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sexta-feira, 7 de agosto de 2015

Imitação da Felicidade. Urbano Tavares Rodrigues. «Mas estas horas de maior calor são chatas. À noite ainda há a televisão, em quase todos os cafés. De tarde, estão praticamente vazios, a não ser o Nacional, que sempre tem mais animação por causa dos bilhares»

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Maio
«(…) No primeiro domingo, dispensaram-me. Pois bem, senti a falta daquele convívio diferente. Não era só, afinal, o dinheiro que me davam a ganhar era a companhia. Uma variante. Nesta terra a gente aborrece-se. E ainda a missa ia a santos… não fui ao estádio ver jogar o Alhandra contra o portimonense, com a intenção de poupar dinheiro para lhes oferecer um almoço, mesmo que fosse modesto. Queria compreender… e apetecia-me, ao menos uma vez, ser eu a convidar. Como tinha combinado levá-las a Olhão, para lhes mostrar as açoteias, talvez aí, no porto; gostam é de petiscos típicos e de tabernas…
Quando chega o Verão, dir-se-ia que esta terra só tem lojas com bóias e sacos de praia. Estamos a viver dos turistas, cada vez mais, e porque não?, mas não havíamos de ficar assim de gatas, ou então desconfiados, diante deles; temos de nos habituar. A classe de gente que mais os estranha, aqui na província, são os remediados, todos vestidos de preto, desde o chapéu à biqueira dos sapatos; e por dentro também andam de luto. A Marta entende-se com eles, é capaz de fazer visitas ao domingo, eu não. Mas estas horas de maior calor são chatas. À noite ainda há a televisão, em quase todos os cafés. De tarde, estão praticamente vazios, a não ser o Nacional, que sempre tem mais animação por causa dos bilhares; cinco mesas que não chegam para a rapaziada fazer o gosto ao dedo. No entanto, o café propriamente dito fica também às moscas. Há ventoinhas no tecto, mas não trabalham. O mudo vai de um a outro dos fregueses, já bêbado, a tropeçar, pedindo tabaco por gestos. Sempre encontra quem lhe dê algum cigarrito e quem lho acenda.
As senhoras, quando adrega á ir a mulher de algum amanuense ou caixeiro viajante, desviam os olhos dele, porque traz a cara tão suja e tão desavergonhada que lhes mete nojo; e às vezes, se lhe recusam o que pede, faz manguitos, aos impos, e chega a desabotoar a braguilha. Já há muito que devia estar no manicómio, diz o cauteleiro, a quem o mudo estorva no negócio, por maçar as pessoas até ao sabugo das unhas, antes de ele, por sua vez, as aporrinhar. Nunca pude entender onde é que este homenzinho limpo e engravatado, que lembra um pato na madeira de andar, com aquela grande pasta debaixo do braço, vai buscar tanta lábia, pior do que um padres desses novos que vêm de fora pela Páscoa, com o sermão todo empinado e muitos gestos na ponta dos dedos». In Urbano Tavares Rodrigues, Imitação da Felicidade, Publicações Europa-América, Mem Martins, colecção Século XX, 1988.

Cortesia de PEA/JDACT

domingo, 24 de maio de 2015

Imitação da Felicidade. Urbano Tavares Rodrigues. «… perguntando os nomes das árvores e se as figueiras eram todas assim, pequenas e ramalhudas, de saia até ao chão, e quando é que as amendoeiras estavam mesmo em flor…»

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Maio
«(…) São todos assim, os turistas: quando caem na praia, quedam-se por lá a torrar, que nem uns lagartos, alguns já não fazem mais nada, outros ainda se metem por essas estradas velhas, a papar igrejas e castelos. Em fato de banho, de sol a sol, e partir de Abril. Rica vida, para quem goste, que eu, não posso dizer como o meu pai que nunca molho as ceroulas, porque não uso tal coisa, mas também não me encanta esfriar os ossos no mar, desta maneira. Ainda num desses dias de muita calma, vá que não vá. Agora, lá que gosto de ver, gosto! Como nessa primeira tarde em que elas, logo que chegámos à praia de Armação, se puseram ali nuazinhas, quase à minha vista, com umas toalhas por diante, e, ala!, foram correndo, meter-se dentro das ondas e por ali andaram brincando, enroscadas, cobertas de espuma, até não poderem mais. Deixaram-se cair na areia quente, eu a fumar um cigarro, pensando nas vias diferentes que a gente tem, conforme se nasce aqui ou acolá, cheio de dinheiro ou sem dinheiro, e a mirar as pernas da mais nova, com magotes de pêlos loiros por fora do maillot, junto das virilhas, coisa que a ela tanto se lhe dá como se lhe deu... Nem a incomodava nem a lisonjeava que eu reparasse nisso e noutras intimidades que também amostra com a mesma indiferença.
Mas depois o caso mudou. Se mudou! À volta é que começaram a falar mais comigo, perguntando os nomes das árvores e se as figueiras eram todas assim, pequenas e ramalhudas, de saia até ao chão, e quando é que as amendoeiras estavam mesmo em flor, se ficavam brancas ou cor-de-rosa. E como é que as pessoas viviam. Se o trabalho compensava? E que não era justo, está claro, pagarem-se salários tão baixos. Que no resto do mundo, hoje em dia... Pois, pois... Todos dizem o mesmo, fartinho estou eu de lhes ouvir esta cantilena. Mas quem é que faz alguma coisa por nós?! Admiram-se, criticam e afirmam que estão inteiramente do nosso lado, mas vá de comerem ricos bifes e beberem o nosso bom vinho, que até chegam, eles e elas, a levarem as garrafas para o quarto, com o fito de dormirem melhor uns com os outros, digo eu cá na minha... E a gente que continue a amolar-se. Não estará certo, eles o dizem, mas fazem bem as digestões: é vê-los, todos regalados, besuntados com óleos, aqui estiraçados nas nossas praias, d barriga para o ar. E o indígena a olhá-los do alto das arribas, apertando o cinto, a cobiçar-lhes as máquinas fotográficas, os colchões de borracha, o tabaco perfumado e algumas vezes as mulheres, quando são dessas parisienses de bikini preto como a roupa de baixo, mulheres que põem qualquer homem de cabeça à roda. Que as bifas tirante uma ou outra, já parecem velhas mesmo em novas e são todas escamosas, cor de camarão, com pernas de gafanhoto: não lhes vejo jeito de o próprio diabo as querer». In Urbano Tavares Rodrigues, Imitação da Felicidade, Publicações Europa-América, Mem Martins, colecção Século XX, 1988.

Cortesia de PEA/JDACT

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Imitação da Felicidade. Urbano Tavares Rodrigues. «Às vezes aparecem uns estrangeiros, mesmo no Inverno. É o que vale! Se assim não fosse, acabávamos por morrer à fome. E até distrai. Nos cafés é sempre a mesma gente, todos acima de mim: mestres de fábrica, vendedores de peixe, funcionários, algum doutor»

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Maio
«(…) E as noites de patuscada com malta da corda e com marujos americanos perdidos de bêbados, as cabronas que a gente comia de madrugada so por levá-las a casa!... Enjoei tudo isso. Até vomitava os fregueses. Discutia com eles por dá cá aquela palha. E agora, vejam lá, parece-me que nesse tempo é que fui feliz É sina nossa, creio eu, termos sempre saudade, talvez por nos irmos aproximando da morte e tudo ser cada vez mais fechado. Não será assim? Agora aqui, é só esperar. Subi de condição, pois subi… dizem-me que sim. Mas qual é o meu proveito? Ter um automóvel aqui em Portimão já é quase ser gente. Que é como quem diz, tenho mais obrigações, e não ganho nada com isso. Se fosse madraço por inclinação… Mas não sou. A menos que já me tenha habituado, sempre metido no café ou no barbeiro. Deixo um rapazito na praça a tomar-me conta do carro, para me vir avisar se alguém telefonar ou perguntar por mim. Para que é que hei-de lá estar a pôr-me doido? Às vezes aparecem uns estrangeiros, mesmo no Inverno. É o que vale! Se assim não fosse, acabávamos por morrer à fome. E até distrai. Nos cafés é sempre a mesma gente, todos acima de mim: mestres de fábrica, vendedores de peixe, funcionários, algum doutor. Estas duas francesas queriam conhecer, imagine-se, operários e pescadores. Mas os operários não vão ao café (quanto muito à taberna) e os pescadores dormem de dia, para se fazerem ao mar pela tardinha e voltarem de madrugada. Chegaram a falar-me que organizasse para elas uma copejada de atum. Mas a vontade não era muito forte, porque não me tocaram mais nisso logo que a Rocha as enfeitiçou. É assim mesmo: nadam como peixes, entre duas águas, de olhos abertos, parece que estão a descobrir o paraíso… E o que elas gostam de apanhar os tais fósseis que a maré vaza deixa enterrados na areia! Levam as malas carregadas de pedras e de conchinhas para fazer cinzeiros. Depois não se cansam de ver as grutas, a ponta de João d’Arens, a Guarita, os Três Irmãos: vêem realmente com olhos de ver todos esses leixões e as praias até ao Vau, e as do Alvor, que são mesmo uma beleza em sol lhes dando por riba, quando a falésia fica como um filme colorido, amarela, daquela cor falsa da nossa terra que se desfaz, e noutros sítios quase encarnada, como sangue, ou de um castanho lindíssimo, quase doirado. A gente já não se dá conta: os estrangeiros é que apreciam». In Urbano Tavares Rodrigues, Imitação da Felicidade, Publicações Europa-América, Mem Martins, colecção Século XX, 1988.

Cortesia de PEA/JDACT

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

Imitação da Felicidade. Urbano Tavares Rodrigues. «Não faça caso, tiazinha, dizia-lhe eu com os olhos. E para a francesa: - olhe que saias bonitas são as da Nazaré, estas daqui não têm nada de especial. E não se mercam assim no meio da estrada. Mas não a convenci»

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Maio
«(…) Depois, nesse mesmo dia, logo que percebi que espécie de bicha era a mais velha, tudo foi de vento em popa. Não tinham maneiras. Paciência! De resto, não tardou muito que me desse conta, de que aquela criatura bem pouco se parecia com as bifas que por aqui passam. Queria saber tudo, entender as pessoas e as coisas, tomar posse da gente. As outras talvez se estejam nas tintas, mas a verdade é que costumam tratar-me com toda a consideração, porque na terra delas é uso respeitarem-se uns aos outros, ricos e pobres, e até porque, enfim, o carro, no fim de contas, sempre é meu... Esta só está bem a mandar, até quando julga que pede e até mesmo, enfim... Mas, agora que a conheço melhor, a verdade é que deve ser assim com toda a gente. Não é por eu ser para aqui um zé-ninguém. Põe-se a olhar para dentro dos nossos olhos e, de repente, estoira a rir, com uns dentes aguçados, que até faz impressão. E, apesar disso, quando está séria, não é feia de todo, tem mesmo a cabeça bem lançada; e o corpo, em se arranjando, parece o de uma mulher de pouco mais de trinta. O que nela há que nos aflige como o raio e, ao mesmo tempo, talvez me atraia, nem sei dizer o que me acontece com ela, tanta confusão a criatura me faz, são aqueles olhos amarelos, de mocho, que me vasculham de alto a baixo. E a mania que tem de se meter na minha vida com perguntas sem jeito nenhum, e os disparates que não se ensaia nada para fazer no meio da rua, envergonhando qualquer homem que a acompanhe!...
Sim, porque isto aqui, apesar de tudo, a gente sempre tem os nossos hábitos, e em Roma sê romano, não é?, como diz o Manelzinho da Comissão de Turismo, o macacão de rabo pelado, que passa a vida a gozar lá por fora e em aqui chegando são logo missas que é um gosto e mais Junta Paroquial e União Nacional e Irmandade dos Passos, batendo no peito muito santificado, e com o papo cheio daquelas garotonas de Sevilha e de toda a estranja para onde os de lá de cima o encomendam volta não volta... Por sinal que a caminho de Armação mandou-me ela parar o carro para perguntar a uma desgraçadita, que era um esfregão, se lhe queria vender a saia. A pobre, para começar, não a percebia, e antes assim: se não, era capaz de se indignar. Não faça caso, tiazinha, dizia-lhe eu com os olhos. E para a francesa: - olhe que saias bonitas são as da Nazaré, estas daqui não têm nada de especial. E não se mercam assim no meio da estrada. Mas não a convenci. Achou-nos apenas uns ursos, sem sentido de humor.
De toda a maneira, aquele passeio vinha mesmo a calhar, cá para a minha bolsa. Então agora que o Luisito anda a precisar tanto de óleo de fígado de bacalhau e de umas injecções para enrijar, a Marta nem se cala com isso de manhã à noite. Tenho mas é de levá-lo ao médico Sereno, logo que possa. Mas que hei-de eu fazer? Se, os mais dos dias; tenho o carro parado ali na praça, à espera do comboio ou de que alguém me chame! Se até chego a fazer o preço da dez tostões por quilómetro, que nem me dá para a oficina, quando o que devo cobrar são dois escudos! Mas um homem acaba por se aborrecer de estar para ali, às moscas, a secar. Chego mesmo a ter saudade da vida miserável, mas mexida, que levava quando era chofer em Lisboa, a fazer a barba aos outros carros, a ultrapassá-los à má cara, se não fosse a bem, guina à direita, torce à esquerda, trava, acelera, para passar antes de o sinal ficar vermelho. Cada corrida! Um regabofe!» In Urbano Tavares Rodrigues, Imitação da Felicidade, Publicações Europa-América, Mem Martins, colecção Século XX, 1988.

Cortesia de PEA/JDACT

quinta-feira, 1 de maio de 2014

Bastardos do Sol. Prosa. Urbano Tavares Rodrigues. «Eu hei-de morrer de um tiro à tua porta, querida, para quem passe dizer: por amor perdeu a vida! Eu hei-de morrer dum tiro à porta da minha amada, para quem passar dizer: que morte tao desgraçada!»

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Bastardos do Sol
«(…) Quando, na cozinha, encheu o primeiro prato de sopa, para lho levar, e era a sopa de beldroegas que ele impusera, aquela de que mais gostava, ficou, hesitante, a mirar essa comida que ia servir ao seu ídolo detestado e cuspiu-lhe repetidas vezes para dentro, raivosamente, com um sorriso troçante, mole, e falso, de cadela espancada e acorrentada. Enfrentavam-se, cada qual de seu lado da mesa redonda, ainda nos mesmos lugares que ali ocupavam no tempo dos pais. Não falavam para comunicar, mas tão-somente para pedir, o estritamente necessário, ou para protestar, 36 horas de desafogo interior, em que punham na luta, no ringue, um férvido e pungente regozijo. Pouco importava o pretexto, quer fosse ele a queixar-se de ela não saber sequer fazer as camas, como uma mulher a sério, ou ela a explorar-lhe a grosseria, respostas que espantava toda a gente lá de casa, visitas ou criados, todos já de sobreaviso, claro, estava... Como se não bastasse... Havia bem uma semana que aquela saleta não lhes ouvia duas frases seguidas, desde que a miúda abalara, assustada como todas as servas anteriores, velhas e novas. Era preciso, de resto, que a fome as acossasse para transporem os umbrais de uma casa tão malfadada. Não posso mais com isto, disse Irisalva, como continuando uma frase interior, como se a voz neutra, enevoada, lhe saísse de um sonho, não é o trabalho, é a solidão, é a morte que mora connosco. Todos têm medo de ti! - Calas-te? É melhor que te cales…
Arménio, num dos seus repentes, com os olhos sobrancelhudos já a chisparem faíscas e amarfalhando com os dedos a camisa, a própria pele do peito, como se quisesse revulsar aquela cólera para fora do corpo: que, à provocação contida em tais discussões, logo lhe ardia numa ânsia de destruição. Todo ele intumescia nesse apetite de bater, de esmagar, de afirmar a sua justiça, se alguém ousava acicatar-lhe o orgulho, contestar-lhe a autoridade a razão. Irisalva não ergueu a luva. E, enquanto devorava, nervosamente, o lombo de borrego, com a voracidade arreganhada das suas grandes excitações, pôs-se ela a imaginar na morbidez daquela estranha solidariedade que, para além dos irremíveis agravos, do ódio recíproco, os sobre mateve ante as censuras de fora. Espevitou os carvões, na braseira que aquele Fevereiro áspero ainda requeria, e, sentindo um calor de sono, de inalação, começar a possuí-la nebulosamente, abandonou-se, abençoou a brandura desse cair, essa trégua fisiológica que era o melhor dos seus dias.
Mas o cortejo de sons daquela noite consumava-se para lhe envinagrar as feridas. Após a lamentação dos cães, que longinquamente tinham uivado durante todo o jantar, rompia agora, através das paredes, aquela cantiga de algum bêbado romântico, a que não faltaria um grave e fraterno auditório de ganhões pronto a estimulá-lo, mesmo ali ao lado, na locanda da esquina da praça. E nem um som se perdia no tecido puro, implacável, da noite. Tudo vinha atingi-la nos nervos, e entrava por ela dentro, como uma chuva de farpas agudas e delicadas, de incisivas e propositadas farpas; mas era já quase doce a dor que a invadia, promissora de lágrimas.

Eu hei-de morrer de um tiro
à tua porta, querida,
para quem passe dizer:
por amor perdeu a vida!

Arménio sustentou o olhar dela, fixo e escuro, rasgado e molhado, tal o das vacas que ele vira agonizar, de parto mal sucedido, quando ainda o chamavam, como veterinário, para as salvar ou para lhes apressar o passamento. O que o confundia nesse olhar dela, que o atravessava, que o ignorava, era a ausência momentânea de ódio, banido pelo afluxo, pela amargura, pelo ardor, de uma irresistível saudade. E novamente a voz daquele trovador sem rosto, emergindo agora de um coro pastoso e dolente de ébrios mansos em véspera de feira, cantava a fatalidade:

Eu hei-de morrer dum tiro
à porta da minha amada,
para quem passar dizer:
que morte tao desgraçada!

Depois tornou o silêncio a coalhar na saleta; e eles quedos, triturando lástimas € acusações por trás dos lábios endurecidos. Até que o pêndulo do obsoleto relógio redondo, sobressaltando a parede quase nua, onde o tempo murchara o cromado sevilhano, última sobrevivência dos gostos paternos, soltou ironicamente dez badaladas musicais naquele mutismo cerrado». In Urbano Tavares Rodrigues, Bastardos do Sol, Livraria Bertrand, Círculo de Leitores, 1974.

Cortesia da Bertrand/JDACT

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Imitação da Felicidade. Urbano Tavares Rodrigues. «… queremos ir a la playa de Armaçón. Agora mismo. Você queda todo el dia por nuestra conta, quase que as mandava àquela parte, apesar da necessidade que tenho de viver. Então isto aqui é a casa da Joana, ou quê?!»

Cortesia de franciscosimoes e jdact

Maio
«Parece-me, às vezes, que se riem uma com a outra, por cima do meu ombro, que já estão as duas ao corrente, fazendo de conta que não. Mas, pode lá ser! Bem sei que estas tipas são diferentes da gente: têm outras concepções de vida, como elas dizem, são mais evoluídas... Ora, se assim for, que se lixe a moral: melhor para mim que menos trabalho tenho a esconder... Acordei, uma destas noites, na minha cama, ao lado da minha mulher, a sentir-lhe o calor do corpo encostado ao meu, toda enroscadinha, como costuma dormir, e juro que já nem sabia, cheirando-lhe a pele e o cabelo, em que cama estava nem que fêmea era aquela. Deixei-a sossegada porque embirra que a acorde, a menos que seja por causa do petiz, e fiquei-me a olhá-la, a imaginar o que seria se ela descobrisse. Dormia a sono solto e o que mais espécie me fez foi a sensação de uma distância enorme entre nós. Que criatura era aquela, agora que não podia fingir, que talvez  nem soubesse o próprio nome, nem que tinha por si as leis do matrimónio, o direito de gritar comigo, de me exigir dinheiro?... Aquele corpo quieto e estranho, respirando com tanta calma e indiferença, não batia certo com a imagem (quantas mais vezes triste e zangada do que mansa) da minha mulher de todos os dias e do todas as noites. Tinha um ar mesmo doce e razoável, como no tempo em que nos namorávamos. Ora nestes últimos anos estou avezado a vê-la sempre a reclamar. Até desconfio que só de sonhar ouvir-me os passos deixa logo cair o riso da boca. É para eu ver, é para meu castigo, como se fosse minha a culpa de esta porcaria de ofício não dar mais. Sim, porque esta chateação permanente, estas trombas que ela arranja em minha honra, é tudo por causa da falta de dinheiro.
Agora o Luisinho, Deus me valha, isso é que não é caso para brincadeiras. Se o rapaz está doente, nem que eu vá buscá-lo às profundas do inferno! Bem sei que me tenho descuidado. Convencido de que não havia de ser nada... Também em miúdo fui assim fraquito. Mas, se é a sério, então espera lá! Talvez ele necessitasse de ir para a serra. Ou de melhor comida. Que a gente, os mais dos dias, bastam-nos uns nabos com feijão. E ele não se contenta com pouco. Está a crescer, tem de criar forças. Raio da minha vida! E pensar que bebo uma imperial à minha conta quase todos os dias no café. E que desde que ando com estas marmanjas… Mas a coisa vai mudar, oh, se vai! Paga quem pode para quem precisa.
Levantei-me com jeitinho, para não destapar a Marta, que, mesmo no Verão, bota ainda em cima da roupa mais dois cobertores de lã, do lado dela, já se vê, e fui, pé ante pé, até à caminha do meu Luís. Piegas! Quem diria, quando me ouvem no barbeiro a enfiar palavrões uns aos outros e a achincalhar todas as gajas que passam, como os outros fazem (depois até me envergonho dessas bacoradas), quem há-de supor que me ajoelho assim diante do meu ,filho a dormir, como se estivesse em adoração, e que lhe beijo as mãos devagarinho, tão devagarinho que ele mal estremece?!...

Quando as tipas me entraram pelo carro adentro, sem mais nem mais, a atirar com as portas, que já andam a pedir conserto, e a professora começou a olhar-me para os dentes, como a um muar na feira, e a dar-me ordens, naquele espanhol do catorze que ela está convencida de que é português … queremos ir a la playa de Armaçón. Agora mismo. Você queda todo el dia por nuestra conta, quase que as mandava àquela parte, apesar da necessidade que tenho de viver. Então isto aqui é a casa da Joana, ou quê?! O que valeu é que a mais nova em tão gira, a cabrona, com aquele ar seriozinho e os olhos postos em mim, muito quietos, com umas rugazinhas muito queridas! Verdes até demais, olhos de sereia, assim com a água clara que a gente vê da borda das chatas, quando vamos a remar pelo meio das rochas...» In Urbano Tavares Rodrigues, Imitação da Felicidade, Publicações Europa-América, Mem Martins, colecção Século XX, 1988.

Cortesia de PEA/JDACT

domingo, 25 de agosto de 2013

Bastardos do Sol. Leituras. Urbano Tavares Rodrigues. «Este livro é de uma maturidade extrema. A sua poesia é dificilmente traduzível, mas pelo menos é-nos transmitida em toda a sua economia dramática esta visão de um mundo condenado, profundamente impregnada do sentimento da dignidade e da liberdade humana»

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Bastardos do Sol
«A sombra das chamas, como um ninho de víboras, floria de remorso, mas que remorso? E de saudade absurda a alvura em fuga da parede caiada, apoiada de grumos que aquele luzeiro avolumava e que sempre eram, um por um, na hora da solidão, referências aos segredos antigos. Uma pequena fogueira num cinzeiro de louça. Apenas um papel a mirrar, já negro, encarquilhado, e sangrando ainda, pelo canto que sobrava, aquele resplendor de uma última e cínica despedida. Não iria estalar o cinzeiro? Os dedos brancos, mas já envelhecidos, pela barrela e pelas frieiras, pegaram, com jeito, na folha quase consumida, voltaram para cima o clarão ameaçador, que logo minguou. Em breve, soltando-se da mão fanada, que prudentemente se retirava, o resto da carta caiu de novo, com o seu rasto de lume a extinguir-se, fantasma já dominado, na concha de louça. Ficou só um castelo de cinza crepitando mansamente, num silêncio de redoma. Como era doloroso ver arder uma carta: era como se ardesse também alguma coisa; ainda alguma coisa, de quem a mandara! Numa extremidade do papel carbonizado, tenazmente, ou já só ilusoriamente, viva, continuava a afirmar-se, airosa e egoísta, uma assinatura que parecia sorrir daquele gratuito sacrifício: Delfino!
 - Então esse jantar é para hoje ou para amanhã? - reclamou a voz da exigência, na saleta, ao lado, que agora fedia e já nem merecia o nome de saleta, desde que haviam chegado aqueles queijos de ovelha que lhes oferecera o compadre Luís Chamorro e que o Arménio para ali empilhara, ao lado de um cesto com pimentões, prosseguindo a sua quase vindicativa destruição da casa, no que ainda lhe sobejasse de graça inútil, de civilidade, de continuação do passado. Contudo, era ele quem nunca se esquecia, no Dia de Finados, de ir levar flores aos mortos. Mas queria certamente humilhá-la, transformando-lhe todas as divisões numa enorme despensa, substituindo o cheiro cru das cebolas e dos queijos frescos a esse inefável, escarnecível embora, mas orgulhoso, odor de poesia e recordação que ela reivindicava só para si.
Os dedos precocemente cansados esfarelavam a lâmina de cinza, que fora uma carta de amor, e depois, morosos, como penitentes, buscaram o lenço, entalado sob o cinto do vestido de xadrez, que ficou ao de leve mascarrado. Só então é que Irisalva se ergueu e atravessou esguia, o corredor, levando na mão o candeeiro de petróleo e sem um olhar para a saleta, onde o irmão fazia, as contas do dia, maciçamente curvado sobre a velha escrivaninha. Logo voltou, porém, da cozinha, sempre silenciosa, e entrou enfim, para pôr a mesa, naquele aposento do ódio, naquela geleira do ódio insubstituível que os roía e os unia. Tão-pouco ele disse uma palavra, absorto na sua coluna de pagamentos. Nunca se enganava num algarismo. Nem tolerava os erros alheios. Tão honesto quanto brutal, dele ressumavam sempre certezas, violentas certezas, incontestáveis certezas, e envolvia-o, acompanhava-o, mesmo nos lances menos heróicos, mais caricatos, da existência, um manto invisível, mas opressivo, de grandeza, de uma primitiva e agressiva grandeza que Irisalva reconhecia e abominava. Abominava-o em tudo, na voz intimativa e forte, na quadratura taurina do busto, no olhar de uma obscura e arrogante vitalidade, até na grenha silvestre que lhe nascia quase grotescamente a meio da testa. E sabia, entretanto, visceralmente que o amava no próprio ódio, que fora o crime a alavanca sagrada desse horrível amor, nesses mesmos predicados físicos e morais que tanto a enojavam». In Urbano Tavares Rodrigues, Bastardos do Sol, Livraria Bertrand, Círculo de Leitores, 1974.

Cortesia da Bertrand/JDACT

terça-feira, 20 de agosto de 2013

Deserto com Vozes. Urbano Tavares Rodrigues. «Mas há ainda o Chico, o pastorinho das ovelhas, que tem de ir um dia ao seu fim do mundo, quer dizer, a Beja (porque de ano para ano vai adiando, ou lhe adiam, uma operação imprescindível) e pensa que virá então ver-me, ali ao pé»

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O que mudou e o que ficou
«Sob o céu já a pardejar corria, alto, o vento, que não tardaria a mungir, amanhando-as, aquelas nuvens mais grossas e sanguentas. Rochas e garças, e mais rochas peladas, cinza dura, na desolação e loucura do montado. Alentejo com chuva. Páscoa frustrada. Que tal os trigos? A ver vamos... Há para aí alguns menos ruins...
Nos terrenos pascigosos, à beira da estrada que o Simca devora, surgem, agrestes e emblemáticos, os saramagos e as grisandas. Sob as saraivadas bruscas, os ranchos da monda cobrem-se com lívidos plásticos, fantasmais. No monte, o silêncio alentejano, a decadência, a lonjura, os guizos, o olhar meigo dos bichos. Calcorrreio sendas antigas que as ervas agora escondem. Por todo o lado a imagem da minha mãe. Até nos locais que foram os do muro branco, do portão, cujo sino repicava em azul, precisamente na Páscoa, quando o garotio vinha às amêndoas e nos acordava, aos gritos, com uma constelação de alegria. Mãe, és tu ou a terra que me julga aqui, em Moura, ao pôr do sol? Que voz me pede contas do meu destino?
Sigo com os olhos a correnteza do Ardila, acompanho-a, com a suave tristeza destes passos no tempo, até ao moinho árabe, onde a água se quebra em espumas glaucas. Ficaram ainda duas mulheres, com os filhos de roda, a lavar a roupa e a cantar, os pés sem medo dentro da água fria. Este som não está à venda: oferece-se ao espaço do meu regresso. São as mesmas mulheres de negro de há vinte anos, apenas com as galochas que as campaniças de outrora não usavam. Têm os maridos e os noivos em França ou em Lisboa na construção civil.
Mas há ainda o Chico, o pastorinho das ovelhas, que tem de ir um dia ao seu fim do mundo, quer dizer, a Beja (porque de ano para ano vai adiando, ou lhe adiam, uma operação imprescindível) e pensa que virá então ver-me, ali ao pé, do outro lado do Tejo. E o maioral que de uma vez se meteu a caminho até à capital e logo renunciou a ficar, não entendendo como podia semelhante gente viver com tanto barulho de automóveis que nem de noite param! É esse mesmo maioral, homem de 40 anos apenas, mas bem usados, que canta por entre a melancolia dos olivais:

Já os dias vão passando
e as semanas também vão.
Já secaram os eucaliptos
para as tábuas do meu caixão.

Árvores
Com a Primavera surgiram, numa quinta-feira cor de terra, entre a chuva gasta e a morna infância do sol. Um rosto quieto e doce como um fruto secreto. E a primeira árvore, verde, múltipla, desenhada à pena sobre três bolas de fogo, as esferas deste insólito calor de Março. Em baixo, a avalanche, o resvaladiço verde fresco da promessa que desperta. Há voos curtos de pássaros e folhas novas, douradas, vermelhas e verdes também, folhas que adejam, ou vibram, como borboletas, por entre os galhos ainda negros de duas árvores gémeas, com ninhos».

In Urbano Tavares Rodrigues, Deserto com Vozes, Seara Nova, Lisboa, 1976.

Cortesia de Seara Nova/JDACT

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

A Noite Roxa. Urbano Tavares Rodrigues. «A honra principia quando não desejamos, apenas, preencher vagamente o nosso tempo vago: podemos não viver em voz alta, que a aprendizagem propiciou um ofício de dizer aos outros explícito nas falas e na escolha delas, nos gestos…»


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Prefácio
Escombros ou a literatura considerada como pirataria
«Há coisas, factos, pessoas a que estamos ligados por sentimentos de honra. Quando chegamos a uma certa estação da vida e fazemos as opções necessárias à nossa própria viagem no tempo entendemos que essas coisas, esses factos, essas pessoas, nos ensinaram a existir mais, que é o acto de tomar o peso do que nos rodeia e, fundamentalmente, explica. O segredo daquilo que nos ensina consiste numa biologia menos macabra do que a do nosso breve prazo: aprendemos porque também não fomos funcionários da vida: vivemo-la, amamo-la e vamo-nos destruindo aos poucos conservando intacta, os que realmente aprenderam, uma raivosa e impotente dignidade. A honra principia quando não desejamos, apenas, preencher vagamente o nosso tempo vago: podemos não viver em voz alta (não ser romancistas, ou poetas, ou jornalistas, ou pintores ou cineastas) que a aprendizagem propiciou um ofício de dizer aos outros explícito nas falas e na escolha delas, nos gestos e, até, no cansaço, que é outra e importante etapa da vida.
Os do artesanato de viver têm, todos, um par de sonhos que levam para a cova: como as profecias começam com o desespero, os sonhos realizados por aqueles serão, fatalmente, os cumpridos pelos outros. A grandeza dos piratas participava do entendimento que eles tinham de terminar violentamente. A grandeza dos que nos ensinam reside no facto de se baterem, bravamente, com a morte, legando-nos o ouro secreto e virgem da sua existência. Eis porque há livros que resistem à biologia da vida: inspiram-nos o sentimento da honra, tornam-nos felizes, pois não foram bem comportados, sendo profetas no seio da própria decadência. Eis porque há autores que são piratas, uma forma de desafiarem o charco das conveniências o charco das conveniências colectivas […]». In Baptista Bastos, 1967

Escombros
Para que lhe contava afinal tudo aquilo? Ela apenas lhe perguntara o que estava ele fazendo em Berlim. Era tão fácil responde: Sou correspondente do Diário Carioca. Mas a hora do balanço, quando se afogava em vazio e a consciência lhe pingava sebo. Mais um dia de ócio e de expedientes. Daquela sensação de inutilidade Baudelaire fazia poemas. O ócio podia frutificar. Porque não faria ele também poemas? Não estava mais enterrado na crápula do que Vilon ou do que Verlaine. Simplesmente, não tinha talento, nem perseverança, não desejava coisa alguma. Se começava a escrever, logo perguntava a si próprio: Para quê? Era mais simples, mais natural, ir jogar com o Wolfgang oi saírem com as escandinavas, que pagavam discretamente as contas dos restaurantes e cabarés.
Soledad vinha de outro tempo, vinha de Paris. A intimidade que houvera entre eles deixara-lhes aquele gosto das confissões. E Soledad era também um destroço. Com dinheiro, mas era outro farrapo. E lúcida, como ele. Conhecia-o sob alguns aspectos. Noutros pontos errava: julgava-oambicioso e ele era apenas vaidoso; julgava-o interesseiro e ele era apenas indolente. Dera-lhe presentes, em tempos, e contara-lhe toda a sua vida. Chamava-lhe então, por brincadeira, O Belo Jacinto. Não adivinhara nunca o que ele calava. – Sabe, Jacinto, você está ficando com muitas brancas. Ao princípio davam-lhe graça, mas se continua assim tem de mudar de ofício».

In Urbano Tavares Rodrigues, A Noite Roxa, prefácio de Baptista Bastos, Livraria Bertrand, Lisboa, 1967.

Cortesia de Bertrand/JDACT