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quarta-feira, 21 de março de 2018

Poesia. José Régio. «Ide! Tendes estradas, tendes jardins, tendes canteiros, tendes pátria, tendes tectos, e tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios…»

Cortesia de wikipedia e jdact

Cântico Negro
«Vem por aqui, dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: vem por aqui!
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali…

A minha glória é esta:
Criar desumanidade!
Não acompanhar ninguém.
Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe

Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos…

Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: vem por aqui?

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí…

Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos…

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tectos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios…
Eu tenho a minha Loucura!
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios…

Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém.
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: vem por aqui!
Aminha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou
É um átomo a mais que se animou…
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!»

Poema de José Régio, in “Poemas de Deus e do Diabo”

Cortesia de PortaldaLiteratura/JDACT

terça-feira, 19 de julho de 2016

Nossa Senhora da Assunção. 1758. Memória Paroquial da freguesia de Castro Verde, comarca de Portalegre. II «Tem a Ermida de Sancta Anna perto da Cidade na estrada que vay para Evora, Elvas etc. he muyto antigua, e antes da fundação da Sé…»

jdact

Portalegre. Sé. Nossa Senhora da Assunção. 1758. Memória Paroquial da freguesia de Castro Verde, comarca de Portalegre [ANTT, Memórias Paroquiais, Vol. 29, nº 223, pp. 1513 a 1539]

«(…) Alem destes tem hum convento da congregação Reformada dos Agostinhos descalssos, que haverá sessenta annos pouco mais ou menos, se estabellecerão no convento que athé então tinhão habitado os Relligiozos da venerável Companhia de Iezus com a Igreja de sancta Maria a grande que foy huma das freguezias que se vnio a Sé, e ainda hoje assim a Igreja como o convento concerva o nome de Sancta Maria e de prezente se está Renovando huma e outra couza com primoroso aceyo. Alem disto há nesta freguezia hum Recolhimento de Terceyras de são Francisco fundado há perto de quarenta annos junto da Igreja de são Bras que lhes foy dada pello Bispo e cabbido, vivem com grande Reforma, e exemplo, e vivem das esmollas que lhe administra a charidade dos fieis. Intramuros não tem esta freguezia Ermida alguma excepto a Igrejinha de São Lourenço a qual não consta tenha Padroeyro nem fabrica, nem há noticia da sua fundação; Extramuros tem a Ermida de são Christovão no sitio que se chama o Arrayal porque aly poz o seu ElRey Dom Deniz quando sercou esta Cidade. Tem a Ermida de Sancta Anna perto da Cidade na estrada que vay para Evora, Elvas etc. he muyto antigua, e antes da fundação da Sé pertencia a órdem de Christo como aprovão as cruzes da dita ordem, que ainda hoje se vem na Abobida da Capella mor e não tem Padroeyro.
Tem mais a Ermida de são Pedro perto da Cidade entre a porta, a que chamão falsa, e algum dia se chamava de Evora, e a porta a que chamão do Bispo. Esta Ermida tem três Altares, hum dedicado a São Pedro que he o principal, outro a são Paulo, e outro a sancta Petronilha, he muyto antiga não há noticia da sua fundação nem de que tenha Padroeyro. Pertence mais a esta freguezia, a Ermida da senhora [...] Da Penha nome que se lhe deu de huma na Rais da qual está fundada a Ermida em hum álto naõ muyto distante da cidade: a fundação naó he muyto antiga naõ se sabe porem o anno certo della; he tradição que a Imagem da Senhora fora trazida por hum Anjo em forma de perigrino a hum Prellado deste Bispado o qual juntamente com o corregedor que então era desta Cidade lhe fizerão aquella Igreja defronte do Pallacio Episcopal como hoje se ve, he da Abobida, alem do Altar principal, hum são Marcos, e outro de nossa Senhora do bom sucesso. Assima desta Ermida quazi ao meyo da Penha está outra do Apostollo são Thomé de cuja Ermida não sabemos Padroeyro, nem fundação he muyto acomodada para a vida Ermitica, e nos persuadimos que esta foy a Ermida na qual viveo penitente o veneravel Padre Manoel do Rego oriundo de Portalegre posto que nascido em Alter do chão, e não na Igreja de nossa Senhora da Esperança do termo desta Cidade como dis o Padre Frey Agostinho de sancta Maria no seu sanctuario Marianno tractando desta Imagem, porque a Igreja da Senhora da Esperança sita no termo de Portalegre foy fundada com o Convento dos Relligiozos capuxos da Provincia da Piedade desta Cidade, o qual aly teve o seu primeyro assento e fundação, e a Ermida de nossa senhora da Esperança na qual o veneravel Padre Manoel do Rego que ao depois morreo com grande opinião de santidade no Hospital de valladilli [sic], viveo, foy junto da cidade de Galiza depoiz de vizitar o corpo do Bemaventurado santhiago, como se collige, de Iorge Cardozo no Agiologio Luzitano no tomo segundo no dia vinte e dous de Março sublitera = F = Alem destas Ermidas há outra chamada da senhora do Socorro na fazenda chamada da Cabaça a qual foy [....] fundada pello Dezembargador Alvaro da Fonseca Coutinho, que está enterrado á porta da mesma Ermida, e os Padroeyros della são os seus sucessores, assim esta como a da senhora da Penha de que assima fallámos forão algum dia muyto frequentadas com Romagem, porem hoje tem diminuido muyto esta frequencia.
A Ermida que ao prezente há nesta freguezia mais freqüentada ds Romagenz he a de nossa senhora de Bellem, que em huma quinta sua fundou nas faldas da serra de Portalegre o Padre Frey Iozé do Sacramento, Relligiozo da Órdem de são Ioão de Deos haverá trinta e sinco annos pouco mais ou menos, á qual em todo o tempo do anno concorre muyto [sic] gente em Romaria assim da Cidade, como desta Provincia, e ainda muyta do Reyno de Castella, parte atrahidos da amenidade do sitio, e parte dos muytos milagres que fás a Imagem da Senhora ou Deos por sua intercessão, da quinta em que ella esta situada, he ao prezente possuidor o Reverendo Padre Iozé Meyra Barreto. A caza da Mizericordia que esta Cidade tem fica no destricto desta freguezia, tem huma aseáda Igreja ornada de custozo azulejo com tres Altares de talha dourada, e as Rendas que administra dizem que são de quatro para cinco mil cruzados. Ella administra o Hospital da cidade que está junto da Igreja do Espirito Santo no qual sitio havia antigamente huma Albergaria, e os Benz que a ella pertencião se entregarão á Mizericordia. Tambem houve antigamente outra Albergaria junto do convento de são Francisco desta Cidade quando era dos Padres claustraes como se prova de huma pedra que ainda hoje se acha junto da porta da Igreja na qual se escreveo esta memoria, na era mil tezentos e doze, que he o anno de Christo mil duzentos e setenta e quatro, que principia assim = ad honorem Dei et Gloriosa [...] // Virginis Mariae et omnium sanctorum ego Petrus Ioannes etc. as fazendas que pertencião a este Hospital ou Albergaria com justa rezão se entende estarem vnidas ao Convento de Sancta clara desta Cidade porque a elle se vnirão todas as que possuhião os claustraes do Convento desta Cidade quando delle forão expulsos, e entrarão a habitallo as Relligiozas observantes no tempo do Serenissimo Rey Dom Ioão terceyro de piedoza memoria […]».
Do Cura da Sé
O Padre Manoel Gonçalves Boroa1

In Ruy Ventura, As Memórias Paroquiais de 1758 do actual Concelho de Portalegre, Revista a Cidade, Revista Cultural de Portalegre, nº 10 (1995) (nova série), pp. 93-136.

Cortesia de Ruy Ventura, 28 de Junho de 2011

Nossa Senhora da Assunção. 1758. Memória Paroquial da freguesia de Castro Verde, comarca de Portalegre. I «Os Beneficios desta Igreja Cathedral todos são da aprezentação de Sua Magestade Fidelissima, porem os curatos e Capellanias que são amoviveis ad nutum Episcopi são providos pello Excellentissimo Prellado»

jdact

Portalegre. Sé. Nossa Senhora da Assunção. 1758. Memória Paroquial da freguesia de Castro Verde, comarca de Portalegre [ANTT, Memórias Paroquiais, Vol. 29, nº 223, pp. 1513 a 1539]

«Cidade de Portalegre fica na Provincia de Alentejo da distancia em que está da Corte, sua antiguidade, nome, situação, e tempo em que foy eregida a Cidade, seu modo de governo, e terras que comprehendem o Bispado, e Correyção tractao Dom Luis Cayetano de Lima, na geografia histórica tomo segundo, dede pagina duzentas, e setenta e tres; Dom Frey Amador Arraez nos seus diálogos, dialogo quarto, capitullo oytavo aonde trata da Serra desta cidade; Iorge cardozo no Agiologio Luzitano tomo primeyro no comentário a treze de Fevereyro sub litera = D = aonde tracta da cathedral. Rodrigo Mendes Sylva em La poblacion general de Hespanha, discripsion del Reyno de Portugal no capitullo onze no qual allega muytos autores que tractão a mesma materia o Padre Bultiau no seu Vocabulario Litera = P = Garibay Livro trinta e quatro capitullo seis e Capitullo vinte e sinco, e Livro trinta e sinco capitullo trinta e nove. Frey Francisco Brandão, na quinta parte da Monarquia Luzitana Livro dezassete, capitullo sincoenta e quatro, em cujos autores se ve quazi tudo o que neste papel se pergunta; só devemos advertir que Dom Luis Cayetano de Lima na Rellação das terras que comprehendem este Bispado omitio por equivocação a villa de Ares que a elle pertence, e que Iorge Cardozo se equivocou que as Prebendas da Se da Cidade de Portalegre eraõ sette, como tabem que a capella mayor da Cathedral fora obra do Bispo Dom Frey Amador Arraéz, porque este Prellado só fes o Retábolo de talha dourada da mesma capella, porque o mais já se achava feyto com dinheyro da Fabrica, e empréstimo que lhe fizera o seu primeyro Bispo Dom Iullião de Alva. Os Ministros que tem a Sé cathedral de Portalegre ao prezente são sinco Dignidades das quais a primeyra he o Deão, sinco conegos, dos quais hum Doutoral, outro Magistral, e outro [...] Penitenciario os primeyros dous saõ da creação da Sé e devem ser graduados na Vniverssidade de Coimbra, o terceyro na forma do Consilio foy creado na Constituição synodal do anno mil e seis centos e trinta e dous. Tem mais seis meyos Conegos, dous curas, hum sobchantre, doze Capellans, dous Mestres da Capella, hum Capellão que se chama agonizante, e os mais officiaes precizos, para o bom serviço da Igreja.
Os Beneficios desta Igreja Cathedral todos são da aprezentação de Sua Magestade Fidelissima, porem os curatos e Capellanias que são amoviveis ad nutum Episcopi são providos pello Excellentissimo Prellado; este tambem com o Conego Magistral, e Doutoral fazem provimento do Capellão agonizante que foy instituhido pello Excelentissimo Prellado Dom Álvaro, e se chama agonizante por ter obrigação de agonizar os moribundos. As Irmandades que tem esta Igreja Cathedral são as seguintes: na Capella de São Pedro que fica ao Lado do Altar mór da parte do Evangelho, está sita a Irmandade dos clérigos, e a das Almas do fogo do Purgatorio; na Capella do [sic] senhora da Luz que he a primeyra na Nave da parte do Evangelho está a Irmandade da mesma senhora, na segunda que he dedicada á Senhora do Carmo a Irmandade da ordem terceyra da mesma Senhora na Terceyra que he de são Chrispim, e chrispianno está a Irmandade dos mesmos sanctos na Quarta que he de Sancta Catherina de Senna está a Irmandade de santhiago; ao Lado da Epistola do Altar mór está o Altar do Santissimo Sacramento, e nelle a Irmandade do Senhor, e na primeyra Capella da Náve deste lado, está a Irmandade das chagas de Christo ás quais he dedicado o Altar. Na terceyra [...] Capella desta Náve está a Irmandade do Santissimo nome de Iezus, a quem o Altar he dedicado. A Renda da Mitra deste Bispado ao prezente são nove mil cruzados, duzentos e vinte e sinco mil reiz e a terça parte que nela tem a sancta Igreja Patriarchal Rende ao prezente sinco mil cruzados, e cem mil reis. As Rendas da Mêza capitullar se devidem em vinte e huma Prebendas, das quais caberão a cada huma cento e oytenta mil reis de Renda pouco mais, ou menos. Deão tem duas Prebendas de Renda, as quatro Dignidades Prebenda e quarto, os conegos cada hum huma Prebenda, excepto hum que paga o terço á Mêza do sancto officio de Evora.
Os meyos conegos, e curas cada hum meya Prebenda; os capellanz, sobchantre, e thezoureyro, e órganista, cada hum tem hum terço de Prebenda. Tem esta freguezia da Sancta Sé fogos = seis centos e sessenta e tres = almas = duas mil setecentas e huma = pessoas de communhão = duas mil duzentas e tres = Devemos tambem advertir que o Rellicario de Christal com o sancto Lenho, do qual fazia menção Iorge Cardozo, o não tem já esta Cathedral, mas no Altar das Chagas se colocou há pouco tempo outro, como tambem que o Historiador aliaz como também que a este Historiador esquecerão em primeyro Lugar hum osso de Sancto Innocencio, por Rezão de cuja Relíquia se Reza delle no dia vinte e dous de Setembro de comunivnius Martyris; e em segundo Lugar numerar entre os ornamentos preciozos desta Cathedral hum de velludo encarnado alcaxofrado e bordado de ouro que foy do Reyno de Inglaterra sendo catholico, e por Bulla Pontificia, que se acha no Archivo do Cabbido, foy aplicado a esta Sé, com obrigação [...] de o Restituhir á Igrejade onde era tornado a ser catholico o Reyno de Inglaterra. Tambem devemos advertir que parece se equivocão os autores no tempo em que poem a fundação de Portalegre pois concordando todos em que o seu fundador foy Lizias, ou Luzo, o qual conforme todos os Historiadores Portuguezes e Estrangeyros foy o fundador da Luzitania ou Lizitania, e Sendo certo que este viveo, e foy sepultado nesta Cidade como dis o allegado Bispo Arraez, seguece daquy que esta povoação foy a primeyra, ou ao menos das primeyras do Reyno de Portugal, alem disto concordão todos que Lizias ou Luzo foy filho ou companheyro de Bácho, e Bácho deyxadas as fabullas he nome composto de Bar, e chus que significa filho de chus, como adverte Samuel Bochart na sua Geografia sacra, Livro primeyro capitullo primeyro; e conclue que Bácho, he Nemrod filho de chus, e Netto de cam, e segundo esta noticia vem a ser a fundação de Luzitania, e de Portalegre pellos annos do mundo mil oytocentos e sincoenta e dous antes de Christo nascido dous mil cento e oytenta e tres pouco mais ou menos.
Nesta freguezia da Sé há em primeyro Lugar seminário contíguo á Sé e Passo Episcopal no qual se crião Estudantes pobres, e as suas Rendas estão fundadas em pençõis impostas na Mitra, e outros Beneficios, e ns Rendas de hum Beneficio da villa da Ponte do Sor, que por Bulla Pontificia se lhe anexou no tempo que era Bispo deste Bispado o Excellentissimo Dom Álvaro de Castro Noronha. Tem mais hum Convento de Relligiozos observantes da Provincia dos Algarves da Órdem de São Francisco, e outro de Relligiozas de Sancta Clara da mesma Provincia sobre a fundação, Privillegios, Padroados, e mais particullaridades, dos quais não se pode dizer mais do que sobre elles dice o chronista da mesma Provincia Frey Hyeronimo de Bellem na sua chronica. [...]»
Do Cura da Sé
O Padre Manoel Gonçalves Boroa1

In Ruy Ventura, As Memórias Paroquiais de 1758 do actual Concelho de Portalegre, Revista a Cidade, Revista Cultural de Portalegre, nº 10 (1995) (nova série), pp. 93-136.

Cortesia de Ruy Ventura, 28 de Junho de 2011

quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

Dicionário da Origem das Palavras. Orlando Neves. «Estou daqui a ouvir os senhores abades de Itália, da Alemanha, da Flandres, da Borgonha, a dizerem: porque é que não temos o direito de acumular bens e honrarias?»


jdact e wikipedia

«… Na feitura desta reunião de dados, consultei algumas dezenas de publicações. Seria fastidioso e desnecessário enumerá-las exaustivamente. Para o leitor vulgar, tornar-se-ia desinteressante tal lista; para o especialista nada traria de novo. Todavia, sempre que achei necessário, citei, nos próprios verbetes, os autores e as obras em que me baseei.

Abade
Sabe que abade significa pai? Se assume esta palavra, presta um serviço ao Estado. Desempenhará o melhor papel que um homem pode desempenhar: nascerá de si um ser pensante. Nisso há qualquer coisa de divino. Mas se você é abade só porque quis ser tonsurado, quis usar um colarinho branco, uma capinha e auferir um rendimento fixo, você não merece o título de abade. Os antigos monges davam esse nome ao superior que elegiam. O abade era o seu pai espiritual. Como o mesmo título significa coisas diferentes com o passar do tempo! O abade espiritual era um pobre à frente de outros pobres, mas os pobres abades, mais tarde, já tinham 200, 400 mil libras de renda e hoje há pobres pais espirituais que têm um regimento de guardas por sua conta. Um pobre, que fez juramento de ser pobre e que, afinal, é um rei! Já se disse isto, frequentemente, mas é preciso dizê-lo mais vezes, porque é intolerável. [... ] Estou daqui a ouvir os senhores abades de Itália, da Alemanha, da Flandres, da Borgonha, a dizerem: porque é que não temos o direito de acumular bens e honrarias? Porque não podemos ser príncipes? Os bispos são-no; originariamente, eram pobres como nós, enriqueceram, ascenderam aos mais altos postos, um deles até se tornou soberano dos reis, deixem-nos imitá-los. Têm razão, senhores, invadam a terra. Ela pertence ao forte e ao hábil que dela se apodere. Vós tendes aproveitado tempos de ignorância, de superstição, de demência para nos despojarem do que herdámos, para nos espezinharem, para engordarem com a carne dos infelizes. Tremam quando o dia da razão chegar.
Estas palavras de Voltaire definem o estado a que chegara o título de abade, poucos anos antes da Revolução Francesa. Era cognome e cargo dado a torto e a direito, autêntica sinecura, todos os eclesiásticos, com ordens ou sem ordens (e mesmo os leigos) podiam receber a distinção e o proveito ainda que não pertencessem a qualquer abadia (chamava-se a estes, entre outros designativos, abades sem abadia, abades cortesãos ou abades da Santa Esperança de algum dia virem a ter abadia). Verdadeiros peralvilhos, inúteis, ociosos, frequentadores das senhoras da nobreza, passeavam o seu estatuto pelos salões (recorde-se o célebre abade Prevost, escritor de mérito, autor, por exemplo, de Manon Lescaut). Daí a indignação de Voltaire. Porque a palavra abade é profana. Foram os cristãos gregos que a introduziram na religião, chamando aos primeiros superiores dos monges abbot, o que, na língua síria, significava pai. Origem contestada, no entanto, pelos que dizem ser a palavra hebraica, aba (com o sentido de amar, querer bem e daí também pai). Antes dessa passagem para a linguagem religiosa, a palavra era atribuída àquele que, pela idade, sabedoria e pureza de alma, aconselhava, orientava os que se lhe dirigiam. Cristo invocando Deus, em Getsémani, diz Abbá. S. Paulo nas epístolas aos Romanos e aos Gálatas, utiliza também Abbá. Os judeus no livro dos Apótegmas incluem um capítulo chamado Pirke abbot, ou seja, Capítulo dos pais. Jesus Cristo terá proibido os seus discípulos, por tal razão, de chamarem pai a qualquer homem, visto que pai no sentido místico só seria Deus. E S. Jerónimo proibiu, igualmente, os monges de darem esse título àqueles que os superintendiam. Preveria o santo o que acontecia nos tempos de Voltaire? A verdade é que as palavras do filósofo estão bem presentes ainda na nossa linguagem popular em expressões como: cara de abade, dormir como um abade, comer como um abade.

Abalar
Pode significar partir com pressa, ir-se embora ou abanar, oscilar, fazer tremer, sentidos que só por generalização se ligam à origem da palavra. Proveniente do verbo latino advallare, por sua vez, vindo de vallis (vale) é, literalmente, descer para o vale, ir para baixo». In Orlando Neves, Dicionário da Origem das Palavras, 2001, Editorial Notícias, 2007, ISBN 978-972-461-187-7.

Cortesia de ENotícias/JDACT

terça-feira, 17 de novembro de 2015

Viaje a la isla de Robinson en Alentejo português. Julián S Simal. «La Fábrica Robinson no es un lugar detenido en el tiempo es un proceso abierto como Lugar Intermedio entre el campo y la ciudad, entre el pasado y el futuro…»

jdact

«(…)
Sistema de Valores Patrimonias de la Fábrica Robinson. Cualidades históricas
Testimonia un importante intercambio cultural a lo largo de un periodo de tiempo prolongado entre Portugal y el Reino Unido que ilustra una etapa significativa de la historia humana. Cualidades industriales, es la memoria de la cultura del trabajo industrial en la ciudad de Portalegre desde en sus factores económico, sociales y tecnológicos. Cualidades arquitectónicas, constituye un ejemplo relevante de una transtipología de carácter monacal-industrial que documenta los diferentes modos constructivos de las tradiciones europeas desde la edad media a la industrialización. Cualidades urbanísticas, forma parte dela paisaje cultural de Portalegre con el cual se relaciona indisolublemente, como es el de la catedral, el castillo, las casas-palacio, el monasterio de S. Bernardo, el convento de San Francisco. Cualidades escénicas y de ócio, tiene un poder de atracción directo y visual debido a las sensaciones que transmite la grandiosidad escénica de sus espacios y la plasticidad de su arquitectura. Cualidades territoriales, con los paisajes de la producción de la dehesa, de carácter evolutivo, en diferentes escalas.
Como decía Pilar Biel en el encuentro del V Día Robinson: hay que añdir al carácter de la Fábrica las nuevas arquitecturas generadas por el Estudio de Souto de Moura que constituyen una extraordinaria aportación al incremente de los valores patrimoniales allí existentes. Aspecto muy digno de tener en cuenta tal como comentaba Maria da Graça Filipe porque debe ser destacada la autenticidad del lugar industrial histórico en relación con el desarrollo local de esta comarca alentejana.

Generar Contenidos
Documentando los acontecimientos históricos vinculados a la Fábrica Robinson; descubriendo al visitante las transformaciones ocurridas durante la historia de la Fábrica Robinson; destacando el papel jugado por la ciudad de Portalegre en la configuración del mundo moderno português; mostrando los procedimientos arquitectónico-proyectuales utilizados en el proceso de construcción de la Fábrica Robinson; conectando la Fábrica Robinson con el conjunto histórico de la ciudad y con la sierra de S. Mamede para consolidar este paisaje cultural.
La Fábrica Robinson como Lugar Intermedio entre el campo y la ciudad, entre el pasado y el futuro, entre la artesanía y la mecanización, entre lo singular y lo estandarizado, entre lo reproductivo y lo creativo. La Fábrica Robinson no es un lugar detenido en el tiempo es un proceso abierto. Gracias a todos los que trabajan en el Espacio Robinson». In Julián Sobrino Simal, Viaje a la isla de Robinson en Alentejo português, Publicações da Fundação Robinson, nº 20, Portalegre, 2014, ISSN-1646-7116.

A amizade de Célia, Odete e Laura
Cortesia da FRobinson/JDACT

Viaje a la isla de Robinson en Alentejo português. Julián S Simal. «Y, teniendo en cuenta las circunstancias de la Fábrica Robinson, en el antiguo Convento de San Francisco, deduje que el patrimonio industrial de este Espacio estaba forjado a partir de “lo protopatrimonial”; “lo transpatrimonial”»

jdact

«(…) Pasando Arronches desemboqué en la carretera que conduciría a Portalegre y que, al rato, me mostró a esa ciudad en una ladera de la Sierra de S. Mamede, bien orientada y dispuesta a recibir el sol del mediodía, y conformada por un casco histórico originado principalmente a partir del siglo XVI. Me dirigí al lugar que la organización del V Día Robinson me había reservado, la Mansão Alto Alentejo, muy cerca de la Catedral, en el 59 de la Rua 19 de Junho. Desde mi habitación se divisaba una espectacular vista: El Castillo y el Nuevo Régimen, los tiempos, los espácios, ora et labora, las dos sociedades, el contraste entre el tañer de las campanas y el sonido de la sirena de la fábrica, las dos ciudades, los dos modelos de producción: el preindustrial agrario-artesanal y el industrial urbano-mecanizado. Entonces comncé a pensar y redactar mi intervención en el V Día Robinson partiendo de una idea-secuencia central, el corcho es: Espacio+Vida+Tiempo+Trabajo.
Y, teniendo en cuenta las circunstancias de la Fábrica Robinson, en el antiguo Convento de San Francisco, deduje que el patrimonio industrial de este Espacio estaba forjado a partir de: lo protopatrimonial; lo transpatrimonial. Lo protopatrimonial era el territorio, la energía, los usos, los conflictos, los cambios y las permanencias. Lo transpatrimonial es la investigación, la reutilización, la reparación, la creación, la producción. Es decir, la Fábrica Robinson es un lugar rehabitable que puede ser colonizado por nuevos modos de entender el tiempo y el espacio. Sistema Robinson: Dehesa+Caminos+Ciudad+Barrio, Extramuros + Fábrica+ Portugal+ Halifax. En lá Fábrica Robinson encontramos Prototopotogía; silvicultura+ofícios+artesanía+casa-taller Espacio Cero. Tipologia; convento+fábrica+espacio cluster+máquinas, espacio codificado; Transtipología, crisis+reutilización+rehabilitación espacio Robinson.
Y, siguiendo con las coincidencias, yo suelo utilizar como concepto de análisis el conocido diagnóstico del arquitecto e historiador de la arquitectura Leopoldo Torre Balbás, el gran investigador de La Alhambra de Granada en los albores del siglo XX: Un monumento antiguo es, en muy contadas ocasiones, de un mismo estilo en todas sus partes. Ha vivido, y viviendo se ha transformado. Porque el cambio es la condición esencial de la vida. Cada edade lo ha ido marcando con su huella. Es un libro sobre el cual cada generación ha escrito una página. Y al entrar en la recién restaurada iglesia conventual de San Francisco, me doy de bruces con la frase de fray Jerónimo de Belén (1750) Como com o tempo tudo se muda, assim sucedeu nesta Igreja, porque além da renovação que nela se fez, tem tido suas mudanças, frase que guarda un paralelismo premonitório con la de Torres Balbás.
De tal manera que llegamos al momento crucial de nuestro viaje, el sábado 17 de Septiembre se nos abren las puertas de la Fábrica Robinson y, entonces, se nos aparece en todo su esplendor el magnífico Espacio Robinson, con toda la carga positiva y negativa de la industrialización. Y surge la gran pregunta. Cómo habitar un fósil sin distruirlo? Este Convento-Fábrica constituye una sinfonía de lo provisional, de lo sucio, de lo ruidoso. Donde se conjugan el corcho, el fuego, el agua, el aire, la tierra..., la Fábrica, casa de la industria, concebida para ser utilizada, rehabitada, transformada... Estrategias, extenderse, hacia la membrana patrimonial que rodea la Fábrica Robinson; profundizar, hacia la estratigrafía que existe en el interior de la Fábrica Robinson; Conectar las nuevas funciones con los espácios construidos de la Fábrica Robinson». In Julián Sobrino Simal, Viaje a la isla de Robinson en Alentejo português, Publicações da Fundação Robinson, nº 20, Portalegre, 2014, ISSN-1646-7116.

A amizade de Célia, Odete e Laura
Cortesia da FRobinson/JDACT

Viaje a la isla de Robinson en Alentejo português. Julián S. Simal. «En el corazón de la novela des siglo XIX que arranca, precisamente, con un capítulo dedicado a La vida y las extrañas y sorprendentes aventuras de Crusoe de York, marino, obra publicada en 1719»

jdact

«Desde hace un tiempo vengo considerando que los mapas estan equivocados, o por lo menos, que contienen algunas inexactitudes. Este es el caso de la famosa isla de Robinson, en el archipiélago Juan Fernández, conocida anteriormente como la isla Más a Tierra. No piensen tampoco que los lugares permanecen siempre en el mismo sitio. Lo que albergan, su esencia, viaja en el tiempo y podemos encontrarnos en un sitio que antaño fue otro lugar diferente o, al contrario, podemos estar en lugar que no es lo que parece. En Portalegre me encontré cara a cara con esta paradoja espacio temporal. Allí se encuentra la Fábrica Robinson, fundada en el siglo XIX por George Robinson, hacia 1840, en lo que fue el antiguo Convento de San Francisco, y dedicada a la transformación del corcho. Su hijo, George Wheelhouse Robinson, convirtió un lugar aislado, una isla en tierra adentro, en un lugar clave para la revolución industrial del Alentejo portugués, introduciendo los avances dela civilización técnica de su tiempo gracias a la máquina de vapor, la energia eléctrica, los novedosos procedimientos de fabricación de tapones de corcho, los nuevos modos de organización laboral y un innovador estilo de gestión empresarial.
A comienzos del mes de Septiembre de 2011, recibí una invitación de António Camões Gouveia para participar en el V Día Robinson. Lo primero que hice fue buscar en Google Earth la posición exacta del lugar al que me tenía que dirigir: la ciudad de Portalegre y, como en otras ocasiones, convertí esta invitación en una pequeña aventura como forma de hacerme más mágico ese compromiso al tiempo que convirtiera en más interesante aquello que yo pudiera ofrecer a mis anfrtriones desde mi experiencia en relación con la gestión del patrimonio industrial. Curiosamente, la vida es un cruce de casualidades, estaba leyendo en esos momentos el ensayo de Pietro Citati El mal absoluto. En el corazón de la novela des siglo XIX que arranca, precisamente, con un capítulo dedicado a La vida y las extrañas y sorprendentes aventuras de Crusoe de York, marino, obra publicada en 1719 por Daniel Defoe y que es reconocida como la primera novela en lengua inglesa, donde se hace un retrato de Robinson Crusoe en su naufrágio que bien pudiera servir para ilustrar el carácter de nuestro Robinson George Wheelhouse: Con el paso de los años, dice Citati, la isla se convierte en un lugar de vida cívica, de modo que un espacio natural, ecosfera, se transforma, gracias a la acción ordenada de una mente racional, en un espacio artificial, tecnosfera.
Dando pie, desde entonces, a convertir a Robinson Crusoe en un mito del precoz capitalismo inglés tal como el proprio Karl Marx expresaba en su obra Contribución a la crítica de la económica política cuando afirmaba: los robinsonadas no expresan en ningún modo, como se lo figuran los historiadores de la civilización, una simple reacción contra un excesivo refinamente y el entorno a una vida primitiva mal comprendida. Como tampoco El Contrato Social de Rousseau, que mediante una convención relaciona y comunica a sujetos independientes por naturaleza, reposa sobre semejante naturalismo. Ésa es la apariencia, y la apariencia estética solamente, de las pequeñas y grandes robinsonadas. Éstas anticipan más bien la sociedad burguesa que se preparaba en el siglo XVI y que en el siglo XVIII marchaba a pasos agigantados hacia su madurez. En esta sociedad de libre competencia, el individuo aparece como desprendido de los lazos de la naturaleza, que en épocas anterirores de la historia hacen de el una parte integrante de un conglomerado humano determinado, delimitado.
Por tanto, no solo me dirigía al encuentro de uno de los espacios más interesantes de la revolución industrial portuguesa, sino a un lugar donde se podía profundizar en los arquetipos fundacionales de nuestra civilización como son: el explorador, el descubridor, el acumulador, el otganizador, el benefactor, el inventor. Partiendo de Sevilla, me dirigí hacia el norte, por antigua Vía de la Plata para, llegando a Badajoz, virar hacia el oeste en dirección a Elvas para tomar la N246 que a través de São Vicente, Santa Eulália y Arronches me llevaría hasta Portalegre. La carretera guardaba todavía el antiguo trazado caminero, que bordeaba antiguas propiedades rurales, era sinuosa, protegida por quitamiedos de fábrica. Encauzada por un hermoso bosque de galería formada por alcornoques, castaños de Indias, pinos y encinas. Discurría placidamente entre los restos de las antiguas dehesas y campos de olivos que le proporcionaban un carácter paisajístico de granbelleza. Al paso de los diferentes pueblos descubrí la interesante arquitectura popular compuesta por vivendas de planta baja, de la tipología de puerta e ventana, coronada por las impresionantes chimeneas que caracterízan el modo de vida de estas poblaciones agrarias». In Julián Sobrino Simal, Viaje a la isla de Robinson en Alentejo português, Publicações da Fundação Robinson, nº 20, Portalegre, 2014, ISSN-1646-7116.

A amizade de Célia, Odete e Laura
Cortesia da FRobinson/JDACT

domingo, 2 de agosto de 2015

Os Lagóias e os Estrangeiros. Garcia Castro e Raul Ladeira. «Não há critério seguro para distinguir o homem dos animais. O homem não sabe mais que os outros animais; sabe menos. Eles sabem o que precisam saber. Nós não»

raul ladeira 
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Os lagóias
Orbis pictus
«Ao lusco-fusco das manhãs de Outono,
estações do ano são humores do vida!,
homens do peixe do senhor Rabinha,
seus fatos negros de borracha húmida,
entre o estertor das camionetas Diesel
arrastam os caixotes reluzentes
o assobiar de fresco ao nevoeiro.
                            
As motoretas passam a grasnar
roufenhas, oleosas, proletárias,
de capacetes e faróis acesos,
um gosto popular de cosmonautas.

De quantos lados chegam! As mulheres,
de alcofas pela mão e as grandes nádegas,
já debruçadas, para aviar a praça,

gulosas do café com massa frita,
do qual o cheiro alastra, uma doçura,
o largo, os automóveis, e o meu quarto.

Ao lado, no Quartel, os corneteiros
já diluíram os clarins dolosos
sobre o cinzento do verniz dos plátanos.

Da serra para o mercado há os que passam
com suas botas de ferrar o chão,
ao bafo do vapor azul discreto
de algum oficial à porta-d’armas.

As bestas e as carroças de hortaliça,
impacientes, fumegando, chiam,
rangem os aros de metal dos rodas,
batem os cascos, rifles, na calçada.

Rapazes pobres do trabalho em obras,
andámos todos já na mesma escola,
nem é de mais que algum seja bombeiro,
falam-me sempre para fumar comigo.

Sete horas da manhã. Meia p’rás oito.

O apito do fábrica da Rolha
espichou agora, em sobressalto, vivo,
seu arrepio de esganar o ar…

Que pena o d’Assumpção, que se matou!

Talvez imaginasse apetecer-lhe,
aqui de Portalegre, alucinado,
um copo de nevoeiro».
In Portalegre, Setembro 1970

In Carlos Garcia Castro e Raul Ladeira, Os Lagóias e os Estrangeiros, edição da CM de Portalegre, 1992, Depósito legal nº 53094.

Cortesia de CMP/JDACT

domingo, 26 de julho de 2015

Os Lagóias e os Estrangeiros. Garcia Castro e Raul Ladeira. «Os sinos dobram na cidade branca. Os sinos de mais dobrar! Dobrar dos sinos na cidade branca, alguém do campo que lá foi morar. São sinos de São Lourenço!»

raul ladeira 
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Os lagóias
«Da cidade nasce o povo,
baptizado, funeral,
amigos, vinho que provo
por tristeza ou arraial.

Cidade que tens o povo
das ruas da minha morte,
meu coração é tão novo
que morre sem que se importe.

Cidade, forma do povo
que tem por sorte a canseira,
no ganhar sou eu que o louvo
no perder, cidade inteira».
In Portalegre, Março 1974


Os sinos de São Lourenço
«Os sinos dobram na cidade branca.
Os sinos de mais dobrar!
Dobrar dos sinos na cidade branca,
alguém do campo que lá foi morar.
São sinos de São Lourenço!
Os sinos de mais morrer.
Os sinos dobram na cidade branca,
gente de fora que lá foi viver.
Dobram os sinos na cidade branca.
Os sinos que dão mais dó!
Dobrar dos sinos na cidade branca,
era um velhote que vivia só.
São sinos de São Lourenço!
Os sinos da maior dor.
Os sinos dobram na cidade branca,
na Casa de Saúde, um lavrador.

Dobram os sinos na cidade branca.
Os sinos do maior dano!
Não dobram sinos na cidade branca,
nem leva padre à frente, era um cigano.
São sinos de São Lourenço!
Os sinos de mais de um tom.
Não dobram sinos na cidade branca,
foi ontem, suicidou-se era tão bom!
Ai sinos de São Lourenço!
Não dobram por mais engano.
Lá vai deposto da cidade branca
um homem que morreu republicano.
Mais tristes sinos da cidade branca.
Os sinos do derradeiro.
Caixão de linho virgem, é um anjinho
filha tão nova, um rapaz bombeiro».
In Portalegre, Setembro 1970

In Carlos Garcia Castro e Raul Ladeira, Os Lagóias e os Estrangeiros, edição da CM de Portalegre, 1992, Depósito legal nº 53094.

Cortesia de CMP/JDACT

terça-feira, 23 de junho de 2015

Os Lagóias e os Estrangeiros. Garcia Castro e Raul Ladeira. «… lagóia virá de langóia, por sua vez proveniente de langor. Portalegre é cidade de há muito industrial, com fábricas que ocupam muita gente; por falta de matérias-primas, ou outras circunstâncias, as fábricas tinham que fechar por algum tempo, os sem-trabalho, os inactivos...»

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«Vista à distância, mas ao alcance directo dos olhos, a cidade dos lagóias mantém hoje uma unidade que pode fazer pensar os estrangeiros. O recorte de Portalegre nas suas zonas altas tem uma marca tão inconfundível como a dentadura de uma chave. Numa curta faixa, sem pedir qualquer movimento de cabeça, sem exigir o menor truque fotográfico, mostram-se os restos do castelo a grande chaminé da fábrica da rolha, o vulto amarelo do palácio, as torres da Sé sobre o Paço do Bispo, o antigo sanatório. Mais à direita, subindo na fronteira com a planície, o cone escuro da Serra do Penha e a sua cruz branca espetada nos rochedos. Aí ninguém vai que não tenha Portalegre em vistoria, mas é necessário descer sem pressas à cidade-dupla, a de cima da freguesia da Sé e a de baixo, de São Lourenço, em que conversam, comem, amam e trabalham (também sempre a subir e a descer) os lagóias. Serão raros os portalegrenses que não sabem que um portalegrense é um lagóia. Quase tão raros como os que sabem o que lagóia quer reamente dizer. O apodo, ou alcunha meio afrontosa, tem provavelmente o percurso das palavras que perdem, ou ganham, alguma coisa com o tempo. No caso parece que se perdeu um n. Alexandre Carvalho Costa, nos seus Gentílicos e Apodos de Portugal Continental, recordou uma conversa com o ex-juiz de direito na cidade, Joaquim Dias Loução.
Poucos portalegrenses, ainda hoje, poderão desmentir esta hipótese publicada em edição de 1973 pela Junta Distrital de Portalegre: lagóia virá de langóia, por sua vez proveniente de langor que mais não é que moleza, prostração, preguiça. O contexto: Portalegre é cidade de há muito industrial, com fábricas que ocupam muita gente; quando por falta de matérias-primas, ou outras circunstâncias, as fábricas tinham que fechar por algum tempo os sem-trabalho, os inactivos demoravam-se às esquinas, nas ruas, nos largos. À espero de melhores dias, continua, dada a sua falta de hábito para os serviços do campo. O juiz Loução rematava nunca ter percebido a desnalização do na de langóia. Mas um lagóia, por intuição pode chegar lá. Na sua vocação escarninha, no gosto pelo ridículo auto-aplicado, largou-se em menor esforço o tal n. Um processo irmão ao das alcunhas com que metodicamente se carimbam os lagóias uns aos outros (eu tenho, em Portalegre) património da cidade. Ou do calão ofensivo com que se cumprimentam e divertem no dia-a-dia os melhores dos melhores amigos, em Portalegre, sem se ofenderem.
Cidade branca onde o negócio da tasca não perde energias, de mulheres escondidas nas janelas, donas de casa de saber quem passa (escreve Carlos Garcia Castro, lagóia), cidade do café-snack-restaurante Tarro, na zono novo, onde há sempre um caso para contar. A cidade onde muitos portalegrenses novos ainda repetem a ladainha aqui nunca se possa nada, mesmo quando se passa, o capital de um distrito que, e isto continua, parece disputar com o Alentejo do sul, ano a ano e taco-a-taco, o estranho campeonato do maior número de suicidas.
E no espaço em que quase todos se conhecem uns aos outros, a bem e a mal o poeta de olhos abertos e o fotógrafo de objectiva paralela (texto fotográfico de Raul Ladeira, outro lagóia) fazem alguns retratos completos. Dos estrangeiros que lá vivem também, sem ser necessário colocá-los como um contrário, um lagóia é só um modelo da sua própria cidade, não deve, nem ele pretende, servir de exemplo para mais lugar nenhum. O estrangeiro de Portalegre é, no seu ângulo pior o que vive subordinado às exigências rascas de Lisboa, a capital terra ardente, não se conhece ninguém, canseira da igualdade. É a amiba descarada que se atreve a comer açorda sem coentros, mas que parece poder puxar um lagóia para a armadilha: Inaugurarmos nossos velhos espaços onde só haja, como nós, medíocres. Quem diz isto assim, afinal de contas, só pode gostar muito da sua cidade, vista por fora e vista de dentro.
Estas palavras duplas, de lagóia e estrangeiro foram escritas em Lisboa em Outubro de 1992». In Rui Cardoso Martins

In Carlos Garcia Castro e Raul Ladeira, Os Lagóias e os Estrangeiros, edição da CM de Portalegre, 1992, Depósito legal nº 53094.

Cortesia de CMP/JDACT