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sábado, 28 de dezembro de 2013

Jazz. Natal. Diana Krall. «Encontraste com ar cansado numa igreja fria e triste. Ajoelhei-me ao teu lado e nem ao menos me viste... Ficaste a rezar ali, naquela imensa tristeza. Rezei também, mas a ti. Que aos anjos também se reza... Ficaste a rezar até manhã dentro, manhã alta. Como é que tens tanta fé e a caridade te falta?...»

jdact


«Batem leve, levemente,
como quem chama por mim.
Será chuva? Será gente?
Gente não é, certamente
e a chuva não bate assim.
É talvez a ventania:
mas há pouco, há poucochinho,
nem uma agulha bulia
na quieta melancolia
dos pinheiros do caminho...
Quem bate, assim, levemente,
com tão estranha leveza,
que mal se ouve, mal se sente?
Não é chuva, nem é gente,
nem é vento com certeza.
Fui ver. A neve caía
do azul cinzento do céu,
branca e leve, branca e fria...
– Há quanto tempo a não via!
E que saudades, Deus meu!
Olho-a através da vidraça.
Pôs tudo da cor do linho.
Passa gente e, quando passa,
os passos imprime e traça
na brancura do caminho...
Fico olhando esses sinais
da pobre gente que avança,
e noto, por entre os mais,
os traços miniaturais
duns pezitos de criança...
E descalcinhos, doridos...
a neve deixa inda vê-los,
primeiro, bem definidos,
depois, em sulcos compridos,
porque não podia erguê-los!...
Que quem já é pecador
sofra tormentos, enfim!
Mas as crianças, Senhor,
porque lhes dais tanta dor?!...
Porque padecem assim?!...
E uma infinita tristeza,
uma funda turbação
entra em mim, fica em mim presa.
Cai neve na Natureza
– e cai no meu coração».


JDACT

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

A nossa Académica. O nosso Expresso. A nossa Juventude. Nós e o Jorge C. «Um dente que estava são e agora não, um cabelo que ainda ontem preto era, dentro do peito um outro, sempre mais velho coração, e na cara uma ruga que não espera, que não espera...»

jdact

In Memoriam de MNR
(1950-2012)

Toma lá cinco!
Encolhes os ombros, mas o tempo passa...
Ai, afinal, rapaz, o tempo passa!

Um dente que estava são e agora não,
um cabelo que ainda ontem preto era,
dentro do peito um outro, sempre mais velho coração,
e na cara uma ruga que não espera, que não espera...

No andar de cima, uma nova criança
vai bater no teu crânio os pequeninos pés.
Mas deixa lá, rapaz, tem esperança
Este ano talvez venhas a ser o que não és...

Talvez sejas de enredos fácil presa,
eterno marido, amante de um só dia...
Com clorofila ficam os teus dentes que é uma beleza!
Mas não rias, rapaz, que o ano só agora principia...

Talvez lances de amor um foguetão sincero
para algum coração a milhões de anos-dor
ou desesperado te resolvas por um mero
tiro na boca, mas de alcance maior...

Grande asneira, rapaz, grande asneira seria
errar a vida e não errar a pontaria...

Talvez te deixes por uma vez de fitas,
de versos de mau hálito e mau sestro,
e acalmes nas feias o ardor pelas bonitas
(Como mulheres são mais fiéis, de resto...)

Dores
Às dores inventadas
prefere as reais.
Doem muito menos
Ou então muito mais...

Soneto
No céu duma tristeza cor de farda,
uma angústia de nuvens se desenha.
O amigo já morreu: que o tempo venha
desmantelar o que a memória guarda.

Jogai! Jogai! Quem não jogar não ganha
nem perde. É a última cartada.
Eu aposto na vida, mesmo errada.
Talvez outro destino me sustenha.

Avião de Lisboa para o mundo,
apaga-me a tristeza com as asas,
tão nítidas no céu em que me afundo!

Depois desaparece atrás das casas
e deixa-me o azul, o azul profundo,
e duas nuvens de razão tocadas.


Mesa dos Sonhos
Ao lado do homem vou crescendo.
Defendo-me da morte quando dou
meu corpo ao seu desejo violento
e lhe devoro o corpo lentamente.
Mesa dos sonhos no meu corpo vivem
todas as formas e começam
todas as vidas.
Ao lado do homem vou crescendo.
E defendo-me da morte povoando
de novos sonhos a vida.

Poemas de Alexandre O’Neill, in Poesias Completas, 1951/1986

JDACT

Silêncio Redondo. A Música da Cigarra penetra na Rocha. «A grajeia caiu no próprio chão que havia. Amarelo impossível, de trémulas mãos a grajeia saltou e no chão rolou, se arredondinhou. Cara de santinha, quase auréola tinha. Santa que tira a febre, não santa que a dá, cara de lua cheia, a grajeia ficou onde esteve (está?)»

jdact e wikipedia

In Memoriam de ATJ, JLT e MLAC

Se às vezes digo que as flores sorriem
se eu disser que os rios cantam,
não é porque eu julgue que há sorrisos nas flores
e cantos no correr dos rios…
(...)
Não concordo comigo mas absolvo-me,
porque só sou essa coisa séria, um intérprete da Natureza,
porque há homens que não percebem a sua linguagem,
por ela não ser linguagem nenhuma.

(...) Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso (…)
Poema de Alberto Caeiro (1888-1935)


 «O poeta não necessita de nomear as coisas. As suas palavras são árvores, nuvens, mar, pássaros... Não pássaros que vemos, mas pássaros que o poeta descreve com imagens, ritmos, símbolos e comparações. Como poeta que vive num presente intemporal, Caeiro é tudo o que Pessoa não é, e, além disso, é tudo o que poucos poetas contemporâneos podem ser: o Homem reconciliado com a Natureza.
A sua obra reflecte esta mesma íntima ligação entre imagem e escrita de rara intemporalidade, onde a atitude do homem no mundo é puramente contemplativa, perdendo assim a sua individualidade ao dissolver-se no anonimato do universo. Reflecte a essência do pensamento e atinge o conceito de universalidade, em nome da paz do Homem e da sua mais profunda razão de viver, que é afinal a própria Vida.
São verdadeiros testemunhos do soluçar da alma. As palavras têm uma beleza que transcende tempo e espaço. Dizemos que um poeta pinta com palavras, mas nesta obra é a sua pena que dá brilho e cores prodigiosas a descrições admiráveis. E não só. Chama pelo ninguém em cada um de nós e escuta o silêncio da solidão.


Esse clamor é uma sede de perfeição, harmonia e paz. É a luz que ilumina a viagem interior de um poeta. A única viagem possível e uma experiência acumulada e oferecida aos homens do futuro para que possam ter o prazer de uma vida plena.
Um dia há-de alguém escrever a Caeiro!»

JDACT

Para os Amigos que fizeram a “VIAGEM” nesta época. Na areia fina o singelo traço de dois destinos num caminho. «Muito desgosto te espreita ao longo da vida, mas a vara está direita, tua missão foi cumprida. E quando, por teus pecados, te pesarem na balança, tira-te dos teus cuidados, tens pecados de criança»


jdact

In Memoriam de FJB e MMR

«Para lá deste olhar profundo, há outro espaço, outro mundo, que não sei dizer. Unicamente sinto e pressinto a realeza de estar vivo quando pardais soltos voam sobre mim e espalham liberdade em meu redor, num chilrear constante e melodioso que transforma pensamentos em palavras e enche páginas brancas do meu Eu.
Mas muito mais do que palavras, paira no ar o silêncio de horas gastas, que adia respostas, porque perguntas não há que resistam ao fugitivo, sempre em viagem de sonhos.
Não preciso sequer de tentar compreender a distância que separa a Vida da Morte. O tempo não é o que escolhi, mas sim o espaço onde mora o meu corpo, rodeado de outros corpos inquietos, indecisos e desesperados, à procura de coisas exteriores que não alimentam o sentido da vida.
E tantas vezes obrigado a não ser livre no mundo dos outros, escolho a solidão num canto do meu jardim, onde fecho a porta à hipocrisia e ao egoísmo, em defesa do castelo que construí. Aqui dentro, sim, tenho tudo aquilo que enche a alma de ar puro e fresco, porque num espaço sem gente, a força da razão e do amor suplanta a nostalgia de estar só. Neste lado de cá, encontro-me mais dificilmente e cada vez mais raramente, porque o vazio inunda a alma das gentes, tão perdidas num labirinto de materialismo e malabarismo. Nesta sociedade que brilha simplesmente à custa do sol, sobressai a pequenez do Ser, mirrado de inveja e vaidade.
Consumindo e consumido, o Homem transborda de agressividade, denunciando-se a si próprio.
Espectador das muralhas do meu castelo, enxergo as dores das crianças. Esses olhos inocentes e profundamente tristes, que nada entendem da crueldade do Homem.
Muitas lágrimas, que então ensopam o rosto do meu Eu, descem à terra seca para que as flores voltem a nascer!»

JDACT

E será Natal para sempre. Ah! Seria óptimo se os sonhos do poeta se transformassem em realidade. Organiza o Natal. Carlos Drummond de Andrade. «Todo mundo se rirá do dinheiro e das arcas que o guardavam, e que passarão a depósito de doces, para visitas. Haverá dois jardins para cada habitante, um exterior, outro interior, comunicando-se por um atalho invisível»


jdact e cortesia de wikipedia

BOAS FESTAS NATALÍCIAS
 
E será Natal para sempre
«Alguém observou que cada vez mais o ano se compõe de 10 meses; imperfeitamente embora, o resto é Natal. É possível que, com o tempo, essa divisão se inverta: 10 meses de Natal e 2 meses de ano vulgarmente dito. E não parece absurdo imaginar que, pelo desenvolvimento da linha, e pela melhoria do homem, o ano inteiro se converta em Natal, abolindo-se a era civil, com suas obrigações enfadonhas ou malignas. Será bom. Então nos amaremos e nos desejaremos felicidades ininterruptamente, de manhã à noite, de uma rua a outra, de continente a continente, de cortina de ferro à cortina de nylon, sem cortinas. Governo e oposição, neutros, super e subdesenvolvidos, marcianos, bichos, plantas entrarão em regime de fraternidade. Os objectos se impregnarão de espírito natalino, e veremos o desenho animado, reino da crueldade, transposto para o reino do amor: a máquina de lavar roupa abraçada ao flamboyant, núpcias da flauta e do ovo, a betoneira com o sagüi ou com o vestido de baile. E o supra-realismo, justificado espiritualmente, será uma chave para o mundo.

Completado o ciclo histórico, os bens serão repartidos por si mesmos entre nossos irmãos, isto é, com todos os viventes e elementos da terra, água, ar e alma. Não haverá mais cartas de cobrança, de descompostura nem de suicídio. O correio só transportará correspondência gentil, de preferência postais de Chagall, em que noivos e burrinhos circulam na atmosfera, pastando flores; toda pintura, inclusive o borrão, estará a serviço do entendimento afectuoso. A crítica de arte se dissolverá jovialmente, a menos que prefira tomar a forma de um sininho cristalino, a badalar sem erudição nem pretensão, celebrando o Advento. A poesia escrita se identificará com o perfume das moitas antes do amanhecer, despojando-se do uso do som. Para que livros? Perguntará um anjo e, sorrindo, mostrará a terra impressa com as tintas do sol e das galáxias, aberta à maneira de um livro.
A música permanecerá a mesma, tal qual Palestrina e Mozart a deixaram; equívocos e divertimentos musicais serão arquivados, sem humilhação para ninguém. Com economia para os povos desaparecerão suavemente classes armadas e semi-armadas, repartições arrecadadoras, polícia e fiscais de toda espécie. Uma palavra será descoberta no dicionário: PAZ.

O trabalho deixará de ser imposição para constituir o sentido natural da vida, sob a jurisdição desses incansáveis trabalhadores, que são os lírios do campo. Salário de cada um: a alegria que tiver merecido. Nem juntas de conciliação nem tribunais de justiça, pois tudo estará conciliado na ordem do amor. Todo mundo se rirá do dinheiro e das arcas que o guardavam, e que passarão a depósito de doces, para visitas. Haverá dois jardins para cada habitante, um exterior, outro interior, comunicando-se por um atalho invisível. A morte não será procurada nem esquivada, e o homem compreenderá a existência da noite, como já compreendera a da manhã. O mundo será administrado exclusivamente pelas crianças, e elas farão o que bem entenderem das restantes instituições caducas, a Universidade inclusive».E será Natal para sempre. Ah! Seria óptimo se os sonhos do poeta se transformassem em realidade. In Carlos Drummond de Andrade, Cadeira de Balanço, Livraria José Olympio Editora, Rio de Janeiro, 1972.


In Memoriam de MLAC, JLT, ATJ, FJB e MMR

Para Sempre
Por que Deus permite
que as mães vão-se embora?
Mãe não tem limite,
é tempo sem hora,
luz que não apaga
quando sopra o vento
e chuva desaba,
veludo escondido
na pele enrugada,
água pura, ar puro,
puro pensamento.

Morrer acontece
com o que é breve e passa
sem deixar vestígio.
Mãe, na sua graça,
é eternidade.
Por que Deus se lembra
- mistério profundo -
de tirá-la um dia?
Fosse eu Rei do Mundo,
baixava uma lei:
Mãe não morre nunca,
mãe ficará sempre
junto de seu filho
e ele, velho embora,
será pequenino
feito grão de milho.
Poema de Carlos Drummond de Andrade 

A cumplicidade! A amizade de O. R.
JDACT

domingo, 25 de dezembro de 2011

Poesia. Fernanda de Castro: «Ai, vou fechar na gaveta a lembrança dolorosa dos teus laços de cetim, dos teus ramos de violeta, do leque de seda rosa com varetas de marfim»

In Memoriam
MLAC, JLT e ATJ

Cortesia de poesiaenlavida

Esta Dor que me Faz Bem
As coisas falam comigo
uma linguagem secreta
que é minha, de mais ninguém.
Quem sente este cheiro antigo,
o cheiro da mala preta,
que era tua, minha mãe?

Este cheiro de além-vida
e de indizível tristeza,
do tempo morto, esquecido...
Tão desbotada e puída
aquela fita escocesa
que enfeitava o teu vestido.

Fala comigo e conversa,
na linguagem que eu entendo,
a tua velha gaveta,
a vida nela dispersa
chega à cama onde me estendo
num perfume de violeta.

Vejo as tuas jóias falsas
que usavas todos os dias,
do princípio ao fim do ano,
e ainda oiço as tuas valsas,
minha mãe, e as melodias
que cantavas ao piano.

Vejo brancos, decotados,
os teus sapatos de baile,
um broche em forma de lira,
saia aos folhos engomados
e sobre o vestido um xaile,
um xaile de Caxemira.

Quantas voltas deu na vida
este álbum de retratos,
de veludo cor de tília?
Gente outrora conhecida,
quem lhe deu tantos maus tratos?
Serão todos da família?

Ai, vou fechar na gaveta
a lembrança dolorosa
dos teus laços de cetim,
dos teus ramos de violeta,
do leque de seda rosa
com varetas de marfim.

As coisas falam comigo
numa linguagem secreta,
que é minha, de mais ninguém.
Quero esquecer, não consigo.
Vou guardar na mala preta
esta dor que me faz bem.
Fernanda de Castro, in «E Eu, Saudosa, Saudosa»


Distância
Não vás para tão longe!
Vem sentar-te
Aqui na chaise-longue, ao pé de mim...
Tenho o desejo doido de contar-te
Estas saudades que não tinham fim.

Não vás para tão longe;
Quero ver
Se ainda sabes olhar-me como d'antes,
E se nas tuas mãos acariciantes,
Inda existe o perfume de que eu gosto.

Não vás para tão longe!
Tenho medo
Do silêncio pesado d'esta sala...
Como soluça o vento no arvoredo!
E a tua voz, amor, como se cala!

Não vás para tão longe!
Antigamente,
Era sempre demais o curto espaço
Que havia entre nós dois...
Agora, um embaraço,
Hesitas e depois,
Com um gesto de tédio e de cansaço,
Achas inconveniente
O meu abraço.

Não vás para tão longe!
Fica. Inda é tão cedo!
O vento continua a fustigar
Os ramos sofredores do arvoredo,
E eu ponho-me a pensar
E tenho medo!

Não vás para tão longe!
Na sombra impenetrada,
Como se agita e se debate o vento!...
Paira nas velhas ruínas do convento

Que além se avista,
A alma melancólica d'um monge
Que a vida arremessou àquela crista...

Céu apagado, negro, pessimista,
E tu sempre mais longe!...
Fernanda de Castro, in «Antemanhã»


Meditação
Às vezes, quando a noite vem caindo,
Tranquilamente, sossegadamente,
Encosto-me à janela e vou seguindo
A curva melancólica do Poente.

Não quero a luz acesa. Na penumbra,
Pensa-se mais e pensa-se melhor.
A luz magoa os olhos e deslumbra,
E eu quero ver em mim, ó meu amor!

Para fazer exame de consciência
Quero silêncio, paz, recolhimento
Pois só assim, durante a tua ausência,
Consigo libertar o pensamento.

Procuro então aniquilar em mim,
A nefasta influência que domina
Os meus nervos cansados; mas por fim,
Reconheço que amar-te é minha sina.

Longe de ti atrevo-me a pensar
Nesse estranho rigor que me acorrenta:
E tenho a sensação do alto mar,
Numa noite selvagem de tormenta.

Tens no olhar magias de profeta
Que sabe ler no céu, no mar, nas brasas...
Adivinhas... Serei a borboleta
Que vendo a luz deixa queimar as asas.

No entanto — vê lá tu!— Eu não lamento
Esta vontade que se impõe à minha...
Nem me revolto... cedo ao encantamento...
— Escrava que não soube ser Rainha!
Fernanda de Castro, in «Antemanhã»

Cortesia de africaempoesia

JDACT

O Pensamento e as Interpretações. Agostinho da Silva. «Do êxtase, porém, não alimentamos grandes desejos; o amor que nele descobrimos não pertence à categoria do amor que mais nos interessa, o que eleva o amado acima de si próprio, o que se esforça por esculpir uma alma com entusiasmo e paciência»

In Memoriam
MLAC, JLT e ATJ

Cortesia d engfconsultoria

O Povo Culto
«Os povos serão cultos na medida em que entre eles crescer o número dos que se negam a aceitar qualquer benefício dos que podem; dos que se mantêm sempre vigilantes em defesa dos oprimidos não porque tenham este ou aquele credo político, mas por isso mesmo, porque são oprimidos e neles se quebram as leis da Humanidade e da razão; dos que se levantam, sinceros e corajosos, ante as ordens injustas, não também porque saem de um dos campos em luta, mas por serem injustas; dos que acima de tudo defendem o direito de pensar e de ser digno».

Tolerância às Opiniões
«Para que os homens possam sentir-se felizes com a minha companhia, é necessário antes de tudo que eu tenha a grande força de ver como prováveis as opiniões a que aderiram, desde que as não venham contradizer os factos que posso observar; não devo supor-me infalível; não devo considerar-me a inteligência superior e única entre o bando de pobres seres incapazes de pensar; cumpre-me abafar todo o ímpeto que possa haver dentro de mim para lhes restringir o direito de pensarem e de exprimirem, como souberem e quiserem, os resultados a que puderam chegar; de outro modo, nada mais faria de que contribuir para matar o universo: porque ele só vive da vida que lhe insufla o pensamento poderoso e livre».

Realização e Êxtase
«Conviria distinguir bem um do outro o caminho para o êxtase e o próprio êxtase; o primeiro ainda pode ter algum interesse por todas as lutas interiores, por todas as incertezas, por todo o esforço de pensar amplamente a que em geral dá origem; no entanto já nele mesmo poderíamos ver, além de uma preocupação egoísta, uma alternativa de esperança e desespero, um gosto da revelação e dos auxílios sobrenaturais que não poderão talvez classificar-se como superiores.
Do êxtase, porém, não alimentamos grandes desejos; o amor que nele descobrimos não pertence à categoria do amor que mais nos interessa, o que eleva o amado acima de si próprio, o que se esforça por esculpir uma alma com entusiasmo e paciência; é um amor a que se chega como recompensa de tarefa cumprida; não marca as delícias do caminho difícil, apaga-as da memória; faz desaparecer do peito do homem o seu único motivo de alegria, a sua única fonte de verdadeira glória.
Viver interessa mais que ter vivido; e a vida só é vida real quando sentimos fora de nós alguma coisa de diferente; se a diferença se tornar oposição, se o que era caminho diverso se transformar em muro de rocha, então no duelo que se trava, no instável equilíbrio que a cada momento se pode romper e precipitar-nos das alturas, nesta batalha em que não há um minuto de rancor pelo adversário, encontraremos a grande e forte vida; ora o êxtase consiste realmente no apagar das distinções, na identificação perfeita de dois termos».

Agostinho da Silva, in «Diário de Alcestes».

Cortesia de psicoliberdade

JDACT

Poesia. Fernando Pessoa. José Régio. Francisco Bugalho: «O que choro é diferente. Entra mais na alma da alma. Mas como, no céu sem gente, a nuvem flutua calma»

In Memoriam
MLAC, JLT e ATJ

Cortesia de youimages

Vaga, no Azul Amplo Solta
Vaga, no azul amplo solta,
Vai uma nuvem errando.
O meu passado não volta.
Não é o que estou chorando.

O que choro é diferente.
Entra mais na alma da alma.
Mas como, no céu sem gente,
A nuvem flutua calma.

E isto lembra uma tristeza
E a lembrança é que entristece,
Dou à saudade a riqueza
De emoção que a hora tece.

Mas, em verdade, o que chora
Na minha amarga ansiedade
Mais alto que a nuvem mora,
Está para além da saudade.

Não sei o que é nem consinto
À alma que o saiba bem.
Visto da dor com que minto
Dor que a minha alma tem.
Fernando Pessoa, in «Cancioneiro»


Ícaro
A minha Dor, vesti-a de brocado,
Fi-la cantar um choro em melopeia,
Ergui-lhe um trono de oiro imaculado,
Ajoelhei de mãos postas e adorei-a.

Por longo tempo, assim fiquei prostrado,
Moendo os joelhos sobre lodo e areia.
E as multidões desceram do povoado,
Que a minha dor cantava de sereia...

Depois, ruflaram alto asas de agoiro!
Um silêncio gelou em derredor...
E eu levantei a face, a tremer todo:

Jesus! ruíra em cinza o trono de oiro!
E, misérrima e nua, a minha Dor
Ajoelhara a meu lado sobre o lodo.
José Régio, in «Poemas de Deus e do Diabo»


Dor
Passa-se um dia e outro dia
À espera que passe a Dor,
E a Dor não passa, e porfia,
Porque trás dia, outro dia
Que traz Dor inda maior;

Porque embora a Dor aflita
Calasse há muito seus ais,
Ainda, fundo, palpita
Uma outra Dor que não grita:
A Dor do que não dói mais.
Francisco Bugalho, in «Dispersos e Inéditos»

Cortesia de joelderv


JDACT

O Pensamento e as Interpretações. Matias Aires. Friedrich Nietzsche. Fernando Pessoa: «Que as coisas mais momentosas se concretizem, que um dia os homens venham todos a ser felizes, que se encontre uma solução para os males da sociedade, mesmo na sua concepção, enfurece-me. E, contudo, não sou mau nem cruel; sou louco, e isso duma forma difícil de conceber»

In Memoriam
MLAC, JLT e ATJ

Cortesia de dark

O Que Esconde o Admirável 
«São raras as acções, que sejam ilustres por si mesmas; dificilmente haverá algumas, que não deixem conhecer que vêm do homem. As mais das cousas admiram-se, porque se não conhecem; e juntamente porque nelas há um rico véu, que as cobre: vemos um exterior brilhante, que muitas vezes serve de esconder um abismo horrendo; a mesma luz arma-se de raios, para que não possa examinar-se de onde lhe vêm os resplandores; a formusura em tudo nos atrai; a nossa admiração não pode passar além; donde a encontra, aí fica suspensa, e cega.  
Isto sucede nas acções dos homens; as mais sublimes, parece que nos cegam, e suspendem; e talvez seriam detestáveis, se lhes não ignorássemos as causas. Tudo o que tem ar de grande prende a nossa imaginação de sorte, que não fica livre para discorrer na cousa, senão no estado de grandeza em que a vê, e não para indagar de onde veio, nem como veio» Matias Aires, in «Reflexões Sobre a Vaidade dos Homens e Carta Sobre a Fortuna». 


Dar Estilo ao Seu Carácter  
«Dar estilo» ao seu carácter... é uma arte deveras considerável que raramente se encontra! Para a exercer é necessário que o nosso olhar possa abranger tudo o que há de forças e de fraquezas na nossa natureza, e que as adaptemos em seguida a um plano concebido com gosto, até que cada uma apareça na sua razão e na sua beleza e que as próprias fraquezas seduzam os olhos. Aqui ter-se-á acrescentado uma grande massa de segunda natureza, nos pontos onde se terá tirado um pedaço da primeira, à custa, nos dois casos, de um paciente exercício e de um trabalho de todos os dias. Neste lugar disfarçou-se uma fealdade que se não podia fazer desaparecer, noutro ela foi transmudada, fez-se dela uma beleza sublime. Grande número de elementos, que se recusavam a tomar forma, foram reservados para ser utilizados nos efeitos de perspectiva: darão os longes, o apelo do infinito. Foi a unidade, a pressão de um mesmo gosto que dominou e afeiçoou no grande e no pequeno: a que ponto, vemo-lo por fim, uma vez terminada a obra; que esse gosto seja bom ou mau, importa menos do que se pensa, basta que tenha havido um. 
Serão as naturezas fortes e dominadoras que apreciarão as alegrias mais subtis nesta opressão, nesta escravatura, nesta perfeição ditadas pela lei pessoal; o aspecto de qualquer natureza estilizada, de qualquer natureza, enfim, vencida e submetida, alivia a paixão da sua forte vontade; se têm de construir palácios, se têm de plantar jardins repugna-lhes também deixar a natureza livre. Pelo contrário, os carácteres fracos, aqueles que não se dominam, odeiam a servidão do estilo: sentem que se tornariam inevitavelmente vulgares se esta amarga opressão lhes fosse imposta: não saberiam servir sem se tornar escravos, por isso detestam fazê-lo. Semelhantes espíritos - e podem ser de primeira ordem - empenham-se sempre em se dar a si próprios e em dar ao seu meio o ritmo de naturezas livras - selvagens, arbitrárias, fantasistas, desordenadas e surpreendentes - ou em interpretar-se como tais: e fazem bem, porque é só assim que se satisfazem! Uma única coisa é, com efeito, necessária: que o homem chegue a estar contente consigo, qualquer que seja a arte ou a ficção de que se serve para esse fim: é somente então que ganha uma fisionomia suportável! Os que estão descontentes consigo próprios estão sempre prontos a vingar-se: como nós que seremos as suas vítimas, quanto mais não seja tendo de suportar sempre o seu desagradável espectáculo. Porque o espectáculo da fealdade torna as pessoas más e sombrias». Friedrich Nietzsche, in «A Gaia Ciência».

Cortesia de obuscar

O Meu Carácter 
«Cumpre-me agora dizer que espécie de homem sou. Não importa o meu nome, nem quaisquer outros pormenores externos que me digam respeito. É acerca do meu carácter que se impõe dizer algo. Toda a constituição do meu espírito é de hesitação e dúvida. Para mim, nada é nem pode ser positivo; todas as coisas oscilam em torno de mim, e eu com elas, incerto para mim próprio. Tudo para mim é incoerência e mutação. Tudo é mistério, e tudo é prenhe de significado. Todas as coisas são «desconhecidas», símbolos do Desconhecido. O resultado é horror, mistério, um medo por de mais inteligente. Pelas minhas tendências naturais, pelas circunstâncias que rodearam o alvor da minha vida, pela influência dos estudos feitos sob o seu impulso (estas mesmas tendências) - por tudo isto o meu carácter é do género interior, autocêntrico, mudo, não auto-suficiente mas perdido em si próprio. Toda a minha vida tem sido de passividade e sonho. Todo o meu carácter consiste no ódio, no horror e na incapacidade que impregna tudo aquilo que sou, física e mentalmente, para actos decisivos, para pensamentos definidos. Jamais tive uma decisão nascida do autodomínio, jamais traí externamente uma vontade consciente. Os meus escritos, todos eles ficaram por acabar; sempre se interpunham novos pensamentos, extraordinárias, inexpulsáveis associações de ideias cujo termo era o infinito.  
Não posso evitar o ódio que os meus pensamentos têm a acabar seja o que for; uma coisa simples suscita dez mil pensamentos, e destes dez mil pensamentos brotam dez mil interassociações, e não tenho força de vontade para os eliminar ou deter, nem para os reunir num só pensamento central em que se percam os pormenores sem importância mas a eles associados. Perpassam dentro de mim; não são pensamentos meus, mas sim pensamentos que passam através de mim. Não pondero, sonho; não estou inspirado, deliro. Sei pintar mas nunca pintei, sei compor música, mas nunca compus. Estranhas concepções em três artes, belos voos de imaginação acariciam-me o cérebro; mas deixo-os ali dormitar até que morrem, pois falta-me poder para lhes dar corpo, para os converter em coisas do mundo externo.  
O meu carácter é tal que detesto o começo e o fim das coisas, pois são pontos definidos. Aflige-me a ideia de se encontrar uma solução para os mais altos, mais nobres, problemas da ciência, da filosofia; a ideia que algo possa ser determinado por Deus ou pelo mundo enche-me de horror. Que as coisas mais momentosas se concretizem, que um dia os homens venham todos a ser felizes, que se encontre uma solução para os males da sociedade, mesmo na sua concepção, enfurece-me. E, contudo, não sou mau nem cruel; sou louco, e isso duma forma difícil de conceber. Embora tenha sido leitor voraz e ardente, não me lembro de qualquer livro que haja lido, em tal grau eram as minhas leituras estados do meu próprio espírito, sonhos meus - mais, provocações de sonhos. A minha própria recordação de acontecimentos, de coisas externas, é vaga, mais do que incoerente. Estremeço ao pensar quão pouco resta no meu espírito do que foi a minha vida passada. Eu, um homem convicto de que hoje é um sonho, sou menos do que uma coisa de hoje». Fernando Pessoa, in «Notas Autobiográficas e de Autognose».

Cortesia de O Citador/JDACT

A Bela Poesia. Luís de Camões. Sonetos: «O duro desfavor, que me condena, quando pela memória se reparte, endurece os sentidos de tal arte, que a dor da ausência fica mais pequena»

In Memoriam
MLAC, JLT e ATJ

Cortesia de mundopessoa

A Dor da Ausência Fica Mais Pequena
Quando vejo que meu destino ordena
Que, por me experimentar, de vós me aparte,
Deixando de meu bem tão grande parte,
Que a mesma culpa fica grave pena,

O duro desfavor, que me condena,
Quando pela memória se reparte,
Endurece os sentidos de tal arte
Que a dor da ausência fica mais pequena.

Mas como pode ser que na mudança
Daquilo que mais quero, este tão fora
De me não apartar também da vida?

Eu refrearei tão áspera esquivança,
Porque mais sentirei partir, Senhora,
Sem sentir muito a pena da partida.


Doces Despojos de meu Bem Passado
Amor, co'a esperança já perdida
Teu soberano templo visitei;
Por sinal do naufrágio que passei,
Em lugar dos vestidos, pus a vida.

Que mais queres de mim, pois destruída
Me tens a glória toda que alcancei?
Não cuides de render-me, que não sei
Tornar a entrar onde não há saída.

Vês aqui vida, alma e esperança,
Doces despojos de meu bem passado,
Enquanto o quis aquela que eu adoro.

Nelas podes tomar de mim vingança;
E se te queres ainda mais vingado,
Contenta-te co'as lágrimas que choro.

Luís Vaz de Camões, in «Sonetos»

Cortesia de revistacontemporartes

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