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domingo, 27 de agosto de 2023

Infante dom Pedro. Isabel Machado. «Os dois irmãos curvaram-se perante os reis. Quando se ergueram, nos olhos do conde não se via o vermelho da emoção, mas o brilho do triunfo, por se ver distinguido com missão de tamanho prestígio»

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Quarenta e quatro anos antes. Lisboa, Outono de 1405

«(…) Atrás dos infantes, vinha ainda o numeroso cortejo da nobre gente, de Portugal e de Inglaterra, com a fidalguia, os príncipes da Igreja, o alcaide, os juízes, os ricos mercadores que gozavam do favor d'el-rei, os cavaleiros, os escudeiros e a fanfarra por todo o lado.

Pedro e Duarte riram quando um petiz se aproximou deles, imitando o passo bem sincopado dos cavalos com as pernas magras, as mãos a reproduzir a pose dos infantes a segurar as rédeas. Dizia-lhes qualquer coisa, mas não se distinguiam palavras, naquele cântico de centenas de vozes.

No cais de embarque, calava-se o barulho da festa e só havia lugar para a tristeza, na hora da despedida da infanta. Foi a primeira vez que Pedro viu lágrimas nos olhos do pai desde a morte do irmão Afonso.

João I mostrava o lado mole do seu coração, agarrado à filha, naquele momento definitivo. Beatriz soluçava nos braços do rei e não havia olhos enxutos perante o desgosto de quem pensa que se vê pela última vez. Filipa secava o rosto com um lenço de seda, mais contida.

Adeus, minha filha, vai com Deus. Foi tudo o que Pedro ouviu da voz cortada do pai, quando teve de se desprender da infanta. Beatriz colocou a mão sobre a de Afonso. O conde de Barcelos escoltava-a até Inglaterra, de onde partiria depois para uma longa viagem pela Europa.

Os dois irmãos curvaram-se perante os reis. Quando se ergueram, nos olhos do conde não se via o vermelho da emoção, mas o brilho do triunfo, por se ver distinguido com missão de tamanho prestígio.

E se não passasse de uma lenda, senhora? Dona Filipa pousou o livro de cavalaria que lia com o filho. Uma lenda, Pedro? Camelot. A corte do rei Artur e os cavaleiros da Távola Redonda. À perfeição...

Não é uma lenda, disse a rainha com firmeza. Artur representa a justeza de um rei que vem salvar um povo da desesperança. A História do mundo e de Portugal mostra-nos que é verdade». In Isabel Machado, Infante Dom Pedro, O Regente Visionário que o Poder quis Calar, 2021, Editorial Presença, Manuscrito, 2021, ISBN 978-989-897-590-4.

Cortesia de EPresença/Manuscrito/JDACT

 JDACT, Isabel Machado, História, Regente Pedro, Cultura e Conhecimento, Literatura,

Infante dom Pedro. Isabel Machado. «Os outros três, pela curta idade, ainda mal se viam em público, não fosse a inocência e a escassez de tino estragar a perfeição briosa que el-rei exigia das exibições da real família para o povo ver»

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Quarenta e quatro anos antes. Lisboa, Outono de 1405

«(…) O rei e a rainha acenavam, mostrando os sorrisos que aqueciam a alma das gentes. João I não desencantaría os seus de Lisboa, sempre ciente de que, aos olhos do povo, parecer é também ser. Cuidava ao pormenor as aparições reais, marcadas de simbolismo, para que perdurasse na memória de todos a imagem de um soberano bom, que devolvera a crença a Portugal, e de uma dinastia pujante.

Por isso, sabia que o maior tesouro que podia exibir ao reino estava atrás de si, naquele cortejo: os infantes de Avis, Duarte, Pedro e Henrique. Em cavalos ajaezados com os mais finos arreios, bem ataviados os infantes, com gibões de veludo bordados a fio de ouro, as figuras juvenis contrastavam entre si, tanto quanto os caracteres, que se foram moldando quase opostos. O herdeiro, de rosto redondo, meão de altura e cabelos castanhos e lisos, de olhar algo amolecido, era mais dado às dúvidas, que lhe enredavam a existência de estudo aturado e de aprendizagem do ofício de reinar, ao lado do  pai, do que às decisões terminantes, em linha recta. Duarte arrastava empenho de bem-fazer, cioso de tudo, lendo e escutando o mais que podia. Fizera-se erudito, mas, por vezes, escasseava-lhe a têmpera.

Em Pedro, alto e de corpo seco, as cores de inglês haviam-se imposto no sangue misturado, com o arruivado do cabelo de ondas fechadas e os olhos azuis, levemente descaídos nas extremidades, próprios de quem vê a minúcia das coisas e pensa muito. Tão erudito e apaixonado pelo conhecimento como o mais velho, era um natural sedutor, mas talvez não viesse a seduzir a todos com o avançar da vida, com as verdades que lhe saíam da boca. Dado a indagar a natureza humana, os deveres e obrigações de cada um no mundo e os mistérios da vida, avaliava tudo, mas a abundância de pensamento não lhe entravava a acção.

Henrique, de onze anos, desprezava a minúcia para favorecer o gesto largo, grandioso. Moreno, de olhar penetrante e agitado, mostrava uma vivacidade  rara e pouco quieta. Amigo de se mostrar, insinuante e destemido, não gostava de ser mandado, convicto de si mesmo. Na rígida hierarquia real era o terceiro, mas não se via disposto a viver na sombra. Sabendo-se convincente, dobrava a vontade dos outros pela persistência, ou pela paixão que punha nos seus interesses, desarmando-os.

Os outros três, pela curta idade, ainda mal se viam em público, não fosse a inocência e a escassez de tino estragar a perfeição briosa que el-rei exigia das exibições da real família para o povo ver. Isabel, de oito anos, já se mostrava determinada e segura, e quebrava a rigidez de ferro do pai, por ser a única infanta. João, aos cinco anos, adivinhava-se sensato, firme de ideias e menos dado ao sonho do que os mais velhos. Fernando, de três anos, louro e rosado como um querubim, exibia a delicadeza dos anjos, ou era essa a leitura dos outros, sempre mais caridosos com os últimos a nascer numa família numerosa». In Isabel Machado, Infante Dom Pedro, O Regente Visionário que o Poder quis Calar, 2021, Editorial Presença, Manuscrito, 2021, ISBN 978-989-897-590-4.

Cortesia de EPresença/Manuscrito/JDACT

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quinta-feira, 8 de setembro de 2022

Infante dom Pedro. Isabel Machado. «Beatriz, a noiva, tinha o privilégio de seguir no cortejo ao lado do rei, a figura delicada coberta pelos mais lustrosos panos de ouro, que a lei reservava aos abençoados por Deus para reinar sobre os outros»

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Quarenta e quatro anos antes. Lisboa, Out0no de 1405

«(…) O herdeiro do trono pestanejou, avaliando como haveria de responder àquela pergunta. As palavras não eram um mero utensílio de conversação para o infante, que as tinha em tanto apreço como o sentido de dever. Duas marcas de carácter que partilhava com o irmão mais próximo de si, em idade e interesses, mas de quem o distanciava o temperamento. Se o mais novo não calava o que entendia ser a verdade, o outro punha na concórdia um dos propósitos de vida. Por isso, demorou-se antes de afirmar: Não estou inteirado de nada. Nunca se mostram exuberantes no trato, com mostras de afeição ou desafecto. Porque perguntas?  Vi-os empedernidos no cumprimento.

Duarte virou os seus grandes olhos na direcção da mãe e do meio-irmão, e Pedro seguiu-lhe a mirada. A figura imponente de Afonso de Barcelos trajava como o grande nobre que era, e o rosto, que mantinha por costume fechado, mostrava o deleite de se saber o centro das atenções naquele dia. Era o principal enviado do rei a Inglaterra para acompanhar a irmã Beatriz. Na verdade, prosseguiu Duarte, já me tenho questionado como tu. Nossa mãe sempre rodeou Beatriz de desvelos, mas o mesmo não se passa em relação a Afonso. Já perguntei a el-rei… Já?, surpreendeu-se Pedro. E o que te respondeu? Duarte mostrou-lhe um raro sorriso travesso: Que são coisas de damas...

Pedro atentou, agradado, no sorriso do irmão mais velho. Duarte era, por aqueles dias de celebração, um jovem diferente, como se lhe tivesse voltado a jovialidade que perdera nos últimos tempos. Ao completar catorze anos havia pouco, o pai integrara-o na governação do reino. A morte do primogénito, Afonso, anos antes, lançara a família de Avis no desespero e Duarte vira-se herdeiro de um dia para o outro. Quase não lhe fora permitido chorar o irmão, e o rei contrariara o desgosto profundo com o desafio de preparar um novo infante. Roubara-lhe a mocidade com deveres, afastando-o dos folguedos que até aí lhe eram permitidos com o irmão Pedro. O olhar do herdeiro tornara-se melancólico e angustiado com aquele peso. O trono era um lugar de ralações, descobrira da pior maneira o infante ilustre, que reservava as raras confissões para os ouvidos atentos do irmão, quando o desalento lhe tomava conta da alma. Pedro também fora obrigado a crescer depressa com a fatalidade. Desvairado com a possibilidade de outro revés do destino que lhe levasse o novo herdeiro, João preparava o segundo filho como reserva do reino, mas sem o incluir na governação. E vincava sempre essa crueza: teria de estar à altura, mas era o segundo.

Os gritos exultantes do povo redobraram quando a comitiva real se deixou ver, na descida das alturas do monte para o terreiro. João de Avis e dona Filipa de Lencastre recompensaram bem a tenacidade dos que haviam aguentado horas para garantir uma nesga de espaço nas ruelas esguias e íngremes, por entre o casario encostado. Apareceram com toda a majestade e luxo que se esperava de tão grande rei de Portugal e dos Algarves e da sua rainha, em cavalos bem arreados, a coroa de ouro sobre os cabelos escuros do monarca refulgia com as melhores pedrarias, os mantos reais de veludo escarlate de ambos, forrados a pele de arminho, prendiam-se sobre o peito com grossas correntes de ouro maciço. Ao lado do marido, dona Filipa de Lencastre ocultara o cabelo loiríssimo numa crespina elevada, recamada de fio de ouro, pedras e aljôfares, do qual pendia um delicado véu de seda.

Beatriz, a noiva, tinha o privilégio de seguir no cortejo ao lado do rei, a figura delicada coberta pelos mais lustrosos panos de ouro, que a lei reservava aos abençoados por Deus para reinar sobre os outros. El-rei valorizava a aliança inglesa acima de quase tudo, mas também havia amor de pai e emocionava-se de ver partir a filha. Resignara-se com dor à sorte traçada desde o nascimento a qualquer infanta: servir os interesses do reino, com uma proveitosa aliança de casamento. O noivo não estava. Aguardava a jovem, com quem já casara por procuração, na ilha enevoada de dona Filipa, do outro lado do mar. Contido atrás do cordão humano dos guardas, o povo gritava por el-rei. Dom João erguia a mão benevolente, que não se molestasse ninguém, não carecia aquele povo leal de mostras de força. Avançavam devagar, com os cavalos a passo curto, entre o mar de gente que lançava pétalas». In Isabel Machado, Infante Dom Pedro, O Regente Visionário que o Poder quis Calar, 2021, Editorial Presença, Manuscrito, 2021, JSBN 978-989-897-590-4.

 Cortesia de EPresença/Manuscrito/JDACT

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domingo, 17 de julho de 2022

Infante dom Pedro. Isabel Machado. «Dona Filipa de Lencastre estendeu ao filho do marido uma mão quase hirta e o enteado depositou um beijo frio na peie de leite»

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Quarenta e quatro anos antes. Lisboa, Out0no de 1405

«(…) A infanta nascera dos amores ilícitos de dom João na mocidade, incapaz de segurar a carne e honrar os votos como mestre da ordem de Avis, perdido o tino por conta da paixão pela plebeia Inês Pires. Mas não renegara os filhos, Afonso e Beatriz, nem quando subiu ao trono. Assumiu-os honradamente, obteve a legitimação do papa, fazendo-se acompanhar por eles, mesmo após o matrimónio com dona Filipa de Lencastre. Fizera Afonso conde de Barcelos, um dos fidalgos mais poderosos do reino, e casara-o com a filha única e muito amada de Nuno Álvares Pereira, Beatriz Pereira de Alvim, já nascida na grandeza. Mas não houvera honrarias que extinguissem na alma de Afonso o estigma da origem ilegítima no ventre de uma mulher do povo, nem o ressentimento de se ver preterido desde que os meios-irmãos, infantes de Avis, haviam começado a vir ao mundo, nascidos do ilustre sangue de dona Filipa de Lencastre. O despeito e o ciúme cravaram-se-lhe no coração como uma adaga. Os modos refinados, mas sempre altivos, tapavam essa verdade aos olhos dos infantes, e o rei fazia-se cego às máculas daquele que fora o seu primeiro varão.

Mas dona Filipa crescera habituada à traição que grassava na sua família e reconhecia aquela peçonha em qualquer lugar. Desconfiava de Afonso e dos seus intentos, o que ditara um desafecto mútuo para a vida. Impunha alguma distância e diferenças no tratamento entre o conde de Barcelos e os legítimos, e o rei cedia, como lhe cedia em quase tudo, grato pelo prestígio e dignidade que rrouxera para a nova dinastia, com o mais elevado sangue da Casa real de Inglaterra. Ao contrário de Afonso, a infanta Beatriz ganhara a afeição da rainha e fora elevada ao Olimpo da melhor fidalguia inglesa com aquele casamento que a unia a sir Thomas FitzAlan, conde de Arundel, arranjado pela madrasta, ciosa das purezas de casta.

Já engalanado para o cortejo real que iria atravessar Lisboa e levar Beatriz ao cais, Pedro observava a postura distante da mãe com Afonso de Barcelos antes de montarem os faustosos corcéis. Dona Filipa de Lencastre estendeu ao filho do marido uma mão quase hirta e o enteado depositou um beijo frio na peie de leite. Os gestos, quase imperceptíveis, contrariavam as mesuras; o sorriso discreto e um aceno de cabeça da rainha, a vénia cortesã de Afonso. Mas, sobretudo, contrastavam com os modos que o infante vira no pai. Dpm João recebera o conde de Barcelos de rosto prazenteiro e um abraço mal ele se erguera do cumprimento ao monarca, de joelho em terra. A semanas de completar treze anos, Pedro ainda não desvendara todos os meandros subtis da mente dos homens, nem os muitos compartimentos que nela cabiam. Mas observava sinais que escapavam ao significado imediato das palavras e detinha-se neles, fosse um olhar mais fugidio ou, ao invés, um demasiado quieto e penetrante, para convencer e ocultar verdades, uma tremura das mãos, uma rigidez do corpo, os numerosos desenhos que podiam formar as linhas dos lábios. Escutava o tom, mais do que o som. Por isso, aquele gelo da mãe contava mais do que a perfeição dos modos que os olhos viam. Afonso de Barcelos vivia nos seus domínios do Norte e pouco vinha à corte, embora fosse conselheiro do rei. Era chamado para exprimir juízos ao soberano sobre assuntos de vulto e para celebrações. Talvez pelo trato pouco frequente e pela diferença de quinze anos, aquele meio-irmão não era alguém fácil de conhecer. Via-o polido, mas distante. Intrigou-se com aquele desacerto, como se tomasse consciência dele pela primeira vez.

Intrigou-se com aquele desacerto, como se tomasse consciência dele pela primeira vez. Existe alguma desavença entre a senhora nossa mãe e Afonso de Barcelos?, indagou ao irmão Duarte, a seu lado?» In Isabel Machado, Infante Dom Pedro, O Regente Visionário que o Poder quis Calar, 2021, Editorial Presença, Manuscrito, 2021, JSBN 978-989-897-590-4.

Cortesia de EPresença/Manuscrito/JDACT

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sábado, 16 de julho de 2022

Infante dom Pedro. Isabel Machado. «A nobreza, há que precaver dela! Ao invés da lealdade ao rei de Portugal, prostravam-se aos pés dos de Castela quando vêem ganhos na traição»

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Quarenta e quatro anos antes. Lisboa, Out0no de 1405

«(…) Mas John of Gaunt não fora apenas um homem de desmedida ambição e vida devassa. Profundamente culto e patrono das artes, promovera nos filhos o amor ao estudo e ao conhecimento. Ao contrário do pai, Filipa fizera-se severa nos costumes morais. Fervorosamente devota e de vasta, lisura, dominava o inglês, o francês e o latim e trouxera para a corte portuguesa hábitos de erudição. Sonhara com o marido dar a Portugal uma geração de infantes ilustres e, do seu ventre fértil, nasceram oito filhos, que haviam sobrevividos seis. Consolidar a dinastia que iniciara de forma tumultuosa e sem certezas de que se manteria no trono, confirmado em Cortes pela mestria da oratória de João das Regras, era o propósito da vida do rei português. Dignificar o nome de Avis impunha um esforço permanente. Perspicaz, dom João cedo intuíra que era preciso reinar pelo exemplo para manter os seus descendentes no trono de Portugal.

A autoridade moral e o conhecimento, tanto como a força das armas, garantiriam essa determinação, acredita o rei. Na inexperiência da mocidade, os filhos não haviam sentido como lhe fora difícil chegar ali, nascidos já em berço mais do que dourado. Dom João moldara-se como monarca, bem ciente da traição de parte da fidalguia do reino, uma cisma que nunca o largava. Martirizava a mente verde dos infantes com essa verdade. A nobreza, há que precaver dela! Ao invés da lealdade ao rei de Portugal, prostravam-se aos pés dos de Castela quando vêem ganhos na traição. Julgais que a ameaça se esfumou? Está sempre aqui, sempre aqui! De indicador esticado, batia com ele na testa.

O rei tinha na soberba memória um dos seus atributos. Não esquecia e não permitia que esquecessem, sabedor de que o passado era teimoso e regressava sem pudor, sempre que a memória se esvaía de um povo. Mas havia genuíno amor ao pai, não apenas temor, em todos os infantes de Avis. Idealizavam o rei como um dos heróis dos romances de cavalaria que a mãe lhes lia desde que se lembravam de existir Faziam tudo para agradar ao monarca, homem de génio à flor da pele, cioso do seu mando e obstinado como poucos. De coração generoso quando a vida lhe corria de feição, o rei comprazia-se na companhia da família. Por todos os motivos do passado e sempre com a vista no futuro, dom João voltara agora a reforçar a aliança inglesa, casando a sua filha Beatriz com um nobre do reino da rainha dona Filipa». In Isabel Machado, Infante Dom Pedro, O Regente Visionário que o Poder quis Calar, 2021, Editorial Presença, Manuscrito, 2021, JSBN 978-989-897-590-4.

Cortesia de EPresença/Manuscrito/JDACT

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quarta-feira, 13 de julho de 2022

Infante dom Pedro. Isabel Machado. «… lançara o reino num período de rivalidades fratricidas entre a nobreza, miséria e revolta popular. O reinado do irmão era uma fonte de ralações para a rainha de Portugal»

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Quarenta e quatro anos antes. Lisboa, Out0no de 1405

«(…) Pela força das armas e do génio militar de Nuno Álvares Pereira, os portugueses haviam esmagado os invasores de Castela, apoiados por muita fidalguia portuguesa, que preferia ver no trono um castelhano pelos ganhos que a união das coroas traria às suas linhagens. A vitória na mais épica das baralhas, em Aljubarrota, marcara a viragem do destino a favor de dom João. O exército português contara com a ajuda preciosa das hostes inglesas, comandadas por John of Gaunt, duque de Lencastre, o terceiro filho do rei Edward III. Uma coincidência do destino unira portugueses e ingleses contra os castelhanos.

O turbulento e ambicioso duque nunca se resignara com o papel secundário que a sua ordem de nascimento impunha, julgando-se merecedor de uma coroa. Por morte da primeira mulher, Blanche, mãe da rainha portuguesa, que lhe dera título, fortuna, terras, castelos e três filhos, casara em segundas núpcias com a infanta castelhana, Constança, filha do rei Pedro de Castela, assassinado pelo meio-irmão Henrique, que iniciara a nova dinastia dos Trastâmaras. Constança vivia exilada em Inglaterra, mas, por morte do pai, intitulara-se a legítima rainha castelhana. Sempre disposto a um novo golpe que expandisse o seu poder, John of Gaunt concebeu um estratagema audaz. Proclamou-se rei consorte de Castela e entregou-se apaixonadamente à nova ambição: invadir o reino de sua mulher, depor Henrique de Trastâmara, sentar Constança no trono e designar herdeira a filha de ambos, Catarina de Lencastre.

A conjugação de interesses contra os castelhanos unira, assim, John of Gaunt e dom João de Avis. Corria o ano de 1386 quando se forjou a aliança que trouxe o duque de Lencastre à Ibéria, para se juntar aos exércitos Portugueses. Se dom João garantira plena vitória sobre os castelhanos. o duque regressara a Inglaterra sem conseguir todos os seus intentos. Não ganhara o trono castelhano para a mulher, mas firmou a promessa de matrimónio da filha Catarina com o pequeno príncipe herdeiro de Castela, futuro Henrique III, unindo as duas dinastias desavindas.

Contudo, o maior trunfo conseguira-o John of Gaunt pelo casamento da filha mais velha, Filipa, com o rei de Portugal, um enlace de conveniência, que se transformaria numa união exemplar de afecto e respeito. O duque de Lencastre nunca conquistou o sonho de se ver coroado rei, mas conseguira que três filhos se sentassem em tronos. O irmão de Filipa, Henry, herdara a ambição sanguinária do pai e havia usurpado a coroa ao primo direito, Richard IL Proclamou-se rei de Inglaterra, como Henry, IV, e fundou a nova dinastia de Lencastre.

Envolvera-se numa guerra com França, onde Inglaterra detinha possessões desde o tempo de seu avô, e lançara o reino num período de rivalidades fratricidas entre a nobreza, miséria e revolta popular. O reinado do irmão era uma fonte de ralações para a rainha de Portugal». In Isabel Machado, Infante Dom Pedro, O Regente Visionário que o Poder quis Calar, 2021, Editorial Presença, Manuscrito, 2021, JSBN 978-989-897-590-4.

Cortesia de EPresença/Manuscrito/JDACT

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quarta-feira, 29 de junho de 2022

Infante dom Pedro. Isabel Machado. «O grande terreiro em frente ao Tejo tornara-se uma vastidão de euforia. Ao invés dos pregões dos vendedores e do regateio dos fregueses nas bancas de pescado e das hortaliças…»

 

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Quarenta e quatro anos antes. Lisboa, Out0no de 1405

«O rei dom João de Avis casava a infanta Beatriz, a filha que nascera bastarda, com um grande de Inglaterra, e dera folgança ao povo, com uma celebração de vários dias. Havia muito que a capital do reino não se via com aquele esmero de asseio e sinais de abastança. Varreram-se as ruas, bem escaroladas e passadas a várias águas, para que não restasse vestígio algum da habitual imundície, e só se visse o que podia comprazer o rei, a fidalguia, o clero e os enviados ingleses. Arcos de folhas alindavam as sacadas do casario e as ruas da maior urbe do reino, como em dias de procissão. As flores do Outono tapavam de tons garridos as fachadas murchas pela pobreza do desleixo continuado e, das varandas, pendiam as colchas mais lustrosas que o povo encontrara na fundura das suas arcas, desprovidas de quase tudo.

Escorraçaram-se as meretrizes, para não ferirem a vista d’el-rei e o pudor da rainha, dona Filipa Lencastre, e ocultavam-se os mendigos, para não trazerem à lembrança do monarca o depauperado tesouro real, por conta dos anos de guerra com Castela, cujas tréguas só tinham sido alcançadas havia três anos. Também não faltava por que pedir naqueles dias de fartura, em que se assavam bois nos espetos de rua, que as mãos do rei de Avis eram largas, quando se tratava de entreter em dias de festa.

O grande terreiro em frente ao Tejo tornara-se uma vastidão de euforia. Ao invés dos pregões dos vendedores e do regateio dos fregueses nas bancas de pescado e das hortaliças trazidas dos arrabaldes da cidade, a algazarra era de júbilo, com exibições de malabaristas e saltimbancos, jogos de paus, até largada de touros houvera, para animar o povo. As gentes associavam, assim, a vista do soberano com a abundância, uma combinação bem calculada por um monarca que ascendera ao trono a pulso e também por vontade do povo. E o amor dos portugueses por aquele rei era grande.

Dom João, o primeiro de seu nome, trouxera-lhes a paz e a garantia de que o trono de dom Afonso Henriques permaneceria com um rei português, iniciada a nova dinastia de Avis. Por conta do desvairo e da morte precoce do rei anterior, dom Fernando, que deixara a regência entregue à odiada rainha, dona Leonor Teles, viveram-se dias negros em Portugal quando a viúva renunciou à regência a favor da filha, dona Beatriz, casada com o rei de Castela.

Filho bastardo do rei dom Pedro, pai de dom Fernando, e de Teresa Lourenço, filha de um comerciante lisboeta, com quem o monarca afogara as mágoas depois do assassínio de Inês de Castro, dom João era, por aquela altura, um jovem mestre da Ordem Militar de Avis. Viu-se chamado a reclamar o direito ao trono, com vasto apoio popular, e esse longo caminho começara ali mesmo em Lisboa, cidade para sempre grata ao seu coração, onde fora aclamado Regedor e Defensor do Reino, antes de ser alçado rei nas Cortes de Coimbra». In Isabel Machado, Infante Dom Pedro, O Regente Visionário que o Poder quis Calar, 2021, Editorial Presença, Manuscrito, 2021, JSBN 978-989-897-590-4.

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