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sexta-feira, 3 de abril de 2020

D. Maria. 1521-1577. Uma Infanta no Portugal de Quinhentos. Paulo D. Braga. «… em 1564, que dona Maria teria mantido uma relação amorosa com François Lorraine (1534-1560), grão prior da Ordem de Malta e almirante de França»

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Um Retrato. Traços Físicos e psicológicos
«(…) Segundo Luís Álvares, era tam auorrecida toda a mentira, na casa desta princeza, que huma uez, sabendo que, da sua parte, fora falsamente, hum criado seu, pedir a El-rei dom Joham certo aluitre e o alcansara, em continente o mandou riscar de seus liuros e dar hum pregâo em sua casa que todo, o que tal fizesse, seria logo riscado dos seus e mui grauemente castigado. No que diz respeito a amores, dona Maria terá suscitado paixões, como há muito admitiu Carolina Michaëlis Vasconcelos. Uma anedota recolhida em colectânea anónima da época conta que Jorge Silva, filho do regedor da Casa da Suplicação, João Silva, sendo mancebo namorou a Infante. Mas, como namorava Jorge Silva tanto de escancara, e fez tantos extremos em seus amores, sem a Infante saber disso, que, tendo João III tomado conhecimento do facto, mandou prendê-lo no Limoeiro. Luís de Camões, aproveitando uma cantiga velha, escreveu:

Perdigaó perdeo a pena
naó ha mal que lhe naó venha.

Perdigaó que o pençamento
foy por em alto lugar
perde as penas do voar
ganha as penas do tormento.

Naó tem no ar, nem no vento
azas com que se sustenha
lança no fogo mais lenha.

Quis sobir a huá alta torre
e achouce dezazado,
e vondoce depenado
de puro penado morre.

Se a queixume se socorre
lança no fogo mais lenha
naó ha mal que lhe naó venha.

Tendo passado algum tempo preso, foi libertado por ordem régía. Segundo Prossegue a anedota, húá Dama da Infante das mais entradas em sua graça e favor, dizem que hü dia esüanhou m.'o diante da Infanta sua senhora, o atrevimen.'o de Jorge Silva, e que por elle merecia que S. A. o mandace casdgar de man. qt. entendence elle donde lhe vinha o castigo, e que a Infante lhe respondeu estas palavras, Como que quereis vos fulana que eu tenhá coraçaó p. mand ar fazer mal a quem me queria bem, naó tendo elle outra culpa mais que o bem queme queria. Se bem que Carolina Michaelis Vasconcelos tenha colocado várias objecções a este episódio, o mesmo, ainda assim, não me parece de todo inverosímil.
Ainda sobre reais ou suspostos amores suscitados por dona Maria, houve a ideia de de que Luís de Camões teria tido a infanta como musa inspiradora da sua poesia lírica. Desenvolvida em 1910 por José Maria Rodrigues, foi, poucos anos volvidos, negada por Teófilo Braga, o qual recuperou uma velha hipótese alternativa, a de que a misteriosa mulher que Camões, teria sido dona Francisca de Aragão. Todavia, José Maria Rodrigues voltou a insistir em 1932, quando, conjuntamente com um outro nome de peso na cultura portuguesa, Afonso Lopes Vieira, editou a Lírica Camoneana. Tal motivou uma acesa polémica na imprensa, mobilizando, a favor da tese infantista, Agostinho Campos e, contra, Alfredo Pimenta e Ricardo Jorge. José Maria Rodrigues voltou ao tema pelo menos mais uma vez, em 1938, em artigo saído numa revista brasileira. Apesar de não aceite pelos especialistas com a aspereza de polemista que o caracterizava, Alfredo Pimenta escreveu: não passa dum lindo romance, a ideia do amor entre Camões e a infanta dona Maria tinha tudo para se tornar cara à ficção e assim tem acontecido nas últimas décadas. Por exemplo, teve acolhimento num filme realizado em 1946, Camões, de Leitão Barros e num romance publicado em 2006.
Por seu lado, terá a infanta amado alguém? Teófilo Braga, com a sua frieza habitual, escreveu: nas suas amarguras íntimas, não dava lugar a idealismos amorosos. Talvez tivesse razão. De filha e irmã de reis esperava-se que não tivesse qualquer predisposição para paixões mundanas. Não parece ter qualquer fundamento a ideia, defendida por Brantome, em 1564, que dona Maria teria mantido uma relação amorosa com François Lorraine (1534-1560), grão prior da Ordem de Malta e almirante de França». In Paulo Drumond Braga, D. Maria, 1521-1577, Uma Infanta no Portugal de Quinhentos, Edições Colibri, Lisboa, 2012, ISBN 978-989-689-244-9.

Cortesia de Colibri/JDACT

quarta-feira, 9 de outubro de 2019

Termas de S. Pedro do Sul. A. Nazaré Oliveira. «No lado poente da planta, assinala o ..Camarote de […], mas, não obstante os pormenores a que desce, não diz quem era este dom Fernando. E nenhum dos autores que têm escrito sobre as Termas levanta este problema»

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O Hospital Real das Caldas de Lafões
«(…) A provedoria de Aires Almeyda Sousa foi longa, pois, em 1616, vinte anos depois da nomeação, era ainda provedor, como se lê no frontispício da Chronographia Medicinal das Caldas de Alafoens, que Pires Sylva dedica a Duarte d'Almeida Sousa, filho primogénito de Aires Almeyda. Nos Almeydas da Cavalaria continuou a administração, terminando com Gonçalo Almeyda Sousa Sá, a quem João V concedeu a mercê, em 1713. Passou a administração para os corregedores, como provedores ou contadores da Fazenda. O Corregedor era o inspector do Hospital e o Juiz do Couto era o sub-inspector.

Com a extinção do concelho de Lafões, o Banho foi integrado no então criado concelho de S. Pedro do Sul e a administração das Caldas passa para a Câmara deste concelho, por portaria de 12 de Novembro de 1839. Mais tarde, a propriedade do Estabelecimento das Caldas foi confirmada por Carta de Lei de 21 de Maio de 1878 e, novamente, por Alvará de 17 de Fevereiro de 1910. Com os dados de que dispomos, vejamos as características e modo de funcionamento do Hospital Real das Caldas de Lafões. Tinha características próprias que lhe advinham do facto de ser um hospital termal. De algum modo, Manuel I, ao criar este hospital, seguiu o exemplo da irmã, a rainha viúva dona Leonor, fundadora do Hospital das Caldas da Rainha, guardadas as devidas diferenças de proporção entre os dois hospitais. Sabe-se que vários hospitais do reino vieram a ter Regimentos inspirados no das Caldas da Rainha. É bem possível que, entre eles, se encontre o de Lafões, com maioria de razão por ser um hospital termal.
Já vimos que a carta de nomeação do primeiro provedor (1502), pelas obrigações que nela estavam consignadas, pode considerar-se o primeiro regimento para a administração do Hospital. No manuscrito da Biblioteca da Ajuda, o Desembargo do Paço, em 1592, limita-se a repetir as mesmas obrigações. Só um século depois, em 1696, com a publicação da … Chronographia Medicinal das Caldas de Alafoens…, temos notícia detalha da da orgânica do Hospital. O autor, médico das Caldas, descreve, até ao pormenor, o seu modo de funcionamento. Começa com a descrição da piscina onde o rei se banhou, pelo que ficou conhecida por .Piscina dom Afonso Henriques, . Dela fez a planta, que tem sido reproduzida por quantos têm abordado este tema.
E nós a reproduzimos também, acrescentando-lhe os pontos cardeais e confrontações, para melhor clarificação.
No lado poente da planta, assinala o ..Camarote de […], mas, não obstante os pormenores a que desce, não diz quem era este dom Fernando. E nenhum dos autores que têm escrito sobre as Termas levanta este problema. Não se trata do rei Fernando I. Não se conhece qualquer notícia de que lá tenha estado. Se tal tivesse acontecido, Pires Sylva não deixaria de o tratar por rei. Também não cremos que se trate de Fernando Pedro, aquele senhor de Lafões referido no foral de 1152. Se tal fosse, o autor da ...Chronographia…, não omitiria Pedro, já que, no texto, sempre o trata por Fernando Pedro, que, de resto, como vimos, já era morto quando veio o Rei. A designação de Camarote de dom Fernando, deve ser mais tardia. Poderia, talvez, referir-se ao 2.º duque de Viseu. É apenas uma hipótese. O próprio Sylva escreveu: por morte de dom Henrique, que succedeo aos 1460. Foi seruido o Senhor Affonso V dar o senhorio do Concelho, & Caldas de Alafoens a seu irmão o Serhor dom Fernartdo, Infante, e Condestavel de Portugal, e Mestre das Ordens de Christo, I Santiago.
A planta não assinala o antigo banho das mulheres, mas Sylva descreve-o. Seria, quasi subterraneo e a ele se passaria por uma porta, nas costas do banho dos homens e se desceria por uma escada de pedra. Janelas de grades que descobriam um e outro banho, ao tempo transformadas em portas, mostrão (?) que ouve nas casas, junto ao banho das mulheres, alguma casa particular, donde alguma Pessoa Real, por evitar a prolixidade das continencias, & cortesias uia, sem ser vista, o modo de tomar banhos…» In António Nazaré Oliveira, Termas de S. Pedro do Sul, Antigas Caldas de Lafões, Palimage Editores, Viseu, 2002, ISBN 972-857-538-6.

Cortesia de PalimageE/JDACT

terça-feira, 8 de outubro de 2019

Termas de S. Pedro do Sul. A. Nazaré Oliveira. «... como a administraçaõ das Caldas he sem lucro algum, & ocupação grave, que divertia os Collegiaes do seu estudo, pediraõ a ElRey lhes désse em seu lugar a Capella de Álmoster…»

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O Hospital Real das Caldas de Lafões
«(…) Manuel d'Azevedo Almeyda era filho de Sebastião Rodrigues Azevedo e Isabel d'Almeyda, da Casa da Cavalaria, pelo que, com ele, a provedoria voltou à família dos Almeydas, após a breve interrupção, no tempo do Cardeal-Rei. Em 14 de Outubro de 1592, o Desembargo do Paço repete todas as obrigações dos administradores das Caldas, nomeadamente das quatro camas para os pobres; de sustentar à sua custa um Banheiro que tinha o cuidado de temperar as águas aos enfermos; de cada um dos 24 homens repartidos pelos 24 casais ter disponível uma cama, ao preço de dois reais por noite, para quem viesse aos banhos; um clérigo para dizer missa e todos os ornamentos necessários ao culto; pagar a lâmpada acesa onde estavam os enfermos; reparar o Hospital de todas as ruínas e danificações.
Aqui se fala em 24 casais, o que não condiz com os 22 do Tombo de João V. Como vimos, é na carta de mercê a Fernão Lopes d'Almeyda que se estipula aquela obrigação dos 24 homens privilegiados, ainda que não se refira o número de casais. Mas tudo parece indicar que os 24 homens correspondiam aos 24 casais que constituiriam o Reguengo do Hospital. A ser assim, há lacuna no Tombo de João V. Teriam escapado dois casais a quem o organizou. Posteriormente, Filipe II deu a administração ao Real Colégio de S. Paulo em Coimbra, o que levou a Câmara de Lafões a levantar embargo, com base no facto de a haver possuído no tempo do Cardeal-Rei. O Colégio venceu o litígio, em 1611. Mas, pouco tempo depois, renunciou, devido aos cuidados de tal administração, não compensados por lucro tão reduzido. Pires Sylva refere-o, nos seguintes termos: ... como a administraçaõ das Caldas he sem lucro algum, & ocupação grave, que divertia os Collegiaes do seu estudo, pediraõ a ElRey lhes désse em seu lugar a Capella de Álmoster, o que ElRey lhes concedeo liberalmente (…) ficou a administração devoluta aos Juizes de fóra do dito Concelho [de Lafões] , como Ouvidores da Villa, & Caldas do Banho, atè ao tempo em que o Senbor Rey Pedro II, fez mercè, & doaçaõ della a Ayres Almeyda Sousa, senhor da mesma casa da Cavallaria, & descendente dos possuidores do mesmo couto, & Villa do Banho.
Foi a mercê concedida por alvará de 4 de Janeiro de 1676, seguida de carta de doação de 28 de Fevereiro do mesmo ano. Nesta data, Pedro era ainda Príncipe Regente e não Rei, como afirmam Pires Sylva e todos quantos o repetem. De resto, como pode ler-se na carta, Pedro intitula-se Príncipe, ainda que como rei actuasse: … D. Pedro (…) Faço saber (...) que por parte de Áires Almeida Sousa Sá, Fidalgo da Minha Casa Me Foi apresentado um Alvará por mim assinado (...) Eu o Principe (...) Hei por bem fazer-lhe mercê (...) da Villa e Coito dos Banhos (...) sendo seu provedor como fazia até agora o Juiz de Fora do Concelbo de Lafões, como Ouvidor da dita Villa e Coito, e como foram os antepassados do Suplicante.
Sabe-se por uma escritura datada de 26 de Fevereiro de 1684 que, durante esta provedoria, foi o Hospital sujeito a obras de ampliação: … em a Quinta da Cavalaria, junto à vila de Vouzela, do concelho de Lafões, nas casas da dita Quinta, onde eu Tabelião fui, estando aí presentes Aires Almeida Sousa, Fidalgo da Casa de Sua Majestade, Senhor da Vila e Couto dos Banhos e Provedor do Hospital das Caldas e Vila dos ditos Banhos, (...) e bem assim Manuel Ferreira (...) e António Lourenço Novo, moradores no lugar de S. Miguel do Outeiro, do termo da cidade de Viseu (…) e logo por eles foi dito (…) que ele dito Aires Almeida Sousa mandara pôr a pregão as quatro casas que se vão a fazer no Hospital dos Banhos na forma dos apontamentos que estão nos autos de arrematação da dita obra, (...) ele dito Manuel Ferreira se obriga a fazer a dita obra (...) e dá-la feita e acabada até ao fim de Setembro o primeiro que vem deste presente ano (...) e em preço e quantia de Noventa e cinco mil réis que tanto consta do auto de arrematação em que foi arrematada esta obra de pedraria». In António Nazaré Oliveira, Termas de S. Pedro do Sul, Antigas Caldas de Lafões, Palimage Editores, Viseu, 2002, ISBN 972-857-538-6.

Cortesia de PalimageE/JDACT

domingo, 2 de dezembro de 2018

As Mulheres de D. Manuel I. Maria Pilar del Hierro. «O que esperavas? Na serra já nevou. Em vez de limonada deveríamos tomar uma chávena desse novo elixir que dizem que há nas Índias e a que chamam cho..., hesitou, cholocate!»

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Lisboa. 4 de Setembro de 1493
«(…) Manuel voltou às suas ocupações e deu a conversa por terminada. Tinha passado muito tempo sobre tudo aquilo, a revolta, a inquietação pela sorte do seu irmão, a certeza de ser o único depositário dos bens e da tradição da casa de Viseu... Agora já não se preocupava com isso. O seu coração ocupava-se a evocar as douradas terras de leste, as amplas planícies castelhanas, impudicas na sua nudez, onde qualquer sombra se torna num dom inesperado. Ali, num qualquer dos muitos castelos que marcam a paisagem, estaria Isabel. Imaginou-a a ler junto de uma janela, a bordar à sombra dos álamos, a desfrutar da conversa das suas damas... De novo a voz de Diogo Silva tirou-o do seu sonho. Notícias da corte, anunciou-lhe ao mesmo tempo que lhe estendia um pergaminho que tinha recebido de um jovem pajem que, imóvel debaixo do lintel da porta, parecia esperar a resposta. Manuel leu atentamente a nota e dirigindo-se ao recém-chegado anunciou-lhe: podeis dizer a Sua Majestade, João II, que amanhã sem falta e à hora indicada irei ao seu palácio.

Granada. 22 de Novembro de 1495
Elvira entrou no aposento com um jarro de limonada e colocou-o em cima de uma pequena mesa de embutidos, muito perto de onde se encontrava a rainha. Em volta dela, as infantas Isabel, Joana, Maria e Catarina afadigavam-se no bordado de uma enorme toalha de altar. A soberana, pelo contrário, costurava primorosamente um gibão de Fernando, seu marido. Desde que se casaram, em 1469, tinha por costume encarregar-se pessoalmente da roupa do monarca. Gostava de coser, mas fazia-o sobretudo para se sentir próxima da presença do homem que amava sinceramente, mas de cuja companhia desfrutava menos do que teria desejado. As contínuas viagens do rei a territórios aragoneses ou as suas empresas militares afastavam-no frequentemente do seu lado e a soberana só podia sentir saudades da sua companhia e lutar continuamente contra o aguilhão de uns ciúmes não completamente infundados.
Enquanto Joana Guzmán servia a limonada, a rainha entreteve-se a observar o harmonioso grupo que formava a sua prole: Joana, temperamental e inquieta, tão parecida com a sua sogra, Joana Enríquez, no físico como no carácter com sua mãe, Isabel de Avis; Maria, serena e reservada, já uma mulher aos treze anos feitos há pouco; a pequena Catarina, tão decidida, com os seus caracóis louros e rebeldes escapando da touca e atrapalhando os olhos... Teve de reprimir um suspiro ao deter-se em Isabel, a sua primogénita, sempre calada, sempre triste, sempre distante desde que lhe negara a permissão para ingressar como clarissa. O que era feito da menina que vinha ter com ela quando estava preocupada ou da sorridente noiva de Sevilha?
A voz aguda de Catarina interrompeu os seus pensamentos: está muito fria!, lamentou-se ao provar a limonada. A infanta Joana sorriu. O que esperavas? Na serra já nevou. Em vez de limonada deveríamos tomar uma chávena desse novo elixir que dizem que há nas Índias e a que chamam cho..., hesitou, cholocate! Cho-co-la-te, rectificou a rainha, sem erguer os olhos da costura. Dizem, continuou a infanta Joana, que aquece a alma e o corpo e que são tais os seus benefícios que quem o ingere seria capaz de vencer a hidra de sete cabeças de um só golpe. Não sabeis o que dizeis, Joana. O almirante Colombo deu-nos a provar e é muito desagradável ao paladar. É picante, amargo... pouco êxito lhe auguro apesar da muita estima que os nativos têm por ele!, assegurou a rainha.
Vazio o jarro, Elvira recolheu-o e apressou-se a sair do aposento. Bem sabia como acabaria a conversa. Joana e Catarina envolver-se-iam numa das suas discussões, Maria tentaria apaziguá-las e Isabel continuaria fechada no seu mutismo. Caminhou pelo corredor apressadamente mas, de repente, dona Leonor atravessou-se no seu caminho: como está? Como está quem?, respondeu com alguma impertinência a camareira. Não tinha tempo a perder. Ainda tinha de passar pelas cozinhas, acender os braseiros, preparar os aquecedores das camas, arranjar os quartos para a noite e, às seis, esperava-a no pátio traseiro Rodrigo, o palafreneiro do príncipe João, com quem andava a conversar o que, se ela o soubesse, não teria a aprovação da velha aia. Quem havia de ser, criatura! A infanta nossa senhora... Qual delas? Dona Isabel, evidentemente. Por acaso Joana, Maria ou Catarina precisam dos meus cuidados?» In As Mulheres de D. Manuel I, Maria Pilar Queralt del Hierro, A Esfera dos Livros, Lisboa, 2010, ISBN 978-989-626-247-1.

Cortesia de EsferadosLivros/JDACT

As Mulheres de D. Manuel I. Maria Pilar del Hierro. «O aio insistiu: é verdade, senhor duque. Diz-se que o rei anda já ocupado a procurar a intercessão do Papa para estabelecer os limites de cada reino nas terras recém-descobertas»

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Lisboa. 4 de Setembro de 1493
«(…) Estava sozinho, dizia para consigo. E era nesses momentos que uma irreprimível angústia lhe oprimia o peito e teria dado a sua vida para que, na ala oposta do palácio, Isabel estivesse à sua espera. Porque essa e não outra era a razão pela qual Manuel, duque de Viseu, grão-mestre da Ordem de Cristo e o homem mais importante da corte depois do rei, se perdera em melancolias. Chorava o sobrinho definitivamente ausente, sim; mas também por ter perdido a única mulher que tinha amado. Ninguém suspeitara de nada. Reservado, nem os que lhe eram mais chegados conheciam os seus sentimentos. O respeito para com o príncipe morto e o seu próprio sentido de honra obrigavam-no a manter segredo. Quando conheceu a noiva do seu sobrinho Afonso ficou fascinado pela sua delicadeza, pela sua timidez e pela sua inegável beleza. A infanta castelhana partilhava com a mãe a sua tez de porcelana e os cabelos louros mas era mais alta do que a rainha Isabel e possuía um tal porte que quem não a conhecesse podia tomá-la por altiva. Como se isto não bastasse, quando com ela conviveu, Manuel teve de se render diante de uma conversação refinada e culta e uma firmeza de carácter pouco vulgar. Não obstante, nunca tentou qualquer aproximação. Isabel era a mulher de Afonso, gostava dele como sobrinho e respeitava-o como herdeiro. Mas mesmo sabendo que ela era fruto proibido, Manuel tinha sido feliz só por a saber por perto.
Naquela manhã, sentado diante da grande janela do seu quarto de estudo na ala oeste do palácio perto do castelo de S. Jorge, o duque deleitava-se na recordação contemplando o ir e vir dos veleiros no estuário do Tejo. Entretanto, os últimos raios de sol deslizavam pelos telhados vermelhos das casas que se apinhavam aos pés da fortaleza fundindo-se com eles. Esta nossa Lisboa não pode negar que um dia foi árabe, interrompeu-o o seu fiel Diogo Silva, reparai, senhor, no traçado das ruas que descem até ao rio, como parecem os corredores de um mercado árabe. Não estava entretido com ruas e praças, mas mais além, a olhar para o mar. Pensai, Diogo, que dele nos hão-de chegar grandes e abundantes dádivas...
Certamente, senhor. Vede apenas os êxitos de Castela. Diz-se que um genovês chamado Colombo descobriu novas e ubérrimas terras. Castela quer disputar a Portugal o domínio dos mares mas não o conseguirá. Manuel sublinhou as suas palavras com um enérgico gesto, embora a sua voz soasse monocórdica e indiferente. Era evidente que não lhe apetecia conversar. O aio insistiu: é verdade, senhor duque. Diz-se que o rei anda já ocupado a procurar a intercessão do Papa para estabelecer os limites de cada reino nas terras recém-descobertas. Compreendendo que era impossível furtar-se à conversa, Manuel decidiu continuá-la: melhor teria feito se tivesse prestado atenção ao tal Colombo quando este lhe propôs que financiasse a empresa. Também, quem é que iria pensar que esse aventureiro genovês tinha razão!, procurou justificar o monarca. E agora já é tarde para se arrepender. Melhor faria o nosso senhor João II se esquecesse o seu afã em dividir o mundo com a rainha de Castela, e organizasse o seu próprio reino que mau futuro espera uma monarquia sem sucessor...
Diz-se, Diogo Silva baixou a voz, que está decidido a nomear herdeiro o seu bastardo, Jorge Lencastre. Mas que a rainha, vossa irmã Leonor, opõe-se com todas as suas forças a tal decisão. Se o não fizer... Sabendo de antemão o que o velho preceptor ia dizer, Manuel adiantou-se-lhe: se, eu sei. Nesse caso, seria eu quem melhor e maior direito teria à sucessão pela minha condição de único descendente varão do rei Duarte I, meu avô, que a Glória tenha. Mas asseguro-vos, Diogo, que não tenho o mínimo interesse nisso. Além disso, embora seja verdade que sou neto do meu avô, também sou irmão de Diogo de Viseu e que tal condição não me parece o melhor aval para me aproximar do trono.
O aio passou a mão pela barba como querendo reflectir e em voz baixa lamentou: tendes razão. Fraco favor vos fez Diogo ao rebelar-se contra a Coroa! Mas, depois de receber o seu castigo, o rei fez-vos depositário de todos os seus bens e honras. É de crer, pois, que vos eximiu de qualquer culpa. Consta-me que assim é, Diogo, respondeu Manuel, mas pensai quanto ódio guardaria o coração do rei para matar o meu irmão com as suas próprias mãos, sem ter em consideração que era, além de nobre e mestre da Ordem de Cristo, o irmão da rainha... Não era ódio, senhor. Era justiça. O nosso rei João II quis apenas reforçar o poder da Coroa para fazer o país forte, evitando que se enfraquecesse em facções nobiliárias. A revolta de Diogo merecia um bom castigo e o rei só o aplicou, não só para implantar a justiça mas como aviso aos navegantes». In As Mulheres de D. Manuel I, Maria Pilar Queralt del Hierro, A Esfera dos Livros, Lisboa, 2010, ISBN 978-989-626-247-1.

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As Mulheres de D. Manuel I. Maria Pilar del Hierro. «Como Isabel, o duque de Viseu também não conseguia refazer-se desde a morte do jovem Afonso. De pouco serviam os dois longos anos…»

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Santa Fé. Granada. Dezembro de 1491
«(…) Não consentirei, frei Hernando. Nunca concederei a minha autorização para tamanho disparate. A minha filha é uma infanta de Castela e Aragão e como tal deve submeter-se ao seu destino e pôr-se ao serviço da Coroa. A rainha Isabel de Castela passeava nervosamente pela sala, torcendo as mãos com energia, como que procurando nisso razões que avalizassem a sua posição. Pequena, de tez clara e cabelos loiros, o vigor dos seus gestos e a firmeza das suas palavras contradiziam a aparente fragilidade do seu físico. Estavam a discutir há mais de uma hora e em vão frei Hernando Talavera, o seu confessor, tinha esgrimido mil e um argumentos para convencer a soberana a que acedesse aos desejos da infanta Isabel e lhe permitisse que ingressasse num convento de clarissas. De pouco lhe servia aludir ao caminho empreendido por outras ilustres viúvas como Isabel de Portugal ou Elisenda de Montcada. A cada nome, a cada exemplo, a rainha replicava: vós o dissestes, viúvas de rei. Já tinham cumprido o seu dever e ainda assim, se não me engano, dona Isabel continuou a participar nos assuntos do reino e Elisenda de Montcada, embora se tenha retirado para o Mosteiro de Pedras Albas de Barcelona, nunca chegou a professar para o caso de o seu dever a reclamar. A minha filha é apenas uma infanta e, como tal, tem como obrigação atender às necessidades dos reinos dos seus pais.
Enérgica e loquaz, a rainha de Castela deixava sem palavras o sacerdote. Prudente, freí Hernando coibiu-se de dizer que ele próprio tinha dado já os primeiros passos para satisfazer os desejos de Isabel. No entanto, embora escondendo parte da verdade, não se deu por vencido e continuou a insistir: alteza, tendes de pensar que se a infanta tomou essa decisão não foi por capricho, ela é uma mulher sensata, e uma cristã fiel e devota. Vede, frei Hernando, eduquei, melhor dito educo, as minhas filhas no respeito à Coroa e à sua condição real. Assim, aprenderam música, artes e latim; sabem dançar, comportar-se e conversar; estão preparadas para serem mulheres de bem e, sobretudo, princesas exemplares que procurem a felicidade para os seus reinos. Como sabeis, Castela e Aragão têm vizinhos muito poderosos e, como tal, os seus soberanos precisam, pigarreou, precisamos de alianças vantajosas. Conheceis por acaso união mais forte do que os laços de sangue? Mas, senhora, teríeis Deus como aliado se a infanta... Com um gesto imperioso, a rainha mandou calar o frade e continuou: tenho quatro filhas, quatro pilares onde apoiar o meu trono e o do seu pai para que um dia o príncipe João herde a nação mais poderosa da terra. Mas isto só se alcançará se Isabel, Joana, Maria e Catarina contraírem matrimónios vantajosos que nos assegurem a paz com os reinos vizinhos e um bons aliados no caso de peremptória necessidade. Assim, pois, nunca consentirei que as minhas filhas se enterrem vivas entre as quatro paredes de um convento, concluiu com vigor.
Mas não podeis opor-vos à vontade de Deus... Não o faço!, exclamou a rainha levantando a voz. O meu marido e eu estamos prestes a incorporar o reino de Granada na Coroa de Castela com o que o território peninsular será uno e cristão. Por seu lado, Aragão trava o turco quando estende o seu estandarte até ao último pedaço do Mediterrâneo. E tudo isto se faz para maior honra de Deus e com o objectivo de manter na linha o infiel. Quatro filhas Deus me deu, repito, e ao seu serviço as porei se conseguir que casem com quatro príncipes cristãos. Não acreditais que se Isabel contrair novo matrimónio com um príncipe inglês, borgonhês ou francês seria mais útil para a fé de Roma do que encerrada num convento? Senhora, insistiu frei Hernando, inacessível ao desalento, a infanta assegurou-me que nunca contrairá novo matrimónio... Isso vê-lo-emos, contestou decidida a rainha. Deixai-me falar com ela e já lhe direi como deve comportar-se.

Lisboa. 4 de Setembro de 1493
Como Isabel, o duque de Viseu também não conseguia refazer-se desde a morte do jovem Afonso. De pouco serviam os dois longos anos que tinham passado; de nada os muitos desgostos por que Manuel tinha passado nos seus escassos vinte e quatro anos de vida e que podiam ter-lhe curtido o ânimo. O mais novo dos filhos do infante Fernando e portanto, neto do que fora rei de Portugal, Duarte I, não tinha tido uma vida fácil. Ainda muito novo perdeu o pai, tinha enterrado os seus dois irmãos varões e o seu sobrinho Afonso tinha expirado nos seus braços. Como se isso não bastasse, a inimizade entre os Viseu e o monarca tinha turvado desde há muito tempo a sua relação com a rainha Leonor, sua irmã, a mesma que agora andava com a alma e a razão perdidas pela dor de ver morrer o seu único filho». In As Mulheres de D. Manuel I, Maria Pilar Queralt del Hierro, A Esfera dos Livros, Lisboa, 2010, ISBN 978-989-626-247-1.

Cortesia de EsferadosLivros/JDACT

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

A Traição de D Manuel I. Jorge S. Correia. «… um destino que parecia trilhar o caminho do Jardim das Delícias, o tal sítio onde Adão e Eva, sem planeamento, encheram o mundo de malfeitores e inocentes»

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De Malines a Espanha, com Ida para Portugal
«(…) Era uma atitude assumida, bárbara também, pois roubar a irmã à mãe era o mesmo que assaltar o resto de sanidade que lhe restava. Louca, sim, mas se não lhe chegou nenhum sentimento quando encarou a filha mais velha, a mais nova era a sua razão de viver, como se a vida da menina fosse o vigor de que precisava para obter uma loucura normal. Perante o assalto ao mais íntimo de si, dona Joana esteve três dias sem comer, a chorar e a babar-se, até que, à vista do sofrimento revelado no desaprumo das acções que a transfiguravam, Leonor cedeu às súplicas da mãe, optando por seguir viagem como o irmão Carlos planeara, com o propósito de, nem mais nem menos, fazer-se coroar rei de Espanha. O futuro rei do universo, exagero semântico, só isso, pois dizia-se que o Sol nunca se punha no império de Carlos V, viera a Espanha a pedido dos governadores, uma força capaz de desagregar o reino espanhol, tantos eram os territórios sob sua tutela. Além disso, quem é que dava ouvidos a uma rainha sem autoridade nem juízo? Se com dona Joana o reino perdia a glória que os seus pais, Fernando e Isabel, os Reis Católicos, souberam construir, por que razão a grande nobreza não requisitava Carlos, uma vez que atrás de si se revelavam poder, riqueza e ambição, qualidades que depressa se fariam sentir no governo de Espanha? É que o jovem já tinha quase dezassete anos, idade mais do que suficiente para mandar e ser obedecido.
A 14 de Fevereiro de 1516, o infante Fernando, o irmão que nunca saíra de Espanha, depois de reunir o Conselho Real, escreveria a Carlos pedindo-lhe que assumisse o governo de Espanha: beijamos os vossos pés e reais mãos (...) suplicamos humildemente a vossa alteza, pois a sua vinda é tao desejada de todos e necessária para o bem e sossego destes reinos e os naturais dele e súbditos de nossa alteza, tenha por bem vir a eles. E lá veio Carlos, arrastando consigo a mana Leonor. Mas havia quem não gostasse. Os do reino de Aragão desconfiavam do jovem arquiduque, viam-no como um intrometido do Norte da Europa na alteridade castelhana, suspeitavam da sua honestidade, achavam que o que ele queria era juntar mais poder ao que já tinha. Ultrapassada esta dúvida, outro problema se levantou. Dona Joana, maluca ou não, ainda era a rainha de Espanha. Os súbditos deviam-lhe menagem. Como haveria Carlos de resolver a questão? Para o futuro Carlos I de Espanha essa questão não continha qualquer dificuldade, ou não fosse ele amado pela nobreza, quase tanto como a mãe amou o pai.
Não foi difícil baralhar o já confuso pensamento de dona Joana. Pressionada a abdicar, fê-lo de pronto, certamente sem saber muito bem o que isso significava. Estava senil, habituada a um certo bem-estar junto dos seus servidores mais chegados, mais não queria do que um reino só para si em cem metros quadrados: as aias e as amas de companhia para a entreterem, a filha mais nova junto de si, adorável criança que talvez lhe trouxesse à memória corrompida a lembrança de dias felizes. Fora isto, que a deixassem com os seus pensamentos, sadios ou inquinados, pouco lhe importava, de certeza organizados na imagem do marido que amou até à loucura. Vencidos alguns protestos de certos governadores, poucos, comparados com os que queriam Carlos a governar, o arquiduque fez-se coroar em São Paulo de Valladolid como Carlos I de Espanha, jurando, no entanto, que se Deus Nosso Senhor voltasse a dar juízo à mãe, ceder-lhe-ia o reino, voltando a governar a Flandres e o resto que por lá havia, e era muito, até que a matriarca voltasse outra vez ao que fora ou morresse. As vidas do novo rei de Espanha e da sua irmã casadoira estavam a ser empurradas por um não sei quê de bonança, um destino que parecia trilhar o caminho do Jardim das Delícias, o tal sítio onde Adão e Eva, sem planeamento, encheram o mundo de malfeitores e inocentes». In Jorge Sousa Correia, A Traição de D Manuel I, Clube do Autor, Lisboa, 2015, ISBN 978-989-724-262-5.

Cortesia de CAutor/JDACT

sábado, 19 de novembro de 2016

A Traição de D. Manuel I. Jorge S. Correia. «Preocupada também pelo pouco desenvolvimento da infanta, depois de consultar o irmão, decidiu afastá-la do seio maternal»

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De Malines a Espanha, com Ida para Portugal
«(…) Já nessa altura o futuro rei de Espanha contava com Leonor para os seus avanços diplomáticos e políticos, colocando-a no último reduto da Europa para se poder virar para norte: França, Alemanha, Países Baixos, Itália, sem temer algum ataque do vizinho português. Submissa, fraterna, destituída de si, dona Leonor fez caminho para Espanha atrás do irmão com aviso de recepção em Portugal. A viagem efectuou-se por mar, contornando a costa francesa, galega e portuguesa, para depois subir o Mediterrâneo até Vilaviciosa, um lugar no principado de Oviedo, onde chegou a 17 de Setembro de 1517. Para além das obrigações institucionais, a viagem revestiu-se de outras razões sentimentais, pois dona Leonor há muito que não via a mãe, desde que ela se mudara definitivamente para Espanha, em 1506. Ora, o afastamento traz saudades, preocupações também, mais ainda quando a notícia que corria dava dona Joana como incapaz para tratar do governo do reino, pois sua mãe a rainha dona Joana não estava com inteiro juízo para poder governar. O encontro foi perturbador. Sujeitas ao cerimonial cortesão, mãe e filha trocaram os salamaleques inevitáveis, mesuras e deferências, mas tocarem-se, abraçarem-se ou beijarem-se, gestos que significariam ligações afectivas fortes, isso não. A longa separação gerara desafeição, enfraquecera os sentimentos, debilitara os comportamentos.
Se, por um lado, Leonor procurava mostrar-se neutral, à espera que algum calor lhe chegasse ao coração, dona Joana, por outro, reflectia uma indiferença mansa, incapaz de transferir para a filha outro sinal que não o do desapego. Frente a frente, não lhes chegou a ternura da natalidade, como se ao cortar do cordão umbilical ambas perdessem o encantamento. De certo modo também não comungavam o mesmo verbo, havia embaraço nas palavras, gerando-se alguns desentendimentos entre o que diziam e o que gostavam de ouvir. É verdade que a rainha já pouco usava o lado repressor da consciência, sem se importar com o que acontecia à sua volta. Não tinha também a capacidade da dissimulação, evidenciava uma tranquilidade ausente, todos os seus gestos estavam fora das representações razoáveis. Esta imagem feriu os olhos e os sentimentos dos filhos, em particular de Leonor, já que Carlos só queria era ultrapassar mais uma etapa para tomar posse do interminável reino de Espanha.
Diante da ausência de emoções que a progenitora revelava, dona Leonor de Áustria, em vez de lhe fazer chegar ao coração alguma ternura, accionou-lhe o juízo manifestações de protecção quando ao lado da mãe viu pela primeira vez a irmã Catarina. Olhava-a, e o que via na menina de dez anos era um ser pouco desenvolto, sobretudo se visto à luz do modo exuberante da sua própria educação. Habituada a uma corte sofisticada e culta, dona Leonor arrepiava-se quando a mana falhava nos modos e nas acções, na aparência pouco cuidada e no silêncio tímido a que se remetia. Catarina começava a despertar para os novos desafios da vida, era por isso necessário substituir a fanática educação religiosa que as aias lhe imprimiam para agradar à mãe. Amar a Deus, sim, com quase todas as forças, não todas, porque na paixão que nunca negaria à divindade havia alguns limites. Quando Leonor abraçou a irmã, bateu-lhe na alma um profundo carinho, uma transmissão de afecto que não sentira diante da mãe. Preocupada também pelo pouco desenvolvimento da infanta, depois de consultar o irmão, decidiu afastá-la do seio maternal.
Não obstante a enfraquecida capacidade cognitiva de dona Joana, uma grande mágoa assentou sobre ela quando lhe foi revelada a intenção de lhe levarem a menina. Chorou, contorceu-se, fez dos recursos físicos os argumentos que não encontrava no cérebro, de modo a enfraquecer a vontade da filha mais velha. Aparentemente, as manifestações de afecto e rejeição manifestadas não foram suficientes para alterar a sentença de dona Leonor. Estava decidido, dona Catarina viajaria daí por diante com os irmãos, tomariam conta da sua educação, transmitir-lhe-iam a visão do mundo e da sociedade que a tia Margarida lhes havia ministrado, e não se falava mais nisso. Escusava a mãe de se amarfanhar ou gastar os joelhos no genuflexório, porque a princesa precisava de cuidados e ninguém melhor do que Leonor os poderia transmitir». In Jorge Sousa Correia, A Traição de D Manuel I, Clube do Autor, Lisboa, 2015, ISBN 978-989-724-262-5.

Cortesia de CAutor/JDACT

quinta-feira, 5 de maio de 2016

As Mulheres de D. Manuel I Maria Pilar del Hierro. «… redobraram os soluços, os seus belos cabelos louros; pediu roupas de estamenha e garante que quer refugiar-se no convento de clarissas de Tordesilhas. Diz que a sua vida terminou e que quer professar...»

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A noiva de luto. Isabel. 1470-1479
«(…) Leonor suspirou enquanto tentava dominar o tremor que os anos e o trabalho davam às suas mãos. Tendes razão, Elvira. Mas precisamente por isso temos de lhe agradar. Ah, se não fossem estas mãos inúteis eu mesma lhe prepararia a cama e disporia os baús, que bem conheço os seus gostos e talvez assim pudesse aliviá-la de tanto sofrimento! Confiai em mim, dona Leonor, que sou jovem e tenho boas forças. Não há-de faltar nada à infanta nossa senhora, pois vou cumprir a minha obrigação de camareira com redobrado vigor...
Receio, Elvira, que nada nem ninguém poderá devolver o riso à sua boca. Meu Deus!, interveio Ana Lerma, outra das camareiras, apenas vinte e um anos e já viúva… Nunca foi feliz, não vos enganeis, interveio Joana Guzmán, a primeira camareira do quarto da infanta, enquanto retirava um brial de seda crua de um dos baús chegados de Portugal. Nisso tenho de vos dar razão, sentenciou Leonor. É verdade que como primogénita gozou mais do que qualquer das irmãs dos mimos e carícias dos pais mas não lhe faltaram angústias e dissabores. Como não deve ter sofrido a minha pobre menina afastada dos pais para cumprir o Tratado das Terçarias de Moura! Não esqueceis, Leonor, Joana dispensava o tratamento mais formal por lhe ser mais próxima em idade e categoria doméstica, que desse primeiro pacto entre Portugal e Espanha nasceu o que mais tarde foi um matrimónio feliz…
É verdade, mas acreditais que isso é o suficiente para compensar a solidão de uma menina de dez anos que passou três em terra estranha e sem a companhia dos seus? Se fosse só isso!, exclamou a camareira, o pior foi que pouco antes, o nascimento do príncipe João a tinha afastado rapidamente da sua condição de princesa das Astúrias... Isso não tem nada a ver! Dona Isabel nunca foi uma mulher ambiciosa. O curioso é que, como ela própria me relatou, quando teve de regressar a Castela sem saber se o casamento se realizaria, chorou amargamente. Mas..., interrompeu-se a aia. Onde ides, Joana, com o brial de seda que a infanta Isabel vestiu no seu casamento? Sigo instruções, Leonor... A princesa ordenou que levemos todas as suas roupas ao mourisco da Costanilla Nueva que sabe muito de tingimentos. Garante que nunca mais se vestirá de cor, que a sua alma está negra de dor e como tal quer ataviar-se... Além disso, entregou jóias e outros objectos ao seu confessor pedindo-lhe que os distribua entre aqueles que mais necessitam. Leonor baixou a cabeça e suspirou. Foi a jovem Elvira quem, enquanto afofava as almofadas de penas do leito, tomou a palavra: passa a vida a chorar e triste. Bem precisa de levantar o ânimo e esquecer pois ainda tem muitos anos de vida pela frente para os passar entre lutos e tristezas. A infanta é muito sensível, sentenciou Joana Guzmán.
Um grito vindo do corredor interrompeu a conversa. Precipitaram-se para a porta mas, antes de chegarem a sair a sala, Brites Meneses, a única camareira portuguesa do séquito da infanta entrou sufocada e chorosa: acudi depressa, dona Leonor... A mim não me ouve! Mas o que aconteceu? Quem é que tem de vos ouvir? A infanta, a infanta..., balbuciou Brites enquanto enxugava as lágrimas e se assoava ruidosamente com um pequeno lenço de seda. A infanta? O que aconteceu à infanta?, alarmou-se a aia. Cortou os cabelos, dona Leonor..., redobraram os soluços, os seus belos cabelos louros; pediu roupas de estamenha e garante que quer refugiar-se no convento de clarissas de Tordesilhas. Diz que a sua vida terminou e que quer professar...» In As Mulheres de D. Manuel I, María Pilar Queralt del Hierro, A Esfera dos Livros, Lisboa, 2010, ISBN 978-989-626-247-1.

Cortesia de EsferadosLivros/JDACT

As Mulheres de D. Manuel I Maria Pilar del Hierro. «… que quem vai dormir nesta cama é uma mulher feita e adulta, embora, isso sim, com a alma partida. Não creio que nas suas circunstâncias a infanta dona Isabel se importe muito com as dores do corpo...»

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A noiva de luto. Isabel. 1470-1479
«(…) Por isso, mãe e senhora minha, regresso a Castela. Quero esquecer Sevilha e os seus aromas; quero afastar-me da fragrância das frondosas várzeas portuguesas; das paredes que albergaram a minha felicidade; dos meus sonhos desfeitos... Preciso que a Castela onde nasci fortaleça a minha alma, que o seu ar limpo e fino a purifique, e que o seu céu sem nuvens me livre das brumas que nublam os meus sentidos. Por isso, passados os primeiros lutos, deixei Santarém para ir em busca do vosso consolo, da protecção do meu pai e da companhia das minhas irmãs, Joana, Maria e Catarina. Faço-o com a certeza de que não me abandonareis nesta hora amarga da minha vida. Beijo as mãos e os pés de V. A. e peço a Deus Nosso Senhor que vos guarde e proteja em tão alta missão como a que vos foi encomendada. Peço-vos, minha mãe, que tenhais presente nas vossas orações a vossa filha mais devota. Isabel» In Escrita em Abrantes a VIII de Setembro de MCDXCI, Anno Domini.

Algures em Castela. Setembro de 1491
Elvira afadigava-se a estender o lençol do melhor linho da Flandres sobre a cama que, pouco depois, iria conceder a Isabel o cobiçado descanso. A viagem desde Santarém até terras castelhanas, tinha sido extremamente cansativa. Os acontecimentos das últimas semanas não tinham apenas afectado o ânimo da infanta, tinham também diminuído consideravelmente as suas forças. Assim, aias e camareiras seguindo ordens estritas de sua mãe, a rainha, aprestavam-se a preparar-lhe uma boa cama e um bom jantar na esperança de a fazer recuperar a saúde perdida antes de iniciar a viagem até Santa Fé, nas imediações de Granada, onde estava instalada a corte e de onde os monarcas dirigiam as operações do longo cerco a que estava a ser submetida a capital do reino nazerí. A luz entrava a jorros pelas amplas janelas do quarto. Roupas, utensílios pessoais, livros e trabalhos de costura espalhavam-se desordenadamente pela sala esperando que as mãos hábeis de donzelas e camareiras conseguissem encontrar um lugar adequado sob o olhar atento de Leonor Maldonado, a velha aia que tinha criado a infanta e as suas irmãs e que, enquanto Beatriz Galindo e outras sábias mulheres lhes transmitiam conhecimentos e a língua e a cultura latinas, tinha tido a seu cargo as suas necessidades quotidianas. Alheia a tudo o que não fosse a sua dor, a infanta descansava numa sala contígua sem que parecesse incomodada pela conversa insignificante das jovens camareiras. Inesperadamente, entre o murmúrio monótono das vozes, impôs-se a de Leonor: estica mais daí, menina; daí, desse canto... que a minha senhora é muito delicada e qualquer ruga a incomoda. A camareira, desafiadora, respondeu-lhe: esquecei a menina que criastes, dona Leonor, que quem vai dormir nesta cama é uma mulher feita e adulta, embora, isso sim, com a alma partida. Não creio que nas suas circunstâncias a infanta dona Isabel se importe muito com as dores do corpo...» In As Mulheres de D. Manuel I, María Pilar Queralt del Hierro, A Esfera dos Livros, Lisboa, 2010, ISBN 978-989-626-247-1.

Cortesia de EsferadosLivros/JDACT

As Mulheres de D. Manuel I Maria Pilar del Hierro. «Quando mo entregou, aquele corpo que devia ter sido o pai dos meus filhos não era mais do que um belo e frio pedaço de mármore. Pergunto-me, minha mãe, se a morte de Afonso foi um castigo merecido»

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A noiva de luto. Isabel. 1470-1479
«(…) Tudo era felicidade, mãe, naqueles dias. Mas lá passou e agora confundem-se na minha memória as tochas brilhantes que nos acompanhavam até aos Alcáceres sevilhanos, com as outras envoltas em crepes de luto; e o cheiro a incenso da comitiva fúnebre mistura-se com o aroma das madressilvas que bordejavam o Guadalquivir ou com o cheiro a erva fresca das terras de Estremoz onde Portugal quis confirmar o meu casamento. Até os sinos a tocar a finados parecem evocar os outros que volteavam alegres para celebrar a união de dois corpos e duas almas. Tão feliz me senti que, justo é dizê-lo, quase não senti tristeza por me separar de vós e da terra em que tinha crescido. Só tinha olhos para o meu marido Afonso e para o seu porte sereno. A maturidade que apesar da sua juventude acompanhava os seus gestos e a sua voz, essa voz que ainda me persegue!, grave e envolvente parecia-me um talismã que haveria de me proteger de todos os males que me espreitassem.
Não foi assim. Nem se conseguiu proteger a si próprio. E pouco duraram os meus prazeres. Bastou que um cavalo se encabritasse para que a felicidade se desfizesse entre os meus dedos como a neve que apanhava quando era criança e gostava de derreter com o calor das minhas mãos. Foi tudo tão inesperado! Na manhã de 25 de Julho, Afonso partiu a caminho da sua habitual partida de caça. Como de costume, do ouvir o som do corno de caça, assomei à janela. O meu marido montou, acenou-me com a mão e partiu a galope. Não voltei a vê-lo com vida. Tinha decorrido pouco tempo quando um dos cães se atravessou diante das patas do seu cavalo, um alazão jovem e imprudente, que se encabritou e o deitou ao chão. O seu tio Manuel, duque de Viseu, quis reanimá-lo mas nada pôde fazer para lhe salvar a vida.
Quando mo entregou, aquele corpo que devia ter sido o pai dos meus filhos não era mais do que um belo e frio pedaço de mármore. Pergunto-me, minha mãe, se a morte de Afonso foi um castigo merecido. Era tal a minha felicidade que esqueci que esta terra é um vale de lágrimas onde expiamos os nossos pecados e possivelmente Deus castigou-
me por isso. Assumo a minha culpa. Não agradou a Deus tanta entrega a um homem; não é próprio de uma alma cristã pôr os prazeres da carne à frente dos do espírito e eu, minha mãe, desfazia-me em desejo entre os seus braços. Em público, distraía a minha mente evocando as formas daquele corpo que me abraçava ao amanhecer debaixo dos ricos panos que o cobriam e depois, na solidão da nossa alcova, procurava-o como o vento procura as copas das árvores para se perder nelas. Pequei, mãe. Pequei por amor e tenho o justo castigo. Agora peco por desesperação e, só ao vosso lado, tendo-vos a vós e aos vossos confessores como guia, poderei redimir-me». In As Mulheres de D. Manuel I, María Pilar Queralt del Hierro, A Esfera dos Livros, Lisboa, 2010, ISBN 978-989-626-247-1.

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sábado, 16 de abril de 2016

A Traição de D Manuel I. Jorge S. Correia. «Quando o pai de dona Leonor faleceu, tinha a infanta oito anos. Era a filha mais velha, contudo estava fora da sucessão da Casa de Habsburgo, porque havia um filho varão, o possuidor de tudo quanto o pai deixara, incluindo o destino dos irmãos»

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Com uns pais assim, dona Leonor de Áustria saiu muito boa
«(…) Não tardou a tomar conhecimento do que se passava: o príncipe tinha uma amiga, muito nobre e formosa. Como uma leoa foi-se à casa da amiga [de Filipe) e dizem tê-la ferido e maltratado e mandado cortar-lhe os cabelos pela raiz do couro. Ainda assim, não foi por ser bruta que ganhou o afecto do marido. O cronista diz até que Filipe, O Belo, lhe bateu, agressão que, a acreditar no que se disse, terá aumentado os desequilíbrios mentais da princesa. E lá vem mais uma filha, em 1505, dona Maria, fruto de amores repartidos por tabefes e traições. Como muitas vezes os negócios familiares superam os sentimentos, em 1506, tudo se apaziguou quando Filipe e dona Joana viajaram de novo para Espanha com a intenção de reinarem em coligação com Fernando de Aragão, pai de madame, já um tanto a caminho da morte.
Será a partir da deslocação dos pais a Espanha, que dona Leonor de Áustria perderá o pouco contacto que tivera com eles. O pai morrerá nesse ano, em 25 de Setembro, ficando a mãe em Espanha a desfazer-se em lágrimas e a tonificar a loucura. E ficava bem! Já não precisava de ir atrás do marido, na tumba estava bem guardado, não havia mulher que lho disputasse. Entretinha-se a passear o ataúde por Espanha, uma repetição do que Pedro I fez com dona Inês de Castro, pois tal como o rei português, também ela mandou desenterrar o marido para lhe fazer as festas que em vivo não lhe foram permitidas. Nem o facto de ter deixado quatro criancinhas a crescer na Flandres a fez voltar. Além disso, Filipe deixara-lhe o ventre a fazer contas: Catarina nasceria em 14 de Janeiro de 1507. Sobre este nascimento todos estamos de acordo. Dona Joana fez bem em gerá-la, pois a menina seria rainha de Portugal por muitos anos.
Dona Leonor perdera o pai, a mãe estava longe, mas era bela, rica e culta, de uma das famílias mais prestigiadas da Europa, e assim não faltaria quem lhe quisesse fazer companhia. Para começar, e antes do primeiro casamento, teve os seguintes pretendentes: Henrique VIII de Inglaterra, não se concretizando o casório por o então príncipe Henrique, depois da morte do irmão, se achar à frente dos destinos britânicos, casando com a própria cunhada, dona Catarina de Aragão, tia de dona Leonor. Deste casamento a princesa safou-se de boa, dado o curriculum assassino do rei inglês. Seguiram-se-lhe Luís XII de França; Francisco, senhor da Casa de Valois-Angoulême antes de ser rei de França; Segismundo da Polónia; o duque da Lorena, todos por inspiração política e conveniência dinástica, mais Federico do Palatinado, por quem parece ter-se apaixonado, trocando com ele cartas muito mais afectuosas do que as simples mensagens epistolares, comuns entre príncipes. Neste caso, o futuro imperador Carlos V não achou graça aos amores da irmã, mesmo platónicos que fossem, exigindo que jurassem só haver cartas entre os dois, nada de outros vínculos irremediavelmente comprometedores, expulsando de seguida da corte o Federico, não fosse assaltar-lhe o património que tinha bem guardado para o príncipe João de Portugal, filho de Manuel I. Mas a questão permanece. Quem não quereria ter no seu leito a mais disputada dama da Renascença? Se era bela, tanto melhor, até podia não ser, isso não teria grande importância para o fim em vista. Mas era. Este pormenor, que em princípio poderia trazer-lhe felicidade, acabou por lhe determinar uma vida de grande adversidade.

De Malines a Espanha, com Ida para Portugal
Quando o pai de dona Leonor faleceu, tinha a infanta oito anos. Era a filha mais velha, contudo estava fora da sucessão da Casa de Habsburgo, porque havia um filho varão, o possuidor de tudo quanto o pai deixara, incluindo o destino dos irmãos. O príncipe Carlos, com seis anos apenas, herdava do pai a Flandres, um conjunto de ducados e condados sem fim, integrando a Holanda, a Bélgica e parte da França. Herdaria também o título de Imperador do Sacro Império Romano-Germânico, que lhe deixaria o avô paterno, em 1520, por assim dizer quase a totalidade da Alemanha que hoje conhecemos, a Áustria e vastas regiões da Itália. Da mãe herdaria Castela e Aragão, um eufemismo regional que significava toda a Espanha, os vários reinos que possuía em Itália, mais as possessões ultramarinas da América Central. Princesa mais recatada não haveria. Quase a fazer os dezanove anos, dona Leonor veio pela primeira vez a Espanha para acompanhar o irmão Carlos, muito requisitado pela aristocracia castelhana, que o queria a governar o país». In Jorge Sousa Correia, A Traição de D Manuel I, Clube do Autor, Lisboa, 2015, ISBN 978-989-724-262-5.

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sexta-feira, 18 de março de 2016

Os Venturosos. Alexandre Honrado. «… passado muito tempo, ao saber de tudo isto, El-Rei chamou-lhe traidor, como sempre fazia aos que, depois de por ele ignorados, se distinguiam em serviços alheios. Magalhães terá sabido e deu de ombros»

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«(…) Se havia quem conhecesse o Mundo, esse era Fernão, o Magalhães, que lhe dera a volta inteira. Nascera em Sabrosa e crescera por 1á, e depois tornara-se notável e servira ao outro rei, o dito Perfeito, antes deste dito grande El-Rei, o Venturoso. Magalhães fora pajem da outra rainha, e El-Rei tornou-o como escudeiro, mas ninguém caía nas boas graças de El-Rei, daí mil desventuras. Saiu, por se sentir agastado em corte, Fernão para a Índia com a frota do Almeida. E fez expedições a Sofala e a Quíloa. Andou na conquista de Malaca com Afonso e, com Serrão. Foi às Molucas e a Banda.
Cheirou o cravo e a noz-moscada na fonte das riquezas especiarias, ali em Ternate, deslumbrou-se. Voltou ao reino e não teve grandes graças, a não ser dos seus que o estimavam. El-Rei não quis saber do que lhe disse, e o que lhe disse foi que nas Molucas se podia estabelecer um grande comércio para compra e venda de produtos celebrados e a partir dali partir e prosperar.
El-Rei mandou-o bugiar e ele bugiou para casa dos sogros católicos de El-Rei, que, esses sim, o acolheram com tino e lhe fizeram boas graças e fortuna que agora desenvolvia. Propôs o descobrimento da especiaria e de outras terras ricas, e aceitaram-no, e com grande ambição foi-se a fazer a primeira viagem ao redor da Terra, na qual o acompanharam muitos homens adestrados em guerra e marinharia, todos cheios de confiança nele.
Com ele foram outros ainda dos que El-Rei desprezara. e todos de grande valimento. Foram, entre esses e assim: Duarte Barbosa que muito sábio livro escrevera dando relação do que se viu e ouviu no Oriente, e os famosos cartógrafos Rui e Francisco, os Faleiros, e os pilotos Gomes, Mesquita e Carvalho, todos três peritos na navegação do Atlântico e do Índico, e de igual modo foram experientes e mui experimentados nautas, como Estêvão e Afonso e muitos outros mais.
Passado muito tempo, sabendo de seus feitos, que tendo saído de Sanlúcar de Barrameda correu mundo, por todos os mares, até o novo Pacífico, correndo das latinas ou dos Ladrones ou Mindanau até Zamar e até Cebu e até aonde antes era fim de mundo e que ninguém sabia..., passado muito tempo, ao saber de tudo isto, El-Rei chamou-lhe traidor, como sempre fazia aos que, depois de por ele ignorados, se distinguiam em serviços alheios. Magalhães terá sabido e deu de ombros. Ninguém trai aqueles que nunca o souberam ter, terá dito enquanto navegava mais para diante». In Alexandre Honrado, Os Venturosos, Círculo de Leitores, Braga, 2000, ISBN 972-42-2392-2.

Cortesia de CLeitores/JDACT

domingo, 3 de janeiro de 2016

A Traição de D Manuel I. Jorge S. Correia. «Uma dama em cada corte que visitava dava-lhe jeito, só lhe ficava mal fazer alarde da virilidade. Por seu lado, dona Joana, católica reverente, embora tivesse exemplos de infidelidade conjugal na família, o do seu próprio pai, que teve vários filhos fora do casamento»

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Com uns pais assim, dona Leonor de Áustria saiu muito boa
«(…) Ai a natalidade! Nesse tempo o uso de contraceptivos nem projecto seria, era o salve-se quem puder, sobretudo para os mais contidos, capazes de fazer contas e aceitar períodos de abstinência. Além disso, morriam muitas crianças, tanto que o melhor método para fazer face à mortalidade era ter muitos filhos. Em Portugal, João III e dona Catarina são disto um bom exemplo, tiveram nove filhos e nenhum lhes sucedeu. Nem filhos nem filhas excederam o tempo de vida dos pais. Quem sabe se João III e dona Catarina gerassem o décimo filho, ele não seria mais longevo? Falemos então de certas formas de amor. Julgamos saber que Filipe, O Belo, e Joana, A Louca, quando se viram pela primeira vez, ficaram caidinhos um pelo outro, especialmente a princesa espanhola que nunca mais permitiu nos seus sonhos outra imagem masculina que não a do seu jovem marido.
A conversa parece resvalar da personagem que queremos dar a conhecer para outros sentidos, mas nem pensar, temos um fim em vista, tanto assim que nos arriscamos dizer que dona Leonor de Áustria foi a única filha do casal concebida em redor de um amor verdadeiro. A razão é razoável. Filipe, às voltas com as imensas regiões que governava, foi-se deitando em várias camas, o que não seria de estranhar, um homem tem de dormir em qualquer lugar, e se o fizer deitado, tanto melhor. Só que Filipe tinha nas suas deambulações quem lhe aquecesse o leito e o corpo, não se dando sequer ao trabalho de esconder as infidelidades. Uma dama em cada corte que visitava dava-lhe jeito, só lhe ficava mal fazer alarde da virilidade. Por seu lado, dona Joana, católica reverente, embora tivesse exemplos de infidelidade conjugal na família, o do seu próprio pai, Fernando de Aragão, que teve vários filhos fora do casamento, entendia para si que um grande amor deve ser retribuído, a dobrar se possível. Visto isso, e fazendo fé nos testemunhos da época, os ciúmes instalados no viver de Joana, mais no sistema nervoso do que no coração, determinaram que, por cada saída que Filipe fazia para administrar o arquiducado, ela haveria de atrair o marido ao leito conjugal para conceber um filho. É exagero? Nem por isso. Vejamos. Nos doze anos que estiveram casados, geraram seis filhos, quase um recorde, não fosse mais tarde a rainha portuguesa dona Maria II ultrapassá-lo.
Como dissemos, dona Leonor será a única da prole concebida sob comunhão de afectos. É que o desinteresse de Filipe por Joana deu-se depois de a princesa nascer, mas os outros, esses, sendo filhos do casal, são fruto de um amor obsessivo, transformado em despeito pela falta de exclusividade. Em 1504, deu-se um episódio revelador dos ciúmes doentios de dona Joana, rainha que ficará afectada no seu juízo, daí Louca de cognome. O casal viera a Espanha, em 1501, para uma visita de cortesia aos Reis Católicos, Fernando e Isabel, pais da dama, mas Filipe depressa partiu. Tinha mais que fazer no seu ducado, as obrigações reclamavam-no, os amores proibidos atraíam-no, e lá vai ele para a Flandres, não sem antes deixar a barriga da princesa carregada com o terceiro filho, o infante Fernando. A ausência do marido e a obsessão amorosa perturbou dona Joana. Assim, logo que pôde, regressou à Flandres atrás da paixão de que não abdicava. O pai queria que ela ficasse, considerava fundamental que ela entendesse os meandros da governação, mas qual o quê, as saudades do marido eram muitas, os ciúmes maiores, e lá se pôs a caminho, deixando uma criança de tenra idade ao cuidado do avô aragonês e das amas-de-leite. Ao chegar junto de Filipe, desejando encontrar o afecto que achava merecer, apercebeu-se uma vez mais de que esse sentimento fora substituído pela indiferença. Claro está que a falta de carinho a transtornou. A loucura de dona Joana não é um termo retórico, a insanidade tomou conta dela, tanto que o destrambelho a fez procurar de entre os seus servidores quem lhe explicasse por palavras as razões por que o marido a traía». In Jorge Sousa Correia, A Traição de D Manuel I, Clube do Autor, Lisboa, 2015, ISBN 978-989-724-262-5.

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domingo, 27 de setembro de 2015

A Traição de D. Manuel I. Jorge S. Correia. «Por pouco tempo dona Leonor teve o exclusivo filial. Qual relógio afinado, sua mãe foi preenchendo os berços que havia nos palácios por onde dividia, com Filipe, os fluidos amorosos, uma produção tal…»

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Com uns pais assim, dona Leonor de Áustria saiu muito boa
«No dia 24 de Novembro de 1498, um sábado, o palácio de Coudenberg, em Bruxelas, encheu-se de cortesãos para saudar Filipe, o Belo, e dona Joana, a Louca, arquiduques de Áustria, duques da Flandres e de Brabante. Ele, filho do imperador do Sacro Império Romano-Germânico, ela, filha dos reis de Castela, dona Isabel, a Católica e Fernando de Aragão, também irmã de dona Isabel e dona Maria, respectivamente, a primeira e a segunda mulher de Manuel I. A primeira filha do casal recebeu o nome de dona Leonor em homenagem à princesa portuguesa do mesmo nome, filha de Duarte I, avó do pai da criancinha. Dona Leonor de Áustria ou de Habsburgo, como também seria conhecida por o seu lado paterno senhorear a Casa de Habsburgo, teve quem lhe ensinasse tudo o que precisava, ser submissa também, mas isso pouco importava porque a sua tarefa primeira era casar com príncipe ou rei e ser mãe. Rodopiando entre salões e jardins, tudo de grande aprazimento e ostentação, passaria a maior parte da infância e juventude em Malines, junto dos irmãos Carlos, Isabel e Maria, sob a tutela da tia Margarida, irmã do pai e regente dos Países-Baixos depois de enviuvar de Felisberto II, duque de Sabóia.
As viagens de dona Leonor tiveram rumos bem diversos daqueles que os humanistas traçaram para levar as palavras que mudariam as mentalidades desse tempo. A princesa tinha o porvir traçado, não podia fugir dele, um destino que a conduzirá por vários reinos europeus, perseguindo uma felicidade que teimou em fugir-lhe: foi princesa na Flandres natal até aos dezassete anos, infanta de Espanha por pouco tempo, rainha de Portugal sem sequer chegar a aprender a língua portuguesa; rainha de França sem dormir com o rei; outra vez, a Flandres, quando o seu esplendor entristeceu, e, por fim, o regresso às origens maternas, a Espanha, onde, num último esforço, procurou aproximar-se do bem mais precioso que deixara em Portugal, a sua filha dona Maria de Portugal.
Como todas as almas dedicadas a Deus, dona Leonor de Áustria não interferirá no seu destino. A princesa, embora filha de mãe castelhana, tivera as suas raízes culturais no ambiente que a rodeou, nas pessoas que a acompanharam, educaram ou divertiram, de modo a fazer crescer a dama excepcional que foi. Dizem que estudou Ciências, História, Gramática, Música, não terá estudado Oratória, isso era coisa de homens, exercício usado nos debates sobre a política ou a guerra. Sem dúvida que exibia modos e maneiras de grande sensibilidade e bom gosto, falaria francês e flamengo, línguas em que a tia Margarida e os irmãos Carlos, Isabel e Maria se expressavam também, bem melhor do que no castelhano falado pela mãe e por outros dois irmãos, Fernando e Catarina, jovens que, ao contrário dos manos do Norte, só saíram de Espanha para assumir compromissos que o irmão mais velho, Carlos, lhes proporcionaria: o primeiro, já adulto, para tomar conta do Sacro Império Romano-Germânico, a segunda, aos dezoito anos, para casar em Portugal. Quando a adolescência começou a provocar o pensamento jovem da princesa e a beleza anseios masculinos, o poeta Olivier de la Marche dedicou-lhe um poema com trezentos e cinquenta versos, um exagero difícil de reproduzir, mas revelador do que dona Leonor representava na corte:

Sou ordenado para ser governado
por uma filha de Rei e de imperador.
É a Senhora Aliénore da Áustria.
Sou dela, e não vou ser mesquinho
semear fruto louvado e virtudes
Diante da Dama que eu amo mais!

Por pouco tempo dona Leonor teve o exclusivo filial. Qual relógio afinado, sua mãe foi preenchendo os berços que havia nos palácios por onde dividia, com Filipe, os fluidos amorosos, uma produção tal que contribuiu com numerosas hipóteses de casamento para os vários reinos de então: em 1498, nasceu dona Leonor; Carlos, em 1500; no ano seguinte, nasceria dona Isabel; Fernando, em 1503; dona Maria, em 1505; e, por último, já sem marido, mas com a encomenda no ventre, dona Joana deu à luz uma menina, em 1507, a princesa Catarina, com a qual viveu até esta se casar.
A exuberante fertilidade de Joana e Filipe expressaria paixão, amor, manifestações de felicidade’ Não era preciso! Os grandes senhores juntavam os seus filhos para fazer crescer os espólios, fossem eles cabeças coroadas, nobres e mesmo a burguesia florescente, sendo que os filhos, muitos ou poucos, seriam o prolongamento das suas Casas. Então porque tinham tantos filhos?» In Jorge Sousa Correia, A Traição de D Manuel I, Clube do Autor, Lisboa, 2015, ISBN 978-989-724-262-5.

Cortesia de CAutor/JDACT