teus pensamentos
cobertos de desejos
desmedidos
estrutura do nada
fel caminho
repouso natural
em peito meu.

E logo voltas
muro ensanguentado
capricho em teu desterro
de vómitos cuspido.
Passa
mas volta
formiga monstruosa
entrega esse poder
de dar
que me revolta.

E queda-te a meus pés
já rastejando
que nada me tiraste
maré de fogo
num mundo separado.

Silêncio que não queima
a fenda corpo nu
exposta aqui em vão
entrega esse poder
ou diz enfim
que não».


Senti Amargo
«Senti amargo
em madrugada fria
certeza descontente
desse olhar parado
colhi gritos de riso
gemidos de prazer
em erva enlameada
no múltiplo capricho
que nua revelaste.

Cuspi de raiva
a tua boca seca
bebi teu leite
escorregando nojo
depois brinquei comigo
e só que estava.
Dormi sentindo
o erro que tu eras

Senti amargo
em madrugada fria
eu nada sou amor
sou só o que queria».
Poemas de Hélio C. Ferreira, in ‘As Virgens’

JDACT

sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

No 31. Poesia. Hélio Ferreira. Harpa. «Dizer uma cousa falha, não porque sugerir seja melhor, mas porque ser é melhor. Cultura não é ler muito, nem saber muito; é conhecer muito. Viver não é necessário. Necessário é criar»

jdact e wikipedia

Noite luz
«Marco de ternura
sem cansaço
brisa amor
que o mal te curará
ondulantes caprichos
de desejos loucos
padrões do meu sentir
em rio meu.

Murmúrios liberdade
renegados
de natureza grito
dor e tu
que alguém encontrará
no amor nascer
que não sentiu
o medo de morrer

Marco de ternura
sem cansaço
mistério denegrido
em mim tortura
versos horas
quebrados em bocados
levada que murmura
sem cuidados.

Oh noite luz
mulher que aconteceu
procura dum chegar
numa palavra vem
aqui fiquei
amor que não morreu
de tanto que gritou
e já no fim
nasceu».


O teu rosto
«Simbiótico mutismo
descarnado

Reverso acontecer
que me atormenta

Mentira colectiva
terra arado

Sentido de viver
nunca acabado

Caminha devagar
vai caminhando

Verga teu peito
chora amigo meu

Lava teu rosto
cobre de respeito

O outro que de andar
até morreu»
Poemas de Hélio C. Ferreira, in ‘As Virgens’

JDACT

domingo, 13 de julho de 2014

Poemas. As Virgens. Hélio Ferreira. «Escutam respirando o eco da verdade que a hora lhes chegou na noite da cidade e o pensamento vago tacteante inulto calmo»

jdact

As Virgens
«Esponsálias em fogo
perdidas de verdade
entrelaçadas
loucas
desmedidas
castas
quase mortas
lutam em comum
desesperadas
desbaratando forças.
Dois corpos virginais
bebidos de suor
selados em procuras
discutindo Amor.

Escutam respirando
o eco da verdade
que a hora lhes chegou
na noite da cidade
e o pensamento
vago
tacteante
inulto
calmo.
Num curto despertar
cede
ao fogo já apagado
procurando amor
em calmo mar».

Muro Estrangulado
«Dentro do muro
vazio estrangulado.
O meu cansaço espera
farto de tanto caminhar
reaparece só.
 - Esfera desmedida
que vejo posso dar
no vago reencontro
sem nada te pedir
surto inacabado.

Recordo que te dei
o pensamento
sintomático mostrar
do teu surgir
embutido
inverso
encurralado
no tudo que passava
e não se via.

Por de negativo
inspirar
o nada
que por ser.
Já existia
nos roucos gritos
locomotiva humana
que descem por caminhos.
Tronco nu.

Solta
a tua virgindade
nascente fogueada
e as sombras rectilíneas
que te cobrem.
Façam descer
sobre esta cama
o meu cansaço espera.
Muro estrangulado
onde transpiras
sangue
onde respiras
lama.
Poemas de Hélio Ferreira, in ‘Virgens’

In Hélio Costa Ferreira, Poemas As Virgens, Oficinas Gráficas Reunidos, Porto, 1972.

Cortesia de OGReunidos/JDACT