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sábado, 18 de fevereiro de 2017

O Livro dos Perfumes Perdidos. MJ Rose. «Quando era miúda, costumava acreditar que esta luz era uma ponte que permitia atravessar do mundo dos vivos para o dos mortos»

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Alexandria. Egipto. 1799
«(…) A luz mudou. Jac sabia que eram as nuvens a deslocar-se, mas a impressão que criara era a de que o anjo respirava. Seria tão bonito acreditar que um anjo de pedra podia ganhar vida. Que havia heróis que nunca desiludiam. Que a mãe falava de facto com ela da tumba. Ah, mas falo mesmo, veio a resposta sussurrada ao pensamento mudo de Jac. Sabes que sim. Sei o quanto achas perigoso acreditar em mim, mas fala comigo, querida. Faz-te bem. Jac pôs-se de pé e começou a desembrulhar as flores que levara. Nunca falava com o espectro. A mãe não estava ali. Aquela manifestação era provocada por uma anomalia no seu cérebro. Vira a ressonância magnética na secretária do pai e lera a carta do médico. Jac tinha na altura catorze anos, mas mesmo agora precisaria de ver o significado de algumas palavras no dicionário. O exame revelara o que os médicos apelidavam de uma ligeira redução de volume na substância branca no lobo frontal, à zona onde por vezes se encontravam vestígios de doença psicótica. E isso provava que não era a sua imaginação hiperactiva que a fazia sentir que estava a ficar louca, mas um distúrbio que os médicos podiam observar.
Contudo, não era algo que pudessem tratar. O prognóstico a longo prazo era incerto. A doença podia nunca vir a tornar-se mais pronunciada. Ou então podia desenvolver tendências bipolares. O médico recomendou terapia imediata em conjunto com um ciclo de psicofármacos para aliviar os sintomas. Jac arrancou o invólucro de celofane e amachucou-o, fazendo-o crepitar ruidosamente, mas não o suficiente para abafar a voz da mãe. Sei que isto é perturbador para ti, querida, e lamento muito. Assim que compôs os ramos na urna, sob a janela de vitral na parede virada a oeste, estes começaram a perfumar o ar. Jac habitualmente preferia aromas mais secos e lenhosos. Especiarias fortes e almíscar. Musgo e pimenta com um leve vestígio de rosa. Porém, aquela flor de perfume doce era a preferida da mãe, por isso trazia-a ano após ano e permitia que ela a recordasse de tudo aquilo de que sentia falta.
O céu escureceu e um súbito aguaceiro martelou o vidro. Agachando-se frente à urna, Jac sentou-se sobre os calcanhares e escutou as gotas apedrejarem com força o telhado e as janelas. Habitualmente, ficava ansiosa por passar à tarefa seguinte. Por mudar de cenário. Nunca tinha vontade de se deter. Faria qualquer coisa para evitar o tédio que convidava a um excesso de contemplação do género que não apreciava. Porém, ali, naquele jazigo, uma vez por ano, Jac sentia uma espécie de alívio doentio em ceder ao medo, ao pesar e à desilusão. Ali, naquele abismo, sob a triste luz azulada, podia ficar quieta e importar-se em demasia, ao invés de nem um pouco. Podia permitir-se abandonar-se às visões. Ser assustada por elas, mas não as combater. Apenas uma vez por ano. Apenas ali dentro.
Quando era miúda, costumava acreditar que esta luz era uma ponte que permitia atravessar do mundo dos vivos para o dos mortos. Jac quase conseguia sentir a mãe afagar-lhe o cabelo enquanto lhe falava naquele suave sussurro que costumava usar quando a ia deitar. Fechou os olhos. O som da tempestade preencheu o silêncio até Audrey voltar a falar. É o que ela é para nós, não é, querida? Uma ponte? Jac não falou. Não podia. Ficou à espera das palavras seguintes da mãe, mas, em vez disso, ouviu a chuva e depois o ranger das dobradiças, ao mesmo tempo que a pesada porta de ferro forjado e vidro se abria. Virando-se, foi atingida por uma rabanada de vento frio que entrava. Jac viu a silhueta de um homem e, por um momento, não percebeu se era real ou não.

Nanjing, China. 10 de Maio. 21h 05
O jovem monge baixou a cabeça por um instante, como que em oração, e acendeu um fósforo. A sua quietude e a calma que deixava transparecer eram quase beatíficas, um momento de profunda paz interior. A sua expressão mal se alterou, mesmo quando aproximou o fósforo aceso das roupas cerimoniais, ensopadas em querosene. Chamas, da mesma cor da sua túnica cor de açafrão, engoliram-no. Xie Ping desviou a sua atenção do website e olhou para os olhos de Cali Fong, sem surpresa por vê-los marejados de lágrimas. É um escândalo, murmurou ela com o lábio inferior a tremer». In M. J. Rose, O Livro dos Perfumes Perdidos, tradução de Eugénia Antunes, Clube do Autor, Lisboa, 2012, ISBN 978-989-724-039-3.

Cortesia de CAutor/JDACT

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

O Livro dos Perfumes Perdidos. MJ Rose. «Ainda que Ícaro tivesse ignorado o conselho do pai, este estava presente para lho dar»

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Alexandria. Egipto. 1799
«(…) Talvez tenha existido um inventário dos perfumes que a fábrica de Cleópatra criou, mas nós não o temos. E isso da Fragrância da Memória é coisa que não existe. Não pode haver um perfume que nos faça recordar coisas. Tudo não passa de uma lenda que os nossos antepassados fabricaram para que a Maison L'Étoile adquirisse uma aura mais exótica. Ao longo de mais de duzentos anos, a nossa família tem criado, produzido e vendido perfumes. Apenas perfumes, Robbie. Misturas de óleos e álcool. Não sonhos. Não fantasias. Esses não passam de invenções, Robbie, destinadas a entreter-nos e a cativar-nos. A mãe ensinara-lhe tudo acerca de histórias. Sobre as que se inventam de propósito. E sobre as que nos atingem, sem apelo nem agravo. Mesmo quando são assustadoras e nos têm sob o seu poder, podemos controlá-las, dizia Audrey com um olhar conhecedor. Jac compreendia. A mãe estava a dar-lhe pistas. A ajudá-la a lidar com aquilo que as tornava diferentes dos outros. Apesar dos conselhos da mãe, o faz-de-conta quase conduzira Jac à loucura. Por piores que as suas visões tivessem sido quando Audrey era viva, intensificaram-se com a morte desta. E não houvera forma de Jac se conseguir convencer de que não eram reais. Ao fim de meses de consultas a médicos, que prescreviam tratamentos e medicamentos que não só não ajudavam como por vezes a faziam sentir-se ainda mais insana, houve um que olhou para dentro dela e a compreendeu. Ensinou-a a destilar os terrores da mesma forma que os perfumistas pegavam em flores e daí extraíam as suas essências. Depois trabalhou com ela no sentido de decifrar aquelas sanguinárias e estridentes alucinações. Ensinou-a a encontrar o simbolismo nos seus devaneios e a usar arquétipos mitológicos e espirituais para os interpretar. Os símbolos, explicou ele, não têm de relacionar-se com a vida real da pessoa. Frequentemente, fazem parte do inconsciente colectivo. Os arquétipos são uma linguagem universal. Constituíam as pistas de que Jac necessitava para decifrar o seu tormento.
Numas das alucinações mais terríveis e recorrentes, Jac encontrava-se encurralada num quarto em chamas, num arranha-céus no meio de uma cidade apocalítica. Uma das paredes estava coberta de janelas. Desesperadamente, ao mesmo tempo que o fumo ameaçava sufocá-la, tentou encontrar uma forma de abrir os caixilhos. Se conseguisse sair para o parapeito, sabia que podia usar as asas translúcidas presas às suas costas para voar rumo a um lugar seguro. Algures, fora do quarto, ouvia vozes de pessoas, muito embora tal fosse impossível por cima do rugido do fogo. Gritava por ajuda, mas ninguém vinha em seu auxílio. Iria morrer. Com a ajuda do médico, Jac sondou o seu inconsciente e conseguiu identificar vestígios do mito de Dédalo e Ícaro. Uma importante diferença, que se revelou a pista para o entendimento do significado do sonho, foi que, no seu pesadelo, Jac estava sozinha. Tanto o pai como a mãe a haviam abandonado. Ainda que Ícaro tivesse ignorado o conselho do pai, este estava presente para lho dar. No entanto, Jac não tinha ninguém que a avisasse que não deveria voar demasiado perto do sol ou em direcção ao mar. Estava sozinha. Aprisionada. Condenada. Fadada a morrer queimada.
Aprender sobre os arquétipos e a imagética simbólica fora o primeiro passo num longo caminho que a conduzira à escrita de Caçadores de Mitos e, depois, à produção do programa televisivo. Ao invés de se tornar perfumista como o irmão e o pai, sem esquecer o avô, Jac tornara-se uma exploradora, procurando a origem dos antigos mitos. Deu vida às fabulosas narrativas para as tornar mais realistas. Viajando para Atenas, Roma e Alexandria, procurou marcos arqueológicos e registos históricos, buscando provas da existência das personagens e acontecimentos que se haviam tornado mitos. Jac queria ajudar as pessoas a compreender que as histórias existiam como metáforas, lições e mapas, mas não como verdades. A magia pode ser perigosa. A realidade concede poder. Não existiam Minotauros nem monstros. Tal como não existiam unicórnios, ou fantasmas. Existia uma linha que separava o facto da fantasia. E, enquanto adulta, nunca desviava os olhos dela. Excepto quando ia ali, todos os anos, a 10 de Maio, no aniversário da morte da mãe». In M. J. Rose, O Livro dos Perfumes Perdidos, tradução de Eugénia Antunes, Clube do Autor, Lisboa, 2012, ISBN 978-989-724-039-3.

Cortesia de CAutor/JDACT

O Livro dos Perfumes Perdidos. MJ Rose. «És descendente de uma família de sonhadores, mas há uma diferença entre a realidade e o faz-de-conta. Compreendes?»

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Alexandria. Egipto. 1799
«(…) Não é real, recordou Jac a si própria enquanto avançava para o interior, fechando a porta atrás dela. O fantasma da mãe era uma aberração. Um produto da sua imaginação. Um resíduo da sua doença. A derradeira relíquia daqueles terríveis tempos em que o rosto que Jac via ao espelho não era o seu, mas o de alguém irreconhecível a olhá-la. Tempos em que tivera tanta certeza de que os desenhos a lápis que fazia não eram paisagens imaginárias, mas locais onde vivera, que fora à procura deles. Em que conseguia escutar os gritos das pessoas que via serem enterradas vivas..., queimadas vivas..., muito embora mais ninguém conseguisse. Jac tinha catorze anos quando a falecida mãe falou com ela. Escutou-a com frequência nas horas que se seguiram à sua morte, depois todos os dias, e por fim mais espaçadamente. Porém, depois de Jac ter abandonado a França e se ter mudado para a América, só escutava a voz dela uma vez por ano. Ali no sepulcro, em cada aniversário da morte da mãe. Uma mãe que, basicamente, abandonara a filha demasiado cedo e com dramatismo. Audrey morrera na oficina de perfumes, rodeada pelas mais deslumbrantes fragrâncias do mundo. Para Jac, que a encontrou, aquela permaneceria uma arrepiante e chocante memória olfativa. Os aromas a rosas e lírios, a lavanda, almíscar e patchuli, a baunilha, violeta e verbena, a sândalo e salva, e a imagem daqueles olhos abertos e sem vida, a olharem fixamente para o vazio. A imagem de um rosto sempre animado, tornado rígido. De uma mão estendida no colo, como se, no último momento, Audrey se tivesse lembrado de que estava a esquecer algo importante e tivesse esticado o braço para o agarrar. Segurando ainda as flores de macieira que trouxera, Jac atravessou o jazigo e pousou-as numa mesa de mármore ao lado da urna. Tinha uma tarefa para cumprir ali. Ao erguer os ramos secos do ano anterior, estes desintegraram-se, sujando tudo em redor. Agachando-se, usou o rebordo da mão para varrer os detritos e os juntar num monte. Podia ter contratado alguém que se ocupasse daquele ritual, mas assim, durante as suas visitas anuais, sempre se mantinha ocupada e presa a qualquer coisa de tangível e concreto. Não era filha única, mas todos os anos se encontrava sozinha na cripta. Lembrava sempre o irmão da data, esperando, mas nunca contando, que Robbie viesse. As expectativas só conduziam a desilusões. A mãe ensinara-lhe isso, avisando-a de que não tombasse presa das tentadoras promessas da vida. Os sobreviventes, costumava ela dizer, enfrentam os factos. Fora um ensinamento duro, e possivelmente pernicioso, para infligir a uma criança que não tinha idade suficiente para considerar de onde esse conselho provinha: de uma mulher incapaz de seguir o seu próprio conselho. És descendente de uma família de sonhadores, mas há uma diferença entre a realidade e o faz-de-conta. Compreendes? Isto ser-te-á útil. Prometo.
Porém, havia uma diferença entre os sonhos de infância de Jac e os das restantes pessoas. Os dela estavam recheados de barulhos assustadores e de terríveis visões. De ameaças às quais era impossível escapar. Os de Robbie eram fantásticos. Acreditava que um dia encontrariam o livro de fragrâncias que o antepassado deles trouxera do Egipto e usariam as suas fórmulas para criarem maravilhosos elixires. Sempre que falavam sobre isso, Jac sorria para ele daquela forma condescendente, típica das irmãs mais velhas, e dizia: a mãe disse-me que isso não passava de uma invenção. Não, o papá disse que é verdade, argumentava Robbie e corria à biblioteca em busca do antigo livro de história encadernado a couro, que, como que por hábito, já se abria na página certa. Robbie apontava então para a gravura de Plínio, o Velho, o autor e filósofo romano. Ele viu as fórmulas no livro dos perfumes de Cleópatra. Escreve sobre isso aqui mesmo. Jac detestava desiludir o irmão, mas era importante que ele compreendesse que tudo não passava de uma história exagerada. Se conseguisse convencê-lo, então, talvez conseguisse acreditar nisso também». In M. J. Rose, O Livro dos Perfumes Perdidos, tradução de Eugénia Antunes, Clube do Autor, Lisboa, 2012, ISBN 978-989-724-039-3.

Cortesia de CAutor/JDACT

terça-feira, 26 de abril de 2016

O Livro dos Perfumes Perdidos. MJ Rose. «Ao contrário das idosas companheiras, a Imortalidade era jovem, mas a serpente em torno da sua cabeça, a morder a cauda, estava mosqueada de manchas verdes e pretas de deterioração»

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Alexandria. Egipto. 1799
«(…) Por duas vezes. Desde criança que coleccionava fitas e tinha caixas e caixas delas: de cetim, de gorgorão, de veludo, de catassol e jacquard, a maior parte descoberta em cestos cheios de galões em lojas de antiguidades. Havia seis metros e meio daquela fita de cetim creme numa bobina manchada de água e marcada Memorial Black. O condutor avançou pela estrada central do cemitério, até chegar a uma bifurcação, e aí virou à direita. De olho no familiar ornamento de granito com a forma de um orbe, Jac atou e desatou o comprido lenço branco ao mesmo tempo que o condutor percorria, vereda atrás de vereda, um infindável labirinto de lápides, mausoléus e monumentos. Ao longo dos últimos 160 anos, toda a família da sua mãe fora sepultada naquele cemitério vitoriano empoleirado numa cumeada sobranceira ao rio Pocantico. O facto de ter tantos familiares a dormir o sono eterno naquele luxuriante cemitério histórico fazia-a sentir-se estranhamente em casa. Desconfortável e pouco à vontade, mas em casa, naquela terra dos mortos. O condutor parou junto a uma pequena mata de falsas acácias, estacionou e deu a volta ao carro para abrir a porta a Jac. A sua determinação debatia-se com a ansiedade. Vacilou apenas por uns segundos e saiu.
Sob a sombra das árvores, Jac subiu os degraus do mausoléu ornamentado em estilo grego e tentou enfiar a chave na fechadura. Não se recordava de ter tido problemas antes, mas no ano anterior não se lembrava de ter visto aquele rio de ferrugem a emergir do buraco da mesma. Talvez o escatel estivesse corroído. Ao mesmo tempo que agitava o palhetão e empurrava, reparou que os espaços entre os blocos de pedra à sua direita estavam cheios de musgo. No lintel, três cabeças de bronze tinham já sido corroídas pelos elementos. Os rostos, a Vida, a Morte e a Imortalidade, observavam-na com sobranceria. Olhou para cada um deles enquanto sacudia a chave na fechadura. A corrosão que atacara a Morte suavizara-lhe ironicamente a expressão, em especial em redor dos olhos fechados. O dedo que a imagem segurava frente aos lábios, silenciando-os para sempre, esboroava-se de ferrugem. O mesmo acontecia com a sua coroa de papoilas, o símbolo do sono na Grécia Antiga.
Ao contrário das idosas companheiras, a Imortalidade era jovem, mas a serpente em torno da sua cabeça, a morder a cauda, estava mosqueada de manchas verdes e pretas de deterioração. Nada apropriado para um vetusto ícone de eternidade. Apenas o símbolo a alma humana, a borboleta no meio da testa da Imortalidade, permanecia intacto. A luta de Jac com a chave continuou. Começava quase a ficar desmoralizada, perante a ideia de que a entrada não lhe seria permitida, quando a tranqueta se soltou e a fechadura cedeu finalmente. Ao empurrar a porta, as dobradiças gemeram como um idoso. De imediato, o cheiro gredoso a pedra e ar bafiento, misturado com folhas decompostas e madeira seca, veio ao encontro dela. Jac chamava-lhe o cheiro dos esquecidos. Deteve-se na soleira e espreitou para o interior. A luz matutina que penetrava pelas duas janelas de vitral decoradas com lírios roxos saturava o espaço interior com uma espécie de melancólica cor de cobalto, aguada. Derramando-se também por sobre o anjo de pedra prostrado no altar. O seu rosto estava escondido, mas a dor era perceptível pela forma como os seus delicados dedos de mármore pendiam sobre o pedestal e pelo modo como as asas estavam penduradas, as pontas roçando pelo chão.
Sob cada uma das janelas, urnas de alabastro continham as oferendas que Jac trouxera no ano anterior: ramos de flores de macieira, entretanto secos e murchos. No centro do pequeno recinto, num banco de granito, estava sentada uma mulher, à espera, observando Jac, esboçando um sorriso familiar e triste. A luz azul atravessava a forma da mulher e espalhava-se pelas pernas de Jac. Receava que não viesses. A voz suave parecia advir do ar em redor do espectro translúcido, de dentro dele». In M. J. Rose, O Livro dos Perfumes Perdidos, tradução de Eugénia Antunes, Clube do Autor, Lisboa, 2012, ISBN 978-989-724-039-3.

Cortesia de CAutor/JDACT

sexta-feira, 21 de agosto de 2015

O Livro dos Perfumes Perdidos. M. J. Rose. «Com esse objectivo, procurou e encontrou os factos no âmago das grandes histórias, buscou e descobriu as versões em tamanho real dos gigantes das lendas. Explicou como certas façanhas gloriosas se tinham revelado acções insignificantes»

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Alexandria. Egipto. 1799
«(…) Teria o estranho perfume desencadeado aquela crise? Seguramente que afectara L’Étoile. A desorientação e as vertigens que sentira desde que entrara no túmulo só entretanto se haviam começado a desvanecer. Este local está amaldiçoado!, gritou Abu, lançando o rolo de papiro para dentro do caixão, sobre os cadáveres mumificados. Temos de sair já daqui! Precipitou-se então para fora da câmara, correndo pelo primeiro corredor abaixo. O túmulo está amaldiçoado, repetiram os jovens trabalhadores com vozes trémulas ao mesmo tempo que seguiam as pisadas de Abu, empurrando-se e acotovelando-se uns aos outros pela estreita entrada. Os eruditos seguiram-lhes o exemplo. O ajudante de campo de Napoleão auxiliou o general, que recuperara as suas faculdades, mas continuava fraco, escoltando-o para fora da sala, deixando L’Étolle sozinho na câmara funerária do perfumista e da mulher que com ele fora sepultada. Curvando-se sobre os amantes, agarrou no papiro que Abu lançara para o sarcófago, adicionou-o ao conteúdo da pequena caixa dourada e, por fim, enfiou a caixa dentro da sua bolsa de couro.

Nova Iorque, nossos dias. Terça-feira, 10 de Maio
Quando Jac L’Etoile tinha catorze anos, a mitologia salvara-lhe a vida. Recordava-se de tudo acerca daquele ano. Em especial das coisas que tentara esquecer. Era dessas que tinha uma recordação mais vívida. Mas era sempre assim, não era? A adolescente que a esperava naquele momento à porta do estúdio de televisão na West Forty-ninth Street não devia ter mais de catorze anos. Alta e esguia, desconjuntada, mas animada e ágil como um potro, deu um passo em frente e estendeu uma cópia do primeiro livro de Jac, Caçadores de Mitos. Dá-me um autógrafo, Miss L’Étoile? Jac acabara de sair de um talk show matutino onde estivera a promover o seu livro, mas não era uma celebridade. O seu programa, exibido num canal por cabo e com o título do livro, explorando a génese de lendas, tinha menos de um milhão de espectadores, portanto, encontros como aquele eram ao mesmo tempo inesperados e gratificantes.
O carro que alugara estava parado junto ao passeio, com o condutor à sua espera. Mas não importava que estivesse um pouco atrasada. Ninguém, à excepção dos fantasmas, a esperava para onde ela se dirigia. Como te chamas? perguntou Jac. Maddy. Jac conseguiu sentir a água-de-colónia, leve e com travo a limão, que a adolescente usava. Entre as adolescentes e os aromas cítricos parecia existir uma eterna atracção. Destapando a caneta, Jac começou a escrever. Por vezes é bom saber que os heróis existem mesmo, disse Maddy em voz baixa. Que as pessoas podem fazer coisas extraordinárias. A ruidosa e buliçosa rua frente ao Radio City Music Hall era um local estranho para uma confissão, mas Jac acenou com a cabeça e sorriu para Maddy num gesto de cumplicidade. Alimentara a mesma esperança durante demasiado tempo. Quando Jac começara a explorar a génese dos mitos, viajando até antigos sítios arqueológicos por todo o mundo, visitando museus, bibliotecas e colecções privadas, investigando as ruínas de civilizações há muito desaparecidas, imaginara que as suas descobertas seriam um entretenimento e um ensinamento. Com esse objectivo, procurou e encontrou os factos no âmago das grandes histórias, buscou e descobriu as versões em tamanho real dos gigantes das lendas.
Explicou como certas façanhas gloriosas se tinham revelado acções insignificantes, por vezes acidentes. Jac deu a conhecer que raramente as mortes dos heróis da mitologia eram grandiosas, metafóricas ou meteóricas. O que sucedera fora que os contadores de histórias haviam exagerado a realidade para criar metáforas que instruíam e inspiravam. Acreditava que fazia os mitos tombarem do seu pedestal, ao reduzir-lhes a sua importância. Mas acabou por fazer precisamente o contrário. A prova de que os mitos, na verdade, se baseavam em factos verídicos, que uma qualquer versão dos antigos heróis, deuses, fados, fúrias e musas havia realmente existido, concedeu esperança aos leitores e telespectadores. E era por esse motivo que os fãs escreviam cartas e notas de agradecimento, que o programa de televisão ia na segunda temporada e que adolescentes como Maddy lhe pediam autógrafos. E era por isso que Jac se sentia uma fraude. Jac sabia que acreditar em heróis podia salvar a vida, mas também sabia que acreditar na grandiosa fantasia podia destruí-la com a mesma facilidade. Não disse isso a Maddy. Terminou a dedicatória, devolveu o livro, agradeceu-lhe e meteu-se no carro que a aguardava. Quarenta e cinco minutos mais tarde, o aroma a pinheiros e aos rebentos das árvores-de-judas informaram Jac de que chegara ao cemitério de Sleepy Hollow, aninhado no luxuriante vale do rio Hudson. Levantou os olhos do que estava a ler no preciso momento em que os colossais portões de ferro forjado se começavam a ver. Quando o carro atravessou a entrada, Jac desapertou e voltou a atar a fita que lhe afastava os rebeldes caracóis do rosto». In M. J. Rose, O Livro dos Perfumes Perdidos, tradução de Eugénia Antunes, Clube do Autor, Lisboa, 2012, ISBN 978-989-724-039-3.

Cortesia de CAutor/JDACT

quinta-feira, 20 de agosto de 2015

O Livro dos Perfumes Perdidos. M. J. Rose. «Ouviu-se então um estrondo. Era Napoleão a cair em cima do caixão de madeira, quebrando e estilhaçando a sua tampa. O perfumista escutara os rumores de que o general sofria de epilepsia, a mesma perturbação nervosa que afligira o herói dele, Júlio César»

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Alexandria. Egipto. 1799
«(…) L’Étoile não era presciente nem médium, sendo sensível apenas a uma coisa: ao cheiro. Fora por esse motivo que, aos vinte anos, em 1789, trocara Marie-Geneviève e Paris pelo ar quente e o calor do Egipto, para estudar os mesmerizantes e mágicos eflúvios daquela vetusta cultura. Porém, nada do que descobrira ao longo de todo aquele tempo se comparava com o que então segurava. De perto, o aroma era rico e penetrante, e L’Étoile sentiu-se flutuar para longe do túmulo, para o ar livre, sob a abóbada celeste, a coberto da Lua, até à margem de um rio onde podia sentir o vento e desfrutar do fresco da noite. Alguma coisa lhe estava a acontecer. Sabia quem era, Giles L’Étoile, filho do melhor perfumista e luveiro de Paris. E ali se encontrava ele, com o general Napoleão Bonaparte, num túmulo debaixo da terra, em Alexandria. No entanto, ao mesmo tempo, estava a ser transportado, sentado ao lado de uma mulher na margem de um largo e verde rio, sob a sombra das tamareiras. Sentia que conhecia aquela mulher, que a conhecera desde sempre, muito embora ela fosse uma estranha.
Era muito bela, alta e magra, com cabelo negro e espesso e olhos escuros cheios de lágrimas. O corpo dela, envolto numa fina túnica de algodão, era sacudido por soluços, e o som da sua tristeza atravessava-o. Soube, por instinto, que a origem, a causa daquela dor era algo que ele fizera ou não fizera, e que estava nas suas mãos mitigar o sofrimento dela. Tinha de fazer um sacrifício. Caso contrário, o destino dela ensombrá-lo-ia para toda a eternidade. Despiu o comprido manto de linho que usava sobre a saia escocesa e mergulhou uma ponta do tecido na água para lhe limpar as lágrimas. Ao inclinar-se por cima da água, entreviu o seu rosto reflectido na superfície. L’Étoile viu alguém que não reconheceu. Um homem mais jovem, com vinte e cinco anos, no máximo. A sua pele era mais escura e dourada. As suas feições mais pronunciadas em locais onde as do perfumista eram arredondadas, ao passo que os olhos dele eram castanho-escuros e não azul-claros. Reparem, escutou-se uma voz à distância, está aqui um papiro.
L’Étoile deu-se conta de uma voz vagamente familiar, era a voz de Abu. Mais premente, porém, foi o súbito ruído de cascos de cavalos. A mulher também os escutou, com o pânico bem evidente no rosto. Ele largou o manto e pegou-lhe na mão, fazendo-a levantar-se para a conduzir até um local seguro longe do rio onde ela pudesse ficar escondida e em segurança. Ouviu-se um grito. Alguém tombou por cima dele. Ouviu cerâmica a quebrar-se contra o chão de alabastro. L’Étoile estava de volta ao túmulo, e em vez do rosto belo e melancólico da mulher, olhava para Abu, segurando um espesso rolo contra o peito e de olhos cravados num vaso de barro partido. O cheiro colocara toda a gente numa espécie de transe e L’Étoile fora o primeiro a despertar dele. Em redor, o caos instalara-se. Os homens sussurravam, choravam e gritavam, falando em línguas que L’Étoile não entendia. Pareciam combater demónios invisíveis, debater-se com inimigos ocultos e retirar conforto de companheiros ocultos.
Que lhe acontecera? Que estava a acontecer aos outros homens? Um dos jovens trabalhadores egípcios, encostado à parede, sorria e cantava uma cantiga numa qualquer língua antiga. Outro estava deitado no chão a gemer; um terceiro esmurrava um atacante invisível. Dois dos eruditos não haviam sido afectados, mas observavam horrorizados a cena. Saurent, ajoelhado em oração, com uma expressão beatífica no rosto, falava em latim, recitando uma missa. O cartógrafo batia na parede com o punho, gritando vezes sem conta o nome de um homem. Os olhos de L’Étoile encontraram Napoleão. O general estava imóvel junto ao sarcófago, como que colado ao chão, olhando fixamente um local na parede como se fosse uma janela para uma paisagem distante. A sua pele estava mais pálida que o habitual e coberta de suor. Tinha um aspecto enfermiço.
Havia odores que podiam curar males e outros que podiam provocá-los, venenos que seduziam com a sua doçura antes de sugarem o último alento a quem os respirava. O pai de L’Étoile instruíra-o acerca de todos eles e advertira-o para os seus efeitos. Naquele momento, L’Étolle temia por si, pelo comandante e pelos homens reunidos naquela câmara. Teriam sido todos envenenados por um antigo aroma tóxico? Tinha de fazer alguma coisa. Agarrando numa pequena caixa dourada que se encontrava no meio de uma pilha de tesouros encostada à parede mais afastada, abriu-a, despejou o seu conteúdo, ouro e vidro colorido no chão, e depois, à pressa, enfiou o vaso de cerâmica ainda intacto no seu interior. Juntando à caixa os cacos do recipiente que o general deixara cair, L’Étoile fechou a tampa. O aroma ainda predominava no espaço, mas agora que os recipientes de perfume estavam fechados, o ar começou lentamente a clarear. L’Étoile observou que, um a seguir ao outro, os homens se recompunham e olhavam em redor, cada qual tentando perceber onde estava. Ouviu-se então um estrondo. Era Napoleão a cair em cima do caixão de madeira, quebrando e estilhaçando a sua tampa. O perfumista escutara os rumores de que o general sofria de epilepsia, a mesma perturbação nervosa que afligira o herói dele, Júlio César. O corpo do general era sacudido por convulsões e a boca borbulhava de espuma. O ajudante de campo correu para junto dele». In M. J. Rose, O Livro dos Perfumes Perdidos, tradução de Eugénia Antunes, Clube do Autor, Lisboa, 2012, ISBN 978-989-724-039-3.

Cortesia de CAutor/JDACT

domingo, 9 de agosto de 2015

O Livro dos Perfumes Perdidos. M. J. Rose. «O general aproximou-se mais para inspeccionar as múmias. Ao estender a mão para o interior do caixão, Abu murmurou um aviso. Napoleão ignorou as palavras do guia e tirou um pequeno objecto dos dedos da múmia masculina»

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Alexandria. Egipto. 1799
«(…) Nunca antes vi uma coisa assim, sussurrou Abu, espantado. Que significa?, quis saber Napoleão. Não sei, general. É muito invulgar, gaguejou Abu. Desembrulhe-o, Saurent, ordenou Napoleão. Apesar dos protestos de Abu, Saurent insistiu que os jovens cortassem as faixas de linho e expusessem a múmia. Eram os franceses quem lhes pagava, portanto acederam. Como L’Étoile sabia, as antigas técnicas de embalsamento, recorrendo à utilização de óleos e unguentos perfumados, em conjunto com o ar seco presente na cripta, deveriam ter impedido os tecidos moles do falecido de se decomporem. Até o cabelo podia estar preservado. Já vira algumas múmias antes e ficara fascinado com os cadáveres bem-cheirosos. Minutos depois, o enegrecido tecido fora cortado. De facto, nunca vi nada assim, murmurou Abu. O cadáver à direita não tinha os braços cruzados sobre o peito, como era costume. Ao invés, tinha o braço direito estendido e dava a mão a uma mulher com a qual fora mumificado. A mão esquerda da mulher estava entrelaçada na do homem. Os amantes tinham um ar natural: os corpos, de tão bem preservados, pareciam ter sido sepultados havia meses, não séculos.
A multidão reunida em redor do sarcófago murmurou de espanto, perante aquele casal ligado até na morte, mas o que afectou L’Étoile não foi a sua visão. Ali, por fim, estava a fonte do odor que começara a atraí-lo desde que descera a escada de mão. Esforçou-se por isolar as notas que reconhecia, procurando os ingredientes que conferiam à mistura aquela promessa de esperança, de longas noites e sonhos voluptuosos, de atracção e afecto. De uma eterna aliança, plena de possibilidades. De almas perdidas por fim reunidas. Ao inalar de novo, os olhos do perfumista encheram-se de lágrimas. Aquele era o tipo de aroma que sempre imaginara conseguir fazer. Estava a cheirar emoção em estado líquido. Aquele era o aroma do amor. Era isso que Giles L’Étoile estava a cheirar. O perfumista entrou em desespero. Que daria àquela fragrância a sua complexidade? Porque era tão esquiva, tão inapreensível? Porque não conseguia reconhecê-la? Ao inspirar, memorizara mais de quinhentos ingredientes. Que mais havia na composição daquele perfume? Se ao menos existisse uma máquina que fosse capaz de absorver o ar e separar os seus componentes. Muito tempo antes, falara com o pai acerca de tal maquineta. Jean-Louis zombara dele, como fazia com a maioria das invenções e fantasias do filho, castigando-o por desperdiçar tempo em ideias fantasiosas e inviáveis, por se dedicar a romantismos ridículos.
Um perfume pode evocar sentimentos, pai, argumentara L’Étoile. Imagine a fortuna que não faríamos se vendêssemos sonhos e não apenas misturas de aromas. Disparate, admoestara o pai. Somos químicos, não poetas. A nossa função é mascarar o fedor das ruas, cobrir o aroma da carne e aliviar os sentidos do ataque de cheiros desagradáveis, repugnantes e infectos. Não, pai. Está enganado. A poesia é precisamente a essência do nosso trabalho. Apesar da opinião do pai, L’Etoile tinha a certeza de que uma fragrância tinha muito a oferecer, que possuía um desígnio mais profundo. Fora por esse motivo que viajara para o Egipto. E descobrira que estava certo. Os antigos perfumistas haviam sido sacerdotes. O perfume era parte integrante de rituais sagrados e de costumes religiosos. A alma ascendia aos céus no fumo do incenso.
O general aproximou-se mais para inspeccionar as múmias. Ao estender a mão para o interior do caixão, Abu murmurou um aviso. Napoleão ignorou as palavras do guia e tirou um pequeno objecto dos dedos da múmia masculina. Extraordinário, comentou, ao mesmo tempo que extraía uma peça de cerâmica idêntica da mão da outra múmia. Cada um segura um pote destes. Abriu o primeiro; depois o segundo. Uns instantes mais tarde, farejou o ar. Em seguida, levou cada um dos pequenos potes ao nariz, cheirando um e, por fim, o outro. L’Étoile, parecem conter uma substância perfumada idêntica. Estendeu-lhe um dos potes. Será uma pomada? Reconhece isto? O recipiente era pequeno o suficiente para lhe caber na mão. Vidrado a branco, estava decorado com elaborados desenhos em tons de coral e turquesa e hieróglifos em redor da parte mais bojuda. A linguagem perdida dos antigos que ninguém conseguia ler. Mas uma linguagem que o perfumista conseguia seguramente cheirar. L’Étoile tocou na superfície cerosa. Com que então, aquilo que tinha na mão era a origem do odor que o atraíra até à câmara!» In M. J. Rose, O Livro dos Perfumes Perdidos, tradução de Eugénia Antunes, Clube do Autor, Lisboa, 2012, ISBN 978-989-724-039-3.

Cortesia de CAutor/JDACT

sexta-feira, 19 de junho de 2015

O Livro dos Perfumes Perdidos. M. J. Rose. «Avançou pelo corredor, profusamente decorado, até um santuário interior e inspirou com força, tentando extrair mais informações do antiquíssimo ar. Frustrado, expirou e, sem querer, apagou a vela»

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Alexandria. Egipto. 1799
«(…) Pronto, declarou Saurent ao mesmo tempo que entregava as ferramentas a um dos lacaios egípcios e sacudia as mãos. Général? Napoleão avançou até ao portal e tentou rodar o brilhante aro de bronze. Tossiu. Tentou com mais força. O general era um homem magro, quase emaciado, e L'Étoile fez figas para que ele conseguisse accionar o mecanismo. Por fim, um sonoro ranger ecoou pela cripta e a porta abriu-se. Saurent e L'Étoile juntaram-se ao general na soleira da porta, os três estendendo as respectivas velas à escuridão para alumiar a câmara interior e, sob a tremeluzente e pálida luz amarelada, materializou-se diante dos seus olhos um corredor repleto de tesouros. Mas não seriam as elaboradas gravuras nas paredes do corredor, nem os vasos de alabastro, nem as esculturas ricamente talhadas e decoradas, tão-pouco as arcas de madeira carregadas de tesouros que L'Étoile recordaria para o resto da vida, e sim o ar doce e quente que fluiu ao seu encontro. O perfumista sentiu o odor a morte e a história. Ténues aromas de flores secas, de frutos e ervas aromáticas, e de madeiras. Com a maioria estava familiarizado, mas sentiu outras notas também. Mais subtis. Menos familiares. Apenas esboços de aromas, na verdade, que o inebriaram e atraíram, tantalizantes e suplicantes como um bonito sonho prestes a desvanecer-se para sempre. Ignorou o aviso de Saurent, segundo o qual estava a penetrar em território desconhecido, que poderia haver armadilhas, serpentes escondidas, bem como as admonições de Abu acerca de espíritos emboscados, ainda mais perigosos que as serpentes. Seguindo o seu olfato, e munido apenas de uma vela, L'Étoile embrenhou-se na escuridão, ultrapassando o general e toda a gente, sedento de uma dose mais concentrada do misterioso perfume.
Avançou pelo corredor, profusamente decorado, até um santuário interior e inspirou com força, tentando extrair mais informações do antiquíssimo ar. Frustrado, expirou e, sem querer, apagou a vela. Talvez tenha sido de tanto inspirar, ou talvez da penetrante escuridão. Talvez tenha sido o ar bafiento que o deixou tão tonto. Não importava. Ao mesmo tempo que combatia a vertigem, a sua percepção do aroma tornou-se mais forte, mais íntima. Finalmente, começou a identificar ingredientes específicos. Olíbano e mirra, lótus azul e óleo de amêndoa, todos componentes comuns dos incensos e fragrâncias egípcios. Contudo, havia mais qualquer coisa, algo esquivo e fora do alcance dele, mas apenas por pouco. Sozinho, imerso na escuridão, estava tão concentrado e absorto que nem escutou os passos do resto do grupo, que seguira no seu encalço. Que cheiro é este?
A voz sobressaltou o perfumista. Virou-se para Napoleão, que acabara de penetrar naquela câmara. Um perfume que não é cheirado há séculos, sussurrou L'Étoile. Ao mesmo tempo que os outros chegavam, Abu começou a explicar que se encontravam na câmara funerária e apontou para os murais de cores vivas. Um deles mostrava o defunto a vestir uma enorme estátua de um homem com cabeça de chacal, colocando comida aos pés do homem-chacal. Ligeiramente atrás, uma mulher esguia e bonita com um vestido transparente segurava uma bandeja cheia de garrafas. Na cena seguinte, a mulher acendia um incensório, o fumo tornando-se visível. No painel a seguir, o chacal encontrava-se no meio de vasos, prensas e alambiques, objectos que L'Étoile reconhecia da oficina de perfumes do seu pai em Paris.
L'Étoile sabia o quanto a fragrância era importante para os antigos egípcios, mas nunca antes vira tanta imagética relacionada com o fabrico ou utilização de um aroma. Quem é o homem que está aqui sepultado?, perguntou Napoleão a Abu. Já descobriu? Ainda não, general, respondeu Abu. Mas devemos encontrar mais pistas ali. Abu apontou para o centro da câmara. O estilizado sarcófago de granito preto tinha cinco vezes o tamanho de um homem comum. A sua superfície polida exibia cartelas esculpidas e um retrato embutido a turquesa e lápis-lazúli de um homem bonito e de aspecto felino com lótus azuis em redor da cabeça. L'Étoile reconheceu-o. Era Nefertum, filho de Iset. O deus dos perfumes. De repente, as cenas representadas nos murais, o motivo do lótus azul, os incensórios em todos os cantos da câmara fizeram sentido para L'Étoile. Aquele era o túmulo de um perfumista do antigo Egipto. E, a julgar pela sua majestosidade, o sacerdote fora um homem venerado.
Saurent vociferou um par de ordens à sua equipa de trabalhadores e, após uma breve contenda, os jovens conseguiram erguer a tampa de pedra do sarcófago. Aninhado no interior encontrava-se um ataúde de madeira decorado com gravuras das mesmas duas pessoas representadas nos murais. A tampa deste caixão foi extraída com a maior facilidade. Lá dentro estava uma enorme múmia Com uma forma estranha, tinha o comprimento normal, mas apresentava mais do dobro da largura habitual, enegrecida com asfalto do mar Morto. Em vez de apenas uma, exibia duas elaboradas máscaras de ouro. Ambas estavam coroadas por toucados de turquesa e lápis-lazúli e tinham peitorais de cornalina, ouro e ametista. A única diferença entre elas era que a da direita era masculina e a da esquerda feminina». In M. J. Rose, O Livro dos Perfumes Perdidos, tradução de Eugénia Antunes, Clube do Autor, Lisboa, 2012, ISBN 978-989-724-039-3.

Cortesia de CAutor/JDACT

quarta-feira, 15 de abril de 2015

O Livro dos Perfumes Perdidos. M. J. Rose. «… combina a atracção sensual de ‘O Perfume’ com a beleza de ‘A Mulher do Viajante no Tempo’, apresentando uma história envolvente e inspirada em factos históricos»

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Alexandria. Egipto. 1799
Giles L'Étoile era um mestre das fragrâncias, não um ladrão. Nunca na vida roubara nada a não ser o coração de uma mulher, e ela sempre afirmara que lho entregara de bom grado. Contudo, naquela fria noite egípcia, ao descer pela vacilante escada em direcção ao antigo túmulo, cada hesitante passo que dava aproximava-o da criminalidade. L'Étoile seguia no encalço de um explorador, um engenheiro, um arquitecto, um artista, um cartógrafo e, é claro, do próprio general, todos os sábios do exército de intelectuais e cientistas ao serviço de Napoleão penetravam agora num túmulo sagrado que permanecera inviolado durante milhares de anos. A cripta fora descoberta no dia anterior pelo explorador Émile Saurent e a sua equipa de rapazes egípcios, que parara de escavar ao topar com a porta de pedra selada. Aos vinte e nove anos, Napoleão teria o privilégio de ser o primeiro homem a ver o que durante milénios repousara perdido e esquecido. Não era segredo que o general acalentava sonhos de conquistar o Egipto. Contudo, as suas grandiosas ambições iam para além das conquistas militares. Sob a sua égide, a história do Egipto estava a ser explorada, estudada e cartografada. Ao fundo da escada, L'Étoile juntou-se ao grupo reunido num vestíbulo sombriamente iluminado. Inspirou e identificou o aroma a pedra calcária e a pó de reboco, a ar bafiento e ao odor corporal dos trabalhadores, encontrando ainda vestígios de um outro aroma demasiado ténue para conseguir reconhecê-lo. Quatro colunas de granito rosa, com as suas bases soterradas sob um monte de pó e destroços, sustinham o tecto, pintado num tom forte de lápis-lazúli e exibindo uma carta celeste argêntea. As paredes revelavam várias portas, uma maior que as outras. Saurent, munido de um escopro, estava já ocupado a destruir o selo de gesso.
As paredes da antecâmara estavam decoradas com delicados e pormenorizados murais, magnificamente pintados em tons de terra. Os murais eram tão vívidos que L'Étoile esperou sentir o cheiro da tinta, mas foi o perfume de Napoleão que inalou. O motivo estilizado de nenúfares que debruava a cripta e emoldurava as pinturas despertou o interesse do perfumista. Os egípcios chamavam à flor lótus azul, e há centenas de anos que usavam a sua essência na preparação de perfumes. L'Étoile, que, aos trinta anos, tinha já passado quase uma década a estudar a sofisticada e vetusta arte egípcia da perfumaria, conhecia bem aquela flor e as suas propriedades. O seu perfume era magnífico, mas o que a distinguia de outras flores eram as suas características alucinogénias. Experimentara-as em primeira-mão e descobrira que eram uma excelente solução quando o passado vinha ao de cima e lhe complicava o presente. O lótus não era o único elemento floral presente nos murais. No primeiro painel, trabalhadores extraíam sementes de sacas em armazéns, e no painel seguinte outros havia que as semeavam em canteiros. Num terceiro, cuidavam dos rebentos que nasciam, das flores e das árvores, e depois cortavam as flores, os ramos, as ervas e apanhavam os frutos. No último painel, transportavam toda aquela abundância até ao falecido, calculou L'Étoile, e colocavam-na aos pés dele.
Ao mesmo tempo que o gesso ia tombando às lascas no chão de alabastro, Abu, o guia que Saurent trouxera, fornecia aos homens explicações sobre o que viam. O discurso era interessante, mas os odores a transpiração, a mechas em chamas e a pó de cal começaram a dominar L'Étoile, que olhou de relance para o general. Por maior que fosse o sofrimento do perfumista, sabia que para Napoleão este era bem pior. Tamanha era a sensibilidade olfativa do general, que não tolerava estar perto de determinados criados, de certos soldados, ou de mulheres cujo cheiro não lhe caísse bem. Corriam histórias dos seus prolongados banhos e do excessivo uso de água-de-colónia, a dele, uma mistura exclusiva à base de limão, lima, bergamota e rosmaninho. O general mandara vir até velas especiais (iluminavam naquele momento a câmara escura) de França por serem feitas com uma cera obtida a partir da cristalização do óleo de cachalote que, ao ser queimada, exalava um odor menos pernicioso. A obsessão de Napoleão era uma das razões por que L'Étoile ainda se encontrava no Egipto. O general pedira-lhe que ficasse mais tempo para poder dispor de um perfumista e L'Étoile não se importara. Em Paris, tudo o que de mais importante tinha perdera-se havia seis anos, durante o Reino do Terror. Em casa, à sua espera, só as recordações. Enquanto Saurent quebrava o resto do selo, o perfumista aproximou-se para estudar as gravuras na porta. Também ali havia uma bordadura de lótus azuis, estes emoldurando cartelas com os mesmos indecifráveis hieróglifos que se viam por todo o Egipto. Talvez a pedra recém-descoberta na cidade portuária de Roseta pudesse providenciar algumas pistas para a decifração daqueles símbolos». In M. J. Rose, O Livro dos Perfumes Perdidos, tradução de Eugénia Antunes, Clube do Autor, Lisboa, 2012, ISBN 978-989-724-039-3.

Cortesia de CAutor/JDACT