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sábado, 8 de maio de 2021

Os Mistérios da Coroa. Nancy Bilyeau. «Segui o grupo até ao fim da rua e em seguida por outra via margeada por tabernas, que se abria para um imenso descampado plano apinhado de pessoas que já tinham chegado e aguardavam a execução do dia»

Cortesia de wikipedia e jdact

Londres, 25 de Maio de 1537

«(…) Eu estava presa dentro do labirinto do jardim do meu tio. Ele havia acabado de construí-lo e não se cansava de repetir que os monges que tinha contratado para desenhá-lo eram melhores do que os que o cardeal Wolsey usara. O labirinto tinha sido inaugurado naquele dia, 4 de Setembro, data da celebração anual do segundo duque de Buckingham, meu avô falecido havia tempos. Nós, os primos, fomos vendados e conduzidos até ao centro. Então nossas vendas foram retiradas, e mandaram que saíssemos correndo para ver quem chegaria primeiro. Percorram o labirinto! Percorram o labirinto!, gritava meu tio do lado de fora das sebes sinuosas. Eu era uma das mais novas e logo fiquei para trás. Em pouco tempo me vi sozinha. Corria de um lado para outro esperando ver as paredes verdes se abrirem para o jardim, mas o meu instinto estava sempre errado e eu só me embrenhava ainda mais no labirinto.

O que há com você, Joanna? Pense, menina, pense! As vozes foram ficando mais altas, mais impacientes. Joanna, deixe de ser boba!, gritou um dos meninos. Alguém mais velho o mandou calar a boca. Eu virara o centro das atenções, coisa que sempre detestava. Será que havia dobrado à direita naquela curva ou à esquerda? O pânico me fazia esquecer os caminhos que já tinha percorrido. Como minha cabeça girava com o aroma das rosas. Dúzias de roseiras vermelhas muito bem podadas se espalhavam pelo labirinto. A temporada dessas flores estava quase no fim e as suas pétalas já tinham murchado e caído. Além disso, já havia passado a hora do dia em que o seu frescor estava no auge.

Mas eram muitas roseiras, e eu passara por elas várias vezes. Quase podia sentir na boca o sabor pungente daquelas rosas altivas e cheias de pólen. Fiz uma curva bem rápido e trombei com Margaret. Caímos as duas no chão, rindo, com as contas de nossas mangas bufantes emboladas umas nas outras. Depois de nos soltarmos, ela me ajudou a levantar. Margaret era um ano mais velha e cinco centímetros mais alta que eu e sempre muito mais inteligente e bonita. Minha prima-irmã, minha única amiga. Margaret, onde se meteu?, gritou o duque de Buckingham. É melhor não ter entrado no labirinto de novo para buscar Joanna. Ah, ele vai zangar-se consigo, falei. Não deveria ter vindo. Margaret piscou para mim. Limpou a sujeira das nossas roupas de festa e me conduziu para fora do labirinto sem largar a minha mão em momento nenhum.

Estavam todos nos esperando na entrada, no que parecia ser uma reunião completa do clã dos Stafford e de todos os nossos criados. Meu tio, o duque, mais importante nobre da Inglaterra, usava roupas bordadas em prata e uma longa pena de avestruz no chapéu. Ao lado dele estava seu irmão mais novo, sir Richard Stafford, meu pai. Por pouco não os alcançava uma sombra comprida que se estendia pelo jardim, lançada pela torre quadrada que se erguia acima de nós. O castelo de Bornbury (?), em Gloucestershire, fora construído para fazer frente aos ataques. Não de algum inimigo estrangeiro, mas de muitas gerações de reis Plantagenetas cobiçosos de poder. Destemida, Margaret foi directamente até ao duque. Viu, pai, encontrei Joanna, disse ela. Já podem ir jogar ténis. Ele nos examinou com as sobrancelhas arqueadas enquanto todos aguardavam, tensos. Mas o duque de Buckingham riu. Beijou a filha adorada, sua filha ilegítima, criada junto com os quatro rebentos de sua submissa duquesa. Eu bem sei que você é capaz de tudo, Margaret, falou. Meu pai também me deu um abraço apertado. Ele havia passado o dia inteiro caçando, e me lembro do seu cheiro de suor, terra e relva seca esmagada. Eu me senti muito aliviada e feliz.

A carroça londrina deu uma travagem e estremeceu, derrubando-me por cima da palha. Foi o fim do meu devaneio.  Tínhamos deixado para trás os muros da cidade e viramos para uma rua lateral. As rodas da carroça estavam atoladas na lama. O carroceiro praguejou quando os cavalos relincharam, e os homens barulhentos se moveram para a parte de trás da carroça. Não faz mal, disse-me a mulher. Já estamos quase em Smithfield.

Segui o grupo até ao fim da rua e em seguida por outra via margeada por tabernas, que se abria para um imenso descampado plano apinhado de pessoas que já tinham chegado e aguardavam a execução do dia. Eram centenas: homens, mulheres, marinheiros e costureiras, além de crianças. Uma família me empurrou para passar, a mãe carregando um cesto de pão, o pai com um menino encarapitado nos ombros. Sem qualquer aviso, um cheiro fétido dominou minhas narinas, minha garganta e meus pulmões. Meus olhos lacrimejaram. Era o pior cheiro que eu já tinha sentido em Londres. Dei um grito e levei as mãos à garganta, que ardia. É o matadouro, que fica a leste daqui, explicou a mulher com quem eu viajara na carroça. Quando o vento sopra de lá, o cheiro de sangue e vísceras pode ser bem ruim. Ela tocou meu cotovelo. Estou vendo que você não está acostumada com Smithfield. Venha comigo, não saia de perto». In Nancy Bilyeau, Os Mistérios da Coroa, Editora Arqueiro, 2012, ISBN 978-858-041-082-2.

Cortesia de EArqueiro/JDACT

JDACT, Nancy Bilyeau, Literatura, Londres, 

sexta-feira, 7 de maio de 2021

Nancy Bilyeau. Os Mistérios da Coroa. «Todas as três, respondeu outro. Uma risada nervosa percorreu a carroça. Era crime zombar dos casamentos do rei, que se divorciara da primeira esposa…»

Cortesia de wikipedia e jdact

Londres, 25 de Maio de 1537

«(…) Um rapaz sentado à minha frente abriu um sorriso e disse, em voz alta, para a carroça inteira escutar: estamos gratos ao rei por queimar uma bela jovem em Smith eld. A última pessoa a morrer na fogueira foi um falsário velho e feio. Um bolo de pão mastigado me subiu pela garganta e cobri a boca com a mão. Mas ela é bonita mesmo?, perguntou alguém. Um homem já idoso, de olhos azuis leitosos, enrolava com o dedo um pelo comprido que brotava do meio de seu queixo. Eu conheço uma pessoa que já viu lady Bulmer em carne e osso, e ela é bonita, sim, disse ele devagar. Mais do que a rainha. Que rainha?, gritou um dos homens. Todas as três, respondeu outro. Uma risada nervosa percorreu a carroça. Era crime zombar dos casamentos do rei, que se divorciara da primeira esposa e executara a segunda para dar lugar à terceira. Muita gente já tinha perdido mãos e orelhas por causa disso. O velho torceu o pelo do queixo com mais força.

Lady Bulmer deve ter ofendido muito o rei para ele mandar queimá-la em praça pública diante dos plebeus, em vez de mandar decapitá-la perto da torre ou de enforcá-la em Tyburn. Eles trouxeram para Londres todos os nobres e dalgos, todos os seguidores de Robert Aske, disse o rapaz. Para receber a justiça do rei. Ela vai ser apenas a primeira a ser executada.

Minha respiração se acelerou. O que aqueles londrinos iriam dizer, o que iriam fazer comigo se soubessem quem eu era e de onde vinha? Uma coisa era certa: eu jamais chegaria a Smithfield. Busquei nas minhas preces algo para me fortalecer. Senhor meu Deus, ajudai-me a ser obediente sem reservas, pobre sem servilidade e casta sem excepção. Essa tal de Margaret Bulmer é uma rebelde imunda!, gritou a mulher que tinha dividido o pão comigo. Uma papista do norte que conspirou para derrubar nosso rei. Humilde, alegre sem esbórnia, séria sem afectação, activa sem frivolidade, submissa sem amargura, verdadeira sem duplicidade. Com voz branda, o velho disse: no norte, as pessoas deram a vida pelas tradições. Queriam proteger os mosteiros. Todos soltaram exclamações de desprezo. Aqueles monges gordos escondendo potes de ouro enquanto os pobres morrem de fome do lado de fora dos seus muros.

Ouvi falar numa freira que pariu o bastardo de um padre. As freiras são todas pu… Ou então aleijadas..., ou estúpidas, desprezadas pelas famílias. Ouvi um ruído rascante. Foi minha própria risada, uma risada amarga, sem alegria, e que ninguém escutou, pois nesse mesmo instante ouviu-se um grito do lado de fora da carroça. Uma criança de rua passou correndo, tão depressa que ultrapassou os nossos cavalos. Um olhar de pânico por cima do ombro revelou que não era um menino, mas sim uma menina de rosto encardido, com os cabelos cortados curtos.

Um punhado de terra voou pelo ar e atingiu seu ombro. Ai!, gritou ela. Seus cachorros! Dois meninos grandes apareceram junto à lateral da carroça e riram. Iriam alcançá-la dali a um minuto. Os homens em cima da carroça atiçaram a perseguição. A menina saiu correndo pela rua em direcção às lojas. Outra garota acenou do vão de uma porta. Por aqui!, gritou. A moça entrou, e a porta se fechou atrás das duas. Os meninos chegaram segundos depois e começaram a esmurrar a porta, mas estava trancada. Fechei os olhos. Era outra menina quem corria. Aos 8 anos, sem ar, com a barriga doendo, eu corria por um caminho cercado por altas sebes de teixo, em busca de uma saída. Podia ouvir pessoas chamando meu nome, mas não conseguia vê-las. Rápido, Joanna, rápido... nós vamos jogar ténis depois!, gritavam meus primos, tão fortes, tão duros.

Vamos, menina, você consegue!, bradava o meu tio Edward Stafford, terceiro duque de Buckingham e chefe da família. Tem que encontrar a sua própria saída. Não podemos mandar ninguém atrás de vós e correr o risco de perder mais uma criança». In Nancy Bilyeau, Os Mistérios da Coroa, Editora Arqueiro, 2012, ISBN 978-858-041-082-2.

Cortesia de EArqueiro/JDACT

JDACT, Nancy Bilyeau, Literatura, Londres, 

quarta-feira, 5 de maio de 2021

Os Mistérios da Coroa. Nancy Bilyeau. «Eu me recostei numa lateral da carroça. Passámos por um pequeno mercado que parecia não vender outra coisa que não especiarias e ervas. Agora que havia parado de chover, os vendedores retiravam as mantas que mantinham secas as suas bancadas estreitas»

Cortesia de wikipedia e jdact

Londres, 25 de Maio de 1537

«Quando uma execução na fogueira é anunciada, as tabernas de Smith eld encomendam barris extras de cerveja, mas quando a pessoa a ser executada é uma mulher, e ainda por cima pertencente à nobreza, a bebida chega em carroças lotadas. Eu iria andar numa dessas carroças na sexta-feira de Pentecostes, no ano do reinado do rei Henrique VIII, para rezar pela alma de lady Margaret Bulmer, a traidora condenada. Pude ouvir o chamado do carroceiro enquanto seguia para a Cheapside Street, apertando na mão o mapa de Londres que, duas noites antes, eu copiara em segredo de um livro. Agora que eu tinha chegado a uma rua grande e calçada com pedras, conseguia andar mais depressa, mas minhas pernas latejavam. Havia passado a manhã inteira caminhando com dificuldade na lama. Smithfield! Está indo para Smithfield? A voz soava alegre, como se o destino ao qual se referia fosse uma feira do Dia de São Jorge. Logo à frente, diante de um curtume, vi quem tinha gritado: um homem grandalhão que açoitava o lombo de quatro cavalos atrelados a uma grande carroça. Meia dúzia de cabeças espiavam por cima da borda.

Espere!, gritei o mais alto possível. Eu quero ir para Smithfield! O carroceiro se virou e seus olhos vasculharam a multidão. Acenei, e seu rosto se iluminou com um sorriso caloroso. Conforme eu me aproximava, minha barriga se contraía. Eu tinha prometido não falar com ninguém naquele dia, nem pedir ajuda. O risco de ser descoberta era enorme. Mas Smith eld cava a norte e a oeste de Londres, fora dos limites da cidade, e ainda faltava muito para chegar lá. Quando me aproximei, o carroceiro me olhou de cima a baixo e seu sorriso desapareceu. Eu estava usando uma pesada túnica de lã, a única que consegui para a viagem. Era feita para o mais rigoroso dos invernos, não para a primavera, muito menos para um dia em que a névoa mantinha o clima abafado. A bainha amarfanhada da túnica estava encharcada de lama. Mas pelo menos eu me sentia grata por ninguém conseguir ver, através do tecido grosso, minha combinação molhada de suor.

Mas eu sabia que não eram apenas as roupas desarrumadas que estavam fazendo o carroceiro pensar duas vezes. Muitas pessoas achavam minha aparência estranha. Meus cabelos são negros como ônix polido e meus olhos são castanhos, salpicados de verde. Minha pele morena não era vermelha em Julho, nem pálida em Dezembro. Minha pele é como a de minha mãe espanhola, mas não tenho os seus traços delicados. O meu rosto puxou ao do meu pai, que era inglês: testa larga, malares saltados, queixo marcado. É como se a incompatibilidade do casamento dos meus pais travasse uma batalha no meu rosto, bem à vista de todos. Em uma terra de moças rosadas e brancas, eu me destaco feito um corvo. Houve um tempo em que isso me incomodava, mas agora, aos 26 anos, eu já não me preocupava com coisas tão bobas. Um xelim pela viagem, moça, disse o carroceiro. Pague e vamos indo.

Seu pedido me pegou de surpresa, embora eu devesse estar preparada para a cobrança. Estou sem moedas, gaguejei. O carroceiro soltou uma risada que foi como um latido. Acha que eu faço isso por diversão? Escute aqui, moça, me restou pouca cerveja... Ele deu um soco no barril de madeira atrás de si. …e tenho que ganhar o suficiente para pagar pela carroça. Por trás do barril, eu podia ver seus passageiros espichando o pescoço para me olhar. Espere, falei, levando a mão à bolsinha de pano dentro do bolso que eu havia costurado na parte interna da roupa. Agitando os dedos lá dentro, encontrei um anel. Não queria dar a ele nada de mais valioso. Tinha subornos importantes pela frente. Estendi o anel. Isto aqui serve? Num segundo, a cara feia do carroceiro se transformou numa expressão de deleite, e o anel de ouro de minha falecida mãe sumiu na palma suja da sua mão.

Ao subir na traseira da carroça, pude distinguir pena e desprezo no rosto dos outros viajantes. Meu anel devia valer bem mais do que o percurso. Encontrei um monte de palha limpa num canto, sentei-me e baixei os olhos, tentando evitar os olhares curiosos, enquanto a carroça retomava o seu curso. Senti um cotovelo me cutucar nas costelas. Uma mulher corpulenta escorregou para mais perto de mim. Era uma senhora de meia-idade, a única outra pessoa do sexo feminino naquela carroça. Sorrindo, ela me estendeu um pedaço de pão. Eu não comia nada desde a ceia da véspera. Em geral apreciava a sensação de fome, o facto de dominar minha carne mortal e fraca, mas aquela missão exigia certo vigor. Peguei o pão com um meneio agradecido da cabeça. Um bocado de comida e um gole de cerveja aguada do cantil de madeira da mulher fortaleceram meu corpo entorpecido.

Eu me recostei numa lateral da carroça. Passámos por um pequeno mercado que parecia não vender outra coisa que não especiarias e ervas. Agora que havia parado de chover, os vendedores retiravam as mantas que mantinham secas as suas bancadas estreitas. O odor de uma rica mistura de borragem, sálvia, tomilho, alecrim, salsa e cebolinha se espalhou pelo ar e se dissipou depois que passamos. Os cheiros da cidade voltaram a predominar. Avistei umas construções de quatro andares, mais prósperas do que quaisquer outras que eu já vira antes. A placa de um ourives pendia numa esquina». In Nancy Bilyeau, Os Mistérios da Coroa, Editora Arqueiro, 2012, ISBN 978-858-041-082-2.

Cortesia de EArqueiro/JDACT

JDACT, Nancy Bilyeau, Literatura, Londres,

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

A Coroa. Nancy Bilyeau. «A irmã Joan e a irmã Agatha inclinaram-se diante do altar e ocuparam os seus lugares. Segui-lhes o exemplo e dirigi-me para as cadeiras das noviças, à frente»

jdact

Londres. Maio de 1537
«(…) Há muito tempo que não via esse sorriso. Quando lhe disse, no ano passado, que queria tornar-me noviça e professar, ele discutiu comigo e tentou fazer-me mudar de opinião, mas acabou por deixar de insistir. Viu que eu era sincera no meu desejo de me dedicar a uma vida mais elevada, longe do clamor das vozes humanas e do toque dos homens. Escreveu as cartas necessárias e, com alguma dificuldade, pagou o meu dote ao priorado. Fê-lo pela minha felicidade, pois não conhecia outro modo de ma proporcionar. E, durante alguns meses, fui feliz em Dartford. Encontrei segurança e um objectivo na vida contemplativa, a graça pela qual ansiava, isolada do egoísmo e da vaidade, da pompa irracional do mundo. Mas era uma felicidade frágil. Tinha optado por uma vida religiosa que, não só estava em declínio, cada vez menos pessoas entravam em mosteiros, como se encontrava sob um ataque vigoroso. O nosso rei rompera com o Santo Padre. Ao longo dos últimos dois anos, as abadias e priorados mais pequenos de Inglaterra tinham sido encerrados, os seus frades e freiras, expulsos. A prioresa Elizabeth garantia-nos que as casas maiores, como a nossa, não seriam atingidas, mas o medo de uma nova série de encerramentos forçados assombrava os corredores de pedra, o jardim do claustro, até os dormitórios de Dartford. Fora apenas há uma semana, quando me dirigia para o ofício de Vésperas, que ouvira o nome dela ser sussurrado pela primeira vez, um pouco mais à frente, no corredor sul. A mulher que estava entre os dirigentes da segunda Rebelião do Norte, lady Margaret Bulmer... Exclamei: de quem estais a falar? As duas irmãs que caminhavam lado a lado estacaram e viraram-se para trás. Uma noviça nunca devia dirigir-se às suas superioras naquele tom. Perdoai-me, irmã Joan e irmã Agatha. Baixei a cabeça, cruzei modestamente as mãos, depois levantei os olhos para os seus rostos. A irmã Joan, a circator, responsável pela aplicação das regras, fitava-me com uma expressão de desaprovação fria. Mas a irmã Agatha, a mestra de noviças, não resistiu a partilhar a sua bisbilhotice. Os últimos dirigentes rebeldes foram levados para Londres e julgados em Westminster, contou num sussurro precipitado. Todos foram considerados culpados. Os homens serão enforcados, incluindo sir John Bulmer, mas a sua esposa, uma lady, será queimada viva em Smithfield. São as ordens do rei.
Cambaleei. Tive de estender a mão e apoiar-me à pedra húmida da parede para não cair. Sim, é terrível, não é?, cacarejou a irmã Agatha. Mas os olhos argutos da irmã Joan estavam cravados em mim: irmã Joanna, conhecestes lady Bulmer antes de virdes para Dartford?, inquiriu. Não, irmã. E pronto, já tinha cometido um pecado grave. A irmã Agatha continuou: sempre me perguntei o que lhes acontece..., depois. A família de lady Bulmer terá permissão para levar o pobre corpo e enterrá-lo, embora o crime seja de alta traição? A irmã Joan lançou-lhe um olhar severo: tais assuntos não nos dizem respeito. Tenho a certeza de que a família da senhora tem meios para subornar os guardas, se for necessário. Nós ocupamo-nos das almas, não da carne mortal. Tínhamos chegado à igreja. A irmã Joan e a irmã Agatha inclinaram-se diante do altar e ocuparam os seus lugares. Segui-lhes o exemplo e dirigi-me para as cadeiras das noviças, à frente. Sendo a mais nova, sentava-me ao lado do degrau do coro. Acompanhei os cânticos, dei todas as respostas correctas durante a celebração do ofício. Mas, enquanto o fazia, ia alinhavando mentalmente um plano. Sabia que os nossos aterrorizados parentes Stafford não quereriam ter nada a ver com Margaret ou com o seu enterro. Não podia suportar a ideia de ela morrer, só e assustada, sem a presença e as orações de um ente querido para lhe aliviar o sofrimento, e de saber o seu pobre cadáver abandonado ao esquecimento. Deus queria que eu assistisse como testemunha, estava certa disso.
Sairia do Priorado de Dartford e iria até Londres, até Smithfield. Mas, como a ordem dominicana observava regras de clausura rigorosas, tanto para as noviças como para as freiras, teria de ir sem autorização. A ideia assustava-me, sim. As consequências de quebrar a clausura eram tão sérias que a única coisa mais grave era a violação dos nossos votos de castidade. Passei os dois dias seguintes a vacilar, insegura acerca da minha decisão. Procurei orientação nas minhas orações. No ofício de Matinas, à meia-noite, fui iluminada. Habitualmente, as noviças de Dartford recolhiam-se às nove horas, com instruções para descansarem, mas, nessa noite, não preguei olho, de tão perturbada que estava. Entrei na igreja com as outras e, entre o Pai Nosso e a Avé-maria, tive uma inspiração. Todas as minhas dúvidas, medos e preocupações desapareceram, como se estivesse numa queda de água e fosse purificada pela mais límpida das torrentes. Iria a Smithfield. Tudo correria bem. Ergui os braços e virei as palmas das mãos para o altar, com as faces húmidas de gratidão. Enquanto subíamos as escadas, de regresso aos dormitórios para mais algumas horas de sono até aos Laudes, a irmã Christina, a noviça mais antiga, deu-me uma cotovelada. Encontrastes a Verdade Divina?, sussurrou. Parecia. Talvez, repliquei. Rezo para receber a mesma bênção, disse ela, num tom veemente. Era notavelmente devota e, por vezes, usava um cilício por baixo do seu hábito de noviça, embora já tivesse sido repreendida por isso. As noviças eram desencorajadas de procurar a mortificação da carne. Ainda não estávamos preparadas. A irmã Winifred, a outra noviça, que professara três meses antes de mim, apertou-me o braço. Fico feliz par vós, murmurou, na sua voz doce e melodiosa». In Nancy Bilyeau, A Coroa, 2012, Editorial Presença, Lisboa, 2012, ISBN 978-972-234-862-1.

Cortesia de EPresença/JDACT

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

A Coroa. Nancy Bilyeau. «Eu fechava os olhos e ficava a ouvi-lo contar as histórias. Tinha a sensação de que era eu quem cavalgava pela liça, dividida em duas por uma barreira baixa, de madeira»

jdact

Londres. Maio de 1537
«(…) Bem sei que és capaz de fazer seja o que for, Margaret, retorquiu. O meu pai também me apertou nos braços. Tinha passado o dia a praticar desporto, e ainda me lembro de como cheirava a suor, a terra e a erva seca e esmagada. Senti-me muito aliviada e muito feliz. A carroça de Londres estremeceu e sacolejou, atirando-me para cima da palha. O meu sonho terminara. Tínhamos passado as muralhas da cidade e tomado por uma rua lateral. As rodas da carroça estavam atoladas no lodo. Os cavalos relinchavam, o carroceiro praguejava, os turbulentos homens passaram para trás da carroça. Não faz mal, disse-me a mulher. Estamos quase em Smithfield. Segui o grupo até ao fim da rua. Virámos para uma outra, ladeada de tabernas. Ia dar a uma enorme zona aberta e plana, a transbordar de gente que aguardava a execução do dia. Havia centenas de espectadores: homens e mulheres, marinheiros e costureiras, até crianças. Uma família passou por mim, a mãe transportando um cesto de pão, o pai com um rapazinho às cavalitas. Um fedor inesperado inundou-me o nariz, a garganta e os pulmões. Os meus olhos lacrimejaram. Era o pior cheiro que jamais sentira em Londres. Soltei um grito e agarrei a garganta, que me ardia loucamente. São os matadouros, a oriente, explicou a mulher que viera na carroça comigo. Quando se apanha o vento, o cheiro do sangue e das vísceras torna-se mesmo desagradável. Pegou-me no cotovelo. Vê-se que não estais habituada a Smithfield. Vinde comigo, não vos afasteis. Abanei a cabeça, pestanejando. Não testemunharia o fim da vida de Margaret com uma criatura sem coração, como aquela. Ela encolheu os ombros e desapareceu na multidão. Fiquei sozinha. Estava a tremer. Meti de novo a mão no bolso e tirei a carta que Margaret me escrevera poucos dias antes de rebentar a Rebelião do Norte, à qual chamamos a Peregrinação da Graça. Desdobrei o pequeno triângulo de papel bege e admirei, como sempre, a sua caligrafia inclinada e delicada.
Minha muito querida Joanna: Ouvi do meu irmão que tencionas entrar na Ordem Dominicana, no Priorado de Dartford, e professar para te tornares noiva de Cristo. Admiro-te profundamente pela tua escolha de uma vida santa. Acendi velas em tua honra na missa da manhã, querida prima. […] Todas as noites digo três orações. Peço a Deus que proteja os nossos mosteiros. Oro pela salvação da alma do meu pai. E rezo para que, um dia, volte a ver-te, Joanna, e que tu me abraces e perdoes. Escrito no meu solar de Lastingham em York, na última quinta-feira de Setembro. A tua prima e amiga para a eternidade Margaret Bulmer
Guardei de novo a carta, puxei o capuz para a cabeça, de modo a que nem um fio de cabelo ficasse à vista, e entrei em Smithfield.

Parei na orla da clareira atulhada de gente ansiosa pelo divertimento de ver Margaret morrer queimada. Lembrei-me de uma coisa que o meu pai dizia acerca de Smithfield: era o sítio onde a corte dos Plantagenetas organizava as mais magníficas justas, Joanna. Foi por isso que o escolheram. Não muito longe do palácio havia um campo raso (smooth field). E transformou-se em Smithfield. O meu pai não era um homem dado às belas palavras. Mas sabia descrever uma justa. Tinha sido campeão, na sua juventude, um dos melhores cavaleiros do reino. Isso fora antes da execução do meu tio, o duque, por alta traição, quando eu tinha dez anos, e de os meus pais terem sido banidos da corte. Antes da queda dos Stafford. Já tinham passado muitos anos desde a última justa em que ele participara. Mas as recordações continuavam bem vivas. Eu fechava os olhos e ficava a ouvi-lo contar as histórias. Tinha a sensação de que era eu quem cavalgava pela liça, dividida em duas por uma barreira baixa, de madeira. A armadura prateada a brilhar ao sol. Um escudo na mão esquerda, uma lança na direita. Ao longe, um adversário galopa também, cada vez mais perto..., mais perto..., até os dois cavaleiros estarem a poucos metros um do outro e as lanças baixarem com estrondo. Quando imaginava esse momento de contacto, em que um homem podia morrer se a lança penetrasse na armadura, estremecia. O meu pai sorria. Aquele sorriso breve era o de um rapaz, apesar de o seu abundante cabelo castanho já apresentar alguns fios grisalhos». In Nancy Bilyeau, A Coroa, 2012, Editorial Presença, Lisboa, 2012, ISBN 978-972-234-862-1.

Cortesia de EPresença/JDACT

quinta-feira, 8 de setembro de 2016

A Coroa. Nancy Bilyeau. «Margaret era um ano mais velha do que eu e cinco centímetros mais alta, além de ser sempre cem vezes mais inteligente e bonita. Era minha prima direita. E a minha única amiga»

jdact
Londres. Maio de 1537
«(…) Fechei os olhos. Via outra rapariguinha a correr. Tinha oito anos de idade, estava sem fôlego, sentia uma pontada no flanco, e corria por um caminho estreito, entre sebes altas, à procura de uma saída. Ouvia vozes a gritarem o meu nome, mas não via quem falava. Despacha-te, Joanna, despacha-te! A seguir vamos jogar ténis!, bradavam os meus primos, tão fortes, tão duros. Anda lá, rapariga, tu consegues, trovejava a voz despreocupada do meu tio, Edward Stafford, terceiro duque de Buckingham e chefe da família. Tens de descobri r a saída sozinha. Não podemos mandar ninguém à tua procura e correr o risco de perder outra criança. Tinha ficado presa no labirinto do meu tio. Acabara de o mandar construir. Contratei frades melhores para desenharem o meu do que os que fizeram o do cardeal Wolsey, gabava-se ele repetidamente. Naquele dia, 4 de Setembro, a festa anual do aniversário do segundo duque de Buckingham, o meu avô, falecido há muito, o labirinto tinha sido estreado. Os meus primos e eu tínhamos sido vendados e conduzidos até ao centro. Depois tiraram-nos as vendas e deram-nos ordem para corrermos para a saída, a ver quem seria o primeiro. Percorram o labirinto! Percorram o labirinto!, bradava o meu tio, do outro lado das sebes altas e cerradas. Eu era das mais novas e fiquei imediatamente para trás. Não tardei a ficar sozinha. Corria de um lado para o outro, na esperança de ver as sebes abrirem-se para o jardim, mas a minha intuição nunca acertava e cada vez me embrenhava mais no labirinto.
Que se passa contigo, Joanna? Pensa, rapariga, pensa! As vozes eram cada vez mais altas, mais impacientes. Joanna, não sejas tão estúpida, gritou um dos rapazes Stafford. Um dos adultos mandou-o calar. Tinha-me transformado no centro das atenções, algo que sempre detestei. Nesta esquina teria virado à direita ou à esquerda? O pânico fazia-me esquecer os caminhos que já experimentara. Sentia a cabeça a andar à roda, por causa do perfume das rosas. Dúzias de roseiras vermelhas, rigidamente podadas, salpicavam o labirinto. Estavam quase no fim da época; as pétalas tinham murchado e caído. E já passava da hora de maior frescura para as flores. Mas as roseiras eram tantas, e eu passara tantas vezes por elas, que quase sentia na boca o sabor enjoativo e poeirento daquelas rosas imperiosas. Dobrei uma esquina, muito depressa, e esbarrei com Margaret. Caímos as duas, rindo. As contas que decoravam as nossas mangas tufadas prenderam-se umas às outras. Quando conseguimos libertar-nos, ela ajudou-me a levantar: Margaret era um ano mais velha do que eu e cinco centímetros mais alta, além de ser sempre cem vezes mais inteligente e bonita. Era minha prima direita. E a minha única amiga. Margaret, onde foste?, berrou o duque de Buckingham. É bom que não tenhas voltado ao labirinto para ires buscar a Joanna.
Oh, ele vai zangar-se contigo!, disse eu. Não devias ter vindo. Margaret piscou-me o olho. Sacudiu a terra que sujava os nossos vestidos de festa e conduziu-me para a saída, levando-me pela mão. Um grupo enorme havia-se reunido à boca do labirinto. Parecia que lá estava o clã Stafford em peso, acompanhado por todos os nossos vassalos e criados. O meu tio, o duque, o proeminente par do reino, trajava brocado de prata e exibia uma comprida pena de avestruz no chapéu. O seu irmão mais novo, sir Richard Stafford, meu pai, estava ao seu lado. Uma sombra que se alongava de um lado ao outro do jardim quase caía sobre eles. Era projectada pela torre quadrada que se erguia acima de todos nós. O Castelo de Thornbury, no Gloucestershire, tinha sido construído para resistir a qualquer ataque. Não de um inimigo externo, mas de gerações de reis Plantagenetas invejosos. Margaret foi direita ao duque, sem medo: estais a ver, pai, encontrei a Joanna, declarou ela. Agora já podeis ir jogar ténis. Ele fitou-nos às duas, com as sobrancelhas arqueadas, enquanto toda a gente esperava. O ambiente era tenso. Mas o duque de Buckingham deu uma gargalhada. Beijou a sua filha muito querida, a bastarda que fora criada com os quatro filhos da sua dócil duquesa». In Nancy Bilyeau, A Coroa, 2012, Editorial Presença, Lisboa, 2012, ISBN 978-972-234-862-1.
 Cortesia de EPresença/JDACT

segunda-feira, 29 de agosto de 2016

A Coroa. Nancy Bilyeau. «Ouvi um ruído áspero. Era o meu próprio riso, um som amargo e desprovido de alegria. Que passou despercebido, pois ouviu-se um grito mesmo ao lado da carroça»


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Londres. Maio de 1537
«(…) Encostei-me às guardas da carroça. Passámos por um pequeno mercado, que parecia não vender senão especiarias e ervas aromáticas. Tinha deixado de chover, pelo que os vendedores afastaram as mantas que protegiam as suas bancas estreitas. Uma mistura rica de borragem, salva, tomilho, alecrim, salsa e cebolinho espalhou-se pelo ar, dissolvendo-se à medida que nos afastávamos sacolejando. Os odores urgentes da cidade retomaram a sua intensidade. Uma fila de edifícios de quatro andares surgiu à nossa vista: ainda não tinha visto nada tão próspero. Uma placa de ourives pendia numa esquina. Um rapaz novo, que ia sentado à minha frente, sorriu e disse, em voz alta, para todos os passageiros da carroça: estamos gratos ao rei Hal por queimar uma jovem beldade em Smithfield. A última pessoa a morrer na fogueira foi um falsário velho e feio.
Um pedaço do pão que engolira subiu-me à garganta. Tapei a boca com a mão. Mas é uma beldade?, perguntou outra voz. Um velhote, com os olhos azuis aguados, torceu um pêlo comprido que lhe nascia no meio do queixo. Conheço uma pessoa que viu lady Bulmer em carne e osso, e, sim, é bonita, declarou lentamente. Mais bonita do que a rainha. Qual das rainhas?, bradou um dos homens. Todas as três, replicou outro. Um riso nervoso percorreu a carroça. Troçar dos casamentos do rei, do divórcio da primeira mulher e da execução da segunda para abrir caminho para a terceira, era crime. Já tinham sido amputadas mãos e orelhas por causa disso. O velhote torceu o pêlo do queixo ainda com mais força: lady Bulmer deve ter ofendido gravemente o rei, para ele a mandar queimar em público, diante da plebe, em vez de a condenar ao machado em Tower Hill ou de a enforcar em Tyburn.
O rapaz novo retorquiu: todos os nobres e aristocratas que seguiam Robert Aske foram trazidos para Londres. Pela justiça do rei. Ela vai ser apenas a primeira a morrer. O meu coração bateu mais depressa. Que diriam aqueles londrinos, que me fatiam, se soubessem quem eu era e de onde vinha? Uma coisa era certa: nunca chegaria a Smithfield. Procurei uma oração que pudesse sustentar-me o ânimo. Ó Senhor, meu Deus, ajudai-me a ser obediente sem reserva, pobre sem servilismo, casta sem vacilação. Essa tal Bulmer é uma rebelde nojenta!, gritou a mulher que tinha partilhado o seu pão comigo. É uma papista do Norte, que conspirou para destronar o nosso rei. Humilde sem pretensão, alegre sem depravação, séria sem afectação, activa sem frivolidade, submissa sem amargura, verdadeira sem duplicidade. O velhote replicou suavemente: no Norte, deram a vida pelos costumes antigos. Queriam proteger os mosteiros. Houve uma irrupção geral de desprezo. Esses frades gordos escondem potes de ouro, enquanto os pobres morrem de fome às suas portas. Ouvi contar de uma freira que teve um filho de um padre. As freiras são prostitutas. Ou então são aleijadas. Idiotas corridas de casa pelas famílias. Ouvi um ruído áspero. Era o meu próprio riso, um som amargo e desprovido de alegria. Que passou despercebido, pois ouviu-se um grito mesmo ao lado da carroça. Um diabrete corria ao nosso lado, tão depressa que ultrapassou os cavalos. Um olhar aterrorizado, por cima do ombro, revelou que a criança não era um rapaz, mas sim uma rapariga de rosto enfarruscado e cabelo curto. Um pedaço de lama voou pelo ar e atingiu-a no ombro. Au!, gritou ela. Seus canalhas! Dois rapazes grandalhões, que corriam pesadamente ao lado da carroça, riram. Estavam quase a apanhá-la. Os homens que viajavam na carroça puseram-se a encorajá-los.
A presa dos rapazes acelerou pela rua abaixo, em direcção a uma fila de lojas. Outra rapariga acenou-lhe de uma porta, bradando: aqui! A criança correu lá para dentro e a porta fechou-se atrás delas. Os rapazes chegaram lá poucos segundos depois e bateram furiosamente, mas a porta estava trancada». In Nancy Bilyeau, A Coroa, 2012, Editorial Presença, Lisboa, 2012, ISBN 978-972-234-862-1.

Cortesia de EPresença/JDACT

A Coroa. Nancy Bilyeau. «Quando trepei para a carroça, vi um misto de piedade e desprezo nos rostos dos outros passageiros. O meu anel devia valer mais do que o preço da viagem»

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Londres. Maio de 1537
«Sempre que é anunciada uma execução pelo fogo, as tabernas de Smithfield encomendam mais uma porção de barris de cerveja, mas quando a pessoa que vai ser executada é mulher e nobre de nascimento, a cerveja é encomendada às carroças. Seria numa dessas carroças que eu viajaria, na sexta-feira de Pentecostes, no vigésimo oitavo ano do reinado do Rei Henrique VIII, para rezar pela alma da traidora condenada, lady Maryaret Bulmer. Percorria a Cheapside Street, agarrada ao mapa de Londres que tinha copiado de um livro em segredo, há duas noires, quando ouvi o brado do carroceiro. Agora que estava numa rua tão larga e calcetada, conseguia avançar mais depressa, mas doíam-me as pernas. Tinha passado a manhã a caminhar penosamente pela lama. Smithfield, quem vai para Smirhfield? Era uma voz alegre, como se o destino anunciado fosse uma feira do Dia de S. Jorge. Um pouco mais adiante, mesmo em frente de uma fábrica de curtumes, vi quem apregoava: um homem corpulento, que fazia estalar um chicote sobre o dorso de quatro cavalos atrelados a uma grande carroça. Meia dúzia de cabeças espreitavam por cima das guardas da carripana. Esperai!, gritei, o mais alto que pude. Quero ir para Smithfield. O carroceiro virou-se bruscamente; os seus olhos esquadrinharam a multidão. Acenei e o seu rosto exibiu um sorriso húmido. Quando me aproximei, senti o estômago contrair-se. Tinha jurado não falar com ninguém em todo o dia, não procurar auxílio. O risco de ser descoberta era demasiado grande. Mas Smithfield ficava fora das muralhas da cidade, para noroeste, ainda bastante longe. Ao ver-me chegar, o carroceiro mirou-me de cima a baixo e o seu sorriso vacilou. Eu vestia um pesado traje de lã, o único de que dispunha para aquela jornada. Tratava-se um conjunto de corpete e saia feito para o pino do Inverno, não para a Primavera, e seguramente não para um dia em que a neblina ondulante servia de âncora a ondas de calor. Tinha a bainha da saia empastada de lama. Só podia agradecer o facto de ninguém poder espreitar através do tecido pesado e ver a minha camisa encharcada em suor. Mas sabia que o meu aspecto desalinhado não era a única causa da hesitação do carroceiro. O meu aspecto parece estranho a muita gente. Tenho o cabelo preto como ónix polido, os olhos, castanhos mesclados de verde. A minha pele cor de azeitona não fica vermelha em Julho, nem pálida no Advento. Herdei as cores da minha mãe espanhola. Mas não as suas feições delicadas. Não, o meu rosto é o do meu pai inglês: testa larga, malares altos e queixo forte. É como se a dissonância do casamento dos meus pais lutasse na própria estrutura da minha cara, à vista de todos. Num país de raparigas rosadas e brancas, destaco-me como um corvo. Houve um tempo em que isso me perturbava, mas, aos vinte e seis anos, já não me preocupava com tais ninharias. Um xelim pela viagem, dona, disse o carroceiro. Pagai e arrancamos. Aquela exigência apanhou-me de surpresa, embora, claro, fosse de esperar. Não tenho moedas, gaguejei. O carroceiro ladrou uma gargalhada. Julgais que faço isto para me divertir? Tenho pouca cerveja..., bateu num barril de madeira equilibrado atrás de si..., e preciso de ganhar com que pagar a carroça. Os passageiros esticavam o pescoço por cima do barril, para olharem para mim.  Esperai, atalhei. Procurei a pequena bolsa de pano que escondera no bolso cosido ao meu vestido. Revolvi a bolsa e encontrei um anel delgado. Não queria dar-lhe nada de maior valor. Ainda tinha de pagar alguns subornos importantes. Estendi-lhe o anel. Isto chega? A carranca dele transformou-se imediatamente numa expressão deliciada, e o pequeno anel de ouro da minha falecida mãe desapareceu na palma da mão suja. Quando trepei para a carroça, vi um misto de piedade e desprezo nos rostos dos outros passageiros. O meu anel devia valer mais do que o preço da viagem. Descobri um bocado de palha limpa num canto e baixei os olhos, tentando evitar os olhares curiosos assestados sobre mim, enquanto a carroça se punha de novo em movimento. Alguém me acotovelou. Uma mulher robusta chegou-se para o meu lado. Era de meia-idade e a única outra mulher presente. Sorriu e estendeu-me um pedaço de pão escuro. Eu não comia nada desde a noite anterior. Normalmente, orgulhava-me de resistir às ânsias da fome, da sensação de domínio sobre a minha fraca carne mortal, mas a missão que empreendera exigia um certo vigor. Um pouco de comida e um trago da cerveja aguada da caneca de madeira da minha companheira de viagem deram forças ao meu corpo aturdido». In Nancy Bilyeau, A Coroa, 2012, Editorial Presença, Lisboa, 2012, ISBN 978-972-234-862-1. 
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