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sexta-feira, 15 de março de 2024

A Conspiração do rei James. Phillip Depoy. «Usava um vestido preto que lhe abafava o pescoço, um visível gesto petulante numa cultura onde as cores da corte tendiam mais a tons claros de azul e roxos esmaecidos»

jdact e wikipedia

Cambridge, Inglaterra

«Coitado do velho Jacob. Vilão! Eu vi o que o senhor fez. Eu sei, respondeu o outro, racionalmente. Por isso vou ter de matá-lo também. Sem mais uma palavra, pegou o maior cutelo do acossado, que se sentiu congelar. Ergueu a arma bem no alto. O açougueiro emitiu um grito tão agudo que foi quase inaudível. Timon virou o cutelo, baixou brutalmente a parte chata na cabeça do homem e apenas o derrubou inconsciente. Com todo o cuidado, enfiou a arma na mão direita da vítima. Depois ergueu o cachorro, abriu-lhe a garganta e despejou um pouco de sangue no dono e na lâmina.

Lançou o olhar à rua escura por um instante. Aguçou os ouvidos em busca da mínima sugestão de outras testemunhas. Convencido de estar sozinho na missão, escancarou a boca do cão, empurrou-a no amplo pescoço do açougueiro e fechou-a com força até os dentes sem vida extraírem sangue. Examinou as outras facas na loja até encontrar uma lâmina de fino gume. Usou-a para retalhar vários buracos profundos no pescoço do açougueiro, buracos que pareciam marcas dos dentes de um cachorro. Dois perfuraram a jugular, e logo jorrou sangue, espalhando uma rubra decoração pelo piso.

No dia seguinte, as pessoas diriam que coisa terrível!, pensou Timon consigo mesmo, recuando para admirar o quadro vivo. O cão do açougueiro atacara-o e ele se vira obrigado a retalhar a garganta do animal. Então, o coitado do homem sangrara até à morte antes que alguém pudesse socorrê-lo. Que ironia, num açougue, não era?

Timon vigiou durante cinco minutos para ter certeza de que o homem morrera. Só então examinou o próprio manto à procura de manchas, mas a vantagem de usar preto era que o sangue raras vezes deixava algum traço visível. Sem mais pensar nos mortos, o monge virou-se para a rua e pôs-se a recitar, de memória, toda a Poética de Aristóteles.

Na tarde seguinte, o tempo esquentou mais. Cambridge beirava a Primavera, pelo menos no lado de fora. O ar no interior das paredes do Grande Salão continuava de rigoroso Inverno. Até as chamas das velas tremiam, tiritando. O lugar era uma caverna. Janelas altas, embaçadas por décadas de poeira, pareciam planeadas para impedir a entrada da luz. As paredes exibiam nas sombras indícios de musgo, cujo cheiro pairava no ar. Os pisos, cinzentos como nuvens de chuva, apenas vedavam o frio.

Vigas de madeira cor de bico de corvo sustentavam o tecto de pé-direito alto, de cinquenta pés ou mais, incitando-o rumo ao céu. A gravidade, que pena, fazia o trabalho do diabo, afundando as vigas e ameaçando derrubar o tecto.

O irmão Timon, sem dúvida com mais de seis pés de altura no áspero manto de monge asceta, absorvia, e memorizava, tudo. A posição de cada homem, de cada mesa, a disposição das velas, a pequena caixa perto da porta, o aroma de conhaque: ele catalogava todas essas coisas na mente. Mas o que achou mais fascinante foi o ruído da imensa sala: um constante e baixo zumbido, resultado de vozes sussurradas com a arranhadura de penas em papel.

O diácono Marbury conduziu Timon de uma escrivaninha a outra. Muitas, vazias; algumas, ocupadas por estudiosos absortos, sete, ao todo. Os homens espalhavam-se aqui e ali e entre as cinquenta mesas de trabalho no salão. Os enormes cubículos de estudo distribuíam-se em fileiras de cinco, e nenhum deles se sentava em seguida nem defronte a nenhum outro.

Timon seguiu em silêncio atrás do diácono Marbury até ao lugar indicado, contando os passos e sentindo os contornos do piso ao andar. Aqui estamos, disse o anfitrião, afinal. Apresento-lhe minha filha, Anne. Srta. Anne, este é o seu novo tutor, irmão Timon.

O monge ergueu os olhos para encontrar os de Anne. Primeiramente, notou que a moça tinha uma postura perfeita. A estrutura dos ossos era um estudo de ângulos rectos e permitia uma graça ou fácil bem-estar que relaxavam os músculos. Ela sentara-se a uma pequena mesa retangular, não escrivaninha. Orelhas pequenas demais, olhos grandes demais, lábios cheios demais e faces mais avermelhadas, que ditava a moda. Tomadas em conjunto, essas partes compunham um todo de estranho encanto. Usava um vestido preto que lhe abafava o pescoço, um visível gesto petulante numa cultura onde as cores da corte tendiam mais a tons claros de azul e roxos esmaecidos. Sem perceber, o recém-chegado escovou com a mão os cabelos para trás, examinando cada feição da jovem como se lesse um difícil trecho de grego. Batia repetidas vezes e ritmadamente no polegar com os dedos da mão direita, enquanto a encarava». In Phillip Depoy, A Conspiração do rei James, Prumo, 2009, ISBN 978-857-927-022-2.

Cortesia de Prumo/JDACT

JDACT, Phillip Depoy, Literatura,

A Conspiração do rei James. Phillip Depoy. «O velho revirou os olhos. Ah. Timon retirou o punhal. A vítima cambaleou em direcção às pedras do beco no momento em que o assassino imaginou ver uma erupção de vapor branco…»

jdact e wikipedia

Cambridge, Inglaterra

«Deixe-me explicar o que acontece, sussurrou o agressor, calmamente. Deslizei a faca por essa finíssima pele até ao coração que batia. Agora o senhor já não sente a lâmina mover-se, mas dividi o coração quase na metade exacta. O ferimento no peito é tão perfeito que pouco sangue se espalhará, mas o coração continuará a bombear por um instante, enchendo a cavidade peitoral com suficiente sangue, pelo menos em teoria, para fazer o torso, na verdade, explodir. Não tenha medo. Estará morto quando isso acontecer. Mas tornará muito difícil a identificação do sangue. O capuz do monge escorregou para trás e revelou um rosto de frio brilho. Tinha os olhos cor de folhas verdes novas, cabelos grisalhos encaracolados, desgrenhados e tempestuosos ao redor da cabeça. As feições pareciam mais esculpidas que fixas.

Eu o conheci... anos atrás... Giordano!, conseguiu dizer Jacob. Sim, respondeu Giordano, tranquilizando-o. Por isso o matei: não devo mais ser Giordano. Preciso desaparecer de todos os registos, e o senhor é um registo vivo de minha existência. De agora em diante, serei chamado de Timon, entenda. Jacob lutou para falar mais.

Não tema, interrompeu-o o assassino. O senhor dedicou a Deus e a seus amos na família Sidney uma boa vida de serviço. Tem a alma prostrada agora... Eu a sinto... A espera do salto para o céu. Lá encontrará bem-aventurança. Foi um homem bom.

O beco era curto, o espaço de três cavalos, pedras sob os pés, gelo entre duas lojas ruidosas naquela parte mais pobre de Cambridge. A primeira, de um açougueiro, emprestava o ar de fétida putrefacção. A outra, o casebre de um funileiro. De toda a parte, pendiam panelas baratas.

Jacob se esquecera de onde se encontrava. Não conseguia sentir nada. Apenas o opressivo aroma de noz-moscada que se desprendia do agressor. Talvez se pergunte por que escolhi este método de execução, continuou Giordano, a lâmina ainda no peito do velho. Eu tinha ternura pelo senhor, e meus estudos indicaram que não se sente nada com esse ferimento. Os antigos médicos gregos nos dizem que, quando um homem sofre um repentino choque dessa magnitude, o corpo recusa-se a acreditar, e todos os sentidos se fecham por um breve tempo. O senhor logo dormirá, sem sentir mais que a primeira afronta do punhal. Ofereci-lhe, Jacob, a única bondade que tenho a dar numa circunstância como esta.

O velho revirou os olhos. Ah. Timon retirou o punhal. A vítima cambaleou em direcção às pedras do beco no momento em que o assassino imaginou ver uma erupção de vapor branco projectar-se para cima. Adeus, Jacob, disse o assassino ao vapor. Eu, ai de mim, não tornarei a vê-lo. Passaremos à eternidade em diferentes acomodações. Nesse momento, um cachorro saltou das sombras, liberado por uma porta lateral do açougue.

Pegue-o, garoto!, grunhiu uma voz. Ele matou Jacob. O animal saltou sobre a garganta de Timon. Sem reflectir, ele girou o punhal para a frente, enterrou-o fundo e cortou a garganta do animal, quase degolando-o. A carcaça agonizante continuou a voar até cair no chão ao lado da vítima. O assassino avançou três longos passos com toda a calma e encontrou o açougueiro agachado nas sombras, com os olhos saltando das órbitas.

Sem uma palavra, agarrou-o pelo avental e atirou-o para trás pela porta lateral, loja adentro. O homem bateu numa mesa de madeira e caiu encolhido no piso. Como uma sombra fugaz, Timon voltou ao beco para agarrar pelo rabo do cachorro morto e arrastá-lo até ao açougue. Vai ser um pouco desconfortável, avisou, muito tranquilo, e jogou mais uma vez o capuz para trás. Logo o açougueiro começou a rastejar de costas». In Phillip Depoy, A Conspiração do rei James, Prumo, 2009, ISBN 978-857-927-022-2.

Cortesia de Prumo/JDACT

JDACT, Phillip Depoy, Literatura,

sexta-feira, 14 de abril de 2023

A Conspiração do rei James. Phillip Depoy. «Num beco lateral a outra rua em Cambridge, nesse exacto momento, uma lâmina prateada captou a luz do luar. Depois perfurou o coração de um idoso»

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Cambridge, Inglaterra

«(…) Após assegurar-se de que Marbury fora embora, Samuel desabou na cadeira. Isaiah exalou um longo suspiro. O que era chamado de Daniel foi o primeiro a tirar a máscara. Enxugou o rosto com ela, e a mão tremia enquanto o fazia. Graças a Deus esse negócio terminou e posso retornar logo a Roma. Bem, apenas..., pelo menos por enquanto Samuel olhou para Isaiah, a máscara ainda no lugar. Nosso irmão cardeal Venitelli não tem estômago para alcovas e sombras, suspirou Isaiah. Vejam como fiquei empapado de suor, e, no entanto, que lugar frio é a Inglaterra. O cardeal Venitelli atirou a máscara molhada na mesa. Não precisa me chamar de Daniel agora. É , grunhiu Isaiah. Estamos a sós. Claro, Venitelli estremeceu e persignou-se, sem pensar, levando os braços apertados ao peito. Devo dizer aos dois senhores que sinto muito pela história de Marbury. Parece, por tudo o que descobri dele, um homem inteligente. Como conseguiu enganar-se por tanto tempo?

É protestante, cuspiu Samuel, desdenhoso. Confia em nós, por que não deveria? Cultivamos-lhe a confiança durante vários anos para nossos fins. Ele foi nosso instrumento, sem o saber, ao destruir a Conspiração Bye contra James. Foi?, perguntou Venitelli, tiritando mais uma vez. Achei que nosso padre Henry Garnet... Nosso Papa queria James para condenar todos os católicos, sibilou Isaiah. Quase nada nos solidifica tanto, para Ele, quanto a oposição. Venitelli esforçava-se para entender. Sua Santidade não quis que James repelisse a legislação anticatólica? Marbury é mais nosso instrumento, embora não o saiba, que esse chamado irmão Timon, escarneceu Samuel. Venitelli fechou os olhos ao ouvir o nome. Timon, repetiu, tenso, encarando a porta pela qual desaparecera o visitante. Que vamos fazer? Entregamos esse decente Marbury a um demónio.

Num beco lateral a outra rua em Cambridge, nesse exacto momento, uma lâmina prateada captou a luz do luar. Depois perfurou o coração de um idoso. O punhal fora inserido com toda a destreza logo abaixo do esterno e empurrado para cima. O velho, que se chamava Jacob, fitou dentro dos olhos do assassino, uma sombra obsidiana de absurda altura que parecia reflectir as trevas. Um manto preto e o capuz tornavam-no quase invisível na noite». In Phillip Depoy, A Conspiração do rei James, Prumo, 2009, ISBN 978-857-927-022-2.

Cortesi de Prumo/JDACT

JDACT, Phillip Depoy, Literatura,  

segunda-feira, 18 de janeiro de 2021

A Conspiração do rei James. Phillip Depoy. «Talvez o senhor devesse insistir. Samuel não se mexeu. Esse homem que o senhor descobriu sabe alguma coisa sobre o trabalho de nossos tradutores?»

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Cambridge, Inglaterra

«(…) O outro respondeu sem hesitação: ele é um intelectual. Digamos que será tutor de sua filha. Tutor de Anne? Marbury tossiu. Mas ela é adulta, 20 anos. Já bem passada de tutela. Solteira. A palavra única fora feita de chumbo. E imagina-se uma filósofa religiosa. O primeiro impulso do ministro foi perguntar como aquele homem saberia alguma coisa sobre Anne, mas achou melhor não perguntar nada. E filha do pai. O tom nem de longe era de desculpas. E não aceitará tutor. Deram-nos a entender que ela se interessa pelos costumes da cultura grega, além de Teologia. Marbury deu um suspiro. Decerto aqueles homenzinhos saberiam das tendências religiosas da moça. Ela as expressara com bastante frequência em público. Talvez se interesse por uma coisa dessas, reconheceu. Talvez o senhor devesse insistir. Samuel não se mexeu. Esse homem que o senhor descobriu sabe alguma coisa sobre o trabalho de nossos tradutores?, perguntou o pastor, elevando a voz. Porque isso é tão importante para o senhor?, perguntou Isaiah, igualando o volume. Anne tem um interesse agudo por tradução. O ministro não podia tornar a falar mais alto. Se esse homem pudesse saber um pouco sobre a obra, isso talvez ajudasse a fazê-la aceitá-lo mais depressa. Ele sabe o que saberia qualquer pessoa na posição dele, cortou o outro. O rei James reuniu uma equipa de cerca de cinquenta e quatro intelectuais. Oito moram com o senhor em Cambridge. Só restam cinquenta e três agora, lembrou Isaiah. O importante, prosseguiu Samuel, mais irritado, é que estão traduzindo a Bíblia a partir de fontes originais. O conhecimento de grego do nosso homem é o que interessa tanto em relação à tradução quanto à sua filha. Pois muitos dos originais estão em grego...

Um pouco de conhecimento, interrompeu-o Marbury, na esperança de cortar outra discussão, não enganará nossos homens de Cambridge nem convencerá Anne... Ele é um intelectual superior, explodiu o outro. O pastor ouviu a ameaça nessas palavras. Combateu o impulso de cortar a discussão e deixar o quarto o mais rapidamente possível, percebendo que devia ter cuidado com aqueles homens. Melhor seguir adiante com os planos deles, mas acautelar-se para não confiar em tudo. Formulou, e abandonou, várias perguntas antes de decidir-se pelas mais básicas. Como, então, vou encontrá-lo? Curvou-se para a frente, disposto a sair. Vai chegar amanhã de manhã e apresentar-se ao senhor no diaconato. Samuel moveu uma resma de papel amarrada com barbante de açougueiro em direcção ao pastor. Por qual nome devo chamá-lo? Irmão Timon. A voz do outro pareceu rouca por um momento. O ministro notou que Daniel, que não falara, tremeu durante um breve instante. Quem lhe deu esse nome?, quis saber, sem evitar uma fracção de diversão nas suas palavras.

Os três homens entreolharam-se, obviamente sem resposta para a pergunta. Só pergunto porque acho o nome interessante. E, os senhores entendem, de uma peça que conheço. O nome de uma personagem que odeia todo mundo..., porque os homens foram ingratos com as suas boas obras. Os três permaneceram calados. Muito bem. Marbury levantou-se e puxou a capa em volta do corpo, apalpando em busca do cabo da adaga escondida. Que seja Timon. Espero encontrá-lo. Sem outra sílaba, dirigiu-se à porta, mal dando as costas aos três vultos. Tinha os ouvidos sintonizados para captar o menor sinal de movimento deles ao deslizar para fora». In Phillip Depoy, A Conspiração do rei James, Prumo, 2009, ISBN 978-857-927-022-2.

Cortesia de Prumo/JDACT

JDACT, Phillip Depoy, Literatura,

terça-feira, 18 de fevereiro de 2020

A Conspiração do rei James. Phillip Depoy. «O ministro protestante balançou uma vez a cabeça. Espero que entenda, disse Samuel com voz áspera. Agora, concluindo a história…»

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Cambridge, Inglaterra
«(…) Óptimo, disse Marbury. Os senhores receberam o meu bilhete. Eu não tinha a certeza de que estariam aqui no tão curto prazo. Tudo aconteceu muito rápido. Quando nos comunicámos da última vez, cerca de três semanas atrás... Shhh!, ordenou o homem do meio. Eu esperava ver o rosto dos senhores desta vez, continuou calmamente o pastor, pois já fizemos negócios antes. Senhor. O homem levantou-se. Por favor, chame-me Samuel. Este é Isaiah, e pode chamar aquele de Daniel. O recém-chegado permitiu-se um sorriso, que mal indicava uma decisão. Os homens mesquinhos exultam na espionagem, pensou, falsos nomes que talvez julguem ser espertos, em ridículos encontros como este. Talvez esses anglicanos sejam mais risíveis por ansiar imitar os católicos. E por qual nome do Velho Testamento o senhor me chamaria?, perguntou em voz baixa Marbury. Sente-se. Isaiah indicou uma cadeira. Só concordámos em ajudá-lo porque a obra do nosso grande rei corre perigo. A cadeira arranhou o duro chão como uma pá numa cova. E devemos ser breves. Samuel tinha uma voz de corvo. Descobrimos um homem perfeito para as suas necessidades. Falamos-lhe da morte do tradutor, Harrison. Ele concordou em ajudá-lo. O homem, na verdade, é um ex-católico. Pela graça de Deus, converteu-se à Igreja da Inglaterra cerca de vinte anos atrás, continuou, com uma voz de chocalho.
Marbury pegou a cadeira e nada disse. Num antro de ladrões, o silêncio era um aliado. Mas deslizou devagar a mão direita manga acima e tocou o cabo da lâmina. Há vinte anos, disse, no dia da rainha Elizabeth, um homem escolheu entre a conversão e a morte. Um convertido por medo sempre seria suspeito. Naqueles anos, continuou Samuel, ignorando-o, esse homem ajudou Philip Sidney com o seu opus magnum, Arcádia. A propriedade de sir Philip o recomenda. Naquela época, porém, por motivos que é melhor guardar em segredo em relação ao senhor, ele trabalhava sob outro nome. Esse nome desapareceu de todos os registos. Como podemos ter certeza, então, perguntou o pastor, recostando-se na cadeira, de que esse homem... Desapareceu de todos os registos, completou Samuel, sem piscar por trás da máscara, e o outro ficou com os lábios tensos. Entendo. O ministro protestante balançou uma vez a cabeça. Espero que entenda, disse Samuel com voz áspera. Agora, concluindo a história, levamos o nosso homem à família Sidney, em busca de uma referência. Um antigo criado chamado Jacob, cuja memória para rostos sobreviveu à capacidade de lembrar nomes, o conhecia. A família descobriu, em alguns registos de pagamento, que o tal sujeito fora empregado de sir Philip, relacionado apenas como monge. É o homem de que o senhor precisa. Podemos apresentar determinados registos; ele tem certas qualidades... Quer dizer que esse homem possui credenciais que eu poderia mostrar aos outros, perguntou Marbury sem alterar a voz, mas que, em essência, são falsificadas? De certa forma autênticas, mas sem que se possa localizá-las de modo algum. E suponho que não me vão dizer o verdadeiro nome desse monge, nem nada sobre ele.
Não, confirmou o outro. A não ser que ficou preso algum tempo na Itália, mas não é criminoso. O senhor é um homem inteligente. Isso deve dizer-lhe tudo. A Inquisição (maldita). O pastor cruzou as mãos e pensou que o sujeito a quem contrataria sofrerá a persuasão de Elizabeth e as torturas da Inquisição (maldita). Seria um homem de ferro. Como o senhor disse, insistiu Samuel, os papéis necessários foram forjados, documentos foram assinados e homens fracos foram subornados. O nosso homem vai infiltrar-se entre os tradutores e descobrir o assassino, como o senhor deseja. É possível, mas preciso de um motivo oficial para a presença dele. Também eu, o senhor deve entender, tenho documentos que precisam ser protegidos, pequenos funcionários a aplacar». In Phillip Depoy, A Conspiração do rei James, Prumo, 2009, ISBN 978-857-927-022-2.

Cortesia de Prumo/JDACT

sábado, 6 de abril de 2019

A Conspiração do rei James. Phillip Depoy. «Só pergunto porque acho o nome interessante. E, os senhores entendem, de uma peça que conheço. O nome de uma personagem que odeia…»

jdact e wikipedia

Cambridge. Inglaterra
«(…) O outro respondeu sem hesitação: ele é um intelectual. Digamos que será tutor de sua filha. Tutor de Anne?, Marbury tossiu. Mas ela é adulta, 20 anos. Já bem passada de tutela. Solteira. A palavra única fora feita de chumbo. E imagina-se uma filósofa religiosa. O primeiro impulso do ministro foi perguntar como aquele homem saberia alguma coisa sobre Anne, mas achou melhor não perguntar nada. É filha do pai. O tom nem de longe era de desculpas. E não aceitará tutor. Deram-nos a entender que ela se interessa pelos costumes da cultura grega, além de Teologia. Marbury deu um suspiro. Decerto aqueles homenzinhos saberiam das tendências religiosas da moça. Ela as expressara com bastante frequência em público. Talvez se interesse por uma coisa dessas, reconheceu. Talvez o senhor devesse insistir. Samuel não se mexeu. Esse homem que o senhor descobriu sabe alguma coisa sobre o trabalho de nossos tradutores?, perguntou o pastor, elevando a voz. Porque isso é tão importante para o senhor?, perguntou Isaiah, igualando o volume. Anne tem um interesse agudo por tradução. O ministro não podia tornar a falar mais alto. Se esse homem pudesse saber um pouco sobre a obra, isso talvez ajudasse a fazê-la aceitá-lo mais depressa.
Ele sabe o que saberia qualquer pessoa na posição dele, cortou o outro. O rei James reuniu uma equipe de cerca de cinquenta e quatro intelectuais. Oito moram com o senhor em Cambridge. Só restam cinquenta e três agora, lembrou Isaiah. O importante, prosseguiu Samuel, mais irritado, é que estão traduzindo a Bíblia a partir de fontes originais. O conhecimento de grego do nosso homem é o que interessa tanto em relação à tradução quanto à sua filha. Pois muitos dos originais estão em grego... Um pouco de conhecimento, interrompeu-o Marbury, na esperança de cortar outra discussão, não enganará os nossos homens de Cambridge nem convencerá Anne... Ele é um intelectual superior, explodiu o outro.
O pastor ouviu a ameaça nessas palavras. Combateu o impulso de cortar a discussão e deixar o quarto o mais rapidamente possível, percebendo que devia ter cuidado com aqueles homens. Melhor seguir adiante com os planos deles, mas acautelar-se para não confiar em tudo. Formulou, e abandonou, várias perguntas antes de decidir-se pelas mais básicas. Como, então, vou encontrá-lo? Curvou-se para a frente, disposto a sair. Vai chegar amanhã de manhã e apresentar-se ao senhor no diaconato. Samuel moveu uma resma de papel amarrada com barbante de açougueiro em direcção ao pastor. Por qual nome devo chamá-lo? Irmão Timon. A voz do outro pareceu rouca por um momento. O ministro notou que Daniel, que não falara, tremeu durante um breve instante. Quem lhe deu esse nome?, quis saber, sem evitar uma fracção de diversão nas suas palavras. Os três homens entreolharam-se, obviamente sem resposta para a pergunta.
Só pergunto porque acho o nome interessante. E, os senhores entendem, de uma peça que conheço. O nome de uma personagem que odeia todo o mundo..., porque os homens foram ingratos com suas boas obras. Os três permaneceram calados. Muito bem. Marbury levantou-se e puxou a capa em volta do corpo, apalpando em busca do cabo da adaga escondida. Que seja Timon. Espero encontrá-lo. Sem outra sílaba, dirigiu-se à porta, mal dando as costas aos três vultos. Tinha os ouvidos sintonizados para captar o menor sinal de movimento deles ao deslizar para fora». In Phillip Depoy, A Conspiração do rei James, Prumo, 2009, ISBN 978-857-927-022-2.

Cortesia de Prumo/JDACT

sexta-feira, 5 de abril de 2019

A Conspiração do rei James. Phillip Depoy. «Há vinte anos, disse, no dia da rainha Elizabeth, um homem escolheu entre a conversão e a morte. Um convertido por medo sempre seria suspeito»

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Cambridge. Inglaterra
«(…) Os senhores receberam meu bilhete. Eu não tinha a certeza de que estariam aqui em tão curto prazo. Tudo aconteceu muito rápido. Quando nos comunicámos da última vez, cerca de três semanas atrás... Shhh!, ordenou o homem do meio. Eu esperava ver o rosto dos senhores desta vez, continuou calmamente o pastor, pois já fizemos negócios antes. Senhor. O homem levantou-se. Por favor, chame-me de Samuel. Este é Isaiah, e pode chamar aquele de Daniel. O recém-chegado permitiu-se um sorriso, que mal indicava uma decisão. Os homens mesquinhos exultam na espionagem, pensou, falsos nomes que talvez julguem ser espertos, cm ridículos encontros como este. Talvez esses anglicanos sejam mais risíveis por ansiar imitar os católicos. E por qual nome do Velho Testamento o senhor me chamaria?, perguntou em voz baixa Marbury. Sente-se. Isaiah indicou uma cadeira. Só concordamos em ajudá-lo porque a obra do nosso grande rei corre perigo. A cadeira arranhou o duro chão como uma pá em uma cova.
E devemos ser breves. Samuel tinha uma voz de corvo. Descobrimos um homem perfeito para as suas necessidades. Falamos-lhe da morte do tradutor, Harrison. Ele concordou em ajudá-lo. O homem, na verdade, é um ex-católico. Pela graça de Deus, converteu-se à Igreja da Inglaterra cerca de vinte anos atrás, continuou, com uma voz de chocalho. Marbury pegou a cadeira e nada disse. Num antro de ladrões, o silêncio era um aliado. Mas deslizou devagar a mão direita manga acima e tocou o cabo da lâmina. Há vinte anos, disse, no dia da rainha Elizabeth, um homem escolheu entre a conversão e a morte. Um convertido por medo sempre seria suspeito.
Naqueles anos, continuou Samuel, ignorando-o, esse homem ajudou Philip Sidney com seu opus magnum, Arcádia. A propriedade de sir Philip o recomenda. Naquela época, porém, por motivos que é melhor guardar em segredo em relação ao senhor, ele trabalhava sob outro nome. Esse nome desapareceu de todos os registos. Como podemos ter certeza, então, perguntou o pastor, recostando-se na cadeira, de que esse homem... Desapareceu de todos os registos, completou Samuel, sem piscar por trás da máscara, e o outro ficou com os lábios tensos. Entendo. O ministro protestante balançou uma vez a cabeça. Espero que entenda, disse Samuel com voz áspera. Agora, concluindo a história, levamos nosso homem à família Sidney, em busca de uma referência. Um antigo criado chamado Jacob, cuja memória para rostos sobreviveu à capacidade de lembrar nomes, o conhecia. A família descobriu, em alguns registos de pagamento, que o tal sujeito fora empregado de sir Philip, relacionado apenas como monge. É o homem de que o senhor precisa. Podemos apresentar determinados registos; ele tem certas qualidades... Quer dizer que esse homem possui credenciais que eu poderia mostrar aos outros, perguntou Marbury sem alterar a voz, mas que, em essência, são falsificadas? De certa forma autênticas, mas sem que se possa localizá-las de modo algum. E suponho que não me vão dizer o verdadeiro nome desse monge, nem nada sobre ele. Não, confirmou o outro. A não ser que ficou preso algum tempo na Itália, mas não é criminoso. O senhor é um homem inteligente. Isso deve dizer-lhe tudo. A Inquisição (maldita).
O pastor cruzou as mãos e pensou que o sujeito a quem contrataria sofrerá a persuasão de Elizabeth e as torturas da Inquisição (maldita). Seria um homem de ferro. Como o senhor disse, insistiu Samuel, os papéis necessários foram forjados, documentos foram assinados e homens fracos foram subornados. O nosso homem vai infiltrar-se entre os tradutores e descobrir o assassino, como o senhor deseja. É possível, mas preciso de um motivo oficial para a presença dele. Também eu, o senhor deve entender, tenho documentos que precisam ser protegidos, pequenos funcionários a aplacar». In Phillip Depoy, A Conspiração do rei James, Prumo, 2009, ISBN 978-857-927-022-2.

Cortesia de Prumo/JDACT

sexta-feira, 24 de agosto de 2018

A Conspiração do rei James. Phillip Depoy. «O relativo silêncio do ambiente menor deixou-o nervoso. Pior: ali defronte, iluminados apenas por uma vela, todos usavam máscaras. Os mantos de monge, negros como um cano de arma…»

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Cambridge, Inglaterra
«(…) Devemos agora voltar cada um ao seu quarto. Por favor, evacuem o salão. Eu gostaria de falar com o Lively por um instante em particular, se o restante dos senhores nos desculpar. Vários dos homens apressaram-se a mexer-se em direcção à porta. Os demais seguiram um pouco atrás. Só Chaderton voltou a cabeça. Quando o último fechou a porta, Marbury começou: alguém tem de investigar este facto monstruoso..., e o senhor sabe tão bem quanto eu que os vigias locais são inúteis. Está sugerindo que...? Não. Tenho muita consciência da tempestade política que se seguiria se eu fosse o investigador. E isso é uma vantagem para o senhor. Se eu seguisse a linha óbvia de interrogatório, o senhor seria o primeiro suspeito. Eu?, explodiu o outro. Foi quem encontrou o corpo... E você odiava Harrison. Eu dei o alarme. Um gesto perfeito. Com o maior respeito imaginável, disse o académico sem respeito algum, o senhor tem a visão turvada pelo conhaque que tomou. É o que todos dizem. Sentimos no seu bafio.
O rosto de Marbury apresentou uma peça completa, todos os cinco actos em rápida sucessão: raiva, contenção, consideração, calma e inteligência. Quando ele por fim falou, foi como a um colegial: tanto mais razão, então, para um investigador independente, Lively. Deu um suspiro. E, se tomo um pouco de conhaque à noite, é para poder dormir. As preocupações deste mundo se evaporam nos fogos da boa bebida, e vou para a cama como um homem mais calmo. Quase a criança que fui. E agradeço, pois uma boa noite de sono embora minha resposta ao insulto do dia seguinte. Isso permite-me devolver o insulto mais com relutância que com violência. Quando era mais jovem, eu muitas vezes esfaqueava o agressor com a minha adaga. Lively olhou a manga esquerda dele; pendia mais baixo que a direita, lugar perfeito para esconder uma lâmina curta. K percebeu de repente que antagonizar o colega não seria uma prática sadia. Logo, disse, engolindo em seco, tem alguém em mente para essa investigação? Não exactamente, respondeu Marbury com voz seca. Mas, se der sorte, sei onde encontrar.

Na noite seguinte, na rua de pior fama em Cambridge, Marbury hesitou antes de pegar na maçaneta da porta de uma taberna. Vestia-se nobremente, utilizando preto da cabeça aos pés. Com uma capa abaixo dos joelhos, baixara o chapéu na testa. Gostaria de ter-se afastado. Tinha um estranho pressentimento. Apalpou a adaga, bem escondida na dobra da capa. Ao senti-la tranquilizou-se. Ainda assim, no momento exacto em que empurrou e abriu a porta, não teria podido explicar porque o fizera. Os caibros no tecto baixo da lotada casa pública fizeram-no parar ao entrar. Ninguém tomou conhecimento dele. Aquele era um lugar onde as pessoas desviavam deliberadamente os olhos, para que não fossem arrancados da cabeça curiosa. As paredes eram manchadas, raiadas de uma cor pútrida que não tinha nome. O barulho quase cómico, uma acidentada algaraviada humana. Homens, de túnica preta rasgada, meninos de sujos gibões vermelhos, velhos bêbedos em trapos pardos, todos amontoados em torno de longas pranchas, cobertas com toalhas mais ou menos limpas e que podiam hospedar alguma meia realeza de azul-marinho, um duque menor de chapéu vermelho, um lojista de moderada riqueza metido em seda bruta, uma matriarca de avental cinza ardósia. Todos sentavam-se em volta de mesas de longas peças de madeira cor de mel, em bancos de uma só tábua.
Falha, comida velha e cachorros adormecidos cobriam o piso, terra socada da Inglaterra. Onde não havia mesa, ou um homem, havia uma coluna, de seis por seis polegadas de pau áspero, que ajudava a sustentar o tecto prestes a desabar. Marbury ergueu a cabeça por um momento para uma jovem com vestido cor de gengibre atrás do balcão. Ela dardejou com os olhos à direita apenas um instante, na direcção de uma portinha no canto do outro lado da sala. Sem outra comunicação, voltou ao trabalho. O pastor encaminhou-se para a porta. Pegou a maçaneta, inspirou fundo e empurrou a porta com um súbito surto de energia. Viu quando os três homens saltaram dentro do quartinho. Entrou e fechou a porta. O relativo silêncio do ambiente menor deixou-o nervoso. Pior: ali defronte, iluminados apenas por uma vela, todos usavam máscaras. Os mantos de monge, negros como um cano de arma, absorviam a maior parte da luz». In Phillip Depoy, A Conspiração do rei James, Prumo, 2009, ISBN 978-857-927-022-2.

Cortesia de Prumo/JDACT

A Conspiração do rei James. Phillip Depoy. «Que é que diz?, sussurrou Lively, quase sem emitir som algum. Vagando pelo mundo como carrascos de Deus. Marbury pôs o pedaço de papel rasgado na escrivaninha de Harrison»

jdact e wikipedia

Cambridge, Inglaterra
«(…) Segundo no comando dos tradutores, ele ocupava uma posição mais de secretário que de qualquer outra coisa. Diante de tal cena, ele parecia mais fascinado do que revoltado. Seu casaco simples, cor de folha morta, parecia ter sido lavado com tanto vigor que talvez até tivesse sentido dor. Apontou a complicada cruz de espinheira no pescoço do morto. Creio que aquela seja a cruz de Harrison, sussurrou Marbury. E aquele, com a máxima certeza, é o colete de Harrison, continuou Spaulding, frio como uma pedra. Não havia dúvida sobre quem era o morto. O ministro protestante apoiou-se na escrivaninha e concentrou-se na respiração. Observou em silêncio os outros concordarem entre si sobre os detalhes das conclusões que haviam tirado. Como foi, começou Marbury a perguntar devagar a Lively, que o senhor encontrou este horror a esta hora da noite? O meu entusiasmo atraiu-me até aqui, apressou-se a responder o outro. Estava ávido para trabalhar em minhas novas páginas... Elas exercem tamanha atracção sobre mim que o senhor nem pode imaginar. É, mas o que não preciso imaginar, declarou o pastor com cuidado, é a raiva que Harrison teria demonstrado se soubesse que o senhor andava olhando o trabalho. O sujeito era dado a ataques de fúria. Todos sabemos disso. Talvez estivesse aqui, os senhores tivessem discutido, ele o tenha atacado... Lively foi interrompido antes de começar a responder. Precisamos avisar o vigia nocturno imediatamente, exigiu Spaulding. O senhor é um homem de letras, Spaulding, e não saberia como proceder em assuntos deste tipo, respondeu Marbury, mal escondendo o tom de zombaria, e nossos policiais aqui em Cambridge são todos, até ao último, bastante inúteis.
Permita-me cuidar deste caso de outro jeito. Revoltante, guinchou o outro. Não devemos deixar que isso aconteça... Eu já pensei num método para investigar este horror, respondeu o pastor num tom tranquilizante, quase hipnótico. Mas... Marbury voltou-se logo para o grupo e ergueu a mão. Com o seu perdão, cavalheiros, eu sugiro que avaliemos tudo por um instante antes de falarmos mais. Primeiramente, o nosso dever cristão obriga-nos a oferecer, cada um de nós, uma prece em silêncio pelo nosso colega Harrison. Viu cada rosto vivo registar o seu próprio tipo de religiosidade instantânea. Olhos fecharam-se, bocas mexeram-se; vozes sussurraram. Ele usou o momento de silêncio para dar outra olhada no cadáver e tentou examiná-lo com mais atenção. O sangue no corpo não secara, mas não escorria. Quase não havia mancha no chão, na escrivaninha ou na cadeira próxima do morto.
O colete mostrava vários lugares rasgados, dois encharcados de sangue, mas era um sangue viscoso, não estava vazando, nem seco. Poderia Harrison haver sido morto noutro lugar e depois trazido para o salão? Após um momento, obrigou-se a tornar a olhar a devastação que era o rosto. Rezou, então, para que o amigo já estivesse morto antes de ser mutilado. Mas, ao terminar a prece, notou mais alguma coisa. Agora, então, quebrou o silêncio no tom controlado de um homem de negócios, peço aos senhores que não falem do incidente. Não o discutamos com ninguém fora destas paredes enquanto não soubermos o que aconteceu. O trabalho dos senhores é demasiado sagrado, demasiado vital, para ser destruído por este acontecimento. Talvez as minhas palavras pareçam frias, mas creio que expressem o interesse maior da nossa erudição e de nosso rei. Afinal, este salão é um lugar de aprendizagem ou um matadouro?
O académico mais velho do grupo pigarreou com barulho. Era o Lawrence Chaderton, um estudioso de hebraico, em termos amistosos, com muitos dos notáveis rabinos da Inglaterra. Irradiava a profunda calma de um homem com total confiança sobre o lugar que ocupava neste mundo, e no próximo. Tinha o casaco simples e negro, abotoado, quase chegando ao pescoço. Cabeça descoberta, os cabelos brancos emitiam raios e faíscas. O homem que fez isso a Harrison não é, na minha definição, um ser humano. O velho estreitou os olhos. Devemos seguir em frente com incrível delicadeza. Sugere o nosso colega mais velho, interveio Spaulding, com um sorriso de zombaria e formando as palavras com a boca, que isso pode ser obra do demónio? Os demónios de facto podem entrar num homem, entoou Chaderton, olhos de aço com a voz de Deus. Fazem uma mão humana realizar actos desumanos. E podemos ter a certeza de que o próprio demónio se opõe ao nosso trabalho aqui neste salão. Sem dúvida mandou sequazes para desviar-nos, ou, ouso dizer, destruir-nos.
Vários dos homens no grupo recomeçaram a rezar. Um benzeu-se. Agora, se me dão permissão, disse Marbury devagar, abrindo caminho em direcção ao corpo, vejo que o irmão Harrison tem alguma coisa na boca. Todos os olhos voltaram-se para o morto, cabeças curvadas; o círculo ficou menor. Perdão, continuou o pastor, curvando-se perto do cadáver e fazendo a mão pairar a centímetros da boca. Não toque nele!, sussurrou Lively, sugando a respiração como se houvesse recebido um soco no estômago. Que ar dramático..., pensou Marbury. Ainda assim... Lançou a mão sem aviso, rápida e num movimento do qual só se notou um borrão, e pegou um pedaço de papel amassado e húmido na boca do morto. Todos arquejaram. Mais homens se benzeram. Com delicadeza e usando o polegar e o dedo médio, ele desamassou o papel e levou-o para mais perto da vela. Havia palavras escritas, como todos viam. Que é que diz?, sussurrou Lively, quase sem emitir som algum. Vagando pelo mundo como carrascos de Deus.
Marbury pôs o pedaço de papel rasgado na escrivaninha de Harrison. Os homens amontoaram-se em volta. Ofereceram velas para iluminar o trabalho. Todos leram a nota. As palavras parecem de algum modo conhecidas, pensou o pastor consigo mesmo. É claro que esta nota horrenda foi escrita pela mão do próprio Harrison. Lively bateu com o fundo da vela na folha enrugada, húmida e rasgada. Eu concordo, afirmou calmamente o ministro. Inventava na mente imagens do assassino forçando a vítima a abrir a boca e a comer as suas próprias palavras. É uma mensagem?, quis saber o outro. Uma advertência?, perguntou Spaulding. Isto é obra de demónios, afirmou Chaderton. Tanto mais razão, interveio Marbury, com a voz um pouco mais elevada que antes, parecendo um fino tecido de tolerância esticado sobre um abismo de impaciência, para nos envolvermos num véu de silêncio». In Phillip Depoy, A Conspiração do rei James, Prumo, 2009, ISBN 978-857-927-022-2.

Cortesi de Prumo/JDACT

quinta-feira, 23 de agosto de 2018

A Conspiração do rei James. Phillip Depoy. «O pastor lutou para controlar a respiração, repetindo na mente sem parar que o que via na verdade não estava ali; era um fantasma. Mas a mente sabia que não»

jdact e wikipedia

Roma. 1605
«(…) O papa ofereceu a mão com um suspiro, e o outro beijou o anel. O cardeal fez uma mesura, voltou-se e encaminhou-se depressa à porta secreta. Só uma vez olhou por uma fenda nas pedras, frias e cinzentas, passando a mão, para ter certeza de que não havia ninguém no corredor do lado de fora. Como não viu coisa alguma, empurrou a porta e deixou atrás o seu papa. Uma vez no corredor, percebeu que as suas mãos não paravam de tremer e que o suor não parava de escorrer-lhe da linha dos cabelos. Esforçou-se para sufocar o pior temor: que o papa houvesse enlouquecido. Reduziu o passo apenas um pouco, tentando decidir o que o perturbava mais: a conversa que acabara de ter com Sua Santidade ou a que teria com o mais frio homem da Itália.

Cambridge, Inglaterra
Sem aviso, o diácono Francis Marbury teve o sono despedaçado. Socorro! Assassinato! Alguém! Abriu os olhos. O luar, suave e claro, banhava o quarto. A noite de Abril era fria, o ar ainda retinha uma forte lembrança do Inverno, embora essa estação já tivesse ido embora. Alguém! Socorro! Marbury voou de debaixo das cobertas, envolveu-se numa capa acolchoada preta e enfiou a cabeça pela janela do minúsculo quarto. Uma a uma, todas as outras em volta passaram de negras a brancas; vozes puseram-se a gritar. Ele cambaleou de volta, parou para calçar as botas e mergulhou no corredor do diaconato, aumentando o passo enquanto voava escada abaixo. Na noite do lado de fora, vários outros juntaram-se a ele; rostos borrados na escuridão. A paz do pátio comum, cercada por silenciosos prédios de pedra, fora destruída por homens que corriam em direcção aos gritos. Quando se aproximou do Grande Salão, de cujo lado vieram os gritos, Marbury viu que um dos académicos, Edward Lively, barrava a porta. Vestia fino brocado, um suave tom de prata que reflectia a luz do luar na direcção dele. Usava um chapéu de arminho, novo e ousado, e luvas de couro negro com abotoaduras que exibiam a letra L. Tinha a barba tão limpa e macia quanto a cama de um rico. Outros cercaram a entrada quando o pastor parou diante dele.
Que foi que houve?, perguntou, sem fôlego, e tocou o ombro do outro. Um cadáver, conseguiu responder Lively, engolindo em seco. Afastou-se e abriu a porta do salão, com uma voz que ecoou nas paredes sem vida. O restante dos homens passou por ele aos montes, velas acesas; faziam furiosas perguntas. O salão, era uma caverna, fria e silenciosa. Uma obsidiana mais negra que a noite obscurecia os cantos mais distantes. O ar parecia tomado por lascas de gelo, que picavam os dedos e açoitavam as faces. Os homens avançaram devagar. Alguma coisa terrível jazia numa pilha logo em frente. Após um instante, um dos homens gritou. Outro começou a tossir, ou a vomitar. Marbury respirava forte. Deus do céu! Um corpo ensanguentado estendia-se no frio piso de pedra perto da escrivaninha de um dos académicos.
O pastor lutou para controlar a respiração, repetindo na mente sem parar que o que via na verdade não estava ali; era um fantasma. Mas a mente sabia que não. Ao que parecia, Lively deixara cair a vela, que fora parar próximo à perna de uma escrivaninha e continuava a arder, de lado, e a lançar uma luz trémula sobre o morto desabado em baixo da mesa. Um cadáver, apenas, não teria aterrorizado tanto os estudiosos. Por causa da peste, cada um vira no seu tempo muitos corpos sem vida. Era o rosto do cadáver que provocava o impulso de gritar; a visão revirava o estômago. Fora cortado talvez uma centena de vezes: lacerações longas esburacavam a carne até não restar traço algum; apenas músculos nus, pontas de ossos e sangue seco da cor de ameixas podres. Com aquela face desfigurada, não havia como saber a identidade do homem. Vejam! Gritou Robert Spaulding, espantado» In Phillip Depoy, A Conspiração do rei James, Prumo, 2009, ISBN 978-857-927-022-2.

CortesiaPrumo/JDACT

quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

A Conspiração do rei James. Phillip Depoy. «Talvez as minhas palavras pareçam frias, mas creio que expressem o interesse maior da nossa erudição e de nosso rei»

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Cambridge. Inglaterra
«(…) Creio que aquela seja a cruz de Harrison, sussurrou Marbury. E aquele, com a máxima certeza, é o colete de Harrison, continuou Spaulding, frio como uma pedra. Não havia dúvida sobre quem era o morto. O ministro protestante apoiou-se na escrivaninha e concentrou-se na respiração. Observou em silêncio os outros concordarem entre si sobre os detalhes das conclusões que haviam tirado. Como foi, começou Marbury a perguntar devagar a Lively, que o senhor encontrou este horror a esta hora da noite? Meu entusiasmo atraiu-me até aqui, apressou-se a responder o outro. Estava ávido para trabalhar nas minhas novas páginas... Elas exercem tamanha atracção sobre mim que o senhor nem pode imaginar. É, mas o que não preciso imaginar, declarou o pastor com cuidado, é a raiva que Harrison teria demonstrado se soubesse que o senhor andava olhando o trabalho. O sujeito era dado a ataques de fúria. Todos sabemos disso. Talvez estivesse aqui, os senhores tivessem discutido, ele o tenha atacado... Lively foi interrompido antes de começar a responder. Precisamos avisar o vigia nocturno imediatamente, exigiu Spaulding. O senhor é um homem de letras, Spaulding, e não saberia como proceder em assuntos deste tipo, respondeu Marbury, mal escondendo o tom de zombaria, e nossos policiais aqui em Cambridge são todos, até ao último, bastante inúteis. Permita-me cuidar deste caso de outro jeito.
Revoltante, guinchou o outro. Não devemos deixar que isso aconteça... Eu já pensei num método para investigar este horror, respondeu o pastor num tom tranquilizante, quase hipnótico. Mas... Marbury voltou-se logo para o grupo e ergueu a mão. Com o seu perdão, cavalheiros, eu sugiro que avaliemos tudo por um instante antes de falarmos mais. Primeiramente, o nosso dever cristão obriga-nos a oferecer, cada um de nós, uma prece em silêncio por nosso colega Harrison. Viu cada rosto vivo registar o seu próprio tipo de religiosidade instantânea. Olhos fecharam-se, bocas mexeram-se; vozes sussurraram. Ele usou o momento de silêncio para dar outra olhada no cadáver e tentou examiná-lo com mais atenção. O sangue no corpo não secara, mas não escorria. Quase não havia mancha no chão, na escrivaninha ou na cadeira próxima do morto. O colete mostrava vários lugares rasgados, dois encharcados de sangue, mas era um sangue viscoso, não estava vazando, nem seco. Poderia Harrison haver sido morto noutro lugar e depois trazido para o salão?
Após um momento, obrigou-se a tornar a olhar a devastação que era o rosto. Rezou, então, para que o amigo já estivesse morto antes de ser mutilado. Mas, ao terminar a prece, notou mais alguma coisa. Agora, então, quebrou o silêncio no tom controlado de um homem de negócios, peço aos senhores que não falem do incidente. Não o discutamos com ninguém fora destas paredes enquanto não soubermos o que aconteceu. O trabalho dos senhores é demasiado sagrado, demasiado vital, para ser destruído por este acontecimento. Talvez as minhas palavras pareçam frias, mas creio que expressem o interesse maior da nossa erudição e de nosso rei. Afinal, este salão é um lugar de aprendizado ou um matadouro? O académico mais velho do grupo pigarreou com barulho. Era o dr. Lawrence Chaderton, um estudioso de hebraico, em termos amistosos, com muitos dos notáveis rabinos da Inglaterra. Irradiava a profunda calma de um homem com total confiança sobre o lugar que ocupava neste mundo, e no próximo. Tinha o casaco simples e negro, abotoado, quase chegando ao pescoço. Cabeça descoberta, os cabelos brancos emitiam raios e faíscas. O homem que fez isso a Harrison não é, na minha definição, um ser humano. O velho estreitou os olhos. Devemos seguir em frente com incrível delicadeza. Sugere nosso colega mais velho, interveio Spaulding, com um sorriso de zombaria e formando as palavras com a boca, que isso pode ser obra do demónio?» In Phillip Depoy, A Conspiração do rei James, Prumo, 2009, ISBN 978-857-927-022-2.

Cortesia de Prumo/JDACT

A Conspiração do rei James. Phillip Depoy. «Deus do céu! Um corpo ensanguentado estendia-se no frio piso de pedra perto da escrivaninha de um dos académicos»

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Roma. 1605
«(…) O papa ofereceu a mão com um suspiro, e o outro beijou o anel. O cardeal fez uma mesura, voltou-se e encaminhou-se depressa à porta secreta. Só uma vez olhou por uma fenda nas pedras, frias e cinzentas, passando a mão, para ter certeza de que não havia ninguém no corredor do lado de fora. Como não viu coisa alguma, empurrou a porta e deixou atrás o seu papa. Uma vez no corredor, percebeu que suas mãos não paravam de tremer e que o suor não parava de escorrer-lhe da linha dos cabelos. Esforçou-se para sufocar o pior temor: que o papa houvesse enlouquecido. Reduziu o passo apenas um pouco, tentando decidir o que o perturbava mais: a conversa que acabara de ter com Sua Santidade ou a que teria com o mais frio homem da Itália.

Cambridge. Inglaterra
Sem aviso, o diácono Francis Marbury teve o sono despedaçado. Socorro! Assassinato! Alguém! Abriu os olhos. O luar, suave e claro, banhava o quarto. A noite de Abril era fria, o ar ainda retinha uma forte lembrança do Inverno, embora essa estação já tivesse ido embora. Alguém! Socorro! Marbury voou de debaixo das cobertas, envolveu-se numa capa acolchoada preta e enfiou a cabeça pela janela do minúsculo quarto. Uma a uma, todas as outras em volta passaram de negras a brancas; vozes puseram-se a gritar. Ele cambaleou devolta, parou para calçar as botas e mergulhou no corredor do diaconato, aumentando o passo enquanto voava escada abaixo. Na noite do lado de fora, vários outros juntaram-se a ele; rostos borrados na escuridão. A paz do pátio comum, cercada por silenciosos prédios de pedra, fora destruída por homens que corriam em direcção aos gritos. Quando se aproximou do Grande Salão, de cujo lado vieram os gritos, Marbury viu que um dos académicos, Edward Lively, barrava a porta. Vestia fino brocado, um suave tom de prata que reflectia a luz do luar na direcção dele. Usava um chapéu de arminho, novo e ousado, e luvas de couro negro com abotoaduras que exibiam a letra L. Tinha a barba tão limpa e macia quanto a cama de um rico. Outros cercaram a entrada quando o pastor parou diante dele.
Que foi que houve?, perguntou, sem fôlego, e tocou o ombro do outro. Um cadáver, conseguiu responder Lively, engolindo em seco. Afastou-se e abriu a porta do salão, com uma voz que ecoou nas paredes sem vida. O restante dos homens passou por ele aos montes, velas acesas; faziam furiosas perguntas. O salão era uma caverna, fria e silenciosa. Uma obsidiana mais negra que a noite obscurecia os cantos mais distantes. O ar parecia tomado por lascas de gelo, que picavam os dedos e açoitavam as faces. Os homens avançaram devagar. Alguma coisa terrível jazia numa pilha logo em frente. Após um instante, um dos homens gritou. Outro começou a tossir, ou a vomitar. Marbury respirava forte. Deus do céu! Um corpo ensanguentado estendia-se no frio piso de pedra perto da escrivaninha de um dos académicos.
O pastor lutou para controlar a respiração, repetindo na mente sem parar que o que via na verdade não estava ali; era um fantasma. Mas a mente sabia que não. Ao que parecia, Lively deixara cair a vela, que fora parar próximo à perna de uma escrivaninha e continuava a arder, de lado, e a lançar uma luz trémula sobre o morto desabado em baixo da mesa. Um cadáver, apenas, não teria aterrorizado tanto os estudiosos. Por causa da peste, cada um vira no seu tempo muitos corpos sem vida. Era o rosto do cadáver que provocava o impulso de gritar; a visão revirava o estômago. Fora cortado talvez uma centena de vezes: lacerações longas esburacavam a carne até não restar traço algum; apenas músculos nus, pontas de ossos e sangue seco da cor de ameixas podres. Com aquela face desfigurada, não havia como saber a identidade do homem. Vejam!, gritou Robert Spaulding, espantado. Segundo no comando dos tradutores, ele ocupava uma posição mais de secretário que de qualquer outra coisa. Diante de tal cena, ele parecia mais fascinado do que revoltado. O seu casaco simples, cor de folha morta, parecia ter sido lavado com tanto vigor que talvez até tivesse sentido dor. Apontou a complicada cruz de espinheira no pescoço do morto». In Phillip Depoy, A Conspiração do rei James, Prumo, 2009, ISBN 978-857-927-022-2.

Cortesia de Prumo/JDACT

terça-feira, 28 de junho de 2016

A Conspiração do rei James. Phillip Depoy. «O motivo ficava-lhe sempre pouco além do alcance da mente. O próprio quarto parecia acostumado a palavras ásperas. Sim, conseguiu responder o cardeal, mas o sentido exacto…»

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Roma. 1605
«Sangue! Essa palavra tão significativa amolgou o tampo da mesa; o punho bateu repetidas vezes na madeira, de forma arrasadora e sem parar. Queremos sangue. A sala secreta, menor que um quarto de dormir, devolveu um débil eco da palavra final. Nas sombras ao longo da parede de pedra fria, um pequeno besouro negro correu sem fazer barulho para a quina. Mas, Sua Santidade, gaguejou o cardeal Venitelli, a manga trémula ao erguer a mão tão de leve, retorcendo duas vezes o solidéu roxo, esse livro é em inglês. Quem dará atenção a ele? O livro é circunstancial!, interrompeu o papa, aos berros. Se queremos reconquistar aquela ilhazinha imunda, chegou a hora. Jamais teríamos tentado fazer isso com Elizabeth, mas entregaram o trono a James. Ele é um homem orgulhoso, e agora pôs os poucos talentos literários que possui para trabalhar nessa obra. É ao mesmo tempo muito seguro de si e desequilibrado mental. Chegou a hora. Mas..., quando o senhor diz sangue... Venitelli não fazia ideia de como terminar a frase. O manto rubro do papa Clemente subia e baixava a cada trabalhosa respirada. Um colarinho branco e translúcido aflorou da roupa de baixo no pescoço. O fogo chiou na lareira do outro lado do quarto. O sangue deterá o livro. Essa parada revelará o plano de James para a Inglaterra. O plano revelado constrói a ponte de Roma a Londres. Essa ponte trará a Inglaterra de volta à Igreja. O senhor deve ver pelo menos o humor de Deus, senão o plano, nisso tudo. O quartinho de pedra no qual os dois se sentavam ficava bastante oculto. Ninguém o conhecia, além dos visitantes mais íntimos do papa. Pelo lado de fora, não se via a porta, escondida pelas pedras no longo corredor. Do lado de dentro, mal havia móveis, a não ser uma mesa e duas cadeiras. Duas grandes velas presas ao tecto iluminavam as paredes, cobertas por grossas tapeçarias de seda, que faziam o possível para absorver todo o som: cenas de caça de espantosa violência. As personagens pareciam movimentar-se aos arrancos à luz vacilante. No piso, estendia-se um pesado tapete de complicados desenhos roubado durante as Cruzadas, dizia-se, do próprio Saladino. O cardeal Venitelli sempre imaginava sentir o cheiro do acampamento dele tão logo pisava ali. Muitas vezes esforçara-se para explicar a sensação a si mesmo. O motivo ficava-lhe sempre pouco além do alcance da mente. O próprio quarto parecia acostumado a palavras ásperas. Sim, conseguiu responder o cardeal, mas o sentido exacto... Não precisa se preocupar com sentidos exactos. O papa Clemente gostava de julgar-se impaciente: isso despertava rápida acção nos subordinados. Já pusemos em andamento um certo plano, que envolve, em parte, o anfitrião dos tradutores na Christ Church, em Cambridge: um pastor chamado Marbury, protestante. Infelizmente, um homem inteligente num pântano de idiotas. Mas vamos ao que importa: um académico do grupo de Cambridge vai ser esta noite..., qual a melhor palavra? Eliminado. Quando isso acontecer, nós introduziremos no meio deles nosso anjo vingador.
Essa frase era um código bem conhecido para o cardeal, mas, querendo assegurar-se, ele começou a perguntar: com o que o senhor quer dizer... Essas tapeçarias são elegantes, não são? Clemente desviou os olhos. O outro compreendeu. Sua Santidade não devia dizer o nome do principal assassino, o anjo vingador. Assim, poderia afirmar com toda a honestidade, em futuras conversas, que não o identificara, e que certamente jamais falara com ele. Essa tarefa cabia ao cardeal; tarefa de que não gostava, ficou, portanto, com o rosto pálido e com a voz trêmula. Eu devo pedir..., pedir ao homem em questão que vá à Inglaterra e mate... Decerto que não. O papa girou a cabeça em torno dos ombros. Basta dizer-lhe que vai haver uma missão para os tradutores da Bíblia do rei James. Enfatize Bíblia. Depois diga estas palavras exactas: a volta da roda na moagem do trigo. Venitelli sentiu um punho apertar-lhe a barriga. Quantas vezes já havia transmitido essas frases em código ao tal homem, o que depois resultava em escabrosos assassinatos. A volta da roda na moagem do trigo, repetiu, balançando a cabeça. Sua Santidade sorriu, mas não o olhou. Vamos usar o homem em questão pelo talento especial dele; capacidade que só ele possui. Ele possui um telum secretus, se Nos permitem um ar dramático. Mas a verdadeira tarefa de nosso irmão..., a missão... O motivo de Nós atribuirmos essa tarefa ao senhor, meu irmão cardeal Venitelli, disse o papa, num tom tranquilizador, como a um menino de sete anos, é que o senhor raras vezes compreende a importância de qualquer situação. Mas actua com discrição. Deve entender que nada Nos impedirá de reivindicar a Inglaterra, trazê-la de volta à Madre Igreja. É o plano de Deus. Temos em mente uma série de factos, na verdade, embora possa levar vários anos para que se desenrolem, que Nos levarão a esse objectivo. Sim.
A voz de Venitelli demonstrava absoluta confusão. O Sumo Pontífice curvou-se para a frente, o rosto junto ao do subalterno, e mal falou acima de um sussurro, embora o som da sua voz parecesse o de um trovão. Este será o meu legado, entende? A História me registará como o homem que devolveu a Inglaterra à Igreja Verdadeira. E isso começa com a destruição desse livro... Essa loucura a que James aspira. O cardeal sentiu por um momento as narinas atacadas por um cheiro de camelos; ouviu fracas preces islâmicas. Embora não falasse árabe, acreditava que as rezas clamavam pelo sangue dos infiéis. Baixou o olhar para o tapete de Saladino, furioso. Seria possível uma maldição dos vencidos guerreiros muçulmanos permanecer ali, contaminando decisões tomadas naquela saleta? Talvez isso explicasse o cheiro antigo que sentia e a desconcertante veemência do papa. Está tentando pensar? Clemente fuzilou-o com os olhos. Vai pensar duas vezes em Nossas palavras? Venitelli apressou-se a empertigar-se. Mil perdões, Sua Santidade. Estendeu a mão o anel papal. O plano de Deus é glorioso, e seu nome viverá para sempre». In Phillip Depoy, A Conspiração do rei James, Prumo, 2009, ISBN 978-857-927-022-2.

Cortesia de Prumo/JDACT