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sábado, 17 de fevereiro de 2024

A Sátira na Literatura medieval Portuguesa (séculos XIII e XIV). Mário Martins. «Tem agilidade e graça, esta cantiga. Mas a que segue tem fúria: Quem passou a serra e não quis servir a terra, maldito seja! O que levou dinheiros e não trouxe cavaleiros, maldito seja!»

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«Pero Mafaldo vivia no século XIII e deve ser contado entre os trovadores alfonsinos da côrte castelhana. Escreveu um serventês a despedir-se da verdade e poetou contra Pero de Ambroa e a famigerada Balteira. Pero Mafaldo, ironicamente, declara que irá mudando e mentindo. Toda a gente faz o mesmo. Falar verdade ao amigo? Não! Quem mente ganha com isso. Juro, pois, e digo que vou separar-me da verdade e querer mal a quem bem quero. Hei-de prosperar assim, como cavaleiro que sou. Que hei-de eu fazer, se a verdade para nada me serve nem aumenta a minha honra? Dai-me um conselho, por caridade. Assim vai a minha vida: Se minto ao meu amigo e ao meu senhor, medra o meu proveito e cresço em importância. Sempre a eterna ironia: só medram os malandros e os hipócritas.

Um trovador desconhecido, mas de elevada categoria técnica e boa inspiração, deixou-nos uma poesia híbrida, de cantar de amor e de maldizer, contra o mundo e os homens. Também ele se lembra dos bons velhos tempos: Quem viu o mundo de antigamente e o vê agora, que há-de querer, senão desterrar-se algures? Mas o mundo é só um e este é falso. Para onde foram a mesura e a grandeza? Onde pára a verdade? Quem é leal ao seu amigo? Que se fez do amor e do trovar? Porque anda a gente triste e sem cantar? Ainda assim, vivo por amor duma senhora a quem muito quero, dos tempos em que amor havia. Fiquem, pois, a saber porque não me vou algur esterrar, / se poderia melhor mund’achar. E este pensamento vai batendo no final de cada estrofe, como condenação inapelável dos tempos que já não são nossos.

Até aqui, temos a impressão dum cortejo poético de velhos pranteadores. Contudo, esse cortejo não pára na Idade Média e salta aos olhos, por exemplo, na França do século XIX, mesmo entre escritores audazes e criadores. Alfred Musset condenava a geração nova por ser inculta, sans gaitê et sans amour. Chateaubriand escrevia, em 1831: Tout paraît usé, art, littérature, moeurs, passion; tout se détériore.

Lamartine afinava pelo mesmo diapasão e declarava que a França apodrecia numa esterqueira e tudo se desgastava e morria. Eles não pressentiam, entre tantos outros escritores, o advento de Baudelaire e do frisson nouveau que depois faria estremecer Victor Hugo.

Afonso X e os Soldados

Afonso X, o Sábio, está no centro dum ciclo satírico, onde a poesia é meio de ataque e de defesa, como os panfletos de hoje em dia. Atacou, atacaram-no. E cada um tinha, em geral, as suas razões e os seus pontos fracos. Às vezes, nada tão lúcido como o ódio.

Ainda infante, Afonso X troça dos maus conselhos do mordomo Rodrigo e dos peões todos calvos e sen lanças e con grandes çapatões. Os versos do rei valiam mais do que esta peonagem. E a sua indignação desafoga-se contra os que recusaram acompanhá-lo na guerra, ao sul, contra os muçulmanos:

Nunca eu cinja espada em boa bainha, se Pero Espanha, ou Pero Galinha, ou Pero Galego forem comigo! Outrem me acompanhará. Mendo Candarei pretextara também qualquer dificuldade e não fora com ele. Fuão deixou-o sozinho na guerra da Andaluzia e o rei sentia vontade de mandar ao demo a honra deste mundo, as armas e o batalhar. O que faz chorar um homem não é brincadeira nenhuma! Chorar e rir, por exemplo nesta sátira contra os guerreiros de menor categoria (coteifes), alguns deles a tremer no meio do Verão, diante dos cavaleiros mouros de Azamor:

O genete

pois remete

seu alfaraz corredor:

estremece

e esmorece

o coteife con pavor.

[…]

Vi coteifes de gran brio

eno meio do estio

estar tremendo sen frio

ant’os mouros d’Azamor;

e ia-se deles rio

que Auguadalquivir maior

Tem agilidade e graça, esta cantiga. Mas a que segue tem fúria: Quem passou a serra e não quis servir a terra, maldito seja! O que levou dinheiros e não trouxe cavaleiros, maldito seja! O que recebeu grande soldada e nunca fez cavalgada, se é rico-homem ou há mesnada, maldito seja! Não se trata de cantiga para rir.

Temos, aqui, uma invectiva, algo da maldição dum profeta atraiçoado e sozinho. Invectiva cheia de troça, como aliás noutra cantiga quase logo a seguir: Quem da guerra levou cavaleiros e foi guardar dinheiros à sua terra; quem não dava pão a comer aos soldados; quem, por medo, foi para casa beber vinho; quem fugiu da fronteira ou andou a roubar os mouros e foi para a sua terra roubar cabritos, esse non ven al maio. Quer dizer, não vem à revista da tropa, ao alardo. Iam para a guerra a fingir. E alguns levavam pendão, mas não levavam caldeira. N In Mário Martins, A Sátira na Literatura medieval Portuguesa (séculos XIII e XIV), Biblioteca Breve, Série Literatura, volume 8, Instituto de Cultura e Língua Portuguesa, Centro Virtual Camões, 1986.

Cortesia de Biblioteca Breve/JDACT

JDACT, Mário Martins, Literatura, Cultura e Conhecimento, Instituto Camões, 

A Sátira na Literatura medieval Portuguesa (séculos XIII e XIV). Mário Martins. «Pero Gómez Barroso, amigo de Afonso X e português, compôs outro serventês a dizer mal dos tempos de agora e bem dos tempos de outrora: ca vej’agora o que nunca vi / e ouço cousas que nunca oí»

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«As louvaminhas e cantares de galhofa recebem honras e poder. Nos lugares onde nobres ditos se ouviam, vejo eu expulsar gente honrada. Os que dizem mal, a esses acolhem-nos e louvam-nos com muito amor. Dantes dominava o saber, tinham formoso lugar a paz e a cortesia, quando a alegria morava no mundo. Mas ela foi-se embora, dizendo: dia a dia, hei-de ir faltando!

Chegara a sua hora, fugia para se esconder. Bem mereceu este descordo as honras de H. R. Lang, em The descort in old portuguese and spanish Poetry, e não menos de Luciana Stegagno Picchio, em Martin Moya.

Poesie. É a revolta contra a decadência cultural e contra o triunfo mesquinho dos vícios, à sombra de mecenas estúpidos.

Adiante, num serventes, conta-nos o poeta uma estória que serve de parábola: Depois de muito andar, entrei num sítio onde nem a lealdade, nem a boa manha, nem o juízo nem o saber tinham apreço de ninguém. Aí só prosperava quem gabava tudo o que o senhor da terra fazia, quem o lisonjeava, mesmo que o visse andar a semear sal. Quem ali chegar, sem mentir nem trocar o mal pelo bem, livre-se como eu me livrei. Ora, quando eu lá estava, sonhei muitas vezes que uma cerceta agarrava a poupa pelo penacho da cabeça. A cerceta, que significa ela? E como foi capaz de prender a poupa?

Quem poderá interpretar-me este sonho? Rodrigues Lapa faz deste sonho um símbolo de como os grandes poderiam ser dominados pelos pequenos: a certeza, mais forte, começou por arrancar a crista à pôpa, que acabou por vencê-la. Teríamos um incentivo à luta dos fracos contra os fortes opressores. Propomos outra hipótese. A cerceta (ave palmípede, mais pequena do que o pato vulgar, mas, ainda assim, mais forte do que a poupa) segurou bem firme a cresta da poupa e dominou-a. E esta última simboliza, talvez, os que se tiram porcamente das dificuldades. Com efeito, ajeitam-se ao querer dos fortes e estes prendem-nos pela gloríola da amizade e dos interesses, representados no lindo penacho de plumas. Por isso aconselha Martin Moxa a que não se desquitem como eu vi quitar alguen. Em qualquer hipótese, temos, neste serventês, a apologia de dignidade humana.

Pero Gómez Barroso, amigo de Afonso X e português, compôs outro serventês a dizer mal dos tempos de agora e bem dos tempos de outrora: ca vej’agora o que nunca vi / e ouço cousas que nunca oí. Que nele haja ou não objectividade externa, isso parece-nos secundário. É na objectividade interna desse estado de alma que enraíza a beleza triste deste pranto dos tempos de agora: Nunca vi andar assim o mundo. O outro era diferente e é desse que gosta o meu coração! Nada me importa morrer, pois em nada acho gosto nen sei amigo de que diga ben. E no fim de cada estrofe, ouve-se o mesmo protesto de inadaptação à vida, na velhice: ca vej’agora o que nunca vi / e ouço cousas que nunca oí.

É a angústia dum homem que ficou sozinho no meio da nova multidão anónima e sem rosto. Esta sátira aos tempos novos, repetem-na, em prosa, os velhos de todas as gerações, mesmo simples camponeses. Os amigos morreram e os costumes são outros». In Mário Martins, A Sátira na Literatura medieval Portuguesa (séculos XIII e XIV), Biblioteca Breve, Série Literatura, volume 8, Instituto de Cultura e Língua Portuguesa, Centro Virtual Camões, 1986.

Cortesia de Biblioteca Breve/JDACT

JDACT, Mário Martins, Literatura, Cultura e Conhecimento, Instituto Camões,

segunda-feira, 27 de março de 2023

A Sátira na Literatura medieval Portuguesa (séculos XIII e XIV). Mário Martins. «mentira e maldade non lhis dá logar; estas son nadas e criadas e aventuradas e queren reinar. As nossas fadas iradas»

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 Cantigas de Escárnio e Maldizer

«(…) Ao agruparmos cantigas de escárnio e maldizer, não procurámos saber, antes, como os outros tinham feito. Só depois. E assim, ora coincidimos pela força dos textos, ora nos metemos por caminhos diferentes, devido a critérios e gostos diversos. Abrimos pelas sátiras de alcance ecuménico e que podem cifrar-se nesta frase dos velhos de agora: Os tempos vão maus!

Sátiras dos Tempos Maus

Joan Soárez Coelho troça cruelmente de João Fernandes, com feições de mouro, por a mulher ser amiga dum escravo. Na cantiga seguinte, insiste neste caso, mas alarga a sátira à história daquele tempo: Anda perturbado o mundo, João Fernandes. O Imperador levantou-se contra Roma, vieram os Tártaros e, agora, vemos-te com intenção de abalar para a Terra Santa. Ora, nas profecias do fim do mundo, é este um dos quinze sinais: andar o mundo baralhado e o mouro fazer-se cruzado. João Fernandes, acreditai em mim, que sou bom letrado! É sinal de já ter nascido o Anticristo.

Martin Moxa, por seu lado, também fala, dos tempos do Anticristo. Há guerras, injustiças, ambições e falta o juízo, e a mesura. Hospital ou igreja, romeiro, fidalgo ou religioso, tudo é desrespeitado, por bom que seja. Forçam as mulheres, roubam nos caminhos, não temem alcaides nem meirinhos, antes acham sempre quem os proteja. Ninguém defende os agricultores, as vinhas e as herdades ficam por cultivar, não há com que pagar as rendas e perdem-se as honras. É um serventês moral bem digno do visionarismo de Martin Moxa, sério e pensativo, embora mordaz e sarcástico. Segundo Lang, compôs ele estas poesias em tempo del-rei Sancho II. Para ele, anda o mundo cada vez pior. Descem os bons e os maus levantam-se poderosamente acima deles. Por mim, diz o poeta, non ei da mia morte pavor. O mundo caminha às avessas e tudo nele anda trocado!

Por isso, não deve fugir da morte quem viu o bem que dantes era e vê o mal de hoje. Bem-aventurados os que morrerom mentr’ era melhor! Que eles dêem graças a Deus. Os que ficarem verão coisas ainda piores: e poren tenh’eu que faz sen-razon / quen deste mundo á mui gran sabor. A este queixume, segue-se outra sátira amarga, quase uma invectiva em forma de descordo: Fico-me a olhar e tudo me dá coita e pesar. Reina a mesquinheza acima da grandeza de alma. Reinam manhosamente neste mundo a maldade e a mentira:

mentira e maldade

non lhis dá logar;

estas son nadas

e criadas

e aventuradas

e queren reinar.

As nossas fadas

iradas

foron,...» 

In Mário Martins, A Sátira na Literatura medieval Portuguesa (séculos XIII e XIV), Biblioteca Breve, Série Literatura, volume 8, Instituto de Cultura e Língua Portuguesa, Centro Virtual Camões, 1986.

Cortesia de Biblioteca Breve/JDACT

JDACT, Mário Martins, Literatura, Cultura e Conhecimento, Instituto Camões,

A Sátira na Literatura medieval Portuguesa (séculos XIII e XIV). Mário Martins. «Jean-Marie d’Heur, num estudo sobre a Arte de Trovar do Cancioneiro Colocci-Brancuti, distribui as poesias deste cancioneiro por grupos distintos…»


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A Sátira nas Cantigas de Santa Maria

«(…) Nalgumas ocasiões, a sátira partia do pecador. Do pecador ou do que passava por tal. Por exemplo, ria-se um de venerarem um sapato da Virgem Maria. Se o sapato fosse verdadeiro, já devia estar podre! Pois bem: o homem caiu no chão, com um ataque, e foi a çapata que o curou. Martim Alvites, morador em Alenquer, mais fazia cantigas de escárnio do que de amor. Também ele andou mal, mas teve de se arrepender, só trovando a Santa Maria, no resto da vida. Um jogral remedador imitava tudo à perfeição. Imitou Nossa Senhora, com o Menino ao colo, e o Menino pô-lo de pescoço torcido, para aprender. Nestes casos, o riso está mais nos ouvintes. É o riso e a sátira contra os incréus. Levam castigo? Bem feito!

Temos, ainda, o mundo ambíguo dos judeus e das judiarias. Vemos alguns deles a ferir um crucifixo. Escutamos algumas judias a troçar doutra, que invocava a Mãe de Deus nas dores do parto. Porém, o cómico mais burlesco vem dum bom homem a rezar a Santa Maria, no portal da igreja. Eis senão quando, vem um grande cão, chega-se a ele e atal o adobou / que ouv’a leixar sas prezes, com gáudio e troça de dois judeus. Claro, queixou-se o homenzinho à Mãe de Deus, por assim troçarem dele os judeus, e caiu-lhes o portal em cima. Mas, desta feita, nós rimos mas é da cena do cão, a alçar a perna e a fazer o
que não devera a tão fiel cristão.

Para acabar, vamos escutar uma série de imprecações ou pragas contra os inimigos da Virgem Maria. Estamos no reino bravio da invectiva, um ramo da sátira que não é para rir: Maldito seja quen non loará / a que en si todas bondades á. É este o refrém e o maldito alterna com a bênção para quem a louvar. Vamos resumir: Maldito seja quem não disser bem daquela a quem nada falta de bom e digno! Maldito seja quem não disser bem da melhor das donas e não quiser o seu amor. No manuscrito das Cantigas de Santa Maria, temos ainda as gravuras: a mulher pelos ares, agarrada à cadeira..., a seta espetada no tabuleiro e o espanto dos que ali estão..., o homem da boca torcida a beijar a çapata maravilhosa... Mas isto são águas doutra vertente. Se um dia pudermos, delas trataremos.

Cantigas de Escárnio e Maldizer

Jean-Marie d’Heur, num estudo sobre a Arte de Trovar do Cancioneiro Colocci-Brancuti, distribui as poesias deste cancioneiro por grupos distintos e de tamanho desigual: 725 cantigas de amor; 504 cantigas de amigo; 212 cantigas de escárnio; 183 cantigas de maldizer; 32 tenções; e 23 cantigas sob o título de Varia.

O Prof. M. Rodrigues Lapa alargou a sua análise a vários cancioneiros, limitando-se às cantigas de escárnio e maldizer, a fim de reunir a vasta colectânea das Cantigas d’Escarnho e de Mal Dizer dos Cancioneiros Medievais Galego-Portugueses, com nada menos de 431 poesias deste género, na segunda edição. Porém, ao contrário de Jean-Marie d’Heur, não isola as tenções, aqui, num todo à parte. Outro era o seu fim e sabia que algumas delas são temperamentalmente iguais a outras cantigas de escárnio e maldizer, só que vêm estruturadas em diálogo mais ou menos agressivo, à maneira de certas cantigas ao desafio dos nossos dias, nas feiras e arraiais do Norte. Carolina Michaëlis Vasconcelos, em quinze artigos modestamente intitulados Randglossen zum altportugiesischen Liederbuch, publicados entre 1896 e 1905, estudou muitas cantigas de escárnio e maldizer, por vezes obscenas e grosseiras. Nestas Notas à margem do antigo Cancioneiro Português interpreta, sobretudo, as cantigas satíricas, recorrendo às fontes históricas para esclarecer certos pontos dessas poesias e dos seus autores. E, ao publicar em Halle o Cancioneiro da Ajuda, aponta os nomes dos poetas satíricos mais antigos: Joan Soares Paiva, Fernan Rodrigues Calheiros, Fernan Paes Talamancos e Martin Soárez, sendo este o fidalgo-trovador mais velho de quantos conhecemos, diz ela. E ajunta, pouco depois: foi na côrte de Alfonso X que se geraram as principaes cantigas de escarnho e maldizer, algumas das quaes se guardavam de certo bem fechadas, e foram a custo arrancadas aos esconderijos.

Ao tratar da época medieval, em Lições de Literatura Portuguesa, Rodrigues Lapa dedica páginas sugestivas, não só em torno das cantigas de escárnio e maldizer, em geral, mas também em torno das suas relações com a Provença e alguns temas principais que as agrupam. Mais perto dos nossos dias, Manuel Aguiar oferece ao leitor uma galeria de caricaturas: O nobre ou ricome; Papa, bispos e clérigos; O trovador; A soldadeira; Os supersticiosos; Os maus juízes; Os perdidos de amor; O mentiroso; Os defeitos físicos; Os tipos miúdos.

Enfim, dentre os estrangeiros, isolamos Kenneth R. Scholberg e a sua distribuição das cantigas de escárnio e maldizer. Como agrupar toda a bicharia da Arca de Noé? Em muitos ou poucos grupos? Num livro breve, temos de optar por uma coisa e, quando muito, insinuar o que fica na sombra, e é mais do que pensamos. Manuel Aguiar, em nota final, aponta uma enorme litania de tipos caricaturais, que um dia poderão sair do limbo em que os deixou: o esfomeado, o miserável, o pedinchão, o parasita, o medroso, o traidor, o fanfarrão, o pretensioso, o clérigo comilão e metido em brigas, as freiras mundanas, o coxo, o careca, a mulher gorducha, a mulher feia, a coscuvilheira, o tímido diante da sua dama, o plagiador de versos, o mau trovador, o supersticioso, o agoirento, o astrólogo, o mau médico, o juíz peitável, o amoroso lamechas, o interesseiro em casar rico, o avarento, o caloteiro, etc. Tudo, porém, tem os seus limites, e é bom que os vindouros tenham que fazer» In Mário Martins, A Sátira na Literatura medieval Portuguesa (séculos XIII e XIV), Biblioteca Breve, Série Literatura, volume 8, Instituto de Cultura e Língua Portuguesa, Centro Virtual Camões, 1986.

Cortesia de Biblioteca Breve/JDACT

JDACT, Mário Martins, Literatura, Cultura e Conhecimento, Instituto Camões,

quarta-feira, 7 de dezembro de 2022

A Sátira na Literatura medieval Portuguesa (séculos XIII e XIV). Mário Martins. «O favor real fazia perder a cabeça a muita gente e o monarca tinha de os pôr no seu lugar: Pois Fulano mais vale sendo pobre e sem poder…»

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 Sátiras contra os Favoritas e Magnates

«(…) Favoritos do rei, ricos-homens e outros magnates levavam também a sua conta por tabela. Martin Moxa, numa tenção, pergunta a um cortesão-poeta se os privados duram muito na privança. É que só tomam para si. Quem não lhes dá, escusa de esperar favor do rei. O outro observa que não sabe novelar e só diz: estão cada vez mais poderosos, as suas rendas aumentam e o povo empobrece. Empobrece e emigra: e, con proveza, da terra sair. Parecem os tempos de hoje. Martin Moxa zanga-se ironicamente. Morais na corte e nada sabeis! Quem lá vai, algo deve levar. Caso contrário, passa por tolo. Que ele dê, porque os privados, sem isso, nada fazem.

O conde Pedro de Portugal insistia no mesmo ponto: seu saber é juntar aver. Servir o rei nada vale. Peitas, isso sim! E se el-rei, por boa inclinação, procura fazer bem, levam-no a mal. Um dos grandes privados, na corte del-rei Afonso III, era o chanceler Estêvão Anes. Que miopia a dele! Mas caiu bem no goto do rei, nota Joan Soárez Coelho, jogando com o duplo significado de cair. Bendita miopia que o fazia cair! Míope?, pergunta Roí Queimado. Talvez. Mas ouve bem. Cuidado! E erguem-se agora, contra o favorito, três cantigas violentas de Airas Pérez Vuitoron, insinuando vícios homossexuais, desfazendo-lhe na miopia e insistindo na sua crueldade: não há homem nem mulher que non queirades trager come can. A melhor destas sátiras baseia-se na miopia: Comi ontem em casa do rei. Nunca os vossos olhos viram tal pão nem vinho como eu lá bebi! De dez anos para cá, nunca vistes um capão como aquele, nem melhor cabrito nem tal lombo de vinh’e d’alhos e de sal. Não, nunca vistes um homem comer como eu comi. Não me faltou nada: non vistes nen avedes de veer. Chega a ser cruel.

Porém Vuitoron era partidário del-rei Sancho II. Daqui nasce parte do seu ódio a Estêvão. E tem, ou parece ter, o gosto equívoco de insinuações homossexuais. Estêvão da Guarda era de Aragão. Isso não o impedia de atirar remoques ao seu patrício Miguel Vivas, chanceler-mor del-rei Afonso IV e bispo eleito de Viseu, a partir de 1330. Ironicamente, jogueta com o verbo privar: conforme o proveito que me vier da vossa privança, rogo eu a Deus que sejades privado.

O favor real fazia perder a cabeça a muita gente e o monarca tinha de os pôr no seu lugar: Pois Fulano mais vale sendo pobre e sem poder, então que volte ao que era e torne a ganhar juízo. Pertence ainda a Estêvan da Guarda esta graça posta na boca do rei. Voltando, porém, a Miguel Vivas, temos contra ele um serventês a descrever-nos a fisionomia do bispo, como dum grande beberrão, de penca vermelha:

Eu convidei un prelado a jantar, se ben me venha.

Diz el en est’: E meus narizes de color de bereguenha?

Vós avede-los alhos verdes, e matar-m’íades con eles!

O jantar está guisado e, por Deus, amigos, trei-nos.

Diz el en est’: E meus narizes color de figos çofeinos?

Vós avedes os alhos verdes, e matar-m’íades con eles!

Alhos e não olhos. Quem matava não eram uns lindos olhos verdes, mas esses alhos que levavam um homem a comer de mais. E o bispo vai-se preocupando com as cores do nariz: E o meu nariz cor de escarlata roxa? E o meu nariz cor de rosa bastarda? E o meu nariz cor de púrpura escura? E o meu nariz cor de amoras maduras?» In Mário Martins, A Sátira na Literatura medieval Portuguesa (séculos XIII e XIV), Biblioteca Breve, Série Literatura, volume 8, Instituto de Cultura e Língua Portuguesa, Centro Virtual Camões, 1986.

 Cortesia de Biblioteca Breve/JDACT

JDACT, Mário Martins, Literatura, Cultura e Conhecimento, Instituto Camões,

terça-feira, 6 de dezembro de 2022

A Sátira na Literatura medieval Portuguesa (séculos XIII e XIV). Mário Martins. «O rei vivia, de facto, em permanentes dificuldades económicas e quem mandava no mundo era o dinheiro: Nummus honoratur, sine nummis nullus amatur»

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Afonso X e os soldados

«(…) As cantigas de escárnio e maldizer também tinham o seu quê de literatura panfletária, aqui e além. Afonso Fernández Cubel queixa-se do rei e da sua mão fechada. Não lhe pagava os serviços nem o recompensava dos prejuízos:

el do seu aver non me quer dar

nen er quer que eu viva no alheo;

e eu non ei erdade de meu padre.

Era, pois, um cavaleiro pobre. E ainda pior, o rei prejudicara-o nos haveres que herdara da mãe. Passava fome e em mau dia nascera. Nem mercê, nem soldada! Não sabemos de que rei se trata aqui. Contudo, Gil Pérez Conde, cavaleiro e poeta, esse queixava-se claramente do rei Afonso X. Não pagavam depressa aos que entravam na campanha da Andaluzia. Que lhe dessem um fiador, nem que fosse judeu. E noutra cantiga, lembra como brilhara na guerra mas que, na paz, a sua fortuna se pusera a andar a pé de boi. Na terceira, reclama ao rei os vossos meus maravedis, a vossa mia soldada, senhor Rei! Expressão maliciosa e bem achada: vossa, porque a tendes na mão; minha, porque me pertence. Na quarta cantiga, em forma de alegoria, conta-nos que andara em busca do Amor, primeiro no paço do rei e depois nas casas dos privados. Ninguém sabia onde ele estava. Partira e não voltara. Nas tendas dos infanções e nas dos que os serviam, todos diziam: Non sei! Só o encontrou entre os freires do Templo.

Era português este Gil Pérez Conde, e exilara-se para Castela após a subida ao trono do conde de Bolonha. Em má hora se exilara: non fui vosco en ora bõa! Tornara-se vassalo de Afonso X, servira-o em várias cidades e sempre lhe minguara a generosidade real. Podemos resumir esta polémica num provérbio: Casa onde não há pão todos ralham e ninguém tem razão. O rei vivia, de facto, em permanentes dificuldades económicas e quem mandava no mundo era o dinheiro: Nummus honoratur, sine nummis nullus amatur». In Mário Martins, A Sátira na Literatura medieval Portuguesa (séculos XIII e XIV), Biblioteca Breve, Série Literatura, volume 8, Instituto de Cultura e Língua Portuguesa, Centro Virtual Camões, 1986.

Cortesia de Biblioteca Breve/JDACT

JDACT, Mário Martins, Literatura, Cultura e Conhecimento, Instituto Camões,

segunda-feira, 5 de dezembro de 2022

A Sátira na Literatura medieval Portuguesa (séculos XIII e XIV). Mário Martins. «Lembra-nos isto a frase dum poltrão, em Tirso de Molina, na sua comédia Dona Beatriz da Silva: soy una galina, isto é, sou um cobarde. E por cada um ser aquilo que come, proibira el-rei…»

 

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 Afonso X e os soldados

«(…) Porém, a obra-prima do mundo satírico do rei Afonso X nasceu quando este andava pelos 60 anos de idade: uma poesia fresca e ágil, embalada pelo sonho duma vida livre das obrigações do governo. Com tintas que parecem dum poeta moderno, diz Rodrigues Lapa, Afonso X põe-se no estado psicológico de quem despiu o manto real e quer ser outro, um negociante, por exemplo, a navegar livremente no mar livre, longe da terra, da política e da guerra: Estou farto do canto das aves, do amor e das armas. Antes um bom galeão que me afaste depressa deste diabo de terra cheia de lacraus, cujo aguilhão senti na alma! Juro por Deus que não andarei de capa, nem com barbas, armas ou razões de amor! Tudo isso me cansa e, volta e meia, me faz chorar. Antes um pequeno barco e ir ao longo da costa, a vender azeite e farinha, para evitar o veneno dos lacraus! Não me alegro de atirar lanças ao tabulado nem de bafordar! De noite andar armado e fazer rondas, vontade não tenho. Gosto mais do mar, pois já fui marinheiro. E por causa dos lacraus, prefiro tornar ao que fui antigamente! Não me falem de guerras! Antes andar sozinho e ir, como um mercador, em busca dalguma terra onde não haja lacraus negros nem pintalgados!

Há outras cantigas de troça, contra vassalos sovinas, poetas plagiários ou de expressão menos ortodoxa, pedinchas, maus cantores, fidalgos ridículos no trajar, manhosos, etc. Algumas dessas cantigas de escárnio têm graça. Contudo, afastam-se do núcleo central da guerra andaluza. Neste ciclo da guerra andaluza, entram ainda outros poetas, por exemplo Gil Pérez Conde: Aos cavaleiros e à tropa dos concelhos, ordenou o rei que não comessem galinha, durante a campanha, mas, sim, vacas e carneiros, porcos frescos, cabritos e gansos. Com efeito diziam os adivinhos que, se comessem galinha, seria perdimento da terra.

Lembra-nos isto a frase dum poltrão, em Tirso de Molina, na sua comédia Dona Beatriz da Silva: soy una galina, isto é, sou um cobarde. E por cada um ser aquilo que come, proibira el-rei que os soldados comessem galinha! Gil Pérez ajunta, ironicamente, que muitos a comeram. Por seu lado, Pero Gómez Barroso volta-se também contra um rico-homem que faltou na guerra e só veio na paz. E questiona com o rei, por não lhe ter dado ocasião de o servir! Fica-nos a impressão de que poetas e fidalgos pouco temiam Afonso X, o Sábio. Este e Garcia Pérez disputam, entre si, acerca duma peliça de cor, já um pouco velha. Que a atirasse à estrumeira, aconselha Garcia Pérez. E o rei não se zanga. Responde até com mesura» In Mário Martins, A Sátira na Literatura medieval Portuguesa (séculos XIII e XIV), Biblioteca Breve, Série Literatura, volume 8, Instituto de Cultura e Língua Portuguesa, Centro Virtual Camões, 1986.

 Cortesia de Biblioteca Breve/JDACT

JDACT, Mário Martins, Literatura, Cultura e Conhecimento, Instituto Camões, 

domingo, 11 de setembro de 2022

A Geração de 70. Uma Revolução Cultural e Literária. Álvaro Manuel Machado. «A Geração de 70 veio arrancar dessa modorra de degenerescência romântica não só a literatura portuguesa mas sobretudo, de uma maneira geral, a cultura portuguesa»

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Tragédia. Ironia. Sátira

«(…) Ora, a chamada Geração de 70, a de Antero, que foi também a de Eça de Queirós, a de Oliveira Martins e, a um nível culturalmente e esteticamente inferior, a de Ramalho Ortigão e alguns outros, sentiu-se atraída por essa pretensa aceleração, essa vertigem, esse totalitarismo da história de que fala Octávio Paz. Só que, como é óbvio, essa vertigem e esse totalitarismo se manifestaram de diferentes maneiras, consoante a formação cultural e o próprio temperamento criador de cada um.

Assim, em Antero de Quental tudo é tragédia. Tragédia estritamente pessoal (apesar das suas implicações colectivas) que o conduziu ao suicídio como a um fim inevitável, tornado inevitável pela própria lógica do mecanismo das ideias. Da mesma maneira, em Oliveira Martins o trágico predomina, um trágico inseparável da sua ideia da decadência histórica de Portugal. Inseparável, paralelamente, do que no essencial é a sua teoria da história, resumida na frase, extremamente ambígua: um homem é um momento. Em Eça de Queirós, pelo contrário, tudo tomou a forma de jonglerie irónica. Lâmina de dois gumes, a ironia não deixa, porém, em Eça como noutros (raros na literatura portuguesa), de ser comédia e tragédia ao mesmo tempo: ela desencadeia o riso para logo fazer dele um esgar. É que, como diz Vladimir Jankelevitch, l’ironie regarde ailleurs, ela pertence ao domínio da consciência inquieta e multiforme. Já em Ramalho Ortigão, destituído de grande capacidade criadora e com igualmente menor capacidade de percepção do que no homem e do que do homem perante a história é mais complexo, tudo se tornou sátira, mera caricatura. Tudo descambou nesse gargalhar a que muito frequentemente se reduz o pretenso espírito hiper-crítico do português. Mas o riso ramalhal não deixa de ter o seu lugar importante no conjunto da cultura portuguesa oitocentista. Como diz o próprio Eça, que a bem dizer nunca ria mas, como já vimos, sorria ironicamente, fazendo-o com funda e finíssima amargura, nessa Lisboa fin-de-siècle o que ainda tornava a vida tolerável era de vez em quando uma boa risada. (...) Só nós aqui, neste canto do mundo bárbaro, conservamos ainda esse dom supremo, essa coisa bendita e consoladora, a barrigada de riso!

Romantismo e revolução cultural

Seja como for, seja qual for o nível da capacidade crítica e da capacidade inventiva pessoais, o certo é que a chamada Geração de 70 representa, em Portugal, uma profunda revolução cultural. Até então, tinham-se criado hábitos de um romantismo demasiadamente limitado aos problemas (e também às obsessões) nacionais. Se, apesar das suas limitações, que são justamente as que se ligam a um certo nacionalismo cultural excessivo, o nosso primeiro romantismo, o da Geração de 1830, trouxe com Garret e Herculano qualquer coisa de novo e de perdurável, a verdade é que, por meados do século XIX, o que restava desse romantismo pouco era. À parte o vulto tutelar de Camilo, que no entanto se fica por um balzaquismo regionalista lusitano, um balzaquismo sem Balzac, o período que sucede ao primeiro romantismo português e que vai de cerca de 1850 a cerca de 1870, não é fértil em criações verdadeiramente originais. Sobretudo, rareiam os contactos com o estrangeiro a nível das grandes criações de ideias.

A Regeneração do marechal Saldanha (1851) é um período de modorra confortável para esses escritores que sucedem a Garrett e a Herculano, esses escritores que, querendo escapar à monótona ordem burguesa conservadora que impera na Europa após o fracasso das insurreições de 1848, se refugiam no mais fácil sentimentalismo bucólico ou fatalista ou então no mais provinciano culto, quer da literatura filosófica de importação, quer do panfleto literário. Para evocar alguns exemplos, citem-se os dramalhões históricos ou os chamados dramas da actualidade de um José Silva Mendes Leal (1818-1886), o lirismo vagamente à la manière de Lamartine de um Bulhão Pato (1829-1912) ou de um António Augusto Soares Passos (1826-1860).

A Geração de 70 veio arrancar dessa modorra de degenerescência romântica não só a literatura portuguesa mas sobretudo, de uma maneira geral, a cultura portuguesa». In Álvaro Manuel Machado, A Geração de 70 - Uma Revolução Cultural e Literária, Instituto de Cultura e Língua Portuguesa, Centro Virtual Camões, Instituto Camões, Livraria Bertrand, 1986.

Cortesia do Instituto Camões/JDACT

JDACT, Instituto Camões, Antero de Quental, Álvaro Manuel Machado, Conhecimento,

A Geração de 70. Uma Revolução Cultural e Literária. Álvaro Manuel Machado. «… Octávio Paz apresenta o exemplo da revolução mexicana, que nos leva igualmente a duvidar da pretensa aceleração da história, pois no México actual estamos mais próximos da época do Vice-Rei…»

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Revolução e Memória

«(…) Assim, no que diz respeito à nossa história, em especial à nossa história cultural e política, a posição dos intelectuais portugueses da geração de 1830, a de Alexandre Herculano, e a da geração de 1870, a de Antero de Quental, relativamente à teoria e à prática da revolução difere, mantendo no entanto pontos comuns essenciais em que, para lá da formação filosófica e política universalista que caracterizou ambas, se denotam elementos específicos da história de Portugal. De facto, para citar apenas Herculano e Antero, ambos participam activamente em movimentos revolucionários com ideias e com acções e ambos acabam por se retirar totalmente do palco da história, profundamente decepcionados. Ambos recorrem ao esquecimento, Herculano através do seu exílio voluntário de Vale de Lobos, Antero através do exílio igualmente voluntário e definitivo do suicídio. Ambos, embora a níveis muito diferentes de psiquismo pessoal, se recusam a aceitar a, digamos, memória artificial, mecânica, de uma revolução que nunca chegou a sê-lo inteiramente, a memória tornada praxis falsamente revolucionária. Ao Antero apolíneo e hegeliano do Hino à Razão opõe-se o Antero nocturno e, afinal, sobretudo baudelairiano (apesar da influência aparentemente predominante de Heine) das Primaveras românticas e em especial destes versos:

Este coração cansado!

O que ele quer é dormir

...O que ele quer é deitar-se

No leito do esquecimento.

(Ao luar)

No fundo, o que esquece Antero? Esquece a própria memória e a sua função historicamente mediadora. Esquece a própria memória, e nisto o seu esquecimento difere essencialmente do de Herculano, o qual, tentando esquecer a decepcionante realidade da evolução política, social e económica da Revolução Liberal de 1820, que acabou no Fontismo, nem por isso renega o valor do movimento revolucionário em si como recuperação de uma memória histórica que sucedesse ao esquecimento momentâneo do passado e à visão utópica do futuro. Daí a sua idealização propriamente romântica do Portugal pré-constitucional até 1385. Antero, pelo contrário, como autêntico revolucionário que foi da Geração de 70 e, portanto, mentor de uma utopia revolucionária mais próxima do século XX, intimamente ligada ao niilismo, esquece a própria memória, nega-a na medida em que nega o Estado como memória da nação, a Igreja como memória da alma, o partido como memória de classe.

Este esquecimento, anarquista no sentido mais absoluto do termo, que é no caso de Antero o de uma anarquia hegeliana do espírito, envolvido momentaneamente na aceleração da história, não pode conduzir senão à morte. Essa morte que está na raíz de uma ilusória aceleração da história. Como diz Octávio Paz:

A aceleração do tempo histórico não passa de uma ilusão. As mudanças e as convulsões que, ora nos angustiam ora nos deslumbram, são talvez muito menos profundas e decisivas do que nós supomos.

E, depois de citar a União Soviética como exemplo típico de uma apenas aparente ruptura entre passado e futuro, verificando-se actualmente a predominância nítida de elementos tradicionais da antiga Rússia (um mundo burocrático e um terror policial semelhantes ao do czarismo), Octávio Paz apresenta o exemplo da revolução mexicana, que nos leva igualmente a duvidar da pretensa aceleração da história, pois no México actual estamos mais próximos da época do Vice-Rei e mesmo do mundo pré-hispânico do que da época da Revolução. In Álvaro Manuel Machado, A Geração de 70 - Uma Revolução Cultural e Literária, Instituto de Cultura e Língua Portuguesa, Centro Virtual Camões, Instituto Camões, Livraria Bertrand, 1986.

Cortesia do Instituto Camões/JDACT

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A Geração de 70. Uma Revolução Cultural e Literária. Álvaro Manuel Machado. «Antero, pelo contrário, como autêntico revolucionário que foi da Geração de 70 e, portanto, mentor de uma utopia revolucionária mais próxima do século XX…»

 

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Revolução e Memória

«A alguns de nós, portugueses de após o 25 de Abril, a chamada Geração de 70 poderá parecer, antes de mais, uma estranha geração de, digamos, revolucionários falhados. Ou mesmo de revolucionários anti-revolucionários. Ou mais simplesmente: de idealistas cépticos. Cépticos porque cultivaram, uns mais outros menos, o cepticismo fin-de-siècle e por vezes altamente blasé do pós-romantismo europeu. Idealistas, no sentido mais rigoroso do termo (convicção de que o poder absoluto das ideias transforma o mundo), porque, cultivando esse cepticismo, idealizavam ao mesmo tempo um Portugal que, de facto, nem existia na época em que viveram, fim de uma monarquia provinciana, colonizada social, económica e culturalmente pelos ingleses e pelos franceses e princípio da formação de uma ideologia republicana positivista, pequeno-burguesa e diletante, nem talvez tenha existido nunca.

Mas, se reflectirmos bem, todo este paradoxal cepticismo-idealismo da Geração de 70 tem a ver essencialmente com todo o grande drama do homem moderno, que é o drama da obsessão revolucionária e das suas relações com o tempo. De facto, se analisarmos atentamente o comportamento político do homem moderno, ou, para ser mais exacto, do homem ocidental desde o princípio do nosso século (e a Geração de 70 foi dele precursora em Portugal), somos levados a analisar o seu (essencialmente inconsciente ou subconsciente) comportamento perante o tempo. Tentado pela grande aventura ideológica da revolução total, universal, e não (pelo menos na aparência) fundamentalmente nacionalista, o homem moderno, herdeiro directo do século XIX e sobretudo da Revolução Francesa, parece querer esquecer o passado e com ele o tempo primordial dos grandes mitos das origens. Ou antes, pretende dominar este tempo primordial através de uma sistematização de ideias revolucionárias que conduz à ideia-base de um fim absoluto da história, atitude que, afinal, sobretudo no que diz respeito à ideologia revolucionária marxista, se enraíza nos elementos propriamente judaicos do Cristianismo como esperança escatológica.

De certo modo, todo o acto revolucionário é um acto de esquecimento. Através dele, recorre-se ao instante de aparente convergência total do passado, do presente e do futuro para esquecer o passado histórico de um país no seu todo, bem como o de uma estruturação social, e mesmo o passado privado de cada indivíduo em si. Melhor ainda: esquece-se o passado no seu todo para o confundir com um futuro ainda inevitavelmente obscuro graças à omnipotência de um presente igualmente obscuro mas pleno de promessas miríficas, de valores utópicos. Mas até quando e até onde vai esse esquecimento? Não tarda muito que esse esquecimento revolucionário fulgurante do passado colectivo e individual se torne teologia terrorista baseada numa falsa continuidade histórica, ideologicamente codificada e controlada (e é contra isso que, profeticamente, se revolta um Dostoievski). Porquê? Por uma contradição fatal que está na base de toda a revolução moderna, contradição que remonta aos grandes precursores do romantismo revolucionário (a começar por Rousseau), os quais atacaram tudo o que era não-racionalista e, portanto, pregaram a revolução total como solução racionalista universal, para logo recusarem e até atacarem tudo o que na revolução era sistemático, dogmaticamente racionalista, origem de um terror revolucionário incontrolável, degradação ética, limitação burocrática e fanaticamente partidária. O romantismo e o que se lhe seguiu consistiu, em suma, ao nível histórico, nessa suprema contradição que foi a negação do Iluminismo, o qual esteve na sua origem e do qual dependeu inteiramente. O que, no plano das ideias e dos acontecimentos revolucionários, se traduziu em conflitos dramáticos que se arrastam desde a Revolução Francesa de 1789 e desde começos do século XIX nos países que a tomaram como modelo». In Álvaro Manuel Machado, A Geração de 70 - Uma Revolução Cultural e Literária, Instituto de Cultura e Língua Portuguesa, Centro Virtual Camões, Instituto Camões, Livraria Bertrand, 1986.

Cortesia do Instituto Camões/JDACT

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sexta-feira, 9 de setembro de 2022

A Sátira na Literatura medieval Portuguesa (séculos XIII e XIV). Mário Martins. «Tem agilidade e graça, esta cantiga. Mas a que segue tem fúria: Quem passou a serra e não quis servir a terra, maldito seja! O que levou dinheiros e não trouxe cavaleiros…»

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Afonso X e os soldados

«(…) Afonso X, o Sábio, está no centro dum ciclo satírico, onde a poesia é meio de ataque e de defesa, como os panfletos de hoje em dia. Atacou, atacaram-no. E cada um tinha, em geral, as suas razões e os seus pontos fracos. Às vezes, nada tão lúcido como o ódio. Ainda infante, Afonso X troça dos maus conselhos do mordomo Rodrigo e dos peões todos calvos e sen lanças e con grandes çapatões. Os versos do rei valiam mais do que esta peonagem. E a sua indignação desafoga-se contra os que recusaram acompanhá-lo na guerra, ao sul, contra os muçulmanos: Nunca eu cinja espada em boa bainha, se Pero Espanha, ou Pero Galinha, ou Pero Galego forem comigo! Outrem me acompanhará. Mendo Candarei pretextara também qualquer dificuldade e não fora com ele. Fuão deixou-o sozinho na guerra da Andaluzia e o rei sentia vontade de mandar ao demo a honra deste mundo, as armas e o batalhar. O que faz chorar um homem não é brincadeira nenhuma! Chorar e rir, por exemplo nesta sátira contra os guerreiros de menor categoria (coteifes), alguns deles a tremer no meio do Verão, diante dos cavaleiros mouros de Azamor:

O genete

pois remete

seu alfaraz corredor:

estremece

e esmorece

o coteife con pavor.

[...............]

Vi coteifes de gran brio

E no meio do estio

estar tremendo sen frio

ant’os mouros d’Azamor;

e ia-se deles rio

que Auguadalquivir maior.

Tem agilidade e graça, esta cantiga. Mas a que segue tem fúria: Quem passou a serra e não quis servir a terra, maldito seja! O que levou dinheiros e não trouxe cavaleiros, maldito seja! O que recebeu grande soldada e nunca fez cavalgada, se é rico-homem ou há mesnada, maldito seja! Não se trata de cantiga para rir. Temos, aqui, uma invectiva, algo da maldição dum profeta atraiçoado e sozinho. Invectiva cheia de troça, como aliás noutra cantiga quase logo a seguir: Quem da guerra levou cavaleiros e foi guardar dinheiros à sua terra; quem não dava pão a comer aos soldados; quem, por medo, foi para casa beber vinho; quem fugiu da fronteira ou andou a roubar os mouros e foi para a sua terra roubar cabritos, esse non ven al maio. Quer dizer, não vem à revista da tropa, ao alardo. Iam para a guerra a fingir. E alguns levavam pendão, mas não levavam caldeira. Nunca pensaram numa campanha a sério, com soldados para alimentar». In Mário Martins, A Sátira na Literatura medieval Portuguesa (séculos XIII e XIV), Biblioteca Breve, Série Literatura, volume 8, Instituto de Cultura e Língua Portuguesa, Centro Virtual Camões, 1986.

Cortesia de Biblioteca Breve/JDACT

JDACT, Mário Martins, Literatura, Cultura e Conhecimento, Instituto Camões,  

A Sátira na Literatura medieval Portuguesa (séculos XIII e XIV). Mário Martins. «Um trovador desconhecido, mas de elevada categoria técnica e boa inspiração, deixou-nos uma poesia híbrida, de cantar de amor e de maldizer, contra o mundo e os homens»

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Sátiras dos Tempos Maus

«(…) É na objectividade interna desse estado de alma que enraíza a beleza triste deste pranto dos tempos de agora: Nunca vi andar assim o mundo. O outro era diferente e é desse que gosta o meu coração! Nada me importa morrer, pois em nada acho gosto nen sei amigo de que diga ben. E no fim de cada estrofe, ouve-se o mesmo protesto de inadaptação à vida, na velhice: ca vej’agora o que nunca vi / e ouço cousas que nunca oí. É a angústia dum homem que ficou sozinho no meio da nova multidão anónima e sem rosto. Esta sátira aos tempos novos, repetem-na, em prosa, os velhos de todas as gerações, mesmo simples camponeses. Os amigos morreram e os costumes são outros.

Pero Mafaldo vivia no século XIII e deve ser contado entre os trovadores alfonsinos da corte castelhana. Escreveu um serventês a despedir-se da verdade e poetou contra Pero Ambroa e a famigerada Balteira. Pero Mafaldo, ironicamente, declara que irá mudando e mentindo. Toda a gente faz o mesmo. Falar verdade ao amigo? Não! Quem mente ganha com isso. Juro, pois, e digo que vou separar-me da verdade e querer mal a quem bem quero. Hei-de prosperar assim, como cavaleiro que sou. Que hei-de eu fazer, se a verdade para nada me serve nem aumenta a minha honra? Dai-me um conselho, por caridade. Assim vai a minha vida: Se minto ao meu amigo e ao meu senhor, medra o meu proveito e cresço em importância. Sempre a eterna ironia: só medram os malandros e os hipócritas.

Um trovador desconhecido, mas de elevada categoria técnica e boa inspiração, deixou-nos uma poesia híbrida, de cantar de amor e de maldizer, contra o mundo e os homens. Também ele se lembra dos bons velhos tempos: Quem viu o mundo de antigamente e o vê agora, que há-de querer, senão desterrar-se algures? Mas o mundo é só um e este é falso. Para onde foram a mesura e a grandeza? Onde pára a verdade? Quem é leal ao seu amigo? Que se fez do amor e do trovar? Porque anda a gente triste e sem cantar? Ainda assim, vivo por amor duma senhora a quem muito quero, dos tempos em que amor havia. Fiquem, pois, a saber porque não me vou algur esterrar, / se poderia melhor mund’achar. E este pensamento vai batendo no final de cada estrofe, como condenação inapelável dos tempos que já não são nossos. Até aqui, temos a impressão dum cortejo poético de velhos pranteadores. Contudo, esse cortejo não pára na Idade Média e salta aos olhos, por exemplo, na França do século XIX, mesmo entre escritores audazes e criadores. Alfred de Musset condenava a geração nova por ser inculta, sans gaitê et sans amour. Chateaubriand escrevia, em 1831: Tout paraît usé, art, littérature, moeurs, passion; tout se détériore.

Lamartine afinava pelo mesmo diapasão e declarava que a França apodrecia numa esterqueira e tudo se desgastava e morria. Eles não pressentiam, entre tantos outros escritores, o advento de Baudelaire e do frisson nouveau que depois faria estremecer Victor Hugo». In Mário Martins, A Sátira na Literatura medieval Portuguesa (séculos XIII e XIV), Biblioteca Breve, Série Literatura, volume 8, Instituto de Cultura e Língua Portuguesa, Centro Virtual Camões, 1986.

Cortesia de Biblioteca Breve/JDACT

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A Sátira na Literatura medieval Portuguesa (séculos XIII e XIV). Mário Martins. «Rodrigues Lapa faz deste sonho um símbolo de como os grandes poderiam ser dominados pelos pequenos: a cerzeta, mais forte, começou por arrancar a crista à pôpa, que acabou por vencê-la»

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 Sátiras dos Tempos Maus

«(…) É um serventês moral bem digno do visionarismo de Martin Moxa, sério e pensativo, embora mordaz e sarcástico. Segundo Lang, compôs ele estas poesias em tempo del-rei Sancho II. Para ele, anda o mundo cada vez pior. Descem os bons e os maus levantam-se poderosamente acima deles. Por mim, diz o poeta, non ei da mia morte pavor. O mundo caminha às avessas e tudo nele anda trocado! Por isso, não deve fugir da morte quem viu o bem que dantes era e vê o mal de hoje. Bem-aventurados os que morrerom mentr’ era melhor! Que eles dêem graças a Deus. Os que ficarem verão coisas ainda piores: e poren tenh’eu que faz sen-razon / quen deste mundo á mui gran sabor.

A este queixume, segue-se outra sátira amarga, quase uma invectiva em forma de descordo: Fico-me a olhar e tudo me dá coita e pesar. Reina a mesquinheza acima da grandeza de alma. Reinam manhosamente neste mundo a maldade e a mentira.

mentira e maldade

non lhis dá logar;

estas son nadas

e criadas

e aventuradas

e queren reinar.

As nossas fadas

iradas

foron,...

As louvaminhas e cantares de galhofa recebem honras e poder. Nos lugares onde nobres ditos se ouviam, vejo eu expulsar gente honrada. Os que dizem mal, a esses acolhem-nos e louvam-nos com muito amor. Dantes dominava o saber, tinham formoso lugar a paz e a cortesia, quando a alegria morava no mundo. Mas ela foi-se embora, dizendo: dia a dia, hei-de ir faltando!

Chegara a sua hora, fugia para se esconder. Bem mereceu este descordo as honras de H. R. Lang, em The descort in old portuguese and spanish Poetry, e não menos de Luciana Stegagno Picchio, em Martin Moya. Poesie. É a revolta contra a decadência cultural e contra o triunfo mesquinho dos vícios, à sombra de mecenas estúpidos. Adiante, num serventês, conta-nos o poeta uma estória que serve de parábola: Depois de muito andar, entrei num sítio onde nem a lealdade, nem a boa manha, nem o juízo nem o saber tinham apreço de ninguém. Aí só prosperava quem gabava tudo o que o senhor da terra fazia, quem o lisonjeava, mesmo que o visse andar a semear sal. Quem ali chegar, sem mentir nem trocar o mal pelo bem, livre-se como eu me livrei. Ora, quando eu lá estava, sonhei muitas vezes que uma cerceta agarrava a poupa pelo penacho da cabeça. A cerceta, que significa ela? E como foi capaz de prender a poupa? Quem poderá interpretar-me este sonho?

Rodrigues Lapa faz deste sonho um símbolo de como os grandes poderiam ser dominados pelos pequenos: a cerzeta, mais forte, começou por arrancar a crista à pôpa, que acabou por vencê-la. Teríamos um incentivo à luta dos fracos contra os fortes opressores. Propomos outra hipótese. A cerceta (ave palmípede, mais pequena do que o pato vulgar, mas, ainda assim, mais forte do que a poupa) segurou bem firme a cresta da poupa e dominou-a. E esta última simboliza, talvez, os que se tiram porcamente das dificuldades. Com efeito, ajeitam-se ao querer dos fortes e estes prendem-nos pela gloríola da amizade e dos interesses, representados no lindo penacho de plumas. Por isso aconselha Martin Moxa a que não se desquitem como eu vi quitar alguen. Em qualquer hipótese, temos, neste serventês, a apologia de dignidade humana. Pero Gómez Barroso, amigo de Afonso X e português, compôs outro serventês a dizer mal dos tempos de agora e bem dos tempos de outrora: ca vej’agora o que nunca vi / e ouço cousas que nunca oí. Que nele haja ou não objectividade externa, isso parece-nos secundário». In Mário Martins, A Sátira na Literatura medieval Portuguesa (séculos XIII e XIV), Biblioteca Breve, Série Literatura, volume 8, Instituto de Cultura e Língua Portuguesa, Centro Virtual Camões, 1986.

Cortesia de Biblioteca Breve/JDACT

JDACT, Mário Martins, Literatura, Cultura e Conhecimento, Instituto Camões, 

quarta-feira, 11 de maio de 2022

A Sátira na Literatura medieval Portuguesa (séculos XIII e XIV). Mário Martins. «Papa, bispos e clérigos; O trovador; A soldadeira; Os supersticiosos; Os maus juízes; Os perdidos de amor; O mentiroso; Os defeitos físicos; Os tipos miúdos»

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 Cantigas de Escárnio e Maldizer

«(…) E, ao publicar em Halle o Cancioneiro da Ajuda, aponta os nomes dos poetas satíricos mais antigos: Joan Soares Paiva, Fernan Rodrigues Calheiros, Fernan Paes Talamancos e Martin Soárez, sendo este o fidalgo-trovador mais velho de quantos conhecemos, diz ela. E ajunta, pouco depois: foi na côrte de Alfonso X que se geraram as principaes cantigas de escarnho e maldizer, algumas das quaes se guardavam de certo bem fechadas, e foram a custo arrancadas aos esconderijos. Ao tratar da época medieval, em Lições de Literatura Portuguesa, Rodrigues Lapa dedica páginas sugestivas, não só em torno das cantigas de escárnio e maldizer, em geral, mas também em torno das suas relações com a Provença e alguns temas principais que as agrupam. Mais perto dos nossos dias, Manuel Aguiar oferece ao leitor uma galeria de caricaturas: O nobre ou «ricome; Papa, bispos e clérigos; O trovador; A soldadeira; Os supersticiosos; Os maus juízes; Os perdidos de amor; O mentiroso; Os defeitos físicos; Os tipos miúdos. Enfim, dentre os estrangeiros, isolamos Kenneth R. Scholberg e a sua distribuição das cantigas de escárnio e maldizer. Como agrupar toda a bicharia da Arca de Noé? Em muitos ou poucos grupos? Num livro breve, temos de optar por uma coisa e, quando muito, insinuar o que fica na sombra, e é mais do que pensamos. Manuel Aguiar, em nota final, aponta uma enorme litania de tipos caricaturais, que um dia poderão sair do limbo em que os deixou: o esfomeado, o miserável, o pedinchão, o parasita, o medroso, o traidor, o fanfarrão, o pretensioso, o clérigo comilão e metido em brigas, as freiras mundanas, o coxo, o careca, a mulher gorducha, a mulher feia, a coscuvilheira, o tímido diante da sua dama, o plagiador de versos, o mau trovador, o supersticioso, o agoirento, o astrólogo, o mau médico, o juíz peitável, o amoroso lamechas, o interesseiro em casar rico, o avarento, o caloteiro, etc. Tudo, porém, tem os seus limites, e é bom que os vindouros tenham que fazer.

Ao agruparmos cantigas de escárnio e maldizer, não procurámos saber, antes, como os outros tinham feito. Só depois. E assim, ora coincidimos pela força dos textos, ora nos metemos por caminhos diferentes, devido a critérios e gostos diversos. Abrimos pelas sátiras de alcance ecuménico e que podem cifrar-se nesta frase dos velhos de agora: Os tempos vão maus!

Sátiras dos Tempos Maus

Joan Soárez Coelho troça cruelmente de João Fernandes, com feições de mouro, por a mulher ser amiga dum escravo. Na cantiga seguinte, insiste neste caso, mas alarga a sátira à história daquele tempo: Anda perturbado o mundo, João Fernandes. O Imperador levantou-se contra Roma, vieram os Tártaros e, agora, vemos-te com intenção de abalar para a Terra Santa. Ora, nas profecias do fim do mundo, é este um dos quinze sinais: andar o mundo baralhado e o mouro fazer-se cruzado. João Fernandes, acreditai em mim, que sou bom letrado! É sinal de já ter nascido o Anticristo Martin Moxa, por seu lado, também fala, dos tempos do Anticristo. Há guerras, injustiças, ambições e falta o juízo, e a mesura. Hospital ou igreja, romeiro, fidalgo ou religioso, tudo é desrespeitado, por bom que seja. Forçam as mulheres, roubam nos caminhos, não temem alcaides nem meirinhos, antes acham sempre quem os proteja. Ninguém defende os agricultores, as vinhas e as herdades ficam por cultivar, não há com que pagar as rendas e perdem-se as honras». In Mário Martins, A Sátira na Literatura medieval Portuguesa (séculos XIII e XIV), Biblioteca Breve, Série Literatura, volume 8, Instituto de Cultura e Língua Portuguesa, Centro Virtual Camões, 1986.

Cortesia de Biblioteca Breve/JDACT

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A Sátira na Literatura medieval Portuguesa (séculos XIII e XIV). Mário Martins. «No manuscrito das Cantigas de Santa Maria, temos ainda as gravuras: a mulher pelos ares, agarrada à cadeira..., a seta espetada no tabuleiro e o espanto dos que ali estão...»

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 A Sátira nas Cantigas de Santa Maria

«(…) Nalgumas ocasiões, a sátira partia do pecador. Do pecador ou do que passava por tal. Por exemplo, ria-se um de venerarem um sapato da Virgem Maria. Se o sapato fosse verdadeiro, já devia estar podre! Pois bem: o homem caiu no chão, com um ataque, e foi a çapata que o curou. Martim Alvites, morador em Alenquer, mais fazia cantigas de escárnio do que de amor. Também ele andou mal, mas teve de se arrepender, só trovando a Santa Maria, no resto da vida. Um jogral remedador imitava tudo à perfeição. Imitou Nossa Senhora, com o Menino ao colo, e o Menino pô-lo de pescoço torcido, para aprender. Nestes casos, o riso está mais nos ouvintes. É o riso e a sátira contra os incréus. Levam castigo? Bem feito!

Temos, ainda, o mundo ambíguo dos judeus e das judiarias. Vemos alguns deles a ferir um crucifixo. Escutamos algumas judias a troçar doutra, que invocava a Mãe de Deus nas dores do parto. Porém, o cómico mais burlesco vem dum bom homem a rezar a Santa Maria, no portal da igreja. Eis senão quando, vem um grande cão, chega-se a ele e atal o adobou / que ouv’a leixar sas prezes, com gáudio e troça de dois judeus. Claro, queixou-se o homenzinho à Mãe de Deus, por assim troçarem dele os judeus, e caiu-lhes o portal em cima. Mas, desta feita, nós rimos mas é da cena do cão, a alçar a perna e a fazer o que não devera a tão fiel cristão.

Para acabar, vamos escutar uma série de imprecações ou pragas contra os inimigos da Virgem Maria. Estamos no reino bravio da invectiva, um ramo da sátira que não é para rir: Maldito seja quen non loará / a que en si todas bondades á. É este o refrém e o maldito alterna com a bênção para quem a louvar. Vamos resumir: Maldito seja quem não disser bem daquela a quem nada falta de bom e digno! Maldito seja quem não disser bem da melhor das donas e não quiser o seu amor. No manuscrito das Cantigas de Santa Maria, temos ainda as gravuras: a mulher pelos ares, agarrada à cadeira..., a seta espetada no tabuleiro e o espanto dos que ali estão..., o homem da boca torcida a beijar a çapata maravilhosa... Mas isto são águas doutra vertente. Se um dia pudermos, delas trataremos.

Cantigas de Escárnio e Maldizer

Jean-Marie d’Heur, num estudo sobre a Arte de Trovar do Cancioneiro Colocci-Brancuti, distribui as poesias deste cancioneiro por grupos distintos e de tamanho desigual: 725 cantigas de amor; 504 cantigas de amigo; 212 cantigas de escárnio; 183 cantigas de maldizer; 32 tenções; e 23 cantigas sob o título de Varia. O Prof. M. Rodrigues Lapa alargou a sua análise a vários cancioneiros, limitando-se às cantigas de escárnio e maldizer, a fim de reunir a vasta colectânea das Cantigas d’Escarnho e de Mal Dizer dos Cancioneiros Medievais Galego-Portugueses, com nada menos de 431 poesias deste género, na segunda edição. Porém, ao contrário de Jean-Marie d’Heur, não isola as tenções, aqui, num todo à parte. Outro era o seu fim e sabia que algumas delas são temperamentalmente iguais a outras cantigas de escárnio e maldizer, só que vêm estruturadas em diálogo mais ou menos agressivo, à maneira de certas cantigas ao desafio dos nossos dias, nas feiras e arraiais do Norte. Carolina Michaëlis Vasconcelos, em quinze artigos modestamente intitulados Randglossen zum altportugiesischen Liederbuch, publicados entre 1896 e 1905, estudou muitas cantigas de escárnio e maldizer, por vezes obscenas e grosseiras. Nestas Notas à margem do antigo Cancioneiro Português interpreta, sobretudo, as cantigas satíricas, recorrendo às fontes históricas para esclarecer certos pontos dessas poesias e dos seus autores». In Mário Martins, A Sátira na Literatura medieval Portuguesa (séculos XIII e XIV), Biblioteca Breve, Série Literatura, volume 8, Instituto de Cultura e Língua Portuguesa, Centro Virtual Camões, 1986.

 Cortesia de Biblioteca Breve/JDACT

 JDACT, Mário Martins, Literatura, Cultura e Conhecimento, Instituto Camões,

quinta-feira, 28 de maio de 2020

O Primitivo Teatro Português. Luiz Francisco Rebello. «Foi nos séculos XIII e XIV, e sobretudo nos reinados de Afonso III (1248-1279) e seu filho Dinis I (1279-1325), que a poesia jogralesca viveu entre nós o período mais florescente»

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Primeiras manifestações teatrais: o arremedilho
«(…) É, de resto, com os jograis que melhor se patenteia a fluidez, a indeterminação de fronteiras entre as diversas manifestações dramáticas medievais, cujo sincretismo a obra de Gil Vicente (e, até, alguns dos seus autos isoladamente considerados: pense-se nas Barcas, por exemplo, ou no Auto da Feira) de maneira tão flagrante ilustra. A própria etimologia da palavra arremedilho insinua que se trataria de uma representação elementar em que a declamação e a mímica se combinavam para tornar mais atraente e persuasiva a fábula contada pelos jograis ao seu auditório popular ou cortês: como que a iluminura animada das novelas ou das canções épicas da Idade Média, na definição expressiva de Oscar de Pratt. Remedadores, com efeito, se chamavam no reinado de Afonso X de Castela (di-lo uma declaração do trovador Guiraut Riquier, de 1275, que os aproximava dos contrafazedores provençais), os jograis especializados na arte de imitar; e uma das Cantigas de Santa Maria, do Rei Sábio, conta a história de um jogral que quis remedar como seja a imagem de Santa Maria, e torceu-se-lhe a boca e o braço. Num dos versos dessa mesma cantiga depara-se-nos o termo remedilho, que Menéndez Pidal define como sendo o espectáculo que dava o remedador. Parece, assim, não haver dúvidas de que estamos perante uma verdadeira manifestação dramática, embora incipiente e rudimentar; e tanto que, em pleno século XVI, o autor da anónima Obra da Geração Humana (Gil Vicente?), na cena introdutória, e Chiado (no Auto da Natural Invenção) designam por arremed(i)ação uma modalidade cénica que, na obra do último, se dá também como sinónimo de comédia, representação, auto ou prática. Foi nos séculos XIII e XIV, e sobretudo nos reinados de Afonso III (1248-1279) e seu filho Dinis I (1279-1325), que a poesia jogralesca viveu entre nós o período mais florescente. Apesar de o regimento da casa real, de 1250, proibir que houvesse mais de três jograis na corte ou jogralesas (denominadas soldadeiras) que não viessem de passagem ou se demorassem mais de três dias, a verdade é que em nenhuma outra época tão grande número de jograis e trovadores deverá ter-se reunido na corte portuguesa, o que autoriza a concluir que as representações de arremedilhos fossem, então, frequentes. Não era, de certo, infundadamente que o jogral João Airas, de Santiago, numa das suas cantigas, aludia às ricas e nobres Cortes que faz el-rei. (Convém esclarecer que o trovador se distingue do jogral por uma condição social e um grau de cultura mais elevados, e está para ele como, na antiguidade clássica, o aedo ou rapsodo relativamente ao mimo e ao histrião. Mas esta distinção, que aliás aparece glosada em várias cantigas de escárneo e mal-dizer, é por via de regra mais teórica do que prática).
Abundam, aliás, nos Cancioneiros dos séculos XIII (Ajuda) e XIV (Vaticana e Biblioteca Nacional) as composições poéticas de esquema dialógico, ou tenções, que um breve tratado de versificação, anexo ao último dos citados Cancioneiros, assim define: outras cantigas fazem os trovadores que chamam tenções, porque são feitas por maneira de razão que um haja contra outro, em que diga aquilo que por bem tiver na prima cobra (isto é, copla) e o outro responda-lhe na outra dizendo o contrário. Estas se podem fazer de amor, ou de amigo, ou de escárneo, ou de mal-dizer. Poderiam multiplicar-se exemplos de tais composições, desde as cantigas de trovadores e jograis como Pedro Meogo, Bernaldo Bonaval, Paio Gomes Charinho, Fernando Esguio, Lourenço, o próprio rei Dinis I, que tomam a forma dum diálogo com o namorado, a mãe, a amiga confidente, às polémicas em verso que aqueles entre si travaram, com a questão do Guarecer por trovar em que intervieram o jogral Lourenço, João Garcia Guilhade, João Aboim, João Soares Coelho e João Vasques. A sua estrutura subsiste no Cancioneiro Geral de Garcia Resende (a querela do Cuidar e Suspirar, o processo de Vasco Abul em que interveio Gil Vicente, a porfia entre o conde de Vimioso e Aires Teles sobre a questão de desejar e bem-querer) e nas éclogas de um Sá Miranda, de um Bernardim Ribeiro ou de um Rodrigues Lobo; seria, no entanto, excessivo qualificar, por essa razão apenas, de dramáticas tais composições». In Luiz Francisco Rebello, O Primitivo Teatro Português, Instituto de Cultura Portuguesa, Centro Virtual Camões, Instituto Camões, Oficinas Gráficas da Livraria Bertrand, 1977.

Cortesia do ICamões/JDACT