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segunda-feira, 27 de maio de 2019

A Biblioteca Secreta de Leonardo. Francesco Fioretti. «Foram mandados pelos venezianos e são famosos pela sua ferocidade: armados à turca, decapitam os inimigos com mais facilidade do que tu a cortar um caciocavallo»

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Milão. Corte Vecchia. 7 de Fevereiro de 1496
«(…) Gian Giacomo levantou-se e aproximou-se da mesa, ainda titubeante. Depois voltou a fechar o embrulho e desceu ao piso inferior. Voltou poucos minutos depois, com o membro na mão, sem o cartucho ensanguentado. Leonardo pegou nele e observou-o atentamente. Bela mão, disse. Não tem calos, não é uma mão de camponês, nem de guerreiro. Mas também não é de um príncipe. A menos que... Já sei: é a direita de um canhoto. Um canhoto como o mestre, disse o rapaz, sabe do que fala. Ao contrário de mim, é um canhoto que foi obrigado a corrigir-se, que para escrever, mas provavelmente só para escrever, usa precisamente esta mão: tem um resto de tinta no indicador; sinal de que sabia escrever, e devia fazê-lo com frequência… Talvez, disse Gian Giacomo, quem a perdeu ainda esteja lá. Se nos despacharmos, procuramos o proprietário e podemos devolvê-la. Mas também podemos esbarrar com o seu perseguidor, que, ao que parece, está armado com machado ou cimitarra: o corte é limpo, como o de um carrasco experiente ou de um estradiota albanês, conheces? Há vários na cidade, sobreviventes da guerra contra os franceses de Carlos VIII. Foram mandados pelos venezianos e são famosos pela sua ferocidade: armados à turca, decapitam os inimigos com mais facilidade do que tu a cortar um caciocavallo. E depois, diz-me uma coisa, o que faz agora o ex-proprietário com a sua direita? Guarda-a numa caixa como recordação? Mas a nós, pode-nos ser útil.
Salai não lhe perguntou para quê, já percebera. Aquela mania do seu mestre de desmontar as coisas, de as abrir, até os mortos, homens, cavalos ou pássaros que fossem, para lhes perceber (ou arrancar) o funcionamento. Mania que ele não compreendia. Ao menos ele roubava, a sua fixação não exigia particulares explicações, o ganho de um furto era evidente. Mas o que se ganhava ao abrir cadáveres? Era só uma coisa nojenta, uma paixão mórbida, pior do que a sua. Por outro lado, contudo, nunca se poria a dar lições de moral ao seu mestre. O seu mestre era bom e não tinha culpa alguma de tudo o que lhe acontecera, motivo pelo qual não conseguia ter paz, nem nunca conseguiria.
Investigaremos com calma, continuou Leonardo, talvez para tranquilizá-lo. Um homem sem mão, se ainda estiver vivo, não passa despercebido, nem um estradiota armado com uma cimitarra. Dito isto, trabalhou a mão como se fosse de barro, colocou-a numa pose lisonjeira, depois pegou na sanguina e desenhou-a numa folha de papel. Desenhava tudo, com extrema rapidez». In Francesco Fioretti, A Biblioteca Secreta de Leonardo, 2018, Marcador Editora, Editorial Presença, 2019, ISBN 978-989-754-394-4.

Cortesia de MarcadorE/EPresença/JDACT

sábado, 27 de abril de 2019

A Biblioteca Secreta de Leonardo. Francesco Fioretti. «É um sinal celeste, o corte da mão é a pena clássica dos ladrões. Esta é a mão direita, por isso, o seu dono deverá ter roubado algo muito precioso»

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Milão. Corte Vecchia. 7 de Fevereiro de 1496
«(…) Pelo canto do olho, Leonardo seguia preocupado os movimentos de Gian Giacomo, o seu aprendiz de 15 anos, a quem, contudo, chamava Salai, nome de um diabo do Morgante de Pulci. Notara que o rapaz voltara com um cartucho sujo e um tanto húmido na mão, que depositara sobre a mesa junto ao livro de Luca Pacioli. Depois fora-se sentar no banco atrás de si, e tornara-se impossível continuar a espiá-lo disfarçadamente. Até breve, mestre Leonardo!, despediu-se Cardano. O artista acompanhou-o à porta, no piso térreo: até breve. Depois voltou ao piso de cima. Salai continuava ali, encolhido no banco, de rosto pálido como se, pelo caminho, tivesse encontrado Belzebu em pessoa. Tremia, até. Leonardo correu para o cartucho ensanguentado depositado sobre a mesa pelo seu assistente. Abriu-o, viu o que estava lá dentro e deu um salto para trás, enojado. Uma mão humana, cortada com um golpe preciso à altura do pulso. E o sangue era fresco.
Enlouqueceste?, gritou, dirigindo-se a Salai, que levantou para ele um olhar que parecia implorar piedade. Sei que és ladrão e reincidente, mas que te dê agora para roubar ao próximo até pedaços de membros... Desde o dia em que o pai, um pobre operário da Brianza, lho oferecera, digamos assim, cinco anos antes, que Gian Giacomo revelara este defeito: era um ladrão inveterado. Não por necessidade, porque Leonardo gostava dele como de um filho e gastava mais com ele do que consigo mesmo, mas por uma espécie de doença. Roubava dinheiro, jóias, objectos mais ou menos preciosos de todo o tipo, até os caríssimos pigmentos de azul-ultramar, oito ducados a onça, a renda de um ano no Borghetto. Era mais forte do que ele, não conseguia refrear-se, era como se tivesse de compensar o facto de ter sido abandonado pelos pais aos 10 anos, como se a própria natureza estivesse em dívida para com ele e todos os outros seres humanos, sem distinção de classe, sexo ou idade, não fossem mais do que os titulares daquela dívida imensa. Leonardo afeiçoara-se a ele até de mais: no rapazito, que considerava lindíssimo, revia-se a si próprio adolescente, os mesmos caracóis dourados, o mesmo olhar atrevido e impertinente de quando ele, mais ou menos com a mesma idade, posara para o David do seu mestre florentino, Verrocchio, e fora imortalizado naquela estátua em toda a sua inconsciente, e melancólica, desfaçatez de então. Por outro lado, até isto tinham em comum, o terem sofrido um abandono precoce. Mas, isto é certo, haviam desenvolvido modos opostos de se compensarem: Gian Giacomo roubava tudo o que podia, já Leonardo tudo o que gostaria de roubar à mãe natureza eram os seus infinitos segredos. Então? Ficaste mudo?
Salai começou a balbuciar imprecações no dialecto da Brianza. Quando o seu elóquio se fez compreensível, a Leonardo pareceu-lhe perceber o que se segue: que o rapaz, ao anoitecer, ia a passar pela catedral debaixo do zimbório de construção recente, aquele para o qual também Leonardo apresentara um projecto que, contudo, fora chumbado; debaixo dos andaimes ainda montados daquela parte da igreja em construção ouvira um grito aterrador que vinha do alto; os operários já deviam ter saído, por isso, já não deveria estar ali ninguém; parara a olhar para cima, mas na penumbra do crepúsculo não conseguira distinguir silhuetas humanas; logo a seguir, à sua frente, vira a coisa cair, ouvira um baque, inclinara-se sobre o objecto acabado de chover do alto: era a mão decepada; apanhara-a, embrulhara-a em papel, enfiara-a na bolsa e desatara a correr como um louco na direcção da Corte Vecchia. E era tudo. Que não lhe perguntasse porque se comportara daquela forma, que não parara para pensar, simplesmente fora um gesto espontâneo, o embrulhar a mão e levá-la para casa. Lava-a!, intimou-o o mestre. Como?
É um sinal celeste, o corte da mão é a pena clássica dos ladrões. Esta é a mão direita, por isso, o seu dono deverá ter roubado algo muito precioso. Aconteceu-te para que saibas qual é o teu destino se não deixares de roubar a torto-e-a-direito. Estás à espera de quê? Eu disse-te para a lavares». In Francesco Fioretti, A Biblioteca Secreta de Leonardo, 2018, Marcador Editora, Editorial Presença, 2019, ISBN 978-989-754-394-4.

Cortesia de MarcadorE/EPresença/JDACT

A Biblioteca Secreta de Leonardo. Francesco Fioretti. «Aqui estão eles, os cento e dezanove soldos. Conte-os também, por segurança. Desta vez, pelo menos, ser Fazio apresentara-se com uma cópia nova e não cortada da Summa de Luca Pacioli»

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Prólogo
«A quinta-essência, espírito dos elementos, vendo-se aprisionada pela alma do corpo humano, deseja sempre regressar ao seu mandatário. E vós, sabei que este desejo existe na quinta-essência companheira. E o homem é modelo do mundo. Aprende a multiplicação das raízes com o mestre Luca». In apontamentos de Leonardo da Vinci

E era assim que acontecia também em Sforzinda, a cidade perfeita desenhada por Filarete, em estrela de oito torres, inscrita no círculo e no octógono, com os seus bastiões, e os muros possantes. Que estava agora seriamente ameaçada pelas forças obscuras e agressivas do Esquecimento, do Primeiro Caos, da Desmentegansa, como se diz por aqui. Mas não ficara ninguém a resistir, a vender, como nós, cara a pele. Apenas Salai e eu, um frade, uma duquesa sem ducado, mais ninguém, barricados cá dentro. Felizmente, tudo estava bem predisposto. O inimigo chegaria de todas as direcções, de todas as partes apontaria contra os muros as suas bocas de fogo aterradoras... Vivemos um tempo férvido e agora vieram reclamá-lo.
[…]

Milão. Corte Vecchia. 7 de Fevereiro de 1496
O rapaz entrou ofegante e de rosto pálido, naquele seu habitual ar descontraído e rebelde , cruz e delícia do seu mestre. Leonardo observou-o com atenção, fingindo que nada se passava e continuando a conversar com Fazio Cardano, que fora visitá-lo à sua oficina da Corte Vecchia, ao lado da catedral. Fazio Cardano, desdentado e muito feio, tinha o seu costumeiro fato vermelho, e estava a pôr a capa preta. Vestia-se sempre do mesmo modo: era uma personagem singular. Em Milão ninguém sabia se era médico ou jurisconsulto, mas certo era que se ocupava de alquimia e de ciências ocultas. Passara há pouco os 50 anos, por vezes falava sozinho, com o seu génio familiar, dizia ele. Sabia imensas coisas, mas era a confusão em pessoa, misturava ciência e superstição, astrologia e anatomia, álgebra e mitologia egípcia, num saber desordenado e desprovido de método, no qual os demónios e os teoremas de Euclides eram objecto da mesma não muito bem definida matéria de estudo. Mas possuía livros valiosos, e Leonardo há muito tempo que fazia a corte à perspectiva de Al-Kindi, que Fazio se gabava de possuir, mas que nunca lhe mostrara. E, gostaria de aprender as matemáticas de que ser Fazio se dizia especialista, mas evitava sempre as suas perguntas: como se enquadra um triângulo, e porque é impossível enquadrar um círculo?
Aqui estão eles, os cento e dezanove soldos. Conte-os também, por segurança. Desta vez, pelo menos, ser Fazio apresentara-se com uma cópia nova e não cortada da Summa de Luca Pacioli, Tê-la-ia dado por 130 soldos, uma quantia bastante consistente, mais do dobro do que lhe custara a Bíblia em língua vulgar que deveria servir-lhe para a Última Ceia de Santa Maria delle Grazie. O livro do franciscano de Sansepolcro era, contudo, precisamente aquilo de que Leonardo necessitava. Ali estava tudo. Era de facto a soma de todo o saber matemático do seu tempo: da álgebra à partida dobrada, da arquitectura à perspectiva, da geometria euclidiana à matemática financeira... Ali estava mesmo tudo. Após uma longa negociação, haviam descido até 119 soldos, e agora Cardano, após guardar o dinheiro num saquinho de pele, decidira-se finalmente a ir embora. A Summa, bem encadernada, estava ali, em cima da mesa no meio daquela grande divisão». In Francesco Fioretti, A Biblioteca Secreta de Leonardo, 2018, Marcador Editora, Editorial Presença, 2019, ISBN 978-989-754-394-4.

Cortesia de MarcadorE/EPresença/JDACT