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sábado, 27 de julho de 2019

A cidade de Viseu nos Séculos XVII e XVIII. Arquitetura e Urbanismo. Liliana Castilho. «Em 1814 a Câmara decidiu em reunião avaliar sobre a pertinência de demolir vários arcos da muralha que ameaçavam ruína, chamando para esse fim dois pedreiros…»


Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Em 1744 surge-nos uma disposição camarária autorizando Henrique de Lemos Távora a abrir uma porta no muro da cidade, no quintal de suas casas, obrigando-se a tapá-la em caso de quebras ou prejuízo público (loguo na mesma Camera apareseu Henrique de Lemos Tavora desta cidade e por elle foi dito que este Senado lhe avia consedido lisensa para abrir huma porta no muro da cidade no quintal das suas casas aonde (?) com a obriguasoi de a tapar avendo quebras que se perjuize o tapar se por cuja cauza pello prezente termo assim se obriguava de que fis este termos). A muralha foi-se degradando, não tendo qualquer papel defensivo a desempenhar e não se lhe reconhecendo ainda o seu papel de documento histórico. Em 1814 a Câmara decidiu em reunião avaliar sobre a pertinência de demolir vários arcos da muralha que ameaçavam ruína, chamando para esse fim dois pedreiros, que depois de os analisarem defenderam a manutenção dos dois que ainda existem e o desmantelamento dos restantes (nesta tendo em vista que os três Arcos construídos a saber o de S. José, Santa Cristina e S. Miguel além de ameaçarem uma grande ruína a sua demolição é da maior utilidade para a perspectiva das ruas sua largueza e melhor comodidade, para efeito de se demolirem mandamos que o Escrivão da Câmara que então servia, em três dias peremptórios prontifique a provisão que consta viera sobre este objecto, de baixo de pena de procedimento, e como pode acontecer que no entanto que ela se não prontifique aconteça alguma ruína que nós devemos evitar e prevenir, mandamos outro sim que o Alcaide notifique dois dos três pedreiros para que examinando os três Arcos declarem por termo em como nenhuma utilidade causa a sua conservação, e se podem demolir sem causar prejuízo algum particular prejudicando lhe as paredes das casas ou outro algum deterioramento e finalmente se a sua demolição é mais cómoda para a continua passage de carros, gente, seges etc., cuja declaração será feita na presença do mesmo Escrivão e apresentada a esta Câmara com Provisão que diz haver, no dia 3ª feira 13 do corrente em Vereação a que se há de proceder e que eu Escrivão passasse as Ordens necessárias e avisasse o meu antecessor. Declaram mais que a declaração dos Mestres será feita na Vereação do dito dia para o que o Alcaide os avise […] Acta do dia 13; na mesma apareceu António Francisco encarregado de examinar os três Arcos de S. José, Santa Cristina e S. Miguel e declarou que os de S. José e Santa Cristina se acham ameaçando ruína e que todos três se podem demolir sem que resulte o mais leve prejuízo aos proprietários confrontantes antes utilidade ficando as ruas mais espeditas e desembaraçadas o que não sucede no Arco dos Albuquerques e no Arco dos Remédios que além da sua segurança antes aformoseiam a cidade e assinou a dita declaração com Teotónio Francisco desta cidade também pedreiro. E logo foi acordado que como há duvida sobre a provisão que se diz viera sobre este respeito e seja indispensável Licença Régia para a abolição em consequência se passava a fazer a dita representação na Câmara imediata, devendo primeiro ser notificado o outro louvado para assinar ou confirmara a declaração supra). A Porta do Soar e a dos Cavaleiros por terem serventia para as casas anexas, e por os seus habitantes procederem eventualmente à sua manutenção, estariam em melhor estado de conservação que as restantes, ou então não quiseram os mestres pedreiros e a Câmara entrar em litígio com os seus nobres moradores.
As três portas condenadas à demolição devem de facto ter sido destruídas em sequência dessa iniciativa, porque em 1857 Berardo afirma que já só restavam três portas das seis que, segundo ele, a cidade tinha possuído. Deduzimos assim que no início do século XIX uma das portas já teria ruído e, pelas referências tratar-se-ia ou da Porta de São Sebastião ou da Porta da Senhora das Angústias. Pela planta de 1864 a Porta da Senhora das Angústias ainda devia existir uma vez que o pano da muralha em que se inseria é o que em melhor estado se conservou e a sua abertura vem representada na dita planta. Por outro lado também é possível que a Porta de São Sebastião que dava para o Largo das Freiras ainda existisse, mas sendo destruída a muralha anexa o autor julgasse tratar-se de uma porta pertencente ao Convento. No local da Porta da Senhora das Angústias, na intersecção da rua Silva Gaio com a Rua da Cal, ainda hoje são visíveis vestígios do Arco e escadas para o passeio de ronda e acompanhando a rua Silva Gaio, alguns troços de muralha conservados sobretudo pela incorporação em habitações particulares. Apesar das expansões urbanísticas do século XVIII terem visto nascer novos bairros e um alargamento da urbe para os arrabaldes, simbolicamente é ainda dentro das muralhas que acontece a cidade». In Liliana Castilho, A cidade de Viseu nos Séculos XVII e XVIII, Arquitectura e Urbanismo, Tese de Doutoramento em História da Arte apresentada à Faculdade de Letras da Universidade do Porto, Faculdade de Letras da Universidade do Porto, 2012.

Cortesia de FLUdoPorto/JDACT

terça-feira, 9 de julho de 2019

A cidade de Viseu nos Séculos XVII e XVIII. Arquitetura e Urbanismo. Liliana Castilho. «Embora as muralhas propriamente ditas estivessem na sua origem sob jurisdição militar, com a perda gradual da sua função bélica…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Os impostos sobre a compra e venda de produtos eram aplicados apenas no interior da cidade, sendo a venda de alguns géneros fora dela estritamente proibida uma vez que os furtava ao devido imposto (e por serem informados que muitas pessoas desta cidade que vendem lenhas e carqueija e Torga as atravessam e compram muito de madrugada e as vão esperar as estradas e o mesmo fazem os sombreireiros ao carvão mandarão fossem todos notificados por pregões que de hoje em diante nenhua pesoa das que vendem as ditas lenhas as possa comprar se não despois da campa da prima e as não vam esperar aos caminhos com penna de seis mil reis pagos da cadeia aplicados para despesas desta Camera e a terssa parte para o acuzador e que a mesma penna teram os sombreireiros que comprarem carvão antes da campa da prima e de tudo mandaram escrever este termo). Na documentação camarária compilada surgem várias referências à proibição de atravessar (e outro sim na mesma Camera do dito dia mês e anno atrás declarado por rezão das queixas que ouve do excesso das lenhas e expesialmente das carqueijas taxarão cada molho de carqueija a real e meio para os lavradores que a trazem e que nenhuma pessoa de qualquer condissão que seja as travesse ou compre para as tornar a vender antes das des horas do dia com penna de que comprandoa antes das ditas horas pagar cada hua da cadeia por cada vez quinhentos reis metade para o acuzador e a outra metade para despesas da Camera e quando os lavradores que a trazem a vender excedendo esta taxa pagarão também por cada vez quinhentos reis na mesma forma e será a carqueija perdida para os prezos e que as pessoas que a vendem a venderão a dous reis cada molho sob a ditta pena) mercadorias, ou seja introduzi-las na cidade sub-repticiamente, ou vender de agacho (e outro sim na mesma Camera por serem informados he constar com certeza que António Fernandes almocreve desta cidade trouxera lingoados a esta cidade e os vendera de agacho não só hua vez mas muitas estando notificados por muitas vezes com penna de seis mil reis pagos da cadeia não vendesse peixe algum sem almotassaria em a praça, e por ter cahido nesta penna muitas vezes condenarão o dito almocreve em seis mil reis na forma do Acordão e notificação que lhe estava feita), subtraindo os produtos à almotaçaria camarária.
Embora as muralhas propriamente ditas estivessem na sua origem sob jurisdição militar, com a perda gradual da sua função bélica, a sua alçada foi passando gradualmente para o poder civil de quem dependia a sua conservação e gestão. Nesse sentido era o concelho que autorizava ou não qualquer alteração nas mesmas, normalmente solicitada pela tentativa constante, ao longo de toda a época moderna, de apropriação do espaço público por privados no interior da cidade. A construção de edifícios acoplados à muralha nunca foi proibida, mas o seu derrube em caso de necessidade militar ou de ameaça à integridade da muralha ficava sempre a cargo do proprietário do imóvel de acordo com as Ordenações do Reino (toda a pessoa, que tiver campo, ou pardieiro a par do muro da villa, pode-se acostar a elle, e fazer casa sobre elle. Porém fica sempre obrigado, se vier guerra, ou cerco, de a derribar, e dar por ella corredoura, e serventia. E se o muro sobre que assi tiver a casa, ou a que se acostar cair, aquelle que assi tiver a casa, será obrigado a fazer o muro á sua custa. Ordenações e leis do Reino de Portugal consagradas, e estabelecidas pelo Senhor Rei João IV e agora impressas por mandado do mui alto, e poderoso Rei João V, Lisboa Oriental, no Real Mosteiro de São Vicente dos cónegos regulares de S. Agustinho, 1727).
A construção de edifícios utilizando como uma das paredes o pano de muralha resultava numa evidente economia de recursos e numa maior rentabilização do espaço. Exemplo disso é o palheiro construído por Elias de Soural no seu quintal em 1605 feito ao longo do muro da cidade em modo que fica a dita esquina pera a banda do quintal dele suplicante asi a dita belgua não fiqua chegada ao dito muro nem parede». In Liliana Castilho, A cidade de Viseu nos Séculos XVII e XVIII, Arquitectura e Urbanismo, Tese de Doutoramento em História da Arte apresentada à Faculdade de Letras da Universidade do Porto, Faculdade de Letras da Universidade do Porto, 2012.

Cortesia de FLUdoPorto/JDACT

quinta-feira, 4 de julho de 2019

A cidade de Viseu nos Séculos XVII e XVIII. Arquitectura e Urbanismo. Liliana Castilho. « No século XVIII as muralhas encontravam-se ainda completas e todas as suas portas operacionais segundo referência do padre Leonardo Sousa nas suas Memórias Históricas….»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Os estrangeiros que entrassem na cidade sem licença estavam sujeitos a coima, vinte cruzados se entrarem sem fato e cinquenta se entrarem com fato, o que denota a ligação estabelecida à época entre a roupa contaminada e o risco de contágio:

quanto as pessoas que entrarem se fora com fato sem licença de qualquer calidade que sejam ou sem fato pagaram os que trouxerem fato cincoenta cruzados e o fato queimado e os guardas mores lhe não poderam moderar esta pena salvo em câmara com parecer dos vereadores e os que entrarem sem fato pagaram vinte cruzados sem apelaçam nem agravo.

As portas da cidade que se decretou continuarem abertas encerravam no entanto à noite, depois das trindades e abriam de novo apenas às sete da manhã (e que tivessem cuidado mandasem aos guardas das portas soba a ditta pena que não abram as dittas portas pella manham senão as sete oras da manham e a noute ate a trindade e fora destas senão posam abrir as dittas portas salvo com licença do guarda mor e mandaram que este acordo se apregoasse na ditta praça e nos mais lugares como de feito se apregoou). Em relação às restantes três foi determinado pela câmara que as demais portas e postigo desta cidade se tapasem todos de pedra e cal e por elas se não sirva ninguém. A muralha surge assim, como recurso perfeitamente operacional, gerido pela Câmara com o concurso da demais população, que permite defender a cidade de uma ameaça externa, invisível e quase imaterial neste caso, mas concretizada em todos os que fossem estranhos à urbe e a cuja presença convinha a todo o custo furtá-la.
Em 1646, quando João IV consagra o reino à Imaculada Conceição, o monarca mandou acoplar às principais portas da cidade (três destas portas coincidem com aquelas que haviam permanecido abertas em 1637, excepção feita à porta de S. Miguel que na altura havia sido encerrada, mantendo-se aberta a de Santa Cristina), a saber S. Miguel, Arco, Soar e Cimo de Vila a seguinte legenda ainda visível, nas duas remanescentes:

À Eterna Sagrada Immaculadissima Conceição de Maria prometeo publicamente d. João IIII Rey de Portugal juntamente com as Cortes gerais, seria tributário annualmente com os seos Reynos, e juntamente affirmou com juramento defenderia perpetuamente a mesma Mây de Deos ser perservada da culpa original, eleita perpetuamente Padroeira; e para que a piedade lusitana se conservasse nesta sua heróica resolução mandou lavrar nesta viva pedra este memorial perpetuo no anno Chrito de 1646 de seo Reynado sexto.

No século XVIII as muralhas encontravam-se ainda completas e todas as suas portas operacionais segundo referência do padre Leonardo Sousa nas suas Memórias Históricas e Chronológias dos Bispos de Viseu (sette portas dão patente entrada aos que a Vizeu concorrem e sendo todas formadas de gosto mourisco, mostram como tão bem os muros, sua grande antiguidade. Sobre cada huma das mais principaes que são a de S. Miguel, arco, Soar e Simo de Villa se lê no idioma latino gravado em grandes padrões a régia determinação que nas Cortes de Lisboa se assentou no anno de 1646 para tomar a Maria Santíssima Padroeira do Reino) e mantinham claramente a sua utilidade para a cidade. A sua importância é atestada pela postura camarária de 22 de Abril de 1739 em que se ordena que seja reconstruída a Porta de S. Sebastião, que se encontrava derrubada, ordenando que seja levantada quatro palmos para facilitar a circulação de veículos (nesta foi requerido pello Procurador da Camera que a porta do muro de S. Sebastiam se acha rubada e que requeria se puzese no estado antigo levantando se mais alto quatro palmos em termos que pudesem pasar as conduçoens e que fose notificado o almotase para mandar fazer a dita obra).
As Portas (segundo Bluteau porque pelas portas se traz, e se leva fora o que se quer. Porta he abertura na parede, ou muro de qualquer lugar fechado, e serve para entrar e sahir. As primeiras portas forão as das cidades, villas, e povoações assim para guardar os moradores delias, como para introduzir os mantimentos) da muralha simbolizavam não só os pontos de acesso à cidade, o espaço breve onde a linha de separação entre o espaço urbano e o não urbano podia ser quebrada, mas igualmente a charneira na cobrança de alguns impostos municipais. Nesse sentido, e de acordo com Bonet Corrêa, numa cidade as muralhas pertenciam à jurisdição militar e as portas à civil, o que justificou a permanência das segundas, mais do que das primeiras, aquando da perda do seu carácter funcional». In Liliana Castilho, A cidade de Viseu nos Séculos XVII e XVIII, Arquitectura e Urbanismo, Tese de Doutoramento em História da Arte apresentada à Faculdade de Letras da Universidade do Porto, Faculdade de Letras da Universidade do Porto, 2012.

Cortesia de FLUdoPorto/JDACT

terça-feira, 2 de julho de 2019

Nos Séculos XVII e XVIII. A cidade de Viseu. Liliana Castilho. «Decidiu-se em corpo de Câmara, que das sete portas existentes permanecessem abertas apenas quatro, a saber a do Arco, a de Santa Cristina…»

Cortesia de wikipedia e jdact

Arquitectura e Urbanismo
«(…) Igualmente no século XVII, perante um novo surto de peste, o carácter defensivo da muralha, não no sentido militar mas sanitário, foi activado. Perante a epidemia que atingiu o reino em 1637 a duquesa Margarida de Áustria, Governadora de Portugal, ordenou, em nome de sua Majestade pera se gardar nesta cidade e termo e comarqua do mal da peste (pauta que mandaram fazer o juiz vereadores e procurador sobre o guardar da peste; ano do nascimento de nosso senhor Jesus Christo de mil e seissentos e trinta e sete anos aos quatro dias do mês de Julho do dito ano na cidade de Viseu e câmara della estando juntos em câmara Francisco Fernão Castelo Branco vereador e juiz pela ordenaçam e Gaspar de Queirós outrosi vereador e o lecenceado Simão de Barros procurador da cidade logo elles ditos oficiais mandaram tanger o sino da ditta câmara per a ella acodirem os cidadãos da dita cidade e logo na ditta câmara se ajuntaram cidadãos homens nobres e os ditos vereadores lhe diseram por terem ordem do governo da (?) Margarita governadora deste reino que tinham ordem de sua magestade pera se gardar nesta cidade e termo e comarqua do mal da peste de que demos (?) e que vissem o que lhes parecia que deviam fazer sobre a dita guarda) tomando nesse sentido a Câmara as providências necessárias.
Decidiu-se em corpo de Câmara, que das sete portas existentes permanecessem abertas apenas quatro, a saber a do Arco, a de Santa Cristina, a de Cimo de Vila e a de Massorim (Soar) e que fosse nomeado um guarda-mor para cada uma (e logo se asentou na dita câmara que ficasem somente quatro portas abertas a saber a porta do muro do arco há de santa Cristina há de cimo de vila e a de mançorim e que em cada huma das dittas portas fosse posto seu guarda mor pera dar a guarda dellas cada dia e despachar o fato e pessoas que ouverem de sair e entrar e logo foram nomeados pera guarda mores das dittas portas que hão de ficar abertas a saber na de cimo de vila a João Sampaio Pereira he a de santa Cristina a Francisco Cardoso Moreira Loureiro e a porta do muro do arco a Gaspar Queirós Castelo Branco e a porta do muro do soar a Fernão Vaz Amaral). Para além destes guardas-mores a cidade foi partida em instâncias e cada habitante tinha que servir de guarda à respetiva porta um dia sob pena de cinco cruzados. (e logo partiram a cidade em instancias pera cada huma dellas servir de guardas de cada huma das ditas portas cada pessoa hum dia e loguo se partiram per a porta do soar os moradores da mesma rua e do resio e os moradores de toda a praça e miradouro e pera como de villa toda a mesma rua hasi desde a porta de Rodrigo Almeida ate a mesma porta do muro e pera a porta de santa Cristina toda a rua de Rodrigo Almeida e rigueira ate a mesma porta do muro e pera a porta do muro do arco toda a mesma rua desde a pedra de gonçalvinho pera baixo e rua do carvalho (?) baldes da ribeira). Foram igualmente eleitos dois provedores da saúde e dois meirinhos, um para cada duas portas (e logo elegeram pera provedores da saúde a João Pais Amaral pera as duas portas de santa Cristina e cimo de villa e a (?) Francisco Botelho pera a porta do Soar e arco e logo elegeram dous meirinhos a saber pera as ditas portas de cimo de villa e santa crestina a Pedro Rabelo cidadam e pera a porta do arco e do soar Francisco Tourais aos quais oficiais todos deram juramento dos santos evangelhos em que puseram suas mãos)». In Liliana Castilho, A cidade de Viseu nos Séculos XVII e XVIII, Arquitectura e Urbanismo, Tese de Doutoramento em História da Arte apresentada à Faculdade de Letras da Universidade do Porto, Faculdade de Letras da Universidade do Porto, 2012.

Cortesia de FLUdoPorto/JDACT

A cidade de Viseu nos Séculos XVII e XVIII. Arquitectura e Urbanismo. Liliana Castilho. «Segundo Botelho Pereira a muralha nunca teve ameias, mas tinha um passeio de ronda, guardado por dois parapeitos, um interior e um exterior, ao qual se acedia por degraus…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) A construção da muralha da cidade de Viseu tem início no reinado de João I referindo-se a ela alguns capítulos das cortes de Lisboa de 1412:

que os da cidade e dos povos até duas léguas em redor servissem na obra da cerca, que então se andava construindo, não seis dias continuados em cada seis meses, mas um dia em cada mês, ficando os moradores do termo com dantes a servirem os ditos seis dias em cada seis meses, consecutivamente; que nem Lopo Fernandes nem outro qualquer obrigasse os moradores da cidade, quando abrissem algum tonel de vinho para vender, a ir leva-lo à obra, porque nem todos tinham servidores e criados que ali o levassem, e outros não tinham quem o vendesse senão suas mulheres, e não era justo e decente que elas ali fossem, obrigando-se os moradores da cidade a prover homem que tivesse continuamente taberna aberta na dita obra e bom vinho e aguisado e pelo preço da cidade.

As obras continuaram no reinado de Afonso V e nas cortes da Guarda, em 1465, determina-se que se mandasse acabar a cêrca da cidade, que já estava começada, ou ao menos se lhe mandasse pôr um peitoril diante da dita cerca para amparo da cidade, que já duas ou três vezes tinha sido queimada pelos corredores de Castela. Em 1472 foram dadas por concluídas e Afonso V manda gravar uma inscrição, hoje indecifrável, onde segundo Botelho Pereira se lia:

D. Affonso o Quinto Rey de Portugal e dos Algarves da quem e da lem mar em Africa, Mandou cercar esta nobre cidade de Viseu assi por nobreza, e defendam della com prol comum de seus Reynos (parte ilegível) 1472.

A cerca da cidade, que tinha sete portas, seguia da Porta do Soar, também chamada de S. Francisco ou Arco dos Melos, ainda existente, pela actual Rua Silva Gaio onde na intersecção com a Rua da Cal se abria a Porta da Senhora das Angústias cujo arranque do arco ainda é visível na muralha. Daí continuava rua abaixo até à Porta dos Cavaleiros, prosseguindo desta até às traseiras do Convento das Freiras onde se abria a Porta de S. Sebastião, inflectia à actual rua Capitão Silva Pereira onde, mais ou menos no cruzamento com a rua do Gonçalinho se abria a Porta de S. Miguel. Subia ao Rossio de Santa Cristina onde, à entrada da Rua da Árvore, ficava a Porta do Senhor Crucificado cujos arranques ainda são visíveis, continuava para Cimo de Vila onde se encontrava a Porta de São José, no local em actualmente que a Rua Formosa intercepta a Rua Direita, subindo de novo até à Porta do Soar fechando o circuito. Cada porta tinha um Santo protector ou por vezes dois, um no interior e outro no exterior, alguns dos quais deram nome às portas. Na Porta do Soar estavam Santo António e São Francisco de Borja, na Porta de Nossa Senhora das Angústias a respectiva imagem também referida como Nossa Senhora do Pranto ou Nossa Senhora do Postigo; na Porta do Arco estava também a imagem da Virgem; nas Portas de São Sebastião e São Miguel os respectivos Santos; em Santa Cristina, Cristo Crucificado e em Cimo de Vila estava S. José no exterior e Nossa Senhora da Graça no interior.
Segundo Botelho Pereira a muralha nunca teve ameias, mas tinha um passeio de ronda, guardado por dois parapeitos, um interior e um exterior, ao qual se acedia por degraus cravados na própria muralha, ainda visíveis junto da antiga Porta da Senhora das Angústias. Curioso é o facto, visível nas Portas que ainda restam de, as casas nobres da época Moderna anexas à muralha, terem incorporado o passeio de ronda como varanda ou miradouro privativo para o qual se abrem portas no andar nobre. Sobre a Porta do Soar abre-se um terraço privativo dos condes de Santa Eulália e sobre a Porta dos Cavaleiros foi criado um recreio privado da Casa dos Albuquerques. Em caso de ameaça exterior era nomeado para cada porta um guarda-mor encarregado de a defender, não só em caso de investida militar, mas também como medida de sanidade pública, encerrando a cidade em caso de peste, como aconteceu em 1577, de modo a impedir contactos com o exterior que podiam resultar em contaminação». In Liliana Castilho, A cidade de Viseu nos Séculos XVII e XVIII, Arquitectura e Urbanismo, Tese de Doutoramento em História da Arte apresentada à Faculdade de Letras da Universidade do Porto, Faculdade de Letras da Universidade do Porto, 2012.

Cortesia de FLUdoPorto/JDACT

segunda-feira, 1 de julho de 2019

A cidade de Viseu nos Séculos XVII e XVIII. Arquitectura e Urbanismo. Liliana Castilho. «No que concerne à cidade de Viseu, para além do já citado estudo de Amorim Girão, não há qualquer tentativa de criar modelos de interpretação urbana do burgo»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Não cabendo neste trabalho traçar a história da historiografia urbana portuguesa saliento apenas alguns trabalhos mais recentes que, pela sua metodologia e abrangência, criaram não só saber, mas igualmente método, meta distintamente mais complexa. Nesse sentido é de realçar o trabalho de Luísa Trindade, alavancado pela sua Dissertação de Mestrado e Tese de Doutoramento em que, partindo de uma análise global dos dados conhecidos para o território nacional e, de um criterioso trabalho de investigação de alguns casos particulares, propõe metodologias claras e concisas de análise do espaço urbano nas suas múltiplas vertentes. São igualmente de salientar nesse âmbito os trabalhos de Iria Gonçalves e Amélia Aguiar Andrade sobre o espaço urbano medieval.
Os trabalhos de Walter Rossa e Helder Carita sobre a formação e expansão dos modelos urbanísticos portugueses, numa cronologia que, partindo do período medieval, abarca já a época moderna são igualmente incontornáveis. Numa perpectiva cronologicamente mais abrangente são igualmente de destacar os trabalhos de investigação e síntese levados a cabo por Manuel Teixeira e Margarida Valla. Para o período moderno saliente-se o trabalho de José Ferrão Afonso e de Susana Martins que, apesar de restritos, do ponto de vista da amplitude geográfica do seu objecto de estudo, aplicaram e criaram bases metodológicas válidas para qualquer trabalho desta índole.
Em relação ao século XVIII, a dívida de gratidão e o reconhecido mérito não me permitem omitir o trabalho de Joaquim Jaime Ferreira-Alves sobre o Porto na Época dos Almadas. De destacar igualmente em cronologia equivalente o trabalho de Luís Rodrigues sobre a cidade de Bragança.
No que concerne à cidade de Viseu, para além do já citado estudo de Amorim Girão, não há qualquer tentativa de criar modelos de interpretação urbana do burgo. A historiografia local prende-se sobretudo, à semelhança do que sucede na maior parte do país, aos grandes edifícios e personalidades que os geraram, estudados de forma independente e desarticulada como se o tecido urbano de que fazem parte fosse meramente acidental. Ainda assim são de salientar os artigos, publicados sobretudo na Revista Beira Alta, por Alexandre Lucena e Vale e Alexandre Alves que produziram importantes avanços no conhecimento de alguns monumentos da cidade e do seu suporte documental, bem como o trabalho anteriormente desenvolvido por Maximiano Aragão principalmente ao nível do estudo das instituições.
A cidade de Viseu, independentemente da cronologia exacta em que decidamos iniciar o seu estudo não é resultado de um projecto urbano prévio, ou de um traçado regular, mas antes de um crescimento orgânico, de génese medieval, que responde de forma pragmática e espontânea às necessidades vivenciais da população. A urbe com que nos deparamos no início do século XVII, data com que balizamos o início do nosso estudo, concentra-se ainda, maioritariamente, no interior das muralhas afonsinas e hesita ousar a expansão. Sede episcopal anterior à nacionalidade é em torno do núcleo central da Sé que se desenvolve a cidade, mais tarde alicerçada igualmente no poder camarário consubstanciado nos Paços e Praça do Concelho. As profundas transformações que algumas cidades vão conhecer a partir do século XVI e sobretudo ao longo dos séculos XVII e XVIII, assinalando novas formas de pensamento e conceptualização do espaço vivencial, só ao de leve marcaram a urbe. A aplicação de esquemas clássicos na organização do espaço e o cuidado pela imagem da cidade, tão caros à época, são visíveis em Viseu, não como fruto de um plano levado a cabo por uma autoridade, civil ou eclesiástica, mas antes como produto de um esforço comum que, sob os mesmos ideais estéticos, produz obras independentes que contribuem para a beleza e até, por vezes, regularidade do todo. Como eixo estruturante do traçado urbano da cidade temos, antes de mais a muralha, que define o espaço urbano em si mesmo por oposição ao que o não é. A partir desse limite estabelecem-se eixos viários que se entrecruzam, criam-se ritmos diários de circulação e permanência, que geram praças e rossios e, consubstanciam-se nas festas e procissões os cenários extraordinários por eles compostos.

A muralha
Em contraste com o carácter aberto do campo era a presença da muralha que consagrava o estatuto urbano de uma povoação, e que delimitava, física e simbolicamente, a cidade da não cidade. Construída por motivos essencialmente defensivos a sua funcionalidade foi sendo alterada ao longo do tempo, perdendo progressivamente o seu carácter militar, mas mantendo inalterada sua função de delimitação do espaço urbano». In Liliana Castilho, A cidade de Viseu nos Séculos XVII e XVIII, Arquitectura e Urbanismo, Tese de Doutoramento em História da Arte apresentada à Faculdade de Letras da Universidade do Porto, Faculdade de Letras da Universidade do Porto, 2012.

Cortesia de FLUdoPorto/JDACT

segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

A cidade de Viseu nos Séculos XVII e XVIII. Arquitectura e Urbanismo. Liliana Castilho. «Ocupando por um lado os espaços vazios que a malha urbana já consolidada tornava possíveis e, promovendo por outro lado, se não novos eixos…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«A cidade de Viseu apresenta, à semelhança de muitas outras no país, uma génese que remonta ao período de ocupação romana, embora essa implantação não corresponda exactamente à localização da cidade actual e esteja ainda, em grande medida, por estudar. A matriz da cidade que nos propomos estudar é assim, antes de mais, de filiação medieval, gerada em torno do núcleo central da Sé, sede do poder episcopal e cimentada ao longo do atribulado processo de reconquista. As muralhas erguidas já no século XIV vão servir, não para definir o terreno de construção da cidade, mas antes para proteger a cidade já construída das ameaças exteriores, cristalizando assim, morfologicamente, a sua delimitação. O espaço foi então dividido, formal e simbolicamente, entre cidade e não cidade, espaço intra e extramuros, habitantes do burgo e estrangeiros. Perdido o seu carácter funcional a muralha vai manter intacto, ao longo da época moderna, o seu carácter simbólico. A cidade com que nos deparamos no século XVII é ainda, sobretudo, uma cidade intramuros, apesar de se anunciarem já as expansões para os arredores que o século XVIII concretizaria. Mesmo quando efectivada a ocupação funcional dos espaços extramuros, estes continuam a ser designados por arrabaldes demonstrando bem como os mapas mentais são de alteração mais lenta que os cartográficos. A cidade que nos propomos estudar é então composta, do ponto de vista morfológico, pelo núcleo intramuros e pelos arrabaldes de Cimo de Vila, Regueira e Arco, formulação enunciada já no Numeramento de 1527 (do monarca João III) e que se vai manter durante o período em análise. O objectivo do nosso trabalho é apurar como os elementos da paisagem urbana se ordenaram e articularam ao longo dos séculos XVII e XVIII, acompanhando as alterações dos quadros mentais e políticos, locais e nacionais, e dos modelos estéticos.
A inserção pontual de dados do século XVI, cronologicamente fora deste estudo, prende-se com a importância de estabelecer pontos de continuidade e ruptura na evolução da cidade que, de modo algum, são compatíveis com fronteiras cronológicas estanques. A escolha da data de 1799 como limite do estudo da cidade relaciona-se com a decisão camarária, efectivada nesse ano, de não reconstruir os Paços do Concelho, destruídos pelo fogo em 1796, na sua tradicional localização, na Praça, mas antes de os cambiar da zona antiga para a nova, no Rossio de Maçorim, consubstanciando o fim da orgânica medieval/moderna da cidade. A divisão do nosso estudo em três partes, Morfologia Urbana, Arquitectura Pública e Habitação pretende possibilitar a criação de um modelo mental, uma espécie de maqueta de construção gradual, da cidade da época moderna. Debruçamo-nos assim, numa primeira fase, sobre o estudo da planimetria da cidade, o traçado do seu contorno exterior concretizado na muralha e nos seus pontos de fuga, a rede viária hierarquizada, definindo eixos de circulação, permanência e expansão e os espaços vazios no interior da malha urbana consubstanciando praças, rossios e adros. Na segunda parte, abordamos a arquitectura pública, encarada em sentido lato e, caracterizada pela utilização e não pela génese, na sua articulação com o traçado da cidade. Ocupando por um lado os espaços vazios que a malha urbana já consolidada tornava possíveis e, promovendo por outro lado, se não novos eixos, pelo menos novas hierarquias entre os já existentes, os edifícios públicos ditam a relação dos habitantes com a cidade criando itinerários no interior da mesma. Edifícios extraordinários, relacionáveis directamente com os poderes religiosos e civis da cidade, funcionam como veículos de introdução de novas estéticas e técnicas arquitectónicas marcando profundamente a paisagem urbana. Na terceira parte, debruçamo-nos sobre a habitação, nobre e corrente, que, preenchendo os espaços deixados livres pelos edifícios públicos na malha urbana da cidade, a completa na sua totalidade. Directamente relacionadas com os seus habitantes as habitações reflectem diferentes capacidades económicas, diferentes gostos e necessidades habitacionais e traduzem a representação pública dos vários grupos sociais.

Morfologia urbana
A história urbana, eixo central deste nosso trabalho, situa-se na confluência entre vários saberes e disciplinas e foi, ao longo do último século objecto de estudo de historiadores, historiadores de arte, geógrafos, arqueólogos e arquitectos. Cada área disciplinar, embora contribuindo para o avanço do saber, utilizou uma linguagem específica e guiou-se por uma agenda própria resultando assim o conhecimento sobre a maior parte das cidades portuguesas não num todo claro e coerente, mas numa manta de retalhos de proveniências diversas. Alguns dos normalmente designados precursores da história urbana só o eram casualmente e de forma acidental, como é o caso de Amorim Girão. Apontadas amiúde as suas contribuições para o estudo de Coimbra e Viseu, no que concerne ao nosso objecto de estudo, devemos considerar as propostas apresentadas com a devida cautela. Eram outros os critérios, os métodos e os objectivos e, como tal, claramente outros os resultados». In Liliana Castilho, A cidade de Viseu nos Séculos XVII e XVIII, Arquitectura e Urbanismo, Tese de Doutoramento em História da Arte apresentada à Faculdade de Letras da Universidade do Porto, Faculdade de Letras da Universidade do Porto, 2012.

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