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segunda-feira, 4 de setembro de 2023

Onde Vais Isabel? Maria Helena Ventura. «E desata a rir medonho, contagiando os vagabundos qne o acompanham. Um deles, com uma faca mal afiada na mão dextra, segura-me pelos cabelos com a esquerda, obrigando-me a levantar do banco…»

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VII

«Essa noite não consigo dormir. Encostado às portadas da janela imagino-me um ramo de arbusto viçoso, derrubado por um vento quente. O vento é a dor da ausência de Juan, irreverente olhar sobre coisas e gentes, a farejar à noite os sons da natureza. Quando eu me anunciava cozia o pão de castanhas, a bolacha estaladiça de trigo negro e azeite, preparava o coalho de leite fervido excedentário dos queijos. E apresentava-me frescos os manjares, como pai ansioso à espera do filho pródigo. Nunca, nunca mais verei meu tio saborear com o sorriso a minha sofreguidão.

Um dia peço permissão para ir até Barcelona, com saudades das charnecas, da casa da viúva em Santa Margarida els Monjos. Penso até avançar mais, talvez à beira do mar aspirar aquele ar salino que tanto me apaixona. Chego à casa pela calada da noite, onde a viúva, pouco mais velha do que eu, me espera ansiosa desde que mandei o aviso. Maga extasiada, oferece-me a minha primeira experiência adulta, como se tivesse guardado os segredos agridoces do amor para uma ocasião especial, a ocasião do retorno. Mal sabe que, daí a poucos dias, partirei para sempre.

Embriagar por embriagar, atrevo-me quase madrugada a fazer o que me anda na mona há dois anos, vencer o resto da distância até ao cais, que acolhe gentes de todas as latitudes. O porto está calmo. Só as águas repetem o monótono lamento contra o costado dos barcos. Depois de vaguear entre destroços de caixas, entro numa taberna da cidade, de seis por oito côvados de área, quase vazia a esta hora. Três ou quatro maltrapilhos, ninguém, a roncar no canto mais abrigado, uma mulher de rosto macerado a dormitar num banco, encostada a uma trave levantada contra o tecto. Meio adormecido também, já depois de beber mais uma tagra,-penso nas reviravoltas da vida quando oiço ao longe aquela voz pastosa de surrapa, num linguajar meio desconhecido. Não é ele o sobrinho do frade e do outro?

E desata a rir medonho, contagiando os vagabundos qne o acompanham. Um deles, com uma faca mal afiada na mão dextra, segura-me pelos cabelos com a esquerda, obrigando-me a levantar do banco com o pescoço encolhido de dor.

Que tal ficariam estas fuças se lhe fizéssemos o mesmo?

Sinto a barriga a resmungar, nem sei se borro as pantalonas. E quase a vomitar restos de vinho e jantar, atrevo-me a fazer pela sorte, a pensar que às tantas é o meu fim.

Eu não vos fiz mal nenhum, deixem-me em paz. Estou ao serviço da rainha dona Isabel. E depois? O nosso senhor há-de tomar estas terras, e todos vocês hão-de rastejar. Deixem-me, pela Virgem do Pilar. Eu nada fiz- Mas fez o teu tio monge, que gosta de adorar cabeças feias como as de um bode. Se calhar nem ele sabe que foi por isso que morreu o da viola, feito em pasta de salmoura.

Nessa altura, um tacho salvador na cabeça do imundo, a distracção dos outros, valem-me a fuga. Ouço gritaria de mulher, decerto a pobre que me salvou a levar tunda, enquanto arranco a tremer das pernas até ao cavalo. Atabalhoado, sem encontrar as pontas da arreata, enfio por caminhos de cabras, a cavalgar até o coração saltar do peito. Já perto de Penedès meto-me numa loja entre dornas e arcas de sal, depois cavalgo de novo até uma elevação onde fico acaçapado, entre as moitas.

Nem sei se sonhei. Quando a madrugada começa a clarear, ainda me cerca a teia protectora de filamentos de estrelas, a derreterem como ouro à medida que o sol anuncia a chegada ao trono». In Maria Helena Ventura, Onde Vais Isabel?, 2008, Edições Saída de Emergência, 2008, ISBN  978-989-637-034-3.

Cortesia de ESEmergência/JDACT

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domingo, 3 de setembro de 2023

Onde Vais Isabel? Maria Helena Ventura. «À noite bufões, trovadores, mesteirais, segréis repetem lá fora a viva animação vivida entre as grossas paredes de Aljaferia, durante uma semana inteira, com bodo ao povo e esmolas aos pobres»

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VII

«(…) Gosto de cozinhas, esta soberba, para saciar a fome a sede dos caminhos. Atravesso átrios, arcadas, belos corredores sob os claustros deste magnifico paço, à espera de ordens de dona Isabel, pela boca de Soledad. Como não há sinal dela até ao cair da noite, exploro recantos interiores não vedados, depois pátios refrescados por alvercas e aroma de laranjeiras, entre canteiros de rosmaninho dispostos com elegância. Respiro um ar sublime, a alma apaziguada. E no entanto a lembrança de Juan atravessa essa paz com silvos intermitentes, como se não pudesse gozar o descanso enquanto o não souber num mergulho invertido nas estrelas, deitado na austera maciez da choça.

No outro dia acordamos com trombetas, anúncio de verdadeira festa no paço e entre os muros da cidade. À noite bufões, trovadores, mesteirais, segréis repetem lá fora a viva animação vivida entre as grossas paredes de Aljaferia, durante uma semana inteira, com bodo ao povo e esmolas aos pobres.

Aqui passamos dois meses na paz dos anjos, apesar de se espalhar a confusão por Castela, à conta da guerra de sucessão. De um lado Sancho, usurpador da coroa ao filho do irmão mais velho, já morto. Do outro lado o pai, Afonso X, que designara o neto, para sucessor. Afonso é avô materno do rei de Portugal, casado em segundas núpcias com uma irmã do pai de dona Isabel. Não é recomendável, ainda, a viagem para ocidente. Atravessar terras de ânimos acesos, podia fazer perigar o séquito.

Entretanto as tropas de Pedro III, na Sicília, chefiadas por Conrado Lanza, alcançam grandes vitórias contra as de Carlos de Anjou. O rei de Aragão vibra de tal modo que acaba por considerar uma aproximação ao campo das operações. E numa das noites mais tristes desta estadia agradável, anuncia a partida e despede-se da filha. Toma o rumo de El Joll, na África, a pretexto de ir ajudar o rei Abu Beer. A verdade é que aguarda mais de perto um chamamento certo da sua gente, na Sicília.

Falava eu de paz dos anjos. Isso até chegar aquela triste notícia da morte de Juan de Cardeña por apedrejamento, a três léguas de Santes Creus, na antevéspera da partida para Portugal. Até a organização do tempo de dona Isabel sofre grave alteração. Deixa o cuidado das rosas pela manhã, as lições de língua portuguesa pelas tardes, e não descansa enquanto não vê satisfeitos seus rogos aos irmãos mais velhos, para que obtenham do clero local, ainda reticente, a ordem para ser dado enterramento cristão ao irmão de sua aia.

Nessa altura revejo meu tio Ángel. Com os monges de Monzón, os bispos de Zaragoza e Huesca, com Soledad e uns poucos servidores dos paços reais, lá vou ajudar a cavar a sepultura sob o carvalho mais frondoso, como pedia Juan, entre a casa de pedra e a choça de Vilafranca del Pènedès. Nem flores nem lamentos. Tapamos a campa com pedras maneiras, colocamos à cabeceira uma cruz de madeira tosca, desfazemos os torrões maiores para alisar a última cama. O único luxo é a pequena lápide inclinada a meio do comprimento, oferta de dona Isabel, com os dizeres de O Livro da Sabedoria por ela mesma escolhidos: Os sentidos são de Deus. E nada mais, só meus soluços de varão que ainda não aprendeu a domesticar sentimentos». In Maria Helena Ventura, Onde Vais Isabel?, 2008, Edições Saída de Emergência, 2008, ISBN  978-989-637-034-3.

Cortesia de ESEmergência/JDACT

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segunda-feira, 19 de junho de 2023

Conheces Sancho? Maria Helena Ventura. «Tomai-a vós, antes de qualquer outro... Ainda não estou preparado, dom Abril Peres. E vira-lhe as costas, irritado, com ele e com os outros cortesãos que o pressionam da mesma forma. Ainda não esqueceu o que lhe fizeram, o que lhe fez Abril Peres...»

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Como se Modela um Homem

«Sancho acorda de noite banhado em suor, perseguido por pesadelos constantes. A concórdia com as tias e a indemnização ao arcebispo de Braga foram assinadas três meses depois de assumir o trono, mas a trasladação do corpo do pai para Alcobaça ainda não foi cumprida.

O novo chanceler, mestre Vicente, insiste nas campanhas para sul inscritas no plano de Cruzada peninsular, uma ideia trazida de Roma ainda no tempo em que representava seu pai. A fortaleza de Elvas... a fortaleza de Elvas... e todas as noites ele se vê envolvido num baptismo de guerra, entre gritos estridentes de campos de batalha.

Abril Peres ronda, agora menos agressivo. Dia sim, dia não, vem falar-lhe da vantagem de desposar a filha Urraca, a mais formosa donzela do reino. Fez-lhe a vontade, nomeando-o mordomo logo no segundo ano de reinado. Agora arrepende-se de lhe ter confirmado o cargo no princípio deste ano. Quando percebe que os outros privados enaltecem as donzelas da família, Abril insiste no mesmo assunto como se fosse uma prioridade

Tomai-a vós, antes de qualquer outro...

Ainda não estou preparado, dom Abril Peres. E vira-lhe as costas, irritado, com ele e com os outros cortesãos que o pressionam da mesma forma. Ainda não esqueceu o que lhe fizeram, o que lhe fez Abril Peres... Soube, logo depois do pesadelo, que lhe cabiam as culpas pela introdução de uma manceba no quarto, o quarto que pertencera a sua mãe. jamais lhe perdoará essa falta de respeito. Urraca Abril pode ser de grande formosura e piedade, mas nunca será a escolhida por causa da prepotência do pai. Se já se julga com direito a controlá-lo, então julgar-se-ia um vice-rei…

Mas há outra razão de peso para rejeitar a ideia. Martim Gil de Soverosa, filho maior de Gil Vasques, tornou-se seu amigo pessoal. Passam muito tempo juntos, eles e Gil Martins, filho do alferes-mor, a conversar sobre as coisas do reino, intimidades, segredos antigos. Martim já confessou que sente por Urraca uma paixão avassaladora e ela assume que lhe corresponde. É o primeiro amor de ambos, senhor, comenta Gil à mesa do desjejum, antes de os outros chegarem Vejo que estais emocionado, lembra-vos alguma coisa? Lembra-me que sou da mesma idade, e vós, senhor dom Sancho?

Também penso no assunto, mas o que mais me preocupa é a necessidade de fazer mudanças na cúria. Agora que tenho mestre Vicente como chanceler, queria um varão menos iroso do que Abril Peres, para mordomo. Quereis nivelar a cúpula da cúria pela moderação. Gostaria de recuperar Pêro Anes da Nóvoa. Seria uma boa aposta, senhor, mas vai estando entrado na idade... Já me custa ver Abril Peres por aqui, ouvi-lo a toda a hora a repetir sandices. Sinto um estranho afecto por ele, reconheço-lhe qualidades superiores, mas não me agrada nada o seu carácter

Abril é bem apostado, pode ser brando e violento, tanto infunde afectos como ódios. Já falastes com meu pai e mestre Vicente, sobre o assunto? Vosso pai aconselhou-me a esperar mais algum tempo, para ponderarmos melhor. Lembrou que Abril é vingativo, seria bom que não saísse de costas voltadas; quanto a mestre Vicente, deixou ao meu critério. Segui o conselho de meu pai, pondera sempre o que diz. Estou tentado a fazê-lo, mas quem consegue suportar Abril na corte?

Olha sobre o ombro do amigo para um e outro lado, depois baixa o tom de voz para fazer uma revelação com algum constrangimento. Ontem, depois de lhe ter virado as costas e de vir para a minha sala, fui até à janela para respirar ar puro. Abril estava no pátio, a acenar-me e a fazer gestos obscenos. Que gestos, senhor dom Sancho?» In Maria Helena Ventura, Conheces Sancho?, 2016, Saída de Emergência, 2016, ISBN 978-989-637-951-3.

Cortesia de SaídadeEmergência/JDACT

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sábado, 2 de julho de 2022

A Musa de Camões. A Musa de Camões. «Caminha agora, devagar, a auscultar o silêncio. Pára um pouco, hesitante, as forças a escorregarem pelo medo da revelação. Quem quer que seja sairá antes dela?»

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Madrugada. Os Pássaros da Bonança

«(…) Levanta a cabeça na direcção dos vitrais, na sua frente. Roda o olhar para o centro da nave, onde convergem os feixes de luz acabada de nascer, coados em finíssima poalha pelas frestas da parede, do seu lado direito. Nota a sombra de alguém a manchá-los... Quem pode ser a esta hora da manhã? Curiosidade e instinto de defesa, vira-se ligeiramente para trás, para o lado esquerdo do transepto, quando pressente uma pessoa encoberta com a coluna de pedra, desse lado. A sombra encena intermitentes coreografias: aparece, esconde-se assim que ela vira a cabeça para trás, reaparece quando a pressente concentrada na oração. Na concentração aparente da Infanta há lugar para uma angústia que nunca experimentou, mormente quando ouve o roçar de fato na pedra. Retoma a posição de orar, as mãos postas ate sentir o terço castigar os dedos, ainda com a cabeça ligeiramente voltada para o mesmo lado. O seu ângulo de visão apercebe o vulto de dona Paula, lá à frente, mas não quer denunciar a presença intrusa nem alterar o rumo dos acontecimentos iminentes.

Alguém repete a imprudência de espreitar, numa impaciência reveladora que começa a preocupá-la. Deve ser um homem, mas para que se esconde depois de ter cometido tamanha ousadia? Nessa altura o desconforto acende uma lâmpada no silêncio das lembranças recentes: frases, avisos meus e de outros moradores dos paços, advertências de nobres que muito a estimam em memória de seu pai, têm pedido cuidado. Mais do que uma presença curiosa a sombra pode trazer o abismo... Brevíssima fractura de receios para quem nunca foi tomado por eles. Na mesma posição incómoda confirma mais uma, duas vezes, que não pode estar enganada: espiam-lhe os movimentos descaradamente num lugar de culto, mas não alcança quem poderia escolher a casa de Deus para agir em seu proveito ou proveito de outrem. Vai-se toda a paz de espírito capaz de convocar piedosos apelos, vai-se a vontade de rezar, a confissão. Em ambiente de repente tão estranho só lhe resta fazer por descobrir quem é, ao que vem, porque persiste em tal atrevimento. Nem que seja um novo morador do paço, a melhor maneira de saber é obrigá-lo a revelar a identidade e acabar com a intromissão. E antes que esmoreça a coragem benze-se, levanta-se, ajoelha na passadeira a meio da nave, simula o abandono da capela, tudo isto no tempo em que costuma fazer o sinal da cruz. Enquanto roda o corpo ainda vê a sombra pela última vez, acompanhada do roçar das  roupas.

Caminha agora, devagar, a auscultar o silêncio. Pára um pouco, hesitante, as forças a escorregarem pelo medo da revelação. Quem quer que seja sairá antes dela? E se lá estiver, atrever-se-á a poisar os olhos na irmã de El Rei? Pode chamar dona Paula ou frei António, esperar que ambos venham ao seu encontro. Tal como o pensa toma o sentido contrário, certa de levar o desconhecido a acreditar que o seu destino é a sacristia. Mas mal anda metade do caminho logo se volta direita à porta, .com duas passadas mais rápidas, decidida a surpreendê-lo. E logra obter o efeito que pretende. O homem não pode dissimular a presença, quase enroscado na coluna de pedra em movimento lento, rotativo, no sentido inverso ao dos passos que se aproximam». In Maria Helena Ventura, A Musa de Camões, 2006, Saída de Emergência, 2006, ISBN 972-883-940-5.

Cortesia de SdeEmergência/JDACT

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A Musa de Camões. A Musa de Camões. «Sua Senhoria também se esqueceu deles, em busca da concentração que tarda em chegar. Não é a piedosa postura das imagens que lhe prende a atenção…»

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Madrugada. Os Pássaros da Bonança

«(…) Dona Paula vai até à porta que dá para a capela certificar-se de estarem sós, com o pretexto de ver se Sua Senhoria ordena alguma coisa. Começa por intriga-la a diferente concentração que lhe nota, a rezar de cabeça meio levantada ligeiramente inclinada para a esquerda, como se quisesse dar por tudo o que se passa à volta, mas entende que é melhor não lhe interromper as orações. Torna à sacristia, confiante, tomando o lugar no assento. Frei António arranjou entretanto o seu, um caixote virado ao contrário que experimenta, divertido. Comentam agora a célebre carta de dona Luísa Sigea ao papa Paulo III, sobre as regras da boa conversação, o poema Sintra, os elogios à Senhora Infanta, o agrado que deu tanto ao Santo Padre como a toda a corte pelo conteúdo, pela elegante fluência da escrita. Divergem ainda sobre outros assuntos, a conversa animada a esquecer o correr do tempo.

Frei António partilha alegremente a cultura que vem adquirindo, sabe dosear a informação. Cada interlocutor é um universo de formas de expressão, um cofre de intenções, e ele aprendeu a saber transmitir o equilíbrio entre o que espera cada um e o que lhe é devido. A uma dama como dona Paula, à mui nobre Infanta dona Maria de Portugal, pode abrir o coração sem medo. Mas ainda que muito tenha ouvido a quem o ensina, e tenha paru dizer a quem o ouve, com ninguém se atreve a falar mais do que convém. Bem sabe que o seu natural encanto inspira sempre simpatia e não contando embora para a salvação das almas, muito acrescenta ao brilho intelectual e até à falta dele, porém o comedimento é uma das maiores virtudes e muito lhe tem aproveitado saber usá-lo.

Sua Senhoria também se esqueceu deles, em busca da concentração que tarda em chegar. Não é a piedosa postura das imagens que lhe prende a atenção mais dó que o costume. Nem o fino debruado de talha à volta da capela-mor. Será a mesa vestida com a toalha branca de finíssimo linho?... Por ela se levanta logo que sua dama recolhe à sacristia. Passa os suaves dedos pelo tecido bordado feito sobre uma das estampas, heiligen, de xilogravuras vindas da Alemanha. Este motivo de S. Cristóvão a passar um rio com o menino ao colo, chegou a desagradar à rainha por fugir à representação angelical das mais v.ulgares. Mas depois, apesar da resistência aos elementos de forte inspiração oriental, dona Catarina elogiou fartamente a obra acabada. Sua Senhoria analisa cada pormenor, contente da escolha acertada do desenho, do mérito das bordadeiras do seu paço. Porém conclui que não é a toalha que lhe tira a concentração, é uma desconfiança...

Retrocede até à primeira fila de bancos, do lado direito do pouco largo transepto. Ajoelha, de novo, sem saber porque não flui a oração. Pensamentos desencontrados, ideias esfiapadas, já tinha dado por elas, ainda que há pouco o passeio na muralha lhe trouxesse profundo ânimo, como sempre. São tão gratos esses minutos ao raiar da aurora, ausência de ruído mas não silêncio total, a discreta musicalidade da manhã em tons pastel, chilreios de pássaros que agitam a copa das árvores antes das pessoas acordarem... Nenhum outro momento lhe diz tanta paz, ao mesmo tempo que a inibe de expressão verbal inteligível. Então porque é hoje tão débil a vontade de rezar?» In Maria Helena Ventura, A Musa de Camões, 2006, Saída de Emergência, 2006, ISBN 972-883-940-5.

Cortesia de SdeEmergência/JDACT

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terça-feira, 28 de junho de 2022

Onde Vais Isabel? Maria Helena Ventura. «Dali alguns de nós alcançam o outro pátio interior, chamado de dona Isabel, com pórticos rasgados nos lados mais baixos da planta»

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VII

«(…) Depois de algumas paragens para breves descansos, as bestas caminham devagar, ao ritmo da natureza. Ouvimos cantar os pássaros sobre um leve rumor de fontes, depois nas terras mais altas de quase duzentos metros, o passar da brisa como voz amena a soprar aos ouvidos. De novo mais abaixo o refrão dos campos do vale do Ebro já tratados, a saudarem o sol à vista da linha fortificada da antiga Caesar Augusta. Foi ela a capital do limite superior do Andaluz, depois o primeiro reino independente de Taifas, antes de ser a nossa Zaragoza abençoada.

Atravessamos a ponte de pedra, até à praça da catedral de tijolo e revestimento cerâmico, La Seo, vai meio o dia. Tão próxima de casa dona Isabel recusa-se a parar, agora. Então viramos à direita, até à via César Augusto, para tomar o caminho do paço real de Aljaferia. Já o tinha avistado muitas vezes, uma delas quando meu tio Ángel me trouxe dos montes, órfão recente, a ver Soledad, ao serviço da rainha Constança, mãe de dona Isabel. Nunca antes me parecera tão imponente. É uma magnífica estrutura, a brilhar na margem esquerda do rio, seus grandes torreões encimados por ameias, como coroas reais. Fixo a Torre do Trovador com olhos cerrados, já um atalaia grita para dentro para baixarem a ponte levadiça, no lado oriental.

O cortejo passa o fosso, direito à porta sob um arco em ferradura. À medida que vão dispersando os cavaleiros apeados, a família real com sua comitiva recebe as boas vindas dos servidores do paço, dona Isabel hoje mais acarinhada. Pajens conduzem os nobres ao recinto onde se vai construir a igreja de San Martin, os criados acomodam bestas e serventes nas cocheiras e anexos. Dali alguns de nós alcançam o outro pátio interior, chamado de dona Isabel, com pórticos rasgados nos lados mais baixos da planta. A direita ficam os cómodos de criados e religiosos menores, talvez o meu próprio quarto partilhado com alguém que ainda desconheço.-

Antes de estender o corpo numa enxerga, meus olhos são atraídos para a formosura de um nicho em ábside, um recanto da antiga mesquita muçulmana virado para Meca, donde era costume chamar os fiéis do palácio à oração. Bela, a decoração elaborada com capitéis de alabastro. Mantê-la tão bem conservada até agora, só confirma a tolerância religiosa dos reis de Aragão, desde dom Jaime I. Não fora a família real, acompanhada dos convidados mais importantes, começar a subir a bela escadaria para ocidente, ali ficaria perdido em recantos do passado, poderosas alavancas de futuro». In Maria Helena Ventura, Onde Vais Isabel?, 2008, Edições Saída de Emergência, 2008, ISBN  978-989-637-034-3.

Cortesia de ESEmergência/JDACT

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sábado, 22 de fevereiro de 2020

A Musa de Camões. Maria Helena Ventura. «Dona Paula é filha do segundo casamento de mestre Gil Vicente, autor dos autos que tanto animaram os brilhantes serões de El Rei Manuel I. Pequenina…»

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Madrugada. Os Pássaros da Bonança
«(…) Chegam ao terraço sobre a galeria de arcos, depois de regularem o andamento. Descansam breves minutos, encostadas a uma coluna encoberta das janelas do palácio, onde as damas costumam parar e contar seus segredos. Avançam por cima da porta pública, chamada o Arco das Pazes, em direcção à escada interior para alcançar o piso que leva ao pontão, na direcção do rio, um comprido terraço na muralha ornada de ameias. As águas, em sucessivos arremessos à forte estrutura de pedra, rendem homenagem às armas reais expostas a meio da parede, ladeadas por duas esferas armilares. Para nascente, no ponto onde termina a escada, estende-se outro prolongamento de largura igual e em frente, do lado oeste deste prolongamento, fica a porta que conduz à ponte de embarque, a mesma por onde a família real acede ao cais privado quando tem que viajar nos bergantins adaptados para esse fim.
Sua Senhoria e sua dama respiram o ar saudável da manhã diante do azul cinza das águas. Não se dá pela brisa, a não ser no baloiço desgovernado dos barcos mais pequenos, nas velas triangulares desfraldadas de uma caravela a dominar a paisagem, mais longe. O rio conta todos os dias uma nova história, salpicado de diferentes embarcações de vocação próxima e distante, enredadas na sua prosa lânguida. Barcas de dois mastros largas, pouco fundas, barcaças de transporte atulhadas de mercadorias, bateiras pequenas como canoas de fundo chato, todas esperam cumprir um fado já conhecido. Apesar de cedo a faina vai adiantada.
O barulho das regateiras, dos carrejões, vindo do lado do casario, mistura-se com as ordens de fidalgos a brutos carregadores, em ondas de som diluídas na fluência da manhá. Sua Senhoria faz o sinal de regresso quando a curiosidade desponta nos barcos próximos. Admiram agora o desafio das gaivotas, em real pose no torreão do corpo mais alto do palácio, encimado pelo minarete, percorrendo mais apressadas o mesmo caminho, sem vontade de encontros com todo o paço acordado. Menos mal que na ausência de Suas Altezas só os pássaros madrugam... Começam por vigiar o turno dos guardas, já de papo cheio, empoleirados no ornato das cantarias, depois de seguirem a agilidade dos dedos providenciais que fazem chover grãos minúsculos espalhados pelo parapeito. As vezes um bago ou outro aventura-se mais além, no pátio aparentemente calmo, e lá ousam a incursão até soarem os passos dos guardas no pavimento de pedra.
Dona Paula é filha do segundo casamento de mestre Gil Vicente, autor dos autos que tanto animaram os brilhantes serões de El Rei Manuel I. Pequenina, tão viva como boa tangedora, deixou o paço da rainha onde era moça de câmara, pouco depois do pai morrer, mal a Infanta começou a morar sozinha. É hoje uma de suas damas de maior confiança, sempre a fazer-lhe presente o que deve ser feito, quando. Agora mesmo lembra que frei António Conceição, recém-chegado de Coimbra, deve aguardá-las para a confissão, para a missa em privado, enquanto a capela real não se abre do lado do Largo do Relógio para a celebração destinada a pedir pela boa viagem de Suas Altezas. O frade deve estar ansioso por ouvir ordens sobre o governo da igreja do futuro convento de Enxobregas, conforme lhe foi prometido, e dona Paula por lhe entregar a generosa dádiva para as obras dos mosteiros mais necessitados da sua cidade.
A Infanta tem o próprio confessor, agora ausente, com quem se sente melhor. Mas entende a excitação de sua dama...Sugere-lhe que vá à frente confessar-se, entregar o donativo, enquanto ajoelha no banco do costume para uns minutos de recolhimento. Quando dona Paula entra na sacristia surpreende frei António de costas, às voltas com as alfaias e os paramentos. Ainda pouco à vontade num espaço que não conhece muito bem, iluminam-se-lhe os olhos negros, céus nocturnos repletos de estrelas, quando dona Paula lhe entrega a bolsa com o dinheiro para as obras dos conventos. Toda a gratidão se lhe escreve no sorriso, e uma emoção embaraçosa se adivinha... Oferece a dona Paula, do mesmo modo emocionada, a única cadeira, e dispõem-se a uma boa prosa antes que Sua Senhoria dê sinal de precisar de algum deles.
O frade recolhe novidades da corte, das viagens de Suas Altezas. Escuta com agrado os progressos do herdeiro de quem já soam em Coimbra os fartos elogios dos mestres. Devolve com pitorescos segredos de frades, freiras, segredos que a sua alegre juventude a mais ninguém confiaria e muito fazem rir dona Paula. Traz ainda novas do Colégio das Artes, do andamento do processo que acaba de mover-lhe a Inquisição (maldita). Desabafa, como se fosse ele a confessar-se, o medo dos seus poderes, o alcance que detém. Implementada há uma dúzia de anos já é capaz de levar ao extremo zelo a vigilância a locais públicos responsáveis pela cultura, crivando o que é ensinado. Tarde se fizeram sentir em Portugal as reformas saudáveis ao sabor do Renascimento, porém mais cedo morrem às mãos deste controlo violento das ideias. Sussurram, mas nem assim deixam de olhar em todas as direcções, não haja um delator de serviço à escuta...» In Maria Helena Ventura, A Musa de Camões, Saída de Emergência, 2006, ISBN 978-972-883-940-6.

Cortesia de SdeEmergência/JDACT

segunda-feira, 13 de janeiro de 2020

Onde Vais Isabel? Maria Helena Ventura. «… o embaixador comenta com o procurador: é mesmo estrábica, a noiva…, como irá El Rei reagir? El Rei?… Pois se já tinha adivinhado pelo retrato. De que retrato falais?»

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«(…) Pois montarás um ginete mais cedo do que julgavas. Mas antes seguirás perto de nós, talvez em cima de uma mula, na viagem até ao paço de Aljaferia. Teu primeiro zelo será para com as carências de minha montada, está bem assim? De outro modo melhor não estaria, minha rainha. Ri com gosto por eu lhe chamar assim. Nessa altura minha tia avança, para se me dirigir em modos tais, que logo reduz a intensidade do meu contentamento Aproveita esta bênção da nossa rainha, toleirão. Por aí, como agora, nada mais te resta de seguro a não ser um burrico, uma cítara e um alforge. E dona Isabel divertida. Não precisas meter a cítara no alforge… E trata de dormir cedo. Antes do romper da alva partiremos para Zaragoza. Vou-me dali à procura de meu tio, para lhe confiar a mudança da sorte, enquanto Soledad pede que chispe, com uma inclinação de cabeça. Talvez precise de tempo para repisar o assunto de Ángel, buscando forma de lhe levar notícias para trazer algum aditamento às que ele enviara cedo. Venho encontrar Juan à janela da cozinha que dá para o varandim dos claustros, a trovar como é seu jeito. Não são versos corteses, denunciam manhãs e vaidades de clérigos que servem senhores de fora, enquanto beijam as mãos aos do reino. Não poucos cuidam das almas com os bolsos cheios, sem vergonha de espiar em terra alheia… Esta é a sentença de Juan Cardeña y Fole, um goliardo de grande descaramento, que por acaso é meu tio.
Não sei em que ínfima fracção de tempo se gera a tormenta, levantada por prelados com excesso de zelo. Mal percebo o que se passa, está Juan a escapar-se para o átrio de serviço, a galgar as escadas da porta virada para o pátio, para desatar a correr rua abaixo, colado à parede das cavalariças. Grita-me que o posso encontrar no lugar de sempre, garantindo que ficará bem em companhia da Virgem da Alegria. E voltado para trás um instante, acena-me sorridente, para me dar confiança. Porém meu coração não pára, açoitado de forma inquieta por uma angústia latente.
Depois chega minha tia. Inteirada dos pormenores do triste episódio, segreda-me que estou protegido por agora, mas que não procure Juan tão depressa. E o episódio encerra com aquela conversa misteriosa entre dona Isabel e o mestre dos trovadores, Aimeric d´Ébrard, antigo prelado da Aquitânia, professor de dom Dinis quando ele era infante, agora bispo de Coimbra. Falam de um certo Bertrand Gott, arcebispo de Bordéus, ali pela gente de França. Era ele que meu tio acabava de acusar.
Quase toda a noite é um desassossego. Afinal o tal prelado é o mesmo que me inquiriu no claustro… Só quando adivinho que o dia vai amanhecer, gélido mas ensolarado, consigo desfrutar do conforto das mantas negras, antecipando o calor do capote surrado para fazer a viagem até Zaragoza, capital de Aragão. Pena é o sono acomodar-se à sensação de aconchego e tomar profundamente as últimas horas da madrugada. Já é tarde quando dou pelo chocalhar dos guizos dos animais de leite, nos currais ali perto, pelos cascos das bestas na laje da Carrer dos Condes.
Só há tempo de correr ao pátio, puxar o balde da cisterna, passar água gelada pelo rosto. Depois venho cuidar da taleiga com roupa lavada, fornecida por Soledad, antes de ir à cozinha do tamanho da maior casa que já vi, comer um resto de assado em cima de um naco de pão divino. De novo ninguém me estranha a presença, antes me estendem um vaso de barro com gemada. E como se eu fosse um servidor da casa, ainda perguntam se quero mais um pedaço de carne para o caminho. Boa vida me espera.
Chega a hora da nossa infanta descer com a família, corte de Aragão, clérigos confessores e ouvidores reais. Os enviados de Portugal conversam a um canto com Beltrán Vila Franca e Bernat Sarria, privado de Pedro III. Um deles é João Pires Velho, embaixador e conselheiro de dom Dinis. O outro é João Martins, trovador, casado com uma dona se não me engano já escolhida para dama de dona Isabel. O terceiro é o procurador Vasco Pires. Pelo que dizem, todos têm o costume de trovar, como dom Dinis, não é só João Martins.
Beltrán Vila Franca quer saber da geografia de Óbidos, das rendas das outras vilas doadas à noiva. Fala dos burgos que estão à cabeça da Casa da Rainha, constantes do contrato de casamento descrito no documento propter nuptias, que ele mesmo foi celebrar o ano passado com dom Dinis, em representação do rei de Aragão. Quando Bernard Sarria e Beltrán Vila Franca se afastam, o embaixador comenta com o procurador: é mesmo estrábica, a noiva…, como irá El Rei reagir? El Rei?… Pois se já tinha adivinhado pelo retrato. De que retrato falais?» In Maria Helena Ventura, Onde Vais Isabel, Saída de Emergência, 2008, ISBN 978-989-637-034-3.
                                                                                               
Cortesia de SdeEmergência/JDACT

Onde Vais Isabel? Maria Helena Ventura. «Ajoelho diante daquela que dizem ser a formosa dona Isabel, mais nova do que eu três anos, menos bela do que as vozes populares fazem crer…»

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«(…) Lugar de destaque para a irmã bastarda dona Beatriz, casada com o duque de Cardona. Ainda perto do coração deve estar dona Vataça Láscaris, filha do conde de Ventigmilia e de dona Irene Lascarina. Têm sido criadas juntas, desde que a dama grega de Niceia veio com os filhos para voltar a casar na Catalunha. Dona Prisca é uma fidalga aragonesa, já noiva de um cavaleiro português. Está indicada como camareira-mor de dona Isabel. Depois vem a colaça, talvez aia principal, a marquesa Rodrigues, a quem cabe escolher damas e donzelas portuguesas para criadas e camareiras. Diferente é minha tia. De linhagem inferior, remete-se a segundo plano, como lhe compete, a segurar com mãos ambas a orla do vestido da noiva. Fazem agora a Carrer dos Condes em sentido inverso até ao palácio, onde a boda começa a ser servida no Salão dos Arcos Românicos.
Ainda envolvido por um deslumbre novo, a repartir o tempo pelas salas e pela copa, não me escapa quando os reis de Aragão e Catalunha sobem com a filha. Os tempos são conturbados, as oportunidades para assuntos de família têm escasseado. Talvez esta conversa viesse sendo adiada desde que se espalharam os rumores da guerra civil em Castela. Ficam uma meia hora no andar de cima, depois acabam por descer sozinhos. Dona Isabel deve ter invocado necessidade de repouso, um tempo para meditar na nova condição.
Daí a pouco sou directamente abordado por um escudeiro. Traz ordens de minha tia para eu subir um instante. Nessa altura repito o percurso de horas antes, agora senhor de mim. Apto a dosear a força dos nós dos dedos, pronto para bater na grossa porta, detenho-me já de braço erguido e punho fechado, quando ouço o chamamento que vem do interior. Soledad pressente tudo, até as patas silenciosas de um gato. Deve ter ouvido o som das minhas calçaduras de couro na pedra, porque me convida a entrar com voz de repente adocicada: não tenhas medo, vem… E já quando empurro a porta e meu rosto aflora, no limar: estás a ouvir…? Faz a vénia à nossa rainha. Depois para dona Isabel. É o tal meu sobrinho, senhora, filho de minha irmã Constança que Deus levou há anos. Não é tão tolo como parece… Sabe discernir, tem qualidades para levar uma mensagem sem lhe devassar o conteúdo. Esta alusão dá a medida das apreensões de minha tia, a ânsia de obter pronta resposta ao pedido de Ángel. Mas se dona Isabel entende o apelo velado, finge nem sequer notar, movida pelo bom senso de não tomar atitude enquanto não falar com dom Dinis. Acolhe-me com doçura. Deixa-o falar, Soledad. E na minha direcção uns passos. Chega mais perto de mim. Como te chamas? Javier Cardeña, senhora minha. Gostarias de servir os reis, meus pais e senhores, em Zaragoza? Seria subida honra, se algum préstimo tivesse, mas como vos dirá minha tia, nada mais sei fazer do que carregar fardos, levar e trazer mensagens. Acontece com todos… Antes de aturada vontade, nada sabemos que valha. No paço não faltam jardins, hortos para mondar e regar, campos de pão e silos, cavalariças e bestas. Aqui meu coração dá um salto…Os cavalos, tratar deles…, meu sonho desde criança. Ajoelho diante daquela que dizem ser a formosa dona Isabel, mais nova do que eu três anos, menos bela do que as vozes populares fazem crer. Ao mandar que me levante encara-me mais de perto, e nesse momento reparo no ligeiro desvio do olho esquerdo rumo ao centro, já falado por meus tios. Mas tem um sorriso tão doce que se torna formosa como quer o povo, sem distância de realeza ou ponta de altivez, só firmeza no contacto. E nem me embaraço quando pronto lhe respondo. Meu fito é poder tratar cavalos, melhor ainda se puder montar um de bom porte, algum dia. Se me for concedida tal mercê, será mais do que sonhei, senhora dona Isabel». In Maria Helena Ventura, Onde Vais Isabel, Saída de Emergência, 2008, ISBN 978-989-637-034-3.
                                                                                               
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quarta-feira, 3 de julho de 2019

Onde Vais Isabel? Maria Helena Ventura. «O lado do meio é comum às duas formações. Composto por uma fila de arcebispos das dioceses vizinhas, clero mais importante, antecede o pálio dourado que alberga, sob o tecto de seda com as armas de Aragão e Portugal…»

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«(…) Agora…, com meu tio Ángel é diferente. Letrado, arguto, ambicioso. Tudo sabe dos segredos de Jaime I, pelas leituras das crónicas que ficaram, e o rei Jaime foi criado numa casa templária, a mesma onde meu tio tem peso. Dizem que só ele sabe onde estão os tesouros mais valiosos da ordem, na Catalunha. Além disso é estimado pelo mestre provincial, pelo grão mestre em França, pela nobreza companheira de armas dos monges guerreiros. E por fim é tido em alta conta pela coroa de Aragão, em retribuição de tanta fidelidade. Chegamos. No largo da catedral, apinhado de gente, mulheres e rapazes enxotam galinhas e gansos atrevidos. Depois precipitam-se para a entrada da Carrer dos Condes, mal as trombetas anunciam o cortejo saído da Plaça del Palau. Em breve o avistamos em marcha muito lenta, por causa de velhos arcediagos e bispos das cidades mais importantes dos reinos em redor, já trôpegos, a medir cada passada.
Por nada perderia este espectáculo, dois quadrados de gente com trinta e cinco palmos de lado, guardados por cavaleiros montados em animais de cabeçada de ouro e prata, nas margens exteriores. O lado do meio é comum às duas formações. Composto por uma fila de arcebispos das dioceses vizinhas, clero mais importante, antecede o pálio dourado que alberga, sob o tecto de seda com as armas de Aragão e Portugal, os membros da família real, os confessores particulares. Dona Isabel vem ao centro, de olhos postos no chão, toda vestida de azul pálido e véu branco, cingido com coroa discreta. Logo atrás vêm damas, donzelas da corte, atrás delas a nobreza principal sob a mesma coroa, cavaleiros e convidados de outros reinos vizinhos. É um luzir de pedras e brilho de trajes que ofusca os meus olhos de quase vagabundo. Bela, toda esta pompa, que nem assim diminui meu desejo de regressar a Penedès, às sestas na choça quando o tempo aquece, ao abrigo das paredes de pedra quando chove e o cheiro de pão cozido entra pelos sentidos, acalmando a fome. Isso farei daqui a nada, no fim da cerimónia, garantida a bênção da minha única tia. Deve estar morta por me ver pelas costas, centrada na viagem para Zaragoza com a sua pequena infanta.

Comovente, o silêncio na catedral de Barcelona de planta quadrangular, já preparada para despir velhos trajes e vestir a majestade do gótico. Dona Isabel profere a fórmula de aceitação com voz firme, olhos baixos como quase sempre, postos num lugar indefinido. Desmente os apenas doze anos na altura, na perfeição de formas, na determinação com que repete as palavras decoradas nas últimas semanas. Ego Helisabeth fillia excellentis domini Petri del gratia Illustris Regis Aragonie tredo corpus meum in uxorem legitimam domino Dionisio dei gratia Regis Portugalie et Algarbi…
É uma cerimónia breve, não dispensa as bênçãos numa igreja do reino de acolhimento. Mas cá fora o povo chama pela nova rainha, acotovelando os guardas reais para se apinhar no portal. Alguns vêm de fora, pelas ruas novas rasgadas nas muralhas, à espera de uma migalha de grandeza que lhes dê sentido aos dias, sempre iguais. Os guardas continuam a resistir. Só a muito custo o cortejo consegue abrir caminho à passagem da infanta, de olhos baixos ainda, guardada por suas damas». In Maria Helena Ventura, Onde Vais Isabel, Saída de Emergência, 2008, ISBN 978-989-637-034-3.
                                                                                               
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terça-feira, 2 de julho de 2019

Conheces Sancho? Maria Helena Ventura. «Mal entra na salinha que pertencera a dona Urraca, o criado vem dizer-lhe que o chamam à sala do trono há mais de meia hora. Quem? Pergunta…»

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«(…) Sancho revê a hospitalidade e as falas durante a viagem de regresso, já tarde feita. Bom jeito lhe daria ter, como seus conselheiros, alguns daqueles varões, calejados pelo trabalho, de sizo aprimorado pelo rigor da vida. Mal chega ao pátio e desmonta, é abordado por João Fernandes Lima, por de mais aperreado. D. Sancho, senhor D. Sancho, tenho algumas novidades menos boas… Diz-lhe, sempre em andamento e com o nobre atrás dele, que só vai mudar de fato. Gosta do galego, antigo mordomo do avô e casado com a sua barregã, Maria Pais Ribeira, depois da morte de Berengária Afonso Baião. João Fernandes insiste: ouvi-me senhor, não é para esse lado, destinaram-vos a câmara da vossa mãe na outra ponta do paço… Sancho para, de repente. E quem mandou que assim fosse? Abril Peres Lumiares... era isso que vos queria dizer. E sai, constrangido por dar a notícia, condoído da expressão do pequeno rei. Já no quarto, Sancho engole em seco enquanto troca a túnica molhada. Porque se arroga Abril o direito de dispor da sua vida? Devia cultivar, como seu pai, o afecto antigo por um descendente de Egas Moniz e de seu bisavô Afonso Henriques, mas nunca viu varão mais arrogante. Ostenta o poder adquirido à custa de privilégios reais como se fosse ele o próprio rei.
Mal entra na salinha que pertencera a dona Urraca, o criado vem dizer-lhe que o chamam à sala do trono há mais de meia hora. Quem? Pergunta, de olhos nos documentos espalhados pela mesa. Os membro da vossa cúria, senhor…, e pedem-vos alguma urgência. Sancho levanta a cabeça devagar, para encarar o criado. Alguma urgência..., do que se trata, apurastes? Não, senhor, mas parece ser coisa relacionada com a vossa investidura. Dizei-lhes que doravante serei eu a convocá-los. O criado fica pregado ao chão, sentindo no corpo o rumor de tempestade. Precisais que repita a ordem? Não, senhor, entendi perfeitamente. E parte, temeroso do que possa acontecer, mal transmita a lacónica mensagem. Que não recaia sobre ele a ira dos senhores... Gil Vasques é o primeiro a chegar, como se tivesse confidências a fazer. Sentis-vos bem aqui, senhor D. Sancho, não é?
Sabeis que sim, no aconchego deste espaço passaremos a tratar dos assuntos importantes. E vossos companheiros, aonde estão? Devem estar por aí a romper, e baixando o tom de voz, ficaram por de mais irados com a vossa ordem. Entendo-os muito bem, também não gosto nada que me convoquem como se fosse um subordinado. Preparai-vos, senhor, querem levar-vos a Lisboa nos próximos dias, por causa da questão de vossas tias. Têm assim tanta pressa? Fazei por concordar com eles, é uma questão que não podemos contornar. E mestre Vicente? Ocupado com assuntos do bispado. Mal chegue, pedir-lhe-ei opinião. Precisamos de tacto, Gil Vasques, com tanta hostilidade entre os meus principais. Culpa das eternas ligações ao clero, senhor..., das quezílias herdadas por vosso pai. Mas folgo em ver que já reparais no essencial. Queria perguntar-vos, em particular: devo continuar com Pêro Anes Nóvoa, como mordomo? É a melhor escolha, senhor..., esteve com vosso pai depois da morte de Martim Fernandes, vosso aio. O papa Honório III culpou-o de ser um mau conselheiro... E também de fomentar a minha discórdia com o arcebispo. Os acordes da música chegam a Roma conforme a tocam os clérigos do reino. Há muita gente interessada no lugar, pronta a fazer intriga. Falais de Henrique Mendes Sousa? Já não teve desavenças com Pêro Anes Nóvoa…, já não vos declarou a esperança de um dia ocupar o posto? Às vezes hesito..., será que Pêro Nóvoa me será fiel?» In Maria Helena Ventura, Conheces Sancho? Edições Saída de Emergência, 2016, ISBN 978-989-637-951-3.

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segunda-feira, 1 de julho de 2019

Onde Vais Isabel? Maria Helena Ventura. «Assim parece, e contudo falamos de um rei bem visto na Cristandade Qual quê? Os monges guerreiros estão ao lado do pai de dona Isabel, tanto por aqui como nas costas da Sicília»

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«(…) Em Castela, Filipe apoia os sucessores de Fernando de La Cerda; com o acordo, há anos, para o próximo casamento do filho com a herdeira de Navarra, terá o controlo desse reino como já tem o de Champagne; na Sicília combate as hostes de Aragão. Que mais queres? E até aqui vem exercitar a ousadia de tentar enfraquecer Pedro. Ora aí tens… Só não contava que tais medidas lhe esvaziassem tanto os cofres, que precisa cobiçar tudo quanto é tesouro, até as reservas do Templo. Então os movimentos todos não passam de casos de rapina, afinal.
Assim parece, e contudo falamos de um rei bem visto na Cristandade Qual quê? Os monges guerreiros estão ao lado do pai de dona Isabel, tanto por aqui como nas costas da Sicília, em oposição a Filipe, à Santa Sé e à causa de Carlos de Anjou. Mas não está o papa. Será que Pedro não poderia responder melhor que Dinis ao apelo da mensagem do tio Ángel? Não…, concentrado nas costas da Calábria, nos portos da Itália, como havia de atender a outra frente de batalha, esta tão mal definida? E o quase enforcamento de Ramon de Barbaré, há um mês, tem a ver com tudo isto, tio Juan? Só pode ter. Atacá-lo foi uma forma de causar instabilidade, às portas de um acontecimento tão importante como o casamento de hoje. Mas ele é alguém especial? Ramon é descendente de cátaros acolhidos em Aragão, gente que um dia apedrejou famílias dos antigos inquisidores de França que aqui se deslocaram.
E daí? Um cátaro é também Guilherme de Nogaret, próximo do rei de França, designado para guarda selos do herdeiro, dizem. Descendente, mas muito contrário às convicções religiosas dos avós. Um homem sem escrúpulos, capaz de tudo. Ramon anunciava a cerimónia de hoje, a mando do mestre provincial. Quiseram ligar passado e presente. Mas a vítima podia ser um de nós, ou até alguém próximo da família real. Afinal o que se prevê, para o futuro?
Ángel diz que, para garantir a sobrevivência da ordem, será inevitável a dispersão dos membros. O certo é começar já a sondar que poderes lhes darão acolhimento. Mas Dinis…, porquê ele? É sábio, com talento para a governação. Endireitou o batel do reino encalhado à morte do pai. Talvez lhe seja favorável o retorno da ajuda que vier a dar… Falais dos recursos materiais da ordem? Desses e de um património de saberes, invejável para qualquer poder. De que mais falais, afinal? Não to poderia dizer sem grande margem de erro. O tio Ángel corre perigo?
Corremos todos. Ele por ser monge da ordem, eu tu e Soledad por sermos da linhagem de um nobre trovador catalão. E que mal tem ser trovador? Um dia vais perceber… E Juan levanta-se, já a manhã avança como onda espraiada na lisura do céu. A última coisa que queríamos ambos era perder a entrada do cortejo real na basílica. Uns palmos à frente, em trote curto, amanso o sangue há pouco agitado por um estranho temor. Não por meu tio. Afinal não passa de um goliardo, só ameaça com umas cantigas de escárnio. Soledad também não me dá cuidado. Ser aia de dona Constança, depois da infanta dona Isabel, não lhe confere poder que afronte ninguém, de tudo sabendo um pouco. Eu não estorvo. Mais não sou do que uma haste tenra, vou para onde o vento me levar». In Maria Helena Ventura, Onde Vais Isabel, Saída de Emergência, 2008, ISBN 978-989-637-034-3.
                                                                                               
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Onde Vais Isabel? Maria Helena Ventura. «A voz atrás de mim, numa língua que não entendo bem, interrompe esta viagem no tempo. É um prelado ainda novo, a compor as pregas de uma capa negra de bom corte»

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«(…) Os seis anos seguintes foram passados em Barcelona, nestes espaços à volta da catedral onde tinha a certeza de ajoelhar um dia, como noiva. E o dia chegou depressa, tão depressa como o vento, abalando os troncos quase desnudados de Inverno. O sentido das palavras do avô ganha hoje o peso todo, na fórmula de aceitação que teve de decorar. Esta é a primeira prova. A outra será a viagem para Portugal, as bênçãos nupciais depois do encontro com o infante Dinis, o noivo, já com três bastardos e fama de grande amante. Não pode comparecer à cerimónia. É hoje representado por homens notáveis do seu Conselho.
Aqui entregue a lembranças matizadas com um pouco de inspiração, penso como é bom ser do povo, escolher parceiro a contento. A mim e meu tio Juan nem sempre é fácil o pão, a mesa farta. Só graças a Soledade e Ángel podemos ter uma abastança esporádica. São mais os dias que passamos com duas refeições, como qualquer mendigo, e quase todo o ano disfarçamos com trapos, os trapos esfiapados que nos cobrem. Mas admiro este meu tio quando espaneja o apelido sonante, se é olhado com desprezo, ufano de se deitar com quem quer, pelas razões que a mais ninguém dizem respeito.
Aprendi com ele. Meu instinto empurrou-me há dois anos para a cama de uma viúva ainda moça, gulosa da minha virgindade, por sua vez sedenta de protecção de fêmea mais experiente. Contava eu com o que tenho, e mais que se ocupasse de meus fatos rotos. Mas cerzir não é com ela. Depois das sessões de aconchego e da sopa à beira do fogo, gosta de enroscar-se nas mantas até dormir pesadamente. De modo que entre as visitas à viúva e a fidelidade a meus tios, vou tecendo uma existência indecisa entre a infância e a idade adulta.

A voz atrás de mim, numa língua que não entendo bem, interrompe esta viagem no tempo. É um prelado ainda novo, a compor as pregas de uma capa negra de bom corte. O olhar intenso anima-lhe o rosto branco, rapado como a cabeça, enquanto martela a mesma frase onde só identifico o nome de Ángel. O sorriso rasgado não me inspira confiança. Não sei porquê, mas não inspira… Não entendo nada do que dizeis…
Pela terceira vez pronuncia aquelas palavras, agora sem esconder a irritação, carregando no sobrenome Cardeña. Pressinto perigo, a minha intuição a sugerir afastamento. E vou-me dali incomodado, à procura de Juan. Não preciso mais que dois passos. Ao cimo das escadas da entrada de serviço, conversa com o moço da estrebaria, agora a polir as dobradiças de metal da porta aberta. Só interrompe com a rápida despedida de meu tio, logo a descer os degraus dois a dois, já a combinar comigo a ida ao largo do Anjo, em frente à muralha, para ver o cortejo que não há-de tardar.
Voltamos então a contornar a catedral pela rua da Pietat. Paramos à entrada dos claustros, onde os gansos brancos se espanejam num lago mal talhado, a rodear o marco onde vai nascer a fonte de San Jordi, dizem, quando a nova catedral for construída. Ainda falta meia hora para a cerimónia. Disposto a partilhar agora parte dos segredos comigo, meu tio sugere um retiro curto ali mesmo, para dois dedos de conversa. Puxamos então os animais para dentro da cerca. E sentados num canto resguardado de olhares indígenas, com a cumplicidade muda das pedras, atrevo-me a pedir respostas às perguntas que desde cedo rumino
Afinal o que tinha a mensagem de tão urgente? Um pedido de Ángel ao infante Dinis, feito de tal modo que só pode estar com medo. Nunca vi o tio Ángel com medo… Mas o infante Dinis não vem, pois não? Não está previsto. Hoje dona Isabel profere a fórmula de aceitação em presença dos procuradores do rei, depois as bênçãos nupciais serão numa igreja de Portugal. Então, até que dona Isabel chegue ao destino ainda leva tempo Mas a gente do infante Dinis deve partir em seguida. A ela só compete decidir se entregará a mensagem por mão própria ou se a fará seguir por eles. Mas qual o teor da mensagem…, pede o quê?
Aqui Juan baixa o tom de voz e chega-se mais perto. A salvação dos membros da ordem, ameaçados de espoliação de bens, talvez até de extinção. Quem ameaça?
Só pode ser a corte de França, interessada nas terras de Aragão. Por ser Filipe III casado com uma irmã de Pedro? Isso também, mas há uma orientação seguida pelo rei de França que aponta para a união dos reinos da Europa sob a mesma cabeça coroada. Não será ambição a mais? Pode ser, mas tudo está encaminhado». In Maria Helena Ventura, Onde Vais Isabel, Saída de Emergência, 2008, ISBN 978-989-637-034-3.
                                                                                               
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segunda-feira, 21 de maio de 2018

Onde Vais Isabel? Maria Helena Ventura. «Fez doze anos nos finais do mês passado, a idade temida pelas princesas a quem os pais destinam varão coroado. Há seis via morrer o avô…»

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«(…) Só me resta voltar ao ponto de partida, esperar que os acontecimentos lançados por meus tios determinem o que vou fazer. Já não os vejo. Só o rapaz dos cavalos varre agora o chão molhado. De novidades não sabe: está tudo na mesma, não me disseram mais nada; e meus tios?; entraram por ali... Indica-me a passagem para os claustros, por onde ambos metemos a primeira vez. Mas vencido o lanço de escadas, feito um troço do passadiço de cerâmica vidrada, não avisto Juan nem Soledad. A porta de acesso à planta superior e às adegas, na de baixo, continua aberta. Gente, pouca. Nem dona Isabel aparece na varanda da sala de bordar. E como poderia, se para lá chegar teria de descer as escadas, atravessar o Salão do Trono, falar aos convidados? O mais certo é aproveitar o silêncio, para forrar o coração de lembranças aconchegantes de Zaragoza, o paço de Aljaferia, trinado de pássaros no roseiral colado às câmaras privadas, murmúrio de fontes nos vergéis em redor. Lembranças boas, sublinhadas com a memória do sol que debruava os telhados do palácio. E dou comigo a desejar que o passado recente lhe atenue o silvo de angústia, que deve manchar a fria claridade desta manhã de Inverno.
Sento-me no bordo da cisterna, a lançar seixos pequenos para o fundo. Lá em baixo, nos círculos concêntricos de líquido escurecido, abrem-se veredas frescas com recendor a rosas e mirto, as vestes airosas da infanta de cabelos soltos, ainda da cor do trigo antes de amadurar. Fez doze anos nos finais do mês passado, a idade temida pelas princesas a quem os pais destinam varão coroado. Há seis via morrer o avô, que a criara desde o nascimento. E nesse momento apagavam-se as estrelas que ele plantara no seu caminho de infância. Havia sempre trechos de O Livro dos Feitos, estranha crónica do nascimento de Jaime, em Montpellier, onde fora criado pelo inquisidor Simon de Montfort, a pedido do pai. Mais tarde seria reclamado pelos templários, como legítimo herdeiro da coroa de Aragão e Catalunha. Uma história complicada, que parte da nobreza e a Santa Sé queriam remediar, confiando aos monges o resgate da criança. A gente do Templo levou-o então para Monzón, onde seria educado para rei predestinado à glória, com apenas oito anos.
Cedo o casavam com Leonor de Castela, de quem nasceria Afonso, morto ainda mancebo. Mas os desentendimentos constantes do casal levariam à anulação do enlace. Entre as possíveis noivas Jaime viria a escolher Yolanda da Hungria, de quem teria oito filhos, entre eles os varões Pedro, pai de dona Isabel, a quem caberiam Aragão, Catalunha, Valência e Jaime, rei de Maiorca e conde de Montpellier. As duas infantas que chegaram a rainhas eram dona Isabel, casada com Filipe III de França, e dona Violante, mulher de Afonso X de Castela, avô do monarca Dinis I por linha materna.
Dizia meu tio Ángel que chamavam santa a Isabel, duquesa da Turíngia, irmã da rainha Yolanda. Até Francisco de Assis, grato por ela ter cedido um pequeno convento aos mendicantes, por fazer uma vida simples, entregue a obras de caridade. Gostava de cultivar rosas. Chegou a mandar as espécies mais raras para o paço de Zaragoza, onde a neta da irmã, a quem deram o seu nome, aprendeu a conhecê-las, a vigiar-lhes maleitas desde a mais tenra infância. Um dia, com a mão enrugada na cabeça da neta, Jaime lamentava não ter mais uns anos de vida para poder levá-la ao altar. Isabel não teria alcançado que o avô lhe anunciava a morte, ávida por colher mais impulsos de mistério nas histórias de vida que ele lhe confiava no paço de Aljaferia. Mas na noite seguinte ouvia a revelação, quando aguardava mais um trecho do livro. O avô preparava-se para partir umas horas depois...» In Maria Helena Ventura, Onde Vais Isabel, Saída de Emergência, 2008, ISBN 978-989-637-034-3.
                                                                                               
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sábado, 19 de maio de 2018

Onde Vais Isabel? Maria Helena Ventura. «Livre de obrigações, a presença agora aceite pelos guardas, exploro o caminho ao longo da Carrer dos Condes, rente à parede dos cómodos onde se aloja gente nobre de Montpellier e Maiorca»

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«(…) Uma porta entreaberta é uma voz que chama para um tempo novo. O que terá esta, para além do fausto que antecipa? Um perfil de princesa em passadas curtas ilumina, de quando em quando, o meu ângulo de visão, fazendo e refazendo a distância entre as gelosias e a parede oposta. Deve ser ela a neta de Jaime I de Aragão e Catalunha, filha de dona Constança de Hoenstaufen. Não parece tão loira como o trigo a ondular nos campos de Zaragoza, conforme se dizia em Penedès, mas o cabelo é claro, quase dourado nas madeixas da frente, ainda caídas de cada lado do rosto. Desliza ainda pela câmara de cabeça no chão, a ensaiar o compasso que daí a pouco marcará o ritmo do cortejo. Aliada ao nome suporta já uma aura de santidade, arrastada pelos feitos da tia avó da Turíngia, abrindo caminho no coração ingénuo da crença popular. Anseio que volte, instantes depois de a saber por detrás das janelas, a vigiar o movimento da praça. E à falta de largo campo, vejo-a como nos meus sonhos, prolongados neste fim de corredor.
De repente sobressalta-me a voz que tantas vezes me ordenou sossego, e me obrigou a rabiscar o pergaminho, a voz de minha tia Soledad. Devia estar nas arrumações do fato da infanta. Com certeza já de posse do recado do moço de estrebaria, porque informa dona Isabel que precisa fazer uma ausência curta, para tratar de um assunto urgente. E já no umbral da porta sossega a noiva: mas não vos enfadeis, senhora dona Isabel, num pronto chegarei; se prometes não demorar... Só tenho tempo de correr pelas escadas e anichar-me no vão da primeira fresta, como um santo de pedra. De pouco adianta. Como se vasculhasse um objecto por ela mesma guardado, o braço de minha tia alcança-me o exacto ponto da orelha a jeito, e obriga-me a olhá-la de pescoço torcido: ousado, como sempre. Estou a ver que seguiste Juan; ele pediu que viesse... ia negar? Ah foi? Mas não foi aguisado que subisses, pois não? Trata de esgueirar-te à minha frente, não quero ser responsável pela intromissão.
Posso agora confessar que Soledad, a menor de todos, minha mãe, a do meio, já falecida, meus tios Ángel e Juan, os gémeos mais velhos, são filhos do pecado de uma monja de Santa Liestra com um nobre trovador da Catalunha. O pecado maior seria de minha avó, escondida para sempre de olhos indiscretos num reino de silêncio. Ao nobre ficava bem exibir o fruto do apetite carnal de uma abadessa, que não lhe resistira. Ainda ouço minha tia pedir a uma criada menor que suba ligeira, para fazer companhia a dona Isabel, enquanto as damas se arranjam. Isto já depois de atravessarmos de novo o Salão do Trono, sem passar despercebidos. Há um cavaleiro fardado de modo estranho, que me lança um olhar surpreendido, depois um sorriso afectuoso. E uns passos adiante desço as escadas do átrio até ao exterior, não muito depois de minha tia. O rapaz esfrega o último cavalo. Juan parece menos agitado, já a cochichar com a irmã na parede da catedral, no lado contrário, mesmo por debaixo de uma das torres. Aí deve sentir-se a salvo de ouvidos indiscretos.
Livre de obrigações, a presença agora aceite pelos guardas, exploro o caminho ao longo da Carrer dos Condes, rente à parede dos cómodos onde se aloja gente nobre de Montpellier e Maiorca. Passo ao lado da porta do jardim de acesso ao scriptorium, entrada cómoda para o interior do paço quando não há guardas façanhudos. Furo a barreira de cavaleiros por entre duas bestas. Contorno sem medo o braço saliente do edifício pela perpendicular de Santa Clara, para entrar na Plaça del Palau, com muita gente concentrada. Mas ao fundo das escadas quatro escudeiros vigiam a ousadia de intrusos, ainda que esteja cerrada a entrada nobre do paço». In Maria Helena Ventura, Onde Vais Isabel, Saída de Emergência, 2008, ISBN 978-989-637-034-3.

Cortesia de SdeEmergência/JDACT