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terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

Fogos. 1935. Prosas Líricas. Marguerite Yourcenar. «Confiou o punho à mão dessa amiga fatal, acertou o passo pelo daquela rapariga à vontade nas trevas, sem saber se Misandre obedecia ao rancor ou a uma gratidão sombria»

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«Solidão... Não creio como os outros crêem, não vivo como os outros vivem, não amo como os outros amam... Mas morrerei como todos morrem». In Marguerite Yourcenar

«(…) Patrodo, corando, rechaçou aquele abraço de mulher: Aquiles recuou, deixou que lhe agarrassem os braços, verteu lágrimas que mais não faziam do que tornar ainda mais perfeito o seu disfarce de rapariguinha, mas davam a Deidamia uma nova razão para preferir Patrodo. Olhadelas, sorrisos interceptados como uma correspondência amorosa, a perturbação do jovem, tabuleta meio naufragada sob essa vaga de rendas, transformaram a perturbação de Aquiles em ciúmes furiosos. Aquele rapaz vestido de bronze eclipsava as imagens nocturnas que Deidamia conservava de Aquiles, da mesma forma que um uniforme primava aos seus olhos de mulher sobre o pálido brilho de um corpo nu. Aquiles agarrou desajeitadamente um gládio que largou imediatamente, e serviu-se, para apertar o pescoço de Deidamia, das suas mãos de rapariga, invejosa do sucesso de uma companheira. Os olhos da mulher estrangulada saltaram como duas longas lágrimas; os escravos intervieram; as portas que se fecharam com um barulho de milhares de suspiros abafaram os últimos estertores de Deidamia: os reis desconcertados reencontraram-se do outro lado do sobrado. O quarto das Damas encheu-se de uma obscuridade sufocante, interna, que nada tinha a ver com a noite. Aquiles, de joelhos, ouvia a vida de Deidamia escapar-se-lhe da garganta, como a água no gargalo demasiado estreito de uma garrafa. Sentia-se mais separado do que nunca daquela mulher que ele tinha tentado não apenas possuir mas ser: tornando-se cada vez menos próximo à medida que estreitava o aperto, o enigma de ser uma morta tinha-se acrescentado nela ao de ser uma mulher. Apalpava com horror os seus seios, os seus flancos, os seus cabelos nus. Levantou-se, tacteando as paredes onde já não se abria qualquer saída, envergonhado por não ter reconhecido nos reis os emissários secretos da sua própria coragem, certo de ter deixado fugir a sua única oportunidade de ser um deus. Os astros, a vingança de Misandre, à indignação do pai de Deidamia, uniram-se para o manter fechado naquele palácio sem fachada para a glória: os seus mil passos em redor daquele cadáver comporiam a partir de agora a imobilidade de Aquiles. Umas mãos quase tão frias como as de Deidamia pousaram-se sobre o seu ombro: estupefacto ouviu Misandre propor-lhe fugir antes de que caísse sobre ele a cólera daquele pai todo-poderoso. Confiou o punho à mão dessa amiga fatal, acertou o passo pelo daquela rapariga à vontade nas trevas, sem saber se Misandre obedecia ao rancor ou a uma gratidão sombria, se tinha como guia uma mulher que se vingava ou uma mulher que ele tinha vingado. Batentes cediam, depois voltavam a fechar-se: os ladrilhos gastos baixavam docemente debaixo dos seus pés, como a curva mole de uma vaga; Aquiles e Misandre continuavam cada vez mais depressa a sua descida em espiral, como se a sua vertigem fosse uma gravidade. Misandre contava os degraus, desfiava em voz alta uma espécie de terço de pedra. uma porta abriu-se finalmente sobre as falésias, os diques, as escadas do farol: o ar salgado como o sangue e as lágrimas brotou diante do estranho par atordoado por essa maré de frescura. Com um riso duro, Misandre deteve o belo ser apanhando as suas saias, já prestes a cair, estendeu-lhe um espelho onde a aurora lhe permitia encontrar o seu rosto, como se ela não tivesse consentido em o trazer para o ar livre senão para lhe infligir, num reflexo mais aterrorizador do que o vazio, a prova nua e crua da sua não existência de deus. Mas a sua palidez de mármore, os cabelos ondulantes como as crinas de um capacete, a pintura misturada de choro, que se lhe colava às faces como o sangue de um ferido, reuniam pelo contrário, neste quadro estreito, todos os posteriores aspectos de Aquiles, como se aquele estreito pedaço de vidro tivesse aprisionado o futuro. O belo ser solar arrancou o cinto, desmanchou a écharpe, quis desembaraçar-se das musselinas asfixiantes, mas teve medo de se expor mais ao fogo das sentinelas, se tivesse a imprudência de se deixar ver nu». In Marguerite Yourcenar, Feux, 1935, Éditions Galimard, 1974, Difel, Lisboa, 1995, ISBN 972-29-0315-2.

Cortesia Difel/JDACT

domingo, 29 de novembro de 2015

Fogos. 1935. Prosas Líricas. Marguerite Yourcenar. «Apenas Patroclo resistia ao encanto, rompia-o como uma espada nua. Um grito de admiração de Deidamia designou-o à atenção de Aquiles que mergulhou contra essa espada brilhante…»

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«Solidão... Não creio como os outros crêem, não vivo como os outros vivem, não amo como os outros amam... Mas morrerei como todos morrem». In Marguerite Yourcenar

«(…) O abrigo feminino onde a sua mãe o fechava transformava-se, para aquele emboscado, numa sublime aventura; tratava-se de entrar, debaixo da protecção de um corpete ou de um vestido, nesse vasto continente inexplorado das mulheres, onde o homem não penetrou até agora senão como vencedor, à luz dos incêndios do amor. Trânsfuga do campo dos machos, Aquiles vinha arriscar aqui a oportunidade única de ser algo mais que ele próprio. Para os escravos, pertencia à raça assexuada dos amos; o pai de Deidamia levava a aberração até amar nele a virgem que ele não era; apenas as duas primas se recusavam a acreditar naquela rapariga demasiado parecida com a imagem ideal que um homem faz das mulheres. Aquele rapaz ignorante das realidades do amor começava no leito de Deidamia a aprendizagem das lutas, das agonias, dos subterfúgios; o seu desfalecimento sobre aquela tenra vítima servia de substituto a uma alegria mais terrível que ele não sabia onde ir buscar, de que ignorava o nome, e que não era senão a Morte. O amor de Deidamia, os ciúmes de Misandre, voltavam a fazer dele o duro contrário de uma rapariga. As paixões ondulavam na torre como écharpes atormentadas pela brisa: Aquiles e Deidamia odiavam-se como aqueles que se amam; Misandre e Aquiles amavam-se como aqueles que se odeiam. Essa inimiga musculada tornava-se para Aquiles no equivalente de um irmão; esse rival delicioso enternecia Misandre como uma espécie de irmã. Cada onda que passava sobre a ilha trazia mensagens: cadáveres gregos, arrastados para o mar alto por ventos inauditos, eram outras tantas embarcações da armada naufragada, por falta de socorro de Aquiles; projectores buscavam-no no céu sob um disfarce de astro.
A glória, a guerra, vagamente entrevistas nas brumas do futuro, faziam-lhe o efeito de amantes exigentes cuja posse o obrigaria a demasiados crimes: ele pensava escapar do fundo dessa prisão de mulheres por solicitação das suas vítimas futuras. Uma grande barca de reis deteve-se aos pés do farol extinto que não era senão mais um escolho: Ulisses, Patroclo, Tersites, advertidos por uma carta anónima, tinham anunciado a sua visita às princesas; Misandre, repentinamente complacente, ajudava Deidamia a pôr ganchos na cabeleira de Aquiles. As suas grandes mãos tremiam como se tivesse acabado de deixar fugir um segredo. As portas abertas de par em par deixaram entrar a noite, os reis, o vento, o céu cheio de sinais. Tersites soprava, fatigado pelas escadas de mil degraus, esfregando entre as mãos os joelhos pontiagudos de enfermo: tinha o ar de um rei que por avareza se tivesse tornado no seu próprio truão. Patroclo, hesitando diante desse furão escondido no interior das Damas, estendia ao acaso as mãos com luvas de ferro.
A cabeça de Ulisses fazia pensar numa moeda usada, gasta, enferrujada, onde se viam ainda os traços do rei de Ítaca: a mão em pala sobre os olhos, como no cimo de um mastro, examinava as princesas encostadas à parede como uma tripla estátua de mulher; e os cabelos curtos de Misandre, as suas grandes mãos que sacudiam as dos chefes, o seu à-vontade, fizeram-no tomá-la primeiro como o esconderijo de um macho. Os marinheiros da escolta abriam as caixas, desembalavam, misturadas com os espelhos, as jóias, os estojos de esmalte, as armas que Aquiles por certo se apressaria a brandir. Mas os cascos manuseados pelas seis mãos maquilhadas lembravam aqueles de que se serviam os cabeleireiros; os cinturões amolecidos transformavam-se em cintos; nos braços de Deidamia, um escudo redondo parecia um berço. Como se o disfarce fosse uma má sorte a que ninguém escapava na ilha, o ouro transformava-se em vermelho, os marinheiros em travestis, e os dois reis em vendedores ambulantes. Apenas Patroclo resistia ao encanto, rompia-o como uma espada nua. Um grito de admiração de Deidamia designou-o à atenção de Aquiles que mergulhou contra essa espada brilhante, tomou entre as mãos a dura cabeça ciselada, como o punho de um gládio, sem se aperceber que os seus véus, as suas pulseiras, os seus anéis, faziam do seu gesto um transporte de apaixonada. A lealdade, a amizade, o heroísmo deixavam de ser palavras que serviam para os hipócritas mascararem as suas almas; a lealdade, eram esses olhos que se tinham mantido límpidos diante daquele amontoado de mentiras; a amizade seria os seus corações; a glória o seu duplo futuro». In Marguerite Yourcenar, Feux, 1935, Éditions Galimard, 1974, Difel, Lisboa, 1995, ISBN 972-29-0315-2.

Cortesia Difel/JDACT

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Fogos. 1935. Prosas Líricas. Marguerite Yourcenar. «… em movimento, perder essa fixidez que nos faz reconhecer que ela é o duro contrário da vida. Ela dá-nos o fim do cisne atingido em pleno voo, de Aquiles agarrado pelos cabelos por não sabemos que sombria ‘Razão’»

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«Espero que este livro nunca venha a ser lido. Há entre nós melhor do que um amor: uma cumplicidade». In Marguerite Yourcenar

«(…) Confessa-se antes de morrer para ter mais uma vez o prazer de falar do seu crime. Sem mudar de lugar, regressa ao palácio familiar onde a falta é uma inocência. Empurrada pela multidão dos seus antepassados, desliza ao longo desses corredores de metro, cheios de um cheiro animalesco, onde os remos quebram a água gordurosa do Styx, onde os carris luminosos não propõem mais do que o suicídio ou a partida. No fundo das galerias de mina da sua Creta subterrânea, acabará finalmente por encontrar o jovem desfigurado pelas dentadas de fera, uma vez que, para se lhe reunir tem todos os desvios da eternidade. Não voltou a vê-lo desde a grande cena do terceiro acto; foi por causa dele que ela morreu; foi por causa dela que ele não viveu; ele não lhe deve senão a morte; ela deve-lhe os sobressaltos de uma agonia inextinguível. Tem o direito de o tornar responsável pelo seu crime, pela sua imortalidade suspeita nos lábios dos poetas, que se servirão dela para expressar as suas aspirações ao incesto, como o condutor que jaz na estrada, de crânio desfeito, pode acusar a árvore contra a qual foi embater. Como qualquer vítima, foi o seu carrasco. Palavras definitivas sairão por fim dos seus lábios, que a esperança já não faz tremer. Que dirá ela? Certamente, obrigada.

De avião, junto a ti, já não temo o perigo. Não se morre senão sozinho
Nunca serei vencida. Não o serei senão à força de vencer. Cada armadilha estendida fechando-me cada vez mais no amor que acabará por ser o meu túmulo, acabarei a minha vida numa cela de vitórias. Sozinha, a derrota encontra chaves, abre portas. A morte, para atingir o fugitivo, tem de se pôr em movimento, perder essa fixidez que nos faz reconhecer que ela é o duro contrário da vida. Ela dá-nos o fim do cisne atingido em pleno voo, de Aquiles agarrado pelos cabelos por não sabemos que sombria Razão. Como a mulher asfixiada no vestíbulo da sua casa de Pompeia, a morte não faz mais do que prolongar no outro mundo os corredores da fuga. A minha morte será de pedra. Conheço as passagens, as curvas, as armadilhas, todas as minas da Fatalidade. Não posso perder-me. A morte, para me matar, terá necessidade da minha cumplicidade. Já notaste que os fuzilados se abaixam, caem de joelhos? Tornando-se moles apesar das cordas, dobram-se como se desmaiassem depois de um ataque. Fazem como eu. Adoram a sua morte. Não há amor infeliz: não possuímos senão aquilo que não possuímos. Não há amor feliz: o que possuímos, já não o possuímos. Nada a temer. Cheguei ao fundo. Não posso cair mais baixo do que o teu coração.

Aquiles ou a mentira
Tinham apagado todas as lâmpadas. As criadas, na sala térrea, teciam às cegas os fios de uma trama inesperada que se tornava na das Parcas; um bordado inútil pendia das mãos de Aquiles. O vestido negro de Misandre já não se distinguia do vestido vermelho de Deidamia; o vestido branco de Aquiles ficava verde debaixo da lua. Desde a chegada dessa jovem estrangeira na qual todas as mulheres pressentiam um deus, o temor tinha-se introduzido na ilha, como uma sombra deitada aos pés da beleza. O dia já não era o dia, mas sim a máscara loura pousada sobre as trevas; os seios das mulheres tornavam-se couraças em gargantas de soldados. Desde que Tétis tinha visto formar-se nos olhos de Júpiter o filme dos combates em que sucumbiria Aquiles, procurara em todos os mares do mundo uma ilha, um rochedo, um leito suficientemente estanque para vogar no futuro. Esta deusa agitada tinha quebrado os cabos submarinos que transmitiam na ilha os abalos das batalhas, furado o olho do farol que guiava os navios, expulso a golpes de tempestade as aves migratórias que levavam ao seu filho as mensagens de irmãos de armas. Tal como os camponeses põem roupas de rapariga aos filhos doentes, para despistar a Febre, ela tinha-o vestido com as suas túnicas de deusa que derrotariam a Morte. Esse filho infectado pela mortalidade lembrava-lhe a única falta da sua juventude divina: tinha dormido com um homem sem tomar a precaução banal de o transformar em deus. Encontravam-se nele os traços desse pai grosseiro, revestidos de uma beleza que não retinha senão dela, e que um dia deveria tornar-lhe mais penosa a obrigação de morrer. Vestido de seda, velado de gases, atafulhado de colares de ouro, Aquiles penetrara por sua ordem na torre das jovens; tinha acabado de sair do colégio dos Centauros: cansado de florestas, sonhava com cabeleiras; farto de gargantas selvagens, sonhava com seios». In Marguerite Yourcenar, Feux, 1935, Éditions Galimard, 1974, Difel, Lisboa, 1995, ISBN 972-29-0315-2.

Cortesia Difel/JDACT

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Fogos. 1935. Prosas Líricas. Marguerite Yourcenar. «Entre os lençóis húmidos de febril, consola-se com a ajuda de sussurros de confissão que chegam até às da infância, balbuciadas no pescoço da ama; suga a sua infelicidade; transforma-se por fim na miserável criada de Fedra»

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«Espero que este livro nunca venha a ser lido. Há entre nós melhor do que um amor: uma cumplicidade». In Marguerite Yourcenar, ‘Fogos’

«(…) Ausente, a tua figura aumenta a ponto de encher o universo. Passas ao estado fluido que é o dos fantasmas. Presente, ela condensa-se; atinges as concentrações dos metais mais pesados, do irídio, do mercúrio. Morro com esse peso quando ele me cai sobre o coração. O admirável Paul enganou-se. (Falo do grande sofista e não do grande pregador.) Existe, para todos os pensamentos, para todos os amores que, entregues a si próprios, talvez desfalecessem, um cordial singularmente enérgico que é todo o resto do mundo, que está em oposição a ele, e que não o vale. Solidão... Não creio como eles crêem, não vivo como eles vivem, não amo como eles amam... Morrerei como eles morrem. O álcool desembriaga. Depois de alguns golos de conhaque já não penso mais em ti.

Fedra ou o desespero
Fedra consegue tudo. Abandona a mãe ao touro, a irmã à solidão: estas formas de amor não a interessam. Abandona o seu país como quem renuncia aos seus sonhos; renega a família como quem vende as suas recordações na feira da ladra. Nesse meio em que a inocência é um crime, assiste desgostosa àquilo em que acabará por se tornar. O seu destino, visto do exterior, horroriza-a: ainda não o conhece senão sob a forma de inscrição na muralha do Labirinto: pela fuga arranca-se ao seu horrível destino. Desposa distraidamente Teseu, tal como Santa Maria a Egípcia pagava com o corpo o preço da sua passagem; deixa afundar-se no Ocidente, num nevoeiro de tábula, os matadouros gigantes da sua espécie da América cretense. Desembarca, impregnada com o odor do rancho e dos venenos do Haiti, sem saber que traz em si a lepra contraída sob um tórrido Trópico do coração. A sua estupefacção à vista de Hipólito é a de um viajante que descobre ter retrocedido no seu caminho sem o saber: o perfil daquela criança recorda-lhe Cnossos, e o machado de dois gumes. Odeia-o, educa-o; ele cresce contra ela, repelido pelo seu ódio, desde sempre habituado a desconfiar das mulheres, forçado desde a escola, desde as férias do Ano Novo, a saltar os obstáculos que espalha em seu redor a inimizade de uma madrasta. Ela tem ciúme das suas flechas, quer dizer, das suas vítimas, dos seus companheiros, quer dizer, da sua solidão. Nessa floresta virgem que é o lugar de Hipólito, planta inconscientemente os postes indicativos do palácio de Minos: traça através desses bosquedos o caminho de sentido único da Fatalidade. Em cada instante, recria Hipólito; o seu amor é realmente um incesto; não pode matar aquele rapaz sem cometer uma espécie de infanticídio. Fabrica a sua beleza, a sua castidade, as suas fraquezas; arranca-as do fundo de si própria; isola dele essa pureza detestável, para a poder odiar na figura de uma virgem insípida: forja com todas as peças a inexistência de Arícia. Embebeda-se do gosto do impossível, único álcool que serve sempre de base a todas as misturas da infelicidade. No leito de Teseu, tem o amargo prazer de na realidade enganar aquele que ama, e em imaginação aquele que não ama. É mãe: tem filhos como teria remorsos. Entre os lençóis húmidos de febril, consola-se com a ajuda de sussurros de confissão que chegam até às da infância, balbuciadas no pescoço da ama; suga a sua infelicidade; transforma-se por fim na miserável criada de Fedra. Perante a frieza de Hipólito, imita o sol quando incide num cristal: transforma-se em espectro; já não habita o seu corpo senão como o seu próprio inferno. Reconstrói no fundo de si própria um Labirinto onde não pode senão reencontrar-se: o fio de Ariana já não lhe permite sair de lá pois que o enrolou em redor do coração. Enviúva; pode finalmente chorar sem que lhe perguntem porquê; mas o negro não fica bem a essa figura sombria: ela odeia o seu luto por dar troco à dor. Desembaraçada de Teseu, transporta a sua esperança como uma vergonhosa gravidez póstuma. Faz política para se distrair de si própria: aceita a Regência tal como começaria a tricotar um xaile. O regresso de Teseu dá-se demasiado tarde para a fazer regressar ao mundo das fórmulas onde se acantona esse homem de Estado; não consegue lá entrar senão por meio de um subterfúgio; inventa, de alegria em alegria, a violação de que acusa Hipólito, de tal forma que a sua mentira é para ela uma saciedade. Diz a verdade: suportou os maiores ultrajes; a sua impostura é uma tradução. Toma veneno, porque está mitridatada contra si própria; o desaparecimento de Hipólito cria o vazio em seu redor; aspirada por esse vazio, mergulha na morte». In Marguerite Yourcenar, Feux, 1935, Éditions Galimard, 1974, Difel, Lisboa, 1995, ISBN 972-29-0315-2.

Cortesia Difel/JDACT

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

A Menina Boba. Poemas. O Amor. Oneyda Alvarenga. «Comecei a entender o amor da vida amando-a simples e natural, com a violência, a destreza; a nudez de uma índia no verde do mato-virgem escandalizando a civilização»

jdact e wikipedia


A Menina Boba
«Queimada pelo sol, desvairada
de perfume e de luz
correr…

Correr
impelida pelo ritmo sadio,
harmonioso,
dos meus músculos, dos meus nervos
de vinte anos…

Correr
grito errante e triunfal
da vida
até cair
queimada pelo sol, desvairada
de perfume e de luz…

Amor novo da vida que desperta em mim.
Puro como o ar que respiro,
duro como o sol que bate no meu corpo.

Glória de sorver seiva e deslumbramento
pela porta ensolarada dos meus cinco sentidos.


Comecei a entender o amor da vida
amando-a
simples e natural,
com a violência, a destreza;
a nudez de uma índia
no verde do mato-virgem
escandalizando a civilização.

Vento que corropia
arrepiando volúpias pelo ar…

… Braços que me enlaçassem,
beijos que me beijassem
loucos…

Assobia, corropia,
rasga o vento...

Óh! Seiva que trimultua no meu corpo!»
Poema de Oneyda Alvarenga, in ‘A Menina Boba’

JDACT

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Fogos. 1935. Prosas Líricas. Marguerite Yourcenar. «… conter verdades entrevistas muito cedo, mas que, de seguida, toda a vida não foi demasiada para tentar reencontrar e autenticar. Este baile de máscara foi uma das etapas de uma tomada de consciência»

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«(…) O importante é tentar demonstrar nestes jogos (onde, com efeito, o sentido de uma palavra, joga com a sua montagem sintáxica), não uma forma deliberada de afectação ou um gracejo, mas sim, como no lapsus freudiano e nas associações de ideias duplas ou triplas do delírio e do sonho, um reflexo do poeta, a contas com um tema particularmente rico, para ele, de emoções ou de perigos. Num trabalho meu, e o mais afastado possível de qualquer procura de estilo, e com maior razão ainda de qualquer ironia estilística, foi espontaneamente, sem ver que daí resultaria um calemburgo, que dei ao carcereiro da prisão onde agoniza o herói do livro, o nome de Hermann Mohr. Por muito que eu diga (o que, no entanto, é em princípio verdade) que uma compilação de poemas sobre o amor não necessita de comentários, sei que parece que procuro recusar o obstáculo ao tratar tão longamente de características estilísticas ou temáticas, ao fim e ao cabo secundárias, e ao passar em silêncio a experiência passional que inspirou este livro. Mas, além de sentir o ridículo de comentar demasiado longamente uma obra que desejaria que nunca fosse lida, não é este o local para examinar se o amor total por um ser particular, com tudo o que comporta de risco para si e para o outro, de inevitável burla, de verdadeira abnegação e humildade, mas igualmente de violência latente e de exigência egoísta, merece ou não o lugar exaltado que os poetas lhe deram.
O que parece evidente, é que esta noção do amor louco, por vezes escandaloso, e no entanto imbuído de uma espécie de virtude mística, não pode já subsistir senão associada a uma qualquer forma de fé na transcendência, ainda que apenas no seio da pessoa humana, e que uma vez privada do suporte de valores metafísicos e morais hoje desdenhados, talvez porque os nossos predecessores abusaram deles, o amor louco depressa deixa de ser outra coisa que um jogo vão de espelhos ou uma triste mania. Em fogos onde eu apenas pensava glorificar um amor muito concreto, ou talvez exorcizá-lo, a idolatria do ser amado associa-se muito visivelmente a paixões mais abstratas, mas não menos intensas, que por vezes prevalecem sobre a obsessão sentimental e carnal: em Antígona ou a escolha, a escolha de Antígona é a justiça; em Fédon ou a vertigem, a vertigem é a do conhecimento; em Maria Madalena ou a salvação a salvação é Deus. Não há aqui sublimação, como pretende uma fórmula decididamente infeliz, e insultante para a própria carne mas sim percepção obscura de que o amor por uma dada pessoa, por muito intenso, não é muitas vezes senão um belo acidente passageiro, menos real em certo sentido do que as predisposições e as escolhas que o antecedem e lhe sobreviverão. Através do ímpeto ou da desenvoltura inseparáveis deste género de confissões quase públicas, alguma passagens de fogos parecem-me hoje conter verdades entrevistas muito cedo, mas que, de seguida, toda a vida não foi demasiada para tentar reencontrar e autenticar. Este baile de máscara foi uma das etapas de uma tomada de consciência». In Marguerite Yourcenar, Feux, 1935, Éditions Galimard, 1974, Difel, Lisboa, 1995, ISBN 972-29-0315-2.

Cortesia Difel/JDACT

Fogos. 1935. Prosas Líricas. Marguerite Yourcenar. «… queimado por mais fogos do que aqueles que ateei, não nos faça ver por detrás deste amante desesperado o imenso braseiro de Tróia, e sentir naquilo que para as pessoas de bom gosto não parece mais do que um reles equívoco…»

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«… Essa tendência que persiste ou renasce em cada época em todas as literaturas, apesar das sensatas restrições puristas ou clássicas, obstina-se, talvez quimericamente, na criação de uma linguagem totalmente poética, na qual cada palavra carregada com o máximo do sentido revelaria os seus valores escondidos, tal como debaixo de certas iluminações se revelam as fosforescências das pedras. Trata-se sempre de concretizar o sentimento ou a ideia, sob formas que se tornam elas próprias preciosas (o termo é revelador em si próprio), como essas gemas que devem a sua densidade e o seu brilho à pressões e à temperatura quase insustentáveis pelas quais passaram, ou ainda em obter da linguagem as sábias distorções das ferroadas do Renascimento, cujos complicados ornamentos foram inicialmente ferro em brasa. O que de pior se pode dizer destas audácia verbais é que aquele que a elas se entrega corre permanentemente o risco do abuso e do excesso da mesma maneira que o escritor que se dedica aos litotes clássicos corre incessantemente o perigo da elegância seca e da hipocrisia.
No mau sentido da palavra, naquilo que eu chamaria voluntariamente o expressionismo barroco, foi que nove vezes em dez o poeta cedeu com efeito ao desejo de espantar, de agradar ou de desagradar a qualquer preço; acontece por vezes também que é incapaz de ir até ao âmago da ideia ou da emoção que o poeta lhe oferece, e na qual ele não vê, erradamente, mais do que metáforas forçada ou frios conceitos. Não é culpa de Shakespeare, mas sim nossa, que, quando o poeta compara o seu amor pelo destinatário dos Sonetos a um túmulo pavimentado com os troféus das suas antigas paixões, não sintamos flutuar por cima de nós todos os estandartes da época elisabetina. Não é culpa de Racine, mas nossa, que o famoso verso pronunciado por Pirro, apaixonado por Andrómaca, … queimado por mais fogos do que aqueles que ateei, não nos faça ver por detrás deste amante desesperado o imenso braseiro de Tróia, e sentir naquilo que para as pessoas de bom gosto não parece mais do que um reles equívoco indigno do grande Racine, o obscuro arrependimento do homem que foi impiedoso e começa a saber o que é sofrer. Esse verso onde Racine, por um processo frequente nele, reanima a metáfora dos fogos do amor, já gasta no seu tempo, voltando a dar-lhe o brilho das verdadeiras chamas, leva-nos à técnica do calemburgo lírico, que faz, por assim dizer, desenhar com a mesma palavra os dois ramos de uma parábola. Se, para voltar a fogos, Fedra, para a sua descida aos infernos, aproveita ramos que são ao mesmo tempo os de Charon e os do metro, é que o afluxo humano que redemoinha às horas de ponta nos corredores subterrâneos das nossas cidades é para nós talvez a imagem mais aterrorizadora do rio das sombras; se Tétis é ao mesmo tempo o mar e a mãe, é porque este equívoco, que de resto não faz sentido senão em francês, funde num todo o aspecto duplo de Tétis mãe de Aquiles e de Tétis divindade das vagas. Poderia multiplicar os exemplos, que em fogos valem o que valem». In Marguerite Yourcenar, Feux, 1935, Éditions Galimard, 1974, Difel, Lisboa, 1995, ISBN 972-29-0315-2.

Cortesia Difel/JDACT

terça-feira, 2 de setembro de 2014

Vaya con Dios. Ramos Rosa. Mistura. «Vitória propaganda pela sombra cabeleira compacta, firmes membros, uma respiração feliz ombro a ombro um caminhar sem solidão na noite»

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Busca la liberdad de tu rosto de hoy. In Aguirre


«Impreparado ainda
te procuro na sombra.
Venho adiante,
proa que deslizas,
maré que me renova.
Destroçado, um torso
lavado e límpido,
da própria água obscura,
eis o que à praia jogo,
na líquida impulsão,
atirado na areia,
de sede mais ardente.

E na água me envolvo,
me afundo, corpo novo,
e movimento, abraço,
e me confundo e abarco,
os nomes me atravessam,
outros nomes procuro,
iguais ao dia que desejo,
à mulher que ondula
e da salsugem surge,
mais branca, mais real».


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quarta-feira, 12 de junho de 2013

Paixões Reais. Os despojos da Paixão. Príncipe Regente João. Eduardo Nobre. «Ao confirmar-se a gravidez que teme, impossível e impensável numa menina que é dama da futura rainha, “Eugénia de Menezes” afunda-se num pesadelo vivo. As damas que com ela partilham do serviço no Paço não encontram justificação para o seu estado de abatimento, para as crises cerradas de choro, para a fuga às perguntas…»

D. Carlota Joaquina
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«(…) O marquês José, que deveras o estimava, recomendava ao marquês de Pombal, que fazias razias entre as prerrogativas da nobreza: não te metas com o marquês de Marialva! Poderoso, o marquês tinha corte própria, de fidalgos, padres e militares, e onde se moviam também uns quantos jovens pajens que, dizia-se, muito alegravam as luxúrias tardias do velho fidalgo. Legiões de criados preparavam a mesa faustosa e os seus próprios filhos serviam-no, de joelhos. Como era de uso fazer-se aos reis. Um desses filhos, Rodrigo José António de Menezes, moço-fidalgo da Casa Real, mordomo-mor e veador de D. Carlota Joaquina, é exactamente o pai da dama que atrai as atenções do Príncipe Regente.
Por decreto de 14 e carta de 29 de Novembro de 1802, João agracia-o com o título de conde de Cavaleiros, em duas vidas. A dele, Rodrigo, já levava cinquenta e dois anos de percurso e, em vésperas de se submeter às mais duras provas de dor, de humilhação e de vergonha, pouco mais duraria.

Fuga e perseguição
Ao confirmar-se a gravidez que teme, impossível e impensável numa menina que é dama da futura rainha, Eugénia de Menezes afunda-se num pesadelo vivo. As damas que com ela partilham do serviço no Paço não encontram justificação para o seu estado de abatimento, para as crises cerradas de choro, para a fuga às perguntas e à ajuda que lhe querem dar. Quando a fidalga evoca o desejo e o dever de morrer, o seu sofrimento é tão extremo e irreal que a julgam vítima de um colapso nervoso. O médico da Real Câmara, João Francisco Oliveira, cujos conhecimentos científicos e modernidade de métodos eram reconhecidos, entra em cena.
D. Eugénia pede licença no Paço, para recolher a casa do seu irmão mais velho, Gregório, militar de carreira, e de sua cunhada D. Francisca, também ela dama de D. Carlota Joaquina. A liberdade de movimentos do médico, quer na Corte quer na intimidade de D. Eugénia, foram decisivos para possibilitar a cobertura da sua fuga. A 28 de Maio, estão longe mas acossados. O intendente-geral Pina Manique, o homem que tudo sabia em Portugal, quando emite instruções de perseguição ao visconde de Anadia, ministro e Secretário de Estado dos Negócios da Marinha é vago e impreciso, coisa estranha e rara no Intendente:
  • ocorrem notícias que [...] o Físico Mor João Francisco Oliveira se intenta transportar com a Senhora que raptou, ou em huma Embarcação Dinamarquesa, ou em outra Sueca denominada Hezard ou em hum Cahique invocado N.S. das Barraquinhas.
Pobre do poderoso Intendente, senhor da fama e das benesses de ser os olhos e os ouvidos do Príncipe Regente, atarantado com tanta barraquinha e a ordenar que no cazo que no Rio desta cidade esteja surta alguma Embarcação de Guerra [...] a queira mandar sahir immediatamente. Como se os pesados veleiros de Sua Majestade fossem lanchas ultra-rápidas, capazes de alcançar um barco ligeiro que levava avanço no mar. Era preciso diligenciar, diligenciava-se. Fosse hoje, e provavelmente alguém nomearia uma comissão de inquérito. Nada mudou muito neste jardim à beira-mar plantado, quando se trata de mostrar que algo está a ser feito mas sem pretender exactamente resolver coisa alguma. Mais certeiro, por certo melhor informado, mas igualmente lento, foi o Secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros e da Guerra, João de Almeida de Melo e Castro, 5.º conde das Galveias. Por cúmulo, o assunto tocava-o pessoalmente, era cunhado da fugitiva, casado com a sua irmã D. Isabel José de Menezes, senhora de grande beleza e que, à data, rondaria os vinte e dois anos (casou aos dezassete, o marido era vinte e cinco anos mais velho).

A 31 de Maio destaca um correio do seu gabinete, Francisco Nunes Soares, homem da sua confiança, que conhece pessoalmente os fugitivos e os pode identificar à vista, e envia-o a Cádis, com despachos para o cônsul de Portugal:
  • Tendo fugido desta capital na noute de 26 do Corrente Dona Eugénia Joze de Menezes filha do Conde de Cavalleiros, e Dama Camarista da Senhora Infanta D. Maria lzabel, com João Francisco de Oliveira [...] e sendo este facto alem da mais abominável perversidade, tão ofensivo não só aodecóro da Caza Real, mas, a decencia da Nobre, e distincta familia a que pertencia aquella Fidalga [...] se ponhão em pratica todas as deligências possíveis [...] que elles se apriendão.
As ordens, emanadas do Palácio de Queluz, exigem a prisão dos fugitivos e o arresto de todos os seus bens». In Eduardo Nobre, Paixões Reais, Quimera Editores, 2002, ISBN 972-589-081-7.

Cortesia de Quimera/JDACT

Paixões Reais. Os despojos da Paixão. Príncipe Regente João. Eduardo Nobre. «Mas quem é esta mulher, que soluça em silêncio e engole o sal das lágrimas, para não acordar as gentes da casa? Abandonar a casa do seu próprio irmão, pela calada da noite, como um ladrão?»

jdact

«São dez horas da noite, de 27 de Maio de 1803, quando se entreabre uma janela no número 105 da Rua da Junqueira e um vulto de mulher desce cuidadosamente para a rua. Movimenta-se com alguma dificuldade, afinal está no seu quinto mês de gravidez. Próximo, o médico da Real Câmara, João Francisco Oliveira, está emboscado no escuro. Tem consigo a sua inseparável maleta de médico e um par de pistolas de pederneira de dois canos. Ainda que o seu alto cargo de físico-mor dos Reais Exércitos lhe confira alguma imunidade, aqueles quatro tiros podem sempre contrariar algum excesso de curiosidade dos esbirros do todo-poderoso e omnipresente Pina Manique, o temido intendente-geral da polícia. E, se ali as pistolas não lhe forem de algum préstimo, bem as pode ter à mão para fazer recuar um qualquer pirata argelino. É que o médico está ali para raptar uma senhora, tirá-la de casa da sua família e fazer-se ao mar. Não tem, naquela fria noite, outra razão para estar frente à fachada térrea da casa nobre do Principal Lázaro Leitão Aranha, residência de Gregório de Eça e Menezes. Vem raptar-lhe a irmã.
Mas quem é esta mulher, que soluça em silêncio e engole o sal das lágrimas, para não acordar as gentes da casa? Que obscuras voltas do destino a compelem a esta fuga, a esta extrema humilhação de abandonar a casa do seu próprio irmão, pela calada da noite, como um ladrão? É uma mulher que foge para esconder o inesperado fruto de uma paixão inesperada, foge com a alma tão negra como negra é a sege que a leva à praia de Caxias e negro é o mar que a conduz à vergonha do degredo. É uma mulher que vai ser impiedosamente perseguida, condenada e torturada por um crime de paixão. E, contudo, o seu crime não foi ter amado, mas ter cedido ao amor. Um amor que não podia permitir-se recusar.
Rotundo, mais baixo que alto, o lábio belfo dando-lhe um eterno ar de lassidão passiva, João, que é Príncipe Regente e irá ser rei, o sexto do seu nome, não era o que se pode dizer um homem atraente. Nem os luzentes uniformes lhe melhoravam a figura, mesmo aqueles que viria a copiar do pomposo Junot, embaixador de França e invasor a haver, e que lhe talhava um alfaiate francês, estabelecido em Lisboa. Restava-lhe a aura de Príncipe Regente e os louros do poder, para lhe conferirem algum encanto de sedução. O drama da morte do irmão e Príncipe Real José (1786), o promissor delfim que tanto agradava ao poderoso Pombal, seguido da irreversível loucura da mãe, a rainha D. Maria I, trouxeram-no à ribalta da governação e aos degraus de um trono que não lhe estava destinado.

Uma noiva de quatro anos, uma esposa de dez
As conveniências da política de reforço das alianças peninsulares haviam casado o infante João, a 25 de Abril de 1785, jovem de dezoito anos, com uma menina que, nesse preciso dia, apenas completava dez. Carlota Joaquina de Bourbon, infanta de Espanha, ainda não tinha quatro anos quando o seu avô, Carlos III, a destinou em casamento ao infante português. A 8 de Maio, o príncipe foi conhecer a sua noiva, a légua e meia de Vila Viçosa, permitindo-se-lhe que lhe falasse, por curtos cinco minutos, à portinhola do coche. O que poderá ter dito um noivo de dezoito anos a uma noiva de dez?
Depois, a pequena princesa, que obviamente não era núbil, ficou à guarda da rainha D. Maria I até vir a ter idade para consumar o matrimónio, o que viria a acontecer em Abril de 1790. Em Junho de 1792, ano em que, por ter enlouquecido D. Maria I, Carlota Joaquina se torna mulher do Príncipe Regente, com um pé no degrau do trono, ficaria grávida do seu primeiro filho, D. Maria Teresa, princesa da Beira, que vem a nascer a 29 de Abril de 1793. Nestes primeiros anos de regência do príncipe João, os filhos de Carlota Joaquina vão nascer em rajada. Até 1801, praticamente, ou está grávida ou a ter filhos: são seis em oito anos e mais três, entre 1802 e 1806, mas... com polémicas, diversas e duvidosas paternidades.
A tornar-se cada vez menos grácil, para não dizer feia, e mais ambiciosa, Carlota Joaquina vem revelando que herdara da mãe, Maria Luiza de Parma, mulher do rei Carlos IV de Espanha e amante notória do poderoso Manuel Godoy, o que alguns cronistas chamariam, à falta de melhor, o gosto por uma conduta dissoluta, de gostos vis e baixos. Se, em termos de casamento, o Príncipe Regente não era feliz com a conflituosa e turbulenta esposa, ainda é, neste dobrar de século, com os seus trinta e três anos, um homem atento aos apelos da paixão. Foram-se-lhe pousar os olhos e os desejos numa das damas de sua mulher, D. Eugénia José de Menezes, que teria os seus vinte e oito anos, por esta altura. A mácula de uma paixão proibida recai sobre uma neta do 4.º marquês de Marialva, Pedro de Menezes Noronha Coutinho, celebrado cavaleiro e mestre de equitação.
O marquês era lendário, fora estribeiro-mor de el-rei José I e, já sexagenário, batia a cavalo as moitas de Salvaterra de Magos, trazendo à sua frente, em galope furioso, os javalis corridos à ponta de pampilho, até ficarem ao fácil alcance dos tiros de sua majestade». In Eduardo Nobre, Paixões Reais, Quimera Editores, 2002, ISBN 972-589-081-7.

Cortesia de Quimera/JDACT

segunda-feira, 21 de março de 2011

Há dias assim... Dia Mundial da Poesia: Luís de Camões. «...Vosso mantimento não no entendereis; isso que comeis, não são ervas, não: são graças dos olhos, do meu coração»

Cortesia de malhatlantica 

Verdes são os Campos
Verdes são os campos,
De cor de limão:
Assim são os olhos
Do meu coração.

Campo, que te estendes
Com verdura bela;
Ovelhas, que nela
Vosso pasto tendes,
De ervas vos mantendes
Que traz o Verão,
E eu das lembranças
Do meu coração.

Gados que pasceis
Com contentamento,
Vosso mantimento
Não no entendereis;
Isso que comeis
Não são ervas, não:
São graças dos olhos
Do meu coração.
Luís de Camões

Descalça vai para a Fonte
Descalça vai para a fonte
Lianor pela verdura;
Vai fermosa, e não segura.

Leva na cabeça o pote,
O testo nas mãos de prata,
Cinta de fina escarlata,
Sainho de chamelote;
Traz a vasquinha de cote,
Mais branca que a neve pura.
Vai fermosa e não segura.

Descobre a touca a garganta,
Cabelos de ouro entrançado
Fita de cor de encarnado,
Tão linda que o mundo espanta.
Chove nela graça tanta,
Que dá graça à fermosura.
Vai fermosa e não segura.
Luís de Camões

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