Mostrar mensagens com a etiqueta Jacques Goff. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Jacques Goff. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 24 de março de 2017

O Apogeu da Cidade Medieval. Jacques le Goff. «Quase sempre a fome, a sede, a doença ou a traição explicam as derrotas pouco numerosas dos cidadãos sitiados»

jdact

A cidade e o exterior. As muralhas
«(…) Os mais espectaculares, os mais dramáticos, os mais significativos foram aqueles sofridos pelos habitantes de algumas cidades do Sul quando da cruzada dos albigenses. Em 1209, os cruzados franceses sitiam Béziers. A canção em occitano iniciada por Guillaume Tudèle conta assim a ilusão dos habitantes de Béziers1: E achavam que a sua cité estava tão bem fechada, e por muros cercada e estreitada, que não poderia ser forçada por um mês inteiro. Ora, logo após a chegada dos cruzados, libertinos (truands, arlots, gars, como ainda lhes chamam os textos da época), provavelmente mercenários especialmente treinados, arrombam as portas da cidade, abrindo o caminho para os cruzados, que se entregaram a um dos mais selvagens massacres da história.
São mais de quinze mil... Cercam toda a cidade para demolir os muros, descem aos fossos e dão golpes de picareta, outros vão quebrar e despedaçar as portas. Vendo isto, os burgueses foram tomados de pavor...
Depois, nesse mesmo verão de 1209, é o sítio de Carcassonne. Os seus habitantes tomam mais precauções do que os de Béziers, destruindo inclusive o refeitório, o celeiro e as estalas da igreja dos cônegos regulares para reforçar os muros da cidade. Eis o começo do relato do cerco pelos assaltantes: no terceiro dia, os nossos, esperando tomar de assalto e sem máquinas o primeiro subúrbio, que era um pouco menos fortificado que o outro, precipitaram-se sobre ele todos ao mesmo tempo... Tomaram o primeiro subúrbio, que os inimigos tinham abandonado imediatamente... Os nossos julgaram que poderiam tomar da mesma forma o segundo subúrbio (que é, de longe, mais fortificado e mais bem defendido). Ante esse assalto, o visconde e os seus defenderam-se de maneira tão viril que os nossos tiveram de retirar-se do fosso onde haviam penetrado, sob um jacto incessante de pedras. Os nossos levaram máquinas, chamadas roqueiras pierrières, para demolir os muros. Quando o alto das muralhas foi abalado pelo arremesso das roqueiras, nossos fogueteiros levaram um carro de quatro rodas, coberto de peles de bois..., os adversários logo o destruíram, lançando ininterruptamente fogo, paus, pedras, sem conseguir retardar o trabalho dos sapadores, os quais se haviam introduzido no fundo de uma cavidade praticada na parede... No dia seguinte, ao raiar do dia, o muro demolido desabou... A canção occitana conta-nos o último episódio.

O visconde e os seus subiram aos muros,
lançaram-se com balestras flechas munidas de pena,
e de ambos os lados muitos morreram.
Se o povo que se reunira não fosse tão grande,
pois viera de toda a terra,
jamais se teria conseguido tomá-la e forçá-la em menos de um ano,

porque as torres eram altas e os muros ameados.
Mas a água lhes foi tomada, e os poços secaram,
devido ao grande calor e ao pleno verão,
devido a infecção que se espalha entre os homens, que caíram doentes.

E ao numeroso gado que se esfolara
e que fora trazido de toda a região,
devido aos fortes gritos, que de toda parte soltavam
mulheres e crianças, dos quais tudo estava atulhado...

Em compensação, no ano de 1240, quando o descendente dos Trencavel, a família viscondal, tentou retomar a cidade e a sitiou, não teve êxito. O relato do senescal Guillaume d‘Ormois em Branca de Castela especifica as consideráveis melhorias  trazidas à muralha quando da reconstrução de 1228-1299. Fizeram-se liças protegidas por uma muralha em alvenaria munida de um parapeito ameado e flanqueado de torres de apoio e de pelo menos três barbacãs. Assim, tal como nos castelos fortificados, a defensiva prevaleceu habitualmente nas cidades, e as muralhas dissuadiram ou resistiram. Quase sempre a fome, a sede, a doença ou a traição explicam as derrotas pouco numerosas dos cidadãos sitiados. Compreende-se que o primeiro cuidado dos sitiantes vencedores tenha sido o de fazer destruir por razões militares e simbólicas essas muralhas, sinal insolente do espírito de resistência dos citadinos». In Jacques le Goff, O Apogeu da Cidade Medieval, 1980, Livraria Martins Fontes Editora, 1989, 1992, ISBN 978-853-360-127-1.

Cortesia de LMartinsFontesE/JDACT

quinta-feira, 23 de março de 2017

O Apogeu da Cidade Medieval. Jacques le Goff. «Em Clermont, já no primeiro foral que conhecemos, em 1219, o conde Guy II faz estipular que, em troca do direito para a comunidade urbana»

jdact

A cidade e o exterior. As muralhas
«(…) Em Toulouse, a noção de uma comunidade urbana englobando cité e burgo aparece já em 1141 e ela passa a chamar-se Tolosa, Toulouse. Do mesmo modo que os heróis cavaleirescos de Chrétien Troyes aprendem a sua identidade pela revelação do seu nome, a cidade se revela a si mesma e se afirma perante as outras pela proclamação do seu nome. A cidade adoptou o nome de cité. Tolosa passa a ser, como dizem os documentos, urbs et suburbium, a cidade e o subúrbio, a cidade e o burgo. A partir de 1190, Tolosa é empregado como termo geral. A consciência da entidade global tornara-se bastante forte para não exigir a cada passo a evocação de seus constituintes. Foi encavalada no local do velho muro romano que separava as duas aglomerações que se construiu a casa comum. Em 1222, os cônsules promulgam um texto que organiza um conselho comum, composto por metade dos cônsules de cada comunidade. Quaisquer que tenham sido para a tomada de consciência dos habitantes as consequências da construção e da existência de uma ou várias muralhas, a importância de seu papel militar é evidente. Ainda aqui o funcional e o simbólico, o militar e o político estão estreitamente ligados. Veremos mais adiante a incidência da edificação das muralhas sobre as finanças urbanas. A guarda e a manutenção desses muros e das suas portas constituiu desde logo um aspecto da luta dos novos cidadãos para assumir eles próprios as suas responsabilidades. Mas também, sem que seja possível distinguir o que prevaleceu, a vontade dos citadinos ou o desejo do senhor ou do rei, tem-se a impressão de que o desejo de livrar-se desse encargo de vigilância levou esses senhores ou o rei a conceder mais facilmente ou mais cedo, contra o seu compromisso de vigiar as portas e os muros, outros privilégios aos habitantes das cidades. Por outro lado, às vezes vêem-se também estes, longe de reivindicar essa função de espreita, vigilância e manutenção, tentando isentar-se dela como do serviço militar.
Em Clermont, já no primeiro foral que conhecemos, em 1219, o conde Guy II faz estipular que, em troca do direito para a comunidade urbana de reunir-se e de fazer o que lhe compete, os cidadãos (cives) deverão vigiar os muros e as torres e limpar os fossos. Em Montpellier, a vigilância da muralha parece caminhar de par com a organização dos ofícios. Desde 1204 a guarda das portas é repartida entre trinta desses ofícios. Ainda aqui aparece a ambiguidade da relação cidade/campo. A muralha define um espaço de exclusão, o do mundo rural, mas também é feita para acolher eventualmente, em caso de guerra, habitantes desse mesmo mundo. A função pode inverter-se e, em relação à população rural, a muralha pode definir, no interior, um espaço de refúgio, em conformidade, aliás, com uma das grandes imagens da cidade, a cidade do refúgio, que o Antigo Testamento lega à cidade medieval. Essa função tinha sido essencial nas sauvetés. Por conseguinte, os camponeses, eventuais beneficiários da protecção da muralha urbana, são chamados com bastante frequência, ao que parece, a participar de sua vigilância.
Em Poitiers, os aldeões dos povoados vizinhos colaboravam para a manutenção da muralha e participavam do serviço de espreita. Ressaltou-se que os 6km de muralhas, encerrando uma população relativamente pequena (15.000 habitantes?), requeriam, para ser eficazes, um grande número de vigias, de reparadores e, em certas ocasiões, de defensores. Durante o nosso período as muralhas tiveram relativamente pouca utilidade. A paz prevaleceu quase sempre sobre a guerra e o banditismo organizado em larga escala, como durante a Guerra dos Cem Anos. No entanto as empresas de Filipe Augusto contra os ingleses (conquista da Normandia) e os flamengos (campanha de Bouvines), as expedições militares, sobretudo dos senhores do Norte e, depois, dos reis Luís VIII e São Luís contra as populações meridionais, e enfim as campanhas de Filipe, o Belo, contra os ingleses no Sudoeste e contra os flamengos no Nordeste foram marcadas por um certo número de sítios de cidades». In Jacques le Goff, O Apogeu da Cidade Medieval, 1980, Livraria Martins Fontes Editora, 1989, 1992, ISBN 978-853-360-127-1.

Cortesia de LMartinsFontesE/JDACT

sábado, 14 de janeiro de 2017

O Apogeu da Cidade Medieval. Jacques le Goff. «Aries compunha-se de quatro elementos, a cité, o burgo antigo, o burgo novo e o mercado, cada qual com sua muralha e sua administração»

jdact

A cidade e o exterior. As muralhas
«(…) Nem todas as cidades medievais foram cercadas por muralhas; muitas só o foram inteiramente após 1340, sob o efeito da Guerra dos Cem Anos. Ao contrário, numerosas aldeias foram fortificadas. E, não obstante, a muralha foi o elemento mais importante da realidade física e simbólica das cidades medievais. Embora seja provável que motivos militares tenham estado na origem da construção das muralhas, nem por isso estas deixaram de constituir, inspiradas no modelo dos muros, antigos ou lendários, que definem um espaço sagrado da cidade, o elemento essencial para a tomada de consciência urbana na Idade Média. A muralha foi a base material da identidade urbana e estabeleceu uma dialéctica do interior e do exterior que dominou a actividade urbana, dialéctica que a cidade medieval ocidental não chegará a realizar plenamente, até a perfeita distinção entre o interior e o exterior. A cidade medieval situa-se entre dois tipos de cidades que souberam, com ou sem muralha, separar-se radicalmente do campo: a cidade antiga, que vivia na oposição urbs/rus e mantinha a rusticidade no exterior, e a cidade industrial e pós-industrial, que devorou o campo. Em ambos os casos, o que permanecia de natureza não passava de uma imitação sofisticada da natureza, os jardins na Antiguidade, os espaços verdes hoje. A cidade medieval permanece mesclada ao campo, deixando fora de suas muralhas subúrbios e um arrabalde plantados no campo, acolhendo no interior de seus muros, em compensação, pedaços de campo, terrenos cultivados, prados, espaços vazios e, ocasionalmente, camponeses refugiados. O termo cidade campestre, dado às mais permeáveis ao campo, pode aplicar-se, na realidade, a qualquer cidade medieval. Em Novembro de 1388, o cronista Froissart, dirigindo-se a Orthez em companhia do conde de Foix, Gaston-Phébus, passa por Tharbes. A vista da cidade inspira-lhe a descrição de um verdadeiro ideograma urbano: Tharbes e uma bela e grande cidade, situada em pleno campo e no meio de belos vinhedos; tem cidade, cité e castelo, fechados por portas, muros e torres, e separados um do outro. Para muitas cidades medievais, com efeito, é um problema alcançar a unidade a partir da multiplicidade dos núcleos que a princípio se justapuseram ou, em todo caso, da frequente dualidade que opõe uma cidade antiga, a cité, cidade episcopal, senhorial, com grande proporção de eclesiásticos, a uma nova aglomeração nascida do artesanato e do comércio, o burgo. E o que Yves Barel chama de cidades divididas e cidades reunidas, a que prefiro cidades justapostas e cidades unificadas.
Essas cidades duplas ou múltiplas, cada qual dentro de sua muralha, nem sempre chegam, ou só chegam tardiamente, a se reunir. Em Nevers, a reunião do burgo e da cité foi realizada já no fim do século XII, no interior de uma mesma muralha, mas cada comunidade conservou sua administração particular. Em Narbonne e Arras não houve muralha de reunião, se bem que burgo e cité fossem contíguos. Em Limoges, 500 metros separavam a cité do burgo Saint-Martial, que a ultrapassou em importância em 1182, data aproximada da construção de uma muralha mais vasta, e burgo e cité só vieram a fundir-se coagidos e forçados pela Revolução, em 1792. Aries compunha-se de quatro elementos, a cité, o burgo antigo, o burgo novo e o mercado, cada qual com sua muralha e sua administração. Só em 1623 eles se reuniram dentro de uma mesma muralha. Em Nice, à cidade alta cercada por uma muralha desde o século XII se juntam, ao longo do século XIII, novos bairros, que se reúnem para formar o Puy de la Mer (Podium maris), a cidade inferior ou cidade baixa, cercada, no começo do século XIV, por uma muralha que se articula com a muralha da cidade alta, mas sem fundir-se com ela nem englobá-la. Em Carcassonne, como vimos, a cité protegeu-se em três etapas. De 1228 a 1239, trata-se essencialmente de reparar e reforçar a velha muralha do Baixo Império. Após o cerco de 1240, para proteger a cité, São Luís fez destruir o burgo e os subúrbios que se apoiavam à muralha e mandou construir na outra margem do Aude uma cidade nova para os habitantes refugiados. Uma terceira campanha, entre 1280 e 1287, consolidou e alargou um pouco os muros da cité. No entanto, a dualidade das comunidades não impediu, muitas vezes, que se encontrassem para certos problemas terrenos de acordo, manifestando o espírito de unidade que penetrava cada vez mais os habitantes. Em Rodez o hopital du Pas, atestado em 1192 e situado na fronteira entre o burgo e a cité, devia prestar contas anualmente aos cônsules das duas comunidades». In Jacques le Goff, O Apogeu da Cidade Medieval, 1980, Livraria Martins Fontes Editora, 1989, 1992, ISBN 978-853-360-127-1.

Cortesia de LMartinsFontesE/JDACT

quinta-feira, 29 de setembro de 2016

O Apogeu da Cidade Medieval. Jacques le Goff. «A grande maioria desses lugares de origem é constituída por aldeias. O caso de La Rochelle, para a qual possuímos uma lista dos nomes dos lugares de origem dos burgueses em 1224, é diferente»

jdact

1150-1330. O povoamento urbano
«(…) Embora menos intensa, a actividade de criação urbana entre 1150 e o começo do século XIV não foi inexistente nas regiões setentrionais do reino, e em especial, precocemente, no condado de Flandres, onde prossegue o dinamismo demográfico económico e urbano do período anterior. No início do reinado do conde Filipe da Alsácia (1168-1191), associado ao seu pai desde 1157, novas cidades, como Gravelines (1163), Nieuport, Damme (1180), Biervliet (1183), Mardick e Dunkerque (c. 1183), portos situados às margens de estuários na proximidade da costa, testemunham uma política urbana do conde. Gravelines, por exemplo, fundada em 1163, desenvolveu-se rapidamente a partir de 1180. Esse aumento da superfície urbana, que é em grande parte uma superfície construída, provém do afluxo dos homens. Tais homens vêm do campo e, em sua maioria, do campo próximo. O século XIII, século do início do recenseamento, é também o século do surgimento dos nomes próprios, nomes de família, nomes de ruas. É sobretudo estudando os patronímicos urbanos, dos quais um número considerável é constituído pelo lugar de origem desses imigrados, em geral recentes, que se pode esboçar a história do povoamento das cidades. A distância entre lugar de origem e a cidade de imigração depende evidentemente da importância dessa cidade, de sua actividade, de seu poder de atracção. No Forez, a cidadezinha de Montbrison encontra, entre 1220 e 1260, 40% de seus imigrantes a menos de 10 km, 38% a uma distância entre 10 e 20 km, e apenas 3 famílias em cada 51 vêm relativamente de longe, uma de Lyon, uma de Auvergne e uma provavelmente de France (isto é, Ile-de-France no sentido amplo). Para o período 1260-1340, a atracção da cidade aumenta: 4/5 dos imigrantes provêm de um raio já não de 20, mas de 30 km. Entre 1300 e 1349, dois terços dos recém-chegados provêm de um raio de 40 km e para cada período algumas famílias vieram de lugares cada vez mais distantes (mesmo na Normandia e, no último período, da Itália e, talvez, da Espanha). Para uma aglomeração foreziana mais modesta, Saint-Haon-le-Chatel, no período 1252-1348, 78% dos imigrantes são originários de uma zona de 20 km em torno da cidade e 75% são certamente de origem rural.
Para uma grande cidade como Metz, um estudo pioneiro de Charles-Edmond Perrin em 1924 mostrou que os imigrantes do século XIII vieram essencialmente da região lorena e mais particularmente da zona de Metz, sobretudo das aldeias próximas. Todavia algumas famílias patrícias conservavam em seu patronímico a lembrança de uma origem remota: Estrasburgo, Colónia, Veneza, Troyes e Huy. Arras, como Metz, recebe no século XIII o essencial de sua população de um raio de 40 km ao redor da cidade. Para Reims, o estudo bastante preciso de Pierre Desportes, abrangendo os 600 nomes de lugares usados por famílias que figuram nas listas feitas entre 1304 e 1328, mostra que 50% dessas famílias são originárias de localidades situadas a menos de 3 léguas (cerca de 13 km) da cidade, 60% provêm de menos de 30 km, 35% do restante é proveniente das Ardenas. A grande maioria desses lugares de origem é constituída por aldeias. O caso de La Rochelle, para a qual possuímos uma lista dos nomes dos lugares de origem dos burgueses em 1224, é diferente. A atracção se exerce sobre a maior parte da França, especialmente Flandres, Normandia, Bretanha, e sobre a Itália (Lombardia e Génova), a Espanha (Santander, Pamplona, Saragoça) e a Inglaterra (Norwich, Londres, Southampton). É verdade que se trata de um porto e de uma cidade cuja actividade comercial e financeira (ligada sobretudo à exportação do vinho) se acha então em pleno desenvolvimento. Ressalta desses dados que no nível dos homens, em primeiro lugar, os laços das cidades com a sua terra, seu meio geográfico, são muito fortes e que a origem de sua população é sobretudo rural. Como essa população, segundo veremos, é muito móvel, pode-se dizer que a cidade é povoada em grande parte por camponeses recém-urbanizados. Insiste-se, e com razão, como veremos, no carácter semi-rural das cidades medievais. A penetração dos campos nas cidades faz-se inicialmente no nível dos homens. A França urbana medieval é em grande parte uma França rural da cidade». In Jacques le Goff, O Apogeu da Cidade Medieval, 1980, Livraria Martins Fontes Editora, 1989, 1992, ISBN 978-853-360-127-1.

Cortesia de LMartinsFontesE/JDACT

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

O Apogeu da Cidade Medieval. Jacques le Goff. «… o século das “bastides” (cidades fortificadas). Como o nome indica, o fenómeno é essencialmente um facto meridional, um fenómeno do Sudoeste. Ele afecta principalmente o Toulousain, o Albigeois, o Agenais e o Péri-gord»

jdact

1150-1330. O povoamento urbano
«(…) Com excepção de Estrasburgo, a maioria dessas cidades alsacianas surgiu na Idade Média, como Lille ou Montpelher, a primeira a partir de um castelo feudal, a segunda a partir de um posto de parada numa estrada de peregrinação, O cami roumieu (caminho de Roma), que se torna no século XI uma aglomeração de carácter comercial. Mas o crescimento urbano exprime-se também por criações propriamente ditas. No entanto, a maioria delas, pelo menos depois de 1150, não origina verdadeiras cidades, apesar de algumas realizações dos templários, que fundam aglomerações ao lado de algumas de suas comendadorias, como, em 1192, La Couvertoirade (Aveyron), cuja muralha circular, com suas portas e torres, acha-se bem conservada. Uma grande realização é Montauban, fundada em 1144 pelo conde de Toulouse, Alphonse Jourdain, defronte do burgo do mosteiro de Montauriol, cujos habitantes o abandonaram em massa para ir morar na nova cidade. Em pouco tempo Montauban cresceu e tornou-se importante. O papa de Avignon João XXII, elevou-a a bispado em 1317. O século XIII, após as sauvetés (aldeolas francas criadas durante o feudalismo, por iniciativa dos mosteiros, para servir de refúgio e proceder ao arroteamento) do século XII, é, na ordem das criações de aglomerações, o século das bastides (cidades fortificadas). Como o nome indica, o fenómeno é essencialmente um facto meridional, um fenómeno do Sudoeste. Ele afecta principalmente o Toulousain, o Albigeois, o Agenais e o Péri-gord. As bastides são antes de tudo criações de grandes personagens. Em primeiro lugar, seguindo o exemplo do conde de Toulouse, Raymond VII (criador, notadamente, de Cordes em 1222), os reis da França, São Luís, Filipe III, o Ousado,
Filipe IV, o Belo, o primeiro sobretudo através de seu irmão, Afonso de Poitiers, conde de Toulouse de 1249 a 1271, os outros por intermédio de Eustache de Beaumarchais, senescal de Toulouse de 1272 a 1294. Um documento de 1271 atribui a Afonso de Poitiers quarenta e cinco criações ou recriações (fecit, fecit fieri, fecit ãe novo, criou, fez criar, criou de novo), especialmente Sainte-Foy-la-Grande (c. 1250), Villeneuve-sur-Lot (1253), Villefranche-de- Rouergue (1256), Villefranche-de-Lauraguais (1271). No reinado de Filipe, o Ousado, e no início do reinado de Filipe, o Belo, aparecem outras, como Montréjeau, Revel (1280), Mi-rande (1282), Grenade-sur-Garonne (1290), Beaumont de Lomagne, etc. Os reis da Inglaterra, a oeste, fundam também suas bastides, entre as quais Créon, Libourne (1269), Beaumont-en-Périgord (1272), Monpazier (1285). Em menor grau, os grandes senhores da região, e em primeiro lugar os condes de Armagnac e os condes de Foix-Béarn, foram também fundadores de bastides. A última onda de bastides atingiu o Périgord entre 1261 e 1306 e, embora representem apenas 4% do habitat da região, as 23 bastides ali criadas forneceram 9 das 60 sedes de distrito de castelanias, ou seja, 15%. O que significa o fenómeno das bastides? Houve quem as considerasse o canto do cisne do movimento comunal, mas as lutas sociais não parecem ter desempenhado nenhum papel em sua criação. Foram vistas também como uma expressão do impulso demográfico do período, mas num momento em que esse impulso parece bastante atenuado. O aspecto militar nessa zona fronteiriça onde reis da França e da Inglaterra disputam asperamente o terreno também chamou a atenção, e é provável que os soberanos tenham visto aí pontos de apoio estratégicos, mas a maioria dessas bastides não foi fortificada durante longo tempo.
Finalmente, o grande especialista da questão, Charles Higounet, pensa que se trata sobretudo de uma Organização da ocupação do solo e de um agrupamento da população. Assim as bastides permanecem muito inseridas no tecido campesino, constituindo antes burgos rurais do que cidades propriamente ditas. Talvez seja sobretudo pela regularidade de sua planta, por uma certa ideia urbanística de sua estrutura, à qual voltaremos, que as bastides  trouxeram sua contribuição para a formação da França urbana. Mas pode ser que essa estrutura esteja igualmente ligada à dos solos. Sua presença na França urbana é, salvo excepções, marginal. Ao lado da criação de bastides, São Luís está na origem de duas realizações urbanas do Sul, entre o Ródano e o Garonne; Carcassonne e Aigues-Mortes. Carcassonne, fundada em 1247, após a destruição do subúrbio consecutiva à revolta de Raymond Trencavel, foi cercada de muralhas, em pedra somente do lado do rio, contra as inundações, o resto em terra batida, por ordem de Filipe, o Ousado, em 1276. Aigues-Mortes, concebida em 1240, dotada de um foral em 1246 e onde os genoveses tinham cônsules já em 1249, foi criada como base de partida para a cruzada. Só a torre de Constance foi construída no reinado de São Luís. O essencial das muralhas data do reinado de Filipe III e foram terminadas por Filipe, o Belo». In Jacques le Goff, O Apogeu da Cidade Medieval, 1980, Livraria Martins Fontes Editora, 1989, 1992, ISBN 978-853-360-127-1.

Cortesia de LMartinsFontesE/JDACT

sexta-feira, 16 de setembro de 2016

O Apogeu da Cidade Medieval. Jacques le Goff. «… o século das “bastides” (cidades fortificadas). Como o nome indica, o fenómeno é essencialmente um facto meridional, um fenómeno do Sudoeste. Ele afecta principalmente o Toulousain, o Albigeois, o Agenais e o Péri-gord»

jdact

1150-1330. O povoamento urbano
«(…) Com excepção de Estrasburgo, a maioria dessas cidades alsacianas surgiu na Idade Média, como Lille ou Montpelher, a primeira a partir de um castelo feudal, a segunda a partir de um posto de parada numa estrada de peregrinação, O cami roumieu (caminho de Roma), que se torna no século XI uma aglomeração de carácter comercial. Mas o crescimento urbano exprime-se também por criações propriamente ditas. No entanto, a maioria delas, pelo menos depois de 1150, não origina verdadeiras cidades, apesar de algumas realizações dos templários, que fundam aglomerações ao lado de algumas de suas comendadorias, como, em 1192, La Couvertoirade (Aveyron), cuja muralha circular, com suas portas e torres, acha-se bem conservada. Uma grande realização é Montauban, fundada em 1144 pelo conde de Toulouse, Alphonse Jourdain, defronte do burgo do mosteiro de Montauriol, cujos habitantes o abandonaram em massa para ir morar na nova cidade. Em pouco tempo Montauban cresceu e tornou-se importante. O papa de Avignon João XXII, elevou-a a bispado em 1317. O século XIII, após as sauvetés (aldeolas francas criadas durante o feudalismo, por iniciativa dos mosteiros, para servir de refúgio e proceder ao arroteamento) do século XII, é, na ordem das criações de aglomerações, o século das bastides (cidades fortificadas). Como o nome indica, o fenómeno é essencialmente um facto meridional, um fenómeno do Sudoeste. Ele afecta principalmente o Toulousain, o Albigeois, o Agenais e o Péri-gord. As bastides são antes de tudo criações de grandes personagens. Em primeiro lugar, seguindo o exemplo do conde de Toulouse, Raymond VII (criador, notadamente, de Cordes em 1222), os reis da França, São Luís, Filipe III, o Ousado,
Filipe IV, o Belo, o primeiro sobretudo através de seu irmão, Afonso de Poitiers, conde de Toulouse de 1249 a 1271, os outros por intermédio de Eustache de Beaumarchais, senescal de Toulouse de 1272 a 1294. Um documento de 1271 atribui a Afonso de Poitiers quarenta e cinco criações ou recriações (fecit, fecit fieri, fecit ãe novo, criou, fez criar, criou de novo), especialmente Sainte-Foy-la-Grande (c. 1250), Villeneuve-sur-Lot (1253), Villefranche-de- Rouergue (1256), Villefranche-de-Lauraguais (1271). No reinado de Filipe, o Ousado, e no início do reinado de Filipe, o Belo, aparecem outras, como Montréjeau, Revel (1280), Mi-rande (1282), Grenade-sur-Garonne (1290), Beaumont de Lomagne, etc. Os reis da Inglaterra, a oeste, fundam também suas bastides, entre as quais Créon, Libourne (1269), Beaumont-en-Périgord (1272), Monpazier (1285). Em menor grau, os grandes senhores da região, e em primeiro lugar os condes de Armagnac e os condes de Foix-Béarn, foram também fundadores de bastides. A última onda de bastides atingiu o Périgord entre 1261 e 1306 e, embora representem apenas 4% do habitat da região, as 23 bastides ali criadas forneceram 9 das 60 sedes de distrito de castelanias, ou seja, 15%. O que significa o fenómeno das bastides? Houve quem as considerasse o canto do cisne do movimento comunal, mas as lutas sociais não parecem ter desempenhado nenhum papel em sua criação. Foram vistas também como uma expressão do impulso demográfico do período, mas num momento em que esse impulso parece bastante atenuado. O aspecto militar nessa zona fronteiriça onde reis da França e da Inglaterra disputam asperamente o terreno também chamou a atenção, e é provável que os soberanos tenham visto aí pontos de apoio estratégicos, mas a maioria dessas bastides não foi fortificada durante longo tempo.
Finalmente, o grande especialista da questão, Charles Higounet, pensa que se trata sobretudo de uma Organização da ocupação do solo e de um agrupamento da população. Assim as bastides permanecem muito inseridas no tecido campesino, constituindo antes burgos rurais do que cidades propriamente ditas. Talvez seja sobretudo pela regularidade de sua planta, por uma certa ideia urbanística de sua estrutura, à qual voltaremos, que as bastides  trouxeram sua contribuição para a formação da França urbana. Mas pode ser que essa estrutura esteja igualmente ligada à dos solos. Sua presença na França urbana é, salvo excepções, marginal. Ao lado da criação de bastides, São Luís está na origem de duas realizações urbanas do Sul, entre o Ródano e o Garonne; Carcassonne e Aigues-Mortes. Carcassonne, fundada em 1247, após a destruição do subúrbio consecutiva à revolta de Raymond Trencavel, foi cercada de muralhas, em pedra somente do lado do rio, contra as inundações, o resto em terra batida, por ordem de Filipe, o Ousado, em 1276. Aigues-Mortes, concebida em 1240, dotada de um foral em 1246 e onde os genoveses tinham cônsules já em 1249, foi criada como base de partida para a cruzada. Só a torre de Constance foi construída no reinado de São Luís. O essencial das muralhas data do reinado de Filipe III e foram terminadas por Filipe, o Belo». In Jacques le Goff, O Apogeu da Cidade Medieval, 1980, Livraria Martins Fontes Editora, 1989, 1992, ISBN 978-853-360-127-1.

Cortesia de LMartinsFontesE/JDACT

O Apogeu da Cidade Medieval. Jacques le Goff. «Em Metz, em meados do século XII, à muralha galo-romana acrescenta-se uma muralha que protege o subúrbio mais activo do ponto de vista económico, o Neufbourg, ao sul, até Champ e Seille»

jdact

1150-1330. O povoamento urbano
«(…) Portanto, sem poder medir o crescimento da população urbana, pode-se avaliar de maneira aproximada, para as cidades mais importantes, o ponto de chegada quantitativo, no princípio do século XIV. Mas as estimativas variam entre 80.000 e 200.000 habitantes. Embora a primeira estimativa seja mais verossímil, ela coloca Paris no nível das maiores cidades italianas, Veneza, Milão, Florença. Depois de Paris, Rouen e Montpellier provavelmente contavam cerca de 40.000 habitantes, Toulouse 35.000, Tours 30.000, Orléans, Estrasburgo e Narbonne 25.000, Amiens, Bordeaux, Lille e Metz 20.000. A população de Arras, Avignon, Beauvais, Bourges, Dijon, Douai, Lyon, Marselha e Reims situar-se-ia entre 10.000 e 20.000 habitantes. As grandes cidades da Flandres condal, Gand, Bruges, Tournai e Ypres, seriam povoadas respectivamente por 60.000, 30.000, 20.000 e 10.000 habitantes, aproximadamente. Essas cidades conheceram, ao longo de um século e meio, um intenso crescimento, com fases de aceleração e de desaceleração. Em meados do século XII, Lille adquire uma muralha que devia conter cerca de 80 ha. Na metade do século XIII, uma nova muralha eleva essa superfície a 100 ou 115 ha, englobando a ilha de Rihour, as pradarias adjacentes e o subúrbio de Weppes.
Em Metz, em meados do século XII, à muralha galo-romana acrescenta-se uma muralha que protege o subúrbio mais activo do ponto de vista económico, o Neufbourg, ao sul, até Champ e Seille. No primeiro terço do século XIII, construiu-se uma nova muralha que englobou os subúrbios de além-Seille, Port-Moselle e além-Moselle. No final do século a muralha do bairro de além-Seille foi modificada para incluir a Greve. A muralha encerrava então uma superfície de 159 ha, enquanto a cidade romana cobria apenas 70 ha. Em Reims, o crescimento urbano é favorecido pelo arcebispo Guillaume de Champagne, Guillaume das Mãos Brancas, tio de Filipe Augusto (1176 -1202). A partir de 1183, ele realizou o loteamento da totalidade de seu domínio em torno de uma artéria central, a Nouvele Couture, e concedeu um foral aos habitantes do novo burgo. Loteou também uma parte do Jard (cercado) episcopal, que se tornou o Jard-au-Drapiers ou Jard-l‘Archevêque. Por sua vez, os cónegos do capítulo urbanizaram o território denominado Terra Comum, e a abadia de Saint-Remi loteou os terrenos entre o mosteiro e o Vesle, em 1205, menciona-se ali uma rue des Moulins [rua dos moinhos]. Aqui, como em muitas outras cidades da época, teve-se uma visão ampla e ambiciosa: nem todo o espaço oferecido foi ocupado; mas a superfície construída quase duplicou. Essa explosão urbana concentra-se no período 1160-1210: já nesta última data, a cidade atingiu seus limites extremos para o período medieval. Contrariamente ao período anterior, a urbanização, desta vez, é dirigida. Fruto da vontade de um homem e não mais obra colectiva de gerações sucessivas, a segunda fase de desenvolvimento foi muito diferente. A lenta e cega progressão em mancha de óleo sucede o salto deliberado e organizado... Desta vez a urbanização precede o povoamento em vez de ser a sua consequência... Em Reims, os urbanistas dos anos 1180-1210 fixaram definitivamente a configuração de sua cidade por vários séculos. Em 1209, Filipe Augusto decide a construção de uma muralha, mas os urbanistas de Reims só a realizarão no século XIV.
Em Montbrison, a cidade também se desenvolve e conhece uma aceleração de seu impulso entre 1190 e 1220. O castelo tornou-se a residência habitual do conde do Forez, o mercado deixou de ser local para tornar-se regional, Montbrison se estende de ambos os lados do Grand Chemin, onde o tráfico comercial se intensifica. Em Montpellier, cujo nome aparece em 985 e que possui uma primeira muralha em 1901, constrói-se na segunda metade do século XII uma nova muralha, o muro comum, que engloba novos subúrbios. Em 1180, nos 40 ha fechados vivem provavelmente perto de 10.000 habitantes. No curso do século XIII essa população quadruplicará. Em Aix-en-Provence, já no fim do século XII, a superfície das três cidades que compõem a aglomeração (cidade condal, vila de Tours, burgo Saint-Sauveur) já duplicou desde a Alta Idade Média. Durante o século XIII, os muros são transbordados por todos os lados e novos bairros brotam do outro lado de cada lanço de muralha. Uma muralha circunda antes de 1270 um novo bairro de casas construídas que se instalou sobre terrenos ditos incultos, entregues, porém, a uma cultura intensiva, o futuro burgo dos Ingleses. A superfície ocupada pela cidade ainda duplicou, ou mais que isso, entre 1200 e a Peste Negra. Entre 1060 e o final do século XII, em Avignon, o número dos moinhos quase duplicou, uma muralha anterior a 1223 circunda 38 ha, o dobro do que encerrava a muralha do século X. Na Alsácia, graças ao Atlas de F. Himly, pode-se determinar facilmente as ampliações do solo urbano ocupado no interior de sucessivas muralhas. Em Colmar, uma primeira muralha é construída por volta de 1220, uma segunda, que engloba os subúrbios, é erigida de 1232 a 1328 e faz mais que duplicar a superfície da cidade. Em Erstein, a cidade encerrada numa muralha em 1260 é quase duplicada pelo muro do subúrbio do Niederheim em 1291. Em Haguenau, a cidade encerrada numa primeira muralha por volta de 1150 é englobada num espaço cerca de quatro vezes maior por volta de 1230 e absorve o Konigsau (castelo imperial, dotado de uma muralha por volta de 1114) antes de conhecer um novo crescimento considerável na terceira muralha, por volta de 1300. Em Ribeauville são quatro cidades que se cercam sucessivamente de muralhas, a cidade antiga (Altstadt) antes de 1287, a cidade baixa (Unterstadt) e a cidade média por volta de 1298, o burgo superior (Oberdorf) antes de 1341. Em Sélestrat, três muralhas se sucedem, em 1216-1230, 1280 e 1370-1425. Estrasburgo conhece durante o nosso período duas ampliações que acarretam novas muralhas, em 1202-1220 e de 1228 a 1334. Wissemborg constrói uma primeira muralha que engloba a abadia de São Pedro e São Paulo, do século VII, e seu núcleo, fortificado antes de 1179, conhece uma primeira ampliação com o subúrbio de Bruch antes de 1213 e uma segunda com o subúrbio do Bannacker antes de 1265». In Jacques le Goff, O Apogeu da Cidade Medieval, 1980, Livraria Martins Fontes Editora, 1989, 1992, ISBN 978-853-360-127-1.

Cortesia de LMartinsFontesE/JDACT

sexta-feira, 1 de julho de 2016

O Apogeu da Cidade Medieval. Jacques le Goff. «Passa-se da cidade selvagem e conquistadora à “boa” cidade. Jerusalém, a cidade da esperança, não triunfou sobre Babilónia, a cidade da desordem»

jdact

1150-1330
«De meados do século XII a cerca de 1340, o desenvolvimento da cristandade latina atinge o seu apogeu. Nesse apogeu a França ocupa o primeiro lugar e o grande movimento de urbanização está no auge. As cidades são uma das principais manifestações e um dos motores essenciais dessa culminação medieval. A actividade económica, cujo centro são as cidades, chega ao seu mais alto nível. Sob a égide de uma Igreja que se adapta à evolução e triunfa sobre a ameaça herética, particularmente viva em certos meios urbanos, uma nova sociedade, marcada pelo cunho urbano, manifesta-se num relativo equilíbrio entre nobreza, que participa do movimento urbano mais do que se tem afirmado, burguesia que dá o tono, se não o tom, à sociedade, e classes trabalhadoras, das quais uma parte, urbana, fornece a massa de mão-de-obra às cidades, e a outra, rural, alimenta a cidade e é penetrada por seu dinamismo. A cultura, a arte e a religião têm uma fisionomia eminentemente urbana. Mas a cidade tende também a se instalar, se não a estacionar. Ela cristaliza seu corpo físico nos lugares em que se fixou, quase sempre no interior das muralhas onde se encerra, institucionaliza seu impulso político numa comunidade vitoriosa mas estabilizada, sua actividade produtora se organiza segundo uma tendência corporativa, sua efervescência escolar e intelectual se acomoda nas universidades. Ela estabelece sua imagem e constrói seu imaginário e sua ideologia. Mas acima dela o poder monárquico insere-a numa construção que a ultrapassa e a submete. Passa-se da cidade selvagem e conquistadora à boa cidade. Jerusalém, a cidade da esperança, não triunfou sobre Babilónia, a cidade da desordem. Em breve, a partir de 1260, com velocidade maior ou menor, conforme as regiões, desequilíbrios estruturais da economia e da sociedade, marcados por uma longa crise conjuntural que se aprofunda e se manifesta a princípio nas cidades, conduzem a uma crise de múltiplos aspectos. A activação dos distúrbios sociais evoca uma realidade de desigualdades e lutas que uma harmonia de fachada mascarara durante algum tempo, as crises monetárias mostram a fragilidade de uma economia baseada no dinheiro com a qual as cidades quase se haviam identificado, a multiplicação das reclusões e das exclusões revela o aumento do número de marginais de todos os tipos, a teologia, a literatura e a arte deixam transparecer a inquietude que se exprime principalmente nas cidades. No Concilio de Vienne-sur-le-Rhone, em 1311, os contestatários franciscanos fazem a acusação da cidade.

Crescimento e tomada de consciência urbana
Em nosso período termina o que Sidney Packard chama de revolução urbana do século XII. Embora não seja certo que haja uma revolução nas estruturas, é indubitável a existência de uma revolução quantitativa. O número de cidades e o de sua população conhecem entre 1150 e 1340, sobretudo entre 1150 e 1300, aproximadamente, um crescimento espectacular. Por certo, é difícil aventar cifras. Será preciso chegar ao fim do século XIII e principalmente ao início do XIV para que, a partir dos documentos fiscais provindos seja das cidades, seja do governo monárquico, os primeiros a proceder a recenseamentos depois do século XIII, que viu a sensibilização ao número e as instituições doravante habituadas a contar, urbanas e monárquicas, levantar listas de chefes de família tributáveis, se possam aventar aproximações documentadas. Restam, pois, métodos indirectos de avaliação dos quais o principal é a estimativa, delicada, do crescimento das superfícies urbanas ou urbanizadas. O aumento do perímetro das muralhas, o aparecimento de burgos e subúrbios, a multiplicação das paróquias, dos conventos e das casas permitem concluir por um considerável crescimento urbano e sugerir proporções. Os especialistas em demografia histórica são mais ou menos concordes em estimar que a população global do reino da França no mínimo duplicou entre os anos mil e 1328, passando de cerca de 6 milhões de habitantes para 13,5 milhões, 16 a 17 milhões com as regiões que desde então se tornaram francesas. Nesse número o crescimento da população deve ter sido proporcionalmente muito superior à média e da ordem, para nos mantermos prudentes, do triplo da população inicial; e múltiplos indícios levam a pensar que o essencial desse crescimento ocorreu entre 1150 e 1300, aproximadamente. Enfim, cumpre sublinhar que o impacto das variações da população urbana sobre a vida de uma nação é nitidamente maior que o das variações da população rural. Fernand Braudel escreveu: as cidades são como transformadores eléctricos; aumentam as tensões, precipitam as trocas, urdem incessantemente a vida dos homens..., são os aceleradores de todo o tempo da história. O peso dos homens é maior nas cidades. Essas cidades mais populosas afirmam ao mesmo tempo sua personalidade. Observou-se com humor, mas não sem exactidão, que os habitantes das novas cidades, e não todas, porque, cabe repeti-lo, a cidade medieval já não é a cidade da Antiguidade e da Alta Idade Média, não pensavam, ao obter os forais, as franquias, em criar uma cidade. Pensavam em formar uma comunidade capaz de fazer frente aos senhores, mas ainda sem nome próprio (cives, hospites, oppidani, isto é, cidadãos, hóspedes, habitantes de uma praça forte, ou ainda, simplesmente, habitatores, habitantes, ou mesmo incolae ou homines, termo ao mesmo tempo muito geral e que evoca um vínculo de dependência em face de um senhor), num lugar igualmente sem personalidade própria (civitas, ainda cidade, ou burgus, burgo, suburbium, subúrbio, oppidum, praça forte, ou mais vagamente locus, lugar, ou villa, que designa indistintamente cidade ou aldeia). O nome que esses beneficiários dos privilégios urbanos vão usar de preferência, burgenses, apenas continuará designando uma parte da população das cidades, mas a palavra francesa que o traduz, borjois, baptizará uma classe social, a burguesia, que triunfará no século XIX com o capitalismo e uma nova revolução urbana, a da cidade, nascida da revolução industrial. Quanto à própria cidade, é de facto o nome que ela vai tomar de preferência, ville, villa nas regiões de língua de oc, enquanto as regiões de fala germânica, essencialmente a Alsácia no que concerne à França urbana, adoptarão Stadt.
Nem sempre chegando à unidade física e jurídica, as cidades, entre 1150 e 1300, tomarão por si mesmas uma consciência a princípio física, separando-se quase sempre por muralhas do exterior não-urbano, adquirindo uma estrutura interna com pontos de referência emblemáticos. Num tempo em que a religião e a Igreja conferem a qualquer realidade sua expressão ideológica, um novo quadriculado eclesiástico de dois componentes, um transformado, da velha rede paroquial e outro, novo, dos conventos das ordens medicantes, nascidos no começo do século XIII, nas cidades e para as cidades, exprimirá essa primeira tomada de consciência urbana». In Jacques le Goff, O Apogeu da Cidade Medieval, 1980, Livraria Martins Fontes Editora, 1989, 1992, ISBN 978-853-360-127-1.

Cortesia de LMartinsFontesE/JDACT

quinta-feira, 26 de maio de 2016

O Maravilhoso e o Quotidiano no Ocidente Medieval. Jacques le Goff. «Entre estes encontra-se Pedro, que se alimenta de rebentos novos das plantas e construiu para si uma “casinha” com cascas de árvore»

jdact

O Deserto-Floresta no Ocidente Medieval
«(…) Qual foi a realidade da floresta no Ocidente medieval? Para Gaston Roupnel, na sua célebre Histoire de la champagne française, a floresta foi para o homem, do Neolítico até ao fim da Idade Média, ao mesmo tempo o espaço indispensável que prolongava e completava os seus campos e o lugar dos seus temores lendários: neste limiar sagrado que tudo protegia, o desbravador primitivo suspendeu uma vez por todas as suas campanhas profanas. Charles Higounet redigiu o inventário e o mapa das florestas da alta Idade Média, época que conheceu, de 500 a 1200, mais ou menos, uma fase climática quente e, por conseguinte, um retorno ofensivo da floresta. Entre estas florestas europeias, Higounet distingue a floresta das Ardenas, que desde o tempo dos Celtas era a floresta por excelência. Regista o aparecimento, ao lado do italiano, do castelhano [e do português] selva, que continua o termo latino silva, e do germânico wald, do termo forestis ou foresta, que dará forêt em francês, [floresta, em português], Forst em alemão, forest em inglês. A mais antiga atestação conhecida do termo associa por outro lado a ideia de floresta à ideia de solidão. Trata-se de um diploma de Sigeberto III, de 648, para a abadia de Stavelot-Malmédy: na nossa floresta chamada Ardenas, vasta solidão onde se reproduzem os animais selvagens.
A palavra deriva sem dúvida da expressão silva forestis, uma selva que depende do tribunal, forum, do rei. Designa na sua origem uma reserva de caça; tem um significado jurídico. Assim, os homens da segunda função indo-europeia, os guerreiros, os bellatores, os homens da força física, tentaram apropriar-se da floresta durante a Idade Média e fazer dela o seu terreno de caça. Mas tiveram de dividi-la com os homens da primeira função, os oratores, os quais, por via da apanha, da lenha, do carvão, do mel., etc., fizeram dela um território suplementar da actividade económica. Mas todos, na realidade, foram para lá sobretudo para se marginalizarem, para se comportarem como homens da natureza, fugindo ao mundo da cultura em todos os significados da palavra.
Para voltarmos à floresta material do Ocidente medieval, sublinhemos com Charles Higounet que ela serviu de fronteira, de refúgio para os cultos pagãos, para os eremitas que vieram procurar lá, o deserto (eremum), para os vencidos e os marginalizados: servos fugitivos, assassinos, aventureiros, malfeitores; mas também que ela foi útil, preciosa, reserva de caça, terreno de apanha, inclusivamente para o mel, com o qual se produzia a bebida mais espalhada em toda a Europa, e a cera para iluminar as igrejas, lugar de extracção da madeira, da indústria vidreira e da metalurgia, campo de pastagem para os animais domésticos, em particular para os porcos. Marc Bloch tinha já assinalado a dupla face da floresta medieval, que cobria espaços muito maiores que hoje, com manchas muito salpicadas de clareiras. Ela era ao mesmo tempo repulsiva e desejável: sob tantos aspectos tão pouco hospitaleira, a floresta não era contudo de modo algum inútil. Mas evocava os textos antigos que falam da opacidade, da densidade das florestas.
Em Les caractères originaux de l’Histoire rurale française, ainda Bloch, depois de ter sublinhado que a floresta medieval estava longe de estar não aproveitada e vazia de homens, evoca a chusma pouco tranquilizadora dos trabalhadores da floresta: todo um mundo de boisilleurs muitas vezes suspeito aos sedentários percorria-a ou nela construía as suas cabanas: caçadores, carvoeiros. artífices, pesquisadores de mel e de cera selvagens (os bigres dos textos antigos), fabricantes de cinzas que eram empregadas na indústria do vidro ou do sabão, tiradores de cascas de árvores que serviam para curtir os couros ou também para entrançar cordas. Eis os habitantes deste deserto, vagabundos muitas vezes suspeitos aos sedentários! Entre os inúmeros documentos sobre a floresta medieval. fixemo-nos num grupo de três publicado recentemente. O primeiro é de um beneditino, Lambert Hersfeld, que, nos seus Anais, com referência a Agosto de 1073, conta um episódio da luta do imperador Henrique IV contra os Saxões. Evoca a densa floresta germânica, imensa e vazia (vastíssima), dificilmente penetrável, não hospitaleira, porquanto Henrique e os seus companheiros por pouco não morreram de fome lá dentro, assustadora, menos para um caçador habituado a orientar-se no segredo das florestas. O segundo documento é um texto hagiográfico tirado da Vida de S. Bernardo de Tiron, escrita por Gaufredus Grossus no início do século XII: ele descreve as vastas solidões que se encontram nos confins do Maine e da Bretanha, como um segundo Egipto povoado de uma multidão de eremitas. Entre estes encontra-se Pedro, que se alimenta de rebentos novos das plantas e construiu para si uma casinha com cascas de árvore.
Quando Bernardo e alguns outros vão ter com ele, ele vai com os seus cestos para a floresta que rodeava por todos os lados a área da sua morada, apanha rapidamente vergônteas de espinhos e de silvas, colhe os frutos das aveleiras e outras árvores selvagens. Por fim, encontra na cavidade de um tronco um enxame de abelhas com cera e mel em tal quantidade que se julgaria terem estas riquezas saído do próprio corno da abundância. Aqui sente-se o eco da concepção paradisíaca do deserto, herdada da literatura monástica da alta Idade Média. O terceiro texto é célebre: Sugero conta nele como, para construir a armação da basílica de Saint-Denis, foi percorrer, contra a opinião geral, a floresta de Yveline e, através dos cortes, das manchas de sombra, das florestas de silvas, encontrou árvores suficientemente grossas e grandes para fazer doze traves. Vemos aqui em acção os utilizadores da floresta, que a reduzem ao estado de bosque para cortar madeira e nela vêem apenas uma fonte de matérias-primas». In Jacques le Goff, Il meraviglioso e il quotidiano nell’occidente medievale, Gius, Laterza, 1983, Roma, O maravilhoso e o quotidiano no ocidente medieval, Edições 70, Lisboa, 2010, ISBN 978-972-44-1563-5.

Cortesia de E70/JDACT

quarta-feira, 20 de abril de 2016

O Maravilhoso e o Quotidiano no Ocidente Medieval. Jacques le Goff. «A história do deserto, aqui e além, agora e logo, foi sempre feita de realidades espirituais e materiais misturadas entre si, de um vaivém constante entre o geográfico e o simbólico…»

jdact

O Deserto-Floresta no Ocidente Medieval
«(…) Nestes inícios do monaquismo cristão não haverá que contrapor demasiado rigidamente deserto e cidade. É verdade que os monges que procuravam a solidão fugiam da cidade. Mas o afluxo de monges, a valorização dos oásis e das zonas subdesérticas transformaram com frequência o deserto em cidade. Uma expressão da Vida de Santo Antão, na sua tradução latina, tornou-se um topos da literatura monástica: desertum civitas, o deserto-cidade. Como mostrou Paul-Albert Février, no Ocidente latino da alta Idade Média os modelos urbanos da antiguidade tardia, ainda tão vivos, impuseram-se aos monges. O mosteiro tornou-se uma microcidade e, sobretudo, os grandes mestres do monaquismo latino realizaram na sua vida e no seu ensinamento uma espécie de equilíbrio pendular entre a cidade e o deserto. Foi esse o caso de S. Martinho, que dividiu a sua vida entre a solidão do mosteiro de Marmoutier e a sede episcopal de Tours, de João Cassiano, vindo dos desertos egípcios próximos da solidão insular de Lérins, em frente da cidade de Marselha; de Paulino, que veio estabelecer-se ao lado das relíquias de S. Félix, nas proximidades de Nola, e que teve de aceitar ir residir como bispo da cidade. Esta respiração alternada entre o retiro nos eremitérios e o apostolado urbano encontrá-la-emos também no franciscanismo.
Mas o deserto é também o lugar de encontro com Satanás e os demónios, se bem que este tema da espiritualidade oriental do deserto não tenha tido no Ocidente da alta Idade Média o mesmo sucesso que no Oriente. Euquério refere-se apenas de passagem às tentações do Inimigo que vagueia em vão em torno do eremitério como o lobo à volta do rebanho. O perigo que atacará o eremita ocidental no deserto é o tédio existencial e metafísico: accedia. O deserto insular foi ainda mais procurado pelos monges célticos e nórdicos. Eles escreveram um grande capítulo da antropologia histórica do deserto marítimo, dos desertos do mar e do frio. O mar substituiu para estes monges o deserto egípcio. S. Brendano, cujas peregrinações marítimas foram narradas por um livro de sucesso na Idade Média, Navigatio sancti Brendani, vai de ilha em ilha, encontrando monstros e coisas maravilhosas, evita a ilha do Inferno e aporta finalmente à ilha do Paraíso. Na vida de um destes monges errantes pelo Oceano, escrita nos derradeiros anos do século VI por um deles, Columba, diz-se que eles esperavam encontrar o deserto no mar inultrapassável (desertum in pelago intransmeabili invenire optantes).
Mas estes eremitas insulares e marítimos não serão mais do que a franja extrema e efémera dos marginais do deserto no Ocidente. Neste mundo temperado, sem grandes extensões desérticas e áridas, o deserto, o mesmo é dizer, a solidão, assumirá um aspecto absolutamente diferente, quase exactamente o contrário do deserto sob o aspecto da geografia física: será, a floresta. O itinerário do mais célebre desses monges irlandeses, Columbano (540-615), é exemplar. Em 575 faz-se ao mar, mas em direcção ao continente. Da Armórica passa à Gália. O rei da Borgonha, Gontrano, propõe-lhe que se estabeleça em Annegray, nos Vosgos. O sítio agrada-lhe, escreverá o seu biógrafo, Giona di Bobbio, por volta de 640, porque estava no meio de uma floresta: é um vasto deserto, uma áspera solidão, uma terra pedregosa. De Annegray e do mosteiro próximo de Luxeuil Columbano terá de afastar-se, escorraçado pelo rei Teodorico II, a pedido da sua terrível avó, Brunilde. Após uma longa peregrinação, o velho chega à Itália Setentrional e escolhe aí, em 613, um lugar isolado numa floresta: Bobbio. Para construir o mosteiro, o velho abade faz-se uma vez mais monge lenhador. A história, a lenda, de um outro santo irlandês, Rónan, que veio estabelecer-se na Bretanha continental, retoma os temas do deserto-floresta. Entra-se pelo..., deserto dentro e chega-se à floresta de Nemet (ou Nevet) na Cornualha. À força de milagres protege a vizinhança dos lobos. Mas suscita a cólera de Satanás, que, servindo-se de uma camponesa, a diabólica Kéban, acaba por expulsá-lo de lá. A história do deserto, aqui e além, agora e logo, foi sempre feita de realidades espirituais e materiais misturadas entre si, de um vaivém constante entre o geográfico e o simbólico, o imaginário e o económico, o social e o ideológico». In Jacques le Goff, Il meraviglioso e il quotidiano nell’occidente medievale, Gius, Laterza, 1983, Roma, O maravilhoso e o quotidiano no ocidente medieval, Edições 70, Lisboa, 2010, ISBN 978-972-44-1563-5.

Cortesia de E70/JDACT

terça-feira, 26 de janeiro de 2016

O Maravilhoso e o Quotidiano no Ocidente Medieval. Jacques le Goff. «Na visão paradisíaca do deserto há que não esquecer a familiaridade dos que lá vivem, ou para lá se retiram, com os animais selvagens. É o modelo de Antão e de Paulo…»

jdact

O Deserto-Floresta no Ocidente Medieval
«(…) O deserto de Paulo, Primeiro Eremita, é uma montanha, uma caverna, uma palmeira e uma fonte. Ele vive aí, revestido de folhas de palmeira e alimentado, todos os dias, de um meio pão que lhe é trazido por um corvo. Quando morre, dois leões saem correndo do fundo do deserto, com as suas longas jubas que lhes esvoaçam no pescoço. Depois de terem acariciado o corpo do velho com as suas caudas, enquanto emitem altos rugidos à maneira de oração fúnebre, escavam-lhe uma sepultura com as suas garras e nela o sepultam. Depois, abanando as orelhas e com a cabeça baixa, vão lamber os pés e as mãos de Antão, que assiste estupefacto à cena e os abençoa. O modelo eremítico de Antão é muito semelhante ao de Paulo. Também ele, na última parte da sua vida, depois dos sessenta anos, vive na montanha, numa gruta, num lugar que os viajantes modernos descrevem como particularmente árido e austero, e que a Vida de Atanásio apresenta como um paraíso terrestre. Também ele vive dos frutos de uma palmeira e dos pães que lhe trazem sarracenos-homens negros, como negra era a ave de Paulo. Mas a primeira parte da vida eremitíca de Antão consistiu num longo combate contra as visões de monstros e de demónios aterradores que o assaltam. É o teatro da sombra das tentações.
Estes temas são inesgotavelmente retornados, multiplicados, embelezados em duas grandes recolhas hagiográficas: Consulationes, redigidas no início do século V por João Cassiano, que viveu entre os eremitas orientais, e Vidas dos Padres, um complexo conjunto de histórias traduzidas em grego, que começa a circular no Ocidente no mesmo período. Como se disse, o deserto dos monges egípcios apresenta-se como o lugar do maravilhoso, por excelência; o monge encontra lá o demónio de um modo que pode dizer-se inevitável, porque o demónio, no deserto, está em sua casa; mas o monge encontra também no deserto, de certo modo, o Deus que lá veio procurar. O eremitismo ocidental, à procura de desertos geográficos e espirituais. parece ter preferido, num primeiro momento, as ilhas. É o caso no Mediterrâneo, de Lérins. onde a noção de deserto oscila entre uma concepção paradisíaca e uma concepção de prova. É um lugar de libertação para os que correm para a liberdade da solidão, o porto da salvação, como um canto do paraíso, segundo Cesário Arles.
Na visão paradisíaca do deserto há que não esquecer a familiaridade dos que lá vivem, ou para lá se retiram, com os animais selvagens. É o modelo de Antão e de Paulo, que, à falta de leões no Ocidente, faz do urso, do veado, do esquilo, os amigos e os interlocutores dos eremitas. De S. Columbano pôde dizer-se: quer em Luxeuil quer em Bobbio, manifestou sempre para com os animais uma simpatia quase franciscana. S. Godrico, que morreu em 1170, tendo-se retirado para viver na solidão de Finchdale, perto de Durham, acolhe na sua cela os coelhos e as lebres perseguidos pelos caçadores. É o deserto asilo, o refúgio no refúgio. O imaginário romanesco prescindirá da zoologia e fará de um leão o companheiro de Yvain. um S. Jerónimo cortês, no romance de Chrétien de Troyes. No seu Elogio do Deserto, o aristocrático Euquério de Lião, que se retira para Lérins entre 412 e 420. depois de ter evocado todos os episódios famosos do Antigo e do Novo Testamento que tiveram lugar no deserto (eremus = desertum, precisa ele), declara que o deserto monástico é o lugar de todos os carismas e de todas as teofanias. O ingresso no deserto é encarado, segundo uma expressão de S. Jerónimo, como um segundo baptismo». In Jacques le Goff, Il meraviglioso e il quotidiano nell’occidente medievale, Gius, Laterza, 1983, Roma, O maravilhoso e o quotidiano no ocidente medieval, Edições 70, Lisboa, 2010, ISBN 978-972-44-1563-5.

Cortesia de E70/JDACT

sexta-feira, 8 de maio de 2015

O Maravilhoso e o Quotidiano no Ocidente Medieval. Jacques le Goff. «Numa atmosfera mais delirante que o romantismo mais desenfreado de um Victor Hugo, o velho presta homenagem ao mais velho que ele, compete em cumprimentos e volta para sepultá-lo num sudário que vai buscar ao seu próprio eremitério»

jdact

O Deserto-Floresta no Ocidente Medieval
«(…) Os modelos culturais do Ocidente medieval derivam primeiro que tudo da Bíblia, isto é, do Oriente. O deserto é lá uma realidade ao mesmo tempo geográfico-histórica e simbólica. Uma realidade ambivalente, portanto. Assassinado Abel, da descendência dos dois outros filhos de Adão e Eva nasceram, da parte de Set, a religião, pois que Enós, filho de Set, foi o primeiro que começou a invocar o nome de Javé, e da parte de Caim, a cultura, sobretudo a cultura material nas suas quatro formas principais: a vida citadina com o próprio Caim, que construiu a primeira cidade; a civilização pastoril do deserto com Jabal, descendente de Henoc, filho de Caim, que foi o iniciador daqueles que moram em tendas junto dos rebanhos; a arte sob a forma de música com Jubal, irmão de Jabal, que foi progenitor de todos os tocadores de cítara e de flauta; o artesanato, por fim, com Tubal-Caim, meio-irmão de Jubal e Jabal, que foi forjador de toda a espécie de cobre e de ferro.
Perante a cidade, criação de Caim, o deserto conserva ao longo de muito tempo a sua boa reputação no antigo Israel. Apesar das dificuldades da travessia do deserto por ocasião do Êxodo, a recordação do mundo do deserto deveria permanecer na memória dos Hebreus. É Javé quem o diz, quando é instituída a festa das tendas. De igual modo, no episódio de Agar, Javé mantivera um certo equilíbrio entre a vida no meio dos homens, onde habitavam Sara e Isaac, e o exílio no deserto, para onde Abraão se resignou a enviar Agar e Ismael, depois de Javé lhe ter dito: Não te preocupes com a criança e com a tua escrava. Faz tudo quanto Sara te pedir, pois de Isaac há-de nascer a posteridade que usará o teu nome. Contudo, farei sair também uma nação do filho da escrava, porque também ele é teu filho. Depois de a vida sedentária ter feito dos judeus um povo de citadinos e as imagens de Jerusalém e de Sião terem substituído por uma simbólica urbana as antigas prerrogativas do deserto, a ambivalência dos valores conexos com o deserto persistiu ainda. Nos Salmos, se se louva Javé pela construção de Jerusalém Aedificans Ierusalem Dominus, Salmos, a recordação agridoce do deserto está sempre presente, guiou o seu povo no deserto, e porque é eterna a sua misericórdia, Salmos. Mas o deserto valorizado no Antigo Testamento não é um lugar de solidão, é um lugar de provas, é sobretudo um lugar onde se vagueia, um lugar de não-fixação.
Não me deterei mais na imagem complexa e evolutiva do deserto no Antigo Testamento. Contrapôs-se, por exemplo, o deserto do Génesis, deserto do caos originário, depois anti-jardim imposto como castigo a Adão e por fim lugar de provas individuais para os patriarcas, ao deserto do Êxodo, o Sinai de Moisés e do povo hebreu, deserto colectivo onde se verifica a revelação decisiva de Javé. Foram também sublinhadas as estreitas ligações existentes entre o deserto, o oceano, a morte, o sheol, morada quase-infernal dos defuntos. Estas associações características do antigo judaísmo não se encontram no cristianismo, embora possamos perguntar-nos se por exemplo, os eremitas celtas, que, durante a Idade Média, procuravam o deserto no oceano, não teriam sido encorajados na sua procura pela leitura do Antigo Testamento. Com o Novo Testamento a imagem do deserto bíblico muda. Além de um lugar, o deserto no Antigo Testamento era uma época, um período da história santa, durante o qual Deus educou o seu povo.
Para Jesus, o Galileu, o deserto da Judeia em que vivia João Baptista, região quase vazia, constituída não de areia mas de montanhas, é um lugar perigoso, lugar de tentações mais ainda do que de provas. É a morada dos espíritos malignos, o lugar em que Satanás procura subitamente tentar Jesus: então Jesus foi conduzido pelo Espírito ao deserto para ser tentado pelo Diabo. Mas é também o lugar onde Jesus se refugia e procura a solidão. No Apocalipse, o deserto é o refúgio da Mulher, quer dizer, de Sião, do povo santo da idade messiânica, da Igreja dos crentes. Com o cristianismo tem início, no Oriente, a epopeia do deserto. Ela bem depressa transmitirá ao cristianismo latino ocidental alguns textos fundamentais que estão na base da hagiografia e da espiritualidade do deserto. O texto mais antigo é a Vida de Santo Antão, do grego Atanásio, bispo de Alexandria por volta de 360, cujo sucesso se estende quase de imediato ao Ocidente, mediante traduções latinas. A primazia de Santo Antão no eremitismo é pouco depois contestada por S. Jerónimo, que, por volta de 347(?), no deserto de Cálcide, a leste de Antioquia, escreve a Vida de Paulo de Tebas, primeiro eremita. Mas que importância tem a historicidade dos dois santos, a precedência de um ou do outro? O Ocidente medieval viu neles os grandes modelos do ideal desértico e Jerónimo, num golpe de génio, imaginou que Antão, com a idade de noventa anos, foi visitar Paulo, ultracentenário, no seu ermo. Numa atmosfera mais delirante que o romantismo mais desenfreado de um Victor Hugo, o velho presta homenagem ao mais velho que ele, compete em cumprimentos e volta para sepultá-lo num sudário que vai buscar ao seu próprio eremitério». In Jacques le Goff, Il meraviglioso e il quotidiano nell’occidente medievale, Gius, Laterza, 1983, Roma, O maravilhoso e o quotidiano no ocidente medieval, Edições 70, Lisboa, 2010, ISBN 978-972-44-1563-5.

Cortesia de E70/JDACT

terça-feira, 29 de julho de 2014

O Maravilhoso e o Quotidiano no Ocidente Medieval Jacques le Goff. «Mas o deserto, autêntico ou imaginário, desempenhou um papel importante nas grandes religiões euro-asiáticas: judaísmo, islamismo, cristianismo. Representou os valores opostos aos da cidade»

jdact

O Maravilhoso no Ocidente Medieval
«(…) Fronteiras do maravilhoso, enfim, que ameaçam o próprio maravilhoso, que assim corre o risco de dissolver-se: são as diferentes formas de recuperação. Reduzi-las-ia a três capítulos: a recuperação cristã em geral, a recuperação científica, a recuperação histórica. A recuperação cristã canalizou o maravilhoso, por um lado, para o milagre, por outro, para uma recuperação simbólica e parenética. Entre muitos, escolhemos um exemplo belíssimo. Trata-se da evolução das versões latinas do Physiologus. Inicialmente, temos versões que nos contam maravilhas sem que delas nos sejam apontados significados e explicações simbólicas. A seguir, e cada vez mais, as explicações simbólicas e parenéticas devoram, por assim dizer, a substância do Physiologus, enfraquecendo-o. Uma segunda forma de recuperação, muito interessante, é a recuperação científica de um certo número de intelectuais, de estudiosos, que possuíam verdadeiramente aquilo a que hoje chamaríamos o espírito científico. Estes tendem a fazer dos mirabilia fenómenos marginais, casos-limite, excepcionais mas não fora da ordem da natureza e verdadeiros, embora não tenham o aval da Bíblia. O melhor exemplo desta mentalidade é-nos proporcionado, parece-me, pelo próprio Gervásio Tilbury que, no prefácio a Otia Imperialia, desenvolveu longamente, em textos apaixonantes para a história do espírito científico, esta tendência para ligar os mirabilia como mundo natural e, por conseguinte, científico. Mirabiliavero dicimus quae nostrae cognitioni non subjacente etiam cum sint naturalia.
A pari passu com esta recuperação científica vai também a recuperação histórica. Trata-se do desejo de ligar os mirabilia a acontecimentos e datas. E, com este estratagema, os mirabilia, que só se tornam manifestos numa paragem do tempo e da história, são também levados ao esvaziamento. Tenho a impressão de que em tudo isto se manifestam tendências que, embora comuns a religiões como, por exemplo, o islamismo e o cristianismo, parecem mais próprias do cristianismo: tendência para o simbolismo e para a fixação ética, tendência para a racionalização científica e histórica. Poder-se-ão identificar aqui e ali correntes de fundo, inimigas ocultas do maravilhoso? Poderia ser essa uma linha de ulterior pesquisa.

O Deserto-Floresta no Ocidente Medieval
Pretendeu-se por vezes pôr em relação ambiente desértico e fenómeno religioso. Perguntou-se se haverá uma religião no deserto, se o deserto predisporá para um determinado tipo de experiência religiosa de preferência a outro. De um modo particular, pensou-se que o deserto favorece o misticismo. Há cerca de cem anos, em 1887, na sua Histoire du peuple d'Israël, Renan afirmava, não sem audácia: O deserto é monoteísta. Estas teses, que, em última análise, se fundam num determinismo geográfico um tanto simplista, não podem hoje ser aceites como boas. Mas o deserto, autêntico ou imaginário, desempenhou um papel importante nas grandes religiões euro-asiáticas: judaísmo, islamismo, cristianismo. Habitualmente, representou os valores opostos aos da cidade e, por isso mesmo, deve interessar a história da sociedade e da cultura. No cristianismo medieval, a ideologia do deserto apresentou-se de uma forma inédita: o deserto foi a floresta». In Jacques le Goff, Il meraviglioso e il quotidiano nell’occidente medievale, Gius, Laterza, 1983, Roma, O maravilhoso e o quotidiano no ocidente medieval, Edições 70, Lisboa, 2010, ISBN 978-972-44-1563-5.

Cortesia de E70/JDACT