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segunda-feira, 2 de dezembro de 2019

A Diplomacia Portuguesa no Reinado de D. Afonso V (1448-1481). Douglas M. Xavier Lima. «Ao analisar o período do pós-guerra, Jean Thobie assinalou que na França a área assumiu a influência do método marxista aplicado à história, as críticas do movimento dos Annales…»

Cortesia de wikipedia e jdact

Com a devida vénia ao Doutor Douglas Xavier Lima

«(…) Stéphane Péquignot lembra que foi na sociedade oitocentista que as pesquisas, tomando como base os trabalhos de Otto Krause e Adolf Schaube, inclinaram-se ao problema das origens do direito internacional e, principalmente, das embaixadas permanentes. Formou-se, segundo o autor, o ponto de ruptura entre a diplomacia medieval, caracterizada pelas embaixadas ad hoc, e a diplomacia moderna, marcada pelas representações permanentes. A partir destas delimitações e pautada numa história événementielle a área afirmou-se e fundou as bases que seriam alvo de crítica após a Primeira Guerra Mundial. Foi em plenas Grandes Guerras que as Relações Internacionais se estruturaram como campo académico e desprenderam-se da História Diplomática. Tal movimento direccionou a área aos problemas da contemporaneidade, em especial à compreensão da natureza da guerra a fim de promover a paz entre as nações. Esse período pode ser sintetizado na criação da cátedra Woodrow Wilson de Política Internacional, em 1919, na Universidade de Gales, com académicos preocupados em livrar a humanidade de novas guerras e promover a paz através do estudo das relações internacionais, e nas publicações de Edward Carr, The Twenty Year’s Crisis – 1919-1939 (1939), e Hans Morgenthau, Politics Among Nations (1948), que sustentavam que a nova área deveria se concentrar no estudo das relações de poder entre os Estados, perspectiva que fundamentaria a teoria realista das Relações Internacionais.
Ao analisar o período do pós-guerra, Jean Thobie assinalou que na França a área assumiu a influência do método marxista aplicado à história, as críticas do movimento dos Annales, e os debates sobre as origens da guerra. Nesse contexto francês destacam-se dois aspectos que tiveram impacto na historiografia e implicações nos estudos medievais. Em primeiro lugar, a ascensão dos Annales. Lucien Febvre, em Contra a história diplomática em si. História ou Política? Duas reflexões: 1930, 1945, favoreceu o recuo da temática entre os historiadores, formulando as bases da crítica a uma História Diplomática restrita aos documentos oficiais e aos usos protocolares, caracterizada por não avançar em problemas mais profundos, a mesma profundidade proposta pelos Annales. No bojo desse movimento lembra-se ainda da centralidade adquirida pela história económico-social entre os anos 30 e 60, expressa na produção de Braudel e Labrousse, na qual as anteriores preocupações da diplomacia são deixadas de lado.
Em seguida, recupera-se a senda aberta por Pierre Renouvin, que se inclinou a reflectir acerca das forças profundas, por exemplo, geografia, demografia, economia e mentalidades colectivas, envolvidas nas relações internacionais. O autor, ao organizar a colecção Histoire des Relations Internationales, nos anos 50, e, juntamente com Jean-Baptiste Duroselle, publicar a obra Introduction à l’histoire des Relations Internationales (1964), favoreceu a aproximação entre o movimento francês de mudanças historiográficas e o campo das RI. Acrescenta-se que Renouvin confiou a François Ganshof a redacção do primeiro volume da Histoire des Relations Internationales, permitindo que o medievalista desenvolvesse um expressivo ensaio acerca da Idade Média, estudo esse que permanece um clássico na historiografia e será retomado mais à frente. Num balanço recente das correntes historiográficas francesas dos séculos XIX e XX, Pierre Renouvin aparece descrito como o terceiro grande mestre da história do pós-guerra [ao lado de Braudel e Labrousse] (...). O verdadeiro fundador de uma história renovada das relações internacionais, especialmente por sua noção de forças profundas. No que pese os limites de tal afirmação fora do ambiente académico francês, observa-se que a inclinação de Renouvin reorientou as preocupações de pesquisa na França, contribuindo para a passagem da História Diplomática para a história das Relações Internacionais, assim como constituiu o campo das RI através do diálogo com as demais ciências sociais, com ênfase especial nos problemas económico-sociais». In Douglas M. Xavier Lima, A Diplomacia Portuguesa no Reinado de D. Afonso V (1448-1481), Tese de Doutoramento História Medieval, Universidade Federal Fluminense, Departamento de História, Niterói, 2016.

Cortesia de UFFluminense/DHistória/JDACT

sexta-feira, 29 de novembro de 2019

A Diplomacia Portuguesa no Reinado de D. Afonso V (1448-1481). Douglas M. Xavier Lima. «Acrescenta-se que o meio académico brasileiro, caracterizado pelo exponencial crescimento da oferta de cursos de graduação e pós-graduação em relações internacionais…»

Cortesia de wikipedia e jdact

Com a devida vénia ao Doutor Douglas Xavier Lima

«(…) Como ponto de partida, observa-se que a antiguidade e o mundo moderno, tal como o medievo, também constituem temporalidades pouco privilegiadas pelas pesquisas da área, ocupando apenas um lugar introdutório na composição da História da Diplomacia e da formação das Relações Internacionais. Lucien Bély, ao analisar o cenário académico francês, discute a desconfiança lançada sobre aqueles que se inclinam a estudar as relações internacionais entre os séculos XV e XVII, assim como o lugar modesto ocupado pelos estudos. Acredita-se que tal facto ocorre por duas vias, tanto pela orientação das relações internacionais para o cenário contemporâneo, como pelo afastamento dos historiadores da temática. Acrescenta-se que o meio académico brasileiro, caracterizado pelo exponencial crescimento da oferta de cursos de graduação e pós-graduação em relações internacionais, tem contribuído para esse quadro que concentra a área nos desafios da contemporaneidade. A fim de caracterizar os caminhos que levaram às vias indicadas, passa-se a algumas considerações acerca do desenvolvimento da produção na área, destacando, em primeiro lugar, a constituição das Relações Internacionais. A formação do campo de estudos da História Diplomática, área preocupada com a exposição e a explicação das relações entre Estados mediante a sua expressão política, tem as suas raízes nos séculos XVIII e XIX, o que não exclui a importância de obras anteriores ligadas à delimitação dos grandes feitos externos e militares dos reinos. No entanto, foi na sociedade oitocentista que se observou a ampliação dos interesses de reconstituição das histórias nacionais. Esse processo também se observa na História com a história metódica, pois a produção historiográfica do período foi marcada pela construção do Estado-nação e pelo estabelecimento das tradições nacionais. Paralelas à constituição da própria disciplina, tais inclinações colocaram a área na busca de critérios de cientificidade, e nesse processo o foco dos historiadores direccionou-se ao estabelecimento de factos, cronologias e no levantamento de documentos seguros que pudessem compor a história nacional, ou mesmo a recomposição de grandes batalhas, tratados e estadistas.
Em meio a essas orientações e fundando-se no conhecimento amplo de textos e fontes oficiais, assim como na publicação de colecções documentais, o campo da História Diplomática consolidou-se com o pioneiro trabalho de Gaëtan Flassan, Histoire générale et raisonnée de la diplomatie française depuis la fondation de la Monarchie jusqu' à la fin du règime de Louis XVI, publicado em sete volumes no início do século XVIII. Do mesmo período destacam-se ainda as obras: Foedera, conventiones, literae et cujuscumque generis acta publica inter reges Anglae et alios quosvis imperatores, reges, pontífices, principes, vel communitates, de Thomas Rymer, publicada entre 1704 e 1717; e Recueil des principaux traités d’alliance, de paix, de trêve, de neutralité, de commerce, de limites, l’Echange etc., conclus par les puissances de l’Europe tant entre eles qu’avec les puissances et États dans d’autres parties du monde depuis de 1761 jusqu’à présent, do jurista Georg Friedrich von Martens, publicada entre 1791 e 1801. Não obstante, como argumenta Jean Thobie, foi com a Revue d'Histoire diplomatique, fundada em 1887 e ligada à Sociedade de História Diplomática, que se formou a História Diplomática científica. No bojo desse movimento se inserem as obras Quadro Elementar das Relações Políticas e Diplomáticas de Portugal com as diversas potencias do mundo desde o principio da Monarchia portugueza até os nossos dias, de visconde de Santarém, redigida em Paris em meados do século XIX; Collecção dos tratados, convenções, contratos e actos públicos celebrados entre a coroa de Portugal e as mais potencias desde 1640 até o presente, coordenada por José Ferreira Borges Castro; e Corpo diplomático português contendo os actos e relações políticas e diplomáticas com as diversas potências do mundo, desde o século XVI até os nossos dias, de Luís Augusto Rebelo Silva, publicada em 15 volumes entre 1862 e 1936. Elas expressam as preocupações historiográficas do período e permanecem um marco na academia portuguesa, constituindo um relevante fundo documental para os medievalistas e modernistas do século XXI. Porém, mesmo com a destacada importância essas obras monumentais não deixaram de ser alvo de críticas coetâneas e, como sublinha José Amado Mendes, historiadores portugueses como António Ferrão discutiam a falta de explicações teórico-interpretativas e de abordagens temáticas em tais obras». In Douglas M. Xavier Lima, A Diplomacia Portuguesa no Reinado de D. Afonso V (1448-1481), Tese de Doutoramento História Medieval, Universidade Federal Fluminense, Departamento de História, Niterói, 2016.

Cortesia de UFFluminense/DHistória/JDACT

quinta-feira, 28 de novembro de 2019

A Diplomacia Portuguesa no Reinado de D. Afonso V (1448-1481). Douglas M. Xavier Lima. «A diplomacia, entendida como método de negociação de interesses divergentes, uma arte da negociação, é muito antiga…»

Cortesia de wikipedia e jdact

Com a devida vénia ao Doutor Douglas Xavier Lima

«Nada a temer
Senão o correr da luta
Nada a fazer
Senão esquecer o medo
Abrir o peito à força
Numa procura
Fugir às armadilhas da mata escura
Longe se vai sonhando demais
Mas onde se chega assim
Vou descobrir o que me faz sentir
Eu, caçador de mim». In Milton Nascimento

«A pesquisa investiga diferentes aspectos da prática diplomática quatrocentista, estruturando-se em três eixos: as instituições que assessoravam o monarca nos assuntos diplomáticos; os homens escolhidos como embaixadores; e as práticas diplomáticas, entendidas como os mecanismos de negociação e as cerimónias da diplomacia. Buscou-se, desta maneira, compreender o funcionamento da diplomacia numa época considerada como passagem da diplomacia medieval para a diplomacia moderna, notando ainda o seu papel como campo de exercício e afirmação do poder régio português. O recorte temporal concentra-se no reinado de  Afonso V, tendo como ponto de partida o fim da regência (1448) e, como limite, a morte do monarca (1481). Fez-se uso de diferentes documentações, como crónicas, narrativas de viagens, tratados, genealogias e fontes normativas. Esse variado corpus documental permitiu alcançar diferentes aspectos da diplomacia medieval quatrocentista, notando a importância institucional na condução dos assuntos externos, o crescente impacto da diplomacia para as finanças do reino, a definição de um perfil de embaixador letrado associado ao espaço cortesão, o uso de diferentes mecanismos de negociação, e a promoção da imagem externa do reino através das cerimónias diplomáticas». In Resumo

«A morte do infante Pedro na batalha de Alfarrobeira representou um abalo para as alianças externas de Portugal, visto que tais relações estavam estruturadas em torno de vínculos pessoais e laços de parentescos. Estes, envolviam a figura do Infante e foram construídos com a contribuição da viagem do duque de Coimbra pela Cristandade entre 1425 e 1428. Com essa conclusão terminamos a dissertação O infante D. Pedro e as Alianças Externas de Portugal (1425-1449) (2012), investigação que permitiu perceber as relações diplomáticas quatrocentistas como uma prática multifacetada, não apenas restrita a guerras, a assinaturas de tratados e ao envio protocolar de embaixadas. Pelo contrário, o estudo da viagem do infante Pedro abriu-nos, por exemplo, a perspectiva de observar que os Estados não eram os únicos actores no plano das relações externas, que os embaixadores não tinham um ofício definido, e que elementos como parentesco, amizade, oralidade, gestualidade, eram aspectos centrais de pesquisa. Paralelamente, algumas leituras foram fundamentais para a construção da nova investigação. Em primeiro lugar, o livro de Stéphane Péquignot, Au nom du Roi. Pratique diplomatique et pouvoir durant le règne de Jacques II d’Aragon (1291-1327) (2009), obra que se tornou paradigmática da nova história da diplomacia medieval. O texto tem como uma das principais contribuições abordar a diplomacia como prática. Nessa via, o autor analisa os documentos da diplomacia real, a circulação de informações, a relação entre a diplomacia e as finanças reais, a escolha e a definição dos embaixadores de Jaime II de Aragão, entre outros aspectos ainda pouco explorados no âmbito geral dos estudos medievais. Outrossim, o contacto com Faire la Paix au Moyen Âge. Discours et gestes de paix pendant la guerre de Cente Ans (2007), de Nicolas Offenstadt, foi igualmente instigador. Ao analisar o tradicional tema da Guerra dos Cem Anos, o autor trouxe para o primeiro plano discussões sobre os gestos, os sentimentos, os valores, os discursos e as cerimónias, elementos que, por vezes, passam despercebidos nos estudos sobre a diplomacia na Idade Média. Acrescenta-se que as obras de Péquignot e de Offenstadt resultaram de teses de doutorado, dado que também suscitou o interesse de conseguir desenvolver uma pesquisa levando em consideração o mesmo universo de interrogações. Por fim, citamos ainda a relação com as publicações ligadas aos projectos Genèse de l’État moderne (1984-1988) e Origins of the modern State (1989-1992), em especial as obras État et Église dans la genèse de l’État moderne (1986), L’État moderne: genèse. Bilans et perspectives (1990) e Las élites del poder y la construcción del Estado (1997). Esse conjunto de reflexões, além de promover uma releitura acerca das estruturas políticas entre o medievo e o período moderno, empreendeu importantes discussões sobre a história social do Estado na Baixa Idade Média e sobre o papel das assembleias representativas e da fiscalidade para o processo de formação do Estado no Ocidente. Tendo o tema da diplomacia sido abordado apenas no volume War and Competition between States (2000), tais discussões levantaram o interesse em aprofundar a reflexão sobre a relação entre a diplomacia e a génese do Estado moderno.
[…]

Novos Olhares sobre a Diplomacia Medieval. Uma Nova História da Diplomacia Medieval
«Diplomacia, Relações Internacionais, Política Externa..., termos que ao longo do século passado o medievalista acostumou-se a evitar como temas de pesquisa. Contudo, houve tempos em que estas questões orientavam a maior parte dos historiadores, fossem eles dedicados aos séculos ditos medievais ou não. Que caminhos levaram a essa mudança de quadro historiográfico? A fim de melhor compreender o movimento de renovação e retomada de tais temas pelos medievalistas, convém, primeiramente, tratar da relação entre História e Relações Internacionais.
A diplomacia, entendida como método de negociação de interesses divergentes, uma arte da negociação, é muito antiga e tem como um dos primeiros vestígios um documento diplomático que data de c.2500 a.C.. Nele consta uma mensagem enviada do reino de Ebla para o reino de Hamazi, localizado ao norte do actual Irão. A actividade diplomática no Egipto faraónico, a narrativa de Tucídides acerca da Guerra do Peloponeso, ou mesmo as relações externas desenvolvidas pelas poleis gregas e pelo Império Romano são ainda exemplos de que a antiguidade conheceu práticas ou mesmo um sistema diplomático. A própria palavra diplomacia é uma derivação do termo diploma, cujo significado é dobrar. No Império Romano, os documentos oficiais eram timbrados, dobrados e costurados, sendo nomeados diplomas, e o termo, ao longo do tempo, foi ampliado a outros documentos de Estado. Além disso, os ofícios ligados à conservação e organização dos diplomas ficaram conhecidos, de forma genérica, como res diplomatica. Esses elementos indicam as origens antigas e medievais da prática e da palavra que ganhariam os seus contornos modernos através de Edmund Burke, em 1796. Como argumentam Guilherme Silva e Williams Gonçalves, ainda que haja variações acerca dos grandes períodos da diplomacia, é possível a distinção de quatro momentos pelos estudiosos: da Antiguidade ao século XV; do século XV ao Congresso de Viena (1815); do Congresso de Viena à Conferência de Versalhes (1919); e da Conferência de Versalhes aos dias actuais. Destarte, a inserção cronológica da pesquisa se dá no primeiro período da história da diplomacia, o qual se distingue dos demais, pela inexistência das embaixadas permanentes e da dimensão jurídica das relações internacionais, expressa a partir de Westfália (1648), além de não ter a soberania como atributo exclusivo do Estado». In Douglas M. Xavier Lima, A Diplomacia Portuguesa no Reinado de D. Afonso V (1448-1481), Tese de Doutoramento História Medieval, Universidade Federal Fluminense, Departamento de História, Niterói, 2016.

Cortesia de UFFluminense/DHistória/JDACT

terça-feira, 8 de março de 2011

Oliveira Martins: O Princípe Perfeito. Prefácio, Parte II. « ...E depois da profissam da Excellente Senhora, porque El-Rey Dom AflFonso em Goymbra foy em ponto de morte como dysse, nunca mais foy allegre, e sempre andou retraydo, maginativo e pensoso, mais como homem que avorrecia as cousas do mundo, que como Rey que as estimava...»

Cortesia de arquivohistoricomadeira

Com devida vénia a Oliveira Martins, a Mckew Parr Collection e a Paulo Campos.

«A visita a Nancy faria então surgir o vulto de Carlos, o Temerário, neto, como Afonso V, de el-rei D. João I. A lealdade cavaleirosa daquele Príncipe pusera desde logo a nú as manhas e ardis de Luiz XI, que naquele próprio momento tinha a caminho em auxilio dos suíços, ligados com o duque de Lorena, um exército numeroso, desmentindo assim com os factos as palavras de paz e civilização, que encarregara o boníssimo Rei português de transmittir a seu primo co-irmão. A oposição entre os carácteres tão diversos de Luiz XI, do duque de Borgonha e do Rei de Portugal, assim colocados em frente uns de outros, e quando se aproximava o triunfo da astuta politica do primeiro; a perda da vida no campo da luta em Nancy e o irreparável desastre da causa do segundo; e finalmente a desilusão cruel de D. Afonso, e a sua fuga a ocultas para a Terra Santa, teriam, por certo, fornecido à pena de Oliveira Martins elementos para algumas páginas formosíssimas.
Não seriam estranhos à sua composição, além dos velhos cronistas, os escritos de Michelet, o historiador moderno, que maiores afinidades tinha com Oliveira Martins, e a cujos processos artísticos mais vezes o historiador português se amoldou, quer na concepção dos planos, quer nas qualidades do estilo.

Cortesia dearquivohistorico
De Luiz XI dissera o grande escritor que ele possuira «de la vivacité et de l'esprit á faire trembler, point de coeur, ni amitié, ni parenté, ni humanité, nul frein. Il ne tenait á son temps, que par le bigottisme, qui, loin de le gêner, lui venait toujours à point, pour tuer ses scrupules». Caracterizando o seu adversário, Carlos de Borgonha, descrevera também Michelet este último, mostrando-o: «Fort de bras, fort d'échine, de bonnes fortes jambes, de longues mains; un rude juteur à jetter tout homme par terre, le teint et le poil bruns, la chevelure épaisse, houssue. . . Lisant insatiablement dans sa jeunesse les vieilles histoires des preux (como Nun'Alvares). Devôt, specialement de la Vierge Marie. On remarquait qu'il avait les yeux angéliquement clairs. Esprit três cultive mais avec ça peu de malice et de sens».
Era com estes dois Príncipes que tinha de tratar o nosso D. Afonso V, «esse» na frase de Filippe de Commines «pobre Rei de Portugal, boníssimo homem e Príncipe justo». Na excelência do seu ânimo chegara a imaginar possível, e até fácil, a empresa de conciliar os dois adversários, isto quando se encontrava iminente o desenlace da luta entre ambos, da qual pendiam os destinos e a sorte futura da França!

Cortesia de arquivohistoricomadeira
Tudo seria esquecido e postergado, assim o supunha, com o fim quase único de favorecer os planos e lisonjear as ambições dele, Afonso V, ao trono de Castela! Tão longe chegavam a confiança simples, as ilusões cândidas do rei português acerca do seu régio Irmão de França, do qual Ruy de Pina escreve:
  • «haver el-rei D. Afonso V entrado com um homem em quem nem havia virtude nem verdade»
e que, após a morte do duque de Borgonha, livre e despreocupado dos receios que este lhe inspirava «sem medo nem vergonha do que tinha promettido, desamparou o negócio de Castella, e entendeu do seu próprio, que foi haver e cobrar muitas terras da alta Borgonha e Picardia, que o duque havia tomado, e por seu falecimento ficaram sem resistência».
À narração desses sucessos seguir-se-ia a da aclamação de D. João II em Santarém, como Rei; o regresso súbito de Afonso V, e seu desembarque em Cascais; os atritos nos conselhos de D. João e voto nelles do duque de Bragança, que dissera ao Principe hesitante sobre a forma de acolher D. Afonso:
  • «Como, Senhor, o recebereis, senão como a vosso Rei, como a vosso Senhor, e como a vosso pai?»
O tratado de pazes com a Espanha, negociado por intervenção da Infanta D. Beatriz, que para esse fim fora encontrar-se com os Reis Católicos; a profissão da Excelente Senhora, duramente tratada em virtude de uma suprema razão politica por D. João II.

Cortesia de onlinemeo
As tribulações de D. Afonso V e a sua morte em Sintra da peste de que viera fugindo e então grassava em Lisboa, completariam este segundo capitulo tão rico em episódios e contrastes, tão dramático e comovente no seu contexto e desenvolvimento.
Já de há muito, e bem antes da morte de Afonso V, vinha o governo sendo de facto exercido pelo Principe, só e principal ministro de seu pai, como o diz Ruy de Pina, acrescentando acerca das coisas do mesmo governo:
  • «... porque el-rey D. Afonso su padre de muyto anojado e envergonhado delas, de todas se escusou, e as leixou ynteiramente aa disposiçam e ordenança do Filho, a cuja vontade el-rei naquelle tempo mostrou ser muyto inclinado e sobgeito. Mas se o Pryncepe no comprymento destas cousas excedeo ho modo contra a Senhora Dona Joana, por ventura mais do que por razam, piedade, e temperança se lhe devia, e ysto pella gloria e contentamento que tinha do casamento do Ifante seu Fylho se nom desfazer, que nom era sem alguma esperança da sobcessam de Castella...».
Neste fragmento bem claramente se revela o primeiro plano de D. João II, a unificação da Península sob o espetro de Portugal, plano que tinha de falhar, mas que tão perto esteve da sua realização; bem como no trecho que em seguida transcrevemos do mesmo cronista transparece já o gérmen da luta que viria a culminar nas tragédias de Évora e Setúbal, pondo termo ao conflito levantado entre D. João II e a nobreza:
  • «E depois da profissam da Excellente Senhora, porque El-Rey Dom AflFonso em Goymbra foy em ponto de morte como dysse, nunca mais foy allegre, e sempre andou retraydo, maginativo e pensoso, mais como homem que avorrecia as cousas do mundo, que como Rey que as estimava. Pollo qual no seguynte veram elle foy a Beja ver o Princepe seu filho, e a Princeza Dona Leanor sua molher, e ally tiveram o Pay e o Fylho antre sy praticas secretas, em que El Rey detriminou querer no fym deste ano, se vivera, fazer cortes geraaes em Extremoz; porque em Lisboa e Évora morriam; e leixar a inteira governança dos Reinos ao Princepe seu Fylho, e ele em abitos honestos de Leigo, e nam com obrigaçam de Relligiam, se retraer no Moesteiro de Varatojo junto com Torres Vedras, que elle de novo fundou para ally servir a Deos, e em sua vida temperar e remedear os ódios e discuçõoes, que já entendia, que por sua morte antre o Pryncepe seu Fylho, e os da casa de Bragança se nam podiam escusar».
Essa morte vinha a tempo. Das glórias triunfais com que Lisboa celebrara o regresso de Arzilla até ao leito do moribundo, que nos Paços de Sintra sucumbia à pestilenta enfermidade que dizimava a capital, o ciclo das desilusões completara-se.

Cortesia de imagenshistoricas
D. Afonso V fora, entre tantos, um exemplo mais de quanto são pérfidos os sorrisos da fortuna. No momento supremo, cercaram-o o filho e os netos, e foi então que O Africano, na frase do cronista Nicolau Dias:
  • «... deitou a benção ao Princepe D. João seu filho, que reinou depois delle, e a dous Netos filhos do dito Princepe, hum legitimo filho da Princesa Dona Lianor sua molher, e outro bastardo que naceo estando elle já doente e muito mal, e quando lhe levara as novas de seu nacimento não poude mais por sua grande fraqueza, que levantar a mão direita e deitar-lhe a benção. Faleceo aos vintoito de Agosto de mil e quatrocentos e oitenta e hum, dia do glorioso Padre Santo Agostinho».
Era uma idade nova que surgia continuando a que havia sido iniciada com os filhos de D. João I. Afonso V fora apenas uin parentesis. A exclusiva ampliação de Portugal, pela conquista das regiões mediterrâneas da África, vinham suceder novamente as explorações audazes do Atlântico, que permitiriam afinal traçar a carta do grande continente negro, e deixariam erguidos, ao longo deste, padrões tendo inscritos no alto o brasão de Portugal e o nome de D. João II, e constituindo os históricos marcos miliários dessa triunfante derrota, que iria buscar à Índia Oriental, às Molucas, à China e ao Japão o seu termo glorioso». In Oliveira Martins, O Princípe Perfeito, 1896.

Continua.

Cortesia de Margellan and the Age of Discovery/JDACT

domingo, 29 de agosto de 2010

O Museu Nacional de Arte Antiga: Exposição - A Invenção da Glória. D. Afonso V e as Tapeçarias de Pastrana

Cortesia do MNAA
«Situado na rua das Janelas Verdes que faz ligação com o contíguo largo de Santos-o-Velho, a nascente, e com o sítio da Pampulha, a poente, da onomástica desta rua lhe vem o nome pelo qual é popularmente conhecido, o de Museu das Janelas Verdes. Característica artéria, ainda hoje semeada pela memória de antigos palácios, igrejas e conventos, convertidos na actualidade nos mais diversos fins, a sua localização, alcantilada sobre o rio e a zona portuária, confere-lhe uma envolvência cenográfica invejável.
A meio da rua, frente à primitiva entrada principal do museu, abre-se um pequeno largo de planta em U, denominado largo do Dr. José de Figueiredo (primeiro director do Museu) cujo projecto é da responsabilidade de Reinaldo Manuel dos Santos (1731-1791), datável de 1778. Também de sua autoria é o desenho do pedestal do chafariz cuja parte superior recebe um grupo escultórico representando Vénus e Cupido, executado pelo escultor António Machado (-1810)».

Até ao pf dia 12 de Setembro de 2010 está a decorrer a Exposição - A Invenção da Glória. D. Afonso V e as Tapeçarias de Pastrana.

Cortesia do MNAA
A exposição «A Invenção da Glória. D. Afonso V e as Tapeçarias de Pastrana» reúne pela primeira vez em Portugal os quatro monumentais panos, tecidos em Tournai por encomenda de D. Afonso V, conservados na Colegiada de Pastrana desde o século XVI e recém-restaurados sob o patrocínio da Fundação Carlos de Amberes. Peças de extraordinária monumentalidade e absolutamente únicas em termos da produção borgonhesa, relatando as conquistas de Arzila e Tânger, a sua encomenda e produção — ainda envolta em sombras — enquadra-se num programa mais vasto, de construção mítica da História, que o conjunto de obras em seu redor agora reunidas procura enquadrar e problematizar.
A exposição destas tapeçarias em Lisboa, integrada nas comemorações do 25º Aniversário da Assinatura do Tratado de Adesão de Portugal e de Espanha às Comunidades Europeias, beneficiou do solidário apoio da Embaixada de Espanha em Portugal e de outras entidades, como sejam, Câmara Municipal de Lisboa, Fundação Batalha de Aljubarrota, Lusitânia, de entre outras.

Cortesia do MNAA
«Mais adiante, na extremidade ocidental do edifício, abre-se um pequeno jardim construído sobre a chamada Rocha do Conde de Óbidos, formação rochosa sobre a qual se situavam outrora, de um lado o palácio dos condes de Óbidos (actuais instalações da Cruz Vermelha) e do outro um antigo convento feminino, o designado convento das Albertas. Este convento já não existe e no seu lugar ergue-se, hoje em dia, a ala do museu edificada no final dos anos de 1930, enquanto a pequena cerca do convento foi transformada num jardim público – o Jardim 9 de Abril – que dá acesso à entrada principal e que liga, através de duas longas escadarias que tiram partido da topografia, com a avenida 24 de Julho, toponímia do antigo Aterro oitocentista». In MNAA. 

Ao abrigo do Programa de Recuperação do Património Classificado, do Ministério da Cultura, o Museu Nacional de Arte Antiga vai beneficiar da recuperação das fachadas frontal e laterais, Jardim 9 de Abril, Rua das Janelas Verdes e jardim do Museu, tal como da recuperação, tratamento e impermeabilização da cobertura da Capela das Albertas que, após uma campanha de conservação e restauro cujo financiamento deverá ser também encontrado, poderá abrir ao público em toda a sua magnificência. A recuperação vai realizar-se com a doação de um cheque-obra, pela OPWAY.

Cortesia do MNAA
http://www.mnarteantiga-ipmuseus.pt/Data/Documents/Exposições%20Temporárias/Tapeçarias%20Pastranas/Indice%20Catalogo%20Pastranas.pdf

Assalto a Arzila, em 1471, pelas tropas de D. Afonso V (pormenor)
Lã e Seda, Pastrana (Guadalajara)
Colegiata de Nuestra Señora de la Asunción
Cortesia do MNAA

Cortesia do MNAA/JDACT

sábado, 1 de maio de 2010

Infante D. Pedro: Regente de Portugal (1439-1448). O «culto» príncipe da Ínclita Geração.

(1392-1449)
D. Pedro, infante de Portugal, 1º duque de Coimbra, foi um príncipe da Dinastia de Avis, filho do rei D. João I e de D. Filipa de Lencastre. Entre 1439 e 1448 foi regente de Portugal. Devido às suas viagens ao estrangeiro, ficou conhecido como o Infante das Sete Partidas. Tendo recebido nelas o feudo de Treviso, pelo imperador Segismundo da Hungria, que o integrou na sua recém-criada «Ordem do Dragão» com a sigla D.E.S.I.R. (Draconis Equitas Societas Imperatur et Regis), isto é, (Sociedade Imperial e Régia dos Cavaleiros do Dragão), e investido cavaleiro da Ordem da Jarreteira pelo seu primo Henrique IV de Inglaterra.
Bandeira pessoal do Infante D. Pedro com a divisa da Ordem do Dragão: «Désir»
Dom Pedro foi, desde a nascença, um dos filhos favoritos de D. João I, que lhe proporcionou uma educação esmerada e excepcional numa era em que os grandes senhores eram pouco mais, senão mesmo, analfabetos. Muito próximo dos irmãos Dom Duarte e Dom João, Pedro cresceu num ambiente tranquilo e livre de intrigas. Em 1415, acompanha o pai na conquista de Ceuta e é feito cavaleiro no dia seguinte à tomada da cidade, na recém consagrada mesquita. É nesta altura que lhe é conferido o ducado de Coimbra, tornando-se, com o irmão Dom Henrique, 1º duque de Viseu, nos dois primeiros duques criados em Portugal.

O Painel dos Cavaleiros,
no políptico de S. Vicente, que se pensa representar
os quatro filhos mais novos de D. João I; de verde, D. Pedro,
com o cinto da Jarreteira cruzado no peito 
Em 1429, D. Pedro casa com a princesa D. Isabel de Aragão, condessa de Urgel, em determinada altura herdeira de Aragão, com quem constitui, segundo as fontes, uma união de amor.
Na morte de D. Duarte, seu rei e irmão mais velho, D. Pedro é preterido na regência de D. Afonso V de Portugal a favor da rainha mãe, D. Leonor de Aragão. A escolha do falecido rei não era, no entanto, popular e a facção opositora de D. Leonor em breve saíu às ruas.
Um motim em Lisboa foi evitado in extremis, convocando-se uma reunião das cortes para normalizar a situação (Cortes de 1439). O resultado do encontro foi a nomeação de D. Pedro para a regência do pequeno rei (Dezembro de 1439), deixando a classe média de burgueses e mercadores deveras satisfeita. No entanto, dentro da aristocracia, em particular D. Afonso, conde de Barcelos (meio irmão de D. Pedro), preferia-se a mais maleável D. Leonor de Aragão e desconfiava-se do valor do Infante. Começa então uma guerra surda de influências e D. Afonso consegue transformar-se no tio favorito de D. Afonso V. 
Pormenor do cinto da Jarreteira
Cortesia de paineis
Em 1443, num gesto de reconciliação, D. Pedro torna o meio irmão D. Afonso no primeiro duque de Bragança e as relações entre os dois parecem regressar à normalidade. Indiferente às intrigas, Pedro continua a sua regência e o país prospera sob a sua influência. É durante este período que se concedem os primeiros subsídios à exploração do oceano Atlântico, organizada pelo Infante D. Henrique.

Finalmente, a 9 de Junho de 1448, D. Afonso V atinge a maioridade e D. Pedro entrega o controlo de Portugal ao rei, verificando-se o grau de influência do Duque de Bragança sobre D. Afonso.
A 15 de Setembro, D. Afonso V anula todos os éditos de D. Pedro, começando, contra si próprio, pelos que determinavam a concentração do poder na pessoa do rei. A única coisa que D. Afonso parece não aceitar é a separação da rainha D. Isabel, por muito a estimar. No ano seguinte, sob acusações que haveria mais tarde de descobrir falsas, D. Afonso V declara o Infante Dom Pedro um rebelde. A situação torna-se insustentável, e começa uma guerra civil. Breve, pois a 20 de Maio de 1449 ocorreu a batalha de Alfarrobeira no Forte da Casa, perto de Alverca, durante a qual o Infante morreu. As condições exactas da sua morte continuam a causar debate. Aparentemente D. Pedro morreu em combate, mas a hipótese de um assassínio disfarçado na batalha nunca foi descartada.

Retrato de D. Afonso V
Cortesia de pnsintra.imc-ip
Com a morte de D. Pedro, Portugal caiu nas mãos de D. Afonso, 1º duque de Bragança, com cada vez mais poder sobre o rei.
No entanto, o período da sua regência nunca foi esquecido e D. Pedro foi citado muitas vezes pelo rei D. João II de Portugal (seu neto) como sendo a sua maior influência. A perseguição implacável que D. João II moveu aos Bragança foi talvez em resposta às conspirações que causaram a queda do mais culto príncipe da Ínclita Geração.

As viagens do Infante D. Pedro
(autoria de Margarida Correia)
Cortesia wook

História de Portugal/Wikipédia/JDACT