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segunda-feira, 11 de setembro de 2017

A Traição de D Manuel I. Jorge S. Correia. «… um destino que parecia trilhar o caminho do Jardim das Delícias, o tal sítio onde Adão e Eva, sem planeamento, encheram o mundo de malfeitores e inocentes»

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De Malines a Espanha, com Ida para Portugal
«(…) Era uma atitude assumida, bárbara também, pois roubar a irmã à mãe era o mesmo que assaltar o resto de sanidade que lhe restava. Louca, sim, mas se não lhe chegou nenhum sentimento quando encarou a filha mais velha, a mais nova era a sua razão de viver, como se a vida da menina fosse o vigor de que precisava para obter uma loucura normal. Perante o assalto ao mais íntimo de si, dona Joana esteve três dias sem comer, a chorar e a babar-se, até que, à vista do sofrimento revelado no desaprumo das acções que a transfiguravam, Leonor cedeu às súplicas da mãe, optando por seguir viagem como o irmão Carlos planeara, com o propósito de, nem mais nem menos, fazer-se coroar rei de Espanha. O futuro rei do universo, exagero semântico, só isso, pois dizia-se que o Sol nunca se punha no império de Carlos V, viera a Espanha a pedido dos governadores, uma força capaz de desagregar o reino espanhol, tantos eram os territórios sob sua tutela. Além disso, quem é que dava ouvidos a uma rainha sem autoridade nem juízo? Se com dona Joana o reino perdia a glória que os seus pais, Fernando e Isabel, os Reis Católicos, souberam construir, por que razão a grande nobreza não requisitava Carlos, uma vez que atrás de si se revelavam poder, riqueza e ambição, qualidades que depressa se fariam sentir no governo de Espanha? É que o jovem já tinha quase dezassete anos, idade mais do que suficiente para mandar e ser obedecido.
A 14 de Fevereiro de 1516, o infante Fernando, o irmão que nunca saíra de Espanha, depois de reunir o Conselho Real, escreveria a Carlos pedindo-lhe que assumisse o governo de Espanha: beijamos os vossos pés e reais mãos (...) suplicamos humildemente a vossa alteza, pois a sua vinda é tao desejada de todos e necessária para o bem e sossego destes reinos e os naturais dele e súbditos de nossa alteza, tenha por bem vir a eles. E lá veio Carlos, arrastando consigo a mana Leonor. Mas havia quem não gostasse. Os do reino de Aragão desconfiavam do jovem arquiduque, viam-no como um intrometido do Norte da Europa na alteridade castelhana, suspeitavam da sua honestidade, achavam que o que ele queria era juntar mais poder ao que já tinha. Ultrapassada esta dúvida, outro problema se levantou. Dona Joana, maluca ou não, ainda era a rainha de Espanha. Os súbditos deviam-lhe menagem. Como haveria Carlos de resolver a questão? Para o futuro Carlos I de Espanha essa questão não continha qualquer dificuldade, ou não fosse ele amado pela nobreza, quase tanto como a mãe amou o pai.
Não foi difícil baralhar o já confuso pensamento de dona Joana. Pressionada a abdicar, fê-lo de pronto, certamente sem saber muito bem o que isso significava. Estava senil, habituada a um certo bem-estar junto dos seus servidores mais chegados, mais não queria do que um reino só para si em cem metros quadrados: as aias e as amas de companhia para a entreterem, a filha mais nova junto de si, adorável criança que talvez lhe trouxesse à memória corrompida a lembrança de dias felizes. Fora isto, que a deixassem com os seus pensamentos, sadios ou inquinados, pouco lhe importava, de certeza organizados na imagem do marido que amou até à loucura. Vencidos alguns protestos de certos governadores, poucos, comparados com os que queriam Carlos a governar, o arquiduque fez-se coroar em São Paulo de Valladolid como Carlos I de Espanha, jurando, no entanto, que se Deus Nosso Senhor voltasse a dar juízo à mãe, ceder-lhe-ia o reino, voltando a governar a Flandres e o resto que por lá havia, e era muito, até que a matriarca voltasse outra vez ao que fora ou morresse. As vidas do novo rei de Espanha e da sua irmã casadoira estavam a ser empurradas por um não sei quê de bonança, um destino que parecia trilhar o caminho do Jardim das Delícias, o tal sítio onde Adão e Eva, sem planeamento, encheram o mundo de malfeitores e inocentes». In Jorge Sousa Correia, A Traição de D Manuel I, Clube do Autor, Lisboa, 2015, ISBN 978-989-724-262-5.

Cortesia de CAutor/JDACT

quinta-feira, 2 de março de 2017

O Mistério do Infante Santo. Jorge Sousa Correia. «A confiança no irmão Henrique era total, tanto quanto o afeiçoamento que lhe devotava sobrelevava os defeitos. Sentiu-se manietado por uma força de atracção que o prendeu a este irmão»

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«(…) Sentindo-se encorajado por estes pensamentos, o rei enrijou a silhueta, deitou para trás aquilo que não conseguia desvendar e numa voz forte chamou pelo reposteiro: Gonçalo! Gonçalo! O chamamento, dito em tons que ecoaram pelo Paço, chegou ainda audível aos ouvidos do infante Fernando, que nesse momento se preparava para abandonar o terreiro da casa apalaçada. Pressentindo pela tonalidade da voz o anúncio de uma tempestade, o infante apurou o ouvido, pensando poder distinguir as palavras que Duarte trocou com o servidor, mas o que escutou não lhe permitiu decifrar o recado que o pensamento do irmão privilegiou: ide já ligeiro ao encontro do infante Henrique. Dizei-lhe da urgência do seu conselho e que o espero sem demora em Lisboa, para onde seguirei. Desorientado pela complexidade de um assunto que lhe desordenava as ideias, o rei esqueceu-se de que a precedência entre os irmãos começava em Pedro e não em Henrique, ligação que, por ser irreflectida, trará consequências.
Honestamente submerso pela governação, o rei Duarte I não deu a princípio pelas manobras. Mas algumas manifestações alertaram-lhe o pensamento, sentindo grande necessidade de decifrar o que se passava. Não era de especulações, mas, roído pelo pressentimento, mandou alguém remexer nos grupos que fugiam ao seu controlo. Que não! Tudo estava calmo no reino de sua majestade, não havia motivos para alarme. Descansasse, nada temesse, porque os nobres respeitavam-no, a Igreja temia-o e o povo amava-o. Duarte descansou, como o aconselharam. Eis senão, sem aviso, entra-lhe o irmão mais novo pelo sossego adentro. Desarruma-lhe a casa que tem dentro da cabeça, provoca-lhe sentimentos violentos, assegura-lhe que as suspeitas vão além disso. Apreensivo, receia o pior. Não sabe onde o enredo o leva, se será ele o vencido ou, pelo contrário, se vencerá. Desconhece a origem, mas fica persuadido de que, se existe uma maquinação, só pode ser gerada por um grande nobre com influência na corte e no reino.
Duarte I infernizava-se por não estar na posse de todos os dados e, apesar de ser conhecedor de um circuito de intenções, continua sem saber quem atirou o irmão mais novo para a frente. Incomodado, estica até ao limite o cérebro, à espera que uma lufada de siso lhe fertilize o pensamento. Enquanto cruzava mais uma vez o compartimento de ponta a ponta, veio-lhe ao pensamento a imagem do infante Henrique, uma representação visual precipitada, um condicionamento virtual que o juízo lhe enviou para resolução. Subjugado pela áurea do homem cuja forte energia psicológica e física o impressionava, cedeu sob a imagem que lhe oferecia as devidas soluções e nenhumas dúvidas. Mais uns passos para lá, outros tantos para cá, conta Duarte. No momento em que me ocorreu chamar por Henrique, fui levado por uma força desconhecida, atraído por uma imagem obsessiva, pois vi nele o homem sério, honesto, fiel à Coroa, sem pôr em dúvida as suas virtudes nem sobrevalorizar os defeitos.
A confiança no irmão Henrique era total, tanto quanto o afeiçoamento que lhe devotava sobrelevava os defeitos. Sentiu-se manietado por uma força de atracção que o prendeu a este irmão, e de nada lhe valia exercitar o juízo à procura de outras soluções, porque não conseguia libertar-se do íman que o atraía. Por que pensamento, por que razão vai Duarte encontrar-se com Henrique, se Pedro é mais velho do que ele, mais versado na política, mais cosmopolita, mais reflectido, o seu irmão preferido, como gostava de dizer. Porquê, por que encargo este rei inteligente foi atrás de um impulso, quando uma das suas mais pronunciadas características era a ausência de arrebatamentos? Há coisas para as quais não vale a pena procurar explicação». In Jorge Sousa Correia, O Mistério do Infante Santo, A Revelação dos Pecados da Ínclita Geração, Clube do Autor, Lisboa, 2013, ISBN 978-989-724-067-6.

Cortesia de Cdo Autor/JDACT

sábado, 19 de novembro de 2016

A Traição de D. Manuel I. Jorge S. Correia. «Preocupada também pelo pouco desenvolvimento da infanta, depois de consultar o irmão, decidiu afastá-la do seio maternal»

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De Malines a Espanha, com Ida para Portugal
«(…) Já nessa altura o futuro rei de Espanha contava com Leonor para os seus avanços diplomáticos e políticos, colocando-a no último reduto da Europa para se poder virar para norte: França, Alemanha, Países Baixos, Itália, sem temer algum ataque do vizinho português. Submissa, fraterna, destituída de si, dona Leonor fez caminho para Espanha atrás do irmão com aviso de recepção em Portugal. A viagem efectuou-se por mar, contornando a costa francesa, galega e portuguesa, para depois subir o Mediterrâneo até Vilaviciosa, um lugar no principado de Oviedo, onde chegou a 17 de Setembro de 1517. Para além das obrigações institucionais, a viagem revestiu-se de outras razões sentimentais, pois dona Leonor há muito que não via a mãe, desde que ela se mudara definitivamente para Espanha, em 1506. Ora, o afastamento traz saudades, preocupações também, mais ainda quando a notícia que corria dava dona Joana como incapaz para tratar do governo do reino, pois sua mãe a rainha dona Joana não estava com inteiro juízo para poder governar. O encontro foi perturbador. Sujeitas ao cerimonial cortesão, mãe e filha trocaram os salamaleques inevitáveis, mesuras e deferências, mas tocarem-se, abraçarem-se ou beijarem-se, gestos que significariam ligações afectivas fortes, isso não. A longa separação gerara desafeição, enfraquecera os sentimentos, debilitara os comportamentos.
Se, por um lado, Leonor procurava mostrar-se neutral, à espera que algum calor lhe chegasse ao coração, dona Joana, por outro, reflectia uma indiferença mansa, incapaz de transferir para a filha outro sinal que não o do desapego. Frente a frente, não lhes chegou a ternura da natalidade, como se ao cortar do cordão umbilical ambas perdessem o encantamento. De certo modo também não comungavam o mesmo verbo, havia embaraço nas palavras, gerando-se alguns desentendimentos entre o que diziam e o que gostavam de ouvir. É verdade que a rainha já pouco usava o lado repressor da consciência, sem se importar com o que acontecia à sua volta. Não tinha também a capacidade da dissimulação, evidenciava uma tranquilidade ausente, todos os seus gestos estavam fora das representações razoáveis. Esta imagem feriu os olhos e os sentimentos dos filhos, em particular de Leonor, já que Carlos só queria era ultrapassar mais uma etapa para tomar posse do interminável reino de Espanha.
Diante da ausência de emoções que a progenitora revelava, dona Leonor de Áustria, em vez de lhe fazer chegar ao coração alguma ternura, accionou-lhe o juízo manifestações de protecção quando ao lado da mãe viu pela primeira vez a irmã Catarina. Olhava-a, e o que via na menina de dez anos era um ser pouco desenvolto, sobretudo se visto à luz do modo exuberante da sua própria educação. Habituada a uma corte sofisticada e culta, dona Leonor arrepiava-se quando a mana falhava nos modos e nas acções, na aparência pouco cuidada e no silêncio tímido a que se remetia. Catarina começava a despertar para os novos desafios da vida, era por isso necessário substituir a fanática educação religiosa que as aias lhe imprimiam para agradar à mãe. Amar a Deus, sim, com quase todas as forças, não todas, porque na paixão que nunca negaria à divindade havia alguns limites. Quando Leonor abraçou a irmã, bateu-lhe na alma um profundo carinho, uma transmissão de afecto que não sentira diante da mãe. Preocupada também pelo pouco desenvolvimento da infanta, depois de consultar o irmão, decidiu afastá-la do seio maternal.
Não obstante a enfraquecida capacidade cognitiva de dona Joana, uma grande mágoa assentou sobre ela quando lhe foi revelada a intenção de lhe levarem a menina. Chorou, contorceu-se, fez dos recursos físicos os argumentos que não encontrava no cérebro, de modo a enfraquecer a vontade da filha mais velha. Aparentemente, as manifestações de afecto e rejeição manifestadas não foram suficientes para alterar a sentença de dona Leonor. Estava decidido, dona Catarina viajaria daí por diante com os irmãos, tomariam conta da sua educação, transmitir-lhe-iam a visão do mundo e da sociedade que a tia Margarida lhes havia ministrado, e não se falava mais nisso. Escusava a mãe de se amarfanhar ou gastar os joelhos no genuflexório, porque a princesa precisava de cuidados e ninguém melhor do que Leonor os poderia transmitir». In Jorge Sousa Correia, A Traição de D Manuel I, Clube do Autor, Lisboa, 2015, ISBN 978-989-724-262-5.

Cortesia de CAutor/JDACT

quinta-feira, 28 de abril de 2016

O Mistério do Infante Santo. Jorge Sousa Correia. «… deixou mais uma frase por decifrar: “se é a vós que sirvo, não deixeis que me consagre a outros, reconsiderai também como me aconselhais”. Ao retirar-se, o infante…»

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O infante Fernando não quer ficar
«(…) Não obstante os monólogos íntimos que o infante e o rei travavam, lampejos da mente sobre a fala, eles traduziam-se acima de tudo na necessidade de evitar agredirem-se, sempre à procura de uma mesura que pudesse suavizar o palavreado. Que dizeis, Fernando?, insurgiu-se o rei. Que injustiça pretendeis acometer-me? Sabeis tão bem como eu que depois de nosso pai morrer nunca deixei de vos agasalhar, acrescentar e manter. Dignifiquei a vossa Casa, fiz crescer os vossos bens, protegi-vos. Que tínheis vós antes de nosso pai falecer? Eu digo-vos. Tínheis menos do que tens agora. Porque não lhe dissestes a ele o que me estais hoje a dizer?
Sem se interrompe em jeito de reprimenda, Duarte continuou: a vós dei-vos o Mestrado de Avis, que de rendas é superior ao de Sant'Iago que nosso irmão João detém, e dessa inferioridade ele se não queixou como agora vós fazeis. Contrariamente ao que vindes defendendo, não quiseste aceitar o barrete cardinalício que vos oferecia Gomes Ferreira por recomendação de Sua Eminência. Que maior dignidade podias alcançar se aceitasses o cargo e que rendas não conseguirias? Não seria mais apropriado para vós, um homem tão dedicado a Deus, serdes cardeal? No capítulo dos casamentos, nunca vos vi interessado em folgar com donzela, assim como também desconheço o vosso interesse pelo matrimónio. Se é certo que convinha a Portugal o casamento de um dos seus mais ilustres filhos, também é verdadeiro que mesmo sem estar de acordo tenho respeitado o vosso voto de castidade. É só por isso que não tendes hoje dama da melhor qualidade para vos aquecer a cama e gerar os filhos que gostarias de ter. Sendo assim, proponho-vos o seguinte: prontificas-te a renegar o voto de castidade? Responde, irmão, toma esse compromisso comigo, sela nem que seja com um abraço a proposta que vos faço e hoje mesmo emissários percorrerão o mundo para vos encontrar dama de virtude e realeza sem par. Fala, responde ao que te proponho!
O infante gaguejou, entupido pela força que Duarte deu ao desafio. Queria dizer que sim, que não, que ia pensar, mas ficou mudo, de cabeça baixa, sem responder ao repto que o irmão lhe fez. Porque forçais a vossa ignorância?, prosseguiu Duarte. É só para me reptardes? Olha, irmão, não estás casado, mas não estás atrasado. Isso vos garanto. Tinha eu mais três anos do que agora vós tendes quando me casei com a nossa amada rainha, os mesmos anos que Pedro havia quando se casou com a senhora dona Isabel de Urgel. Não há por isso nenhum desacerto, não pode haver, a não ser a manifesta vontade em manterdes o sacramento que juraste. Um reino não se constrói num só dia. Por muito que nosso pai o tenha erguido, muito há para fazer. Esperai algum tempo e vereis que aparecerão assuntos importantes para um nobre da vossa estirpe se envolver e deles retirar o engrandecimento que hoje reclamais. Ide, reconsiderai, esperai que vos proponha assunto vantajoso. Até lá, aguardai por uma resposta que não deixarei de vos dar.
Aceitando o convite, quase a vencer a ombreira da porta, Fernando, virando-se para trás, deixou mais uma frase por decifrar: se é a vós que sirvo, não deixeis que me consagre a outros, reconsiderai também como me aconselhais. Ao retirar-se, o infante deixou na sala um vazio difícil de preencher. Duarte trancou-se silencioso, olhos fechados para melhor intuir o que acabara de suceder. Aos poucos, recuperando cada momento da conversa ainda fresca, tentou estabelecer ligações entre os argumentos do irmão e o persistente clima de conspiração que pressentia. Duvidava. Duvidava mesmo que fossem realmente as razões expostas pelo irmão o verdadeiro motivo da presença dele ali naquele dia. Todavia, ficava com que se entreter. Levantou-se, atravessou a sala em passadas que retomavam a partida, avançando para recuar demorando uma eternidade para chegar de uma parede a outra. Rebuscava naquele incessante caminhar, antes de mais, um significado que o levasse ao cerne da questão: tudo o que o irmão lhe disse correspondia a uma iniciativa concertada? Assim sendo, quem eram os concertantes? Não lhe ocorria nenhuma relação e por isso se martirizava.
Uma sombra, a opacidade dos dias infelizes assestou sobre o rosto de Duarte. A angústia de estar perto da verdade sem no entanto a alcançar devorava-lhe a mente. Para ele, o palavreado do irmão tanto podia significar uma proposta, uma ameaça, ou mesmo, quem sabe, uma traição. Mas se não fosse assim? Se o discurso de Fernando significasse apenas um desabafo? Então só tinha de relegar tudo o que foi dito para os assuntos sem importância. Se é a vós que sirvo, não deixeis que me consagre a outros, reconsiderai por isso também como me aconselhais, repetia Duarte para si, sem saber como interpretar a frase. Sentiu medo. Não por ele, pensava na família, e só a simples ideia de a imaginar desunida o comovia. Ele, o guardião irrepreensível da concórdia familiar, não podia deixar quebrarem-se os laços fraternais por causa de interesses pessoais, lembrando-se recorrentemente do juramento que fez à saudosa mãe e que naquela hora fazia mais sentido do que nunca». In Jorge Sousa Correia, O Mistério do Infante Santo, A Revelação dos Pecados da Ínclita Geração, Clube do Autor, Lisboa, 2013, ISBN 978-989-724-067-6.

Cortesia de Cdo Autor/JDACT

D. João II. As Sombras. Jorge S. Correia. «… que a princesa, ao ter conhecimento do noivo que o irmão lhe arranjara, anunciou logo que precisava de um homem mais novo que a amasse e com ela vivesse para sempre…»


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El Hombre
«(…) Tudo tratado, compromissos e alianças juradas, dispensa do papa para ultrapassar a consanguinidade, lá seguiu a nata da nobreza portuguesa para a fronteira, estanciando em Cienpozuelos, pequeno povoado já no interior de Castela, para receber dona Isabel, a princesa castelhana oferecida pelo irmão a Afonso V. Se é verdade que em qualquer casamento a noiva chega sempre atrasada, desta vez a demora foi para além da paciência da comitiva portuguesa. Esperaram, esperaram, o tempo medieval era pouco pontual, por isso ficaram para o outro dia. Mas de dona Isabel, nem o mais leve sinal. Mal sabia o bispo de Lisboa e os nobres que acompanharam o rei, que a princesa, ao ter conhecimento do noivo que o irmão lhe arranjara, anunciou logo que precisava de um homem mais novo que a amasse e com ela vivesse para sempre: se ao menos Afonso se transformasse num príncipe encantado como nas fábulas...,pensou a princesa, ainda se fosse como o príncipe João, filho dele, voltou a jovem a pensar, mas não, com tal homem não me casarei nunca!
O anúncio de dona Isabel foi ouvido por todo o reino, chegando audível também a Aragão, onde o príncipe Fernando se dispôs a dar corpo às reivindicações da jovem. Tanto mais que as promessas eram muitas e de grande valor, e a possibilidade de vir a ser rei de Castela e Aragão determinante. Agora sim! O que a seguir vem é mesmo um conto de príncipes e princesas. Aproveitando uma deslocação de Henrique IV a Andaluzia, no extremo sul do território castelhano, viagem que levaria muito tempo a cumprir, dona Isabel, por intermédio dos nobres que a apoiavam, mandou dizer a Fernando de Aragão que já era só nele que pensava: se assim é, disse para si o aragonês, ela que se prepare, porque não tarda, antes que o irmão venha de lá de baixo, me apresentarei na Corte para que a senhora veja como é diferente o garbo aragonês.
Disfarçado de almocreve, uma profissão de baixa condição, Fernando de Aragão andou uns dias escondidos por Valladolid, a capital de Castela dessa altura, para na primeira oportunidade se introduzir secretamente no paço e casar com a princesa. Claro que quando Henrique IV tomou conhecimento do logro, ficou furioso: el trato que hicimos en Toros de Guisando, par el bien de Castilia, deja de tener valor, proclamou Henrique, irritado com a iniciativa casamenteira de Isabel. E lá voltou tudo ao mesmo. Guerra aberta de palavras, por enquanto, ameaças de parte a parte, mas o que Henrique tratou logo foi de ralhar com a irmã: ai enganais-me?! Assim como assim, prefiro ser enganado por quem amo!, dito isto, recuperou a esposa de quem nunca se tinha divorciado, pelo menos de alma e coração. Quanto ao casamento da filha Joana com o príncipe português, como o jovem estava prometido à prima Leonor, a palavra de Afonso V não voltaria atrás. Na maior anarquia, Henrique IV foi perdendo cada vez mais apoios, enquanto Isabel e Fernando de Aragão os ganhavam de forma substancial. Desligado do poder, um rei fragilizado, acabaria por falecer em Dezembro de 1474, abrindo caminho à guerra civil entre partidários de Isabel e Fernando de Aragão, por um lado, e pelos da princesa dona Joana por outro: a esta, os primeiros alcunharam-na pejorativamente de Beltraneja, os segundos chamavam-lhe A Excelente Senhora.
Com apoios inferiores aos dos aclamados reis de Castela, os partidários de dona Joana viraram-se para Portugal, procurando em Afonso V o reforço das suas forças. Pois sim, disse-lhes o rei português, irei ajudar a minha sobrinha, mas para reforçar o elo que nos une, casarei com ela, intitulando-me, logo que o casório se realize, rei de Potugal e dos Algarves, de Aquém e Além-Mar em África, e por conseguinte, rei de Castela. Como é fácil de observar, era muito reino para um homem só. Mas isso era se Afonso V não fosse um soldado competente, experiente nas lides guerreiras, alguém que não se impressionava nem emocionava com quantos mortos estivessem à sua volta. Já tinha rachado muita cabeça em África, passado por grandes aflições e necessidades, era o combatente perfeito para ajudar dona Joana a fazer-se rainha de Castela e com isso reinar ele também. O mal de tudo é que o tempo não perdoa e Afonso, sem se convencer de que já não tinha ânimo para grandes investimentos, expunha-se a uma empresa difícil de gerir.
Em 18 de Maio de 1475, estando O Príncipe Perfeito com o pai em Arronches, dois assuntos entrechocaram-se no seu pensamento. Enquanto fazia da cabeça do pai o receptáculo dos seus conselhos sobre como havia de manobrar as tropas em Castela, os caminhos que devia trilhar, as escapatórias que podia utilizar e onde lhe era permitido buscar apoios, recebeu a notícia de que dona Leonor, sua mulher, tinha dado à luz um rapaz. Aquele dia tinha duas faces desiguais para o jovem. Se o nascimento de um filho o enchia de júbilo, o estado alucinado que via no comportamento do pai augurava-lhe maus auspícios. Ao tomar conhecimento do nascimento do neto, Afonso abraçou efusivamente o filho, e logo ali fez promessa de que seria o príncipe Afonso que lhe sucederia, mesmo que tivesse filhos de dona Joana». In Jorge Sousa Correia, As Sombras de D. João II, Clube do Autor, Lisboa, 2014, ISBN 978-989-724-155-0.

Cortesia de Cdo Autor/JDACT

sábado, 16 de abril de 2016

A Traição de D Manuel I. Jorge S. Correia. «Quando o pai de dona Leonor faleceu, tinha a infanta oito anos. Era a filha mais velha, contudo estava fora da sucessão da Casa de Habsburgo, porque havia um filho varão, o possuidor de tudo quanto o pai deixara, incluindo o destino dos irmãos»

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Com uns pais assim, dona Leonor de Áustria saiu muito boa
«(…) Não tardou a tomar conhecimento do que se passava: o príncipe tinha uma amiga, muito nobre e formosa. Como uma leoa foi-se à casa da amiga [de Filipe) e dizem tê-la ferido e maltratado e mandado cortar-lhe os cabelos pela raiz do couro. Ainda assim, não foi por ser bruta que ganhou o afecto do marido. O cronista diz até que Filipe, O Belo, lhe bateu, agressão que, a acreditar no que se disse, terá aumentado os desequilíbrios mentais da princesa. E lá vem mais uma filha, em 1505, dona Maria, fruto de amores repartidos por tabefes e traições. Como muitas vezes os negócios familiares superam os sentimentos, em 1506, tudo se apaziguou quando Filipe e dona Joana viajaram de novo para Espanha com a intenção de reinarem em coligação com Fernando de Aragão, pai de madame, já um tanto a caminho da morte.
Será a partir da deslocação dos pais a Espanha, que dona Leonor de Áustria perderá o pouco contacto que tivera com eles. O pai morrerá nesse ano, em 25 de Setembro, ficando a mãe em Espanha a desfazer-se em lágrimas e a tonificar a loucura. E ficava bem! Já não precisava de ir atrás do marido, na tumba estava bem guardado, não havia mulher que lho disputasse. Entretinha-se a passear o ataúde por Espanha, uma repetição do que Pedro I fez com dona Inês de Castro, pois tal como o rei português, também ela mandou desenterrar o marido para lhe fazer as festas que em vivo não lhe foram permitidas. Nem o facto de ter deixado quatro criancinhas a crescer na Flandres a fez voltar. Além disso, Filipe deixara-lhe o ventre a fazer contas: Catarina nasceria em 14 de Janeiro de 1507. Sobre este nascimento todos estamos de acordo. Dona Joana fez bem em gerá-la, pois a menina seria rainha de Portugal por muitos anos.
Dona Leonor perdera o pai, a mãe estava longe, mas era bela, rica e culta, de uma das famílias mais prestigiadas da Europa, e assim não faltaria quem lhe quisesse fazer companhia. Para começar, e antes do primeiro casamento, teve os seguintes pretendentes: Henrique VIII de Inglaterra, não se concretizando o casório por o então príncipe Henrique, depois da morte do irmão, se achar à frente dos destinos britânicos, casando com a própria cunhada, dona Catarina de Aragão, tia de dona Leonor. Deste casamento a princesa safou-se de boa, dado o curriculum assassino do rei inglês. Seguiram-se-lhe Luís XII de França; Francisco, senhor da Casa de Valois-Angoulême antes de ser rei de França; Segismundo da Polónia; o duque da Lorena, todos por inspiração política e conveniência dinástica, mais Federico do Palatinado, por quem parece ter-se apaixonado, trocando com ele cartas muito mais afectuosas do que as simples mensagens epistolares, comuns entre príncipes. Neste caso, o futuro imperador Carlos V não achou graça aos amores da irmã, mesmo platónicos que fossem, exigindo que jurassem só haver cartas entre os dois, nada de outros vínculos irremediavelmente comprometedores, expulsando de seguida da corte o Federico, não fosse assaltar-lhe o património que tinha bem guardado para o príncipe João de Portugal, filho de Manuel I. Mas a questão permanece. Quem não quereria ter no seu leito a mais disputada dama da Renascença? Se era bela, tanto melhor, até podia não ser, isso não teria grande importância para o fim em vista. Mas era. Este pormenor, que em princípio poderia trazer-lhe felicidade, acabou por lhe determinar uma vida de grande adversidade.

De Malines a Espanha, com Ida para Portugal
Quando o pai de dona Leonor faleceu, tinha a infanta oito anos. Era a filha mais velha, contudo estava fora da sucessão da Casa de Habsburgo, porque havia um filho varão, o possuidor de tudo quanto o pai deixara, incluindo o destino dos irmãos. O príncipe Carlos, com seis anos apenas, herdava do pai a Flandres, um conjunto de ducados e condados sem fim, integrando a Holanda, a Bélgica e parte da França. Herdaria também o título de Imperador do Sacro Império Romano-Germânico, que lhe deixaria o avô paterno, em 1520, por assim dizer quase a totalidade da Alemanha que hoje conhecemos, a Áustria e vastas regiões da Itália. Da mãe herdaria Castela e Aragão, um eufemismo regional que significava toda a Espanha, os vários reinos que possuía em Itália, mais as possessões ultramarinas da América Central. Princesa mais recatada não haveria. Quase a fazer os dezanove anos, dona Leonor veio pela primeira vez a Espanha para acompanhar o irmão Carlos, muito requisitado pela aristocracia castelhana, que o queria a governar o país». In Jorge Sousa Correia, A Traição de D Manuel I, Clube do Autor, Lisboa, 2015, ISBN 978-989-724-262-5.

Cortesia de CAutor/JDACT

domingo, 3 de janeiro de 2016

A Traição de D Manuel I. Jorge S. Correia. «Uma dama em cada corte que visitava dava-lhe jeito, só lhe ficava mal fazer alarde da virilidade. Por seu lado, dona Joana, católica reverente, embora tivesse exemplos de infidelidade conjugal na família, o do seu próprio pai, que teve vários filhos fora do casamento»

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Com uns pais assim, dona Leonor de Áustria saiu muito boa
«(…) Ai a natalidade! Nesse tempo o uso de contraceptivos nem projecto seria, era o salve-se quem puder, sobretudo para os mais contidos, capazes de fazer contas e aceitar períodos de abstinência. Além disso, morriam muitas crianças, tanto que o melhor método para fazer face à mortalidade era ter muitos filhos. Em Portugal, João III e dona Catarina são disto um bom exemplo, tiveram nove filhos e nenhum lhes sucedeu. Nem filhos nem filhas excederam o tempo de vida dos pais. Quem sabe se João III e dona Catarina gerassem o décimo filho, ele não seria mais longevo? Falemos então de certas formas de amor. Julgamos saber que Filipe, O Belo, e Joana, A Louca, quando se viram pela primeira vez, ficaram caidinhos um pelo outro, especialmente a princesa espanhola que nunca mais permitiu nos seus sonhos outra imagem masculina que não a do seu jovem marido.
A conversa parece resvalar da personagem que queremos dar a conhecer para outros sentidos, mas nem pensar, temos um fim em vista, tanto assim que nos arriscamos dizer que dona Leonor de Áustria foi a única filha do casal concebida em redor de um amor verdadeiro. A razão é razoável. Filipe, às voltas com as imensas regiões que governava, foi-se deitando em várias camas, o que não seria de estranhar, um homem tem de dormir em qualquer lugar, e se o fizer deitado, tanto melhor. Só que Filipe tinha nas suas deambulações quem lhe aquecesse o leito e o corpo, não se dando sequer ao trabalho de esconder as infidelidades. Uma dama em cada corte que visitava dava-lhe jeito, só lhe ficava mal fazer alarde da virilidade. Por seu lado, dona Joana, católica reverente, embora tivesse exemplos de infidelidade conjugal na família, o do seu próprio pai, Fernando de Aragão, que teve vários filhos fora do casamento, entendia para si que um grande amor deve ser retribuído, a dobrar se possível. Visto isso, e fazendo fé nos testemunhos da época, os ciúmes instalados no viver de Joana, mais no sistema nervoso do que no coração, determinaram que, por cada saída que Filipe fazia para administrar o arquiducado, ela haveria de atrair o marido ao leito conjugal para conceber um filho. É exagero? Nem por isso. Vejamos. Nos doze anos que estiveram casados, geraram seis filhos, quase um recorde, não fosse mais tarde a rainha portuguesa dona Maria II ultrapassá-lo.
Como dissemos, dona Leonor será a única da prole concebida sob comunhão de afectos. É que o desinteresse de Filipe por Joana deu-se depois de a princesa nascer, mas os outros, esses, sendo filhos do casal, são fruto de um amor obsessivo, transformado em despeito pela falta de exclusividade. Em 1504, deu-se um episódio revelador dos ciúmes doentios de dona Joana, rainha que ficará afectada no seu juízo, daí Louca de cognome. O casal viera a Espanha, em 1501, para uma visita de cortesia aos Reis Católicos, Fernando e Isabel, pais da dama, mas Filipe depressa partiu. Tinha mais que fazer no seu ducado, as obrigações reclamavam-no, os amores proibidos atraíam-no, e lá vai ele para a Flandres, não sem antes deixar a barriga da princesa carregada com o terceiro filho, o infante Fernando. A ausência do marido e a obsessão amorosa perturbou dona Joana. Assim, logo que pôde, regressou à Flandres atrás da paixão de que não abdicava. O pai queria que ela ficasse, considerava fundamental que ela entendesse os meandros da governação, mas qual o quê, as saudades do marido eram muitas, os ciúmes maiores, e lá se pôs a caminho, deixando uma criança de tenra idade ao cuidado do avô aragonês e das amas-de-leite. Ao chegar junto de Filipe, desejando encontrar o afecto que achava merecer, apercebeu-se uma vez mais de que esse sentimento fora substituído pela indiferença. Claro está que a falta de carinho a transtornou. A loucura de dona Joana não é um termo retórico, a insanidade tomou conta dela, tanto que o destrambelho a fez procurar de entre os seus servidores quem lhe explicasse por palavras as razões por que o marido a traía». In Jorge Sousa Correia, A Traição de D Manuel I, Clube do Autor, Lisboa, 2015, ISBN 978-989-724-262-5.

Cortesia de CAutor/JDACT

terça-feira, 22 de dezembro de 2015

O Mistério do Infante Santo. Jorge Sousa Correia. «Escanhoado e penteado pelo barbeiro, personagem que não tinha dignidade para comungar com ele na sua capela, vestiu-se com a ajuda do camareiro, este, sim, estava autorizado a fazer-lhe companhia nas rezas que se prolongariam por toda a manhã»

jdact e wikipedia

O infante Fernando não quer ficar
«(…) Já disposto a dar por finda a entrevista, esquecendo a disponibilidade que disse dispensar ao irmão, Duarte I procurou fixá-lo nos olhos, de maneira a medir o ascendente que sempre teve sobre ele. O que viu foi outra coisa. A energia que Fernando havia demonstrado momentos antes, tanto nos gestos como nas palavras, resumia-se no fim de contas à lição pouco estudada e às réplicas ensaiadas por algum mestre na arte de representar. Chamado à ordem pelo cintilar reprovador dos olhos de Duarte, o infante vacilou, sentiu-se descomposto, pois o suor que lhe molhava a pele prometia passar ao bonito traje que nesse dia vestiu. Longe de ser vaidoso ou ostensivo, Fernando entendeu mesmo assim apresentar-se ao rei vestido com as suas melhores roupas, dado que o assunto merecia ser explicado com todas as armas e cuidados. Nesse dia levantou-se cedo, cumpriu as primeiras rezas sem sair dos aposentos e daí a pouco deslocou-se para se enfiar em capela própria, prosseguindo o seu diálogo com a divindade. Nos pequenos intervalos que as obrigações sagradas lhe impunham, os criados expuseram-lhe os passos que tinha de dar naquele dia e os compromissos aos quais não devia faltar, particularmente o encontro que tinha agendado com o rei. Não precisariam de o fazer. O infante não pensara noutra coisa desde que abrira os olhos, ainda o sol não vencera o horizonte.
Escanhoado e penteado pelo barbeiro, personagem que não tinha dignidade para comungar com ele na sua capela, vestiu-se com a ajuda do camareiro, este, sim, estava autorizado a fazer-lhe companhia nas rezas que se prolongariam por toda a manhã e por todos os santos. Quando as sombras começaram a encurtar, bem a pino sobre as cabeças, decidiu vestir-se com tempo, ajudado pelo criado mais íntimo. Após receber as ordens, o moço de câmara apareceu-lhe com urna alcândora, espécie de camisa de gola alta e umas calças de lã muito justas, que depois de vestidas lhe desenharam bem os contornos das coxas. Esta peça vestia-se em duas tentativas, um elemento de cada vez, porque embora fossem semelhantes aos collants de hoje, enfiavam-se individualmente. Calçou depois umas pontilhas excessivamente pontiagudas, de pele, esforçadamente enfiadas pelo sapateiro, outro que não metia os pés perto do seu altar, sentindo algum desconforto por os sapatos lhe apertarem os dedos. Mesmo assim decidiu mantê-los. Concordavam com o resto da farpela e valia a pena algum sacrifício em prol da aparência.
Com cuidado, vestiu um saio que o camareiro seleccionou, de veludo verde-escuro, bem curto, para não fugir à moda, um exagero para os que não estavam acostumados às novidades. O cinto que pôs ostentava uma fivela de ouro cravejada de brilhantes, bem apertado na zona da cintura, o que insinuava mais a elegância das suas poucas carnes. Sentir-se-ia melhor depois de colocar um sombreiro do mesmo tecido e da mesma cor do saio. O chapéu, ligeiramente enfiado na cabeça, estreitava no extremo superior do corpo cilíndrico, alargando depois na outra extremidade para deixar entrar confortavelmente a cabeça e dar à copa o alinhamento que esta precisava. No meio, incorporou-lhe um diadema de prata, engastado de esmeraldas, quase um exibicionismo nunca visto no infante. Mas este dia era diferente. Fazia questão de alardear alguma exuberância na pose, um espectáculo que fazia questão de mostrar para suplantar o irmão, pelo menos no vestir, pois sabia como Duarte era modesto nas roupas que usava.
Não deixou também de ostentar, nem podia, as insígnias do Mestrado de Avis, pois era impensável dispensá-las por mais que o cargo se revelasse pouco compensador. Assim vestido, pelo menos nesse momento sentiu-se tão importante como qualquer um, sossegando-lhe o nervoso miudinho desde que o dia abriu as janelas. Aquele dia constituía-se para o infante Fernando como o mais importante da sua vida. Considerava-o assim por não ter tido outros de grande relevância, mas sobretudo porque esta data era como que um marco na sua futura autonomia. Sentia-se corajoso, capaz de enfrentar o homem mais poderoso de Portugal, até que o irmão lhe permitisse substituir uma vida passada de desânimos por outra virtuosa. Eis porque me visto no momento presente das melhores roupas que tenho e uso as mais valiosas jóias que possuo, uma ostentação quase agressiva comparada com a simplicidade de Duarte. No entanto não me deixo enganar, automotivou-se o infante, o que não pode ser feito de um dia para o outro no carácter, na maneira de ser, permite-nos consegui-lo de forma expedita através do que envergamos. A nossa segunda pele produz falsidades tão imediatas, tão rápidas e eficazes, tanto quanto uma vida inteira não consegue». In Jorge Sousa Correia, O Mistério do Infante Santo, A Revelação dos Pecados da Ínclita Geração, Clube do Autor, Lisboa, 2013, ISBN 978-989-724-067-6.

Cortesia de Cdo Autor/JDACT

O Mistério do Infante Santo. Jorge Sousa Correia. «Quem partiu com nossa irmã desde Cascais e a acompanhou até à Flandres para se casar com o senhor duque da Borgonha? O que sou eu então? O avalista das vossas condutas?»

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O infante Fernando não quer ficar
«(…) É da minha fraternal companhia que vos quereis afastar, irmão?, questionou o rei. Que tendes vós contra mim? Não, irmão, não é de vós que me quero apartar, declarou Fernando, mas do peso das vossas realizações. Como posso eu ter ambições se os meus mais próximos sempre carregam sobre mim um poder que eu não sou capaz de devolver? Que posso fazer diante da vossa inteligência, das vossas iniciativas, dos vossos poderosos aliados? Que respeito me atribuem, se sou intercessor das vossas desavenças, testemunha e acompanhante das vossas uniões matrimoniais, presenteador do nascimento dos vossos filhos, mestre-sala das reuniões cortesãs? Duarte I sentiu um abalo imenso. Considerava as palavras de Fernando injustas, via nelas um despropósito num contexto provocatório, mais uma instrumentalização de terceiros do que palavras sentidas e próprias. Pela sua parte, o infante Fernando tentava descortinar no rei um momento de fraqueza. Aos poucos, recomposto, mais pelo abatimento de Duarte I do que pela propriedade das suas palavras, o infante esforçou-se por dar veracidade a um discurso pensado por outros que não ele: aflijo-me. Até hoje não consegui impôr-me com glória no campo de batalha e, não se me deparando essa oportunidade, não tenho nenhum feito de armas que enobreça a minha Casa. É disto que vos falo. Mais do que os acrescentamentos e as mercês que me são devidos, é a honra acima de tudo que procuro, tal como vós e nossos irmãos a têm bem nutrida. A glória de vencerdes os inimigos da religião de Cristo em Ceuta trouxe-vos o merecido galardão de cavaleiro, uma honra ganha com suor e sangue, o que vos dá ainda maior dignidade para governar. Ninguém mais do que vós merecia essa homenagem, estou certo. Também não serei eu que nego o direito que Pedro e Henrique tiveram em constituir as suas Casas com cabedais suficientes para suportar as despesas e manter uma corte disciplinada e fiel. Fez bem nosso pai em conceder-lhes os ducados de Coimbra e Viseu e todas as terras ao seu redor, pois um príncipe não pode viver de esmolas alheias, como eu vivo, lá porque fui esquecido e vós pouco vos lembrastes de mim.
Imparável, Fernando continuou com as razões da sua desdita, lamentações que lhe traziam grande infelicidade e emocionavam o rei, também ele um mal-aventurado. Atento ao discurso, Duarte I, se não estava certo do despeito que animava o irmão, passou a ter a certeza. Não lhe interrompeu os queixumes, deixou-o expor-se, já convencido de que pretendia atingir um determinado fim, o qual, até ali, não tivera coragem para revelar: … não haverá em toda a cristandade donzela da mesma condição que queira comigo partilhar a vida? Há certamente. Sabeis disso muito bem, porque sois vós quem decide o meu contrato matrimonial quando os arranjos políticos assim o aconselharem. Até nisto sou reprimido. Impedido de escolher quem comigo partilhe a cama, os filhos, a casa, os afectos, sou, mal desejeis, uma carta que meu irmão senhor rei tem para jogar, sobrepondo os altos interesses do reino aos meus sentimentos. A conversa ia longa e enojosa, como diria Duarte I se lhe ouvíssemos os pensamentos. Para palavras rijas, rijas palavras, terá pensado o rei, sem contudo tomar a iniciativa porque Fernando parecia não se cansar: … quem intercedeu para que os desagravos entre Pedro e nosso amado pai se desvanecessem? Quem serviu de aval do vosso casamento com a infanta dona Leonor de Aragão e o de Pedro com dona Isabel de Urgel? Quem partiu com nossa irmã desde Cascais e a acompanhou até à Flandres para se casar com o senhor duque da Borgonha? O que sou eu então? O avalista das vossas condutas? A representação visível das boas intenções da corte?» In Jorge Sousa Correia, O Mistério do Infante Santo, A Revelação dos Pecados da Ínclita Geração, Clube do Autor, Lisboa, 2013, ISBN 978-989-724-067-6.

Cortesia de C. do Autor/JDACT

domingo, 27 de setembro de 2015

A Traição de D. Manuel I. Jorge S. Correia. «Por pouco tempo dona Leonor teve o exclusivo filial. Qual relógio afinado, sua mãe foi preenchendo os berços que havia nos palácios por onde dividia, com Filipe, os fluidos amorosos, uma produção tal…»

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Com uns pais assim, dona Leonor de Áustria saiu muito boa
«No dia 24 de Novembro de 1498, um sábado, o palácio de Coudenberg, em Bruxelas, encheu-se de cortesãos para saudar Filipe, o Belo, e dona Joana, a Louca, arquiduques de Áustria, duques da Flandres e de Brabante. Ele, filho do imperador do Sacro Império Romano-Germânico, ela, filha dos reis de Castela, dona Isabel, a Católica e Fernando de Aragão, também irmã de dona Isabel e dona Maria, respectivamente, a primeira e a segunda mulher de Manuel I. A primeira filha do casal recebeu o nome de dona Leonor em homenagem à princesa portuguesa do mesmo nome, filha de Duarte I, avó do pai da criancinha. Dona Leonor de Áustria ou de Habsburgo, como também seria conhecida por o seu lado paterno senhorear a Casa de Habsburgo, teve quem lhe ensinasse tudo o que precisava, ser submissa também, mas isso pouco importava porque a sua tarefa primeira era casar com príncipe ou rei e ser mãe. Rodopiando entre salões e jardins, tudo de grande aprazimento e ostentação, passaria a maior parte da infância e juventude em Malines, junto dos irmãos Carlos, Isabel e Maria, sob a tutela da tia Margarida, irmã do pai e regente dos Países-Baixos depois de enviuvar de Felisberto II, duque de Sabóia.
As viagens de dona Leonor tiveram rumos bem diversos daqueles que os humanistas traçaram para levar as palavras que mudariam as mentalidades desse tempo. A princesa tinha o porvir traçado, não podia fugir dele, um destino que a conduzirá por vários reinos europeus, perseguindo uma felicidade que teimou em fugir-lhe: foi princesa na Flandres natal até aos dezassete anos, infanta de Espanha por pouco tempo, rainha de Portugal sem sequer chegar a aprender a língua portuguesa; rainha de França sem dormir com o rei; outra vez, a Flandres, quando o seu esplendor entristeceu, e, por fim, o regresso às origens maternas, a Espanha, onde, num último esforço, procurou aproximar-se do bem mais precioso que deixara em Portugal, a sua filha dona Maria de Portugal.
Como todas as almas dedicadas a Deus, dona Leonor de Áustria não interferirá no seu destino. A princesa, embora filha de mãe castelhana, tivera as suas raízes culturais no ambiente que a rodeou, nas pessoas que a acompanharam, educaram ou divertiram, de modo a fazer crescer a dama excepcional que foi. Dizem que estudou Ciências, História, Gramática, Música, não terá estudado Oratória, isso era coisa de homens, exercício usado nos debates sobre a política ou a guerra. Sem dúvida que exibia modos e maneiras de grande sensibilidade e bom gosto, falaria francês e flamengo, línguas em que a tia Margarida e os irmãos Carlos, Isabel e Maria se expressavam também, bem melhor do que no castelhano falado pela mãe e por outros dois irmãos, Fernando e Catarina, jovens que, ao contrário dos manos do Norte, só saíram de Espanha para assumir compromissos que o irmão mais velho, Carlos, lhes proporcionaria: o primeiro, já adulto, para tomar conta do Sacro Império Romano-Germânico, a segunda, aos dezoito anos, para casar em Portugal. Quando a adolescência começou a provocar o pensamento jovem da princesa e a beleza anseios masculinos, o poeta Olivier de la Marche dedicou-lhe um poema com trezentos e cinquenta versos, um exagero difícil de reproduzir, mas revelador do que dona Leonor representava na corte:

Sou ordenado para ser governado
por uma filha de Rei e de imperador.
É a Senhora Aliénore da Áustria.
Sou dela, e não vou ser mesquinho
semear fruto louvado e virtudes
Diante da Dama que eu amo mais!

Por pouco tempo dona Leonor teve o exclusivo filial. Qual relógio afinado, sua mãe foi preenchendo os berços que havia nos palácios por onde dividia, com Filipe, os fluidos amorosos, uma produção tal que contribuiu com numerosas hipóteses de casamento para os vários reinos de então: em 1498, nasceu dona Leonor; Carlos, em 1500; no ano seguinte, nasceria dona Isabel; Fernando, em 1503; dona Maria, em 1505; e, por último, já sem marido, mas com a encomenda no ventre, dona Joana deu à luz uma menina, em 1507, a princesa Catarina, com a qual viveu até esta se casar.
A exuberante fertilidade de Joana e Filipe expressaria paixão, amor, manifestações de felicidade’ Não era preciso! Os grandes senhores juntavam os seus filhos para fazer crescer os espólios, fossem eles cabeças coroadas, nobres e mesmo a burguesia florescente, sendo que os filhos, muitos ou poucos, seriam o prolongamento das suas Casas. Então porque tinham tantos filhos?» In Jorge Sousa Correia, A Traição de D Manuel I, Clube do Autor, Lisboa, 2015, ISBN 978-989-724-262-5.

Cortesia de CAutor/JDACT

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

D. João II. As Sombras. Jorge S. Correia. «E lá vem de novo o argumento de que dona Joana não era filha do rei. De facto, Henrique IV já tinha sido casado com uma princesa navarrina, dona Blanca, tendo o bispo de Segóvia declarado o casamento nulo…»

jdact

Ditoso cavaleiro. Esposo conformado
«(…) Ainda assim, em relação à jovem esposa, João ia mais adiantado, pois as saídas nocturnas davam-lhe alguma experiência sobre os assuntos de alcova. E não seria melhor assim? Com dezassete anos feitos, sabedor dos recantos femininos, o príncipe não passaria melhor as encruzilhadas do amor guiado pelo saber e pelas alvas, formosas e compridas mãos? Só havia um senão! O jovem príncipe era fanhoso, o ar saía-lhe muito mais pelo nariz do que pela boca, trazendo, quem sabe, algum constrangimento aos noivos na hora das palavras. Mas teriam eles assim tanto para dizer um ao outro? Ver e sentir era o mais importante, quem é que se punha a fazer discursos nasalados na noite de núpcias? Além disso, a princesa estaria há muito instruída na arte de amar sem reclamar, o que, com segurança, daria à primeira noite do casal todos os ingredientes para fazer o que era preciso. Acima de tudo institucionalizar a real união através da fecundação. Pouco tempo se demoraram em Beja. O príncipe gostava pouco de sentir pressão sobre si, fosse ela dos encargos que tinha no reino ou dos que se lhe apresentavam no feudo da sogra, e vai daí, rumou a Évora, um sítio onde se sentia à vontade para seduzir a noiva.

El Hombre
Na década de setenta do século XV João II foi arrastado pelo pai nas lutas pela sucessão em Castela, conflito que se transformou numa guerra ruinosa para Portugal. Henrique IV de Castela, um rei fraco, viu-se contestado por alguns nobres da maior importância, sendo afastado do poder com o admissível argumento de que a filha, dona Joana, não era dele mas do valido, Beltrán La Cueva. A mãe da princesa, irmã de Afonso V, também Joana de nome, foi a segunda mulher de Henrique IV aos dezasseis anos. Temos aqui muitas Joanas, faz alguma confusão, mais ainda o anátema de homem impotente que pesava sobre Henrique. Os nobres continuavam a contestar a legitimidade de dona Joana, e ainda por cima havia a outra, dona Isabel, princesa de carácter indomável, meia-irmã de Henrique IV. Até porque esta infanta desprezava as alegadas aventuras da cunhada pelas câmaras almofadadas do paço. Nas relações fraternais, como em tudo o resto, metade é menos que pleno, mas não seria por isso que Henrique IV não encontraria na meia-irmã uma opositora mais firme do que até então os nobres tinham sido.
E lá vem de novo o argumento de que dona Joana não era filha do rei. De facto, Henrique IV já tinha sido casado com uma princesa navarrina, dona Blanca, tendo o bispo de Segóvia declarado o casamento nulo, preocupado com as disfunções erécteis do monarca. Tão contestada paternidade fez Henrique IV ceder. No Tratado de Toros de Guisando, aceitou nomear a irmã Isabel sua herdeira, desde que fosse ele a decidir com quem ela se casaria. Em troca, aceitava divorciar-se de dona Joana, tanto mais que a mulher reincidira, já não com Beltrán, mas com outro fidalgo de quem tivera gémeos. Que fazer então? Primeiro arranjar um noivo para a irmã que não o contestasse. Pensou bem, com acerto e ponderação, recaindo a escolha em Afonso V de Portugal, quem havia de ser, nem mais nem menos o seu cunhado. O rei terá visto em Afonso V o homem de armas capaz de o proteger da nobreza, amansar a irmã, e assim mesmo, unificar a Península Ibérica. Para a filha Joana, e para que a união das duas coroas se reforçasse, entendia Henrique IV que ela deveria casar-se com o príncipe João de Portugal. Era uma boa jogada, e se o seu pensamento se realizasse, Henrique IV poderia reformar-se descansado, e quem sabe, viver feliz com dona Joana sua mulher, a quem estava disposto a perdoar. A rainha era uma beldade, nas festas e nos actos solenes reluzía, dava-lhe o brilho que ele não tinha, que mal tinha se à boca pequena dissessem que a coroa custava a entrar-lhe na cabeça.
Afonso V achou interessante o que Henrique IV lhe propunha. Era primo de Isabel em segundo grau, coisa que não atrapalhava nada a união matrimonial, e, além disso, lá por a jovem princesa ter menos dezanove anos que ele, até lhe fazia lembrar a primeira mulher que tanto amara, também ela Isabel, como a de Castela. Se não bastassem estes ingredientes, Henrique IV permitia-lhe tudo: dinheiro, ouro, apoios em Portugal e em África, uma espécie de cheque em branco que Afonso V preencheria como quisesse, desde que viesse auxiliá-lo contra os nobres revoltosos. A ideia era para o monarca português um mar de sucessos. Via no casamento uma possibilidade real de obter as duas coroas, tornar-se rei de quase toda a Península Ibérica, por isso se aprumou. Ultrapassou o reumático que começava a emperrar-lhe as articulações, reparou quanto possível o que já tinha excesso de uso, mandou refazer o guarda-roupa, disposto a trazer dona Isabel para Portugal. Não era o príncipe galhardo e esbelto que fora, mas que mal tinha, o mais importante era ter a capacidade de fertilizar o colo da princesa, o resto não tinha qualquer importância. Verdade que tinha engordado uns bons quilos, o cabelo já só mal lhe tapava os parietais e sobretudo tinha descurado a sua imagem de homem elegante e bem vestido, mas mesmo quanto a isso, quem sabe, uma esposa jovem não lhe daria um segundo fôlego». In Jorge Sousa Correia, As Sombras de D. João II, Clube do Autor, Lisboa, 2014, ISBN 978-989-724-155-0.

Cortesia de CdoAutor/JDACT

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

D João II. As Sombras. Jorge S. Correia. «Tão jovem, por volta dos dezassete anos, Afonso V entregou-lhe sem receio toda a governação das cousas d’África, assim como as rendas da alfândega de Lisboa e da Guiné. Na posse dos negócios da expansão, João impôs logo medidas ousadas»

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Ditoso cavaleiro. Esposo conformado
«(…) Após ter conquistado Arzila, o exército pôs-se em marcha na direcção de Tânger, cinquenta quilómetros a noroeste da praça conquistada. A cidade inexpugnável, verdadeira desonra da bravura lusitana, não cedia nem sequer tremia. Os portugueses já iam em cinco tentativas para conquistá-la, todas frustradas, seria desta vez que conseguiriam? Com o príncipe a aconselhar o rei, tudo era possível. Na verdade, quando chegaram próximo da cidade, vieram dizer-lhes alguns almogáveres (milícia a pé ou a cavalo que fazia surtidas na linha da frente, comandada por um adail; eram homens de grande coragem e pouca piedade), que o rei mandara à frente que podiam ir sossegados, nas calmas, porque para entrar em Tânger nem sequer era necessário partir os ferrolhos, visto que a cidade estava airosa e de portas abertas. As notícias pareciam boas, mas para o rei foram decepcionantes: … quem é que reconheceria o valor da alma lusa, sem os seus combatentes matarem e morrerem pela causa cristiana?, frustração que o rei repetia dentro da consciência. Tinha razão Afonso V. O tio Henrique fora derrotado diante das muralhas de Tânger, o duque de Viseu, infante Fernando, seu irmão, tentou e não conseguiu, e ele próprio já lá tinha sido derrotado. Agora aparecia-lhe Tânger de portas abertas, sem moradores, e ainda por cima tudo escaqueirado, a arder, o que significava ter de transformar um exército de garbosos cavaleiros em sapadores bombeiros. Eram pensamentos desprezíveis, o rei queria vencer mas a lutar, assim não executava por completo o que ali viera fazer.
Mas eis que a seu lado alguém pensa de modo diferente. O rei olha à sua volta, procura os olhos do príncipe, fixa-os, esperançado em que através deles as palavras certas se soltem. E o que vê o rei? Um olhar pragmático, o entendimento de quem acha preferível receber tudo sem pagar nada. É este sentimento prático que João procura transmitir ao pai quando este argumenta a favor da guerra: eis um contratempo, meu filho; como acederemos à glória sem luta? Pensai como eu, senhor. Mais vale recebermos do que pagarmos. As vidas que estávamos dispostos a ceder em nome de Deus, levamo-las inteiras para Portugal. Isso é mais importante do que dividirmos os mortos de um e do outro lado. E a honra, meu filho? Seremos nós acolhidos por Deus sem derramarmos o sangue dos seguidores de Mafamede? Não vos martirizeis! Se eles fogem é porque de vós têm medo. Quereis prova mais irrefutável da vossa valentia? Bem aconselhado, Afonso V esteve em Tânger a desfrutar do seu sucesso cerca de dezassete dias: mandou cartas ao papa a confirmar a conquista, nomeou o bispo, o capitão que lá deveria exercer o poder por si, quem ficaria a defender a praça, quem regressaria, a forma de suster a cidade de víveres e defesas.
Está mais do que visto que o príncipe se impunha ao pai e a todos. As suas ideias antecipavam-se às demais, impunha, não aceitava competidores. O monarca só tinha de decidir. No Conselho do Rei, quando algum dos conselheiros interpunha soluções diferentes das suas, João destruía-lhe a argumentação de forma directa e por vezes ameaçadora, aproveitando a confiança que cada vez mais o pai depositava nele. Tão jovem, por volta dos dezassete anos, Afonso V entregou-lhe sem receio toda a governação das cousas d’África, assim como as rendas da alfândega de Lisboa e da Guiné. Na posse dos negócios da expansão, João impôs logo medidas ousadas. Persuadiu o pai a limitar o comércio de certos produtos, desvalorizou os que tinham menos rentabilidade, proibiu algumas actividades independentes. Sem sua licença, ninguém negociaria malagueta e outras especiarias, nem gatos d’Algalea, nem em Unicórnios. Também nos descobrimentos o príncipe consolidou um novo modelo. Vendo que as viagens não tinham a sistematização que lhe parecia mais adequada, confirmou o contrato com um cidadão honrado de Lisboa, Fernão Gomes, para que este se empenhasse, todos os anos, em avançar cem léguas pela costa africana abaixo.
No capítulo das relações diplomáticas entre os três reinos ibéricos, Portugal, Castela e Aragão, dias difíceis estavam para vir. Por enquanto a diplomacia fazia um esforço para moderar as tensões entre os três reinos peninsulares, envolvidos em questões de sucessão. Todavia, não era por isso que Afonso V não levava até ao fim a promessa que tinha feito ao falecido irmão. O contrato de casamento estava confirmado, faltava unir os jovens esposos na mesma cama para que o reino tivesse continuidade. Foi assim que, em 1472, o príncipe João tomou de corpo e alma a princesa dona Leonor. Ela tinha catorze anos, ele mais três, maturidade suficiente na época para gerar bons príncipes. O ajuntamento fez-se em Beja, onde a mãe de dona Leonor, a infanta dona Beatriz, governava o ducado, alimentando paixões reais entre jovens de beleza sem igual. Não vemos qualquer razão para duvidar da formosura da princesa dona Leonor, virgem também seria, fazendo do par um casal encantador. Já dissemos que o cronista via no príncipe múltiplas qualidades, tinha ele tudo de bom, e as mãos, que em dias de ajuntamento fazem muita falta, tinha-as compridas, alvas e formosas». In Jorge Sousa Correia, As Sombras de D. João II, Clube do Autor, Lisboa, 2014, ISBN 978-989-724-155-0.

Cortesia de CdoAutor/JDACT

sexta-feira, 21 de agosto de 2015

O Mistério do Infante Santo. Jorge Sousa Correia. «O rei lamentava e cada vez mais se convencia de que aquele irmão mal alinhado se tinha transformado num ser desconhecido para si. A custo, refez a argumentação na ilusão de não alimentar o desânimo do irmão…»

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Um irmão mal sintonizado
«(…) O rei esforçava-se, a todos procurava agradar, dividia o que podia, protegia, mas tudo isso não ia tão longe quanto os nobres gostariam que fosse. Ingénuo, tudo indica, esquecia-se que eles eram insaciáveis, ávidos de bens e sibilinos nas intrigas que fomentavam.
Tudo tenho feito para no essencial satisfazer os fidalgos do meu sangue, rememorava o rei, todavia, não vou, não quero, é contra os princípios da humanidade deixar que uns poucos fiquem mais ricos para que os outros, mais humildes, empobreçam. Sigo os exemplos que me deram, e é por isso que não esqueço a recomendação que a minha muito saudosa e amada mãe me fez, em vésperas da sua morte, rogando-me que protegesse e defendesse os povos. No entanto, fico apreensivo. O que será da coroa sem os seus melhores fidalgos, aqueles que em momentos difíceis interferem na vida do reino, lhe dão prestígio, asseguram a independência, prestam ajuda, aconselham o rei quando deles precisa.
Enquanto se mantinha submerso nos pensamentos que lhe ocorriam ligeiros, distantes mas límpidos, o passado em retrospectiva, Duarte retirava das suas lembranças argumentos para melhor fazer face à constrangedora situação que o irmão lhe criara. Lembrou-se, de entre o turbilhão de acontecimentos que o marcaram pela vida fora, da imagem do irmão Pedro diante do pai, solicitando-lhe dispensa para procurar no estrangeiro o reconhecimento que em Portugal lhe parecia vedado. Agora, volvidos mais de dez anos, é o irmão mais novo que o repta no mesmo sentido. De uma coisa o rei não duvidava. Sendo embora uma situação semelhante à de Pedro, a iniciativa de Fernando não teria acolhimento. Estava fora de questão autorizar-lhe a partida, não iria ceder ao pedido, simplesmente porque não era João I, nem Fernando era Pedro. Este, quando abalou, tinha razão, era um nobre com total autonomia e sobretudo definição nos propósitos, ao contrário do irmão mais novo, sem causa justificada, muito dependente da coroa e sem esclarecidos argumentos.

O infante Fernando não quer ficar
O que fazer agora? Duarte I sabia que não aceitaria o pedido do irmão, mas não sabia como dizer-lhe, até que voltou aos conselhos que lhe deu Pedro: Adia, adia até teres soluções. Reconfortado pelo alvitre, na posse de uma nova forca, o rei encarou o irmão com determinação: Dizeis-me então que tendes a ambição de vos pordes ao serviço do rei de Inglaterra. Sendo assim, pergunto-vos: o serviço que quereis prestar ao nosso primo Henrique, que lá governa, é mais importante do que aquele que deveis a vosso irmão? Já agora, esclarece-me esta dúvida. tendes vós a exacta medida da importância da vossa presença para a respeitabilidade da coroa? Posto a pensar, o infante Fernando fez apelo ao mais profundo do seu ser para manter um discurso crítico, acusador, sem todavia se exceder nem nas recriminações nem na tonalidade da voz. Sei que sou alguma coisa, irmão, recomeçou o infante Fernando, mas quero ser mais. Quero ter mais reconhecimento, mais poder, ombrear convosco naquilo em que me reconheceis inferior.
Agora mesmo chegou o tempo de esclarecer dúvidas: serei um grande deste reino? Não estou assim tão certo dessa condição. Tudo o que me foi concedido parece ter a importância das sobras, o que restou do que foi dado aos outros. Se é certo que me atribuíste recentemente o Mestrado de Avis, também é verdade que para ser honesto terei de o dividir com a Igreja, por serem bens que também lhe pertence. Eu disto não reclamo, acho justo, pois sabeis bem que por nada cobiçaria a parte da instituição sagrada. Mas isto é quase nada. Quero ser mais, tão grande que possa estar no mesmo patamar dos meus ilustríssimos irmãos, a quem admiro, estimo e que vejo prosperar com tudo aquilo que lhes foi acrescentado. O rei lamentava e cada vez mais se convencia de que aquele irmão mal alinhado se tinha transformado num ser desconhecido para si. A custo, refez a argumentação na ilusão de não alimentar o desânimo do irmão e mais do que tudo evitar manchar o seu relacionamento com ele». In Jorge Sousa Correia, O Mistério do Infante Santo, A Revelação dos Pecados da Ínclita Geração, Clube do Autor, Lisboa, 2013, ISBN 978-989-724-067-6.

Cortesia de C. do Autor/JDACT

domingo, 9 de agosto de 2015

O Mistério do Infante Santo. Jorge Sousa Correia. «… tenho trinta e quatro anos. Os meus bens não são nem metade daqueles que os infantes nossos irmãos têm. Hoje vejo-me em dificuldade para pagar aos meus o que de justiça e direito lhes devo, situação de aperto desprestigiante…»

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Um irmão mal sintonizado
«(…) No entanto, nesse dia não estava para se deixar manobrar, já que decidira não sair dali sem uma resposta: Senhor, é preferível abalar para onde a aventura me chama do que viver no reino com a indignidade de não fazer nada por minha honra e acrescentamento. Vim dizer-vos, entre outras coisas, que nunca mais quero ser tratado como até aqui, menosprezado nas minhas qualidades e na minha dignidade. Desta vez o monarca Duarte I não o interrompeu. Sou o mais pobre de vós, prosseguiu o infante Fernando no mesmo tom. Sou também aquele que menos glória juntou à sua honra e menos respeito ganhou da nação. O que sou eu então? E ele a dar-lhe, aborrecia-se Duarte I. Pobre rei. Afundando-se no cadeirão real, triste, incapaz de ser desagradável com o irmão, pensava nas cartas que o infante Pedro lhe dirigiu de Bruges, lembrando-se de ter lido num dos manuscritos alguns conselhos que ilustravam bem o que ultimamente se passava: … preparai-vos. De entre os pedidos que vos chegarão, alguns terão uma direcção precisa e dirigida à arte militar, confundindo lucros próprios com interesses colectivos. São tentativas para usar a coroa como fachada, oficializar acções pare as quais não tendes vontade nem trazem nada de bom ao reino, mas que vos implica mais do que aos que as cometem. Não valia de nada ao rei divagar. O problema estava ali mesmo à sua frente, teria de se confrontar com ele e nem sabia o que estava para vir.
Devolvido dos seus pensamentos, reparou na figura tolhida de Fernando e não gostou do que viu. A sua análise sugere-lhe que o deve desafiar em vez de comiserar mostrar-lhe que o seu destino não lhe é indiferente, mas para isso precisa que as falas tenham a clareza que a relação entre irmãos deve ter. Convencido de que Fernando se pode abrir com ele, incita-o a revelar os recados que traz escondidos: irmão, quem melhor do que eu sabe quem vós sois. Haverá alguém no reino que vos conheça e ame mais do que eu? Concordai comigo, peço-vos, deixai antes que eu perceba o que vos traz até mim, abri o vosso coração magoado, clarificai o pensamento encoberto. Assim instado, Fernando foi direito ao assunto: … tenho trinta e quatro anos. Os meus bens não são nem metade daqueles que os infantes nossos irmãos têm. Hoje vejo-me em dificuldade para pagar aos meus o que de justiça e direito lhes devo, situação de aperto desprestigiante, indigna num nobre da minha qualidade. Mereço mais, ambiciono mais, mas não se trata apenas de bens. É grande a minha vontade em servir no reino de Inglaterra, onde o reconhecimento da família de nossa mãe me dará a importância que aqui não tenho e os cabedais que cá não possuo.
Para o rei, o dia não era diferente dos outros, e a circunstância de o irmão o requisitar não lhe alterava os hábitos nem os afazeres. Não estava em Lisboa, onde não podia deixar de mostrar as insígnias reais, mas nem lhe passava pelo pensamento fazer o mesmo no Paço de Almeirim. De cabeça descoberta, pendurou no corpo uma camisa de cetim, ou gibão forrado, preferindo este aos de chumaços, que enformavam mais a sua forte compleição. Um cinto pouco apertado cingia-lhe mal a cintura, para deixar cair direito o gibão até meio das coxas fortes, abrigadas por umas calças de tecido de lã com reforço nas partes pudentes. Perante o irmão, parecia um mesteiral. Contudo, não era por isso que a conversa não continuava nem que o seu interlocutor se ia embora.
Não é aceitável que nobres de tão alto gabarito abandonem a pátria, retomou Duarte I a conversa. Deixam para trás os seus haveres e famílias, à procura de um pouco mais daquilo que aqui têm, esquecem afectos, tradições, a língua materna, desvestem-se das suas responsabilidades para com o país. Que dirão de nós as cortes europeias? Certamente pensarão que Portugal não tem quanto baste para sustento de tão dignas personagens, o que é errado e desprestigiante. Quereis vós engrossar o número dos que me abandonam e desencantam? Preocupado, Duarte I perscrutava razões e estratégias para fazer face a um mal-estar provável. De facto o conjunto de apreensões manifestadas pelo rei tinha razão de ser. Os indícios que pressentia começavam a sugerir intromissões sub-reptícias da nobreza na política da coroa, exigindo do monarca reflexões atentas. Para estes senhores, Portugal prosseguia um período demasiado dilatado de paz, favorável a Duarte I, importante para a vida do reino, mas que os levava à ruína». In Jorge Sousa Correia, O Mistério do Infante Santo, A Revelação dos Pecados da Ínclita Geração, Clube do Autor, Lisboa, 2013, ISBN 978-989-724-067-6.

Cortesia de C. do Autor/JDACT

sexta-feira, 26 de junho de 2015

O Mistério do Infante Santo. Jorge Sousa Correia. «O que sou eu?, pergunta feita de súbito, desgarrada, impertinente. Contrariado, Duarte fixou o irmão, sem ter na voz uma resposta acabada para lhe dar. O que sois vós, como?, pergunta retribuída com sinceridade»

jdact e wikipedia

Um irmão mal sintonizado
«(…) Entre a possibilidade de uma chalaça ou de uma crítica escondida, o infante Fernando sentiu-se desconfortável. Nem era porque o irmão fosse desconcertante ou que tivesse sequer sentido de humor. Não, nada disso! A sensibilidade da missão que o trazia ali é que o tornava inseguro. Por isso, quis responder, mas a resposta não lhe saiu espontânea e não esteve para rebuscar palavras que o atrapalhariam mais. Sem Duarte I ainda saber, o tema da conversa, que Fernando quer rodear de toda a formalidade, vai no sentido de propor a sua saída do reino em busca de glória e do pecúlio que parece não conseguir gerar em Portugal. Sente-se mal aproveitado, quer sair do reino para dar ao seu nome e à sua Casa a importância que em Portugal não obtém. Isto é o que vai dizer ao rei, embora, por enquanto, lhe omita o verdadeiro motivo da sua presença ali. Embaraçado, hirto, num plano inferior relativamente à posição sentada do monarca, o infante Fernando comprime-se. Não era para menos. Ao esconder o que não queria dizer, omitia a verdade, uma forma próxima da mentira, coisa que se pensasse bem não faria, pois, nessa hora ou em qualquer lugar, Deus estaria de olho nele.
Bom observador, o rei apercebe-se incomodado da descomposta figura do infante, despertando nele um esforço maior para decifrar a mensagem para além do que parece. Mau sinal, pensou o rei, desconfiado. Duarte começava a preparar-se para qualquer eventualidade, mas a questão que o irmão lhe pôs, quase uma provocação, apanhou-o desprevenido. O que sou eu?, pergunta feita de súbito, desgarrada, impertinente. Contrariado, Duarte fixou o irmão, sem ter na voz uma resposta acabada para lhe dar. O que sois vós, como?, pergunta retribuída com sinceridade.
O rei, afastado do que o irmão queria que ele soubesse responder-lhe, entendia que ao devolver-lhe a pergunta invertia o constrangimento que esta lhe causou, além de passar para Fernando a difícil tarefa de se explicar. Senhor, ficai sabendo, que nunca no meu pensamento existirão palavras espúrias que de algum modo vos façam sofrer, volveu Fernando, com uma dureza pouco consentânea com o seu modo sensível. Ao revelar-vos as minhas intenções, estou ciente da vossa compreensão para com o homem que se sente privilegiado por ser vosso irmão, mas, diminuído pelas circunstâncias, também percebe que é o mais infeliz dos príncipes.
- Antes de prosseguirdes, sabei já que a vossa conversa me contraria avantajadamente. Se persistis em substituir no vosso discurso as palavras por imagens, sabei que o meu coração se comprime a cada verbo que pronunciais. Sem ter por enquanto uma solução à vista, Duarte, numa manobra que pretendia fazer precipitar as palavras do irmão, disse-lhe: prossegui então, porque para incompreensões já estou armado. Acusando o remoque, Fernando esperou algum tempo para voltar a dirigir o olhar ao irmão, procurando com manifesta dificuldade recompor-se do golpe recebido. As precedências tinham muito peso, e Fernando, por maioria de razão, apagava-se sempre que tinha de se confrontar com os irmãos mais velhos. Tinha razões para isso. O seu sentimento de inferioridade revelava-se complexo por não ser capaz de vencer a barreira da menoridade, manifestações que o levaram quase a claudicar perante a última tirada do irmão». In Jorge Sousa Correia, O Mistério do Infante Santo, A Revelação dos Pecados da Ínclita Geração, Clube do Autor, Lisboa, 2013, ISBN 978-989-724-067-6.

Cortesia de CAutor/JDACT