Mostrar mensagens com a etiqueta Paisagem Urbana e Rural. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Paisagem Urbana e Rural. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 7 de abril de 2016

Balanço sobre a História Rural produzida em Portugal nas Últimas Décadas. Maria Helena Coelho. «Ainda nesse mesmo ano de 1964 publica o seu precioso “Guia do estudante de História Medieval”, em que nos apresenta bibliografias temáticas, nos abre as portas de arquivos…»

jdact

«(…) Oliveira Marques publica em 1962 a introdução à história da agricultura em Portugal: a questão cerealífera na idade Média, estudo que será a obra-mãe da história rural portuguesa. Aí são minuciosamente analisadas as condições, as áreas e os meios de produção, a circulação e distribuição interna e externa, as técnicas comerciais, a panificação, os preços e o consumo, as crises dos séculos XIV e XV. Dois anos depois dá à estampa A sociedade medieval portuguesa, obra muito precoce para a sua época, que desperta a sensibilidade histórica para o quotidiano, e a multidimensionalidade da vida social, desenhando nos quadros sobre a mesa, o traje, a casa, a higiene e saúde, o trabalho, ou mais íntimos sobre o afecto, a crença, a cultura, as distracções e a morte., Ainda nesse mesmo ano de 1964 publica o seu precioso Guia do estudante de História Medieval, em que nos apresenta bibliografias temáticas, nos abre as portas de arquivos, desvendando-nos a riqueza do seu espólio documental, incentivo à investigação e bússola norteadora na complexidade dos seus meandros. Em 1965, compila alguns dos seus estudos sobre população, estratificação social, comércio e moeda, na obra Ensaios de História Medieval portuguesa, que aponta diversas pistas na abordagem da história económica e social. Finalmente, em 1972, oferece-nos uma primeira síntese actualizada da nossa História de Portugal.
José Mattoso, por sua vez, afirma-se, significativamente, no campo da historiografia portuguesa com a publicação, em 1957, da sua monografia L 'abbaye de Pendorada des origens à 1160, modelo de tantos outros trabalhos sobre casas monásticas, em que, a par da vida espiritual e interna da comunidade, é também estudado o património da instituição, seu aproveitamento e modo de exploração, capítulos obrigatórios de tantas histórias rurais. Na sua tese de doutoramento, apresentada em 1968, analisa, mais abrangentemente, Le monachisme ibérique et Cluny. Les monastères du diocese de Porlo de l'an mille à 1200, sendo aí mais significativa a novidade na temática religiosa, mas onde não são, todavia, esquecidos aspectos da vida material das funções, actividades e quotidiano dos monges. Com estes dois trabalhos pioneiros arranca, com longa e pujante vida, a história monástica em Portugal. E é justamente a partir dos mosteiros que José Mattoso, atentando nos seus fundadores e padroeiros nobres, envereda pelo caminho do estudo da nobreza, na amplitude dos seus laços de família e parentesco, riqueza fundiária, poder, funções e mentalidade. Muitos serão os discípulos que se deixarão atrair por estes estudos da nobreza, nos quais a história social e mental convoca os conceitos e métodos da etnologia, antropologia e sociologia, para mais amplamente redimensionar o passado de um grupo e de uma sociedade. Inevitáveis serão as intercorrências com a história económica, no desenho de uma economia senhorial, nas suas características, funcionamento e abrangência espacial, tema igualmente de reflexão deste estudioso, que o levará depois a confrontar um Portugal senhorial com um Portugal concelhio de uma outra natureza, raiz e espacialidade. Os ensinamentos destes Mestres, os eventos políticos, a abertura ao exterior e a renovação da Universidade foram fermentando longamente na década de 1970 para dar os esperados frutos nos anos 1980, mormente no campo da história rural, que será a especialidade em que doravante nos deteremos.
Se a Revolução de Abril é de lodos conhecida, não será de esquecer que a mesma teve largas implicações no sector universitário. Recriada na década de 1960 a Faculdade de Letras do Porto, nascida depois da Revolução a Faculdade de Ciências Sociais e Humanas que integra a Universidade Nova de Lisboa, e mantendo-se as clássicas Faculdades de Letras de Coimbra e Lisboa, assiste-se, em todas elas, a uma lufada de ar fresco com a entrada de jovens monitores e assistentes, com a afirmação de uns quantos que nelas haviam ingressado algum tempo antes, com o retorno de professores exilados no estrangeiro, com a remodelação dos planos curriculares, com a abertura da investigação, a novas áreas, períodos e metodologias. E será justamente no âmbito das Universidades e dos Centros de Investigação, ligados ao INIC, na maior parte dos casos nelas sediados, que, num sentido de escola, com mestres e discípulos, se darão os passos mais significativos na docência e investigação.
A história rural afirma-se como domínio de preferência dos anos 1980, com alguns antecedentes na década anterior. E recolhe todos os ensinamentos que vinham da Escola Francesa, onde imperavam os trabalhos que abordavam a temática num quadro regional, dando a conhecer o Beauvais, a Provença, a Catalunha, o Languedoc, abandonando as grandes sínteses e o espaço nacional. É justamente entregue na Sorbonne, em 1964, uma tese de doutoramento da autoria de Albert Silbert que particulariza o espaço de Le Portugal Méditerranéen à la fin de l'Ancien Régime, da maior importância na historiografia portuguesa, onde se analisam a Beira Baixa e o Alentejo, na dialéctica das suas culturas e da criação de gado, demorando-se na reconstituição da sociedade e do colectivismo agrários. Em muitos destes trabalhos da Escola Francesa privilegia-se, então, a demografia histórica, procura-se explicar a sociedade, na longa duração, atentando na sua estruturação e fazendo emergir o papel do campesinato e o alcance dos movimentos populares». In Maria Helena Cruz Coelho, Balanço sobre a História Rural produzida em Portugal nas Últimas Décadas, Conferência, Mestrado em História das Sociedades Agrárias, Universidade Federal de Goiás, 1997, Faculdade de Letra, Coimbra, História Revista, 2 (I), 1997.

Cortesia de HRevista/JDACT

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Balanço sobre a História Rural produzida em Portugal nas Últimas Décadas. Maria Helena Coelho. «… que desenvolviam as suas teorias interpretativas da problemática histórica, tais como Armando Castro nos seus vários volumes sobre ‘A evolução económica de Portugal dos séculos XII a XV (1964-70)’; “António Borges Coelho”, com as obras “A Revolução de 1383 (1965)” e “Comunas e concelhos (1973)”»

jdact

«(…) A história económica, de carácter embora erudito e descritivo, emerge, de novo, na paleta dos temas historiográficos, no seguimento de historiadores como Pirenne ou Charles Verlinden, entre outros, sobretudo nas obras de Virgínia Rau, em especial os seus trabalhos sobre o comércio do sal, as feiras, mas também as sesmarias. E esta influência da historiografia estrangeira patenteia-se mesmo em historiadores tradicionalistas como Torquato Sousa Soares, que atenta no desenvolvimento do comércio e dos burgos, ou em Avelino Costa que, na sua tese de doutoramento sobre a diocese de Braga, no século XI, durante o bispado de Pedro, apresenta páginas muito inovadoras, e ainda hoje actuais, sobre demografia, produções e rendas agrícolas pagas à Igreja.
Não era ainda o desejado vento da mudança. Basta lembrar que em França, na década de 1930-1940, depois da II Grande Guerra, a história se renovava sob a influência da ideologia marxista e do nascimento da revista Annales. Nascia um novo espírito de investigação que fazia apelo a outras disciplinas, da geografia à sociologia e economia, e não se confinava ao documento escrito nem à história descritiva, mas se abria à história-problema e à reflexão sobre as grandes crises! Obras de Labrousse sobre o movimento dos preços e a crise económica do antigo regime inauguravam uma nova história quantitativa e serial. História que procurava compreender as estruturas da sociedade, analisando as relações de produção, rendas e salários, atentando no jogo das hierarquias sociais, abrindo-se ao colectivo dos grupos e classes, como jogo histórico, e negando-se ao optimismo de campos específicos, em nome de uma história total e global, atravessada por todos os principais fenómenos económicos, sociais e culturais.
Marca maior nas gerações vindouras deixou a obra de Fernand Braudel, O Mediterrâneo e o mundo mediterrânico na época de Filipe II (1949). Inaugura-se uma geo-história, descobrindo-se a relação entre espaço e tempo e o diálogo complexo dos ritmos braudelianos da longa e curta duração, do tempo muito longo da relação do homem com o meio, do ritmo lento das civilizações e sociedades e do tempo curto do acontecimento. Essa nova história económica, influenciada pela escola dos Annales e por esse mestre que foi Braudel, surgirá, entre nós, justamente com as obras de Magalhães Godinho, em especial A economia dos descobrimentos henriquinos (1962) e Os descobrimentos e a economia mundial (1963-71), apontando para uma análise de complexos histórico geográficos, uma história total, privilegiando os métodos quantitativos e seriais, que então renovavam a investigação histórica. Muitos serão, depois, os seus discípulos, que dinamizarão a história económica das épocas moderna e contemporânea.
A par deste arejamento da historiografia portuguesa, promissor de boas colheitas, não devemos esquecer o esforço de actualização nos conhecimentos que o Dicionário de História de Portugal, dirigido por Joel Serrão, e iniciado em 1961, se propunha, compilando artigos temáticos, bem atualizados, da autoria dos melhores especialistas. Em consentâneo, sentia-se também a influência do pensamento de certos autores de formação marxista que desenvolviam as suas teorias interpretativas na análise de vários aspectos da problemática histórica, tais como Armando Castro nos seus vários volumes sobre A evolução económica de Portugal dos séculos XII a XV (1964-70); António Borges Coelho, com as suas obras A Revolução de 1383 (1965) e Comunas e concelhos (1973); ou mesmo Álvaro Cunhal com o trabalho As lutas de classes em Portugal nos fins da Idade Média (1975). Foquemos agora mais de perto a história medieval e mesmo a história rural, apresentando dois grandes mestres que formaram escola e um largo discipulado, criadores de novos corpos de mestres e discípulos». In Maria Helena Cruz Coelho, Balanço sobre a História Rural produzida em Portugal nas Últimas Décadas, Conferência, Mestrado em História das Sociedades Agrárias, Universidade Federal de Goiás, 1997, Faculdade de Letra, Coimbra, História Revista, 2 (I), 1997.

Cortesia de HRevista/JDACT

terça-feira, 5 de agosto de 2014

Balanço sobre a História Rural produzida em Portugal nas Últimas Décadas. Maria Helena Coelho. «… que lentamente se apercebem da dimensão da história como ciência humana e social e da sua íntima relação com todas as outras que giram em torno do homem como ser social»

jdact

Resumo
«Esta palestra apresenta um balanço da história rural portuguesa, com ênfase nas décadas posteriores à Revolução de Abril (décadas de 1970, 1980 e 1990). Para tanto, recupera a produção historiográfica desde o final do século XIX, para afrontar o surgimento, a partir das décadas de 1950 e 1960, de trabalhos afinados com a Escola Francesa que vão estar na raiz da renovação dos estudos agrários das décadas de 1980 e 1990. Finaliza com considerações acerca do futuro destes estudos em Portugal, tendo em vista as transformações sofridas pelo seu meio rural com a União Europeia e as exigências da economia contemporânea».

«Perfilho a posição de que o historiador é, no geral, um homem comprometido com o seu tempo. Ou dito pelas palavras de Michel Certeau, recolhidas na compilação A Nova História, quer se queira, quer não, o trabalho histórico inscreve-se no interior (e não fora) das lutas socioeconómicas e ideológicas. A Revolução de Abril repercutiu-se na história que se faz e fez em Portugal. Nas temáticas, nas metodologias, nas cronologias, nas interpretações. Redimensiona-se a história económica e social, caminha-se para a história das mentalidades, entrecruza-se o saber histórico com o de outras ciências sociais e humanas. Estende-se a investigação, com grande candência, aos olvidados séculos XIX e XX, séculos de revoluções e amplas mutações políticas e polémicas ideológicas. Desconstroem-se velhos mitos da história pátria.
Filha desse tempo, em que se vivia a acesa polémica da reforma agrária, das cooperativas agrícolas, das apropriações dos baldios, é assim a história rural que se produz essencialmente na década de oitenta. Nela convergindo, igualmente, toda a experiência estrangeira, especialmente a francesa, de uma história agrária que, de quantitativa e serial, progrediu para uma história total, mas modelizada geo-historicamente no espaço regional, que se vai abrindo, sucessivamente, a temáticas cada vez mais abrangentes, sugeridas pela antropologia e sociologia históricas. Não se trata, porém, de um fruto novo, abrupto, inédito. Tem raízes variadas. Mas adquire, sem dúvida, uma nova feição, modelada pela interacção entre presente e passado, que sempre percorre a construção histórica. As raízes podê-las-íamos buscar em tempos mais longínquos ou mais próximos. Comecemos pelos mais remotos. Por entre finais do século XIX e início do XX, a par da privilegiada história política e institucional, alguns assomos precoces de uma história económica e social se entreviram. Assim aconteceu com as obras de Alberto Sampaio, As vilas do norte de Portugal (1905-1908) e As póvoas marítimas (1893-1895), em que emergia a problemática da geografia do povoamento, das formas de propriedade e de aspectos vários do mundo rural, ou, com esse outro livro de Costa Lobo, História da sociedade em Portugal no século XV (1903), em que o seu autor nos dá a conhecer múltiplas facetas sociais e económicas dessa época histórica, desde a população, da sua caracterização demográfica e social, aos pesos e medidas, preços, moeda e haveres individuais. E mesmo um erudito historiador das instituições como foi Henrique Barros, na sua magna obra História da administração pública em Portugal (1885-1922), não deixa de dedicar cenas tomos à população, à economia ou à sociedade, até bem mais completos que os da própria administração, que não chegará a completar em toda a sua amplitude. Por sua vez pensadores como António Sérgio ou Jaime Cortesão, na exposição das suas teses e na abrangência das suas sínteses, levantaram novos véus à reflexão socioeconómica sobre a História de Portugal.
Mas depois destes alvores que prometiam, a máquina do Estado Novo e os seus ideólogos repuseram como temas centrais do travejamento histórico a formação da nacionalidade e o passado de certas instituições medievais, a epopeia dos descobrimentos ou o movimento patriótico da Restauração. Todavia, a década de 1950-1960 anuncia alguma renovação e arejamento, nela se conjugando a interdisciplinaridade com o aparecimento de obras vocacionadas para diferentes temáticas ou imbuídas de novas metodologias. Os ensinamentos de etnógrafos como Leite Vasconcelos, de filólogos como Rodrigues Lapa e Lindley Cintra, de geógrafos como Orlando Ribeiro começam a não ser indiferentes aos historiadores, que lentamente se apercebem da dimensão da história como ciência humana e social e da sua íntima relação com todas as outras que giram em torno do homem como ser social. Um destaque especial merecem os estudos dos etnólogos Jorge Dias e Fernando Galhano que dão a conhecer as alfaias agrícolas tradicionais portuguesas. E é ainda Jorge Dias que nos oferece os estudos clássicos sobre as ancestrais tradições comunitárias do Portugal transmontano, nas obras Vilarinho das Fumas, uma aldeia comunitária (l948) e Rio de Onor. Comunitarismo agro-pastoril (1953).

In Maria Helena Cruz Coelho, Balanço sobre a História Rural produzida em Portugal nas Últimas Décadas, Conferência, Mestrado em História das Sociedades Agrárias, Universidade Federal de Goiás, 1997, Faculdade de Letra, Coimbra, História Revista, 2 (I), 1997.

Cortesia de HRevista/JDACT

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

João Manuel Parente. Alegrete. Histórico, urbano e rural: «… alguma confusão entre “moinho” e “azenha” e as descrições que obtivemos na bibliografia consultada não coincidem com a realidade que conhecemos na freguesia de Alegrete, em particular na ribeira de Arronches»

Cortesia de entretejodiana

Os moinhos
«Os moinhos, de rodízio horizontal com o seu veio ligado, directamente, à mó, foram referidos por Antípater de Salonica em 85 a.C. Engenhos muito simples e robustos, mas exigindo grande caudal de água para o seu movimento, começavam a encontrar-se a poucas centenas de metros depois da última azenha, para quem descia ao longo da ribeira. O rodízio (de eixo vertical) de cerca de 1.5 metros de diâmetro, rodando no seu "cabouco", na maioria dos casos mesmo junto à água da ribeira, era o seu "motor".
A foto documenta o estado em que se encontrava um desses moinhos.
Embora menos espectaculares que as azenhas não deixavam com tudo o que os envolvia, de ser elementos característicos e dominantes numa paisagem, além de impressionarem pelo seu número:
  • na ribeira de Arronches, só até aos dos três aferidos (incluídos) eram pelo menos dezoito! Sempre teria sido difícil explicar como seria possível a sobrevivência de tantos moleiros com moinhos tão artesanais, situados em locais tão inacessíveis! É uma parte da História que desaparece, sem nunca ter sido escrita.
Sempre notámos alguma confusão entre “moinho” e “azenha” e as descrições que obtivemos na bibliografia consultada não coincidem com a realidade que conhecemos na freguesia de Alegrete, em particular na ribeira de Arronches. Na impossibilidade de obter fotografias explícitas optámos pelos esquemas. O “miolo de um moinho”, segundo um corte imaginário e descrevem-se, de acordo com as referências numéricas, os principais componentes de um daqueles engenhos. Que, ao menos, assim nos fique alguma coisa do muito que se poderia dizer da sua existência e memória.

Esquema, feito de memória, 2002, representando os elementos fundamentais
de um moinho típico da ribeira de Arronches
Cortesia de alegrete

Uma pequena represa (l) - que não existia em todos, era continuada pelo "canal" inclinado que descarregava a água directamente no "rodízio". 2) A "agulha". Uma barra de ferro estava ligada ao madeiro que suportava o rodízio. Accionada por dentro do moinho, junto às mós e regulava o afastamento entre elas. Era a "afinação da pedra". 3) A "biqueira', ligada ao canal, podia levantar-se e a água sob pressão fazia funcionar o moinho ou então baixava cortando o jacto de água fazendo com que esta saltasse por cima do rodízio, que em poucos segundos parava. 4) O "rodízio", com o seu veio, que era de madeira na parte inferior. Em cima encaixava uma barra metálica, de base rectangular, ajustada com cintas metálicas e cunhas, e que terminava num "moente" cilíndrico de aço temperado, que rodava na bucha fixada na mó inferior. No topo da parte cilíndrica havia uma base quadrada que permitia um encaixe de precisão na"cruzeta" de aço de ligação à mó. O "rodízio" (5), visto de cima, constituído por empenas de madeira, inteiriças, e por quatro cintas metálicas (são visíveis duas em tom mais escuro) e por uma peça, também metálica, em cruz", a que chamavam "meio-alqueire" e que suportava todo o conjunto. A mó superior (6) é representada pela sua face inferior para vermos os pormenores: mostra um entalhe em cruz, para encaixar a cruzeta, que excede o diâmetro do orifício central designado por "olho da pedra'; seis cavidades radiais para ventilar, distribuir o cereal e fazer sair a farinha de entre as mós. 7) O jogo de mós na sua posição de funcionamento, onde se figuram a bucha, a cruzeta e o orifício para alimentação de cereal. Finalmente (8), a "moega" feita de madeira ou de cortiça, em forma de pirâmide invertida, parcialmente tapada com a calha (inferior) móvel, para ajuste do caudal de alimentação de cereal às mós (conforme a inclinação da calha). O movimento da mó, através de um dispositivo (não figurado) chamado "taramela” fazia vibrar a calha para ir deixando cair o grão para o olho da pedra.

Azenha típica da ribeira de Arronches
As azenhas, de roda vertical com engrenagem para transmissão do movimento de rotação ao eixo ligado à mó, foram já descritas por Vitrúvio, em 25 a.C. A sua grande roda vertical (de 4 a 6 m de diâmetro), movendo-se muito lentamente por efeito de um "fio de água" que uma estreita caleira conduzia desde a levada até à parte superior da roda, constituíam elementos característicos de uma paisagem muito particular, já que dificilmente se poderiam encontrar tantos destes engenhos em tão pequena área.
Muito próximo das primeiras nascentes da ribeira de Arronches, num percurso de 2 ou 3 quilómetros existiam, pelo menos seis (em funcionamento por alturas de 1940). Hoje (2001) poderá funcionar apenas uma: a de S. lourenço (outrora conhecida por "do João da Quinta”), que foi recuperada recentemente.

Esquema, feito de memória, 2002, representando os elementos fundamentais
de um moinho típico da ribeira de Arronches
Cortesia de alegrete

Referenciamos por l) e 2) as chumaceiras de ferro que serviam de apoio ao eixo principal, feito com um grosso tronco de árvore. 3) O "veio - motor". 4) A roda "grande" da azenha. 5) A caleira, vulgarmente "caleja" para transporte do "fio de água" para movimentar a azenha. 6) A "calha', actuada do interior para o engenho parar ou funcionar. 7) A "engrenagem” para mudança do plano de rotação e aumento de velocidade. A roda ligada ao veio motor é muito maior do que a ligada ao veio da mó o que se traduzia na maior velocidade desta. 8), 9) e l0): exactamente como no moinho. 11) Uma perspectiva da roda grande que mostra porque é que a água nesta actua principalmente pelo seu peso». In João Manuel Parente, Alegrete Histórico, urbano e rural, edições Colibri, 2003, ISBN 972-772-410-8.
Cortesia de E. Colibri/JDACT

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Bernardo Marques: O Desenho. «Uma postura sincera e legítima, surgida de circunstâncias pessoais, que se ajusta ao lirismo íntimo e contemplativo que lhe convinha e que confere modernidade à sua obra»

(1898-1962)
Silves
Cortesia de cvcinstitutocamoes

Bernardo Marques foi autor de uma obra vastíssima e multifacetada que lhe confere um lugar de destaque na arte portuguesa contemporânea. No percurso da sua prática artística, que abrange o período de 1920 a 1962, é possível – apesar da diversidade das suas actividades – descortinar uma evolução inteligível, cujo fio condutor é o seu meio de expressão privilegiado, o desenho.
 
«Bernardo Marques preferiu, na sua opção pela prática do desenho, uma aprendizagem vivencial a uma formação académica e iniciou-se através do desenho humorístico, das caricaturas, de grande riqueza gráfica e decorativa, partilhando com os artistas «novos» da sua geração o desenvolvimento do modernismo durante a década de vinte. As imagens dos magazines não coincidiam com as imagens da realidade lisboeta. Lisboa, povoada de novos-ricos, era uma pequena cidade cheia de campos e lugares híbridos que Bernardo Marques retratou com um misto de ternura e de ironia. No final da década, a elegância daria lugar a uma temática mais social, e a estilização gráfica seria substituída por um traço mais violento e expressionista.
 
Cortesia de publicacoesforiente
 
Cortesia de pinturaportuguesa
Uma estada em Berlim, em 1929, para além de lhe aguçar a percepção da estagnação da vida artística em Portugal, facultou-lhe novos meios de expressão. Ao nível da ilustração, a sua produção deste período confina-se quase exclusivamente à sua colaboração nas revistas de cinema. A influência que o cinema exerceu e o mimetismo que provocou foram explorados com humor, ironia e algum ridículo em inúmeros desenhos de Bernardo Marques: a acutilante série de cinéfilas não foi com certeza feita para ser publicada numa revista da especialidade. 
Depois de várias viagens e experiências plásticas e humanas diversificadas, Bernardo Marques regressa a Lisboa, iniciando um percurso mais solitário e particular. Apurando-se em técnica e solidão, vai passar gradualmente da análise dos homens à análise das coisas e concentrar a sua atenção na paisagem, rural ou urbana. É assim que nasce o paisagista dos anos quarenta.
 
Cortesia de riodasmacas
Na década de 50 volta ao desenho como actividade autónoma, de carácter íntimo, centrando-se essencialmente na análise da paisagem urbana e rural. Esta última fase, que culminou com a sua morte em 1962, corresponde à mais íntima e é acompanhada, tecnicamente, por importantes variações de registos, cada vez mais atmosféricos. É em Lisboa, a sua cidade de eleição, que uma mudança visível do relacionamento com o que rodeia vai ter lugar. Percorreu o país de norte a sul, numa ânsia de ao mesmo tempo conhecer toda a terra portuguesa e de encontrar, quando lhe apetecia, o isolamento e a distância que procurava.
 
Cortesia de tcontas
Ignorando as formas estéticas que surgiam, Bernardo Marques assumiu uma postura simultaneamente sensível e distanciada, transferindo para a paisagem o seu espaço de intimidade. A variação dos meios técnicos utilizados, nomeadamente a aguarela de tradição paisagística e os pictóricos desenhos caligráficos a preto e branco, sugeridos pela sua atenção imediata à paisagem, tornam a obra de Bernardo Marques ambígua e original. É uma postura sincera e legítima, surgida de circunstâncias pessoais, que se ajusta ao lirismo íntimo e contemplativo que lhe convinha e que confere modernidade à sua obra». In Marina Bairrão Ruivo, Instituto Camões.
 
Cortesia de josmaelbardour
 
Cortesia do Instituto Camões/JDACT