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quarta-feira, 6 de abril de 2016

Pro Salute Animae. A peregrinação do rei Dinis I a Compostela. Antecedentes e consequências. Giulia Vairo. «A exortação do papa não foi vã porque, de facto, em 1318 não se registam outros confrontos directos entre pai e filho, nem entre marido e mulher»

jdact

«(…) A confirmação ideal dos limites temporais (12 de Janeiro / 22 de Fevereiro de 1318) é a carta apostólica, até hoje inédita, de João XXII, datada de 14 de Março 1318, em que o papa concede ao rei Dinis I a possibilidade de outorgar a total remissão dos pecados in articulo mortis, precedida de uma prévia, sincera e contrita confissão, enviada em resposta a uma súplica do soberano, remontando evidentemente a algum tempo antes de jornada ser empreendida, e que poderá ser lida na perspectiva do percurso de purificação ou de preparação ao caminho penitencial ou, mais simplesmente, de reflexão pessoal protagonizada pelo monarca.

O ano da pacificação. 1318
Desde logo, 1318 apresenta-se como um ano chave na vida de Dinis I, a nível público e privado, pois, nos meses que seguiram, irá tomar decisões delicadas, cheias de implicações futuras para si próprio, para a sua família e para o reino de Portugal. O ano de 1317 tinha começado sob os melhores auspícios com o nascimento do neto a que tinha sido atribuído o nome do rei, o infante Dinis (12 de Fevereiro de 1317, terceiro filho do casal formado por Afonso e dona Beatriz, nasceu a 12 de Fevereiro de 1317, S. Eulália), e não a 12 de Janeiro, como a Monarquia Lusitana refere, transcrevendo erroneamente a notícia extraída do Livro da Noa), mas logo foi abalado pelas inquietações, suspeitas e desavenças surgidas na família real, primeiros sinais da guerra civil que, poucos anos depois, entre 1319 e 1324, terá posto à prova a estabilidade do reino. A gravidade da situação foi tal que exigiu mesmo a intervenção do pontífice João XXII, que se expressou sem demora a favor do rei e contra todos os que se opunham e obstavam ao seu governo, ameaçando-os com pena de excomunhão.
Um tal estado de tensão teve que se prolongar até aos inícios de 1318, pois remontam ao mês de Março três cartas apostólicas em que, com tons ligeiramente diversos, João XXII se dirige ao rei, à rainha e ao herdeiro do trono (estes últimos dois mancomunados no ressentimento contra o soberano), exortando-os à reconciliação em nome da concórdia familiar e da paz do reino de Portugal. A exortação do papa não foi vã porque, de facto, em 1318 não se registam outros confrontos directos entre pai e filho, nem entre marido e mulher, mas, pelo contrário, assistimos a uma substancial recomposição do conflito: será necessário esperar pelo ano de 1319 para ver novamente e mais dramaticamente contraporem-se os contendentes. Numa leitura retrospectiva dos acontecimentos, poderia afirmar-se que 1318 se apresenta como um ano de trégua, um ano suspenso entre as primeiras e mais concretas manifestações do conflito (1317) e o violento e definitivo rebentar da guerra civil [(1319-1324), os primeiros sinais da desavença entre Dinis I e o herdeiro do trono tiveram lugar alguns anos antes, entre 1312 e 1313, por ocasião da disputa da herança de João Afonso, conde de Barcelos, que, no princípio, tinha visto contrapor-se o conde Martim Gil, mordomo mor do príncipe herdeiro, e Afonso Sanches, filho natural do rei Dinis. Este último, com o apoio do pai, saiu vencedor da contenda. Também a herança de Martim Gil, falecido no fim de 1312, transitou para Afonso Sanches que, no ano seguinte, foi nomeado mordomo mor do rei]. Uma série de iniciativas empreendidas por Dinis I ao longo de 1318, nos meses seguintes à peregrinação a Compostela, parecem ir na direcção de uma pacificação familiar e de uma diminuição das tensões, que podem ser atribuíveis mesmo à experiência espiritual vivida em primeira pessoa pelo soberano. A Monarquia Lusitana conta que, após a viagem à Galiza, o ano passou tranquilo e sem problemas. A partir dos finais do mês de Abril, o rei mudou-se para Torres Vedras, onde ficou até ao início de Julho, segundo os itinerários. Foi provavelmente durante esta longa estada que Dinis I, numa área rural pertencente ao concelho de Torres Vedras, junto à foz do rio Alcabrichel, ordenou a realização de uma obra pública, um porto, recordado nas fontes como o Porto de S. Dinis, o actual Porto Novo. Além disso, determinou ainda que quem quisesse podia estabelecer-se e construir ali a sua casa, a fim de povoar e tornar viva uma zona até àquele momento desabitada. Na ocasião, decidiu também que, naquela mesma área, se levantasse uma igreja intitulando-a da invocação do seu santo protector, São Dinis, ao qual, por devoção, em 1295, já tinha dedicado a construção de um mosteiro cisterciense, confiado ao ramo feminino da ordem, em Odivelas, nos arredores de Lisboa». In Giulia Rossi Vairo, Pro Salute Animae. A peregrinação do rei Dinis I a Compostela. Antecedentes e consequências, Grupo Informal de História Medieval CITCEM, Universidade do Porto, Faculdade de Letras, Incipit.  Workshop de estudos medievais da U. do Porto, 2009-2010. GIHM. Coordenação de Flávio Miranda e Joana Sequeira, CITCEM, Porto 2012, IHA, Universidade Nova de Lisboa, ISBN 978-972-8932-94-7.

Cortesia da UPorto/JDACT

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

O Culto Português a Sant’Iago de Compostela ao longo da Idade Média. Manuel Cadafaz Matos. «Aquela data de 1095 em que nos é dada, por documentos precisos, a época aproximada em que o conde Henrique se casou com dona Teresa é, no dizer de Baquero Moreno, a primeira data segura em que Henrique aparece na Península»

Vias do noroeste de Portugal antes de 1147
jdact

«(…) O primeiro templo existente naquela cidade em louvor de Sant’lago, com efeito, ao que nos reportam Otero Pedrayo e Chamoso Lamas, tinha sido arrasado por Almansor que, mesmo assim, havia respeitado a tumba. Foi na sequência desses desmandos que, em 1003, se havia consagrado ao Apóstolo uma nova igreja, reconstruída. E várias dezenas de anos depois, mais precisamente em 1075, começava-se, com Diogo Peláez, a edificação da actual basílica, protótipo das igrejas de peregrinação, que viria a adquirir uma singular exuberância artística no tempo do bispo Gelmires.
Sabe-se muito pouco acerca desse período de vida do conde Henrique em que encetou tal viagem. Humberto Baquero Moreno refere-nos, apenas, que dois anos antes, ou seja em Fevereiro de 1095, o conde, com cerca de 30 anos, aparece casado com dona Teresa, filha de Afonso VI, rei de Leão e Castela. E poucos meses antes de efectivar tal peregrinação a Compostela, ou seja em 24 de Abril de 1096, surge-nos como senhor de Braga. Nessa altura, sabemos que é arcebispo dessa cidade, por documento do Liber Fìdei (n.º 685), datado de 8 de Maio desse ano e recentemente dado à estampa por Avelino Jesus Costa, o bispo Geraldo. Desse fólio consta que um tal Adilbergo, de apelido Boa, doa à Sé de Braga um casal em Aveleda (concelho de Braga).
Aquela data de 1095 em que nos é dada, por documentos precisos, a época aproximada em que o conde Henrique se casou com dona Teresa é, no dizer de Baquero Moreno, a primeira data segura em que Henrique aparece na Península. E utilizando nós aqui, numa perspectiva de investigação iconográfica, o método de reeonstituição (a partir do mais ínfimo pormenor) utilizado pelo arqueólogo, detenhamo-nos sobre a iluminura que António Holanda e Simão Bening vieram a elaborar com vista à Genealogia do Infante Fernando.
Esses autores, quando se detiveram sobre a caracterização genealógica de Afonso Henriques, e debruçando-se em particular sobre a vida do conde Henrique, tiveram ensejo de nos mostrar, entre outros pontos, que essa genealogia (integrando uma dúzia de fólios iluminados) lhes foi mandada executar pelo infante Fernando, que viveu entre 1507 e 1534. Ora, Martim Albuquerque e João Paulo Abreu Lima, quando se empenharam em descodificar a linguagem-visual, por vezes um tanto cerrada, destas iluminuras (que constituem verdadeiras obras-primas), questionaram-se, entre outros casos, com o das personagens e situações que integram o fólio votado ao conde Henrique (fólio 7).
Após um aturado estudo, esses autores concluíram que António Holanda e Simão Bening pretenderam, através daquelas imagens (em particular das duas laterais inferiores), fazer crer o seguinte: ...inclinamo-nos a ver na bordadura inferior dois episódios, atenta a descontinuidade temática... Os episódios conotam-se naturalmente com o conde D. Henrique, por dupla razão, porque este é a figura principal e porque em ambos os lados na bordadura inferior se descortina a sua bandeira (de branco com uma cruz firmada de azul).., A representação dos navios pode figurar a partida do conde D. Henrique para a Terra Santa como o seu regresso, ou até a sua partida originária em direcção a Península.
Este fólio permite-nos admitir, embora não sem alguma margem de erro, que data da primeira metade do século XVI a primeira imagem que conhecemos alusiva (embora hipoteticamente) à primeira fase da vida do conde Henrique na Península por altura do seu casamento, logo após a sua chegada, com cerca de 30 anos. Então os mais antigos testemunhos iconográficos do pai de Afonso Henriques no então Condado Portucalense? Onde se situam? Já se procedeu à sua identificação? Ao que nos foi dado apurar, o mais antigo documento que se possui a tal respeito é uma miniatura existente precisamente no Arquivo da Catedral de Sant’lago de Compostela, que data do século XIII, não tendo sido composta, segundo tudo leva a supor, mais de um século e meio depois da morte do conde Henrique em 1112». In Manuel Cadafaz Matos, O Culto Português a Sant’Iago de Compostela ao longo da Idade Média, Peregrinações de homenagem e louvor ao túmulo e à cidade do Apóstolo entre o século XI e século XV, Instituto Português do Património Cultural, Lisboa, 1985.

Cortesia de IPPCultural/JDACT

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Pro Salute Animae. A peregrinação do rei Dinis I a Compostela. Antecedentes e consequências. Giulia Vairo. «… a favor desta hipótese está a descoberta, pelos especialistas do sector, de segmentos de possíveis itinerários jacobeus no Alto e Baixo Alentejo, incluindo cidades como Estremoz e Montemor-o-Novo, coincidentes, na sua maior parte, com trajectos das antigas vias romanas»

Cortesia de wikipedia e jdact

Resumo:
«Em 1318 o rei Dinis I resolveu ir em romaria a Compostela, para recolher-se em oração sobre o túmulo do Apóstolo São Tiago Maior. Perante o curioso silêncio das Crónicas e a inquestionável indiferença da historiografia portuguesa em relação a este episódio, pretende-se reconstruir, através das fontes a disposição, os tempos e as modalidades da jornada do monarca a Compostela. Nomeadamente, serão indagadas as motivações e as razões profundas deste acto de devoção pessoal do soberano, a fim de avaliar a sua carga simbólica e de contextualizar este gesto no âmbito das complexas dinâmicas de poder daqueles anos. Para isso, serão analisadas algumas iniciativas e acções concretas empreendidas por Dinis ao longo daquele mesmo ano no âmbito político, social, religioso, cultural, artístico e as relativas também à esfera pessoal do rei, interpretadas como directas consequências da peregrinação a Compostela».

«Este artigo visa fazer luz sobre a peregrinação do monarca Dinis I a Compostela, realizada em 1318, episódio da vida do rei reconhecido pela historiografia portuguesa, mas que nunca foi verdadeiramente objecto de aprofundamento científico. Perante o silêncio das crónicas, procurou-se reconstruir a jornada do soberano a Santiago de Compostela através do estudo de fontes documentais, editadas ou inéditas, mas sobretudo tomando em consideração factos ocorridos naquele mesmo ano de 1318. Lidos no âmbito do quadro geral dos acontecimentos daqueles anos, cruciais para a vida da monarquia portuguesa, estes factos podem ser interpretados, em conjunto com as referidas fontes documentais, como consequências directas do acto de devoção do monarca. No início de 1318, o rei Dinis resolveu ir em peregrinação a Compostela para se recolher em oração sobre o túmulo do Apóstolo São Tiago Maior.
A historiografia portuguesa não tem assumido uma atitude unívoca em relação a este acontecimento tão importante da vida do monarca Dinis I: ao silêncio das crónicas seguiu-se uma omissão geral do assunto pela maior parte dos historiadores. Com excepção de alguns autores que têm defendido a efectiva realização da jornada a Compostela, é curioso observar a continuação da indiferença total, nos estudos respeitantes ao reinado de Dinis, para com este tema ou a escassa vontade manifestada pelos pesquisadores de indagar e aprofundar este episódio, revelador da espiritualidade do soberano. Parece até que este acto penitencial, expressão, em certos aspectos, da grande humildade do seu protagonista, não se adapta à imagem do rei forte e sábio encarnado pelo Rei Lavrador, mito historiográfico que, ainda hoje, não obstante as novas leituras e o florescimento dos estudos relativos ao reinado dionisino, sobrevive à passagem do tempo. O Rei Lavrador, ao longo dos anos, foi substituído pelo Rei Civilizador e pelo Rei Poeta e Culto. Todavia, ainda não foi verdadeiramente investigado o rei Dinis, filho obediente da Santa Igreja de Deos, como ele próprio se proclama, muito oportunamente, no testamento de 1322, mas também como ele é definido pelo papa João XXII em diversas cartas dirigidas a ele e aos seus familiares, antes e depois do seu falecimento.
Ao contrário do esquecimento a que este episódio da vida de Dinis foi votado, de resto vale a pena sublinhar a atenção e o espaço dados à peregrinação a Santiago realizada pela rainha dona Isabel, a partir da Crónica de D. Dinis de Rui de Pina e, em geral, em toda a produção historiográfica nacional. Nem a Crónica de D. Dinis de 1419 nem a Crónica delRey D. Dinis de Rui de Pina (1440-1512) referem a peregrinação do rei ao túmulo de São Tiago Maior. Porém, temos a narração, pródiga de informações, do cronista régio, o monge cisterciense frei Francisco Brandão. De facto, o capítulo LXIV da VI Parte da Monarquia Lusitana (1672) é parcialmente dedicado à descrição do caminho de Dinis a Compostela, empreendido juntamente com um grupo de nobres e fiéis servidores: primeiro, entre todos, o inseparável Afonso Sanches, filho natural e mordomo mor do monarca. O cronista conta que o soberano partiu de Lisboa no início do ano de 1318, chegando ao destino a 12 de Fevereiro, dia da festa de Nossa Senhora da Purificação (sic). Na indicação da data de chegada do cortejo real deve reconhecer-se um erro, provavelmente do tipógrafo, pois a festividade em questão, a festa da Purificação da Virgem Maria, vulgarmente recordada como Nossa Senhora da Luz ou Nossa Senhora das Candeias e mais popularmente conhecida como Festa da Candelária, é uma festa fixa no calendário litúrgico. Ocorre exactamente 40 dias após o parto da Virgem Maria e, portanto, calha sempre no dia 2 de Fevereiro e não a 12, dia em que se celebra a memória de Sta. Eulália, virgem e mártir. Porém, não deve ter sido casual o facto de, por ocasião de tal festividade, ter sido celebrada uma missa solene e, ao mesmo tempo, de boas-vindas ao rei pelo arcebispo Berenguel de Landora, que somente pouco tempo antes tomara posse do arcebispado de Compostela. Também Hernando del Castillo, autor citado por Francisco Brandão, na II Parte da sua Historia General de Santo Domingo y de su Orden (1612), ao contar a vida do arcebispo Berenguel, pertencente à família dominicana, refere com pormenores o encontro entre Dinis I e o prelado que, na evolução do conflito entre o monarca português e o herdeiro do trono, assumirá um papel pacificador e de intermediário por explícito mandato da Sé Apostólica.
Além destas fontes literárias tardias, outros dados e documentos podem ser adoptados em favor da realização da peregrinação do rei Dinis I de acordo com os tempos e as modalidades recordados pelo cronista régio. Por exemplo, o estudo dos itinerários do rei, estabelecidos a partir da análise da Chancelaria dionisina, a documentação emitida pela administração régia, parecem confirmar o efectivo desenvolvimento da peregrinação em 1318 e na altura do ano indicada. De facto, embora seja obrigatório lembrar que a Chancelaria não constitui um tombo completo, pois pode apresentar lacunas também consistentes, podemos confirmar o que é referido pela Monarquia Lusitana, confrontando os dados surgidos através da análise dos itinerários com as afirmações do autor. Portanto, é provável que o Dinis tenha ido em peregrinação a Compostela entre 12 de Janeiro, data a que remonta o último diploma, emitido de Estremoz, registado pela Chancelaria antes de uma longa pausa, e o dia 22 de Fevereiro, data em que encontramos novamente o rei em Montemor-o-Novo. Trata-se dum lapso de tempo bastante amplo (41 dias), em que a Chancelaria, pelo menos em função dos dados disponíveis, permanece muda, ao contrário de outros meses do ano quando a produção de diplomas e autos, se bem com algumas pausas que chegam a atingir a quinzena de dias, apresenta prazos em geral bastante mais curtos1. Por outro lado, a favor desta hipótese está a descoberta, pelos especialistas do sector, de segmentos de possíveis itinerários jacobeus no Alto e Baixo Alentejo, incluindo cidades como Estremoz e Montemor-o-Novo, coincidentes, na sua maior parte, com trajectos das antigas vias romanas». In Giulia Rossi Vairo, Pro Salute Animae. A peregrinação do rei Dinis I a Compostela. Antecedentes e consequências, Grupo Informal de História Medieval CITCEM, Universidade do Porto, Faculdade de Letras, Incipit,  Workshop de estudos medievais da U. do Porto, 2009-2010. GIHM. Coordenação de Flávio Miranda e Joana Sequeira, CITCEM, Porto 2012, IHA, Universidade Nova de Lisboa, ISBN 978-972-8932-94-7.

Cortesia da UPorto/JDACT

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

O Culto Português a Sant’Iago de Compostela ao longo da Idade Média. Manuel Cadafaz Matos. «Reportando-nos a Alexandre Herculano, com efeito, o conde Henrique realizou, no Inverno de 1097 a 1098 (supostamente partindo de Guimarães), uma viagem à Galiza para visitar o célebre templo de Sant’Iago»

jdact

«(…) Constatando-se o teor destas trovas, somos levados a concluir que, ou Ayras Nunes era natural da Galiza mas não de Santiago (ali exercendo apenas, durante uma parte relativamente curta da vida o seu mester ao serviço da igreja) e daí não conhecendo totalmente bem, como peregrino, as vias ou os caminhos que conduziam a Santiago ou, então, esta busca, do caminho certo apresenta-se-nos aqui mas só num sentido figurado, mesmo que filosófico, por assim dizer, em termos de procura de uma razão de existência. A par desses dois poetas-trovadores de Santiago da Galiza, representados em significativo estilo no Cancioneiro da Vaticana, dois outros significativos autores desse mesmo período alfonsino, Paay Gomes Charinho e Pedro Amigo Sevilha, aí nos dão o seu precioso testemunho do seu louvor (e homenagem) ao Apóstolo. O primeiro deles, natural da cidade galega de Pontevedra, canta singulares estrofes nestes termos:

Ay, Santiago, padron sabido,
vós m'adugades o meu amigo...
Ay, Santiago, padron provado,
vós me adugades o meu amado.

Quanto ao segundo desses trovadores, Pedro Amigo Sevilha (cidade da sua naturalidade), os seus versos não são menos cativantes:

Quando eu un dia fui a Compostela
en romaria, vi hüa pastor
que, pois fui nado, nunca vi tan bela,
nem vi outra que falasse milhor
e demandei-lhi logo seu amor
e fiz por ela esta pastorela.

Alguns trovadores deste período souberam, por um lado, legar ao Cancioneiro da Vaticana uma nostálgica melancolia onde já se reinventa a palavra saudade. Outros, por sua vez, souberam falar do amor que se sente até doer. Em todos eles (e não sem, nalguns casos, se poder detectar algum exagero), a tristeza melancólica da partida e a ânsia, mesmo que doentia, do conflito da chegada, marcam por assim dizer as duas vertentes dominantes nesta estrutura poética. Nela o Amor fala pelo seu nome e quase sempre em discurso directo.
Hoje, estas trovas medievais têm um sabor muito próprio, um acre ao sabor cerimonioso e distante do passadismo histórico. Elas valem, afinal, pela distância que nos separa do tempo em que foram produzidas, em pleno período em que se ia de romagem a Santiago de Compostela a pé ou de mula, com um simples bordão e cabacinha (trilhando a pé, semanas a fio, caminhos pedregosos e poeirentos). Elas valem, também, num prisma verdadeiramente diferente, por estarem inseridas num outro contexto: o de constituírem o espólio cultural (oral e não só) luxuosas comitivas, organizadas quer por elementos da nobreza quer do clero, acompanhados de soldados e criados, ostensivamente munidos de teres e haveres.

Alguns casos exemplares de peregrinos ilustres que foram em romagem até ao túmulo do apostolo (séculos XI-XV)
Em pesquisas por nós efectuadas ao longo dos dois últimos decénios nos arquivos e bibliotecas portuguesas mais variadas com particular incidência para a Torre do Tombo, Biblioteca Nacional e Biblioteca da Ajuda, pudemos concluir pela existência de uma série de documentos medievais alusivos a peregrinações por parte de altas figuras portuguesas a Santiago de Compostela, alguns dos quais já se encontram publicados (individualizadamente), embora ainda desconhecidos no conjunto de uma formulação teórica de incidências socio-religiosas e psicossociais. Das várias peregrinações de personagens ilustres que, no período situado entre o século XI e meados do século XV foram de Portugal a Santiago na Galiza, contam-se as seguintes, entre outras:
  • conde Henrique, 1097;
  • Sancho II, rei, 1244;
  • rainha Santa Isabel, 1325;
  • conde D. Pedro, 1336;
  • Jan Van Eyck, pintor, 1429.
Reportando-nos a Alexandre Herculano, com efeito, o conde Henrique realizou, no Inverno de 1097 a 1098 (supostamente partindo de Guimarães), uma viagem à Galiza para visitar o célebre templo de Sant’Iago. Acreditando na veracidade deste facto, importa registar, no entanto, que nesse ano existia já, no essencial, a catedral compostelana, tal como hoje os peregrinos a conhecem». In Manuel Cadafaz Matos, O Culto Português a Sant’Iago de Compostela ao longo da Idade Média, Peregrinações de homenagem e louvor ao túmulo e à cidade do Apóstolo entre o século XI e século XV, Instituto Português do Património Cultural, Lisboa, 1985.

Cortesia de IPPCultural/JDACT

quarta-feira, 30 de julho de 2014

O Culto Português a Sant’Iago de Compostela ao longo da Idade Média. Manuel Cadafaz Matos. «Ayras Nunes, por exemplo, apresenta-nos, no “Cancioneiro da Vaticana”, umas trovas votadas a Sant’Iago de Compostela, patrono da cidade onde exerceu o seu mester eclesiástico…»

Vias romanas do Centro de Portugal, ainda em uso na época da peregrinação da rainha D. Isabel (segundo Mario Saa)
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«(…) Pelo estudo da lírica trovadoresca que se encontra em torno de peregrinações ou santuários como o de Santiago de Compostela, poder-se-á, de igual modo, fazer um questionamento sobre os padecimentos ou males físicos que à altura mais afectavam a população (essencialmente rural), portuguesa ou espanhola. Dos males psíquicos aos físicos, das maleitas e tratamentos da mais variada espécie, encontra-se aliás por estudar detalhadamente tal problema nesta óptica. Afonso X foi a figura dominante da nossa lírica trovadoresca, dando assim o nome a este rico e produtivo período da quase totalidade da segunda metade do século XIII. Do período alfonsino chegaram até nós, no entanto, e ainda graças ao Cancioneiro da Ajuda, outros talentosos trovadores. Alguns deles legaram-nos, de igual modo, variadas estrofes que constituem verdadeiras invocações ao Apóstolo Sant’Iago:

Apostolo Santiago
cavaleiro muito honrado,
antre os mouros
muy esforçado...
Se vais a Santiago
compra-me um santiaguinho,
não mo compres grande,
seja pequenino.

Mas se todos os referidos poetas, representados no Cancioneiro da Ajuda, invocam com tal fervor ou ternura o Apóstolo de Compostela, vários são os autores representados no Cancioneiro da Vaticana que homenageiam, de igual forma, Sant’Iago. Do período alfonsino pertencem a este cancioneiro trovadores como Ayras Nunes Santiago, Joham Ayras Santiago (que cultivam com grande brilhantismo cantigas de amigo), Paay Gomes Charinho, bem como Pedro Amigo Sevilha, deixando-nos todos eles versos alusivos ao culto jacobeu peninsular. Quanto a Ayras Nunes Santiago, este apresenta-se-nos, segundo António José Saraiva e Óscar Lopes, como procurando de porta em porta e sem resultado uma Verdade que não existe em parte alguma, nem nos conventos e mosteiros, nem na cidade santa de Santiago de Compostela. Natural da Galiza, Ayras Nunes, que era um clérigo contemporâneo de Afonso X e de seu filho Sancho IV, apresenta-se-nos ainda hoje como um dos mais fecundos trovadores desse período.
Seu contemporâneo foi, de igual modo, o trovador Joham Ayras Nunes (que, também natural da cidade de Santiago de Compostela, visitou várias cortes e veio a Portugal ou nos fins do reinado de Afonso III ou nos primeiros anos do reinado de D. Dinis, sendo também um dos mais ricos trovadores deste período alfonsino. Conservaram-se dele até hoje cerca de 50 cantigas de amigo, 25 de amor e 10 de escárnio e maldizer. Da sua peregrinação, após a estada em Portugal, legou-nos estes significativos versos: Andey, senhor, Leon e Castela / depois que m’eu d’esta terra quytey. Naturais da cidade que conserva as relíquias do Apóstolo natural seria que tanto Ayras Nunes como Johan Ayras Santiago, desconhecemos se havia qualquer tipo de parentesco entre ambos, mantivessem nas suas trovas algumas alusões (mesmo que não muitas) ao santo padroeiro da cidade que os vira nascer. Ayras Nunes, por exemplo, apresenta-nos, no Cancioneiro da Vaticana, umas trovas votadas a Sant’Iago de Compostela, patrono da cidade onde exerceu o seu mester eclesiástico, significativas na sua qualidade poético-literária:

Em Sant’Iago seend’ albeergado
em mha pousada chegaron romeus,
preguntey-os e disserom: Par Deus,
muyto levadel’ o caminho errado;
cá se verdade quiserdes achar
outro caminho convem a buscar,
ca nom sabem aqui d’ela mandado.

In Manuel Cadafaz Matos, O Culto Português a Sant’Iago de Compostela ao longo da Idade Média, Peregrinações de homenagem e louvor ao túmulo e à cidade do Apóstolo entre o século XI e século XV, Instituto Português do Património Cultural, Lisboa, 1985.

Cortesia de IPPCultural/JDACT

sábado, 19 de maio de 2012

História e Mistérios dos Templários. Pedro Silva. «Conforme relato de um cronista muçulmano, esse massacre aconteceu na mesquita de al-Aqsa, na qual suas vítimas eram "imãs e estudantes muçulmanos”, homens devotos e ascetas que abandonaram suas terras de origem para viverem na Terra Santa em piedade e reclusão»


Cortesia de ediouro

Nascimento da Ordem
«Ao tratarmos da notável história dos Templários é necessário que se compreenda a Idade Média no século XI, no tempo das Cruzadas. O homem medieval era essencialmente religioso e, na Europa Ocidental, um fiel servidor de Deus e da Igreja. Embora estivesse sob o domínio do Senhor Feudal, esse homem não se autodefinia como um inglês, francês ou alemão, mas como cristão, tão grande era o domínio universal da fé. Como as nações ainda não existiam, não poderia existir também igrejas nacionais. Para a Igreja Romana, as Cruzadas representaram a expansão do cristianismo. O combate ao infiel muçulmano e a reconquista da Cidade Santa de Jerusalém foram incentivados pela Igreja. O papa Urbano II estava preocupado com os ataques e molestamentos dos cristãos que eram oprimidos ao se dirigirem à Cidade Santa. Exortou-os, então, a lutarem contra os inimigos de Cristo e prometeu a todos os que se empenhassem nessa causa a concessão de indulgências. O uso da violência incentivado pelo Papa foi defendido por São Bernardo, abade de Clairvaux, o qual refutou as críticas dos clérigos ortodoxos, segundo as quais o derramamento de sangue era vedado àqueles que desejassem ingressar em ordem clerical. Eis a sua exortação dirigida aos Cavaleiros do Templo:
  • Na verdade, os cavaleiros de Cristo travam as batalhas para seu Senhor com segurança, sem temor de ter pecado ao matar o inimigo, nem temendo o perigo de sua própria morte, visto que causando a morte, ou morrendo quando em nome de Cristo, nada praticam de criminoso, sendo antes merecedores de gloriosa recompensa. Assim, sendo, por Cristo! E então, Cristo será alcançado. Aquele que em verdade, provoca livremente a morte de seu inimigo como um ato de vingança mais prontamente encontra consolo em sua condição de soldado de Cristo. O soldado de Cristo mata com segurança e morre com mais segurança ainda. Serve aos seus próprios interesses ao morrer e aos interesses de Cristo ao matar! Não é sem razão que ele empunha a espada! É um instrumento de Deus para o castigo dos malfeitores e para a defesa do justo. Na verdade, quando mata um malfeitor, isso não é um homicídio, mas um malicídio [sic] e ele é considerado um carrasco legal de Cristo contra os malfeitores.

Urbano II, 1099
Cortesia de wikipedia

Com essa doutrina, as célebres Cruzadas passaram a ser apoiadas por todos os líderes máximos da Igreja contra os infiéis muçulmanos. Existia na Idade Média uma ideia de bravura que vinha directamente de ordens religiosas como as dos Jom-Vikings, cuja disciplina era mantida à custa de mil provações e tinham como maior ambição a morte em combate. Corroborando essa ideia, a Igreja tentou incuti-la em seus fiéis. Um guerreiro cristão deveria ser piedoso, afável, solícito e preferir a morte à desonra, porque esta carecia de defesa própria. Votos de castidade, bênção de armas e promessas de descanso eterno, caso morressem na defesa de um ideal, eram algumas das indulgências concedidas ao cavaleiro cristão. O Papa Gregório VII criou, até mesmo, um exército papal chamado Militia Sancti Petri, com o objectivo de disputar uma guerra santa.
Quando em 1099, os cavaleiros das cruzadas reconquistaram Jerusalém, a Cidade Santa por excelência, bem como outros lugares santos, em regiões próximas ao Oriente, numa guerra sangrenta, na qual setenta mil pessoas morreram e que durou três dias, recobrou-se a fé cristã. Conforme relato de um cronista muçulmano, esse massacre aconteceu na mesquita de al-Aqsa, na qual suas vítimas eram "imãs e estudantes muçulmanos, homens devotos e ascetas que abandonaram suas terras de origem para viverem na Terra Santa em piedade e reclusão". Desde então, deram-se início as conquistas religiosas, por meio de armas, por todo o Oriente. E isso só foi possível por causa do papa Urbano II, mentor fundamental dessa estratégia, ao solicitar a defesa intransigente da cidade de Jerusalém. Em 1100, Balduíno I sucedeu ao seu irmão, tornando-se rei e senhor da Cidade Santa. Havia o perigo constante exercido pelos muçulmanos em promover novas guerras e invasões a Jerusalém e ataques aos peregrinos que se dirigiam a ela. Com o sistema de arrecadação de tributos desestabilizado, todo o sistema de defesa existente enfraqueceu-se.

A reconquista cristã
Cortesia de wikipedia

Havia cerca de quatrocentos anos que o reino tentava se libertar do domínio muçulmano, mas, devido a todos esses factores negativos, nunca o território fora considerado totalmente cristão. Durante os anos seguintes, vários conflitos irromperam em locais que se mantiveram em permanente alerta, a fim de defenderem as possessões que, de repente, podiam ser conquistadas pelo inimigo. Mesmo as mais imponentes fortalezas não resistiram às vagas sucessivas de exércitos sedentos de vingança. Jerusalém estava isolada ao redor de territórios controlados pelos mouros e se tornara cobiçada por causa da sua importância histórico-religiosa, que, mesmo durante o domínio muçulmano, nunca deixara de ser o local preferido de peregrinação cristã». In Pedro Silva, História e Mistérios dos Templários, Rio de Janeiro, Ediouro, 2001, ISBN 85-00-00757-5, PDF.

Cortesia de Ediouro/JDACT

domingo, 6 de maio de 2012

Senhor Jesus dos Aflitos. Origens (1713 - 1845). Fortios. Portalegre. «Com a luz do “Documento 21”, tentei penetrar neste “silêncio”, que tem escondido o “facto”, nas origens. Até aos nossos dias, o “silêncio” sobre o “facto inicial” era quebrado apenas pelas “lendas”, que recolhi junto de pessoas ligadas ao lugar…»



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In Memoriam de MLAC

O silêncio dos primórdios. O facto e a lenda.
«Até hoje, com base em documentos, em relação à origem da devoção ao “Senhor Jesus dos Aflitos”, não foi possível recuar além do período de l713 - 1720. Por estes anos, é-nos atestado o “facto”. O que eventualmente esteve para trás permanece envolvido no “silêncio”. Com a luz do “Documento 21”, tentei penetrar neste “silêncio”, que tem escondido o “facto”, nas origens. Até aos nossos dias, o “silêncio” sobre o “facto inicial” era quebrado apenas pelas “lendas”, que recolhi junto de pessoas ligadas ao lugar, porque os documentos do arquivo da confraria, aos quais agora dou vida, permaneceram adormecidos e esquecidos noutro silêncio e sono prolongados.
A lenda deve ser compreendida como um “género literário” próprio para transmitir ou explicar dados realmente históricos, cujos traços exactos, na sua origem, ficaram sepultados na obscuridade da noite e da distância no tempo. Não se trata de ‘patranhas’ inventadas, mas de “história” bem real, cujos contornos escaparam a quem os vive agora e que quem a viu nascer nunca pensou em legar aos vindouros senão pela própria vivência. É o facto que explica a lenda e não a lenda que cria o facto.
Só o facto, fosse ele qual fosse, embora envolvido no silêncio, explicava as manifestações indesmentíveis de fé e de religiosidade popular, em que gerações e gerações de peregrinos participavam. E estas, à medida que o cordão umbilical mais se estendia, distanciando-se da origem, por necessidade natural, apresentaram explicações plausíveis e compreensíveis de todos, impregnadas de roupagem valiosa, mas não histórica. Para tais gerações, o importante não era a roupagem, mas sim o “facto” que, ano após ano, tinham diante dos seus olhos. É isto a lenda.
O conteúdo nuclear da lenda deve ser tido em conta; é assunto que “deve ser lido”». In Bonifácio Bernardo, Senhor Jesus dos Aflitos, Origens 1713 – 1845, Edições Colibri, 2000, ISBN 972-772-145-1.



Cortesia de Ed. Colibri/JDACT

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Fernão Mendes Pinto: «Peregrinação». Extraordinária personagem da literatura e dos descobrimentos. O Marco Pólo lusitano. Um extraordinário livro de viagens e aventuras

(1510 a 1514-1583)
Montemor-o-Velho
Cortesia de wikipédia

Fernão Mendes Pinto foi um aventureiro e explorador português.

Extraordinária personagem da literatura e dos descobrimentos, Fernão Mendes Pinto é o grande aventureiro português. O Marco Pólo lusitano. Da simplicidade de Montemor-o-Velho, viajou entre a exuberante Índia, a misteriosa China e o exótico Japão. Experiências que o levaram a escrever a «Peregrinação», extraordinário livro de viagens e aventuras, e a tornar-se uma referência da época de glória de Portugal. Pirata, soldado, mendigo, cativo... Mostrou como os homens, em qualquer parte do mundo, são iguais. «Mesmo que só um milésimo do que é contado seja verdade, já é fantástico», admira o escritor Rui Zink.
Fernão Mendes Pinto era um escritor talentoso, mas talvez seja lembrado sobretudo pela sua dedicação ao relato das aventuras dos descobrimentos. A sua «Peregrinação» contribui para esta reivindicação à história. O escritor foi protagonista de uma pequena grande história.

Cortesia de wikipédia
Oriundo de uma família de Montemor-o-Velho, cedo tomou contacto com a luxuosa vida na corte. Era ainda muito pequeno quando um tio o levou para Lisboa e o colocou ao serviço na casa do duque D. Jorge, filho natural do rei D. João II. Ali trabalhou durante cinco anos, dois dos quais como moço de câmara do próprio duque, o que lhe possibilitou preservar o elevado estatuto social da sua família, contrariando a precária situação económica que atravessava.

É aos 27 anos que parte para a Índia, ao encontro de dois dos seus irmãos, iniciando assim uma aventura ímpar na história de Portugal. «No meio da sua simplicidade, Fernão Mendes Pinto confronta-se com uma abundância do mundo que não imaginaria nos primeiros anos da sua vida em Montemor-o-Velho», refere o historiador Rui Tavares.

Cortesia de conversasdepintor
A sua viagem é contada na obra que escreve, anos mais tarde, já regressado a Portugal. A «Peregrinação» é um fantástico livro de viagens que relata, ao pormenor, todas as façanhas, aventuras e desventuras de Fernão Mendes Pinto. O seu conteúdo é exótico e raro. Descreve detalhadamente a geografia de destinos longínquos e desconhecidos para a época, como Índia, China, Birmânia, Sião e Japão. Mostra os costumes, credos e tradições destas culturas orientais. O autor é tão descritivo e aventuroso que fez nascer um rol de ironias à volta da obra. Ninguém acreditava ser possível assistir a tantas festas, guerras e funerais, tudo tão diferente e estranho ao mundo ocidental. Foi tão pouco levado a sério que muitos deixaram de chamá-lo pelo nome. Tratavam-no por «Fernão, Mentes? Minto!». Ainda hoje é assim conhecido. «É um injustiçado», diz Rui Zink. «Foi muito maltratado. Portugal foi praticamente o único país da Europa onde o seu livro maravilhoso não foi ‘bestseller’. É como se fosse o maior mentiroso da história!».

O problema de «Peregrinação», para a época, foi apenas este: o autor contava coisas totalmente desconhecidas. Ninguém aceitava que o Oriente fosse assim. Agora já é um nome respeitado mas, ainda assim «tem mais importância para os Chineses e Japoneses do que para os Portugueses», diz o jornalista Carlos Magno. Injustiça nacional a um homem «que foi escravo e senhor, mercador, guerreiro, comerciante… Foi tudo!».
A sua vida foi um carrossel. Quando partiu de Lisboa para a Índia, embarcou numa expedição ao mar Vermelho e participou num combate naval com os otomanos. Foi feito prisioneiro, vendido a um grego e, por este, a um judeu que o levou para Ormuz. Só aí foi resgatado pelos seus companheiros. A partir daí, acompanhou Pedro de Faria até Malaca, local onde iniciou as suas maiores aventuras. Foram 21 anos de imprevistos, sustos e ameaças - e muitas descobertas únicas. Viajou pelas costas da Birmânia, Sião, arquipélago de Sunda, Molucas, China e Japão. Descobriu um novo mundo.
Numa das suas travessias pelo país do sol nascente conheceu São Francisco Xavier e, inspirado pela sua força e personalidade, decide entrar para a Companhia de Jesus e promover uma missão jesuítica nesse local. O Japão foi, sem dúvida, um dos países mais marcados pela presença de Fernão Mendes Pinto, não só pela sua vertente religiosa. É o escritor quem introduz as armas de fogo nesse território, acontecimento que é comemorado todos os anos no Japão, com a realização, no último fim-de-semana do mês de Julho, em Nishinoomote, na ilha de Tanegashima, do «Teppo Matsuri», o Festival da Espingarda.

Cortesia de portugallinha
A entrada na Companhia de Jesus alterou-lhe a personalidade. Libertou todos os seus escravos, entregou a sua fortuna aos pobres e à própria ordem religiosa, em Goa. Contudo, a sua missão como “irmão leigo” dura apenas até 1557, ano em que decide pôr ponto final nessa aventura. A decisão advém da viagem que faz, novamente ao Japão, em 1554, como noviço da Companhia de Jesus e embaixador do vice-rei D. Afonso de Noronha, junto do rei de Bungo. O desencanto foi total, quer com o comportamento do seu companheiro quer com a própria Companhia. Um desgosto que o faz regressar a Portugal. «Um homem que faz do seu medo a sua coragem», analisa a actriz Maria do Céu Guerra. «Personifica a aventura do português do século XVI, que não tem poder e embarca para se safar, que aprendeu tudo o que tinha para aprender. Como os nossos emigrantes».
Já de volta ao seu país e com a ajuda do ex-governador da Índia, Francisco Barreto, Fernão Mendes Pinto compila documentos que comprovam os sacrifícios que realizou pela pátria, tendo direito a uma pensão, que… nunca chegou a receber. O escritor não queria apenas uma colher de compaixão. Queria mais do que isso. Depois deste episódio, voltou-se, abatido, e mergulhou na escuridão. Desiludido, arrumou a vontade e partiu para Vale de Rosal, em Almada, onde escreveu, entre 1570 e 1578, a sua inigualável «Peregrinação». A obra só foi publicada 20 anos após a sua morte. Receia-se que o original tenha sofrido alterações, a que não terão sido alheios os Jesuítas. Uma obra notável e admirada até hoje. «Gostava de ser capaz de escrever um livro que marcasse o tempo, que sobrevivesse à Inquisição, ao desprezo da actualidade, à censura. E que, 500 anos depois, continuasse vivo», diz Rui Zink.
A razão de censura, descrédito e crítica, nasce da sua forma de analisar as «outras» culturas, condenáveis aos olhos dos quinhentistas. Faz a imaginação voar. «Considerava que os homens eram iguais, independentemente da sua religião, credo ou situação», comenta Maria do Céu Guerra. Além disto, Fernão Mendes Pinto revelava «o outro lado» da expansão marítima nacional e criticou muitas acções levadas a efeito pelos Portugueses. Era o seu sentido de justiça a fervilhar. «Diz mal de Portugal, por amor a Portugal», justifica Rui Zink.

Cortesia de caporcoisas
Mensageiro da verdade ou criador de ilusões, Fernão é um guerreiro, um sobrevivente. Como diz Carlos Magno, «é o nosso Marco Pólo. Se fosse americano, certamente Spielberg já teria feito um filme sobre ele». In RTP, Rui Zink, Maria do Céu Guerra, Carlos Magno, Rui Tavares.

Cortesia da RTP/JDACT