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segunda-feira, 7 de janeiro de 2019

Conspiração no Vaticano. GL Barone. «O presidente da Comissão para a Conservação do Santo Sudário caiu inanimado no chão. Morrera sem sequer perceber porquê: era o único com acesso aos códigos diários…»

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«(…) Passaram a seu lado e percorreram os poucos metros da abside até uma cancela em ferro, também ela coberta com um tecido orlado a ouro. Naquele ponto, Osios deixou cair ruidosamente o padre, ainda inconsciente, no chão da igreja. Recuperadas as ferramentas e o contentor, pôs-se a desaparafusar um painel em aço ao lado da cancela. Weistaler ligou o smartphone e inseriu o cartão micro SD que tinha recebido poucos minutos antes. A única luz que iluminava a catedral era a do visor do telefone móvel. Retirou do bolso da gabardina um cabo óptico e ligou uma extremidade ao telefone e a outra a um painel que entretanto tinha sido desmontado por Osios. Sabiam exactamente como agir, tinham feito dezenas de simulações ao computador e estudado todos os documentos disponíveis sobre os dispositivos de segurança que protegiam o Santo Sudário de pessoas como eles. O sistema baseava-se num duplo código de acesso: um bloco de leitura da retina e uma série de códigos de dezasseis números, alterados todos os dias.
Se algum dos códigos não fosse inserido correctamente, o alarme tocaria e a polícia chegaria à catedral em quatro minutos. Weistaler inseriu o código no teclado touch do Next M1, e o fluxo de bytes começou a correr sobre o microchip constante do painel. Naquele momento, Osios acordou o padre com uma bofetada. Onde estamos?, sussurrou com um fio de voz quando abriu os olhos em plena escuridão. Ninguém lhe respondeu, mas o homem foi levantado em peso e arrastado até à cancela. A sua cara foi apoiada com força contra um vidro gélido. Não se conseguia movimentar. Uma luz esverdeada leu a retina do padre e, um segundo depois de a cancela de vidro que protegia o Sudário começar a abrir, uma bala perfurou-lhe o cérebro.
O presidente da Comissão para a Conservação do Santo Sudário caiu inanimado no chão. Morrera sem sequer perceber porquê: era o único com acesso aos códigos diários e à programação da leitura da retina. Aquela tinha sido a sua sentença.
Osios e Weistaler entraram na capela. O Sudário estava guardado em posição horizontal numa urna de alumínio e vidro coberta com um amplo tecido branco adamascado. Antes de apoiar as mãos na vitrina, Weistaler foi quase acometido por um sentimento de arrependimento, mas que durou apenas um momento. Quando tocou no tecido branco e nas cortinas vermelhas que cobriam o invólucro, a sua missão tornou-se novamente clara.
Tuam Sindonem Veramum Et Tuam Recolimus Passionem, veneramos a tua imagem e meditamos sobre o teu sofrimento. O outro não se impressionou com a inscrição no tecido branco, retirou-o de rompante e atirou-o para o chão. Depois, começou a tentar abrir a urna. Sabia exactamente onde colocar as mãos, também tinha visto e estudado os seus projectos originais. Em catorze longos minutos, com extrema cautela, para terem a certeza de estarem a fazer as coisas da melhor forma possível, conseguiram abrir a vitrina e retirar o tecido sagrado. Weistaler pegou nele com cuidado e juntos colocaram-no no contentor de alumínio com cerca de dez centímetros de altura e pouco mais de sessenta de comprimento.
Não olharam mais para trás e, antes de sair da catedral, Osios abandonou um objecto metálico no corpo do padre que estava deitado numa posição pouco natural junto ao altar central.
                             
O jipe seguiu pela rampa que levava à garagem do Banco Nacional de Ivrea e desceu a pouca velocidade. Quase no mesmo instante, a poucos quilómetros de distância, o presidente da Comissão para a Conservação do Santo Sudário caía inanimado com uma bala calibre .9 cravada no cérebro. A maleta, que tinha sido entregue poucos minutos antes a Henkel, havia sido zelosamente arrumada no lugar do passageiro. A sede do banco, de concepção futurista e acabada de construir, localizava-se fora da cidade. Era um paralelepípedo cinzento de cinco andares com grades nas janelas e um único acesso à garagem da cave. Um búnquer à prova de bomba, e de ladrões. O automóvel de Andreas Henkel não havia demorado mais do que trinta minutos a lá chegar: o trânsito da noite avançada não o tinha obrigado a abrandar a marcha do seu veículo. A cidade estava semideserta». In GL Barone, Conspiração no Vaticano, 2013, Casa das Letras, 2013, ISBN 978-972-462-197-5.
                                                              
Cortesia de CdasLetras/JDACT

Conspiração no Vaticano. GL Barone. «A nave central estava repleta de um sem-fim de bancos em madeira enquanto as únicas obras de arte, se assim se podiam chamar, eram algumas estátuas, posicionadas nas duas naves laterais»

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«(…) Osios e Weistaler entraram sem cerimónias e colocaram-se em frente do padre. A casa estava na penumbra, mas conseguia-se ver o chão de mármore coberto com tapetes valiosos. Nas paredes da entrada, avistavam-se quadros que representavam padres e cardeais. Vista-se!, ordenou Osios. Você vem connosco! Quem são vocês?, perguntou o padre atemorizado. Amigos, respondeu Weistaler. Depois, acrescentou: faça aquilo que lhe dizemos e ninguém lhe fará mal. O homem não se mexeu nem um centímetro, paralisado pelo medo. Parecia prestes a ter uma crise respiratória. Tinha sido um estúpido ao abrir a porta, mesmo que fosse só para espreitar.
Weistaler cruzou o olhar com Osios. O grego retirou uma Luger, calibre .9 de fabrico jugoslavo, e apontou-a ao padre. Dou-vos tudo o que quiserem, disse gaguejando, totalmente a leste sobre o motivo da presença daqueles estranhos na sua casa. Não me façam mal. Pronunciou aquelas palavras, sufocando um soluço. Osios aproximou-se dele e agarrou-o pelo braço. Venha connosco e não lhe acontecerá nada de mal. O pânico fê-lo reagir de uma forma intempestiva e o padre começou a mexer-se e a torcer-se. Deu safanões contra Weistaler, porém, e apesar dos esforços, não se conseguiu libertar. Assim que percebeu que não havia escapatória, fez aquilo que qualquer um, na sua situação, teria feito: começou a gritar.
O barulho, em condições normais, poderia ter produzido os efeitos esperados, fazendo acorrer algum vizinho, mas naquela noite o edifício estava semideserto devido às festividades do fim de ano. Os gritos não foram demasiado ruidosos nem demasiado insistentes. Cessaram quando Weistaler colocou na boca do presidente da comissão um pano embebido numa substância à base de clorofórmio. O padre perdeu os sentidos quase de imediato. Osios e Weistaler agarraram-no e arrastaram-no pelas escadas abaixo. APiazza de San Giovanni estava iluminada com a luz amarelada dos candeeiros, o que dava à neve, que ainda caía, uma estranha cor de fotografia sépia.
Os dois atravessaram-na rapidamente até aos degraus da catedral. A um observador inocente, a cena poderia parecer quase normal: um bêbedo levado por duas pessoas. O facto estranho era, porém, a roupa do bêbedo. Em vez de vestir um fato adequado a uma noite fria, sapatos e uma gabardina, estava apenas vestido com um robe, um pijama e um par de pantufas.
A porta da catedral já tinha sido aberta por Osios antes da chegada do colega. Depois de ter desactivado o sistema de alarme, o grego deixou algumas ferramentas e um grande contentor de alumínio junto à nave. Depois, encostou o batente para que, quando chegassem, não fossem obrigados a perder tempo com a fechadura. Entraram pela escuridão a dentro ajudados pelos dois visores de infravermelhos. A catedral de Turim era uma igreja despojada. Weistaler já lá tinha ido várias vezes e a impressão com que ficara era de uma sensação de pobreza. Estava a anos-luz do esplendor da catedral de Roma.
A nave central estava repleta de um sem-fim de bancos em madeira enquanto as únicas obras de arte, se assim se podiam chamar, eram algumas estátuas, posicionadas nas duas naves laterais, e catorze pequenos quadros que representam as capelas da via-sacra. Weistaler e Osios arrastaram o padre ao longo da nave central com a ajuda dos visores de infravermelhos. Ao fundo, atrás do altar, entrevia-se o enorme mural da capela do Guarini, a primeira casa do Sudário, ainda em restauro depois do último incêndio de 1997.
O Santo Sudário estava agora guardado atrás de um vidro com dois dedos de espessura à esquerda da nave. A capela, com as suas cortinas vermelhas, colunas e varandins de talha dourada que chegavam até à abóbada, era a parte mais sumptuosa de toda a igreja». In GL Barone, Conspiração no Vaticano, 2013, Casa das Letras, 2013, ISBN 978-972-462-197-5.
                                                              
Cortesia de CdasLetras/JDACT

Conspiração no Vaticano. GL Barone. «O Grego não se considerava um homem mau, nem mesmo um terrorista. Gostava de se imaginar como um profissional freelancer que é contratado por quem precisa dos seus serviços»

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«(…) Weistaler parou o seu Audi mesmo atrás de uma carrinha preta e saiu agilmente do automóvel. Enquanto passava ao lado do carro e abria a porta do passageiro, pareceu-lhe ver o que estava a acontecer dentro da catedral, a poucos metros dele: um jovem sacerdote, com um bocado de ferro do tamanho de uma moeda entre os dedos, tentava abrir a vitrina que continha o Santo Sudário. Se tudo corresse segundo os planos, a maleta já devia estar nas mãos de Henkel. Ao volante da carrinha estava um gigante de origem grega que disse chamar-se Flavio Osios. Ninguém, vendo os dois lado a lado, poderia imaginar que o Grego, apenas quatro meses depois, o iria assassinar com um disparo de pistola na têmpora. Weistaler sacudiu a neve da gabardina azul e fechou a porta. Está tudo bem? Osios sorriu, mas o seu sorriso não era nada tranquilo. Não voltou a sair de casa, murmurou. Melhor assim, não? Vamos então, respondeu Weistaler.
O Grego não se considerava um homem mau, nem mesmo um terrorista. Gostava de se imaginar como um profissional freelancer que é contratado por quem precisa dos seus serviços. Pouco importava quem é o mandante do trabalho e quais os seus fins. Trabalhava pelo dinheiro. Aquilo que lhe tinha faltado durante toda a sua infância. E não o dinheiro para comprar, como os seus coetâneos, roupa ou sapatos da moda, mas sim para pôr o pão na boca. Era filho de um ex-marinheiro grego e de uma doméstica italiana. Dois esfomeados que passaram a vida colados ao sofá daquele casebre ao qual chamavam casa. Recordava-os como dois parasitas e tinha-os abandonado assim que teve oportunidade. Não os via desde os dezassete anos nem nunca mais soube deles. Quem sabe se ainda estavam vivos.
Tudo o que era devia-o apenas a si mesmo: ainda adolescente, no final dos anos setenta, tinha-se autofinanciado com pequenos furtos na sua Trieste natal e, a seguir, depois de um ano na prisão para menores, tinha passado à caça grossa, diversificando os seus negócios; atrás das grades, apercebeu-se de que tinha uma grande sorte, ou seja, de viver numa zona que conhecia na perfeição, muito próxima da fronteira com a Jugoslávia.
Certamente que também ajudaram os denominados anos de chumbo e as excelentes pistolas de fabrico jugoslavo. A sua contribuição pessoal, porém, já vinha de longe: tinha estado em todos os teatros de guerra do Médio Oriente nos anos oitenta. Vendia pistolas e espingardas adquiridas pelos seus vizinhos comunistas e, quando podia, também era mercenário. Com o tempo tinha finalmente ganho, no seu meio, a fama de homem de confiança e de boa liderança. Osios e Weistaler atravessaram a Piazza de San Giovani a pé e velozmente. Pararam em frente à porta do edifício fronteiro à catedral, mesmo ao lado das montras tapadas da Real Farmácia XX Setembro. Era a mesma porta onde trabalhava o jovem de cabelo ruivo que tinha fornecido os códigos numéricos a Weistaler. Sem se preocuparem em não fazer barulho, subiram a escadaria interior e, chegados ao segundo andar, tocaram à campainha.
O presidente da Comissão para a Conservação do Santo Sudário tinha ouvido um grande alarido pelas escadas e agora estava imóvel à entrada do seu apartamento. Era um homem baixo, careca e de meia-idade. A campainha tocou, e tocou novamente. Foram necessários diversos toques antes de se decidir. Aproximou-se do visor e tentou observar os dois desconhecidos. Não os conseguia ver bem pois o vão da escada estava escuro. Podia ser alguém que precisava dele? Por precaução, colocou a corrente na porta e abriu uma pequena fresta para poder ver melhor. Nem sequer teve tempo para abrir a boca, pois um empurrão fê-lo cambalear para trás. A pequena corrente foi arrancada da parede, e a porta ficou escancarada». In GL Barone, Conspiração no Vaticano, 2013, Casa das Letras, 2013, ISBN 978-972-462-197-5.
                 
Cortesia de CdasLetras/JDACT

sábado, 4 de agosto de 2018

Conspiração no Vaticano. GL Barone. «O padre pegou numa maleta cinzenta de metal e passou-a através da janela ao agente do Vaticano. Henkel agarrou na mala com as duas mãos e colocou-a no banco do passageiro»

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«(…) A poucos metros do torreão de Nicolau V, numa carrinha estacionada na via Corridori, quatro figuras de fato escuro tinham acabado de ouvir os seus telefonemas. A voz camuflada não tinha sido reconhecida, mas o telefone de Spada, os seus movimentos e as suas operações bancárias eram permanentemente seguidas. Quase em simultâneo, do outro lado do globo, mais precisamente em Santa Mónica, na Califórnia, Robert Maina, um advogado cinquentão de belo porte e indubitável inteligência, estava a entrar no tribunal civil com um dossiê relativo ao próprio Spada.
O automóvel de Andreas Henkel circulava lentamente na estrada coberta de neve: era um enorme jipe americano com mudanças automáticas e pneus pitonados. Por mais que tivesse planeado aquela noite, o agente dos Serviços Secretos do Vaticano não podia certamente adivinhar que logo naquele momento crucial da missão lhe seriam úteis as quatro rodas motrizes para se mover agilmente numa Turim gelada e deserta. Tinha tido sorte, como sempre. Embora possuísse um indiscutível fascínio, Henkel não era um homem atraente: o rosto estava marcado por traços duros e angulares, a pele era pálida e áspera, os olhos profundos e escuros; o cabelo preto cortado à escovinha e uma estatura mediana. O seu ar confiante e seguro, no entanto, fazia-o conquistar lisonjeiros resultados, como ele adorava defini-los, com muitas das mulheres com as quais se relacionava, por trabalho ou por prazer. Passava pouco das nove da noite quando o automóvel parou junto ao passeio da via San Domenico, muito próximo em linha recta da catedral de Turim, mesmo em frente do museu do Santo Sudário.
Um prelado envolto num casaco preto comprido estava à sua espera atrás de uma porta de vidro. Saiu da penumbra assim que o automóvel desligou o motor e, caminhando na neve, aproximou-se do jipe. O homem permaneceu de pé, com o guarda-chuva aberto, ao lado do carro. Henkel abriu a janela e observou-o da cabeça aos pés. Saia!, ordenou. O padre não se moveu um centímetro e declamou a frase que tinha preparado. Acabei mesmo agora a vistoria. Presumo que tenha corrido tudo bem, respondeu Henkel, sorrindo. Queria demonstrar mais segurança do que aquela que realmente tinha. Estamos a fazer a coisa certa?, perguntou o prelado. Não estaria aqui se assim não pensasse.
O padre pegou numa maleta cinzenta de metal e passou-a através da janela ao agente do Vaticano. Henkel agarrou na mala com as duas mãos e colocou-a no banco do passageiro. Depois entregou ao homem um dispositivo preto pouco maior que uma moeda de um cêntimo. Sabe o que fazer. Tem menos de meia hora!, concluiu. Não esperou pela resposta. Fechou a janela, engatou a primeira e dirigiu-se novamente para a Piazza de San Carlo. O padre permaneceu imóvel a observar o automóvel a afastar-se. Suspirou profundamente e caminhou em passo apressado até à catedral com o transmissor GPS na mão». In GL Barone, Conspiração no Vaticano, 2013, Casa das Letras, 2013, ISBN 978-972-462-197-5.
                 
Cortesia de CdasLetras/JDACT

Conspiração no Vaticano. GL Barone. «Em poucos minutos, em frente do monitor plano do seu terminal, finalizou a operação que lhe tinha sido solicitada, transferindo trinta e oito milhões de euros dos cofres do Vaticano para quatro conta-correntes»

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«(…) A sede do Instituto para as Obras de Religião encontra-se no torreão de Nicolau V um búnquer com paredes de nove metros de espessura a poucos passos da porta de Sant'Anna, no Vaticano. Naquela noite, Luciano Spada estava pensativo, sentado à secretária num gabinete iluminado apenas por um candeeiro de mesa. O silêncio só era interrompido pelo tiquetaque ritmado do relógio de pêndulo e pelo eco longínquo do trânsito de Roma. Do lado de fora da porta, estavam em permanência dois guardas suíços, mas o resto do edifício estava meio vazio. Era presidente do IOR há quase três anos e um dos primeiros laicos a sentar-se naquele gabinete com paredes pintadas de vermelho-escuro e soberbas estantes de carvalho. Nascera em Lugano há sessenta e oito anos e, na sua longa carreira no mundo das finanças, ocupara sempre cargos de grande prestígio: chefiara, até 1986, a União de Bancos Suíços e foi presidente do Banco de Ivrea durante quinze anos, cargo que tinha deixado há três anos. Era presidente de duas empresas fundamentais para os negócios do Vaticano, uma luxemburguesa e outra com sede fiscal nas ilhas Caimão, e tinha ainda um lugar no conselho de administração de treze empresas.
Apesar da idade e das muitas responsabilidades, não se tinha cansado do trabalho. Continuava o mesmo homem, decidido e seguro de si. Sabia o que queria e como o obter.Certamente tinha de agradecer ao seu pai, um imigrante italiano que, depois da segunda guerra mundial, comprara um quiosque na suíça italiana. Tinha sempre acreditado nele e, com um esforço inimaginável, conseguiu pagar ao filho as propinas na faculdade de Economia da prestigiada universidade Bocconi de Milão. O Filho do Jornaleiro, como o tinham apelidado algumas personalidades do mundo das finanças, conseguiu subir na vida sozinho graças à sua inteligência, que todos consideravam fora do comum.
O telefone móvel tocou apenas duas vezes até o presidente do IOR atender. Tudo confirmado, disse alguém do outro lado da linha. Era uma voz autoritária, e o tom deixava adivinhar um interlocutor de idade avançada. Contudo, parecia camuflada por algum dispositivo electrónico. Qual é o montante exacto?, perguntou. Naturalmente, já conhecia a resposta, até porque lhe tinha sido entregue o habitual bilhete com a ordem, mas dada a entidade era melhor certificar-se mais uma vez. Trinta e oito milhões, confirmou a voz. Devo esperar problemas depois desta noite?, questionou Spada. Depois de um momento de silêncio o interlocutor respondeu: não te preocupes, não sou um cliente qualquer. Exacto. Se fosses, não me preocuparia.
Envia o pagamento e, obviamente, terás a tua percentagem, concluiu. Luciano Spada não conseguiu responder, porque a comunicação foi interrompida bruscamente. Já tinha entrado no jogo. Não podia voltar atrás e, de qualquer forma, jamais poderia dizer que não. Recentemente a imprensa tinha levantado a hipótese do seu envolvimento num negócio de lavagem de dinheiro proveniente da ex-Jugoslávia. Apesar dos processos judiciais que pendiam sobre si serem numerosos e heterogéneos, Luciano Spada não tinha remorsos; mesmo que tivessem algum fundamento, não se assustava com nada. Dizia-se que havia mais de cinco mil milhões de euros nos cofres do IOR, mas ele sabia muito bem que aquela estimativa tinha sido feita muito por baixo. Não se chega a presidente do IOR sem se sujar as mãos, mas esta acção era provavelmente a maior de todas.
Em poucos minutos, em frente do monitor plano do seu terminal, finalizou a operação que lhe tinha sido solicitada, transferindo trinta e oito milhões de euros dos cofres do Vaticano para quatro conta-correntes espalhadas por outros tantos cantos da terra. Era ele que geria os negócios do banco, embora formalmente o controlo da sua actividade estivesse entregue a um colégio cardinalício, presidido pelo secretário de Estado do Vaticano, o cardeal argentino Eduardo Rodrigo Jimenez. Com toda a probabilidade, o cardeal, devido aos seus muitos afazeres, nem sequer tinha lido o relatório anual, pelo que certamente não criaria problemas.
Terminada a operação, repetiu-a do início, desta vez transferindo um valor um pouco inferior a dois milhões de euros directamente para uma conta privada em seu nome. Não estava a roubar aquele dinheiro, e com isso concordava também a pessoa com quem tinha acabado de falar ao telefone móvel: tratava-se apenas da compensação por um serviço prestado. Spada saiu da sede do IOR pouco depois das dez horas noite, logo após um último telefonema, mais contente e um pouco mais rico». In GL Barone, Conspiração no Vaticano, 2013, Casa das Letras, 2013, ISBN 978-972-462-197-5.
                 
Cortesia de CdasLetras/JDACT

sexta-feira, 3 de agosto de 2018

Conspiração no Vaticano. GL Barone. «Os edifícios setecentistas da Piazza de San Carlo, com ricas fachadas cremes, repousavam sob a neve. A série interminável de janelas e sacadas…»

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«(…) Ao mesmo tempo que Curt Weistaler verificava o conteúdo do minúsculo cartão de memória pago a peso de ouro, Andreas Henkel estava sentado em frente do computador no seu quarto de hotel. Trabalhava há muitos anos para os Serviços Secretos do Vaticano, mais conhecidos como SSV. Era um homem pequeno, com uns óculos sem armação colados à frente de um olhar atento. Nascido em Praga há quarenta e cinco anos, tinha vivido quase toda a sua juventude na Alemanha Ocidental, onde o seu pai geria importantes negócios para o Governo checoslovaco. Apesar de ter crescido fora da cortina de ferro, havia sido educado segundo os princípios do partido e da ideologia marxista. Regressara à sua pátria quando era pouco mais do que um adolescente e em plena guerra fria, quando as condições políticas, do lado de fora do muro de Berlim, tinham mudado. Frequentara a universidade estatal na capital e, depois da licenciatura, como muitas vezes acontece às mentes brilhantes, mas sobretudo aos descendentes de boas famílias, foi-lhe oferecida a possibilidade de servir o seu país. Aceitou e o STB, o Serviço de Segurança checoslovaco, tornou-se a sua segunda família. Levantou-se da cadeira e foi até à janela para ver aquela que quase todos consideravam a mais bela praça de Turim.
Os edifícios setecentistas da Piazza de San Carlo, com ricas fachadas cremes, repousavam sob a neve. A série interminável de janelas e sacadas, soberbamente decoradas e alinhadas sem interrupção nos dois lados mais compridos, reflectia a estranha luz amarelada dos candeeiros. O silêncio era total e ele parecia observar um quadro representativo da enorme estátua equestre mesmo por baixo da sua janela. Apenas dois táxis, um atrás do outro, percorriam a praça em sentido longitudinal. A missão, em teoria, era simples, mas tinha a impressão de ter descurado algum pormenor. Os movimentos foram programados com grande precisão, e o próprio Weistaler, que dali a poucos minutos lhe enviaria um email codificado de confirmação, garantira-lhe que, se o plano fosse seguido ao pormenor, tudo correria bem.
Na realidade, Henkel não gostava de Weistaler. Embora o suíço fosse um homem inegavelmente elegante, com um aspecto bem cuidado, o que o preocupava era uma constante sensação de instabilidade que já tinha demonstrado de outras vezes: seria seguramente capaz de estrangular uma pessoa e, no momento seguinte, recolher em oração para pedir perdão a Deus. Era um homem que tinha uma visão distorcida da religião. E não só desta. Crescera entre luteranos e, apesar disso, confessava-se fiel à Santa Igreja Romana o que era, efectivamente, uma contradição. O monitor do computador saiu do estado de inactividade no qual tinha estado nos últimos minutos e mostrou um ícone saltitante que representava um selo preso entre as asas de uma águia. Um efeito sonoro pouco perceptível confirmou a recepção de uma nova mensagem de email codificada. Colocou os óculos que tinha deixado em cima do teclado do portátil e leu a mensagem: confirmado. Era exactamente aquilo que esperava. Vestiu o blusão e desceu até ao estacionamento». In GL Barone, Conspiração no Vaticano, 2013, Casa das Letras, 2013, ISBN 978-972-462-197-5.
                 
Cortesia de CdasLetras/JDACT

quarta-feira, 1 de agosto de 2018

Conspiração no Vaticano. GL Barone. «Nunca o vi, confirmou o jovem sorrindo, enquanto verificava rapidamente o conteúdo do envelope. Quando teve a certeza de ter obtido aquilo que tinha pedido saiu do automóvel…»

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«(…) Acariciou satisfeito a barba e saiu da sala. Uma lufada de calor romano atingiu-o em pleno. Desceu a escadaria do palácio São Carlos, tão perto do pátio São Dâmaso que quase parecia ouvir os sussurros das personalidades à espera do comandante da Guarda Suíça para iniciar a cerimónia de juramento. Todos os anos, desde 1527, no dia 6 de Maio, os novos recrutas da Guarda Suíça prestam o seu juramento. Naquele ano, isso não aconteceu.
Janeiro, quatro meses antes da morte de Weistaler O automóvel tinha parado, sem desligar o motor, junto ao passeio da Piazza Castello. Nevava. Era 4 de Janeiro e Curt Weistaler estava sentado no banco à espera de que, da penumbra de umas arcadas, aparecesse uma figura humana. Tinha anoitecido há pouco tempo e a neve, que durante toda a tarde tinha poupado Turim, começava a depositar-se nas ruas e nos tectos das casas com maior insistência. A porta de trás do Audi abriu-se e entrou um jovem com cabelo ruivo. Estes são os códigos de acesso de hoje, declarou sem sequer cumprimentar. O rapaz mostrou a Weistaler um bocado de plástico preto, do tamanho de uma unha. Antes de estender a mão, aquele quer apenas dois meses depois, se tornaria o novo comandante da Guarda Suíça Pontifícia observou bem o jovem: tinha um impermeável azul, completamento gasto no pescoço e nos cotovelos, e o rosto tapado por um volumoso lenço cor de cereja. O cabelo era curto e os olhos azuis-claros sobressaíam por cima do lenço. Não tinha nada de interessante para oferecer.
Weistaler pega no cartão de memória micro SD, tendo o cuidado de não tocar na mão do rapaz, e enfiou-o no respectivo slot do seu fiel amigo Next M1, o smartphone do qual nunca se separava. Foram apenas necessários alguns segundos para obter a resposta de que estava à procura: o ecrã iluminou-se e apareceu automaticamente a imagem de uma pequena aplicação de verificação. Parecia tudo certo. Espera aqui!, ordenou num italiano com forte sotaque germânico. Saiu do automóvel para confirmar se ninguém tinha seguido o Vermelho e, quase escorregando na neve que tinha coberto o passeio, foi abrir o porta-bagagem do Audi. Retirou de lá um envelope de plástico, deu novamente a volta ao carro e sentou-se no banco do condutor. Sabes qual é a coisa mais importante?, perguntou ao jovem, observando-o do retrovisor. Imagino que seja a discrição, respondeu secamente o rapaz com cabelo ruivo.
Não era muito atraente, mas parecia esperto. Era funcionário num belo edifício que dava para a Piazza de San Giovanni. Sabia observar e memorizar, e aquilo que Weistaler viu nele tinha já sido pago com dois códigos alfanuméricos com dezasseis números cada um. Lembra-te de que sei onde te encontrar. Naquele momento, voltou-se e fitou-o olhos nos olhos. O rapaz não pareceu ficar nada intimidado e estendeu-lhe a mão. Weistaler, depois de uma fingida hesitação, colocou-lhe na mão o envelope que tinha retirado do porta-bagagem. Nunca o vi, confirmou o jovem sorrindo, enquanto verificava rapidamente o conteúdo do envelope. Quando teve a certeza de ter obtido aquilo que tinha pedido saiu do automóvel, com a mesma discrição de quando chegou, e desapareceu por debaixo das arcadas da Piazza de Castello. Weistaler ficou ainda entretido por alguns instantes com o telefone. Depois desligou-o e colocou-o no bolso do blusão. Engatou a mudança , e o Audi seguiu pela via Pietro Micca. A geometria das ruas de Turim lembrava-lhe um pouco as de Nova Iorque: todas as ruas formavam um quadriculado de verticais e horizontais, e as estradas que atravessavam a cidade em diagonal, como a Broadway da Grande Maçã, eram poucas. Uma delas era a via Micca. Percorreu-a toda, deslizando sobre a neve, depois virou em direcção à catedral». In GL Barone, Conspiração no Vaticano, 2013, Casa das Letras, 2013, ISBN 978-972-462-197-5.

Cortesia de CdasLetras/JDACT

Conspiração no Vaticano. GL Barone. «O homem, do outro lado da divisão, sorriu. Muito lentamente, quase como se fosse um ritual a seguir com precisão religiosa, aproximou-se do coronel que o observava imóvel»

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«Todos os anos, na manhã do dia 6 de Maio, os novos recrutas da Guarda Suíça prestam o seu juramento solene perante as mais altas individualidades da Cidade do Vaticano e da Confederação Helvética. Naquela tarde, Tobias Klessen deveria encontrar-se no pátio de São Dâmaso, mesmo por detrás da praça de São Pedro. Ocuparia o terceiro lugar na segunda fila, em sentido e de uniforme de gala. Já se andava a preparar há uma eternidade para o juramento, que se efectuava com a mão esquerda apoiada na bandeira da Guarda Suíça e a direita levantada com os três dedos abertos, símbolo da Trindade. O seu avô e o seu pai tinham, há muitos anos, declamado aquelas palavras solenes. Mas não estava. Às, onze em ponto, o jovem Klessen, em vez de se encontrar com os outros recrutas a prestar eterna fidelidade ao Sumo Pontífice e aos seus legítimos sucessores, estava de joelhos, com o rosto ensanguentado, em frente do comandante da Guarda Suíça, o coronel Curt Weistaler. Estavam ambos imóveis, ele com uma bala alojada um pouco acima do baço; o comandante, apesar da patente, pelo medo.
Encontravam-se no segundo andar de um palacete que dava para a praça de Santa Marta. Uma divisão despojada, decorada com uma cómoda e uma simples cama de ferro forjado. Ao longe, ouviam-se os tambores do cortejo entoar as marchas da cerimónia e os automóveis que circulavam ao longo da via Aurélia. A pistola Sig-Sauer, calibre 9, propriedade do coronel, disparou uma segunda e, depois, uma terceira vez. Ambas, abafadas pelo silenciador, perfuraram o crânio do recruta, que caiu inanimado no chão. Era apenas um rapaz!, protestou o coronel, virando-se para o homem que tinha acabado de premir o gatilho. Ajeitou nervosamente a madeixa de cabelo louro e, depois, continuou: nem sequer o conhecias! É o preço a pagar para que o glorioso nome do coronel Weistaler caia na lama. Exactamente onde merece estar! O homem que empunhava a pistola apenas sussurrou. Era um gigante com a barba por fazer e olhar carrancudo. Flavio, estás enganado. A questão não acabou, poderia... O coronel não conseguiu terminar a frase. Já tenho aquilo que queria. Obrigado. Não há mais nada que me possa oferecer, coronel. A última palavra foi pronunciada com uma expressão de desprezo. Um laivo de raiva atravessou o olhar do assassino. Foi fugaz, mas Weistaler percebeu-o de forma inequívoca. Naquele momento, o belo coronel, como era apelidado, percebeu que o que quer que tivesse dito não teria valido de nada. Flavio Osios nunca o pouparia. O homem, do outro lado da divisão, sorriu. Muito lentamente, quase como se fosse um ritual a seguir com precisão religiosa, aproximou-se do coronel que o observava imóvel. Parou a poucos centímetros e apontou-lhe a arma à têmpora.
Weistaler não ofereceu nenhuma resistência e fechou os olhos em sinal de resignação. O disparo foi pouco perceptível: um silvo que durou muito menos de uma fracção de segundo. A bala perfurou o cérebro do coronel que morreu de imediato. Osios, muito calmamente, arrastou o cadáver para junto do recruta e colocou-lhe a pistola na mão direita. Demasiado fácil... O enésimo escândalo de cariz sexual nas fileiras da Guarda Suíça. E, desta vez, envolvia o expoente máximo. Parecia-lhe que já estava a ouvir as vozes dos exímios vaticanistas nos serviços noticiosos: o autor do homicídio-suicídio terá sido o próprio coronel Curt Weistaler, recém-chegado ao topo da guarda privada do papa. O comandante, de quarenta e quatro anos, terá matado o recruta Klessen por motivos passionais e, depois, ter-se-á suicidado». In GL Barone, Conspiração no Vaticano, 2013, Casa das Letras, 2013, ISBN 978-972-462-197-5.

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