Mostrar mensagens com a etiqueta Romancista. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Romancista. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 26 de abril de 2022

Os Meus Amores. Contos e Baladas. Trindade Coelho. «… deixou de chegar á praia, é que o pobre abandonou o areal e se foi, sempre a chorar, tiritando ao frio da sua desgraça, como a um vento agudissimo do Polo, na direcção do horto silencioso...»

Cortesia de wikipedia e jdact

De acordo com o original

«(…) Do barco responderam que era só marchar, de mais a mais ia romper a lua. Chegaram emfim. N'um leve silencio d'acaso ouviam-se os soluços dos dois, parece que prolongados infinitamente, na sua expressão de angustia, pelo deslisar monotono das aguas... Aquillo confrangia o barqueiro, elle tambem era pae... Por isso, mal chegaram á beira do rio, apressou-se a dizer para o pequeno: Ora bem, Joaquimsinho, beija a mão a teu pae e dize-lhe adeus. Ouviu-se um chorar lancinante, a voz do pobre José Cosme a querer animar o filho: Então, meu filho?... Deus te abençoe, meu amor... Nossa Senhora te veja ir. E fez-lhe prometter que havia de resar sempre a Nossa Senhora, elle tambem lhe resaria, pois era ella quem dava saude, quem fazia a gente feliz. Não te esqueças d'ella mais da alminha de tua mãe e de tua irmã... Mas o pequeno chorava cada vez mais, agarrado ao pescoço do pae, beijando-o sofregamente, acarinhando-o, sem forças para dizer palavra. Então o José Cosme, perdida a esperança de animar o filho, só exclamava desvairado: Valha-me Deus! O Senhor me valha pela sua infinita misericordia!

E o Joaquim sempre agarrado a elle, beijava-o na cara, na cabeça, nas mãos. Até que o Thomaz teve de intervir, era preciso despegar d'ali por uma vez. Com'assim, sr. José, isto tem de ser... E segurando o pequeno com força puxou-o para elle. Quando já o tinha nos braços, ouviu-se o José Cosme que supplicava de mãos postas: Só um instante, só um quasinadinha, Thomaz! E o pobre pae caia de joelhos na areia, n'uma attitude de supplica. Mas n'esse momento, o barqueiro saltou de um pulo para o barco, levando ao colo a creança. Rema!, intimou em voz rapida. O barco recuou então subitamente, ao mesmo tempo que os remos fizeram plhau!, sobre a agua. Então o choro do José Cosme tornou-se de uma violencia desesperada, ao ouvir a voz lacrimosa do pequeno dizendo-lhe adeus lá do barco. Adeus, Joaquim, adeus! Adeus, pae! Adeus! Mas repentinamente, com voz resoluta e firme, o José Cosme gritou na direcção do barco: Thomaz! ó Thomaz! por alma de teu pae faz lá alto um instante. Acabou-se! custara-lhe tomar aquella resolução, mas já agora era melhor ficar sósinho de todo. E segurando nos dentes um pequeno objecto, arremessou a jaqueta ao areal e d'um lance deitou-se a nado. O Thomaz que ouvira o mergulho do corpo, fez recuar o barco; mas o José Cosme, velho nadador destemido, com meia duzia de braçadas ganhou-lhe de prompto a quilha. O filho tinha-se debruçado, na ancia de esperar o pae, de o ver ainda outra vez. N'um movimento rapido, o José Cosme entregou ao pequeno o que levava entre os dentes, dizendo-lhe a chorar: É a medalha, Joaquim; é a medalhinha de tua mãe, meu filho!... Reza-lhe, sim?!

E chorando cada vez mais, o pobre José Cosme pediu ao barqueiro que lhe chegasse o pequeno para o ultimo beijo... Dado o ultimo beijo, o barco poz-se de novo em marcha. Vinha a romper a lua, enorme, torva, afogueada, como se viesse de algum banho de sangue em região mysteriosa de lagrimas... E no silencio agoireiro da noite, apenas cortado pelo bater monotono dos remos e pelo bracejar desalentado do triste nadador, á voz do filho que chamava respondia cada vez de mais longe-longe como se fôra do Infinito! a voz lacrimosa do pae, com o seu fúnebre, adeus!, que elle bem sabia ser eterno...

Só quando o echo do ultimo adeus do Joaquim, perdido na distancia, diluido no luar que surgia, desfeito no lugente murmurio das aguas, fundido no derradeiro suspiro da brisa matinal, deixou de chegar á praia, é que o pobre abandonou o areal e se foi, sempre a chorar, tiritando ao frio da sua desgraça, como a um vento agudissimo do Polo, na direcção do horto silencioso...» In Trindade Coelho, Os Meus Amores, Contos e Baladas, Projecto Gutenberg, ISSO 88589-1, 2006, produção de Carla Ramos e Ricardo Diogo e edição de Rita Farinha, Os Meus Amores, 2ª edição, Lisboa, Livraria de António Pereira, 1894.

Cortesia de PGutenberg/JDACT

Trindade Coelho, JDACT, Literatura, Leituras, Romancista, 

Os Meus Amores. Contos e Baladas. Trindade Coelho. «A esta palavra, o pae retrahiu os braços e tomando o filho no collo seguiu. Atraz, o barqueiro levava ao hombro a misera arca de pinho: toda a bagagem do Joaquim»

Cortesia de wikipedia e jdact

De acordo com o original

«(…) Não tarda que comece a amanhecer. E como estavam á porta de casa: Será bom acordar já o pequeno: veste, não veste, é tempo que se vae. Iam á vela se o tempo não mudasse. Era bom aviar, por isso. Mas á ideia de ter de acordar o pequeno, o José Cosme deixou-se cair sobre o banco que estava debaixo do alpendre, e desatou a chorar violentamente. O barqueiro tentou animal-o, constrangido. Então, sr. José?... O chorar é lá para as mulheres. Olhem agora que homem! E tentava levantal-o, pol-o de pé. Limpe lá essas lagrimas, que vae affligir o pequeno! Ou quer que elle vá a chorar todo o caminho? O Cosme fez que não com a cabeça, violentamente, e poz-se a enxugar os olhos com a manga da camisa. Pois então levante-se lá. E segurou-o com força por baixo dos braços. Assim! Lá porque o pequeno vae para o Brazil não fique vossemecê a pensar que o não torna a ver. Mas era isso mesmo o que elle pensava... Porque não sei que me adivinha que não torno a ver o pequeno, concluiu a chorar o José Cosme.

Scismas! lembranças que veem á gente quando está afflicta. Mas ha-de vel-o que o não ha-de conhecer, digo-lh'o eu. Mais anno menos anno, apparece-lhe ahi rico... Rico! bem lhe importava a elle que o pequeno viesse rico. O que desejava era que voltasse e que elle ainda fosse vivo só para o abraçar. Pois sim, mas era preciso aviar, que tivesse paciencia: o José Cosme que se animasse para animar o pequeno, recommendava o barqueiro. Sim..., sim..., tartamudeava o Cosme. Vamos lá com Deus! Com'assim… E n'um profundo ai dolorosissimo, foi-se direito á porta para chamar a pequeno. Não havia remedio, tinha nascido em má hora, havia de ser desgraçado até que o levassem para a cova... Sobre a estreita e humilde cama o filho dormia profundamente. Que dôr, ter do o acordar! Vieram-lhe tentações de mandar embora o Thomaz e deixar dormir a creança. Quem sabe se a sua sorte futura, se toda a sua vida, valeria a boa tranquilidade d'aquelle somno! Não tinha coragem para o acordar, fazel-o vestir: era quasi um peccado quebrar aquelle ultimo somno dormido sob o tecto paterno... O ultimo somno! o ultimo somno! Ainda se o deixassemos acordar..., aventurou-se a dizer o triste. Mas o Thomaz que estava com pressa, lembrou seccamente que eram horas de pôr o barco a andar.

O José Cosme accendeu então a candeia, reccioso de que a luz o acordasse, e achegando-se do filho poz-se a escutar-lhe a respiração. Dormia!... Mas brandamente pousou-lhe a mão sobre a cabeça e chamou baixinho, quasi ao ouvido, beijando-o, sobresaltado como se fosse praticar um grande crime: Filho, olha que são horas, meu filho... Quando o pequeno se sentou na cama, estremunhado, ainda sob o estonteamento do somno, cerrando os olhos áquella hostilidade viva da luz, o pae agarrou-se a elle n'um abraço, e ambos romperam a chorar. Adeus, pae! Adeus, filho!

Confrangido, o Thomaz que se deixara ficar á porta, avançou para desatar aquelle abraço. Olhe que é tarde, sr. José. Perdoe, mas olhe que é tarde! O pae vestiu o pequeno, beijou-o ainda muito, e sairam. Debaixo do alpendre, o Joaquimsito ficou-se um instante a olhar o tecto. A andorinha, filho?, perguntou o José Cosme. Deixa que eu hei-de olhar por ella, mais pelos filhos quando os tiver. Vae socegado. Mas o pequeno quiz vel-a, pediu ao pae que o erguesse, era só um instante. Lá estava ella, coitadinha! sentiu-a estremecer quando lhe tocou com as pontas dos dedos... Adeus!, disse-lhe o pequeno afagando-a.

A esta palavra, o pae retrahiu os braços e tomando o filho no collo seguiu. Atraz, o barqueiro levava ao hombro a misera arca de pinho: toda a bagagem do Joaquim. Ao transpor o cancello o José Cosme deteve-se um pouco e perguntou soluçando: Quando voltarás ao horto, meu filho? O pequeno não respondeu. Chorava constantemente de ver que o separavam de tudo o que adorava, a andorinha, depois da andorinha o horto, as arvores, a velha nora, o cancello, tudo emfim. Atravessaram então a estrada e tomaram para a banda do rio. Quando o sentiram murmurar, aperraram mais o abraço, deram-se um longo beijo, humido das lagrimas que ambos derramavam. Ah, como o triste pae desejava que o rio ficasse ainda longe, mui longe, que fugisse deante d'elles, de modo que nunca o alcançassem! Mas eis que a areia principiava, divisava-se já perto o vulto escuro do barco onde os da tripulação fallavam alto. Prompto?, perguntou ainda de longe o Thomaz». In Trindade Coelho, Os Meus Amores, Contos e Baladas, Projecto Gutenberg, ISSO 88589-1, 2006, produção de Carla Ramos e Ricardo Diogo e edição de Rita Farinha, Os Meus Amores, 2ª edição, Lisboa, Livraria de António Pereira, 1894.

Cortesia de PGutenberg/JDACT

Trindade Coelho, JDACT, Literatura, Leituras, Romancista,

quarta-feira, 27 de maio de 2020

Os Meus Amores. Contos e Baladas. Trindade Coelho. «E debruçando-se um pouco na parede, poz-se a fixar o vulto que avançava, para ver se o conhecia. Quem quer que era trazia a jaqueta sobre os hombros…»

Cortesia de wikipedia e jdact

De acordo com o original

«(…) Se por vezes parava, recolhendo-se n'uma quietação attenta, logo um gesto brusco desmanchava a sua immobilidade de estatua, soltava um fundo gemido, e punha-se de novo a andar. Vens ou não vens?, perguntava elle, evocando com dorido esforço a imagem da mulher ou da filha. Não vinha; e quando apparecia era como se fosse um relampago, apagava-se logo. N'esta lucta com a sua dôr as horas iam passando longas. Era já tarde, talvez a uma da noite. Luz, apenas a das estrellas, pois que o luar nascia tarde. Pesava sobre toda a paizagem o largo silencio da noite, apenas cortado, ao longe, pela melopeia somnolenta do rio. Um rapaz que ia na estrada olhou por acaso para o horto do José Cosmo e viu um vulto perpassar de repente e de repente sumir-se n'um recanto onde a sombra era mais densa. Temos historia..., resmungou comsigo o rapaz. E, rente a uma arvore, quedou-se alapardado, á espreita. Não desconfiou que fosse o José Cosme: aquillo era mariola de larapio que vinha por ali fazer das suas. Agachou-se então, e poz-se a procurar uma pedra. Apanhou duas, para o caso de não acertar a primeira. Cão do diabo!, exclamou baixo o rapaz, pondo-se em posição de jogar a pedra. Espera que eu te arranjo... E já ia arremessal-a na direcção do canto, quando o vulto saiu da sombra e tomou por um carreiro, direito ao logar onde o rapaz estava. Melhor! Mais a geito ficas...
E debruçando-se um pouco na parede, poz-se a fixar o vulto que avançava, para ver se o conhecia. Quem quer que era trazia a jaqueta sobre os hombros, alvejavam-lhe as mangas da camisa. A meio do carreiro, mesmo defronte d'elle, parou. Foi então que o rapaz se lembrou do José Cosme. O vulto parecia, com effeito, ser o d'elle; lembrava-se agora de ter ouvido que o pobre homem, quando o ralavam saudades da mulher e da filha, levava noites em claro, a percorrer como doido aquelles carreiros por onde ellas tinham andado. Quando ouviu soluçar, acabou então de se convencer. Insensivelmente, deixou cair as pedras e perguntou: tio José! Ó tio José! Sou eu, o Luiz... Vossemecê que tem? O lavrador não respondeu, parece que nem tinha ouvido. O rapaz insistiu: doe-lhe alguma coisa, ó tio José? Não dóe, não. Sabes que mais? peço-te pelas alminhas que me deixes. Bem me bondam as minhas afflicções. Vae com Deus, vae. O rapaz ficou surprehendido, triste do tom de supplica dorida que o José Cosme dera áquellas palavras, e retirou-se silencioso, quasi aterrado agora com a ideia de que poderia ter matado o pobre homem, caso jogasse a pedrada.
No emtanto a noite ia avançando, grave, soturna, sem outro ruido que não fosse o das aguas do rio. E o José Cosme, sem despegar do seu fadario, ia e vinha pelas ruas do horto, lembrando um automato ou um somnambulo. Ás vezes abeirava-se da porta de casa e punha-se a escutar. Como não sentia nada, voltava de novo ao seu passeio. N'isto, de uma vez que passava em frente do cancello, pareceu-lhe ouvir passos. Ó Thomaz! Sr. José!, respondeu o que entrava, n'uma voz que era mesmo voz de barqueiro. O Cosme sentiu então uma grande vontade de chorar, mas remordendo os beiços dominou-a. Como o barqueiro estranhasse encontral-o a pé, elle então redarguiu-lhe que nem se tinha deitado. Como tinha de madrugar... Pois são horas de largar, sr. José; isto vae p'r'as duas». In Trindade Coelho, Os Meus Amores, Contos e Baladas, Projecto Gutenberg, ISSO 88589-1, 2006, produção de Carla Ramos e Ricardo Diogo e edição de Rita Farinha, Os Meus Amores, 2ª edição, Lisboa, Livraria de António Pereira, 1894.

Cortesia de PGutenberg/JDACT

terça-feira, 12 de janeiro de 2016

A Catedral Verde. João Aguiar. «Então, trémulo, com a fronte coberta de suor, centrou o pensamento no seu duplo e novamente marcou, devagar, o número. E o sinal era o de chamada…»

jdact

«(…) Assim fez e deu-se bem com o método. Além destas chamadas para um número sempre ocupado, o seu, e de longos passeios em torno da casa, o resto do seu tempo continuou a ser empregue em leituras. Leu as obras de Proust e de Tolstoi, esgotou Platão e toda a literatura do Budismo Zen publicada até ao início da sua clausura, estudou Plotino, saltou para Descartes e deste para os poetas. A sua vida retomou o rumo que sempre desejara. Passou mais um ano. E, por alturas deste segundo aniversário, o homem deu-se conta de algo que lhe causou nova perturbação: começara por fazer uma chamada semanal para si próprio e com ela calava os seus instintos recônditos; a dada altura, passara a duas, e depois a três chamadas por semana; e agora eram diárias e a necessidade aumentava. Pior ainda que esse verdadeiro vício era ter começado a sentir a frustração do sinal sonoro intermitente, indicando que o número estava ocupado, por ele mesmo. Ainda e sempre, não queria falar com nenhum outro ser vivo, mas queria que o seu número estivesse livre e respondesse. Em suma: queria atender-se. Tentou reagir; chegou, até, a ligar para um número qualquer, ao acaso, porém logo cortou a comunicação, receando, com toda a lógica, ouvir uma voz humana a dizer qualquer uma das expressões mais comuns de atendimento. E esta ideia era insuportável, pois já não se sentia, mesmo fisicamente, capaz de contactar com alguém, salvo consigo próprio. Ao correr dos dias a frustração e o desejo aumentaram. Por essa altura, andava ele a fazer estranhas leituras, uma pilha de obras compradas num alfarrabista. Alguns títulos darão uma ideia: La Clef de la Théosophie, de Helena Petrovna Blavatsky, O Pensamento-Forma, de Max Williamson-Steiner e, sobretudo, The Reality Of The Doppelgänger, de um misterioso autor que se escondia atrás do pseudónimo Charles C. Smith.
Foi este último livro, sobretudo, que o influenciou, porque, honrando o título, tratava do duplo que se diz ter qualquer indivíduo da espécie humana: o Doppelgänger, que, em raras e assustadoras ocasiões, uma pessoa é capaz de avistar, momentaneamente dissociado de si mesma. Pois bem, o homem concebeu uma ideia que em breve se tornou obsessiva: levar o seu duplo a responder à chamada. Como, não o sabia, mas isso não lhe impedia o querer. E, desenvolvendo doentiamente esta obsessão, deu-lhe as dimensões de uma revelação fundamental. Se lograsse o seu propósito, provaria enfim a existência de uma outra dimensão existente no espaço-tempo, um mundo paralelo diferente daquele a que pretendia fugir de modo mais definitivo que o exílio voluntário no alto de uma colina. A partir desta fase, ele abandonou a leitura quase por completo. Os seus dias eram passados telefonando-se. Considerou que a disciplina do corpo e o treino da vontade poderiam ajudá-lo; iniciou então longos jejuns e aplicou-se a desenvolver as suas capacidades de concentração, tanto no estado de vigília como enquanto dormia, neste último caso por intermédio de exaustivos exercícios destinados a suscitar a ocorrência de sonhos lúcidos. Mais meses se esgotaram neste esforço extenuante. Até que um dia, faltava já pouco para completar o período de três anos, ao fazer o quinto telefonema desde que se levantara da cama, ouviu o sinal de chamada. A sua primeira reacção foi desligar. Pensou, naturalmente, ter-se enganado ao marcar o número e não quis arriscar-se a ouvir uma voz desconhecida. Tentou recordar exactamente a sequência de algarismos usada; pareceu-lhe ser a correcta, a do número do seu telefone. Então, trémulo, com a fronte coberta de suor, centrou o pensamento no seu duplo e novamente marcou, devagar, o número. E o sinal era o de chamada e ao fim de cinco toques o sinal parou e ouviu a sua própria voz dizer: … está?» In João Aguiar, A Catedral Verde, (A Crónica de Santo Adriano), 2000, ASA Editores, Porto, 2006, ISBN 972-41-2412-6.

Cortesia de ASA/JDACT

terça-feira, 10 de novembro de 2015

A Catedral Verde. João Aguiar. «Cortadas as pontes, o homem mergulhou na solidão e em si próprio. Com prazer? Com volúpia? Ninguém o poderia dizer, talvez nem ele próprio. Sabia, em todo o caso, que aquele passo radical fora dado para fugir à loucura que o rondava de perto»

jdact

«(…) Outro sinal de crise, bem mais grave, é a falta de ideias. Estou à espera, como dizia a Teresinha, de que uma ideia me tombe no regaço e essa espera não é nada confortável, porque comporta sempre o receio de que nada venha aterrar, de que o regaço fique estéril. Se bem que este incómodo telefonema do Filinto tenha agitado uma fibra qualquer. Ainda não sei o quê, exactamente. Vejamos, um telefonema: tinha piada usar um telefone como ponto de partida. Um homem sentiu-se (como eu o compreendo!) desfasado em relação ao mundo. O mundo, com a sua globalização e o acréscimo de escravatura camuflada trazido por essa nova forma de ditadura, mais a grosseria dos media, a desumanização, enfim: tudo aquilo que é o patamar e a sala de visitas do século XXI, o mundo, dizia eu, desgostou-o de tal forma que ele aplicou todas as suas energias para tornar possível, económica e fisicamente possível, uma retirada estratégica. Quando reuniu os meios necessários, escolheu um pardieiro arruinado, isolado, longe de tudo, aninhado no alto de uma rude colina; comprou-o, restaurou-o, dotou-o de todo o conforto que considerou ser-1he agradável e depois suspendeu, e, mais tarde cortou, os seus contactos com esse mundo que o desgostara.
Nem rádio, nem televisão, nem computador ligado à Internet, nem, sequer, estrada transitável para automóveis. As provisões acumuladas asseguravam-lhe três anos de isolamento absoluto, depois logo se veria. Uma única via de comunicação lhe restava, o telefone. Apenas na perspectiva do final desse período de três anos, para poder encomendar mais víveres. Cortadas as pontes, o homem mergulhou na solidão e em si próprio. Com prazer? Com volúpia? Com íntimo desgosto? Ninguém o poderia dizer, talvez nem ele próprio. Sabia, em todo o caso, que aquele passo radical não fora dado em busca do prazer, mas simplesmente para fugir à loucura que o rondava de perto. E o tempo passou, silencioso, na imobilidade aparente das coisas mais rápidas. O homem não se aborreceu no seu exílio. Levara consigo centenas, talvez um milhar de livros de todos os tipos e sobre todos os assuntos. As suas horas foram consumidas em leitura e nas reflexões que a leitura punha em marcha.
No final do primeiro ano assim vivido, o homem descobriu em si uma pulsão inquietante, a de pegar no seu telefone e ligar para um número qualquer. Ter-se-ia curado da repugnância que sentia pelo mundo? A esta pergunta, respondeu, após introspecção cuidadosa: não, ele continuava a sentir náuseas só com a simples ideia de avistar um seu semelhante. O desejo de usar o telefone, isto é, de comunicar com um qualquer ser humano um mero reflexo do instinto gregário comum a toda a espécie, porém nada tinha a ver com a sua personalidade, enquanto indivíduo. No entanto, esse reflexo mostrou-se suficientemente forte para lhe roubar a tranquilidade. Começou a estragar-lhe as noites e a envenenar-lhe os dias. Então, o homem decidiu iludi-lo. Considerou a possibilidade de telefonar para o serviço horário, pois não correria qualquer risco de contacto, ouviria uma simples gravação. Contudo, uma gravação já seria de mais, reflectiu. A gravação continha uma voz e essa voz seria humana. Além disso, a gravação era o resultado visível de toda uma tecnologia que ele aprendera a detestar. Foi então que concebeu a solução mais adequada, pensou ele, talvez já afectado pela solidão voluntária. Do que eu sinto vontade, raciocinou, é de executar o simples acto de pegar no telefone e marcar um número; pois bem, é simples, telefonar-me-ei a mim próprio, ligarei pera o meu próprio número. Ouvirei o sinal de ocupado e poderei desligar em paz». In João Aguiar, A Catedral Verde, (A Crónica de Santo Adriano), 2000, ASA Editores, Porto, 2006, ISBN 972-41-2412-6.

Cortesia de ASA/JDACT

segunda-feira, 9 de novembro de 2015

A Catedral Verde. João Aguiar. «Outro sinal de crise, bem mais grave, é a falta de ideias. Estou à espera, como dizia a ‘dita’, de que uma ideia me tombe no regaço e essa espera não é nada confortável, porque comporta sempre o receio…»

jdact

«(…) Abro a janela da sala grande, embora a manhã esteja fria. Ao entrar, senti o ar pesado e um vago cheiro a humidade, o que não é de espantar porque em Vale de Monges também deve ter chovido toda a noite e, de resto, continua a chover. Daqui a minutos terei de fechar as vidraças e tratar de aquecer a casa, mas de momento prefiro ficar debruçado sobre o parapeito, apesar da chuva e do vento. Aqui, ao menos, posso debruçar-me porque o mal-estar provocado pelas alturas não me afecta, evidentemente, num rés-do-chão, ainda que elevado. Agora que estou de novo em casa, aquilo a que dou atenção em primeiro lugar é ao silêncio, que em Vale de Monges pode pesar-me às vezes (raras vezes), mas nunca me esmaga. Julgo que se fosse mais novo, se os momentos em que sonho não tivessem já de ser roubados àquele rapazinho que imaginava heróis a cavalgar em pradarias e florestas, este silêncio seria cheio de murmúrios e de promessas. Ainda assim, tal como ele é hoje, quase nunca me é hostil. Em dias como este, quando trago na cabeça o ressoar brutal do trânsito de Lisboa, ele é, claramente, uma bênção.
Adriano, meu filho, menos teatro, por favor. Ou menos efeitos literários. Parti de Lisboa muito cedo, justamente para evitar a chamada hora de ponta (isto soa-me sempre a alusão porno: hora de ponta, hora da ponta..., enfim). Quando saí do apartamento o João Carlos ainda estava metido no quarto, suponho que a dormir. Ontem, avisei-o de que se acordasse bem cedo partiria imediatamente. O serão decorreu sem sobressaltos, isto é: evitámos com todo o cuidado falar de divórcios e de crises existenciais e eu abstive-me sobretudo de mencionar o nome da sua ex-mulher porque no fundo de todos os seus problemas subsiste o facto simples e surpreendente de ele ainda gostar dela. Portanto, não falámos do que nos preocupava. Era essa a ideia, afinal, readormecer os tigres que se mexiam e ameaçavam acordar.
Nesse aspecto o serão foi um êxito, embora eu me pergunte se a única solução que nos resta a ambos é a de embalar tigres. Talvez seja, afinal. É a mais natural e a mais lógica e por isso mesmo não me agrada, não tenho culpa de ter nascido complicado. Parece-me que equivale a tomar drogas. Não tão fulminantes para o físico, não tão chatas para aqueles que nos estão próximos e têm de nos aturar; mais civilizadas, por conseguinte. Porém, no final do processo, o resultado há-de ser, pelo menos, comparável. E depois, todo este andar à volta de mim próprio é, além de neurótico, estéril. E torna mais viva a inquietação de sentir o tempo a escorregar. Por isso há que encontrar uma ocupação útil, como, por exemplo, fechar a janela e decidir se vou acender a lareira ou ligar os aquecedores. Logo nesta altura, em que encontro um rumo nobre para os próximos minutos da minha vida, o telefone começa a tocar. O som irrita-me por ser tão brusco e mais ainda porque não esperava nem desejava uma chamada esta manhã.
Quando vou atender a irritação cresce, porém contenho-a. É o Carlos Filinto, meu superficial amigo e vizinho. Sinto-me obrigado a conter a irritação porque sou o responsável pelo incómodo. Dei-lhe o número do meu telefone. Ele recorda-me uma promessa imprudente que fiz há tempos e pede com insistência que nos encontremos ainda antes do almoço. Não encontro desculpa adequada apesar de a procurar. Talvez porque me apanhou desprevenido e também porque, com toda a honestidade, não me sinto em condições de lucidez suficientes para arranjar uma desculpa desonesta. Resigno-me e digo-lhe até já. De qualquer modo, teria de ir à aldeia para almoçar porque também não me sinto em condições de fazer manipulações na cozinha. Em condições, em condições..., o que quero eu dizer com isto? Será pretexto, será o encobrimento de uma inenarrável preguiça? Suspeito que sim. Mas a preguiça, no meu caso, é, justamente, um sinal de crise». In João Aguiar, A Catedral Verde, (A Crónica de Santo Adriano), 2000, ASA Editores, Porto, 2006, ISBN 972-41-2412-6.

Cortesia de ASA/JDACT

O Complexo de Culpa do Ocidente. Pascal Bruckner. «A propósito do tsunami de Dezembro de 2004, alguns até invocaram a deusa Gaia que se ergueu do fundo dos oceanos para punir a civilização industrial! Tal como a oração, a auto-acusação é um meio de agir…»

Cortesia de wikipedia e jdact

A Presunção da Aversão a Si Próprio
«(…) A aversão ao Ocidente, este prazer na condenação e na dilaceração, é tipicamente ocidental. Os sumos sacerdotes da difamação, com os seus anátemas, limitam-se a sublinhar a sua pertença a um universo que para eles é execrável. Esta desconfiança que pesa sobre os nossos êxitos mais retumbantes arrisca-se a degenerar em derrotismo fácil. O espírito crítico ergue-se contra si próprio e destrói a sua forma. Porém, ao invés de sair engrandecido e purificado, devora-se numa espécie de autocanibalismo e, nessa destruição, apela e uma morosa volúpia a que nada resiste. A hipercrítica que tudo destrói redunda então num ódio de si próprio. Da recusa dos dogmas nasce um novo dogma destruidor. Enquanto Europeus e Norte-americanos, compete-nos apenas expiar eternamente os males que infligimos aos outros povos. Será difícil entender que, desta forma, nos tornamos capitalistas da auto-acusação e que esgrimimos um singular orgulho em ser os piores? Com efeito, a autodifamação esconde dificilmente uma glorificação distorcida. Somos a origem de todos os males, ao passo que os outros homens são animados pela simpatia, benevolência e candura. É o paternalismo do remorso: julgarmo-nos reis da infâmia é, ainda assim, ocupar um lugar cimeiro na História. Desde Freud, sabemos que o masoquismo não passa de um sadismo invertido e de uma subvertida vontade de dominar. A Europa continua a ser messiânica em menor escala, é uma militante da sua própria fraqueza e dissemina a humildade e o pudor (verifica-se até um cepticismo fanático que reproduz de certa forma a fé que pretende extinguir: por exemplo, quando Cioran afirma que negar o carácter intermutável das ideias é estar condenado ao derramamento de sangue, transmite uma ideia cujos factores não são intermutáveis; em moldes similares, quando, em nome da caridade, o filósofo Gianni Vattimo pede ao cristianismo que reconheça que não é o único detentor da verdade e que doravante, no diálogo intercultural, deve calar-se e escutar os outros, reconciliando-se com a sua vocação universalista, isenta de implicações coloniais imperialistas e eurocêntricas, profere uma afirmação que recai na categoria do artifício do orgulho, assim designada por La Rochefoucauld; porque esta reivindicação unívoca não se dirige ao Islão nem ao Budismo ou ao Hinduísmo; o cristianismo seria assim o único credo a reconhecer o carácter parcial dos seus ensinamentos. É ainda em nome da noção do cristianismo como religião única que ela aceita retrair-se diante das restantes pois é a única que reconhece a pluralidade de crenças e a relatividade dos dogmas). A sua aparente autodepreciação disfarça mal uma enorme presunção. Vê a barbárie como o seu direito exclusivo, é o seu orgulho, e nega-a aos outros, descobrindo circunstâncias atenuantes (uma forma de isentá-los de toda a responsabilidade).
Ela arroga-se assim a única ré de actos desumanos e exibe o estigma dessa malevolência, tal como outros exibem as suas medalhas. Nem as catástrofes escapam a esta mania das grandezas, muitos analistas vêem no menor ciclone, inundação e tremor de terra a mão pérfida Europa e da América. A propósito do tsunami de Dezembro de 2004, alguns até invocaram a deusa Gaia que se ergueu do fundo dos oceanos para punir a civilização industrial! Tal como a oração, a auto-acusação é um meio de agir simbolicamente à distância quando nos sentimos impotentes. Atribuir ao homem a culpa de todas as desgraças do mundo é uma megalomania ímpar. Uma certa corrente da Ecologia dá provas de um antropocentrismo desenfreado e confirma o nosso estatuto de senhores e destruidores do planeta. Crer que amanhã, por exemplo, controlaremos a chuva e o bom tempo e que eclipsaremos a natureza é reincidir numa ilusão prometeica, à semelhança, dos adeptos mais fanáticos do progresso. Podem pôr tudo em causa! Tudo, excepto a nossa perversidade! Eis a prova mais flagrante do imperialismo invertido. A descolonização privou a Europa do seu poder e o seu peso económico declina continuamente mas, de acordo com uma avaliação muitíssimo exagerada, continuamos a ver-nos como o malévolo centro de gravidade do universo». In Pascal Bruckner, La Tyrannie de la Pénitence, Essai sur le Masochisme Occidental, Editions Grasset Fasquelle, 2006, O Complexo de Culpa do Ocidente. Publicações Europa-América, 2008, ISBN 978-972-1-05943-6.
                 
Cortesia de PEA/JDACT         

O Complexo de Culpa do Ocidente. Pascal Bruckner. «A razão ocidental é esta aventura única de auto- reflexão a que nenhum ídolo resiste e que ataca a tradição e a autoridade. Mal nasceu, a Europa revoltou-se contra si e cedeu o seu coração ao inimigo, submetendo-se a um reexame permanente»

jdact

As patologias da dívida. Ceder o coração ao inimigo
«(…) Convirá a este propósito distinguir o colonialismo que para nós, modernos, à semelhança do fascismo e do comunismo, é condenável por princípio e os vários e complexos processos de colonização, simultaneamente benéficos e perniciosos, cujo historial é reconstituído pelo trabalho meticuloso do historiador fiel aos factos e à clareza. Em todo o caso, a colonização não terá impedido a criação de laços e a preservação de relações de estima e amizade meio século após o seu término. Enquanto franceses, dois mil anos após estes acontecimentos, não podemos deixar de reconhecer que a invasão romana da Gáia foi afinal positiva e que, se Vercingétorix não tivesse sido derrotado por César em Alésia e a cultura greco-latina não tivesse penetrado no território, teríamos sido durante muitos séculos uma miríade de tribos rudes com cultos religiosos obscuros. Em moldes similares, até ao século XV, o domínio árabe em Espanha permitiu o aparecimento de uma civilização extraordinária e o próprio império otomano teria sido mais breve se, sob certos aspectos, não tivesse representado um autêntico progresso. O que não quer dizer que, num ou noutro caso, as nações não se tenham insurgido contra a dominação estrangeira e lhe tenham posto um fim (nunca é demais lembrar que a conquista e o expansionismo não foram feitos exclusivamente europeus; todas as grandes civilizações, os Persas, os Mongóis, os Chineses, os Aztecas e os Incasm, foram colonizadoras; os muçulmanos invadirem a Pérsia, a Índia, o sueste asiático, o Sudão e o Egipto, destruindo as religiões locais e massacrando os rebeldes; mas estes factos raramente são mencionados na historiografia oficial; sintomática deste estado de espírito é a excelente compilação de Marc Ferro sobre os crimes do colonialismo; não há qualquer referência à conquiste árabe nem ao império otomano; politicamente correcto, a quanto obrigas). Num regime colonial, os povos colonizados são infantilizados, rebaixados e humilhados, enquanto as potências coloniais lhes corrompem a alma, espezinham as suas crenças e deturpam a sua essência. Lemos hoje com assombro os documentos coloniais que justificam o domínio das raças inferiores pelas raças superiores e parece-nos insensata a obstinação de uma certa esquerda durante a Quarta República (Guy Mollet, François Mitterrand, Robert Lacoste) quer querer manter a Argélia no seio francês. Dizer que desaprovamos é pouco, está fora de questão, Eis a razão pela qual a tentativa de embargo de um certo Islão vingativo, o dos wahabitas sudaneses ou dos Irmãos Muçulmanos, às sociedades europeias se assemelha a uma iniciativa colonial que deve ser contrariada. Ou o Islão se torna, entre nós, numa religião como as outras ou esbarra com uma sólida resistência por parte de homens livres para os quais o jugo do fanatismo, dois séculos depois da Revolução Francesa, é exasperante.
Como pode uma civilização como a europeia, responsável pelas piores atrocidades e pelas realizações mais sublimes, ver-se exclusivamente pelo prisma da maldição? Se a Europa foi dominada por uma verdadeira paixão pelo genocídio, foi também ela que permitiu conceptualizar certos crimes como os genocídios e que, depois de 1945, se distanciou da sua própria barbárie para dar a esta palavra um sentido preciso, arriscando-se a fazer recair a acusação sobre ela própria. A Europa é simultaneamente uma fabulosa máquina que produz malefícios e que os contém. A singularidade da Europa reside no facto de não se esquivar aos seus fantasmas e conhecer na perfeição os males de que padece e a fragilidade das barreiras que a separam da sua própria ignomínia. Esta extrema lucidez impede-a de apelar a uma cruzada do Bem contra o Mal e, em alternativa, incita-a a propor o conflito entre o preferível e o detestável, segundo a fórmula de Raymond Aron. Os governantes europeus nunca subscreveriam as palavras de W. Bush, no dia após os atentados do 11 de Setembro de 2001. Há algo que nós, filhos do Velho Mundo, sabemos: não somos bons (mas perfectíveis). A Europa é o pensamento crítico em acção: um pensamento que desde o Renascimento assenta no cerne da dúvida que o nega e sobre o qual recai o olhar de um juiz intransigente. A razão ocidental é esta aventura única de auto- reflexão a que nenhum ídolo resiste e que ataca a tradição e a autoridade. Mal nasceu, a Europa revoltou-se contra si e cedeu o seu coração ao inimigo, submetendo-se a um reexame permanente. Se a incriminação do sistema é integrada no próprio sistema e se, por exemplo, a história colonial é contestada desde o começo pelas diversas correntes do anticolonialismo, estes espectos devem-se ao facto de a sociedade europeia, para além de se reger pelo princípio da expansividade, ser um espaço de pluralismo e de relatividade de crenças e credos. Acrescem aos antagonismos entre países em determinada área geográfica as intrínsecas e fundamentais divisões nacionais. Não defendo que a Europa é superior apenas por duvidar da sua superioridade. Todavia, pelo menos sob este especto, difere de todas as outra culturas que não duvidam sistematicamente das suas certezas. Tal como o Velho Mundo, ninguém se exime à dúvida». In Pascal Bruckner, La Tyrannie de la Pénitence, Essai sur le Masochisme Occidental, Editions Grasset Fasquelle, 2006, O Complexo de Culpa do Ocidente. Publicações Europa-América, 2008, ISBN 978-972-1-05943-6.
                 
Cortesia de PEA/JDACT

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

Os Meus Amores. Contos e Baladas. Trindade Coelho. «Poucas flôres: uma coisa que todos notavam com estranheza. Mas desde que lhe morrera a mulher mais a filha, o José Cosme deixara-se de as cultivar, e nos canteiros assim devolutos tinha semeado repolhos»

Cortesia de wikipedia e jdact

De acordo com o original

«(…) Meia hora depois regressava, o Sultão pela arreata, o Manoel no meio dos saccos, e adeante do Manoel o bello garrafão, sem pinga... Pelo caminho, a todos o Thomé contava a historia, a rir como um perdido, n’um ah!, ah!, de gargalhadas sonoras, muito intimas. Colheita rica, sim senhores, um colheitão! E parando á porta, ainda a mulher se benzia do alto da escada, mexendo e remexendo o alguidar de barro: Nome do Padre, do Filho, do Espirito Santo. Ao mesmo tempo que o Thomé, abrindo os braços, respondia reclamando as sopas: Amen!

Ultima dadiva
Distante do rio apenas um tiro de bala ficava o horto do José Cosme, bello horto ainda que pequeno, todo mimoso de fructas e hortaliças, fechado entre velhas paredes musgosas, atufadas em silvedo, communicando com a estrada por um pequeno portelo mal seguro. E eis ali quanto ao pobre homem restava dos seus antigos haveres: o horto, a um canto a nora, e perto da nora, sob a umbella tufada e virente da antiga magnolia gigantesca, a misera casinhola de alpendre, apenas com uma porta e duas janellitas lateraes mas toda pittoresca das heras que a revestiam, que lhe pendiam dos beiraes enlaçadas com as trepadeiras. De modo que na primavera, quando as parasitas abriam serenamente os seus melindrosos calices sobre esse fundo de verdura reluzente, e a magnolia toda se toucava de flores fazendo docel á vivenda, aquelle pequeno canto d’horto, com a sua nora e com a sua agua espelhante e limpida, tomava a feição ingenua de uma delicadissima tela de paizagista, aquarela deliciosa, alegre e idyllica, cheia de encantos na poesia rustica da sua simplicidade.
No verão, ás horas de calor, quando o sol caía a pino sobre a larga paizagem adormecida e turva, e as arvores da estrada não davam sombra que aliviasse, aquella tranquillidade com que o José Cosme ressonava sob o alpendre, braços nús e peito nú, o chapeirão de palha grossa resguardando-lhe a cara, fazia inveja aos que por ali passavam, cançados e cheios de poeira, flagellados por aquella estiagem inclemente. Ó tio José!, gritavam-lhe do caminho. Tio José! Ó regalado! Mas os que entendiam de lavoura, proprietarios e maioraes, esses deixavam dormir o José Cosme e ficavam-se a admirar o horto. Ora na verdade!... Bello horto, sim senhores! Por aquellas redondezas não havia outro que se lhe comparasse, tão esmerada era a sua cultura, tão esmerada e tão completa, pois que de mais a mais nem palmo de terra ficara inculto. Nas leiras, dispostas com symetria agradavel, verdejavam cheios de viço, frescos e medrados, legumes de todas as castas, desde a alface muito tenra, de folhas verde-claras, toda acaçapada no chão humido das regas, até ás trepadeiras das vagens que enroscadas ascendiam pela basta rodriga de castanho aparada com todo o esmero, formando massiços de verdura sombria que os casulos esguios dos feijões crivavam de alto a baixo. Arvores, apenas as precisas para aformosearem o horto, sem prejudicarem com a sombra a vegetação franca das hortaliças. Mas todas as que havia eram mimosas de fructas nas estações competentes, cerejas, peras, maçãs, pecegos mesmo.
Poucas flôres: uma coisa que todos notavam com estranheza. Mas desde que lhe morrera a mulher mais a filha, o José Cosme deixara-se de as cultivar, e nos canteiros assim devolutos tinha semeado repolhos, que por signal vinham enfezados. Só teve o cuidado de não deixar morrer os goivos. Uma vez por anno, em fins de Maio, colhia-os todos de uma vez, e ia leval-os em braçado á sepultura rasa das suas defunctas. Exactamente n’essa tarde tinha elle ido ao cemiterio fazer a fúnebre visita. Quando se recolheu era já noite. Mal acabou de cear levantou-se bruscamente da mesa e foi-se para o horto, com uma grande vontade de chorar. Estava nas suas horas tristes, n’essas horas em que as energias todas da sua alma e até as do seu corpo vergavam sob o flagello de uma dôr violenta, exacerbada agora pela saudade dos que lhe tinham morrido... E para maior desgraça fugira-lhe o bem das lagrimas. De modo que sem esse lenitivo, aquellas medonhas tempestades custavam o dobro a supportar. Abstracto, n’uma especie de entorpecimento idiota, percorria sem descanço todas as ruas do horto, cabisbaixo, acabrunhado, autómato». In Trindade Coelho, Os Meus Amores, Contos e Baladas, Projecto Gutenberg, ISSO 88589-1, 2006, produção de Carla Ramos e Ricardo Diogo e edição de Rita Farinha, Os Meus Amores, 2ª edição, Lisboa, Livraria de António Pereira, 1894.

Cortesia de PGutenberg/JDACT

Os Meus Amores. Contos e Baladas. Trindade Coelho. «Dir-se-hia que no fundo da sua memoria, a lembrança porventura adormecida d’aquelle nome despertara subitamente... Eh! Eh!, riu-se muito satisfeito o lavrador. O burro, agora, vira-se p’ra ali»

Cortesia de wikipedia e jdact

De acordo com o original

«(…) Por um desfastio, o outro concordou. Mas lá lhe parecia historia que o burro tomasse para a aldeia... Vinha de tão má vontade, que até lhe custara tiral-o de casa. Olhe que vae pr'os Casaes! Digo-lhe então que vae pr’os Casaes...,affirmou. Melhor p’ra você. Mas nós veremos p’ra onde vae. Você está pelo dito?, quiz saber o Thomé. Sim senhor, estou! Pois que duvida tem que estou?, disse-lhe o outro n’um rompante. Olhe: uma, duas, tres; ás tres largo-lhe a arreata. Ia já a abrir a bocca para dizer, uma! Alto!, fez o Thomé. Espere lá um pouco. Primeiro hei-de fazer duas festas ao animal. E pôz-se a bater-lhe na anca, no pescoço, no peito, demorando-se um pouco a fital-o de frente, para que o animal o conhecesse. Sultão!, gritou-lhe de repente. Eh! Sultão! O burro estremeceu... Dir-se-hia que no fundo da sua memoria, a lembrança porventura adormecida d’aquelle nome despertara subitamente... Eh! Eh!, riu-se muito satisfeito o lavrador. O burro, agora, vira-se p’ra ali. Isso. Nem é p’r’os Casaes nem p’r’o logar. Assim. Eh! Eh! E afastou-se para o lado, aguardando.
Uma anciedade dominava n’aquelle momento os do grupo; o Thomé pôz-se a roer as unhas, nervoso... Então você porque espera? perguntou. Ouviu-se logo a voz do outro, dizendo: Á uma!... O Thomé sentiu um calafrio; sapateava nervoso, cheio de medo, o olhar de esguelha, e entre os dentes ferrados o pollegar da mão direita..., ás duas! Ih!, c’um raio!..., dizia baixo o Thomé. E sem querer, os olhos cerraram-se-lhe com força. ...ás tres! Foi então um barulho de palmas, um berreiro atroador de vivas e gargalhadas! O Thomé vencera: corriam todos a abraçal-o, affirmando que o caso era para foguetes. Viva o sr. Thomé! Viva o Sultão! Aquillo é que é burro! Aquillo é que é amigo, hão-de vocês dizer!, emendava o Thomé a rir. Tenho-os com dois pés, que não valem metade...
Oh!, sr. Thomé!, protestavam alguns. Isto não é com vocês, mas é como quem se confessa... Está visto que não é com vocês. E ria, ria como um perdido, emquanto, estrada fóra, o Sultão corria que voava, cauda no ar, corda de rastos, perdendo-se por fim lá ao fundo, na poeirada immensa da estrada, como que nimbado n’um resplendor de apotheose. E na peugada do burro, esbaforido e como doido, seguia agora o lavrador, após o fraternal abraço, pregado no dos Casaes... Quando o Thomé chegou a casa, offegante, a suar, cheio de gestos e de palavras entrecortadas de riso, já o Sultão, relinchando, pateava á porta do antigo cortelho, n’uma grande impaciencia, um rap-rap continuo na soleira. Venham vêr! Venham cá vêr!, berrava o Thomé para a vizinhança. Ó Antonio! Ó compadre! Ó Maria Engracia!
Ás janellas assomava gente, perguntando se era fogo. Qual fogo, nem qual carapuça! É o Sultão, mas é! Este inimigo! Ó Josepha! Josepha!, cá temos o burro, este demonio. Assoma. Ora imaginem agora os senhores, se podem, a effusão do lavrador. Abraços? E até beijos. Aquillo era um thesoiro perdido que reaparecia alfim. A mulher, do alto da escada, benzia-se, perguntando se o seu homem teria endoidecido... Palavra de rei, Sultão, palavra de rei! Anda d’ahi pelos saccos. São só dois. Ó Josepha! Ouves?, p’ra cá esse garrafão que está ao pé da arca, avia-te. A caneca tambem, ouviste? Essa das riscas vermelhas, a maior. E atirando as mãos ambas para a albarda, montou muito regalado, de um pulo. Ah! A senhora Josepha assomava, ajoujada com o enorme garrafão. Anda, mulher, põe aqui deante de mim. Avia-te. Ia a boa da senhora Josepha arriscar uma observação, um conselho, qualquer coisa de tomo... Adeus, minhas encommendas! Não me fanfes, mulher, não me fanfes. Põe aqui, que mando eu, avia-te. Assim. Está bem. Nome do Padre... Então que lhe queres? Deu-me agora p’r’aqui! Nome do Padre, nome do Filho... A caneca! Venha de lá agora a caneca! ...nome do Espirito Santo! Passa bem, ó mulher, concluiu ás gargalhadas, entre as gargalhadas dos demais. Ouves? Quando o Manoel vier dos ninhos, esse maroto, manda-m’o ás eiras. A trote, Sultão! Eh! valente! E lá parte, veloz como uma setta. Já de longe volta-se do repente: Josepha!, ó Josepha!, n’esse alguidar do meio umas sopas de vinho p’r’o Sultão, ouviste? No do meio. O grande é muito grande, e esse pequeno não presta. Ouves?,mas quer-se coisa que farte, bem entendido. E de novo despediu como uma flecha, abraçado ao garrafão. Arreata para a direita, arreata para a esquerda, pernas a dar a dar, elle lá vae n’uma corrida, sumido n’uma onda de poeira, até chegar ás primeiras mêdas. Vinho, rapaziada! Ó Maria do Carmo, toma lá uma pinga, mulher! Lá por andarmos de mal ha 15 annos isso acabou-se! E o Thomé atravessou a eira sempre a cavallo no Sultão, caneca de vinho para a direita, caneca de vinho para a esquerda». In Trindade Coelho, Os Meus Amores, Contos e Baladas, Projecto Gutenberg, ISSO 88589-1, 2006, produção de Carla Ramos e Ricardo Diogo e edição de Rita Farinha, Os Meus Amores, 2ª edição, Lisboa, Livraria de António Pereira, 1894.

Cortesia de PGutenberg/JDACT

Os Meus Amores. Contos e Baladas. Trindade Coelho. «Mente?!, perguntava o outro de lá, assanhado. Como um judeu!, cuspia-lhe da outra banda o Thomé. De modo que para o convencerem, foi preciso afinal leval-o quasi á má cara, chamar-lhe homem de rixas»

Cortesia de wikipedia e jdact

De acordo com o original

«(…) Vamos lá! Vamos lá! As pás, ó tu que cantas? Deixa-me por ahi alguma, que eu depois te ensinarei, ouviste? Que faz ahi no chão esse rasouro, ó coisa? Olha p'r'o que estás a fazer, tu: esses saccos que fiquem bem atados. O criado, que ia abalar com a carrada, perguntou, já de aguilhada no ar, se era preciso mais alguma coisa. Não, pódes ir. Ouves? Lá em casa que tenham a ceia a horas. Avia-te. Ouves, Francisco? Não piques os bois, a carrada é valente. A passo, deixa ir os animaes a passo. Vae-te.
Como o carro chiava, levantou a voz para dizer: Olha, descarrega na tulha do meio. Na tulha do meio, não ouves? Os bois para o lameiro. Mas o Francisco apontou dois saccos que ficavam: seria preciso vir por elles? Não vale a pena, lá irão. E depois, para aquella gente, observou que bem sabia elle quem os levava, aquelles dois saccos... Com mil demonios! Apostar que vocês não adivinham? Elles sabiam lá?... Quem quer podia levar os dois saccos, olhem agora! O Sultão, sabem? O Sultão! Esse é que os levava. E digo-vos então que valia o dobro a colheita, assim me Deus salve! Alguns riram da lembrança. Tinha graça que a scisma do animal não lhe passava nem á mão de Deus Padre! A modos que isso é já mania, ó sr. Thomé? Nisto, porém, o lavrador soltou um oh! de surpreza. Voltaram-se todos que era? Na estrada que a eira dominava, um homem ia passando, a cavallo. Vocês não querem vêr, ó rapazes?!, perguntou o lavrador, fazendo-se pallido. Aquelle burro, hein? Se não é o Sultão é o diabo por elle...
Recordaram: estrella malhada na testa, a mão direita branca... É elle, com um milhão de diabos! Não ha que vêr! E aquelle é o ladrão! E cuspindo nas mãos, e arregaçando mais as mangas da camisa, arrancou, d’um abanão, o cabo d’uma espalhadoura e botou a fugir direito á estrada. Prestes ouviu-se um berreiro, as mulheres do rancho em alarido: Que o mata!, gritavam todas. Ai que o mata! Acudam! Ai a desgraça! Nem a alma lhe deixa! Acudam! Os homens deitaram a correr atraz d’elle, affluia gente de todas as bandas da eira, os cães ladravam. Então, sr. Thomé?, olhe que se perde, sr. Thomé!, diziam-lhe, já agarrados a elle. Largue o cabo, que se desgraça! Tudo se faz a bem, sr. Thomé, largue vossemecê o cabo! Qual bem nem qual diabo! Qual larga? Arreda! Racho-lhe as costellas, mais a vocês, se me não largam! Arreda! E esbracejava furioso, levando-os de roldão, agarrados a elle mais ao cabo. Chegou a ferir um, os outros desanimaram por instantes. Vê, sr. Thomé?! Não via nada, não queria ver cousa nenhuma! Arreda! E n’um rompante de ira, abrindo brecha com um sarilho, de um pulo saltou á estrada, aos tropeções nas pedras que encontrava, mal se equilibrando.
Abaixo!, intimou. Você é um ladrão! Um quê? Um ladrão! É meu esse burro! Hei-de matal-o aqui, seu patife! Deixem-me! Larguem-me! Ha-de ahi ficar estendido, como um cão! E no meio da malta em alvoroço, com a arreata do burro na mão esquerda, e na direita o minacissimo cacete, berrava que o deixassem, que ia tudo razo, com seiscentos milhões de diabos! Seguiu-se altercação, vieram razões de parte a parte, insultos. Já lhe disse que você é um ladrão! Ladrão será você!, tornou-lhe o outro já de pé, avançando de punhos cerrados. E não m’o diga outra vez, que o racho!
Afflictas, algumas mulheres voltavam-se, de mãos postas, para a capellinha proxima, rogando o soccorro da Virgem. O lavrador entrava de tremer como varas verdes, desfigurava-o a raiva, uma saliva muito branca bordejava-lhe os cantos da bocca. Pela camisa rota, via-se-lhe já um pedaço de hombro. Tinham, alfim, conseguido arrancar-lhe o cacete, mas agora esbracejava, punhos no ar sobre aquellas cabeças em desordem. Já, para uns certos do grupo, o homem do burro se desculpava: tinha-o comprado a uns ciganos, fossem lá adivinhar que o burro era roubado... Vê, sr. Thomé?, acudiram logo uns poucos. O homem não tem culpa. E gritavam-lhe aos ouvidos: Não tem culpa! Comprou o animal na boa fé. Vês-ahi está! Mente!, objectava incredulo o Thomé, cada vez mais irado. Mente!
Mente?!, perguntava o outro de lá, assanhado. Como um judeu!, cuspia-lhe da outra banda o Thomé. De modo que para o convencerem, foi preciso afinal leval-o quasi á má cara, chamar-lhe homem de rixas, despropositado, bulhento. Elle então, abrindo os braços como se fosse para nadar, socegou um pouco, amainou, prometteu levar aquillo com paciencia, ás boas. Chegou quasi a pedir desculpa, limpando com a manga branca as bagas das camarinhas. Mas tinha perdido a cabeça, que lhe queriam? Chegou-se por fim a um accordo. Sim, senhores, accommodava-se, mas punha uma condição: largasse elle o burro, e o burro é que havia de resolver... Serve-lhe o contracto? Qual contracto? Mau! Larga-se o burro, você entende?, deixa se o burro ás soltas. Depois, é p’ra onde elle fôr. Se o burro larga p’ra traz, lá p’r’as bandas d’onde você vem... Você d’onde vem? Dos Casaes. Pois ahi está. Se o burro tomar p’r’os Casaes, o burro fica seu... E tomando direito á aldeia, é do sr. Thomé, concluiram alguns do grupo, conciliadores. Nem mais! Serve-lhe assim? Diga se lhe serve assim». In Trindade Coelho, Os Meus Amores, Contos e Baladas, Projecto Gutenberg, ISSO 88589-1, 2006, produção de Carla Ramos e Ricardo Diogo e edição de Rita Farinha, Os Meus Amores, 2ª edição, Lisboa, Livraria de António Pereira, 1894.

Cortesia de PGutenberg/JDACT

quarta-feira, 9 de setembro de 2015

Os Meus Amores. Contos e Baladas. Trindade Coelho. «Dois annos depois. Tarde d’agosto. Ao longe, fechando o horizonte que a eira dominava, as arestas dos montes quebravam-se n’uma sombra egual, e embaciavam ainda o poente as suaves, brandas pulverizações…»

Cortesia de wikipedia e jdact

De acordo com o original

«(…) E piamente, como fanatico, achava verosimil a lenda da burra que fallou, historia que uma tarde, passando, o abbade lhe contara. Tanto que mais de uma vez, dando ao burro as boas-noites, extranhou com certo desgosto que o Sultão lhe não respondesse: boas noites! Mas o demonio, que sempre as arma, armou-lh’a tambem um dia! Foi ao cortelho, de manhã cedo, e não encontrou o burro. Ficou parvo! Poz-se a mirar, espantado, a loja que lhe pareceu enorme, e além de enorme,-gelada... Ó Josefa! Josefa! entrou de gritar da rua. Ó Josefa! A mulher assomou á janella, sobresaltada. Queres apostar que me roubaram o burro, ó mulher?! Que te roubaram o quê?, fez Josefa, muito attonita. O burro, o Sultão! Vem cá ver que m’o roubaram! E como ao tempo acudira já o Manoel, em camisa, descalço, romperam todos tres na gritaria, defronte do cortelho vazio: á d’el-rei! Á d'el-rei! Á d'el-rei! Até que o regedor, que era compadre, intervindo estremunhado, poz na peugada do burro, mais dos larapios, os cabos que compareceram.
Mas em vão! Um a um foram regressando, pelo dia adeante, e desfechando ao peito abatido do Thomé a negra e vazia palavra: Nada!...

Dois annos depois. Tarde d’agosto. Ao longe, fechando o horizonte que a eira dominava, as arestas dos montes quebravam-se n’uma sombra egual, e embaciavam ainda o poente as suaves, brandas pulverisações doiradas da ultima luz do sol. Riscos vermelhos de nuvens, como grandes vergas de ferro levadas ao rubro, destacavam immoveis n’um fundo verde-mar, esvaecido e meigo, raiado de listrões de uma coloração leve de laranja. Pequenos algodões transparentes, com alvuras de neve, cortavam aqui e além, alegremente, a monotonia profunda do azul. N’um deslado, sob  os castanheiros proximos, surgiam os telhados da aldeia, a torre branca da igreja, as paredes caiadas da escola. A vasta eira commum, levemente accidentada, apresentava áquella hora o aspecto tranquillo e de paz de uma grande officina em repouso. Poucas mêdas, iam no fim as colheitas: mais uma semana, duas quando muito, e estaria tudo recolhido. Já sobre a palha das parvas ou ao sopé das mêdas altas, entre os utensilios da trilha e a creançada estridula que brincava, os da lavoura descançavam, vermelhos da soalheira intensa de todo o dia, alguns deitados, em mangas de camisa, peito nú, arregaçados os braços musculosos, n’uma prostração regalada de matilha que alfim tem a sua hora de socego, após um dia de caçada. Parecem prostrados da fadiga os proprios malhos, os trilhos, as pás, os baleios que levaram todo o santo dia varrendo o chão em volta das parvas. E aqui e ali, dando uma sensação agradavel de fartura, perfilam-se os altos saccos no meio das rasas, extravasando de grão.
Além, gente em mangas de camisa, ao redor de um grande montão de palha triturada, vae limpando, visto que sopra um ventinho. E sente-se sobre as pás a chuva do grão, ao mesmo tempo que a palha, voando, faz monte da outra banda, e os baleios, em mãos de mulheres, não cessam de arrebanhar o grão, altissimas angarellas, vae-se enchendo de palha; emquanto outros, atulhados de saccos, em rimas entre as cancellas mais baixas, estridulamente chiando abalam para as tulhas, levados pelos bois gigantes. Eiras além, livres dos trilhos que ficavam em cima da palha, levas de bois caminhavam vagarosamente, as largas orelhas pendentes, caudas oscilantes afagando nas ancas espaçosas o luzidio pêllo. E lá vão encosta abaixo, roçando pelos troncos asperos dos castanheiros a enorme corpolencia, fartar o largo bandulho á serena agua das ribeiras, sorvendo vagarosamente, impando a cada sorvo, pesadamente, monotonamente, parece que insaciaveis no meio da agua em que se atolam, submissa...
Ao fundo da eira, rente aos castanheiros escuros, um rancho de mulheres cantava alegremente, em côro. Acabara de ensacar-se o ultimo grão da farta colheita do Thomé da Eira. Colheita rica, sim senhor!, vinham dizer-lhe os visinhos. A primeira da aldeia! Qual?, isso sim!, vão vocês vêr a tulha. Muita palha, é que vocês hão de dizer, muita palha e pouco grão... E muito azafamado, sem prosapias de maioral nem geitos de soberba, as mangas arregaçadas pelos cotovelos, O Thomé ia e vinha, dando ordens, repetindo avisos, distribuindo aqui e além as ultimas tarefas. Ahi vae um sacco, ó tu! É p’r’as rabeiras. Que não fique nem um grão, ouviram? É aviar, toca a aviar! Cautela que não fique por ahi alguma coisa esquecida: essas pás, esses baleios, tudo isso. Margarida!, ó Margarida!, qu’é da tua rasa? Deixa!, se vae no carro está bem. E era como um doido a metter-se no serviço de todos, muito expedito, loquaz, alegre, pedindo pelas bentas almas que se não deixassem agora dormir...» In Trindade Coelho, Os Meus Amores, Contos e Baladas, Projecto Gutenberg, ISSO 88589-1, 2006, produção de Carla Ramos e Ricardo Diogo e edição de Rita Farinha, Os Meus Amores, 2ª edição, Lisboa, Livraria de António Pereira, 1894.

Cortesia de PGutenberg/JDACT

segunda-feira, 7 de setembro de 2015

Os Meus Amores. Contos e Baladas. Trindade Coelho. «Accudia gente aos postigos, ás portas, ás janellas, a ver a polvorosa; e subito se inundava a rua de rapazes, rotos, descalços, alguns quasi nús, correndo atraz do burro, gritando-lhe, acenando-lhe, espantando-o»

Cortesia de wikipedia e jdact

De acordo com o original

«(…) ...Nada, com effeito, meus amigos, que mais divertisse o bom do lavrador, e melhor o indemnizasse d’aquellas fainas laboriosas que lhe consummiam os dias, imperturbavelmente, perpetuamente, sob soes causticantes e chuvas torrenciaes. Por isso, era de ver como elle ria, com uma boa vontade deliciosa, das partidas e diabruras do Sultão! Ás vezes, o pequeno jumento, ferido não sei por que vespa invisivel, despedia sem mais nem menos n’uma carreira aberta, focinho entre as pernas deanteiras, agitando a cauda, por aquella rua fóra. Rompia de toda a banda n’um alarido o rancho pacifico das galinhas, que já no ar andavam como doidas, cacarejando, como se um pé de vento as levasse. Accudia gente aos postigos, ás portas, ás janellas, a ver a polvorosa; e subito se inundava a rua de rapazes, rotos, descalços, alguns quasi nús, correndo atraz do burro, gritando-lhe, acenando-lhe, espantando-o, como se o mesmo vento de folia os houvesse varrido a todos, varrendo a própria rua... E um lá ia a terra, e sobre esse passavam os outros, e sobre todos voava o Sultão, apupado, perseguido, acclamado, na malta espavorida dos inimigos...
Sultão!, eh lá! Sultão! Subito, como se lhe estalasse a corda, o animal estacava, e logo de volta d’elle postava-se a rapaziada, mas n’um alor de nova fuga, não lhe desse na bôlha atacal-os... E abriam alas de repente, quando elle, tomado de novo accesso, voava para as bandas do dono, que por se não deixar atropellar investia com o Sultão de braços abertos, o que era, já se vê, um modo de o abraçar, fingindo medo. E vinham as gargalhadas estridulas, os rogos para que pozesse treguas, as supplicas para que se accommodasse, recuando o lavrador até ao ultimo degrau da escada, onde se deixava cair, derrotado! P’ra lá, Sultão!, p’ra lá!, fazia então o Thomé, oppondo-lhe os pés, desviando-o, apoiando-se nos cotovelos, muito inclinado para traz, a rir como um perdido.
Então o pequeno jumento estacava, offegante. Mas prestes rompia a girandola dos coices, em que era eximio, sacudindo muito as patas, cauda no ar, muito direita, ao mesmo tempo que o Thomé solicito dava aos rapazes o aviso de se arredarem, porque era doido, aquelle demonio!... Outras vezes, parece que variando de tactica, entrava de seguir muito cauteloso, n’um ronceirismo perfido, como um borrego ou como um cão, certa mulher que passava. Até que lá ia uma focinhada, e logo após os saltos do costume, respondendo com uma ameaça de pinotes á surpresa da viandante. Dê, tia Luiza!, bata n’esse maroto!, fazia de lá o Thomé, com ares de zangado. E depois, batendo o pé, pedindo que lhe dessem uma verdasca: Sultão!, venha já p’r’aqui!, intimava.
E se encontrava um cão? Se encontrava um cão, ia logo direito a elle, muito de vagar, cauda caida, orelhas murchas, n’um cumprimento humilde de focinho. O cão regougava, desconfiado, entreabrindo a dentuça, preparando a sua dentada. Não dava o Sultão signaes de medo, e humilde proseguia para o outro, propondo paz. Mas ao primeiro latido, recuava um passo, espertando da sua indolencia passiva; e de espinha arqueada ganhava o terreno perdido, fitando impassivel o cão... O bruto formava então o salto, regougando forte, o pêllo eriçado; e ao investir para a primeira dentada, salvava-o de um pulo o Sultão, evitando-o, até que por compaixão lhe dava um pequenino coice, mais feitio que outra coisa, pondo em fuga o mastim, corrido, ganindo, vencido: Eh!, valente!, gritava-lhe então o Thomé.
E com duas palmadas na anca, espantava-o emfim para o cortelho, dizendo ao correr a caravelha: não ha dinheiro que te pague, assim me Deus salve! E comido o caldo verde da ceia, nunca o Thomé da Eira ia para a cama sem primeiro descer a vêr o Sultão, de candeia na mão esquerda, e na direita, contra o sovaco, a bella quarta do grão, acogulada. Muitas vezes acontecia esquecer-se o Thomé a vel-o comer, de candeia attenta, encostado á mangedoira, sorrindo: e, de cima, a Josefa tinha de intervir então, gritando-lhe pelas frinchas do sobrado: Thomé, vê se te vens deitar, meu pasmado!, olha que são horas». In Trindade Coelho, Os Meus Amores, Contos e Baladas, Projecto Gutenberg, ISSO 88589-1, 2006, produção de Carla Ramos e Ricardo Diogo e edição de Rita Farinha, Os Meus Amores, 2ª edição, Lisboa, Livraria de António Pereira, 1894.

Cortesia de PGutenberg/JDACT

quinta-feira, 12 de março de 2015

Contos e Baladas. Os Meus Amores. Trindade Coelho. «… entre surrateiro e medroso, levantava cautelosamente o beiço superior, a tremer, e roubava-lh'o da mão. Pazes feitas! Era então rir a perder, n'umas casquinadas agudas, muito estridulas…»

jdact e wikipedia

Nota: De acordo com o original

«(…) Pouco a pouco, foi-se extinguindo no curral a musica triste dos chocalhos. A ladrar, os cães faziam echo. O rebanho devia dormir profundamente, immerso no mesmo somno em que jazia prostrada toda a Natureza, ao largo. Dentro da cabana, os dois conversaram algum tempo, n'um ciciar brando de vozes, até que por fim, vencidos da fadiga, se deixaram adormecer, quando a historia das moiras encantadas ia no seu melhor episodio... E lá no alto céo, mesmo sobre a cabana, a estrella da tarde não era nem mais pura nem mais luminosa do que a alma simples e boa d'aquellas duas creanças... Quando ao repontar da manhã se levantaram, e sahiram a vêr o céo... Bonito dia, Gonçalo! Bonito dia, Rosaria! Olha..., na calma placidez do azul, bandos de pombas mansas iam voando..., voando...»

Sultão Copiado do Natural
«Ao cair da tarde, o Thomé da Eira entrava em casa, cançado, esfalfado de andar um dia inteiro a mourejar no campo. Meus peccados, boa tarde!, dizia elle para a mulher, com um sorriso a affectar seriedade. Vinha logo o pequeno, o Manuel, de mãos postas pedindo-lhe a benção. Deus te abençoe. Pae, olhe que o Sultão..., ia a dizer o pequeno. Bem sei!, atalhava logo o Thomé. O Sultão é um maroto e tu és outro. E emquanto procurava no bolso da jaqueta a sua bella navalha de meia-lua, que lhe custara um pinto havia bons quinze annos, e abria a gaveta do pão, o Thomé punha-se a fazer de interesseiro comsigo mesmo, resmungando alto p'ra que a mulher o ouvisse: É que por este caminho não tenho um dia descançado... Nem uma hora... Vinha a mulher com as azeitonas, com o queijo, sem dar palavra. ...Pois vamos já que já era tempo... Porque p'ra mim ha de chegar... A modos que vou já cançando... Mas o Thomé não era homem que dissesse estas coisas de coração. Pareciam-lhe longos, interminaveis, os aborrecidos domingos que passava sem ir campos fóra, madrugador como um melro. Uma aquella como outra qualquer!, dizia o bom do Thomé encolhendo os hombros, como quem está desgostoso com um genio assim. Partiu uma ampla fatia, um naco de queijo muito branco, do leite da sua cabrada, e veiu sentar-se, consolado, ao fundo da larga escada de pedra que dava para a rua, arregaçado, em mangas de camisa, muito á vontade.
Costume velho do Thomé: mal se sentava, mastigando o boccado, dizia logo para o filho: Ouves, Manuel? Bota cá fóra o Sultão. O rapazito corria o caravelho de uma pequena porta lateral, que rangia nos gonzos ao impulso dos seus bracitos roliços, e punha-se a pular de contente, dizendo cá da rua: Sultão! Sae cá p'ra fóra, Sultão! No fundo negro do pequeno cortelho, na moldura rectangular da porta baixa, destacava-se então a cabecita parda de um jumento, orelhas em riste, grandes olhos de uma tristeza perpetua, n'um movimento moroso de palpebras pestanudas... E ali se quedava parado, absorto, muito bem posto nas suas pequeninas pernas delgadas, a olhar o Thomé que o chamava, um grande riso de alegria nas feições amorenadas, contente de ver o seu Sultão. Mas o pequeno jumento não avançava um passo, divertindo-se em arreliar o Thomé, fitando-o com um ar estagnado. Altivo na sua nobre linha de quadrupede de boa raça, alguem lhe poderia lêr no olhar, mole e impassivel, o frio, gelado despreso a que parecia votar o dono... Mas era áquillo mesmo que o bom do lavrador achava graça. E punha-se então a fallar muito serio, entre resignado e cortez, para o pequeno e desdenhoso jumento, o pão e o queijo esquecidos n'uma das mãos, na outra a navalha de meia-lua: Então, Sultão, não vens?
Não!, parecia responder-lhe o animal. E abstracto, continuava a envolvel-o no seu olhar profundo. A quebrar a harmonia d'aquella immobilidade de estatua, apenas de quando  em quando uma pequenina patada na soleira, zap! Zangado, Sultão?, perguntava o lavrador. De mal comigo? E prestes voltava a cara para a outra banda, para se rir á vontade..., que não fosse vel-o o Sultão... Mettia entre dentes um pedacito de queijo, logo uma codea de pão, e fazendo umas grandes rugas na testa, de quem começa a zangar-se, voltava-se então muito serio: Ficas ahi, Sultão? Já não és meu amigo? O gerico abatia um pouco as orelhas, inclinava o pescoço, parece que fazendo-se humilde... Então se és, anda d'ahi. Olha... E mostrava um pedacito de pão. P'ra ti se vieres... O Sultão dava tres passos, e ficava fóra do cortelho. E por se vingar, o Thomé carregava o semblante n'uma seriedade muito pesada, e erguendo o rosto iracundo chamava-lhe interesseiro, maroto, affirmando que já lhe não dava o pão. E desfechando-lhe emfim a ameaça de o vender a um cigano, entrava a tratal-o por senhor sôr Sultão...
Mas o pequeno jumento ia andando muito devagar..., andando..., orelhas baixas, pescoço cahido, a modo de arrependido, parece que pedindo perdão da arrelia. Nervoso, sapateando, o Thomé voltava a cara para a outra banda, a rir como um perdido. Diabo do gerico! diabo do ratão! Capaz é elle de fazer rir as pedras, o mariola! E tossia de engasgado, uma migalhita de queijo na guela. No emtanto, o Sultão ia avançando, muito ronceiro, até que tocava com o focinho, levemente, nos joelhos do lavrador. O Thomé sacudia-o: Sae-te p'ra lá!, dizia elle muito amuado, sem se voltar. Cuidas talvez que te não conheço, cuidas? Já te não quero, vae-te! Mas como que irreflectidamente, fingindo não querer, chegava-lhe ao focinho um pedacito do pão, o melhor da fatia. Sultão lançava um olhar obliquo, entre surrateiro e medroso, levantava cautelosamente o beiço superior, a tremer, e roubava-lh'o da mão. Pazes feitas! Era então rir a perder, n'umas casquinadas agudas, muito estridulas. Credo, homem!, dizia de cima, da janella, a Josefa. Até pareces doido! Assim rouba o seu dono? Diga! Assim rouba o seu dono? Perguntava o Thomé, n'uns grandes gestos. Vamos que eu lhe não queria dar da merenda? Ladrão, de mais a mais!... Ora bem!, agora brinque. Era precisamente o que o Thomé queria: ver o Sultão a brincar». In Trindade Coelho, Os Meus Amores, Contos e Baladas, Projecto Gutenberg, ISSO 88589-1, 2006, produção de Carla Ramos e Ricardo Diogo e edição de Rita Farinha, Os Meus Amores, 2ª edição, Lisboa, Livraria de António Pereira, 1894.

Cortesia de LAPereira/JDACT

Os Meus Amores. Contos e Baladas. Trindade Coelho. «Inda vaes feita no que disseste? Ora que lhe custava a ella! Já que as ovelhas tinham andado juntas todo o santo dia, que mais era que dormissem no mesmo curral, essa noite? E o mais, ó Rosaria?»

jdact e wikipedia

Nota: De acordo com o original

«(…) Á medida que o sol ia subindo, no céo glorioso e fulvo, iam os dois conduzindo as ovelhas para sitios mais ensombrados, para se livrarem da estiagem que ia valente. Calor de rachar, ali por volta do meio dia, que foi quando tomaram para a banda das azinheiras, e para os pinheiraes, depois. E sempre ao lado um do outro, os dois companheiros levaram de conversa quasi o dia inteiro. Nunca tinham dado fé que as horas passassem tão depressa. Ainda armaram aos passaros, mas foi o mesmo que nada, os demonios andavam espantados e já conheciam as esparrellas. Olha lá não caiam, tinha dito o Gonçalo, já cançado de estar á espreita, agachado, com o fio da armadilha preso ao dedo. Se eles fossem tolos... E foi-se a recolher as esparrellas, dando ao demonio os passaros. Ella então propoz que jogassem a pocinha. E o fito, ó Rosaria? Sabes jogar ao fito? No adro, aos domingos de tarde, bato-me com qualquer, sabias? E generoso: Mas a ti dou te partido: vinte e cinco ás quarenta... Como o tempo rendia, jogaram tudo, a pocinha, o fito, as necas, a bilharda. Na bilharda, como o rafeiro trazia á mão, era elle que ia buscar o pausinho, quando zinia longe. Turco, traz cá!
No emtamto, ia descaindo a tarde. Ao alto, o largo céo esmorecia no seu azul suavissimo. Em todo o espaço o ar estava tranquillo e sereno, e já começava para poente a decoração phantastica do occaso. Parece que se ouvia mais distincto o marulhar das aguas no rio; já não faiscava assim tão viva a areia branca das margens. Foi quando o Gonçalo lembrou que era melhor irem-se chegando, mais as ovelhas, para as terras onde tinham de pernoitar. E fitando fixamente os olhos negros da Rosaria, disse-lhe assim: Mas olha o que prometteste... Inda vaes feita no que disseste? Ora que lhe custava a ella! Já que as ovelhas tinham andado juntas todo o santo dia, que mais era que dormissem no mesmo curral, essa noite? E o mais, ó Rosaria?, perguntou de novo com interesse. A pequena ficou perplexa. Mas como o pastor não cessava de a olhar, respondeu: Tambem. E sorriu-se. Pois eu... Só depois d'esta segunda promessa o Gonçalo se levantou, e deu o signal de partida, assobiando aos cães. D'ahi a pouco, estavam de marcha para o curral, Quando passavam a velha ponte, a obliquidade dos raios do sol fazia alongar desmedidamente pelo areal a sombra dos tres arcos. Nas rugas da corrente, uma luz alaranjada tremeluzia, tirando á agua a sua translucidez normal. É bonito!, fez notar o pastor. A Rosaria explicou logo: São as moiras a caçar com redes d'oiro, sabias? Para a outra banda, um pouco mais abaixo, assomavam á flôr da corrente as cabeças dos dois rapazotes do moleiro. Dentro da chata que vogava serenamente, a mãe com o mais novito ao collo não os perdia de vista, emquanto o pae, em mangas de camisa, de pé n'um topo de fraga, lhes ia ensinando as manobras. Ao fundo, tres vitellas passavam o rio a vau, muito devagar, parando a espaços, alongando o pescoço para a veia d'agua serena, bebendo mansamente. Sobre o vitello das malhas brancas, o guardador cantarolava, acenando com o chapeu ao moleiro, boas tardes! Boas tardes!
Ao sahir da ponte, o rebanho teve de se affastar um pouco do caminho: aproximava-se um almocreve com a longa fila de machos carregados, tilintando campainhas. Adeus pequenos!, cumprimentou. Venha com Deus!, tornaram-lhe ambos. E de novo se pozeram em marcha. As ovelhas continuavam confundidas, confraternisavam os cães como bons e leaes amigos. Á frente, o Gonçalo ia tocando na flauta o mesmo que a Rosaria cantava. O brando rumor dos chocalhos, que se levantava de todo o rebanho, casava-se com a musica, fundindo-se n'uma nota subtil, d'um pittoresco ingenuo de ballada... Até que chegaram a um topo de serra, escurentado de matagal rasteiro, e então, parando um momento, o Gonçalo perguntou, collocando na sua frente a Rosaria, e pondo-lhe á cara a flauta, na direcção em que devia olhar. Vês além... n'este direito? Rez-vez do castanheiro, não enxergas? A outra fez que sim com um gesto, e interrogou: Então é ali? Ali mesmo, volveu-lhe já de marcha. E repoisando a mão direita sobre o hombro esquerdo da rapariga, epetiu-lhe muito contente: É mesmo além.
N'uma terra de restolho, um largo quadrado de cancellas marcava o espaço que as ovelhas tinham de occupar essa noite. Falta pouco; a gente vae pelo atalho que é só mau p'ra quem passa a cavallo. E como elle ia expansivo, e a companheira não dava palavra, quiz então saber: Estás triste, ó Rosaria? Triste..., não. Já agora..., tem de ser, volveu-lhe cabisbaixa. Huum! Arrependeu-se..., volveu comsigo o pastor. Até que por fim chegaram, tinha anoitecido havia instantes. Gado para dentro e toca a merendar; o que era d'um era d'outro: elle ainda trazia azeitonas, um naco de queijo, pão. Mal acabaram de comer, o Gonçalo apontou para a cabana que ficava alli perto, e propoz que se deitassem: estavam moídos da soalheira de todo o dia e da caminhada agora. Quando o Gonçalo e a Rosaria entraram na cabana e se deitaram sobre o colmo, cobrindo-se com as mantas, e achegando para a cabeça um do outro os bornaes que faziam de travesseiro, cerrára de todo a noite, e formigueiros de estrellas scintillavam vivezas de prata polida no azul indefinido do céo. E os lobos?, perguntou a Rosaria com medo. Não ha perigo, tranquilisou-a o Gonçalo.--Isso é lá com os cães». In Trindade Coelho, Os Meus Amores, Contos e Baladas, Projecto Gutenberg, ISSO 88589-1, 2006, produção de Carla Ramos e Ricardo Diogo e edição de Rita Farinha, Os Meus Amores, 2ª edição, Lisboa, Livraria de António Pereira, 1894.

Cortesia de LAPereira/JDACT