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sexta-feira, 23 de agosto de 2019

Quatro escritores de prosa doutrinal religiosa. AJ Saraiva e Óscar Lopes. «... Quando cansarão meus males e fadigas, minhas enjúrias e ofensas, minhas saudades e misérias, as feridas n’alma e minhas magoas, as bem-aventuranças longas e tão cansadas?»

Cortesia de wikipedia e jdact

«Consideraremos à parte da prosa de ficção um conjunto de obras que, embora contenham elementos ficcionistas, tais como a alegoria, o diálogo e a descrição de visões, se caracteriza todavia pelo predomínio dos motivos religiosos. Não pode falar-se, na literatura portuguesa, de uma literatura propriamente mística, entendendo-se como tal aquela que exprime, por meios estilísticos tendentes à sugestão emocional, uma experiência imaginada ou experimentada de contacto directo com a divindade. Nada na literatura portuguesa se pode comparar às Moradas de St., Teresa de Ávila ou às obras de S. João da Cruz. Não parecem numerosas as obras que é usual classificar como ascéticas, isto é, as que se ocupam dos preceitos que levam à perfeição espiritual e preparam para o gozo da união com Deus (género que tem a sua melhor expressão na Imitação de Cristo). Deve todavia ressalvar-se que os textos de devoção não têm sido sistematicamente explorados pelos historiadores da literatura. O grande êxito que tiveram as obras de Frei Luís de Granada, autor de língua castelhana, mas que viveu e editou em Portugal, é significativo da existência de um público numeroso para este género de obras. Entre as poucas obras de inspiração religiosa que seguidamente vamos examinar, inclui-se uma de cunho hebraico e publicada em Itália. Embora adoptando a ficção pastoril, a sua inspiração é fundamentalmente bíblica, e o seu tema nada tem que ver com o bucolismo, excepto a descrição idealizada de um lugar ameno campestre.

Samuel Usque
A Consolação às Tribulações de Israel (Ferrara, 1553), do judeu português emigrado em Itália Samuel Usque, é constituída por três diálogos entre pastores (Icabo, Numeu e Zicareu, anagramas de nomes judaicos) e tem como propósito rememorar as perseguições sofridas pelo povo bíblico e recordar-lhe as divinas promessas de resgate. Parece à primeira vista estarmos simplesmente em presença de um livro de forma bucólica e de fundo religioso: tudo são reflexões e queixumes acerca das matanças, das escravizações, vexames, padecimentos sofridos pelos israelitas, em constante paráfrase de textos bíblicos e históricos, ou sobre recordações familiares, mitigando-se o sofrimento com a consolação das profecias e dos mistérios cabalísticos (a transmigração das almas, os poderes ocultos). No entanto, o pastoralismo de Usque vai talvez mais fundo do que o dos outros bucólicos portugueses, dado que a Bíblia, em que as suas alegorias se apoiam constantemente, elabora a história e as crenças de um novo nómada, ao passo que o bucolismo de Teócrito e Virgílio é muito mais evoluído em relação às raízes do género. A imaginação literária, o estilo de Usque constituem talvez por isso um caso único na nossa literatura quinhentista, se descartarmos um certo parentesco com a obra em prosa de Bernardim.
Depara-se-nos em Samuel Usque o estilo bíblico, em que o liame lógico é indirectamente dado por alegorias e metáforas simples (ao nível suposto de uma cultura de pastores), com repetições insistentes, com descrições pitorescas de circunstâncias que, logicamente, nada fazem ao caso, mas inculcam uma representação imaginosa das ideias. Este processo é sobretudo sensível no 1.° diálogo, Diálogo pastoril sobre as cousas da Sagrada Escritura, o mais abundante em descritivo campestre, traçando um quadro paradisíaco anterior às atribulações israelitas. Icabo (anagrama de Jacob), que no simbolismo bíblico se confunde corporeamente com o próprio povo judaico (também representado, aliás, pelas suas ovelhas), não entra na matéria histórica dos seus lamentos sem primeiro nos dar todo o lento desenrolar de um dia de pascigo, parece que hora a hora, rês a rês, numa contemplação logicamente preguiçosa que mal suporta substantivo sem adjectivação pitoresca, verbo sem adverbiação esmiuçadora, em longos períodos enumerativos que, ainda assim, não dispensam um espraiamento parentético de longe a longe. Sannazzaro não deixou de concorrer para este pastoralismo, pois certas paráfrases suas já foram reconhecidas pelos eruditos. Mas, mais do que a écloga, domina a inspiração do autor o versículo imaginoso e ritmado dos cânticos das Escrituras, o que ainda mais se evidencia se desse trecho descritivo passarmos às lamentações. Aí parece até que a exigência de melopeia, o tom agridoce dos lamentos e interrogações, ritmo de balanceamento ou intensificação gradativa preexistem à própria significação das frases e a comandam:

... Quando cansarão meus males e fadigas, minhas enjúrias e ofensas, minhas saudades e misérias, as feridas n’alma e minhas magoas, as bem-aventuranças longas e tão cansadas? E quando terá paz tanta guerra contra o fraco sujeito, temor, suspeita, receios de minhas entranhas? Té quando gemerei, suspirarei, matarei a sede coas lágrimas de meus olhos?

In António José Saraiva e Óscar Lopes, Quatro escritores de prosa doutrinal religiosa, História e Antologia da Literatura Portuguesa, Século XVI, nº 25, Fundação Calouste Gulbenkian, 2003, ISSN 1645-5169.

Cortesia de FCG/HALP/JDACT

segunda-feira, 22 de outubro de 2018

Correspondência. António J Saraiva e Luísa Dacosta. «Estreia-se na Árvore. Folhas de Poesia (vol. II, primeiro fascículo, 1953, último número, apreendido pela Censura) com dois curtos fragmentos de Fevereiro de 1951 sob o título Comboio»

jdact

«[…]
No regresso, começava a cheirar a compotas e a marmelada. Aproximava-se o dia de mortos e o cerimonial ostensivo (a que se juntava alguma rivalidade) de candelabros de prata e flores, no cemitério. Por último chegavam os magustos, o fuminho das castanhas às esquinas, a festa dos estudantes no primeiro de Dezembro. Depois o Natal voltava. Àqueles rituais, felizes, misturavam-se uns laivos de tragédia, pouca: as lembranças da pneumónica, que tinha morto alguns familiares, que não conhecera, e as da primeira guerra do século, que mais a tocara, porque logo no liceu tinha tido um professor de Francês, gaseado da guerra de 14. Mas essas tragédias, já passadas, anulavam-se diante da heroicidade do Carvalho Araújo, com estátua na Avenida, e do Milhões' tantos alemães matara!, que até o próprio Presidente da República-general tinha de lhe fazer a continência, quando ele desfilava com o 13, o nosso regimento. Também havia ecos da guerra de Espanha, já que alguns se tinham oferecido para combater pela república. E estava tudo mais próximo, porque já havia rádio. [...] E, além disso, havia o anjo da guarda, a quem se rezava todas as noites. Sentia-se a salvo. E toda se concentrava na ida para o liceu e na liberdade que haveria para lá da montanha azul, dum azul amassado com violetas.

Seguiu para a Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa (1944), onde concluiu Histórico-Filosóficas. Integrada no grupo de renovação cristã Metanóia, casa (1949) com o respectivo animador, Fernando Macedo Ferreira Costa (morre em 2006, com 78 anos), um cooperativista, e preso político, fundador do Instituto António Sérgio (1976), de quem tem quatro filhas. Separam-se em 1968.

Pobre ingénua, tonta!, que ainda tinha festejado, na rua, o fim da Segunda Guerra Mundial, já na faculdade, em Lisboa, mas não ainda totalmente consciente do holocausto, da sua dimensão e profundidade, como se aquela fosse a última e definitiva Guerra e trouxesse, de imediato, a sonhada democracia. Era tão nova e estava tão cheia de esperança, como um balão de menino acabado de encher! Novas amizades, o piano da Rosário, que a ajudava a estudar, os concertos em S. Carlos, as exposições, o contacto com o cristianismo renovado da Metanóia, que apagava os medos do inferno e do pecado e trazia, como O Cristianismo e a Mensagem Evangélica de Joaquim Alves Correia, a figura humaníssima de Cristo, que, desde o colégio, julgara só um martirzinho e não o pregador de uma nova doutrina de amor e perdão e de uma nova concepção de Deus, sem inimigos, e pai de misericórdia. Estava cheia de esperança. Havia toda uma vida a viver: o casamento, viagens, o nascimento das filhas...

Estreia-se na Árvore. Folhas de Poesia (vol. II, primeiro fascículo, 1953, último número, apreendido pela Censura) com dois curtos fragmentos de Fevereiro de 1951 sob o título Comboio, que anunciam a simbiose futura de crónica e ficção em moldura intimista. Três contos sobre as almas-mortas transmontanas fazem a estreia em livro, com Província (1955). Professora do então ensino preparatório, para que elabora antologias e sobre que reflecte nos anos 70, citemos ainda, para melhor entender alusões veladas de A. J. Saraiva:

O tempo, porém, corria inexorável com o seu cortejo de aflições e perdas: a prisão política do marido, esperanças murchas e a emurchecer, perdas: a morte do pai, mais tarde a da tia e a venda da casa, o corte das raízes. O tempo da alegria tinha passado, com a separação de pessoas e bens, mais tarde o divórcio, o seu corpo ainda enxuto, de lua amassada com azeitona, duas vezes recusado. Começava uma solidão, feroz, de quase quarenta anos, que só as aulas e vagas escritas, pouco vendáveis, tinham preenchido. E a tudo isso viera juntar-se a morte da mãe e depois a da filha mais velha (pode-se enterrar uma filha?) e aquela certeza de que o mundo não era liberdade , beleza e amor, mas injustiça, guerra, fome, tortura, vozes prisioneiras e sufocadas por censuras políticas, cada vez mais sujeitas a uma economia, Sem moral, numa paisagem a desagregar-se em lixo e poluição.

Na metade dos anos 60 a que respeita esta correspondência, sobressai a crítica e ensaísta, presente em quatro publicações principais: Gazeta Musical e de Todas as Artes, Gazeta Literária, O Comércio do Porto, Seara Nova. Vão em nota às cartas os respectivos trabalhos, com que se alarga, seja para Saraiva, seja para Luísa Dacosta, bibliografia ainda por completar. In Ernesto Rodrigues

Paris, 22 de Abril de 1961
Minha Amiga
A sua carta quase se cruzava com a minha. Com efeito, já li o seu ensaio e ia escrever-lhe sobre ele. Entretanto, tinha recebido as Searas enviadas pelo Fernando; e recebi também as revistas que me enviou. O seu Burguesismo Literário dá uma útil perspectiva de conjunto sobre a evolução dos valores burgueses na nossa literatura e tem várias observações penetrantes». In António José Saraiva e Luísa Dacosta, Correspondência, edição de Ernesto Rodrigues, Gradiva, Lisboa, 2011, ISBN 978-989-616-455-3.

Cortesia de Gradiva/JDACT

domingo, 21 de outubro de 2018

Correspondência. António J Saraiva e Luísa Dacosta. «O que haveria para lá do Marão? Segundo o primo Jorge, que já tinha ido ao Porto, pouca coisa: mais casas e mais ruas. Só?! Estranhara»

jdact

«(…) Outra tarefa fundamental gira à volta da Inquisição (maldita) e seus processos ante-kafkianos, iluminando o caso de Manuel Fernandes de Vila Real, quando pede colaboração activa a Luísa Dacosta (um frete, diz ele), em termos de bibliografia inexistente em Paris. Ela providencia, ainda, jornais, revistas e tabaco Português Suave, ou envia fotografias da família. Entre mil desculpas, recebe um lembrete, que estendemos ao leitor: tome nota, a minha Amiga é a pessoa a quem mais escrevo. Donde, a importância desta correspondência para melhor conhecer Saraiva e parte do nosso mundo até 20 de Dezembro de 1965.
A pouco e pouco, vamos percebendo que, entre Estética e Política, sobressai uma Moral, demonstrado que fica o desnivelamento entre o progresso técnico e o progresso moral. Não é só o engodo das civilizações orientais; Saraiva tem à mão prenúncios de Maio de 68, a que assiste, retomando em Maio e a Crise da Civilização Burguesa (1970) o debate aqui esboçado sobre a Burguesia e o Progresso. Em ambos os textos, conclui que, a existir transformação do mundo, será obra de uma mudança espiritual. As 60 missivas (incluindo a que vai em anexo) foram cedidas por Luísa Dacosta, passando de Leonor Curado Neves ao actual editor literário, que as transcreveu e anotou. Os sublinhados surgem em itálico. Procedemos a desdobramentos, completámos palavras, houve rara actualização ortográfíca (Ant. - António; c. - cada; gr. - grande; Hist. - História; mãi - mãe; m/ - minha; mt - muito; p. - para; pq - porque; quási - quase; s/ - sua; tb - também; etc.). Conclui-se de algumas ausências (postais, sobretudo), perdidas ou interceptadas. Também perdida ficou alguma, ou ficaram algumas, de 1966, talvez nas mãos daquela nossa malograda Amiga, porquanto refere uma carta enviada a Luísa Dacosta a 8 de Dezembro de 1966, em António José Saraiva e Óscar Lopes: Correspondência. O tríptico epistolar fechará com a correspondência de António José Saraiva dirigida a Teresa Rita Lopes.

Luísa Dacosta, nome civil, Maria Luísa Saraiva Pinto dos Santos, nasceu em Vila Real (16 de Fevereiro de 1927), cujo tempo, longe, evocou em 2004:

Houve um tempo, em que uma montanha azul, de um azul amassado com violetas, fechava o horizonte do quintal, mesmo quando empoleirada na japoneira, seu mastro de aventuras, sonhava entre o perfume das rosas e dos lilases. Longe, na infância... Na minha primeira infância o mundo não existia, fora dos mapas ou do globo terrestre. Não havia telefone, nem rádio, nem televisão. Só os grandes liam o jornal e lhe recortavam o Pim Pam Pum, às quintas-feiras. Assim, às vezes no meio do sonho ou das leituras, que a prendiam, quando estirada no ramo da japoneira, pensava no que a esperaria para lá do Marão, quando saísse do confinamento, aconchegante, da cidadezinha, onde todos se conheciam e ninguém era anónimo, nem mesmo os pobres. [...] O que haveria para lá do Marão? Segundo o primo Jorge, que já tinha ido ao Porto, pouca coisa: mais casas e mais ruas. Só?! Estranhara. Não podia acreditar. O primo Jorge, companheiro de brincadeiras, devia estar enganado e olhara apressadamente. Mesmo no Porto, sabia pelo pai, havia ópera e concertos. Na altura o seu compositor preferido era Grieg, porque um primo tocava ao piano a canção de Solveig e o que a tentava eram outros horizontes mais vastos e uma liberdade, que poria fim àquela estreiteza, ritual e repetitiva, de todos os anos. Natal, Janeiras, Reis, matança do porco, S. Brás, onde as namoradas compravam ganchas, que imitavam o báculo do santo, para o seu rapaz. Seguia-se o Carnaval e a festa do colégio. Depois da mi-carême, vinha a Páscoa, o folar e o enterro, anual, do Senhor. O santo António, dia da cidade , trazia a feira anual e maior, com barracas, circo e fogo-de-artifício farto e, logo depois, a dos pucarinhos de Bisalhães, pelo S. Pedro. Com o Verão havia música no coreto do Jardim da Carreira e faziam-se preparativos para as férias na Póvoa de Varzim. […]

In António José Saraiva e Luísa Dacosta, Correspondência, edição de Ernesto Rodrigues, Gradiva, Lisboa, 2011, ISBN 978-989-616-455-3.

Cortesia de Gradiva/JDACT

Correspondência. António J Saraiva e Luísa Dacosta. «Basta pensar que é possível inventar palavras que não correspondem a realidades da existência, e que, por outro lado, é possível utilizar as regras operatórias»

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«(…) Alguns desses nomes fortes são burocratas da literatura e nomeia-os, quando a ortodoxia enrijece, em 1962. Afasta-se de vez, no seu neo-realismo teórico que não resistiu ao relatório Krutschov (1956) e ao silêncio cúmplice do Partido, em 1963. Aproveita para se retratar, moral e intelectualmente:

Na minha ordem de valores actual, ponho acima de tudo a pureza e a espontaneidade e considero como o mal maior o jesuitismo e o carreirismo. A pior corrupção é a corrupção do carácter individual. [...] Na mentira e na cumplicidade com a mentira nada se pode construir. Minha querida Amiga, a realidade é coisa imensamente complicada e inesperada. A obrigação dos intelectuais criadores é pensá-la toda, e o pensamento só é válido quando é de raiz e quando tem a coragem de pôr tudo em causa. Uma coisa é o pensamento, outra coisa é a ideologia. Os pensadores autênticos ficaram sós e sós ficarão. Mas a afirmação deles nem por isso é menos válida. Se não têm repercussão no imediato, têm-na nos períodos largos da história.

No esforço de separação das águas, a ironia é traço recorrente, igualmente aplicada aos feitos lusíadas e internacionais, que a comunicação de massas veicula (Le Monde, sobretudo). Espectador atento aos quatro cantos do mundo, resume o novidoso mês de Abril de 1961 em seus altos de Guerra Fria e na conquista do espaço, repercute o golpe do exército francês na Argélia, diverte-se com a tentativa de derrubar Salazar, cuja coerência não evitará a perda das colónias. Ao regular desânimo e solidão do quarto vazio soma-se a dispersão de quem anda sempre a correr:

Mas tenho um problema grave de dispersão. Acabo por não fazer nada com profundidade. Realismo, Marxismo, Jesuítas, Inquisição (maldita), Escravatura, Alienação, como é que tudo isto pode caber num saco? Sou, ao mesmo tempo, um jornalista, um ensaísta e um amador de investigação, e, ainda por cima, gosto de viver à flor da pele, tomar banhos de sol e nadar (ou fingir). E, para complicar mais as coisas, gosto de dormir 8 ou 9 horas por dia. (22-VI-1964)

O atraso nas respostas fica também a dever-se à invencível falta de tempo, que o deixa infeliz. Sobrepaira a vontade de uma grande carta, dando-lhe novidades importantes; infelizmente, é sujeito com vários fios de vida entre as mãos, mas cada um deles é independente dos outros e não resolve os problemas dos outros. Vivo em fatias sobrepostas e impermeáveis entre si.
Assim, a instabilidade de emprego no Centre National de la Recherche Scientifique (CNRS), com renovação anual do contrato, o sonho de ir para o Brasil e preocupações familiares ou do coração não explicam tudo. Encontros e desencontros com oposicionistas mais ou menos grados na emigração acrescentam à amargura e dissipação; no intervalo, certos retratos, inclusive de intelectuais sorbonnards e manifestantes de rua, podem surpreender-nos.
Quanto ao labor científico, há um problema obsidiante: [...] qual é o conteúdo real dessas coisas que as pessoas têm na cabeça e a que chamam ideias? Isto exprime-se, também, como a relação entre ideologia e prática, sujeita a regras que constituem o que designa por 2.º sistema de sinalização, e, tomando-o como ensinamento para o seu presente, aplica ao empreendimento maior que o leva de Paris a conferências na província: António Vieira, a escravatura negra e o império teocrático luso-jesuítico. Seria este o verdadeiro 5.º império, no qual testaria a seguinte hipótese:

Basta pensar que é possível inventar palavras que não correspondem a realidades da existência, e que, por outro lado, é possível utilizar as regras operatórias de forma a construir combinações inteiramente irreais. Ora, como sinais que são, as palavras são condicionantes, condicionam o nosso comportamento. A partir desta ideia, queria eu construir uma teoria do estilo escolástico-barroco (p. ex., certos sermões do padre António Vieira, e, sobretudo, os seus escritos messianistas). Esse estilo concretizar-se-ia pela sua pretensão de se substituir à realidade e de pretender criar um condicionamento que afaste da realidade as pessoas condicionadas.

In António José Saraiva e Luísa Dacosta, Correspondência, edição de Ernesto Rodrigues, Gradiva, Lisboa, 2011, ISBN 978-989-616-455-3.

Cortesia de Gradiva/JDACT

segunda-feira, 16 de julho de 2018

Poesia e Drama. Ensaio sobre a Poesia de Bernardim Ribeiro. António José Saraiva. «Cristóvão Falcão foi, na verdade, um herói da aventura que lhe atribui o primeiro editor da Menina e Moça; e toda a corte se interessou pela triste sorte do fidalguinho infeliz»

jdact

«(…) E, quanto a datas. algarismos, etc., haverá alguma coisa que impeça Bernardim Ribeiro de ser o autor do Crisfal? Carolina, fiada no famoso documento judicial de 1642, sustentava a impossibilidade cronológica. Mas já vimos, no primeiro parágrafo desta Introdução, o que devemos pensar da valia desse e de outros documentos. É impossível, portanto, argumentar com algarismos; e as razões que tenho estado a expor são bastante poderosas para os dispensar. Que resultado final se obtém de tudo isto? Vou apresentar ao Leitor urna hipótese que enfiará num colar as contas dispersas e desarticuladas que lhe venho apresentando. Cristóvão Falcão foi, na verdade, um herói da aventura que lhe atribui o primeiro editor da Menina e Moça; e toda a corte se interessou pela triste sorte do fidalguinho infeliz, namorado e preso. Bernardim Ribeiro, conhecedor da carta em verso que ele dirigira a Maria e que, possivelmente, correra de mão em mão, escreveu a Écloga pondo em cena o próprio Cristóvão Falcão sob o disfarce transparente do nome de Crisfal, formado das sílabas iniciais do nome dele. A Écloga correu anónima porque Bernardim Ribeiro, por qualquer razão, se não quis assinar como autor dela; e, por um processo naturalíssimo, pois Cristóvão Falcão era o herói da aventura e o autor da Carta, foi atribuída a este pela bisbilhotice palaciana. Daqui facilmente o boato chegaria aos ouvidos dos Usques, que o reproduziram com todas as cautelas, e, por intermédio deles, até nós. Bem sei que é esta uma hipótese como qualquer outra; mas tem sobre a hipótese de Delfim Guimarães e a hipótese tradicional a superioridade, pelo menos, de não ser inverosímil.
E passemos a outra meada.
A novela que conhecemos pelo nome de Menina e Moça aparece separada, na edição de Évora (1557), em duas partes muito diferentes entre si, tanto pelo carácter literário como pelo desenvolvimento do enredo: ao passo que a Primeira Parte é idílica e se desenvolve a partir de um ponto, num movimento contínuo, sem quebras, a Segunda Parte é uma série de histórias de cavalaria, sem unidade de desenvolvimento, contíguas, que se interrompem para dar passagem umas às outras.
Esta diversidade deu origem a uma hipótese segundo a qual a segunda parte da Menina e Moça seria escrita por um continuador com o fito de declarar, isto é, dar acabamento à história começada e evidentemente incompleta. Não seria caso desusado; e a hipótese era fortalecida pelas enormes contradições existentes entre as duas partes. Mas a edição de Ferrara (1554) vem destruir esta hipótese porque dá Bernardim Ribeiro como autor de dezassete capítulos da Segunda Parte; e aceite a autenticidade destes dezassete capítulos, ficamos autorizados a aceitar a de todos os restantes, porque os editores de Ferrara utilizaram um traslado evidentemente incompleto ou truncado. António Salgado Júnior acaba de propor a autenticidade dos sete capítulos que se seguem ao capítulo final da edição de Ferrara, com argumentos que não é fácil rebater». In António José Saraiva, Poesia e Drama, Estudos sobre Bernardim Ribeiro, Gradiva Publicações, Lisboa, 1996, ISBN 972-662-477-0.

Cortesia de Gradiva/JDACT

quarta-feira, 11 de julho de 2018

Poesia e Drama. Ensaio sobre a Poesia de Bernardim Ribeiro. António José Saraiva. «… a mesma separação da amada, o mesmo sofrimento da ausência, a mesma intromissão dos fados inimigos»

jdact

«(…) Já citámos dois temas comuns às duas: o tema Amor e Riqueza e o tema da fidelidade até à morte, que se reflecte no Crisfal com a imagem da sombra. Lembraremos ainda que ambas as composições abrem pela descrição do sofrimento da ausência; que certos versos da Écloga se explicam por outros da Carta; assim, este pensamento da Carta:

que a vida é de uma hora,
este bem será eterno (a ser verdadeira a lição de 1619)

foi erguido pelo autor da Écloga às alturas da poesia e serviu de ponto de apoio para um belo voo sobre os mistérios de além-túmulo:

o amor a alma acompanha.

Mais do que isso, o drama completo do Crisfal esboça-se na Carta, onde adivinhamos o debate da heroína entre os conselhos da parentela e o seu próprio sentimento e onde podemos prever a vitória final deste último, como a prevê o próprio autor ao afirmar a sua confiança na fidelidade dela. Ainda mais: o sonho do Crisfal com a cena das lágrimas pode-o ter sugerido este passo da Carta:

[….] lembranças tão mortais
traz à minha fantesia,
que basta uma de um dia
para me os meus tirar:
nele vos vi eu chorar
e nele chorei também.

Convertendo a lembrança em sonho e fundindo a cena das lágrimas, passada e por isso sonhada, com a preocupação presente da pressão da parentela e da preocupação do dinheiro, poderia o Poeta ter criado a Écloga partindo da Carta. E isto explicaria o sentido oculto daquelas palavras:

Eu o treladei dali

Perguntará alguém se um poeta tão profundamente subjectivo e tão consumido pela própria tragédia interior, como era Bernardim Ribeiro, teria disposição e feitio para contar mágoas alheias. Eu lembrarei que o dom dos poetas, sobretudo dos poetas profundamente subjectivos, e nós já veremos em que sentido esta palavra se pode aplicar a Bernardim Ribeiro, é precisamente sentir como suas as mágoas alheias, saber captar para o seu mundo interior as vibrações perdidas no espaço. E neste caso particular há a observar que Bernardim poderia ter encontrado na história do Crisfal um caso muito semelhante ao seu: a mesma separação da amada, o mesmo sofrimento da ausência, a mesma intromissão dos fados inimigos. Parece-me isto suficiente. Mas, para tirar as dúvidas a algum leitor mais escrupuloso em pôr os pontos nos ii, 1embrarei ainda os seguintes factos:

a) que o ambiente do Cancioneiro Geral em que viveu o nosso Poeta era extremamente propício aos brinquedos poéticos, ou, por palavras menos simples, ao exercício da poesia como actividade lúdica;
b) que, pelo menos a cantiga ou solau Pensando-vos estou filha e o Romance de Avalor, na Menina e Moça, são composições feitas ad hoc, para ilustrar histórias imaginadas pelo Poeta e, portanto, alheias a ele, objectivas;
c) que a cantiga Não sam casado, Senhora, segundo a hipótese de Carolina Michaëlis, a única com alguma verosimilhança, é um exercício poético de natureza desportiva ou lúdica».

In António José Saraiva, Poesia e Drama, Estudos sobre Bernardim Ribeiro, Gradiva Publicações, Lisboa, 1996, ISBN 972-662-477-0.

Cortesia de Gradiva/JDACT

Poesia e Drama. Ensaio sobre a Poesia de Bernardim Ribeiro. António José Saraiva. «A carta apresenta vários pensamentos que se encontram na écloga e expressos por modo semelhante. Assim que parece-nos lícito ver na carta…»

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«(…) Temos, pois, que Raul Soares nos demonstrou duas coisas: que no Crisfal se narra uma história que não é a mesma que Bernardim nos conta nas suas Éclogas e na sua novela; que o Crisfal pertence a um género literário diferente do das cinco éclogas do mesmo Bernardim. Para demonstrar que Bernardim Ribeiro não é o autor do Crisfal seria preciso provar a diversidade daquilo que um escritor tem de mais inconfundível e de mais intransmissível, daquilo que, segundo uma frase célebre de Buffon, é a marca do homem: o estilo. E essa ficou por demonstrar. Qual será, portanto, a única conclusão admissível a tirar destes factos? Esta: Bernardim Ribeiro escreveu uma écloga contando a história de um amor que não era o seu e num género literário que, talvez por isso mesmo, não era também o das outras suas éclogas.
Agora note o Leitor: admitida esta explicação, tudo o que no Crisfal nos parece insólito e desusado em relação às Éclogas se explica sem esforço. O aparecimento de motes e cantigas alheias e de versos castelhanos, três ao todo..., porque o próprio género da écloga dramática exigira a caracterização das personagens; a localização geográfica, o amor correspondido, a cena dos beijos, porque tudo isso estava na história que o Poeta recontava; a objectividade, a nitidez, a serenidade, porque, diante de um caso alheio, ele estaria naturalmente num estado de espírito muito diverso daquele com que lamentaria as suas mágoas.
Mas não desenrolei ainda todo o processo aos olhos do Leitor. Já lhe falei naquele donairoso acabamento da Écloga; e vou transcrever as duas estrofes a fim de que o Leitor as releia pesando bem o sentido e a intenção das suas palavras:

Isto que Crisfal dezia,
assi como o contava,
uma ninfa o escrevia
num álemo que ali estava,
que inda então crescia.
Dizem que foi seu intento
de escrevê-lo em tal lugar
pera por tempo se alçar
onde baixo pensamento
lhe não pudesse chegar.
Eu o treladei dali,
donde mais estava escrito
que aqui não escrevi,
porque mal tão infinito
não se lhe pode dar fim.
O que se fez de Crisfal
não o sabe certo ninguém:
muitos por morto o tem,
mas quem vive em tanto mal
nunca vê tamanho bem.

Só um autor que em relação à história que nos conta estivesse na situação de simples narrador poderia ter escrito estes versos. Ele próprio se inculca como tal, gentilmente: eu o treladei dali. Além disso, só com certo esforço de imaginação poderíamos supor o ingénuo e desajeitado autor da Carta a dizer de si próprio: o que se fez de Crisfal / não o sabe certo ninguém / muitos por morto o tem. O que há aqui, com certeza, é uma referência aos zunzuns, aos dizem que em certa sociedade correriam com respeito ao herói da aventura, do mesmo modo que naqueles versos anteriores, onde parece que o autor procura defender o Crisfal da maledicência do mundo: [...] alçar esta história / onde baixo pensamento / não lhe pudesse chegar. O sentido das estrofes citadas é talvez esclarecido por esta observação: o Crisfal parece supor o conhecimento da Carta, porque os temas daquele existem quase todos embrionários nesta. Já o notou Epifânio Dias:

A carta apresenta vários pensamentos que se encontram na écloga e expressos por modo semelhante. Assim que parece-nos lícito ver na carta um como que prelúdio da écloga, tendo o poeta desenvolvido na écloga as ideias que constituem o argumento da carta».

In António José Saraiva, Poesia e Drama, Estudos sobre Bernardim Ribeiro, Gradiva Publicações, Lisboa, 1996, ISBN 972-662-477-0.

Cortesia de Gradiva/JDACT

domingo, 8 de julho de 2018

A Cultura em Portugal. António José Saraiva. «A Lusitânia todavia não desapareceu do mapa, embora se alterassem os seus limites. Era este o nome atribuído pelos Visigodos a uma região que compreendia o nosso Ribatejo, o Alentejo, a actual Estremadura espanhola…»

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Os Antecedentes do Reino
«(…) Na margem esquerda do Douro, perto da foz, onde hoje está o alto de Gaia, houve um povoado, Portucale, antes, no tempo dos Romanos, chamado Cale. Na época visigótica aparece na outra margem outra povoação com o mesmo nome, apodada de castrum novum, para se distinguir da anterior, onde estava o castrum antiquum. Na divisão eclesiástica da época visigótica, o Portucale antigo pertencia à diocese de Coimbra e o novo era sede de bispado. Os livros de linhagens conservam a tradição de um rei mouro de Gaia e do seu castelo. (De facto existe no concelho de Gaia um lugar chamado Mafamude, nome de origem árabe). Passava nesse ponto a estrada romana que vinha de Braga e Lisboa. Não há vestígios de qualquer ponte romana entre as duas margens do Douro, mas a estrada, que era uma das principais da Península, supõe evidentemente uma facilidade de trânsito e uma passagem cómoda de um lado ao outro. O Douro marcava na época romana a fronteira entre a Gallaecia, que tinha a capital em Braga, e a Lusitânia, cuja capital era Mérida. Com as invasões germânicas, constituem-se o reino suevo, abrangendo a Cantábria, toda a Galiza romana e ainda uma parte da Lusitânia ao sul do Douro, que no sentido norte-sul não chegava a alcançar o Tejo e no sentido oeste-leste ia um pouco além da nascente do Mondego para o interior das Beiras. A capital deste reino era em Braga, que já fora a capital da Galiza na época romana. Com o reino dos Suevos, a Galiza e a parte litoral da Lusitânia ao norte do Tejo aparecem unidas na mesma entidade política. Há indícios de que, neste conjunto, a região à volta de Portucale, estendendo-se um pouco ao norte e um pouco ao sul do Douro, se afirmava com uma identidade própria. É assim abolida, especialmente nesta região, a velha fronteira romana entre a Lusitânia e a Galécia.
A Lusitânia todavia não desapareceu do mapa, embora se alterassem os seus limites. Era este o nome atribuído pelos Visigodos a uma região que compreendia o nosso Ribatejo, o Alentejo, a actual Estremadura espanhola e ainda os territórios de Salamanca e parcialmente de Toledo, isto é, a antiga Lusitânia romana, excepto o reino suevo. O seu eixo era o rio Tejo, o seu limite sul o Guadrana e a sua capital continuava a ser Mérida. como na época romana. Os muçulmanos herdaram o nome Lusitania, dando-lhe a forma Luxidania e aplicando-a a toda a Lusitânia romana mais a Galiza, sempre com a capital em Mérida. À medida que os cristãos avançavam, os limites da Lusitânia, ou província de Mérida, baixavam ao norte, e essa parte restante ficou sendo conhecida pelo nome de Al-Gharb, cujo limite norte, depois do Douro, foram sucessivamente o Mondego e o Tejo, até se reduzirem à actual província com esse nome (Algarve).
Contrariamente ao que geralmente se crê, o nome Lusitania não desapareceu com os geógrafos da antiguidade. Está certamente na origem do nome Luzeña, que se encontra na Primera Cronica General de España, do século XIII. Aí se lê: la provincia de Luzenna, que es ell Algarve. Esta última palavra tem aqui o significado do Al-Gharb mouro, que entretanto recuara para lá do Tejo, como se vê neste outro texto da mesma crónica: otra tierra ovo que llamaban Luzenna, que es entre Guadiana e Tajo, e pusieron-le así nombre unas gentes que la poblaran e se llamaban Lusios. Na crónica portuguesa de 1419 a forma latina Lusitania aparece também como sinónimo de Alentejo. Não se conhece forma portuguesa da palavra, o que não prova que ela não se usasse na língua falada. Mas a forma latina permaneceu no latim medieval, que era a língua escrita dos clérigos. Na Vida de S. Teotónio, texto do final do século XII, diz-se que Afonso Henriques em certa época era infante e chefe (dux) de Portugal, e que com o processo do tempo e a ajuda de Deus se tornou rei de quase toda a Lusitânia e de parte da Galiza (tocius pene Lusitane et parte Gallecie rex). Isto significa provavelmente que Portugal é a região que Afonso Henriques herdou, Lusitânia as regiões que conquistou ao sul do Mondego e Galiza os territórios que possuiu em Zamora e ao norte do Minho». In António José Saraiva, A Cultura em Portugal, Teoria e História, Gradiva Publicações, 1994, 2007, ISBN 978-972-662-372-4.

Cortesia de GradivaP/JDACT

A Cultura em Portugal. António José Saraiva. «São mares de duas margens, quase navegáveis a remo. Até onde remonta a História, houve sempre navegação nestas águas.Mas o mar português era um oceano com uma margem»

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«(…) A brilhante civilização tartéssica não chegou a esses recessos isolados, onde o centeio era a base da alimentação. E, em segundo lugar, que as zonas do litoral, até ao Tejo, foram mais sensíveis à inovação técnica e aceitaram um arado mais evoluído ainda que o dos Iberos de Tartessos e cuja proveniência nos parece problemática. E, de assinalar a importância do Portugal ultramontano como centro de irradiação, pois o arado desta região, o radial, é o que se encontra também nas regiões colonizadas pelos portugueses (Açores, Madeira, Canárias, América do Sul e África). Quando, na primeira metade do século XVI, um dos artistas que iluminaram as Ordenações Manuelinas quis simbolizar as actividades agrícolas nacionais, representou um lavrador a trabalhar a terra com um arado radial muito simples (sem aivecas), o que parece mostrar que esse era o arado mais conhecido no País.
As conclusões a tirar deste mapa parecem ser as seguintes: o arado dominante na região montanhosa do País (ao norte do Tejo), o arado radial, é o mais primitivo que se conhece na Península. Talvez abrangesse também a Galiza, depois colonizada pelos castelhanos. Por outras palavras, seria o arado primitivo de todo o Noroeste peninsular. Ao sul do Tejo, como na Andaluzia e na planície castelhana, predominava o arado, mais complexo, chamado de garganta. Isto vai no sentido de caracterizar o Noroeste montanhoso peninsular, do Tejo ao golfo de Biscaia, como uma região cultural unida e isolada. O arado radial é, de resto, o mais fácil de transportar, o que o torna apropriado à montanha. Mais tarde, uma civilização mais avançada introduziu ao longo do litoral o arado quadrangular, fazendo recuar para a montanha a zona do arado radial ou lusitano.
Está claro que esta interpretação, baseada em indícios, só pode ser adiantada a título muito provisório. O seu grande interesse está em nos ajudar a distinguir historicamente, no actual rectângulo português, três grande zonas: o litoral até ao Tejo (onde se encontram hoje em maior número as principais cidades de Portugal), o além-Tejo e o além-montes ou Portugal interior. É corrente considerar-se o Portugal interior como o mais isolado e por isso mais arcaizante. Segundo esta perspectiva. O dinamismo teria vindo da costa. E, chegou-se a comparar o caso de Portugal com o da Holanda, cuja formação depende toda do mar. Esquece-se que a Holanda, como os países bálticos e os do litoral do Mediterrâneo, se encontra à beira de mares interiores, semeados de ilhas e penínsulas e outras reentrâncias, recortados de golfos e canais naturais, de modo que em cada ponto há pouca distância de uma a outra terra. São mares de duas margens, quase navegáveis a remo. Até onde remonta a História, houve sempre navegação nestas águas.
Mas o mar português era um oceano com uma margem só, donde se não podia partir sem receio de nunca mais voltar. Até aos tempos próximos das grandes navegações foi um mar deserto e sem eco. Veremos que apesar disso o litoral foi uma região muito povoada, ao mesmo tempo que muito conservadora. Mas isso vinha provavelmente de ser uma zona de planície ou peneplanície, mais facilmente arável do que as montanhas graníticas do interior, o que, juntamente com a pesca e o sal, eram circunstâncias para atrair uma população densa, como a que encontramos no litoral da Galiza e do Norte de Portugal, já muito antes da fundação do reino. Acrescente-se ainda que na Idade Média o Tejo e o Douro eram navegáveis desde o mar até perto da actual fronteira portuguesa, e o Mondego até às abas da serra. Isso permitia uma simbiose entre a montanha e o mar que ajudava a enraizar uma população». In António José Saraiva, A Cultura em Portugal, Teoria e História, Gradiva Publicações, 1994, 2007, ISBN 978-972-662-372-4.

Cortesia de GradivaP/JDACT

quinta-feira, 5 de julho de 2018

A Cultura em Portugal. António José Saraiva. «… mas que tal arado não chegou a implantar-se na zona montanhosa do Portugal actual, onde existia um outro, mais arcaico, semelhante ao dos Romanos»

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«(…) Mas além desta fragmentação transversal, os geógrafos têm assinalado uma outra, também evidente: é a que separa a orla atlântica, Minho litoral, Beira Litoral, Estremadura, estuários do Tejo e do Sado, do país interior, para lá dos montes, que inclui o Alentejo, separado do mar por altas falésias. No seu estudo sobre Os Arados Portugueses, Jorge Dias apresentou um mapa de distribuição dos tipos de arado que em seu parecer distingue áreas culturais muito antigas. Toda a zona interior até ao Tejo, parte da Galiza e de Leão, Alto Minho, Trás-os-Montes, Beira Alta e Beira Baixa foi arada com o arado radial, que é o mais primitivo e o mais simples. O dente que fura a terra, e a rabiça, por onde pega o lavrador, formam uma peça só: uma simples pernada de árvore, com uma curvatura apropriada e um bico aparado, pode servir ao efeito; acrescenta-se-lhe um pau comprido, o temão, para puxar o instrumento. Este arado, leve e portátil, especialmente adaptado à cultura do centeio. que é a das terras altas, já era conhecido dos Romanos e também de tribos do Atlas marroquino. Jorge Dias chama-lhe o arado lusitano, admitindo que o seu foco de irradiação seria a zona actualmente portuguesa da Lusitânia romana.
Diferentemente, em toda a zona ao sul do Tejo, predomina o arado de garganta, muito mais complicado, pois supõe a justaposição de várias peças. O dente é fixado, com cravos e argolas de ferro, a um pau curvo, a garganta, que se prolonga na rabiça; na garganta fixa-se a vara do temão. Este arado, difundido em várias regiões mediterrânicas, teria vingado, antes das invasões romanas, na civilização ibérica, altamente evoluída, de Tartessos, que teve o seu foco na Andaluzia e se espalhou por toda a Península, excepto nalgumas zonas montanhosas na fronteira actual portuguesa ao norte do Tejo, e nos Pirenéus. É o arado do trigo.
Finalmente, na zona litoral, de Lisboa à Galiza, para cá dos montes, predomina o arado quadrangular, que é o mais complicado. Ao pau do dente fixam-se peças a que se prende o temão, que está também fixado à rabiça, ou ao par de rabiças (dispostas como o guiador de uma bicicleta), formando o conjunto um paralelogramo; ao pau da rabiça fixam-se também largas asas de madeira, as aivecas, para revirar a leiva da terra. Em alguns casos funciona com rodas. É preciso para a cultura do milho, e chama-se-lhe o arado suevo, porque se supõe que foi trazido com as invasões do Centro e do Norte da Europa. Essa suposição não condiz com o que geralmente se sabe do papel dos dos Germanos invasores, que constituíram normalmente uma casta militar, vivendo das armas e da rapina das populações locais, nem em especial dos Suevos, povo de guerreiros, caçadores e pastores, cujo breve domínio foi assinalado por constantes guerras entre a população galega e os seus subjugadores. Este mapa, possivelmente ainda sujeito a correcções, mostra, em primeiro lugar, que existiu um arado ibérico tecnicamente superior ao dos Romanos e cronologicamente anterior à invasão destes, mas que tal arado não chegou a implantar-se na zona montanhosa do Portugal actual, onde existia um outro, mais arcaico, semelhante ao dos Romanos». In António José Saraiva, A Cultura em Portugal, Teoria e História, Gradiva Publicações, 1994, 2007, ISBN 978-972-662-372-4.

Cortesia de GradivaP/JDACT

A Cultura em Portugal. António José Saraiva. «Entre estes dois triângulos estende-se o grande planalto suspenso como duas grandes abas, de um lado e outro sistema montanhoso central (Guadarrama, Gredos, etc.) e que é limitado ao sul pela serra Morena»

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«O litoral ocidental da Península Ibérrca era verdadeiramente o fim do mundo, o finis terrae, nome que os Romanos deram a um cabo da Galiza, mas também podiam ter dado ao cabo da Roca ou ao de S. Vicente. Colocada entre os Pirenéus e a costa africana, a Espanha estava exposta às invasões do norte e do sul. Sem falar de povos pré-históricos, de um lado da Europa vieram os Celtas, os Romanos, os Suevos e os Visigodos, do outro os Fenícios, os Cartagineses e os Árabes. Do lado do Mediterrâneo, o sistema montanhoso chamado Ibérico desenha com os Pirenéus um grande triângulo percorrido pelo Ebro. Do lado atlântico aparece um outro triângulo, cujos lados são o litoral norte ou cantábrico, o litoral oeste e, por terra, uma recta imaginária que fosse de Lisboa até à fronteira das Astúrias com o País Basco; são estes os limites dos vários sistemas de cordilheiras que desde os Montes Cantábricos se vão sucedendo até ao vale do Tejo: o Maciço Galaico, os Montes Leoneses, e o prolongamento em direcção ao mar do sistema central da Meseta, que é a serra da Estrela e adjacências.
Entre estes dois triângulos estende-se o grande planalto suspenso como duas grandes abas, de um lado e outro sistema montanhoso central (Guadarrama, Gredos, etc.) e que é limitado ao sul pela serra Morena. É a Meseta Central, onde se situa o centro geométrico da Península. Nas duas abas da Meseta estão as duas Castelas. Para além da serra Morena está a Andaluzia com os seus pomares. A leste, com o rico vale do Ebro e os portos activos sobre o Mediterrâneo, ficam o Aragão e a Catalunha. Nas serranias rochosas do Noroeste, com as suas praias desertas, estão a Cantábria e a Galiza, onde nasceu Portugal.
A Meseta castelhana, amuralhada nos seus três lados, sob um céu ardente, estava destinada a dominar ou a perecer. O Noroeste ficava isolado, país de montanheses, com uma franja de pescadores, condenados a um duro trabalho numa terra ingrata, ou à emigração. Quanto à Andaluzia, foi sempre uma tentação para os viandantes do Norte ou do Sul, o Jardim das Hespérides. Na zona oeste, o litoral oferecia um trânsito fácil no sopé das serras, ao longo do mar, e isso permitiu que os montanheses do norte do Tejo descessem à planície ao sul deste rio, onde se prolonga a Meseta castelhana, até ao litoral fronteiro à África, continuação da Andaluzia. Por virtude desta estrada natural, onde depois se implantou uma grande estrada romana e uma via de caminho de ferro, Portugal, cujas raízes estão nos maciços isolados do Noroeste, pôde prolongar-se ao longo do litoral, criando uma espécie de apêndice; e o Tejo, fronteira geográfica, deixou de ser uma fronteira histórica. Mas a franja do litoral liga-se com a zona semidesértica da Meseta castelhana.
Lisboa, no cruzamento da estrada litoral com um rio profundamente navegável, situada no fim das montanhas e frente à planície do Sul, viria a tornar-se a capital de uma nova entidade política, um pouco híbrida, já em parte desprendida das raízes asturo-cantábricas e galegas. Considerando a zona onde actualmente se encontram Portugal e a Galiza, vê-se imediatamente que está dividida por rios paralelos, que a separam em fatias. O Minho separa a antiga Galiza romana em duas partes, das quais a do sul, só, é actualmente portuguesa. O Douro marcava a fronteira entre a Galiza e a Lusitânia romanas. e durante muito tempo, na chamada reconquista, foi o limite da terra cristã. Entre o Douro e o Tejo estão as Beiras, com as suas serras oblíquas à costa, zona de transição entre o Norte e o Sul. A orientação das serras determina o curso do Mondego e estabelece duas zonas: uma, ao norte da Estrela, leva a Coimbra, que é uma capital regional natural, entre o Mondego e o Douro. Outra, no sul, conduz, por estradas naturais, até Lisboa: é a Beira Baixa. Esta província tem uma função central, porque é ela que estabelece a ligação, pelo interior, entre o Norte e o Sul. Na medida em que tem a Beira Baixa como hinterland pelo interior, ao mesmo tempo que se encontra na margem do Tejo e na estrada natural, Lisboa tem uma posição chave em relação ao resto do País, mas especialmente até ao Douro. Finalmente, o Tejo separa o Sul do Norte; mas as serras algarvias abrem uma concha sobre o mar que tem pouco que ver com o Alentejo». In António José Saraiva, A Cultura em Portugal, Teoria e História, Gradiva Publicações, 1994, 2007, ISBN 978-972-662-372-4.

Cortesia de GradivaP/JDACT

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

Correspondência. António J Saraiva e Luísa Dacosta. «Entrementes, a literatura homologa essa cristalização económica e política do país. O grupo social donde emerge um autor dotou-se de uma visão do mundo prolongada em estruturas literárias»

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«O tom epistolar de António José Saraiva contém-se já na primeira missiva, de 22 de Abril de 1961: agradecido e familiar, sem abandonar a terceira pessoa com uma velha amiga e colega a sua carta, gosta de evocar os pequenos incidentes de uma vida instável de bolseiro e, agora, investigador, que no-lo aproximam nos anos de Paris, onde vive desde 1959. Redobra de atenção para com os escritos da interlocutora, que lhe suscitam revisões conceptuais e projectos só em parte respondidos na História da Cultura em Portugal, cujo terceiro volume é de 1962, ou nas refundições dos seus maiores: Fernão Lopes, Bernardim, Gil Vicente, Camões, Eça. Mas as hipóteses de trabalho que vai lançando irão frutificar, entretanto, em dissertações universitárias assentes no estudo estatístico da origem regional e da condição social dos homens que mais ou menos governaram este país. Esta correspondência, desde o postal breve à lição e ao ensaio, regurgita de premonições e profecias. Parte, entretanto, de um incomum faro analítico, desaguando em sínteses notáveis: é o caso da nossa burguesia mercantil, que foi motor de desenvolvimento e, após 1834, se fez agrária, atrás de baronatos e comendas, sem nunca termos vivido um capitalismo industrial, o que ainda hoje nos afecta.
Entrementes, a literatura homologa essa cristalização económica e política do país. O grupo social donde emerge um autor dotou-se de uma visão do mundo prolongada em estruturas literárias. A conceptualização de Lucien Goldmann anda no ar. O estruturalismo genético é de base marxista, mas Saraiva tem atritos com o Partido Comunista Português e ainda visita a União Soviética; descobre o estruturalismo tout court (e louva Roland Barthes), mas recua a Merleau-Ponty e à fenomenologia; sai embevecido de um Trotski historiador e vê-se tentado por Gandhi, Tagore, Lanza del Vasto, o Budismo. Esses momentos ou passagens serão perceptíveis nos cinco anos (1961-1965) de correspondência; subjaz, porém, à continuada reflexão sobre acontecimentos cimeiros desse lustro, a livre expressão de uma individualidade anti-institucional, desconfiada de quaisquer sistemas e controlos, e confessando-se nas provações, privações e pequenas misérias.
Dentre os intelectuais, os escritores do nosso estado de coisas têm responsabilidades, e vá de nomeá-los, em breves pinceladas ideológicas, que subsumem outras guerras, em particular, o confronto com o neo-realismo já desacreditado pela juventude na União Soviética (onde se chamava realismo socialista), seus fautores na imprensa lusitana e, na Cidade-Luz, com os representantes do PCP. A referência de 1961 ao pontífice Júlio Dantas (1876-1962) remete para um afim pontificado literário, que reitera em Abril de 1973: Pelo uso que fazem das palavras, os neo-realistas estão muito mais perto de Júlio Dantas do que de Almada. Júlio Dantas não falava das mesmas coisas que os neo-realistas, mas tanto as coisas destes como as coisas daquele vinham do mesmo banco, estavam representadas pela mesma moeda, correspondiam à mesma ordem. A única diferença é que os neo-realistas estavam na oposição. No entremeio (26-X-1964), buscara outro exemplo de choque: Em resumo, o neo-realismo é, hoje, a ala conservadora da nossa literatura, e contra eles apoio, por exemplo, uma Agustina Bessa-Luís, que, sob roupagens tradicionalistas, representa literariamente (e isto é o que interessa) algo de muito mais inovador. Bem sei que politicamente ela não é do contra, mas eu recuso-me a deixar-me desorientar pelo equívoco que daí resulta». In António José Saraiva e Luísa Dacosta, Correspondência, edição de Ernesto Rodrigues, Gradiva, Lisboa, 2011, ISBN 978-989-616-455-3.

Cortesia de Gradiva/JDACT

domingo, 31 de agosto de 2014

Teoria e História no 31 (II). A Cultura em Portugal. António José Saraiva. «Coimbra é, o centro da resistência de D. Sancho II na guerra que lhe moveu o seu irmão, que desembarcou em Lisboa e dela fez o ponto de partida da sua ofensiva»

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«(…) Mas se quisermos indicar a zona densa donde partia a irradiação para leste e para sul temos de nos limitar à nesga de terra que constituíra o território dos condes portucalenses, uma região à volta de Portucale, que abrange Braga e Guimarães e se prolonga no território de Coimbra, incluindo Viseu e Lamego. E a gente aqui acumulada que inicialmente constitui Portugal. Esta região ainda hoje é a parte mais densamente povoada e mais tradicionalista do País, e foi dela que partiu a ocupação do resto. Não havia nesta região pobre, embora povoada, uma só cidade importante à escala peninsular, comparável a Burgos, Santiago de Compostela, Leão, Toledo, Saragoça ou Sevilha. Braga, antiga capital romana da Galiza, era uma velha cidade episcopal, Guimarães, um pequeno núcleo de homens de negócio e cavaleiros, Viseu e Lamego, povoações antigas que se tornaram sedes episcopais nos princípios da monarquia. Quanto ao Porto, nos tempos que imediatamente precederam a fundação do reino, não existia ainda, a não ser como arrabalde incipiente de Portucale, uma cidade episcopal visigótica no lado esquerdo do Douro, onde está hoje Vila Nova de Gaia; durante os primeiros dois reinados da monarquia cresceu de uma forma galopante e selvagem na outra margem, até se tornar um considerável burgo e um porto de comerciantes e de mercadores, em relação com o Norte da Europa e procurando libertar-se da tutela senhorial do bispo. Era uma cidade de plebeus e sem tradições, a não ser a da revolta contra o senhor. A verdadeira cidade tradicional era então Coimbra, onde porventura permanecia a reminiscência das instituições municipais romanas, cidade moçárabe que já nos tempos do conde Sesnando (1064-1092) fora sede do estado condal e também sede de bispado desde 1080. Ali se fundaram, além da Sé, o Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, onde o rei recrutava os seus escribas e chanceleres e onde eram depositados documentos oficiais. Cibdat real lhe chamava a Crónica General de España de Afonso X, no tempo de Sancho II ou Afonso III, o que significava que era uma cidade importante no reino de Portugal, conquanto do ponto de vista ibérico devesse considerar-se como uma pequena capital de uma província pobre e distante. Para sul, já fora do núcleo inicial, em regiões recentemente conquistadas, Lisboa e Santarém encerram uma considerável população moçárabe e estão envolvidas por uma população agrícola moura escrava ou livre. Mais para sul, Évora e Alcácer do Sal, só definitivamente conquistadas no tempo de Afonso III, parecendo esta perder o seu esplendor antigo desde a ocupação cristã. Afonso Henriques, como o conde Sesnando, reside ordinariamente em Coimbra, como também os três reis seguintes. Mas Sancho I faz já longas estadas em Santarém. Coimbra é, o centro da resistência de D. Sancho II na guerra que lhe moveu o conde de Bolonha, seu irmão, que desembarcou em Lisboa e dela fez o ponto de partida da sua ofensiva. É só no reinado de Afonso III que Lisboa, já então cidade importante, se torna assento frequente da corte. Este rei era talvez o principal proprietário de casas e mercados na cidade. Notemos que Afonso Henriques subsidia largamente as sés de Lisboa, Coimbra, Porto, Braga, Viseu, Lamego e Évora, além do Mosteiro de Alcobaça, que então se edificava num lugar solitário. Estes templos não correspondem à importância dos núcleos urbanos onde se construíam». In António José Saraiva, A Cultura em Portugal, Gradiva, Lisboa, 1991.

Cortesia Gradiva/JDACT

Teoria e História no 31 (I). A Cultura em Portugal. António José Saraiva. «Era uma ‘ideia’ do território português diferente da que veio a realiza-se: “era um espaço que abrangia o triângulo noroeste da Península até ao Tejo”»

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«(…) Esta primeira época da cultura portuguesa que abrange os primeiros três ou quatro reinados da monarquia é uma época de formação, porque os elementos que a constituem ainda não estão organizados no espaço, não existe ainda um pólo que receba, transforme, elabore e retransmita os movimentos e processos próprios de um meio que no seu conjunto já se distingue dentro do meio ibérico. Em certa medida cabe a esta época a designação de idade heróica, porque é aquela em que a expressão mais popular da comunidade se encontra nos cantos épicos. A idade heróica, diz Menéndez Pidal, é aquela vivida por alguns povos que, antes de terem desenvolvido a prosa historiográfica em língua vulgar, sentem a necessidade de cultivar a sua história, e têm de fazê-lo na única forma literária então existente, em forma poética, em cantos públicos. Só nesta época em Portugal os encontramos. Aliás, esta fase cultural corresponde à da conquista permanente do território, em que o papel mais activo cabe a um bando de conquistadores que avança de norte para sul. Podemos dizer que, do ponto de vista cultural, nesse tempo Portugal é um espaço linguístico. Há uma população que fala o português, que tem chefes naturais, no seio da qual já aparecem textos em português, população que tem a sua tradição poética oral e musical na sua língua própria. Neste espaço encontramos pequenos focos de saber clerical, baseado na escrita e no livro. Mas são franjas de um centro cosmopolita, situado fora de Portugal: pertencem na realidade mais à história da Igreja do que à história nacional. Basta pensar que não cabem no nosso espaço as duas principais personalidades que aqui se formaram, Santo António, dito de Pádua e que nós chamamos de Lisboa, atendendo ao seu lugar de nascimento, e o Papa João XXI, mais conhecido por Pedro Hispano, antigo abade de Vermoim. E, quanto à produção poética autóctone, pertence sem dúvida ao espaço linguístico nacional, mas o que sabemos dos centros donde irradiou leva-nos para fora dos limites geográficos e cronológicos do reino de Portugal. O espaço linguístico de que falamos nem sequer constituía uma entidade política. Abrangia a actual Galiza, todo o Norte de Portugal, que constituía o território portucalense, e o chamado território de Coimbra, ou conimbricense, cujo limite sul era o Mondego. A Estremadura, entre o Mondego e o Tejo, era um território ermo e assolado pela guerra. Quanto a Sintra, Lisboa, ninho de piratas, e sobretudo Santarém, cidade muito importante, eram, no fim do reinado do Fundador, povoações de conquista recente, ainda fortemente arabizadas; todo o Alentejo era teatro de guerra, embora Évora, conquistada por um caudilho mouro aliado de Afonso Henriques, tivesse permanecido constantemente em mãos cristãs, no meio dos fluxos e refluxos da chamada Reconquista. Para leste, a fronteira não estava bem determinada e menos ainda povoada. Afonso Henriques pretendeu alargar o território não só para a Galiza, que chegou a ocupar parcialmente durante algum tempo, mas também para Zamora, Toro, Salamanca, Valladolid, Cáceres, Badajoz, regiões onde não se falava ainda o castelhano, mas dialectos leoneses ou moçárabes, com características próximas do galego-português. Era uma ideia do território português diferente da que veio a realiza-se: era um espaço que abrangia o triângulo noroeste da Península até ao Tejo. Fora já a ideia do conde Henrique e de D. Teresa. A resistência oferecida pelos reis de Leão e de Castela obrigou todavia os chefes portugueses a canalizarem o seu expansionismo para o Sul, tanto mais que as estradas romanas lhes facilitavam o caminho nesse sentido». In António José Saraiva, A Cultura em Portugal, Gradiva, Lisboa, 1991.

Cortesia Gradiva/JDACT

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Herculano Desconhecido. 1851-1853. António José Saraiva. «Havemos de analisar, não as medidas do ministro das Finanças, porque nem sempre a veia de “Demócrito” nos assiste, nem escrevemos só para desenrugar a face dos nossos…»

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Documentos. Colaboração de Herculano n’O Portuguez
N.º 2, 12 de Abril de 1853. Fontes Pereira de Melo
«(…) No preâmbulo de uma medida proclama os princípios da livre troca, e nas suas disposições santifica a doutrina oposta. Hoje aumenta a protecção a uma indústria, que lho não pede nem o precisa; amanhã alivia os direitos de certa mercadoria, e sufoca uma indústria nascente. Agora leva a palma aos mais zelosos partidários da protecção, não ousando tocar nos direitos sobre os produtos de una indústria que não existe no país; logo vai adiante dos economistas mais liberais, e permite a livre exportação da matéria-prima do papel. Uma leviandade inexplicável, uma contradição perene, uma volubilidade estéril, um desejo pueril de mexer em tudo e de tudo arranjar de diverso modo, sem sistema, nem método, nem alcance; eis os dotes governamentais de S. Exª.

Para o espíritos, a quem as palavras fazem o efeito de ideias e a agitação e movimento o efeito de progresso, o ministro das Finanças é um colosso de génio e de sabedoria. Há almas cândidas que se extasiam de lhe ouvir proclamar no parlamento os princípios económicos que vem nos livros da ciência, como um estudante papaguearia uma lição de Say ou de Rossi. Um tal ministro, que seria mau numa época ordinária, é péssimo nas circunstâncias extraordinárias, em que o destino cego lhe meteu nas mãos a arma terrível da ditadura.
Com os dotes de discursador fluente, com um talento vulgar, e um alcance de ideias problemático S. Ex.ª faria-uma figura muito mais distinta, se um atrevimento infundado o não fizesse abalançar a empresas arriscadas. Há duas espécies de mediocridades muito diferentes. Uma é a mediocridade modesta, que tem o mérito de se conhecer, que não sai da sua esfera, que tem o talento do silêncio e da quietação a propósito, e que assim grangeia às vezes a reputação da profundidade política, e da alta prudência administrativa. A outra é a mediocridade ambiciosa que se revolve, que ousa, que pode às vezes surpreender os incautos pelo atrevimento, mas que se expõe a flagelações pungentes e a verdades amargas, até que o senso comum a precipite na modesta mediania que lhe compete.
O complexo das medidas económicas de F. P. M. são [sic] um sudário em que se delineiam com a expressão mais enigmática as feições deste novo Lázaro, chagado de contradições flagrantes. A confrontação dos seus decretos é a verbaração mais pungente que lhe podem infligir os seus adversários. Havemos de analisar, não as medidas do ministro das Finanças, porque nem sempre a veia de Demócrito nos assiste, nem escrevemos só para desenrugar a face dos nossos leitores; mas as questões sobre que versam essas medidas; e que são as questões de maior transcendência para o país, porque dizem respeito aos interesses da maioria da sua população.

NOTA: R. Sampaio responde a este artigo, defendendo Fontes na Revolução de 13 de Abril. Aí faz alusões veladas a Herculano: admira na verdade como espíritos ilustrados são fanatizados pela rotina. Admitem as transformações sociais, conhecem a necessidade delas, mas combatem-nas na sua época como o povo. Sabem como essas transformações se fizeram no passado, conhecem os seus elementos e as suas causas, preveem as que se hão-de operar no futuro, mas julgam que a sociedade fizera alto enquanto eles passam, como para honrar a sua nobre individualidade».

In António José Saraiva, Herculano Desconhecido. 1851-1853, Edições SEN, Porto, 1953.

Cortesia de Edições SEN/JDACT

Herculano Desconhecido. 1851-1853. António José Saraiva. «… qualquer estudante de economia política, saltando dos bancos da escola para o gabinete da secretaria, nos teria feito o obséquio de salvar a pátria: sem nos incomodarmos a conceder a imortalidade…»

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Documentos. Colaboração de Herculano n’O Portuguez
N.º 2, 12 de Abril de 1853. Fontes Pereira de Melo
«(…) Encomiastas escriturados e panegiristas oficiosos andam por aí proclamando a vozes a glória do segundo Necker, o suplemento aos sete sábios da Grécia. Colbert e Pitt, Bastiat e Robert Peel, estes nomes venerandos são incomodados sucessivamente para celebrarem os feitos do homem, que o cego acaso das revoluções colocou à frente dos negócios financeiros do país, em época tão melindrosa e difícil. Ignorávamos que para ser grande ministro não havia mais do que fazer muitos decretos; que para ser estadista de primeira plana bastava legislar a torto e a direito sobre os pontos mais complicados de administração pública; que para ser economista profundo era suficiente declamar as doutrinas de Say, de Bastiat e de Coquelin. Não sabíamos que e glória se comprava por tão ínfimo preço.
Vivíamos na persuasão errada de que sem muito estudo, sem a observação muito reflectida dos fenómenos económicos do país, sem a indagação muito minuciosa da dependência que têm os interesses criados por esse país com a sua organização económica, não se podia ser sequer um medíocre administrador da fazenda pública. Estávamos na ilusão de que ser grande estadista não era só proclamar os princípios da ciência administrativa, que aí se encontram em qualquer manual; mas saber quais são na prática as excepções a esses princípios, com que cautelas e modificações se hão-de aplicar às circunstâncias peculiares de uma nação. Se para organizar a nossa fazenda bastasse reduzir a decretos as teorias económicas de Say e Coquelin, qualquer estudante de economia política, saltando dos bancos da escola para o gabinete da secretaria, nos teria feito o obséquio de salvar a pátria: sem nos incomodarmos a conceder a imortalidade a Fontes Perira de Melo.
A feição mais característica do ministro que tem sido da Marinha, da Fazenda e das Obras Públicas, é o movimento, a actividade, a prodigalidade estéril de frases, de medidas, de relatórios, de teorias, de salvatérios e de contradições. S. Ex.ª faz e desmancha, aduna princípios opostos, passa rapidamente de legislar ditatorialmente sobre uma ninharia a decretar sobre os pontos mais transcendentes; legisla de improviso e sem consultar as pessoas competentes; promulga um decreto, cujas disposições estão em guerra civil com os princípios do relatório, que o precede; promete a salvação do país em cada uma das suas medidas financeiras. Um dia manda vender os vasos podres da marinha portuguesa, que se não vendem; publica hoje um decreto e suspende-o no dia seguinte; hoje salva o país com uma medida económica, e reserva-se o direito de o tornar a salvar com outra medida diferente daí a poucos meses; hoje felicita o país com a barateza do gelo, pare regalo dos elegantes da capital, amanhã manda construir uma via férrea; hoje é a via do norte, amanhã os fundos aplicados a esta são destinados para a do sul. À incoerência é a deidade tutelar de Fontes Pereira de Melo. Para justificai a conversão forçada, diz que era necessário preencher o deficit e que a receita do Estado não pode ser aumentada; mas logo mais abaixo assevera que a nação pode e deve pagar mais.
Depois de ter legislado sobre as matérias mais importantes da economia e da administração pública, sem atender aos interesses criados, nem aos factos económicos existentes, nem aos dados estatísticos, vem uma bela manhã propor às câmaras a abolição de um monopólio com a rescisão de um contrato; assevera ter na mente desde longa data aquela medida salvadora, e nem sequer tinha pensado na maneira de compensar a quota da receita que aquele novo rasgo económico vai subtrair ao Tesouro. Os princípios opostos da protecção e da liberdade de comércio, da protecção excessiva e da liberdade de comércio exagerada, andam sucessivamente à briga e ao cachação nos relatórios e decretos de Fontes Pereira de Melo». In António José Saraiva, Herculano Desconhecido. 1851-1853, Edições SEN, Porto, 1953.

Cortesia de Edições SEN/JDACT