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segunda-feira, 21 de março de 2022

O Sangue dos Inocentes. Julia Navarro. «Coexistiam duas criações, a má e a boa, a terrena e a espiritual. Os perfeitos, acrescentou, ajudam-nos a encontrar o caminho para fugir da prisão e para que a nossa alma…»

jdact

Languedoq meados do sécalo XIII

«(…) O cabreiro deteve-se junto de umas árvores que se encarrapitavam por um dos penhascos. Mal recuperara o fôlego quando se encontrou perante dona Maria. Julián, filho, quanto me alegra ver-te! Minha senhora... Vem, senta-te a meu lado, não temos muito tempo e temos de o aproveitar. Quero que me contes como estão as coisas ali em baixo. Os nossos espiões dizem que Hugues des Arcis conta com dez mil homens. Espero que o conde de Toulouse não se amedronte perante essa força e cumpra os seus compromissos para com esta terra. Não se trata apenas de fé, mas sim de poder. Que dizeis, senhora? Se Hugues des Arcis conquistar Montségur, acabou-se a liberdade na nossa terra. O rei quer estas terras porque, sem elas, o seu reino não vale nada. Pensas que lhe interessam os cátaros? Não, filho, não te iludas, aqui não se luta por Deus, mas sim pelo poder. Querem o nosso país para a Coroa. Mas o papa quer erradicar a heresia! O papa sim, mas ao rei de França tanto lhe faz.  Senhora, dizeis cada coisa...! Bem, não te cansarei com as minhas ideias, prefiro ouvir-te, ou melhor, que respondas às minhas perguntas. Durante uma hora, dona Maria interrogou Julián. Não houve pormenor acerca das forças de Hugues des Arcis sobre as quais não lhe colocasse perguntas. E tu, Julián? Continuas a ser um crente? Que sei eu! Estou confuso, senhora, já nem sei quem é Deus. Mas como é possível que digas isso? Enganei-me contigo? Sempre te considerei inteligente, por isso quis que estudasses e te tornasses dominicano... Contudo, a única coisa que quereis é que atraiçoe os meus irmãos! O que quero é que sirvas o Deus verdadeiro, e não o demónio que tens por Deus.

Julián persignou-se, espantado. Dona Maria atormentava-o com as suas ideias heréticas e fazia-o duvidar. Ainda recordava o dia em que o chamara para lhe dizer que encontrara o Deus verdadeiro, e que a partir desse momento ele também o deveria servir. Explicou-lhe que o mundo fora criado por uma divindade inferior, um demónio que encarcerara os verdadeiros anjos, e que estes anjos eram as almas humanas que apenas se libertariam com a morte. O corpo, disse-lhe, era uma prisão, o pior dos calabouços. Deus nada tinha a ver com a terra oblivionis. Era Ele o artífice do espírito, não da realidade material. Coexistiam duas criações, a má e a boa, a terrena e a espiritual. Os perfeitos, acrescentou, ajudam-nos a encontrar o caminho para fugir da prisão e para que a nossa alma se encontre no céu com essa parte do nosso espírito que voltará a tornar-nos inteiros. Vi dom Fernando. Meu filho? Vosso filho». In Julia Navarro, O Sangue dos Inocentes, 2007, Bertrand Editora, 2017, ISBN 978-972-253-182-5.

Cortesia de BertandE/JDACT

JDACT, Julia Navarro, Literatura, Cátaros,

domingo, 20 de março de 2022

Julia Navarro. O Sangue dos Inocentes. «De uma jovem bela e encantadora que não teve outra opção senão entregar-se ao seu senhor. Não fui eu que ditei as regras, nem estou de acordo com elas. Mas vós sabeis tão bem quanto eu que os senhores têm filhos fora do matrimónio»

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Languedoq meados do sécalo XIII

«(…) Se não vos incomoda, desejaria ficar na tenda, afirmou Julián. Sinto-me mal. Quem sabe o sono me sirva de ajuda. Direi ao médico que vos volte a examinar, disse frei. Não! Rogo-vos! Não suportaria outra sangria! Um pouco de sopa e um pedaço de pão para molhar no vinho serão os melhores dos remédios. Estou muito cansado, frei Pèire... Creio que tem razão, intercedeu Fernando. O melhor que podemos fazer pelo meu bom irmão é deixar que repouse. Não há nada melhor do que um bom sono reparador. Quanto a vós, dom Fernando, esperam-vos para partilhar o jantar com meu senhor Hugues des Arcis e o resto dos cavaleiros. Não me demorarei mais de um minuto, o tempo que tardareis em trazer o caldo e o vinho com pão ao bom Julián. Com passo diligente, frei Pèiré voltou a sair da tenda, preocupado pela palidez do irmão Julián. Que Deus o perdoasse, mas acreditava ter visto a morte reflectida no rosto dele. Sinto ter-vos causado pesar, disse Fernando, quando ficaram de novo sós. Não vos preocupeis. Sim, preocupo-me porque vos aprecio, e quer gosteis quer não, somos meios-irmãos. Isso não vos deveria afligir. Sois filho de um nobre senhor da vila de Aínsa. E de uma criada de vossa casa.

De uma jovem bela e encantadora que não teve outra opção senão entregar-se ao seu senhor. Não fui eu que ditei as regras, nem estou de acordo com elas. Mas vós sabeis tão bem quanto eu que os senhores têm filhos fora do matrimónio. Tivestes sorte, porque minha mãe nunca abandonou os filhos bastardos, nem tão-pouco as suas mães. Procurou dar a todos uma posição e colocou um especial empenho no vosso caso. Fostes criado no nosso solar de família, aprendestes a montar a cavalo ao mesmo tempo que eu e fizeram-vos aprender a ler e a escrever, inclusive, minha mãe comprou-vos o vosso cargo eclesiástico... Mas sou um bastardo. Somos todos iguais perante os olhos de Deus. No dia do Juízo Final não vos perguntarão pelo momento nem pela circunstância do vosso nascimento, apenas por aquilo que fizestes nesta vida. Julián, aterrado, começou a tossir convulsivamente enquanto Fernando tentava em vão fazê-lo beber água. Acalmai-vos e bebei água! Mas, que vos está a acontecer? O juízo de Deus..., sei que irei para o inferno. O frade tremia e as lágrimas deslizavam-lhe pelas faces. A angústia e o medo converteram o escrivão da Inquisição (maldita) numa criança. Mas, Julián, qual a vossa culpa para que vos sintais assim? Vossa mãe, é ela a culpada do meu sofrimento! Calai-vos! Como vos atreveis a dizer tamanha barbaridade! As lágrimas inundaram o rosto do frade que, por entre fortes convulsões, caiu no austero catre onde dormia. Fernando não sabia que fazer. Sentia pena ao ver o estado de Julián, a quem sempre quisera e protegera, e que preferia ao resto dos seus irmãos.

É uma sorte que tenha vindo connosco o cavaleiro Armand. É um físico bom e no Oriente aumentou os seus conhecimentos. Pedir-lhe-ei que vos visite e vos dê um remédio para o mal que vos apoquenta. Agora tenho de ir. Amanhã, voltarei para vos ver. Fernando saiu da tenda, intrigado pelo sofrimento de Julián. Preocupava-o, mais que o padecimento físico do irmão, saber que tinha a alma apoquentada. Julián permaneceu um bom bocado encolhido no catre. Nem sequer se mexeu quando frei Pèire lhe levou a sopa, o pão e o vinho. Preferiu fingir que estava a dormir para não ter que se confrontar com outra conversa acerca do seu calamitoso estado de saúde. Quando deixou de ouvir os passos de frei Pèire, sentou-se para molhar o pedaço de pão no vinho de sabor áspero que algumas vezes lhe conseguia levantar o ânimo. Bebeu de uma só vez a sopa e voltou a estender-se, à espera que se desvanecessem os ruídos do acampamento para acudir ao pedido de dona Maria. O homem que lhe entregara a mensagem da senhora esperá-lo-ia no exterior do acampamento para o conduzir através dos penhascos até ao lugar onde se devia encontrar com ela.

Não soube quanto tempo passara quando ouviu um ruído perto da tenda. Sentou-se sobressaltado, consciente de que adormecera. Conseguiu levantar-se a muito custo e serviu-se de um copo de água, que bebeu com sofreguidão. De seguida, enxaguou o rosto, vestiu o hábito amarrotado, e saiu silenciosamente da tenda. Sentia que as pancadas do coração podiam despertar o acampamento que nesse momento estava tranquilo, iluminado pelas chamas das fogueiras que tentavam aliviar o frio intenso daquela noite de Inverno. Escapuliu-se do acampamento com passos rápidos e dirigiu-se ao bosque, certo que a qualquer momento apareceria o enviado de dona Maria.

Estais atrasado, recriminou-o o homem que saiu ao seu encontro como se se tratasse de um espectro. Era um cabreiro que conhecia bem os caminhos da montanha. Não pude vir antes. Ou adormecestes, replicou o homem, de mau humor. Não, não adormeci, só que não posso sair do acampamento quando me apetece. Pois outros o fazem. Isso é uma surpresa! Surpreende-vos que entre os soldados recrutados à força existam alguns que têm familiares ali em cima? Julián calou-se. De modo que Fernando tinha razão. Havia quem entrasse e saísse de Montségur como de sua própria casa. Onde é que a senhora me espera? Segui-me até ao lugar. Caminharam perto de uma hora entre penhascos formados por blocos calcários que terminavam na enorme rocha onde, desafiador ao olho humano, se encontrava o castelo de Montségur». In Julia Navarro, O Sangue dos Inocentes, 2007, Bertrand Editora, 2017, ISBN 978-972-253-182-5.

Cortesia de BertandE/JDACT

JDACT, Julia Navarro, Literatura, Cátaros,

domingo, 20 de fevereiro de 2022

Julia Navarro. O Sangue dos Inocentes. «Caminharam perto de uma hora entre penhascos formados por blocos calcários que terminavam na enorme rocha onde, desafiador ao olho humano, se encontrava o castelo de Montségur»

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Languedoq meados do sécalo XIII

«(…) Escapuliu-se do acampamento com passos rápidos e dirigiu-se ao bosque, certo que a qualquer momento apareceria o enviado de dona Maria. Estais atrasado, recriminou-o o homem que saiu ao seu encontro como se se tratasse de um espectro. Era um cabreiro que conhecia bem os caminhos da montanha. Não pude vir antes. Ou adormecestes, replicou o homem, de mau humor. Não, não adormeci, só que não posso sair do acampamento quando me apetece. Pois outros o fazem. Isso é uma surpresa! Surpreende-vos que entre os soldados recrutados à força existam alguns que têm familiares ali em cima? Julián calou-se. De modo que Fernando tinha razão. Havia quem entrasse e saísse de Montségur como de sua própria casa. Onde é que a senhora me espera? Segui-me até ao lugar. Caminharam perto de uma hora entre penhascos formados por blocos calcários que terminavam na enorme rocha onde, desafiador ao olho humano, se encontrava o castelo de Montségur. O cabreiro deteve-se junto de umas árvores que se encarrapitavam por um dos penhascos. Mal recuperara o fôlego quando se encontrou perante dona Maria. Julián, filho, quanto me alegra ver-te! Minha senhora... Vem, senta-te a meu lado, não temos muito tempo e temos de o aproveitar. Quero que me contes como estão as coisas ali em baixo. Os nossos espiões dizem que Hugues des Arcis conta com dez mil homens. Espero que o conde de Toulouse não se amedronte perante essa força e cumpra os seus compromissos para com esta terra. Não se trata apenas de fé, mas sim de poder. Que dizeis, senhora? Se Hugues des Arcis conquistar Montségur, acabou-se a liberdade na nossa terra.

O rei quer estas terras porque, sem elas, o seu reino não vale nada. Pensas que lhe interessam os cátaros? Não, filho, não te iludas, aqui não se luta por Deus, mas sim pelo poder. Querem o nosso país para a Coroa. Mas o papa quer erradicar a heresia! O papa sim, mas ao rei de França tanto lhe faz. Senhora, dizeis cada coisa...! Bem, não te cansarei com as minhas ideias, prefiro ouvir-te, ou melhor, que respondas às minhas perguntas. Durante uma hora, dona Maria interrogou Julián. Não houve pormenor acerca das forças de Hugues des Arcis sobre as quais não lhe colocasse perguntas. E tu, Julián? Continuas a ser um crente? Que sei eu! Estou confuso, senhora, já nem sei quem é Deus. Mas como é possível que digas isso? Enganei-me contigo? Sempre te considerei inteligente, por isso quis que estudasses e te tornasses dominicano... Contudo, a única coisa que quereis é que atraiçoe os meus irmãos! O que quero é que sirvas o Deus verdadeiro, e não o demónio que tens por Deus.

Julián persignou-se, espantado. Dona Maria atormentava-o com as suas ideias heréticas e fazia-o duvidar. Ainda recordava o dia em que o chamara para lhe dizer que encontrara o Deus verdadeiro, e que a partir desse momento ele também o deveria servir. Explicou-lhe que o mundo fora criado por uma divindade inferior, um demónio que encarcerara os verdadeiros anjos, e que estes anjos eram as almas humanas que apenas se libertariam com a morte. O corpo, disse-lhe, era uma prisão, o pior dos calabouços. Deus nada tinha a ver com a terra oblivionis. Era Ele o artífice do espírito, não da realidade material. Coexistiam duas criações, a má e a boa, a terrena e a espiritual. Os perfeitos, acrescentou, ajudam-nos a encontrar o caminho para fugir da prisão e para que a nossa alma se encontre no céu com essa parte do nosso espírito que voltará a tornar-nos inteiros. Vi dom Fernando. Meu filho? Vosso filho». In Julia Navarro, O Sangue dos Inocentes, 2007, Bertrand Editora, 2017, ISBN 978-972-253-182-5.

Cortesia de BertandE/JDACT

JDACT, Julia Navarro, Literatura, Cátaros,

sábado, 19 de fevereiro de 2022

Julia Navarro. O Sangue dos Inocentes. « Fostes criado no nosso solar de família, aprendestes a montar a cavalo ao mesmo tempo que eu e fizeram-vos aprender a ler e a escrever, inclusive, minha mãe comprou-vos o vosso cargo eclesiástico...»

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Languedoq meados do sécalo XIII

«(…) Se não vos incomoda, desejaria ficar na tenda, afirmou Julián. Sinto-me mal. Quem sabe o sono me sirva de ajuda. Direi ao médico que vos volte a examinar, disse frei. Não! Rogo-vos! Não suportaria outra sangria! Um pouco de sopa e um pedaço de pão para molhar no vinho serão os melhores dos remédios. Estou muito cansado, frei Pèire... Creio que tem razão, intercedeu Fernando. O melhor que podemos fazer pelo meu bom irmão é deixar que repouse. Não há nada melhor do que um bom sono reparador. Quanto a vós, dom Fernando, esperam-vos para partilhar o jantar com meu senhor Hugues des Arcis e o resto dos cavaleiros. Não me demorarei mais de um minuto, o tempo que tardareis em trazer o caldo e o vinho com pão ao bom Julián. Com passo diligente, frei Pèiré voltou a sair da tenda, preocupado pela palidez do irmão Julián. Que Deus o perdoasse, mas acreditava ter visto a morte reflectida no rosto dele. Sinto ter-vos causado pesar, disse Fernando, quando ficaram de novo sós. Não vos preocupeis. Sim, preocupo-me porque vos aprecio, e quer gosteis quer não, somos meios-irmãos. Isso não vos deveria afligir. Sois filho de um nobre senhor da vila de Aínsa. E de uma criada de vossa casa. De uma jovem bela e encantadora que não teve outra opção senão entregar-se ao seu senhor. Não fui eu que ditei as regras, nem estou de acordo com elas. Mas vós sabeis tão bem quanto eu que os senhores têm filhos fora do matrimónio. Tivestes sorte, porque minha mãe nunca abandonou os filhos bastardos, nem tão-pouco as suas mães. Procurou dar a todos uma posição e colocou um especial empenho no vosso caso. Fostes criado no nosso solar de família, aprendestes a montar a cavalo ao mesmo tempo que eu e fizeram-vos aprender a ler e a escrever, inclusive, minha mãe comprou-vos o vosso cargo eclesiástico...

Mas sou um bastardo. Somos todos iguais perante os olhos de Deus. No dia do Juízo Final não vos perguntarão pelo momento nem pela circunstância do vosso nascimento, apenas por aquilo que fizestes nesta vida. Julián, aterrado, começou a tossir convulsivamente enquanto Fernando tentava em vão fazê-lo beber água. Acalmai-vos e bebei água! Mas, que vos está a acontecer? O juízo de Deus..., sei que irei para o inferno. O frade tremia e as lágrimas deslizavam-lhe pelas faces. A angústia e o medo converteram o escrivão da inquisição numa criança. Mas, Julián, qual a vossa culpa para que vos sintais assim? Vossa mãe, é ela a culpada do meu sofrimento! Calai-vos! Como vos atreveis a dizer tamanha barbaridade! As lágrimas inundaram o rosto do frade que, por entre fortes convulsões, caiu no austero catre onde dormia. Fernando não sabia que fazer. Sentia pena ao ver o estado de Julián, a quem sempre quisera e protegera, e que preferia ao resto dos seus irmãos. É uma sorte que tenha vindo connosco o cavaleiro Armand. É um físico bom e no Oriente aumentou os seus conhecimentos. Pedir-lhe-ei que vos visite e vos dê um remédio para o mal que vos apoquenta. Agora tenho de ir. Amanhã, voltarei para vos ver. Fernando saiu da tenda, intrigado pelo sofrimento de Julián. Preocupava-o, mais que o padecimento físico do irmão, saber que tinha a alma apoquentada.

Julián permaneceu um bom bocado encolhido no catre. Nem sequer se mexeu quando frei Pèire lhe levou a sopa, o pão e o vinho. Preferiu fingir que estava a dormir para não ter que se confrontar com outra conversa acerca do seu calamitoso estado de saúde. Quando deixou de ouvir os passos de frei Pèire, sentou-se para molhar o pedaço de pão no vinho de sabor áspero que algumas vezes lhe conseguia levantar o ânimo. Bebeu de uma só vez a sopa e voltou a estender-se, à espera que se desvanecessem os ruídos do acampamento para acudir ao pedido de dona Maria. O homem que lhe entregara a mensagem da senhora esperá-lo-ia no exterior do acampamento para o conduzir através dos penhascos até ao lugar onde se devia encontrar com ela. Não soube quanto tempo passara quando ouviu um ruído perto da tenda. Sentou-se sobressaltado, consciente de que adormecera. Conseguiu levantar-se a muito custo e serviu-se de um copo de água, que bebeu com sofreguidão. De seguida, enxaguou o rosto, vestiu o hábito amarrotado, e saiu silenciosamente da tenda. Sentia que as pancadas do coração podiam despertar o acampamento que nesse momento estava tranquilo, iluminado pelas chamas das fogueiras que tentavam aliviar o frio intenso daquela noite de Inverno». In Julia Navarro, O Sangue dos Inocentes, 2007, Bertrand Editora, 2017, ISBN 978-972-253-182-5.

Cortesia de BertandE/JDACT

 JDACT, Julia Navarro, Literatura, Cátaros, 

O Sangue dos Inocentes. Julia Navarro. «… somos filhos obedientes da Igreja, pediram os nossos serviços por isso aqui estamos. Outra coisa é aquilo que faremos. Deus seja louvado!»

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Languedoq meados do sécalo XIII

«(…) Um dos camponeses da zona, que fornece o senescal com o queijo das suas cabras, conseguiu entrar na minha tenda para me entregar a carta de dona Maria. As suas instruções são precisas: quando a noite cair, devo abandonar o acampamento e caminhar até à entrada do vale. Ali alguém me levará pelas passagens secretas que sei conduzirem a Montségur. Se Hugues des Arcis soubesse da sua existência pagar-me-ia bem pela informação, ou talvez me mandasse castigar por não lhas ter revelado há mais tempo. A tarde torna-se eterna. Oiço passos, quem será? Estais bem, Julián? Frei Pèire alarmou-me ao dizer que estáveis com febre. O frade levantou-se de um salto e abraçou o homem alto e robusto que acabava de entrar na tenda sem autorização. Era o irmão. Por um instante, sentiu-se melhor, como quando era criança e se sentia protegido pela figura imponente de Fernando, o qual era capaz de derrubar com um soco qualquer pessoa que se aproximasse. Mas era sobretudo o olhar sereno e confiante que desarmava os seus adversários, e fazia com que os  amigos se sentissem seguros. Fernando, vós aqui? Que alegria! Quando chegastes? Há apenas uma hora que chegámos ao acampamento. Chegaram? Sim, eu com mais cinco cavaleiros. O bispo de Albi, Durand de Belcaire, pediu ajuda ao grão-mestre. O nosso irmão Arthur Bonard é um engenheiro hábil, tal como o bispo.

Há já dias que chegaram os reforços que o bispo enviou ao nosso senhor Hugues des Arcis. Mas não sabia que também tinha pedido ajuda ao Templo. É um homem de Deus aquele que gosta da guerra, já que é capaz de imaginar todos os tipos de máquinas e artefactos para destruir o inimigo. Presumo que terá outras virtudes..., respondeu Fernando com um sorriso. Oh, sim! Discursa aos soldados quase melhor do que o senhor Des Arcis. Bem, não está nada mal para um bispo, troçou Fernando. Dizei-me, os templários querem acabar com os bons homens? Ouvi rumores de que não gostam de perseguir cristãos. Fernando demorou a responder. De seguida, suspirou e disse em voz baixa: Não façais caso dos rumores. Isso não é uma resposta. Não confiais em mim? Claro que sim! Sois meu irmão! Bem, dar-vos-ei uma resposta. Os cristãos eram adversários poderosos, demasiados para perder energias a combater entre nós. Que dano causam os bons homens? Vivem como verdadeiros cristãos, e dão testemunho de pobreza. Mas renegam a Cruz! Não vêem Nosso Senhor nela. Consideram a Cruz como um símbolo, como o lugar onde foi crucificado. Mas não sou teólogo, sou um simples soldado. E também monge. Cumpro com Deus como me manda a Santa Madre Igreja, embora isso não signifique que não possa pensar. Não gosto de perseguir cristãos. Nem vós nem aqueles que pertencem à vossa Ordem, replicou Julián. E vós, gostais de ver mulheres e crianças a arder nas fogueiras?

A pergunta de Fernando provocou-lhe náuseas. Que Deus os guarde no Seu seio!, exclamou Julián, enquanto se persignava. A Igreja garante que estão no inferno, asseverou Fernando em tom de troça. Não nos aflijamos e conformemo-nos com a situação. Nem a vós, nem a mim, agradam as mortes dos inocentes. Quanto ao Templo.., somos filhos obedientes da Igreja, pediram os nossos serviços por isso aqui estamos. Outra coisa é aquilo que faremos. Deus seja louvado! Desse modo, estais aqui mas como se não... Qualquer coisa parecida. Tende cuidado, Fernando. Encontra-se entre nós frei Ferrer, que vê heresia até no silêncio. Frei Ferrer? Devo confessar-vos que as notícias que ouvi dele são inquietantes. Porque está aqui? Dirige a nossa ordem e jurou fazer justiça, ao mandar para a fogueira os assassinos dos nossos irmãos. Referi-vos aos dominicanos assassinados em Avignon? Assim é. Chegaram a essa cidade em busca de hereges. Acompanhavam—nos oito escrivães que foram vítimas de uma emboscada. Raimundo de Alfaro, o administrador do conde de Toulouse em Avignon, autorizou o seu assassinato. Mas isso não está provado, contestou Fernando. Duvidais, senhor?, ouviram nas suas costas.

Julián e Fernando voltaram-se, surpreendidos. Frei Ferrer acabava de entrar na tenda e ouvira as últimas palavras. Fernando não se alterou, apesar do olhar carregado de reprovação com que o inquisidor o observava. Vós sois...? Frei Ferrer, respondeu o dominicano, e perguntava-vos se duvidais da cumplicidade de Alfaro no assassinato dos meus dois irmãos. Não existem provas de que isso tenha acontecido. Provas?, trovejou frei Ferrer. Sabei que Alfaro alojou os meus irmãos na torre de menagem do castelo, onde ninguém lhes pudesse prestar socorro, longe de qualquer olhar. Sabei também que foram assassinados a meio da noite por um destacamento de hereges saído daqui, de Montségur, este ninho de iniquidade que Deus destruirá. A Igreja não perdoará esta afronta. Esses a que chamam Bons Cristãos são um bando de assassinos. Julián olhava-o aterrorizado e incapaz de se mover. Fernando avaliou o dominicano e decidiu que seria um erro entrar em conflito com ele. Ignoro os pormenores do ocorrido. Se dizeis que foi assim, então que seja. Frei Ferrer cravou os olhos em Julián, que parecia prestes a desmaiar. Frei Pèire insistiu que não vos viesse ver porque necessitais de repousar, mas faltaria à piedade e à caridade se não me preocupasse convosco. Vejo que estais acompanhado, e visitar-vos-ei noutra altura. Frei Ferrer saiu com a mesma rapidez com que os surpreendera. Vamos, não vos assusteis, vi-vos empalidecer, riu-se Fernando. É vosso irmão em Deus. Vós.., vós não o conheceis, murmurou Julián. Não gostaria de estar no lugar dos hereges. Receio que algo que falta a este frei Ferrer seja a compaixão». In Julia Navarro, O Sangue dos Inocentes, 2007, Bertrand Editora, 2017, ISBN 978-972-253-182-5.

Cortesia de BertandE/JDACT

 DACT, Julia Navarro, Literatura, Cátaros,

O Sangue dos Inocentes. Julia Navarro. «Está muito enfermo, a gota quase que o impede de andar, e sofre de espasmos no coração. A mais velha das minhas irmãs trata dele com devoção. Já sabeis que dona Marta enviuvou…»

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Languedoq meados do sécalo XIII

«(…) Presumo que sabeis que vossa mãe continua em Montségur, acompanhada pela mais nova de vossas irmãs. Fernando assentiu com uma expressão séria e preocupada. Evocar a mãe, dona Maria, causou-lhe uma dor repentina no peito. Nunca a sentira muito próxima, apesar de lhe querer mais até do que ao próprio pai. Enérgica e inquieta, não prodigalizara demasiadas carícias entre os filhos, por muito que quisesse a todos e os protegesse, procurando-lhes um futuro. Eu..., bem..., vi-a nalgumas ocasiões, confessou Julián. Não é de estranhar, o castelo nunca esteve incomunicável. Sabemos que alguns dos seus homens sobem e descem por passagens secretas que apenas eles conhecem. Minha mãe enviou-me uma carta não há muito tempo. Escreveu-vos?, perguntou Julián, assustado. Só a senhora se poderia atrever a fazer algo assim! Não vos preocupeis. Minha mãe é inteligente e não nos colocou em perigo. Recebi a missiva através de um pajem da casa de minha irmã Marian. Já sabeis que seu esposo, dom Bertran d'Amis, serve o conde Raimundo, de modo que Marian recebe notícias frequentes de minha mãe. Agora que estou aqui tentarei visitá-la, não sei bem como..., talvez me possais ajudar. Nem sequer o deveis tentar! O meu senhor Hugues des Arcis matar-vos-ia, e o bispo excomungar-vos-ia.

Saberei encontrar um modo, meu bom Julián. Tentarei convencê-la a abandonar Montségur ou, pelo menos, que o permita a minha irmã Teresa, que mal deixou a infância. Mais tarde ou mais cedo, o castelo será conquistado e..., bem, vós sabeis tão bem quanto eu: não haverá piedade para os cátaros. Tentarei convencê-la, devo-o a meu pai, ao nosso pai. Julián baixou a cabeça envergonhado. Doíam-lhe as entranhas ao saber-se um bastardo de dom Juan de Aínsa. Vamos, Julián, não vos quero ver abatido! Julián sentou-se e serviu-se de um jarro de água que bebeu com sofreguidão sem o oferecer a Fernando. Este esperou em silêncio até que o irmão reencontrasse o sossego antes de prosseguir. Estivestes com dom Juan?, perguntou Julián num fio de voz. Há muitos anos, de regresso a este país, consegui desviar-me e passar por Aínsa para visitar nosso pai. Estive apenas dois dias com ele, mas foi o suficiente para nos inteirarmos um do outro. Continua a amar minha mãe tanto como no dia em que a desposou e o destino dela angustia-o. Pediu-me que a salvasse, a ela e à minha irmã mais nova. Prometi-lhe que faria o impossível para que abandonasse Montségur, embora ambos saibamos que minha mãe não deixará o castelo, que defrontará a própria morte porque não teme nada nem ninguém, nem sequer Deus.

Dom Juan encontra-se bem de saúde? Está muito enfermo, a gota quase que o impede de andar, e sofre de espasmos no coração. A mais velha das minhas irmãs trata dele com devoção. Já sabeis que dona Marta enviuvou e regressou à casa paterna com seus dois filhos, em busca da protecção de nosso pai. Dona Marta sempre foi a sua filha favorita. É a mais velha de todos nós e durante algum tempo parecia que ia ser a sua única filha, já que minha mãe não engravidava. Com excepção, claro, dos outros filhos que meu pai teve... Sim, os seus bastardos. Dom Juan amava dona Maria, mas nunca teve pejo em tomar outras donzelas. Vossa mãe era muito formosa. Sim, devia sê-lo, nunca tive o prazer de a conhecer. Os dois homens ficaram em silêncio, cada um absorto nos seus pensamentos. O ar frio e o pigarro de frei Pèire devolveu-os à realidade. Desculpai-me, dom Fernando, vinha comprovar se frei Julián se encontrava bem. Não sei se se sentirá com forças para jantar connosco ou se prefere que lhe tragamos até aqui a refeição...» In Julia Navarro, O Sangue dos Inocentes, 2007, Bertrand Editora, 2017, ISBN 978-972-253-182-5.

Cortesia de BertandE/JDACT

JDACT, Julia Navarro, Literatura, Cátaros, 

sábado, 14 de agosto de 2021

Labirinto. Kate Mosse. «Naquele silêncio, o eco de sua voz parece de certa forma hostil e ameaçador. P-A-S A P-A-S... Pas a pas. Passo a passo? Passo a passo o quê?»

Cortesia de wikipedia e jdact

Segunda-feira, 4 de Julho de 2005

«(…) Ela torna a subir. Há uma profunda depressão no solo na entrada da caverna, onde antes ficava a pedra. A terra húmida fervilha com a frenética actividade de minhocas e besouros subitamente expostos à luz e ao calor depois de tanto tempo. Seu boné está no chão no mesmo lugar onde caiu. Sua colher de pedreiro também está lá, exactamente onde ela a deixou. Alice espia para dentro da escuridão. A abertura não tem mais de um metro e meio de altura por cerca de um metro de largura, e suas bordas são irregulares e ásperas. Parece uma abertura natural, não algo feito pelo homem, mas quando ela passa os dedos pela rocha, para cima e para baixo, encontra trechos curiosamente lisos nos pontos onde a pedra repousava. Lentamente, seus olhos se acostumam à penumbra. O preto aveludado cede lugar a um cinza escuro, e ela vê que está diante de um túnel comprido e estreito. Sente os cabelos finos se eriçarem na nuca, como a avisá-la de que na escuridão há algo à espreita que seria melhor deixar em paz. Mas é só uma superstição infantil, e ela não se permite pensar nisso. Alice não acredita em fantasmas nem em premonições.

Apertando a fivela na mão com força, como um talismã, ela respira fundo e dá um passo para dentro da passagem. No mesmo instante, o cheiro de um ar subterrâneo há muito escondido a envolve, enchendo sua boca, sua garganta, seus pulmões. O ambiente é fresco e húmido, sem os gases secos, venenosos de uma caverna lacrada com os quais lhe avisaram para tomar cuidado, então ela conclui que deve existir alguma fonte de ar puro. Porém, para garantir, vasculha os bolsos dos shorts até encontrar seu isqueiro. Acende-o e ergue-o em direcção ao espaço escuro, confirmando que há oxigénio. A chama é sacudida por uma corrente de ar, mas não se apaga. Sentindo-se nervosa e ligeiramente culpada, Alice enrola a fivela num lenço e a enfia no bolso, em seguida avança com cautela. A luz da chama é fraca, mas ilumina o caminho imediatamente à sua frente, lançando sombras sobre as paredes cinza e ásperas. À medida que avança mais, ela vai sentindo o ar frio se enroscar por suas pernas e braços nus como um gato. Está caminhando sobre uma rampa. Pode sentir o chão descendo sob seus pés, irregular e arenoso. O atrito das pedras e do cascalho ressoa alto naquele espaço confinado, silencioso. Ela tem consciência de que, quanto mais longe e mais fundo avança, mais a luz do dia vai ficando pálida atrás de si.

De repente, ela não quer mais continuar. Não sente nenhuma vontade de estar ali. Mas é como se houvesse algo irresistível naquilo, algo a puxá-la para as entranhas profundas da montanha. Dez metros mais adiante, o túnel termina. Alice se vê na soleira de uma câmara fechada como uma caverna. Ela está em pé sobre uma plataforma de pedra natural. Um ou dois degraus rasos e largos bem na sua frente levam à área principal onde o chão foi nivelado até ficar plano e liso. A caverna tem cerca de dez metros de comprimento e talvez cinco de largura, e foi obviamente construída por mãos humanas, e não só pela natureza. O tecto é baixo e abobadado, como o de uma cripta.

Alice olha fixamente, segurando mais alto a chama tremeluzente e incomodada por uma curiosa familiaridade que a vai dominando e que ela não consegue explicar. Está prestes a descer os degraus quando percebe letras gravadas na pedra do degrau de cima. Inclina-se e tenta ler o que está escrito. Apenas as três primeiras palavras e a última letra, N, ou talvez H, estão legíveis. As outras estão carcomidas ou lascadas. Alice limpa a poeira com os dedos e recita as letras em voz alta. Naquele silêncio, o eco de sua voz parece de certa forma hostil e ameaçador. P-A-S A P-A-S... Pas a pas. Passo a passo? Passo a passo o quê? Uma vaga lembrança percorre a superfície de sua mente consciente, como uma canção há muito esquecida. E logo desaparece. Pas a pas, murmura ela dessa vez, mas aquilo não significa nada. Uma prece? Um aviso? Sem saber o que vem depois, não faz sentido». In Kate Mosse, Labirinto, Editora Suma de Letras, 2006, ISBN 978-857-302-768-6.

Cortesia de ESumafrLetras/JDACT

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Labirinto. Kate Mosse. «Levanta a mão e está prestes a gritar para atrair a atenção de alguém quando percebe uma estreita abertura visível no flanco da montanha onde antes estava a pedra»

Cortesia de wikipedia e jdact

Segunda-feira, 4 de Julho de 2005

«(…) Nos dias e semanas que estão por vir, Alice vai se lembrar desse instante. Vai lembrar-se da qualidade da luz, do gosto metálico de sangue e poeira na sua boca, e vai perguntar-se como as coisas poderiam ter sido diferentes se ela tivesse resolvido descer, e não ficar. Se tivesse seguido as regras. Ela sorve a última gota de água da garrafa e a joga dentro da mochila. Durante uma ou duas horas depois disso, enquanto o sol vai ficando mais alto no céu e a temperatura vai subindo, Alice continua a trabalhar. Os únicos barulhos são o raspar do metal na pedra, o zumbido dos insetos e o ronco ocasional de um pequeno avião ao longe. Ela pode sentir gotas de suor brotando acima do seu lábio superior e entre seus seios, mas continua até que, finalmente, o vão debaixo da pedra fica grande o suficiente para ela poder pôr a mão lá dentro. Alice se ajoelha no chão e encosta a bochecha e o ombro na pedra para se apoiar. Então, com um pequeno estremecimento de ansiedade, insere os dedos bem no fundo da terra escura e cega. Percebe imediatamente que seu palpite estava certo e que encontrou alguma coisa importante. O objecto tem uma textura lisa e escorregadia; parece feito de metal e não de pedra. Empunhando-o com firmeza e dizendo a si mesma para moderar as próprias expectativas, vai trazendo-o muito devagar até à luz. A terra parece estremecer, sem querer entregar seu tesouro.

O cheiro forte e pungente de terra húmida invade seu nariz e sua garganta, embora ela mal perceba. Já está perdida no passado, fascinada pelo pedaço de história que segura na palma das mãos. E uma fivela pesada e redonda, manchada de pontinhos pretos e verdes devido à idade e ao longo tempo debaixo da terra. Alice a esfrega com os dedos e sorri quando os detalhes de prata e cobre começam a se revelar debaixo da sujeira. A primeira vista, também parece ser medieval, o tipo de fivela usado para fechar um  manto ou uma túnica. Ela já viu alguma coisa parecida antes. Alice conhece os perigos de tirar conclusões apressadas ou de ser seduzida por primeiras impressões, mas não consegue evitar pensar no dono daquela fivela, morto há tanto tempo, e que pode ter andado por aqueles mesmos caminhos. Um desconhecido cuja história ela ainda precisa descobrir. A conexão é tão forte e Alice está tão entretida que não percebe a pedra se mexendo na sua base. Então alguma coisa, algum sexto sentido, a faz olhar para cima. Por uma fracção de segundo, o mundo parece estar suspenso, fora do espaço, fora do tempo. Ela fica inteiramente hipnotizada pelo pedaço de rocha antiquíssimo que balança, se inclina, e então, graciosamente, começa a cair na sua direcção. No último instante, a luz muda. O feitiço se rompe.

Alice se joga para longe, meio se arrastando, meio escorregando de lado, bem a tempo de evitar ser esmagada. A pedra bate no chão com um baque surdo, levantando uma nuvem de pó marrom claro, depois sai rolando, como em câmera lenta, até parar mais abaixo na montanha. Alice se agarra desesperadamente aos arbustos e à vegetação rasteira para evitar escorregar mais. Por um instante, fica estendida no chão, tonta e desorientada. Quando percebe que só não foi esmagada por um triz, seu corpo congela. Foi por pouco, pensa. Respira fundo. Espera o mundo parar de girar. Aos poucos, o latejar na sua cabeça diminui. O enjôo passa e tudo começa a voltar ao normal, o suficiente para ela poder se sentar e avaliar a situação. Seus joelhos estão esfolados e riscados de sangue, e ela bateu com o pulso ao cair de mau jeito, ainda segurando a fivela na mão para protegê-la, mas no geral escapou ilesa a não ser por alguns cortes e hematomas. Não me machuquei.

Ela se levanta e sacode a poeira do corpo, sentindo-se uma completa idiota. Não consegue acreditar que cometeu um erro tão elementar quanto não escorar a pedra. Então Alice lança um olhar para a sede da escavação lá em baixo. Fica espantada, e aliviada, ao constatar que ninguém no acampamento parecer ter visto nem ouvido nada. Levanta a mão e está prestes a gritar para atrair a atenção de alguém quando percebe uma estreita abertura visível no flanco da montanha onde antes estava a pedra. Como uma porta escavada na rocha. Dizem que essas montanhas são coalhadas de passagens e cavernas escondidas, de modo que ela não fica surpresa. Porém, pensa Alice, de alguma forma ela sabia que a porta estava ali, embora não seja possível vê-la do exterior. Ela sabia. Na verdade, eu adivinhei, diz a si mesma. Ela hesita. Alice sabe que deveria chamar alguém para entrar com ela. É estúpido, e talvez até perigoso, entrar sozinha sem nenhum tipo de apoio. Ela sabe todas as coisas que podem dar errado. Mas, de todo modo, não deveria estar trabalhando ali em cima sozinha. Shelagh não sabe. E, além disso, algo a está atraindo lá para dentro. Parece pessoal. Aquela descoberta é sua. Alice diz a si mesma que não faz sentido incomodar o grupo, aumentar suas expectativas sem motivo. Se houver alguma coisa que valha a pena investigar, então ela contará a alguém. Não vai fazer nada. Quer apenas olhar. Vai levar só um minuto». In Kate Mosse, Labirinto, Editora Suma de Letras, 2006, ISBN 978-857-302-768-6.

Cortesia de ESumafrLetras/JDACT

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Labirinto. Kate Mosse. «Mais cedo, ela reparou em alguma coisa cintilando debaixo de uma pedra grande, encostada na lateral da montanha, arrumada e posicionada como se houvesse sido posta ali pela mão de um gigante»

Cortesia de wikipedia e jdact

Segunda-feira, 4 de Julho de 2005

«(…) Um único filete de sangue escorre pela parte interna muito pálida do braço dela, como uma costura vermelha num tecido branco. De início, Alice pensa que é só uma mosca e não liga. Numa escavação, os insectos são ossos do ofício, e por algum motivo há mais moscas no alto da montanha onde ela está trabalhando do que na escavação principal mais abaixo. Então uma gota de sangue pinga sobre a sua perna nua, explodindo como um fogo de artifício no céu em noite de ano-novo. Dessa vez ela olha e vê que o corte na parte interna do seu cotovelo abriu de novo. É uma ferida funda, que não quer sarar. Ela dá um suspiro e aperta mais contra a pele o curativo. Em seguida, como não há ninguém por perto para ver, lambe a mancha vermelha no próprio pulso. Fios de cabelo, claros como açúcar queimado, soltaram-se debaixo do seu boné. Ela os ajeita atrás das orelhas e enxuga a testa com o lenço, antes de apertar outra vez o rabo de cavalo na nuca. Desconcentrada, Alice se levanta e estica as pernas esguias, levemente queimadas de sol. Vestindo uma calça, jeans cortada, uma camiseta branca justa e sem mangas e um boné, ela mais parece uma adolescente. Antigamente se importava com isso. Agora, à medida que vai ficando mais velha, entende as vantagens de parecer mais jovem do que de facto é. Os únicos toques de elegância são seus delicados brincos de prata em forma de estrelas, que reluzem como paetês. Alice desenrosca a tampa de seu cantil. A água está morna, mas a sede é tanta que ela não liga e sorve longos goles. Lá em baixo, o calor forma uma névoa que cintila sobre o asfalto esburacado da estrada. Por cima dela, o céu tem um azul infinito. As cigarras prosseguem seu coro incessante, escondidas na sombra da grama seca. É a primeira vez que Alice visita os Pirenéus, embora se sinta praticamente em casa ali. Já lhe disseram que, no Inverno, os cumes pontiagudos dos Montes Sabarthès ficam cobertos de neve. Na Primavera, delicadas flores cor-de-rosa, lilases e brancas surgem de seus esconderijos nos enormes rochedos. No início do Verão, os pastos ficam verdes e salpicados de botões de ouro. Agora, porém, o sol achata a Terra, subjugando-a, transformando os verdes em marrom. É um lugar bonito, pensa ela, mas de certa forma inóspito. Um lugar de segredos, que já viu coisas demais e escondeu coisas demais para poder estar em paz consigo mesmo.

Na sede do acampamento, mais abaixo na encosta, Alice pode ver os colegas em pé sob o grande toldo de lona. Com esforço, consegue distinguir Shelagh na roupa preta que a caracteriza. Fica surpresa que já tenham parado. E cedo demais para um intervalo, mas a verdade é que a equipe toda está meio desanimada. Cavar e raspar, catalogar e anotar, tudo isso é na maior parte do tempo um trabalho árduo e monótono, e até agora eles desenterraram poucas coisas que valham a pena a ponto de justificar seus esforços. Encontraram alguns fragmentos de antigos jarros e vasilhas da Alta Idade Média e uma ou duas pontas de lança do final do século XII ou início do XIII, mas certamente não acharam nenhum sinal do núcleo de povoamento paleolítico que é o foco da escavação. Alice sente-se tentada a descer para juntar-se aos amigos e colegas, e refazer seu curativo. O corte está ardendo, e suas batatas da perna estão doloridas de tanto ficar de cócoras. Os músculos de seus ombros estão tensos. Mas ela sabe que, se parar agora, perderá o pique. Se tudo der certo, sua sorte pode estar prestes a mudar.

Mais cedo, ela reparou em alguma coisa cintilando debaixo de uma pedra grande, encostada na lateral da montanha, arrumada e posicionada como se houvesse sido posta ali pela mão de um gigante. Embora ainda não consiga ver que objecto é aquele, nem sequer determinar seu tamanho, passou a manhã inteira cavando e acha que não vai demorar muito para conseguir alcançá-lo. Ela sabe que deveria chamar alguém. Ou pelo menos falar com Shelagh, sua melhor amiga, vice-directora da escavação. Alice não tem formação de arqueóloga; é só uma voluntária dedicando parte das suas férias de verão a alguma ocupação útil. Mas aquele é seu último dia completo na escavação, e ela quer provar seu valor. Se descer agora até à sede da escavação e admitir que pensa ter descoberto alguma coisa, todos vão querer participar, e não vai ser mais a sua descoberta». In Kate Mosse, Labirinto, Editora Suma de Letras, 2006, ISBN 978-857-302-768-6.

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Labirinto. Kate Mosse. «Em Labirinto, para distinguir entre os habitantes do Pays d’Oc e os invasores franceses, usei occitano ou francês conforme o caso. O resultado é que alguns nomes e lugares aparecem tanto em francês quanto em occitano…»

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Uma história de coragem, destino e traição na França contemporânea e na medieval.

«Julho de 1209: na cidade francesa de Carcassonne, uma moça de 17 anos recebe do pai um misterioso livro, que ele diz conter o segredo do verdadeiro Graal. Embora Alaïs não consiga entender as estranhas palavras e símbolos escondidos naquelas páginas, sabe que seu destino é proteger o livro. Serão necessários enormes sacrifícios e uma fé inabalável para preservar o segredo do labirinto, um segredo que remonta a milhares de anos e aos desertos do antigo Egipto.

Julho de 2005: durante uma escavação arqueológica nas montanhas ao redor de Carcassonne, Alice Tanner descobre dois esqueletos. Dentro da tumba na qual repousavam os antigos ossos, experimenta uma sensação de malignidade impressionante e percebe que, por mais impossível que pareça, de alguma forma, ela é capaz de entender as misteriosas palavras ancestrais gravadas nas pedras. Porém, é tarde demais, Alice acaba de desencadear uma aterrorizante sequência de acontecimentos incontroláveis, e agora seu destino está irremediavelmente ligado à sorte dos cátaros, oitocentos anos atrás.

Nota História

Em Março de 1208, o papa Inocêncio III convocou uma cruzada contra uma seita de cristãos do Languedoc. Hoje em dia, seus membros são geralmente conhecidos como cátaros. Eles chamavam a si mesmos de bons chrétiens; Bernard de Clairvaux os chamava de albigenses, e os registos inquisitoriais se referem a eles como heretici. O objectivo do papa Inocêncio era expulsar os cátaros da região do Midi e restaurar a autoridade religiosa da Igreja Católica. Barões franceses do norte que abraçaram sua cruzada viam nela uma oportunidade de obter terras, riqueza e vantagens comerciais subjugando a nobreza do sul, conhecida por sua feroz independência. Embora o princípio das cruzadas fosse um aspecto importante da vida cristã medieval desde o final do século XI, e em 1204, durante o cerco a Zara na quarta cruzada, os cruzados houvessem atacado irmãos cristãos, era a primeira vez que se pregava uma guerra santa contra cristãos e em solo europeu. A perseguição aos cátaros levou directamente à fundação da Inquisição (maldita) em 1233, sob os auspícios dos dominicanos, os frades negros. Quaisquer que tenham sido as motivações religiosas da Igreja Católica e de alguns dos líderes cruzados laicos, como Simon de Montfort, a cruzada albigense foi em última análise uma guerra de ocupação, e marcou uma guinada na história do que hoje é a França. Ela significou o fim da independência do sul e a destruição de muitas das suas tradições, ideais e modos de vida.

Assim, como o termo cátaro, a palavra cruzada não era usada nos documentos medievais. Estes se referiam ao exército como a Hoste, ou l’Ost em occitano. No entanto, como ambos os termos são hoje de uso corrente, empreguei-os algumas vezes para facilitar as referências.

Durante o período medieval, a langue d’Oc, origem do nome da região do Languedoc, era a língua falada na região do Midi, da Provença à Aquitânia. Era também a língua da Jerusalém cristã e das terras ocupadas pelos cruzados a partir de 1099, e era falada em algumas partes do norte da Espanha e do norte da Itália. A língua occitana tem um parentesco estreito com o provençal e o catalão. No século XIII, a langue d’oil precursora do francês moderno, era falada nas regiões setentrionais do que é hoje a França. Durante as invasões do sul pelo norte, a partir de 1209, os barões franceses impuseram a sua língua à região que conquistaram. A partir de meados do século XX, houve um ressurgimento da língua occitana, conduzido por escritores, poetas e historiadores como René Nelli, Jean Duvernoy, Déodat Roché, Michel Roquebert, Anne Brenon, Claude Marti e outros. Na data da redacção deste livro, existe uma escola bilíngue occitano/francês em La Cité, no coração da cidade medieval de Carcassonne, e a grafia occitana de cidades e regiões figura ao lado da grafia francesa nas placas rodoviárias.

Em Labirinto, para distinguir entre os habitantes do Pays d’Oc e os invasores franceses, usei occitano ou francês conforme o caso. O resultado é que alguns nomes e lugares aparecem tanto em francês quanto em occitano, por exemplo, Carcassonne e Carcassona, Toulouse e Tolosa, Béziers e Besièrs. Inevitavelmente, há diferenças entre a grafia occitana medieval e o uso contemporâneo. Para manter a coerência, na maior parte das vezes usei como guia o dicionário occitano-francês de André Lagarde, La Planqueta». In Kate Mosse, Labirinto, Editora Suma de Letras, 2006, ISBN 978-857-302-768-6.

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terça-feira, 26 de maio de 2020

Novos cátaros para Montsegur. Saint-Loup. «El sol aún entraba en la fortaleza por encima de la muralla occidental. Bajo esa iluminación directa la vegetación salvaje mostraba su verdadero carácter de maleza»

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Luz Azul
«(…) Y tú? Aparte de los AJ…, que haces? Ajiste… Eh! eh! No es una profesión, o sí? Yo? Trabajo cerca de aquí, en un telar de Lavelanet. El que se encamina hacia la puerta es el hijo de mi patrón, Gaston Reboul… Este yugo ajiste le parece extraño, no?... El proletario y el hijo de papá…. El capital y el trabajo se dan bien y nos gastamos bromas en los AJ los sábados por la tarde!... Camas a la española (Broma consistente en colocar las sábanas dobladas sobre su mitad con el fín de que el durmiente sólo pueda introducirse parcialmente en la cama)… Cubos llenos de agua encima de las puertas. Racimos de uvas dentro de las botas! Me encanta gastar bromazos y soy un socialista que vale por dos! Y el hijo de su patrón se aviene a este juego? Claro, tiene esprit auberge! (Expresión francesa que significa más o menos predilección por albergues o espíritu de albergue).
Otto Rahn murmuró con ensoñación: también tenemos lo mismo en Alemania, ahora.
Y alternativamente observaba a la bella e inquietante Auda Isarn y Gaston Reboul, hijo de un capitalista integrado en una sociedad sin clases de los AJ. De mediana altura, trigueño, magro, el joven Reboul ostentaba una dejadez asumida tal vez de manera voluntaria, sin la cual tendría dificultad de sentirse a gusto en un mundo más cercano al trabajador Jordi Couquet que al heredero de los Telares Industriales de Lavelanet. Pensó: estos ajistes (que me parta un rayo! Cómo se puede ser ajiste?...) caen en el engaño, ya que su ideal consiste en alinear al pueblo por la élite y no hacer descender a esta hasta el pueblo!
Jordi Couquet terminaba de roer una manzana arrugada, con un invierno en el granero en su haber, y arrojó el carozo en medio de los matorrales de enfrente. Otto Rahn la reprendió suavemente: no debió hacer eso… El joven arqueó las cejas negras y espesas. No me venga con esas! Por qué? Allí puede crecer un manzano! Por qué? Por respeto a Montsegur, el más sagrado de todos los elevados lugares de Europa! Inquieto, el camarada Couquet miró directamente al alemán. Tuvo ganas de colocarse un dedo en la sien precisando la estima que tenía por la salud mental de su viejo interlocutor, pero se contentó con objetar: alto lugar? Montsegur a duras penas tiene mil doscientos metros. Ya estuve en montañas con más de tres mil. Qué si pasa? No se acotaron altitudes para arrojar huesos!

El sol aún entraba en la fortaleza por encima de la muralla occidental. Bajo esa iluminación directa la vegetación salvaje mostraba su verdadero carácter de maleza. Las conversaciones fueron escaseando con las primeras muestras de calor. Otto Rahn parecía contrariado. El movimiento (acompasado) del pie apoyado sobre el talón le cronometraba el curso de los pensamientos y dejaba traslucir una ligera irritación. Permaneció en silencio durante largo tiempo y, por fin, retomó la conversación con una frase trivial. De modo qué todos sois de esta región? Todos. Marius Chabrol, el pequeño allí de abajo que nos mira como un padre listo a escuchar una confesión de asesinato, es de Narbona. Es banquero. Digamos más bien, empleado bancario! Eh, eh! No es lo mismo. Sea como fuere, es un tipo importante… Tiene diecinueve años y es secretario de la juventud comunista de su zona! El que está en el lado izquierdo es Raymond Ferrocas, va a ingresar en la Escuela Normal de profesores. Nació en Béziers. El grueso aquel, de cara cortada a machetazos, es Robert Robuffay, trabaja con el padre en Menèrba. Tiene viñedos. El del pelo ensortijado a la vera del muro es Guyot Peyrat, de Toulouse. Está preparando cualquier asunto en la Facultad de Letras de Montpellier. Un excéntrico. Habla y escribe el dialecto de la región. Todos son de aquí.
Guyot Peyrat se había aproximado y ya estaba lo suficientemente cerca como para oír la última frase que denominaba dialecto a la lengua d’Oc. Levantó los hombros y dijo: ya no se hacen amôrri (Expresión que forma parte de la dialéctica del resentimiento usada en el Languedoc en 1968. Proviene de Amaury y se refiere al hijo de Simon de Monfort que precisamente no brillaba por su inteligencia), como tu, Jordi! Dijiste más de un centenar de veces que la lengua d’Oc no es un dialecto! Qué quieres que haga para no quedarme a medias-tintas, si eso es chino para mi? Uno a uno, los muchachos se fueron colocando junto al alemán. La chica paseaba sobre los peñascos manteniéndose a distancia en una actitud de pura-sangre. Otto Rahn se volvió al muchacho que había abordado primeramente una hora antes: señor Barbarïa, quería hacerle una pregunta, una pregunta importante. Cuál es la razón de venir con sus camaradas a Montsegur? Un tanto cuestionado, Barbaïra tardó en responder». In Saint-Loup, Novos cátaros para Montsegur, tradução para espanhol por RRB, tradução de António Rangel, 2003, Huguin Editores, Lisboa, Eneese, Las Españas, año 120 (2010).

Cortesia de HuguinE/JDACT

segunda-feira, 9 de março de 2020

O Número de Deus. José L. Corral. «Estamos no Solstício de Verão, quase ao meio-dia. Dentro de uns momentos o sol atingirá a sua plenitude zenital aqui, na cidade de Chartres; esse será o momento em que a luz solar brilhará…»

jdact

O Algarismo e o Número
«(…) Na manhã seguinte, o bispo Maurício e o abade de Arlanza dirigiram-se à catedral. O dia estava luminoso e claro e nem uma só nuvem ameaçava cobrir o sol. Pouco antes do meio-dia, como Jean de la Tour tinha indicado, os dois castelhanos apresentaram-se na entrada ocidental. Ali esperava-os o cónego, acompanhado por um cavalheiro que, pela sua vestimenta, parecia um indivíduo importante. Senhor bispo, senhor abade, apresento-vos João Ruão, mestre-de-obras da catedral de Chartres. Mestre João, apresento-vos dom Maurício, bispo de Burgos, no reino de Castela, e o senhor abade de Arlanza. Os quatro homens cumprimentaram-se. Senhor cónego, o que é isso de tão extraordinário que nos espera? Haveis conseguido despertar de tal modo a minha curiosidade, que esta noite quase não consegui pregar olho.
O mestre João de Ruão explicar-vos-á; segui-nos, por favor. Entraram os quatro na catedral. Era um pouco antes do meio-dia e a luz banhava todo o templo penetrando em caudais pelos vitrais multicores. O arquitecto conduziu-os até um determinado lugar ao meio da nave central. Estamos no Solstício de Verão, quase ao meio-dia. Dentro de uns momentos o sol atingirá a sua plenitude zenital aqui, na cidade de Chartres; esse será o momento em que a luz solar brilhará com a maior intensidade de todo o ano. E então...?, perguntou o bispo Maurício, cada vez estranhando mais. Observai aquele vitral, é aquele a que chamamos Santo Apolinário, e agora aquela espiga dourada incrustada na pedra branca. No meio do lajeado cinzento do cruzeiro sul destacava-se uma pedra esbranquiçada em que havia uma espiga de metal dourado embutida. Sim, estou a ver, mas o que significa...
Um momento! Eminência, um momento.
Passou um bocado até que um raio de luz penetrou por uma abertura do vitral de Santo Apolinário em que tinha sido colocado um vidro convexo. No momento em que o Sol atingiu o zénite, precisamente ao meio-dia, o raio penetrou pela abertura do vitral para incidir precisamente sobre a espiga dourada, que pareceu iluminar-se como se estivesse dotada de luz própria. E nesse preciso momento, toda a catedral se iluminou com dezenas de feixes que ressaltaram pelas paredes criando um espaço absolutamente mágico. As paredes, os pilares, as abóbadas, tudo parecia esfumar-se entre os raios dourados e o tremular dos feixes de luz.
Santo Deus!, exclamou o bispo Maurício. Já o haveis visto, Eminência, conseguimos captar os raios de sol e que pelo menos durante uns instantes, sejam nossos. Haveis conseguido um efeito maravilhoso, mas... como? É um problema de óptica, interveio João Ruão; bem, de óptica e de teologia. Deus é a luz, a luz do universo que fecunda a terra e que nos livra da matéria escura. A pedra significa o mundo feminino, que ao receber a 1uz dá vida. Se haveis reparado, a Virgem está esculpida na entrada em pedra negra. Mas isso não é tudo, segui-me.
João levou-os até à nave central, quase aos pés do templo.
Construímos esta catedral à imagem do mundo. Este templo é o símbolo de todo o universo, estão aqui reunidas a luz e e a escuridão, a razão e a loucura. Mas, sem dúvida, é o templo do triunfo da luz sobre as trevas. Os vitrais dão forma à divina luz solar. A luz é o elemento fecundador masculino e a pedra o receptor feminino, ambos nos falam e nos recordam quem somos e de onde vimos.
Pareceu ao bispo Maurício que algumas das coisas que o arquitecto de Chartres dizia raiavam a heresia, ou pelo menos se assemelhavam a crenças pagãs condenadas pela Igreja. Deus fez a luz, disse o bispo de Burgos». In José Luís Corral, O Número de Deus, 2004, O Segredo das Catedrais Góticas, Planeta Editora, Lisboa, 2006, ISBN 972-731-185-7.

Cortesia de Planeta Editora/JDACT

quarta-feira, 18 de setembro de 2019

O Labirinto Perdido. Kate Mosse. «Chama pela última vez. É a voz de um amigo. Não de alguém que lhe quer mal. Alice se esforça para abrir os olhos, sabendo que, se conseguisse ver, entenderia. Não consegue. Não completamente»

Cortesia de wikipedia e jdact

Pic de Soularac. Montes Sabarthés
(…) Um pilar de fogo em movimento, branco, dourado e vermelho, vergando-se em todas as direcções, mudando constantemente de forma. Por instinto, Alice ergue as mãos para proteger o rosto do calor intenso, embora não consiga senti-lo. Pode ver rostos presos nas chamas que dançam, bocas contorcidas em silenciosa agonia enquanto o fogo as acaricia e devora. Alice tenta parar. Precisa parar. Os seus pés estão feridos e sangrando, a sua longa saia está molhada, atrapalhando os seus movimentos, mas quem a persegue está logo atrás dela e algo além de seu controle a está conduzindo para o abraço fatal do fogo. Ela não tem outra escolha senão pular, para evitar ser consumida pelas chamas. Lança-se no ar em espiral como uma coluna de fumaça, flutuando bem alto acima dos amarelos e laranjas. O vento parece sustentá-la, liberando-a da terra. Alguém está chamando o seu nome, uma voz de mulher, embora a pronúncia seja estranha. Alaïs. Ela está segura. Livre.
Então sente a conhecida pressão de dedos frios nos seus tornozelos, prendendo-a ao chão. Não, não são dedos, são correntes. Alice então percebe que está segurando alguma coisa nas mãos, um livro, fechado por tiras de couro. Entende que é aquilo que ele quer. Que eles querem. Ê a perda desse livro que os deixa zangados. Se ao menos ela conseguisse falar, talvez pudesse fazer um acordo. Mas sua cabeça está vazia de palavras, e a sua boca é incapaz de falar. Ela debate-se, chuta tentando escapar, mas está presa. A pressão inflexível nas suas pernas é forte demais. À medida que é arrastada de volta para o fogo, ela começa a gritar, mas tudo é silêncio. Ela grita de novo, sentindo a voz lutar bem dentro de si para ser ouvida. Dessa vez, o som sai num jacto. Alice sente o mundo real voltar a toda velocidade. Som, luz, cheiro, o gosto metálico do sangue na sua boca. Até que, por uma fracção de segundo, ela pára, subitamente, envolta por um frio translúcido. Não é o frio conhecido da caverna, mas algo diferente, intenso e brilhante. Dentro dele, Alice consegue distinguir com dificuldade o turvo contorno de um rosto, bonito, indistinto. A mesma voz torna a chamar seu nome.
Alaïs.
Chama pela última vez. É a voz de um amigo. Não de alguém que lhe quer mal. Alice se esforça para abrir os olhos, sabendo que, se conseguisse ver, entenderia. Não consegue. Não completamente.
O sonho começa a se dissipar, libertando-a. Hora de acordar. Preciso acordar. Então ouve outra voz na sua cabeça, diferente da primeira. A sensação retorna aos seus braços e pernas, os seus joelhos esfolados ardendo e a sua pele arranhada e dolorida no ponto onde ela caiu. Pode sentir alguém segurar o seu ombro com força, sacudindo-a de volta à vida. Alice! Alice, acorde!

A Cité na Colina. Carcassone. 1209
Alaïs acordou sobressaltada, arregalando os olhos. O medo pulava no seu peito como um passarinho preso numa rede que luta para se libertar. Ela apertou as costelas com as mãos para sossegar o coração disparado. Por um instante, não ficou nem dormindo nem acordada, como se alguma parte dela mesma houvesse sido deixada para trás no sonho. Sentiu que flutuava, e olhava para si mesma de uma grande altura, como as gárgulas de pedra que faziam caretas para os passantes do telhado da catedral de Sant-Nasari. O quarto tornou a entrar em foco. Ela estava sã e salva na sua própria cama, no Château Comtal. Gradualmente, os seus olhos foram-se acostumando ao escuro. Estava a salvo das pessoas magras, de olhos negros que a assombravam à noite, seus dedos afiados arranhando-a e puxando-a. Elas não podem alcançar-me agora. A linguagem esculpida nas pedras, mais imagens do que palavras, que nada significava para ela, tudo se dissolveu como colunas de fumaça no ar outonal. O fogo também se tinha apagado, deixando apenas uma lembrança na sua mente. Uma premonição? Ou apenas um pesadelo?
Ela não tinha como saber. Tinha medo de saber. Alaïs estendeu a mão para as cortinas penduradas ao redor da cama, como se ao tocar algo concreto ela própria fosse se sentir menos transparente e abstrata. O tecido surrado, repleto da poeira e dos cheiros conhecidos do castelo, reconfortou-a com a aspereza sob seus dedos». In Kate Mosse, O Labirinto Perdido, Labyrinth, 2005, Publicações dom Quixote, 2006, ISBN 978-972-202-969-8.
                                                                              
Cortesia de PdomQuixote/JDACT

domingo, 13 de janeiro de 2019

O Número de Deus. José L. Corral. «E o que vos traz por cá, senhor bispo? O cónego la Tour acompanhara Maurício e o abade de regresso à pousada, e estes tinham-no convidado a cear com eles»

jdact

O Algarismo e o Número
«(…) A catedral de Chartres surgiu entre os campos de trigo, já amarelecidos pelo estio, como o esqueleto de uma enorme baleia varada numa praia de dunas douradas. À distância, o templo parecia completamente acabado. Os arcobotantes destacavam como as cavernas de um navio ou as gigantescas costelas de um animal fabuloso. Conforme dom Maurício e os seus acompanhantes se aproximavam, a catedral de Chartres, situada no alto de uma colina, parecia crescer para o céu, agudizando o seu perfil estriado e difuso.
Aquele era o último dia da Primavera, um dia muito assinalado, pois a nova catedral de Chartres tinha sido construída como um verdadeiro monumento à luz, e o sol alcançaria no dia seguinte o seu ponto mais alto de todo o ano. O bispo de Burgos, dizeis?, perguntou o estalajadeiro a quem dom Maurício, o abade de Arlanza e os quatro soldados da escolta pediram pousada. Sim, Burgos, em Castela. Ouvi falar dessa cidade; alguns dos meus clientes fizeram a peregrinação ao túmulo do apóstolo Santiago de Compostela. Pareceis um senhor importante, mas perdoai-me, se vos peço que me pagueis adiantado. Maurício indicou ao abade de Arlanza que assim procedesse; a cara do estalajadeiro iluminou-se quando viu o brilho prateado das moedas.
Dirigiram-se de imediato à catedral, que, tal como lhes havia parecido ao longe, estava praticamente terminada. Afinal, a catedral está quase acabada. Acreditais, Senhor Abade, que alguma vez teremos uma como esta em Burgos? Se vos propuserdes a isso, Eminência, certamente que sim. Os dois clérigos entraram na catedral. A tarde começava declinar e o sol rasante inundava o espaço com uma luz irisada. Através dos janelões, os feixes luminosos desdobravam-se por todo o interior do templo, numa catarata furta cores.
O bispo Maurício não pôde reprimir a emoção. Uniu as mãos, levantou os braços ao céu e caiu de joelhos no meio da nave central. Os seus olhos pasmados contemplavam a sinfonia de cores filtradas pelos vidros dos janelões como se estivessem a presenciar o primeiro amanhecer do universo. Uma personagem vestida com roupas talares aproximou-se dos castelhanos. Sois estrangeiros?, perguntou-lhes em latim. Somos castelhanos, respondeu o abade de Arlanza, enquanto o bispo Maurício continuava de joelhos, de braços levantados, olhos assombrados e boca aberta. Sua Eminência, o bispo de Burgos, e quem vos fala, o abade de San Pedro de Arlanza. Eu sou Jean de la Tour, cónego da catedral de Chartres. Sede bem-vindos à casa de Deus e de sua Madre Santíssima. Mas Maurício não ouvia nada, todos os seus sentidos, naquele momento, estavam absortos na luz da catedral.
                    
E o que vos traz por cá, senhor bispo? O cónego la Tour acompanhara Maurício e o abade de regresso à pousada, e estes tinham-no convidado a cear com eles. Vamos buscar a futura esposa do rei de Castela, a princesa Beatriz da Suávia. Pois haveis-vos desviado do vosso destino. Decidimos visitar antes Paris e Chartres, para contemplarmos as suas catedrais. Tenho intenção de construir uma igreja em Burgos, neste novo estilo. Essa é agora a ideia da maioria dos bispos cristãos. Desde que o abade Suger encomendara a construção da sua nova igreja em honra de São Dionísio e indicara ao seu mestre-de-obras que o templo devia ser a casa da luz, todos desejavam imitar Suger.
Vós sois clérigo, um ministro do Senhor, deveis saber bem que se Deus é a luz, a sua casa tem de ser a casa da luz. Se achardes por bem vir amanhã à catedral, comprová-lo-eis. Amanhã? Precisamente amanhã. Se o que buscáveis era luz, haveis chegado no melhor dia do ano para isso. Espero-vos um pouco antes do meio-dia na entrada ocidental. Sereis testemunhas de algo extraordinário, se o dia não amanhecer encoberto». In José Luís Corral, O Número de Deus, 2004, O Segredo das Catedrais Góticas, Planeta Editora, Lisboa, 2006, ISBN 972-731-185-7.

Cortesia de Planeta Editora/JDACT

quinta-feira, 20 de dezembro de 2018

O Labirinto Perdido. Kate Mosse. «O instante do impacto nunca chega. Os ossos não se partem nas pedras e sílices cinzentos. Em vez disso, Alice cai no chão correndo, e segue aos tropeços por um caminho íngreme»

Cortesia de wikipedia e jdact

Chartres. Norte da França
«(…) Os quatro ajudantes mais graduados deixam as suas posições e se movem para junto da Sacerdotisa. A sua cabeça é inclinada para trás, com delicadeza, e um líquido espesso e doce escorre por entre os seus lábios. É o que esperava, e ele não resiste. Conforme o calor se espalha pelo seu corpo, ele levanta os braços e os seus companheiros ajeitam um manto dourado sobre os seus ombros. Aquelas pessoas estão acostumadas com o ritual, mas mesmo assim ele pode sentir o nervosismo. De repente, ele sente algo como uma tira de ferro em volta do pescoço, apertando a sua traqueia. Suas mãos voam para a própria garganta enquanto ele luta para respirar. Tenta gritar, mas as palavras não vêm. A nota aguda e cortante do sino começa outra vez a ressoar, constante e persistente, submergindo-o. Uma onda de náusea percorre o seu corpo. Ele pensa que vai desmaiar e agarra o objecto na sua mão em busca de conforto, com tanta força que as suas unhas cortam a pele macia da palma da sua mão. A dor intensa o ajuda a não cair. Agora ele entende que as mãos nos seus ombros não são reconfortantes. Não o estão amparando, mas sim segurando-o. Outra onda de náusea o 13 submerge e a pedra parece mover-se e escorregar sob o peso do seu corpo.
Seus olhos estão embaçados e ele não consegue focalizar nada, mas pode ver que a Sacerdotisa está segurando uma faca, embora não tenha ideia de como a lâmina prateada foi parar na sua mão. Tenta se levantar, mas a droga é forte demais e já lhe tirou as forças. Ele não consegue mais controlar os braços e pernas. Non!, tenta gritar, mas é tarde demais. De início, pensa ter levado um soco entre os ombros, só isso. Então uma dor difusa começa a espalhar-se pelo seu corpo. Algo morno e macio escorre lentamente por suas costas. Sem aviso, as mãos o soltam e ele cai para a frente, desabando como uma boneca de pano enquanto o chão parece erguer-se e vir ao seu encontro. Não sente dor quando a sua cabeça bate no chão, cujo contacto na sua pele parece de alguma forma fresco e agradável. Todo o barulho, toda a confusão e medo estão indo embora. As uas pálpebras estremecem e se fecham. Ele não tem mais consciência de nada a não ser da voz dela, que parece vir de muito longe.
Une leçon. Pour tous, ela parece dizer, embora isso não faça sentido. Em seus últimos e entrecortados instantes de consciência, o homem acusado de revelar segredos, condenado por ter falado quando deveria ter ficado calado, segura o cobiçado objecto com força na mão até a sua ligação à vida cessar e o pequeno disco cinza, do tamanho de uma moeda, rolar para o chão. Numa das faces do disco estão inscritas as letras NV. Na outra está gravado um labirinto.

Pic de Soularac. Montes Sabarthés
Por um instante, tudo é silêncio. Então a escuridão se dissolve. Alice não está mais na caverna. Está flutuando num mundo branco, sem gravidade, transparente, pacífico e silencioso. Está livre. Segura. Alice tem a sensação de deslizar para fora do tempo, como se estivesse caindo de uma dimensão para outra. A linha entre passado e presente agora desaparece nesse lugar onde não existe tempo nem espaço. Então, como o alçapão de um cadafalso, Alice sente um súbito puxão, uma queda, e começa a despencar pelo céu aberto, caindo, caindo em direcção à encosta coberta de florestas da montanha. O ar frio silva nos seus ouvidos enquanto ela mergulha, cada vez mais depressa e com mais força, rumo ao chão. O instante do impacto nunca chega. Os ossos não se partem nas pedras e sílices cinzentos. Em vez disso, Alice cai no chão correndo, e segue aos tropeços por um caminho íngreme e irregular no meio da floresta, entre duas colunas de árvores altas. Densas, imponentes, elas se erguem acima dela tornando impossível ver o que há atrás. Rápido demais.
Alice agarra-se aos galhos como se eles pudessem reduzir a velocidade da sua queda, impedir esse voo de cabeça rumo a um lugar desconhecido, mas as suas mãos passam directo pela vegetação como se ela fosse um fantasma ou espírito. As uas mãos arrancam tufos de pequenas folhas, como cabelos numa escova. Ela não pode senti-los, mas a seiva tinge de verde as pontas dos seus dedos. Ela os leva até ao rosto para inalar o seu aroma delicado, acre. Tampouco consegue sentir o seu cheiro. Alice sente uma dor na lateral do abdómen, mas não consegue parar porque há algo atrás dela, se aproximando cada vez mais. O caminho continua muito íngreme sob os seus pés. Pela textura, tem consciência de que raízes secas e pedras substituíram a terra macia, o musgo e os galhos no caminho. Mesmo assim, não há ruído. Nenhum pássaro canta, nenhuma voz chama, não se ouve nada a não ser a sua respiração irregular. O caminho arqueia e se dobra para um lado e para o outro, lançando-a para lá e para cá, até que ela faz uma curva e vê o silencioso muro de chamas que impede a passagem logo adiante». In Kate Mosse, O Labirinto Perdido, Labyrinth, 2005, Publicações dom Quixote, 2006, ISBN 978-972-202-969-8.
                                                                              
Cortesia de PdomQuixote/JDACT