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terça-feira, 26 de março de 2013

Herculano e a Geração de 70. João Medina. «A sua boa amizade quer relevar-me de uma responsabilidade que é minha e como tal quero toda. A frase é do Herculano, eu perfilhando-a tornei-a minha»

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Teófilo contesta Herculano
«Achou a porta do abstruso sintético e simbólico engrinaldada de maravalhas francesas: meteu-se por ela; e, em resultado, aí temos, não direi a Visão, as Tempestades e a Ondina, porque não quero que V. S.ª fique mal comigo, mas direi a História da Poesia Popular e os Forais que V. S.ª trata desapiedadamente. E depois destas linhas tão certeiras, pergunta Herculano porque não dá ao mesmo Teófilo certo conselho que acabava de endereçar ao jovem Oliveira Martins:
  • Dir-me-á porque não o dou a Teófilo Braga? Porque não o aceita. Aquele, ou já se não cura, ou há-de curar-se a si mesmo. É o que, sem lho dizer, eu do coração desejo.
Esta carta do ilustre aldeão data de 1869 e foi, aliás, reproduzida pelo próprio Teófilo no seu livro de correspondência e autobiografia mental. Quarenta Anos de Vida Literária, 1860-1900 (Lisboa, 1903), em nota às missivas trocadas com Oliveira Martins. Numa carta a Teófilo, de Janeiro de 1870, Oliveira Martins ocupa-se precisamente da frase de Herculano e tenta explicá-la ao amigo, uma vez que a referida epístola de Vale de Lobos já tinha sido dada à estampa pelo destinatário. Magoou-o, diz-me, escreve o autor de Phoebus Moniz,
  • a frase de Herculano que eu trouxe para a imprensa. A sua boa amizade quer relevar-me de uma responsabilidade que é minha e como tal quero toda. A frase é do Herculano, eu perfilhando-a tornei-a minha. É bom sempre que a amizade não nos faça indulgentes. (carta de 25 de Janeiro de 1870).
Mais adiante, depois de ter procurado atenuar o que podia haver de desagradável para Teófilo na missiva herculaniana, Oliveira Martins conclui:
  • Parece-me também um tanto errado o juízo que faz do Herculano. Creio que há um erro geral no carácter legendário que lhe tem sido feito. Herculano não é injusto. Rude de natural, tem feito um estudo para se embrutecer cada dia mais. É verdade que ele se dá por vezes seus ares, mas no fundo é um espírito são, cândido até. Eu, pelo menos, creio-o assim e respeito-o.
Vemos já desenhar-se a divergência profunda que irá separar a argúcia crítica e humana de um Oliveira Martins, admirador exigente de Herculano, e a ojeriza ressentida, vesga, sectária e perfeitamente desprovida de fundamentos críticos de um Teófilo. Não será sequer inexacto ou exagerado acrescentar que o primeiro, o autor do Portugal Contemporâneo, soube ver e saudar a verdadeira estatura titânica e fundamente prestante do solitário de Vale de Lobos, enquanto o poeta frustíssimo da Visão dos Tempos, toldado pelo despeito e por irracional animadversão que lhe desfocou todo o sentido crítico e a noção mais elementar dos valores e das proporções, se entregou com inflexível rancor às delícias de abocanhar a memória e a figura de Herculano, pelo menos desde 1873, o ano em que publica na Bibliografia Crítica de História e de Literatura, de Adolfo Coelho, uma catilinária que seria, aliás, retomada quase que ipsis verbis cerca de duas décadas depois, no volume de As Modernas Ideias na Literatura Portuguesa, em 1892. Uma pequena amostra dessa óptica de rancor acusatório transparece já, por exemplo, nesta passagem da sua pequena História das Ideias Republicanas em Portugal, de 1880:
  • O despeito político de Herculano, que precedeu a sua abstenção da actividade literária, foi um terrível exemplo para a geração nova, que entendeu que a literatura era incompatível com a participação dos interesses sociais do momento.
Razão tinha o antigo soldado raso que desembarcara entre os 7500 do Mindelo, para implantar em Portugal a Liberdade: Teófilo ou se curaria a si mesmo ou então ficaria para sempre enquistado nos seus preconceitos, fobias, tinetas e tiques mentais». In João Medina, Herculano e a Geração de 70, Edições Terra Livre, Lisboa, ano IV da Liberdade, 1977.

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Cortesia de Terra Livre/JDACT

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Herculano e a Geração de 70. João Medina. «É preciso acrescentar que os dois homens se conheciam. Di-lo Teófilo em carta publicada no livro "Mocidade de Teófilo", obra que apresenta a peculiaridade de nela se terem refundido, à guisa das conveniências…»

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Teófilo contesta Herculano
«Raramente um homem terá suscitado tão unânime e severo coro de impropérios, verdadeira cascata de doestos chovendo durante anos a fio sobre o lendário guarda-chuva do professor ‘Teófilo’. Vimos já que Herculano rotulava Teófilo de ratão (sic) - di-lo com secreto júbilo o jovem estudante Junqueiro, em carta de Coimbra ao editor Chardron, no ano de 1870.Ilgnoramos a exacta razão de semelhante veredicto; mas, nessa altura, Teófilo era já um literato relativamente conhecido, tendo ganho fumaças de celebridade por via da famigerada Questão Coimbrã; além da Visão dos Tempos, de Tempestades Sonoras e de A Ondina do Lago, o açoriano já botara certa presença de assinalar nos arraiais literários, publicando um ou outro livreco, como a História da Poesia Popular ou o Cancioneiro Popular,  sem contar com os estudos ligados ao seu doutoramento em Coimbra, as Teses sobre diversos ramos de direito, as quais na Universidade de Coimbra em 1868 defenderá Joaquim Teófilo Braga, mais a História do Direito Português e Os Forais.
No ano anterior, em 1869, tinham saído os livros Torrentes e a História da Poesia Moderna em Portugal, sendo de 1870 os livros História da Literatura Portuguesa, a História do Teatro Português e ainda outras obras eruditas. Herculano estava, pois, habilitado a :pronunciar-se já sobre o valor deste confrade de 26 anos, quando confessava a Junqueiro que achava mestre Teófilo um ratão. É preciso acrescentar que os dois homens se conheciam. Di-lo Teófilo em carta publicada no livro Mocidade de Teófilo, obra que apresenta a peculiaridade de nela se terem refundido, à guisa das conveniências, o mais a posteriori e post mortem possível, as cartas escritas várias décadas antes: com espantoso à vontade e perfeito sentido de falsificação anacrónica, Teófilo não hesitou em amanhar as cartas que tinha ido compondo ao longo da sua vida, sendo, pois, de tomar com o mais decidido cepticismo o teor de semelhantes missivas alindadas ao bel-prazer do célebre polígrafo. Numa dessas cartas, incluídas no referido volume, conta Teófilo como conheceu Herculano no Grémio Literário, no Natal de 1864:
  • ‘Estava rodeado de admiradores estáticos e ele falando com monossílabos e tons proféticos. Não lhe falei, nem ele me dirigiu a palavra, mas dias depois do 1º de Janeiro deu-se um caso, em que nos encontrámos frente a frente. Descia a Calçada do Combro um regimento com a charanga à frente e adiante bandos de rapazio. Recolhi-me a um portal de uma escada pegada ao palácio do conde de Cabral; eis que de repente Herculano se refugia aí também, e enquanto a música e tropa passava com o povoléu para a abertura solene das Câmaras, conversámos nesses rápidos momentos acerca das novas ideias sobre a arte gótica e as descobertas arqueológicas designadas como Arte Francígena. (carta de 16 de Janeiro de 1865)’.
Apócrifa ou não, ajeitada a posteriori por Teófilo ou não, o facto é que desta carta resulta que os dois homens se conheciam pessoalmente. Uma carta de Herculano a Oliveira Martins, agradecendo o envio do opúsculo deste último acerca de Teófilo Braga e O Cancioneiro e o Romanceiro Português, confirma-o, uma vez que nela se vê o autor dos Solemnia Verba pronunciar-se sobre o açoriano:
  • ‘Teófilo Braga é uma inteligência completa e uma grande vocação literária, mas uma fraca vontade: gosta de fazer ruído: deseja adquirir reputação; não possui, porém, o querer robusto que vai até ao sacrifício, que vai até ao martírio, e que é preciso para se tornar um homem verdadeiramente superior[…]»
In João Medina, Herculano e a Geração de 70, Edições Terra Livre, Lisboa, ano IV da Liberdade, 1977.


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Cortesia de Terra Livre/JDACT

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Herculano e a Geração de 70. João Medina. «Raramente um homem terá suscitado tão unânime e severo coro de impropérios, verdadeira cascata de doestos chovendo durante anos a fio sobre o lendário guarda-chuva do professor Teófilo»

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Teófilo contesta Herculano
[…] a crítica que o brasileiro Machado de Assis escreveu em A Semana, no mesmo ano em que o nosso historiador havia de desaparecer, ou seja, em 1877:
‘Quem era certo cavaleiro italiano que gastou a vida dele a duelar-se em defesa da Divina Comédia, sem nunca a ter lido? Eu sou esse cavaleiro apenas por um lado, que é o lado dos que dizem que, a não fazer Herculano livros de história, deve fazer outra coisa. Mas confesso que preferia ao pé do seu azeite o seu estilo; e de bom agrado receberia de suas mãos o livro e a luz. Dar-me ele a luz e o Sr... os livros, é uma disparidade que não chega a vencer o sono... Por melhor que seja o azeite. Suspendamos o riso, que é alheio a estas coisas. Sunt lacrimae rerum. Pois quê! Um homem levanta um monumento, escreve o seu nome ao lado de Grote e Thierry, esculpe um Eurico, desenterra da crónica admiráveis novelas; é um grande talento, é uma erudição de primeira ordem, e no vigor da idade retira-se a uma quinta, faz da banca um lagar, engarrafa os seus merecimentos, entra em concorrência com o Sr. N. N. e nega ao mundo o que lhe não pertence a ele!’. Isto escrevia pelos Brasis, a l de Agosto de 1877, o autor de Quincas Borba, dividido entre a admiração moderada e a indignação formal, e cerca de um mês depois, mais exactamente a 13 de Setembro desse ano, falecia aquele que trocara a literatura pelo amanho das terras, o livro pelo azeite. Mas nem todos, aqui em Portugal, saudaram com a comovida e nobre admiração de um Antero o desaparecimento do exilado de Vale de Lobos. Alguns membros da geração de 70 não hesitaram mesmo, ainda em vida do historiador, em desfechar-lhe censuras e admoestações, umas originadas no despeito, porventura o caso de Ramalho, outras num misto de azedume, ressentimento e vesga raiva de confrades do mesmo ofício, e aqui cabem os nomes de Teófilo e Adolfo Coelho, ambos injustíssimos no que escreveram acerca do autor de O Bobo. Ramalho, Teófilo e Coelho formam, portanto, o segundo pelotão dos juízes do valor e da acção do gigante que baixou à terra nesse ano de 1877. Deles, divergem, um Antero ou um Eça, o primeiro calorosamente admirativo da estatura intelectual e moral de Herculano, o segundo ironicamente traduzindo o retiro para Vale de Lobos em paradigma de um dilema ético-político condensado numa expressão de recorte chistoso, o tal ‘plantar legumes’, posto na boca de João da Ega, numa crónica sua, o mesmo Eça traduziria o ‘il faut cultiver notre jardin’ de Voltaire num ‘plantar quietas saladas num murado e frondoso quintal’, plantio que, afinal, se mostrava proveitoso e positivo, sobretudo em contraste com o mariposear todo fútil e absolutamente improfícuo de certos vencidos, como Carlos da Maia e outros intelectuais da geração de 70, caricaturados nessa sátira transcendental chamada Os Maias, publicada, aliás, no mesmo ano em que o Governo promovia a trasladação dos restos mortais de Herculano para os Jerónimos.
Examinar o verdadeiro anti-Herculano obstinadamente erguido por Teófilo é entrar nos meandros de um dos mais complexos e mórbidos labirintos do nosso oitocentismo: há aqui, nesta entranhada e facciosa máquina de guerra teofiliana montada contra o patriarca de Vale de Lobos, um contencioso que transcende a mera antipatia entre dois homens do mesmo ofício, ainda por cima portugueses, ou seja, respirando no acanhado espaço mental de um País sem reais tradições de sadio labor do espírito, numa anárquica, azeda e reimosa República das letras onde, em geral, todos se detestam, caluniam e mutuamente se vilipendiam. Mas não basta recorrer a esta sumária sociologia do nosso meio literato, vespeiro de intelectuais estropiados ou subalternizados perante uma burocracia esterilizante, um público ledor muito restrito e uma Universidade amesquinhada por autoritarismos de diversa índole, para explicar o ódio que movia a pena do professor do curso de Letras contra aquele que, aliás, recusara uma cadeira nessa mesma instituição, não obstante a estima que lhe votava o seu fundador, Pedro V. A mera explicação ideológica também nada resolve. Burgueses ambos, de mediana extracção, um deles vivendo da lavoura e o outro do professorado, o lisboeta e o micaelense só tinham, afinal, a separá-los uma linha puramente conceptual, uma divergente Welt und Lebensanschauung:
  • um era liberal, romântico, progressista, medularmente médio burguês e afecto à ideia de uma monarquia representativa, educada e constitucional;
  • o outro, convulsivamente positivomaníaco e jacobino, ‘espécie de Marat de soalheiro’, (fala Quental), homem de ressentimentos, eterno despeitado ao longo da sua dilatada carreira de literato, olhando de soslaio o conterrâneo Antero de Quental, tomando poses de rã da fábula ao lado dos demais membros da geração de 70, poupando Eça e poucos mais, demolindo todos os precursores, venerando apenas os Santos Padres do positivismo, Comte e Littré, fulminando adversários políticos e ideológicos com a suficiência toda doutoral de um grande mandarim omnisciente e sectário, suscitando antipatias que o perseguem desde os bancos da Universidade até ao enterro, em 1924, injuriando a torto e a direito, invectivando e ripostando raivosamente à matilha dos detractores, eis num relance a árdua trajectória de um dos mais detestados e detestáveis literatos portugueses modernos.
Bastará, para nos apercebermos bem da auréola de ódios eriçados em seu redor, citar quase que a esmo umas quantas pedradas críticas vibradas daqui e dali, desde o rabujento Camilo a homens do novecentismo, como Teixeira Gomes ou Unamuno:
  • cérebro atrapalhado, bexiga de gases maus, besta e pedante, assim o definia Camilo;
  • pobre muñeco', insoportabre escritor, latoso pedante,(assim falava Don Miguel de Unamuno;
  • velho grotesco, destemperado, confidência de Teixeira Gomes, em 1911;
  • pequenino miserável, nulo, mau tolo, vilãozinho muito mesquinho, sofrendo da hidrofobia dos infinitamente pequenos, chibatadas polémicas vibradas por Antero em 1872;
  • paspalhão português, saloio desequilibrado, papa dos charlatães, maníaco açoriano, ilheuzinho das Arábias, cigano e perfeito degenerado, trabuzanada mandada do Brasil pelo excessivo Sílvio Romero), etc.

Raramente um homem terá suscitado tão unânime e severo coro de impropérios, verdadeira cascata de doestos chovendo durante anos a fio sobre o lendário guarda-chuva do professor Teófilo». In João Medina, Herculano e a Geração de 70, Edições Terra Livre, Lisboa, ano IV da Liberdade, 1977.

Cortesia de Terra Livre/JDACT

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Herculano e a Geração de 70. João Medina. «… o último ministro da Fazenda da monarquia, o condiscípulo e amigo de Antero. Pronunciando o elogio de Herculano, no Porto, em 1888, o ano da trasladação dos restos mortais do historiador para os Jerónimos…»



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«Como o sintetizara mordazmente Eça, as fainas dos intelectuais entre nós resumiram-se neste dilema: ou agricultura, ou Revolução. E se esta última, uma vez feita, falhar, então só nos restará a demissão, ou seja, deixarmos de fingir que somos um País independente. E sejamos então espanhóis.
Terminemos esta resenha dos admiradores de Herculano com algumas passagens dum texto que lhe dedicou Anselmo de Andrade (1842-1928), o último ministro da Fazenda da monarquia, o condiscípulo e amigo de Antero. Pronunciando o elogio de Herculano, no Porto, em 1888, o ano da trasladação dos restos mortais do historiador para os Jerónimos, Anselmo de Andrade dizia:
  • ‘É da família hebreia dos videntes. Parece um profeta do tempo de Isaías perdido no nosso século. O mundo é para ele uma tragédia bíblica. Era sempre o cristão duplicado pelo estóico. O último período da vida de Herculano é o da sua abdicação. Os reis também abdicam. O seu isolamento foi a conclusão naturalmente deduzida das premissas, postas pela sua filosofia no meio político em que vivia. A solidão foi um acto de coerência. Refugiou-se no seu voluntário exílio, por não poder encarnar nas instituições do seu país o seu pensamento, e por não poder, dentro da sua religião do dever, transigir com o que se lhe afigurava injusto e devasso. Tinha necessariamente de se isolar quem em pleno Baixo Império possuía a alma de um Graco e a intransigência de um jacobino’.
Esclarece todavia, ia-se a Vale de Lobos, como antigamente a Delfos, ouvir as palavras do oráculo. A mocidade adorava-o. E a posteridade soube dar-lhe as honras que merecia pondo-o, sozinho, nos Jerónimos, onde dormem também Gama e Camões. Nemésis não é uma simples fábula. A posteridade é a encarnação real e verdadeira dessa deusa justiceira e vingadora dos grandes, dos justos, dos dignos e dos fortes.
A posteridade desagravou pois Herculano de muita inveja e calúnia sofridas em vida:
  • Durante a sua vida, nem sempre a inveja se calou diante dos louros que exornaram aquela fronte, mas depois da sua morte poucos deixaram de tributar ao grande cadáver as homenagens costumadas da saudade e os preitos sinceros da admiração.
Teófilo contesta Herculano
Continuemos o nosso inquérito acerca dos juízos proferidos pelas figuras cimeiras da geração de 70 quanto à obra e à especial postura cívica de Herculano, sobretudo desde que este, dizendo-se insuportavelmente agravado pela baixeza e incompreensão dos seus contemporâneos, se retirou para a sua estudiosa ‘Tebaida agrícola’, perto de Santarém, para deixar aos ratos e às aranhas a sua História de Portugal, como graficamente o satirizou Bordalo Pinheiro na capa d’A Lanterna Mágica (nº 7, de 26-6-1875) e depois n’O Mosquito, jornal que o nosso artista dirigia nesse Rio de Janeiro onde então, por algum tempo, se expatriara (nº 375, de 22 de Junho de 1876). E já que aqui se aludiu à nação além-Atlântico, incluamos nesta nossa muito breve ‘sinopse herculanológica’ a crítica que o brasileiro Machado de Assis escreveu em A Semana, no mesmo ano em que o nosso historiador havia de desaparecer, ou seja, em 1877:
  • ‘Quem era certo cavaleiro italiano que gastou a vida dele a duelar-se em defesa da Divina Comédia, sem nunca a ter lido? Eu sou esse cavaleiro apenas por um lado, que é o lado dos que dizem que, a não fazer Herculano livros de história, deve fazer outra coisa.
In João Medina, Herculano e a Geração de 70, Edições Terra Livre, Lisboa, ano IV da Liberdade, 1977.

Cortesia de Terra Livre/JDACT

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Herculano e a Geração de 70. João Medina. «Plantai batatas, ó geração do vapor e do pó-de-pedra; macadamizai estradas; fazei caminhos de ferro, construí passarolas de Ícaro (...). Andai, ganha-pães, andai; reduzi tudo a cifras (...), comprai, vendei, agiotai»



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«Oração nobre, preito de justa homenagem da figura maior da geração de 70 à figura máxima da geração liberal que amadurecera no exílio, embarcara no sonho palingenésico de Belle-lsle e desembarcara na jornada esplêndida do Mindelo, para acordar depois, tal como esse buliçoso Garrett, num país em que nada, ou quase nada, mudara, a ponto de finalmente se desenganar dolorosamente: enquanto Herculano garantia, em Outubro de 1851, já em pleno arranque da Regeneração para a qual concorrera, que a nossa ‘história política é uma série de desconchavos, de torpezas, de inépcias, de incoerências indesculpáveis, ligadas contudo por um pensamento constante, o de se enriquecerem os chefes de partido! (...). Hoje achá-los-eis progressistas, amanhã reaccionários; hoje conservadores, amanhã reformadores; olhai porém com atenção e encontrá-los-eis sempre nulos’; enquanto Herculano se desilude, recusa pastas ministeriais e acaba comprando com os seus direitos autorais uma quinta em Vale de Lobos, para onde se retira de vez, o seu émulo e polémico amigo Garrett grita, desenganadíssimo também:
  • Plantai batatas, ó geração do vapor e do pó-de-pedra; macadamizai estradas; fazei caminhos de ferro, construí passarolas de Ícaro (...). Andai, ganha-pães, andai; reduzi tudo a cifras (...), comprai, vendei, agiotai.
Quanto a Junqueiro, limitar-nos-emos por ora a transcrever um texto seu, cuja proveniência aliás ignoramos, tendo-o lido num artigo de Joaquim Pestana dedicado a Herculano e incluído no popular ‘Novo Almanaque de Lembranças Luso-Brasileiro para 1883’, de 1882:
  • Alexandre Herculano é uma dessas figuras esculturais que, antes de desaparecerem em pó, reaparecem em bronze. Ainda vivo, nos últimos anos, adquirira na penumbra heróica do seu isolamento, como que a imobilidade sagrada de uma estátua. Desde o dia em que, velho leão ensanguentado, se retirou de uma luta sem tréguas que durara quarenta anos, para se ir esconder na benigna e pacificante tranquilidade da natureza, desde esse dia em que para quase todos começa o esquecimento, começou para Alexandre Herculano a projecção gloriosa do seu génio, a imortalidade.
Consideremos agora a homenagem simpática e um tanto irónica, muito sui generis, aliás na sequência mesmo do texto garrettiano, prestada por Eça ao solitário ‘vencido da vida’ Herculano. Deixando de lado dois textos de pouco interesse, um das Farpas e outro, muito breve, da novela Alves & Ca, ocupemo-nos antes da crítica implícita num diálogo d'Os Maias. Explicando a Afonso da Maia por que razão não queria publicar livros, João da Ega diz:
  • Não vale a pena, sr. Afonso da Maia. Neste país, no meio desta prodigiosa imbecilidade nacional, o homem de senso e de gosto deve limitar-se a plantar com cuidado os seus legumes. Olhe o Herculano...
Ao que o velho Afonso, figura toda herculaniana, até no seu desterro beirão e abandono da vida política activa depois das desilusões dum exílio inglês e outras desventuras, responde com mordacidade que nem isso Ega fazia, ou seja, nem ao menos contribuía para o bem nacional plantando legumes. Mas logo Carlos da Maia, perfeito diletante, ainda mais vencidista do que o blagueur de Celorico, reforça a ideia do amigo: A única coisa a fazer em Portugal é plantar legumes, enquanto não há uma revolução que faça subir à superfície alguns dos elementos originais, fortes, vivos, que isto ainda encerra lá no fundo.
E se não encerrar mesmo nada, remata Carlos, que nos demitamos então de País e passemos a ser uma fértil e estúpida província espanhola, e plantemos mais legumes. Neste diálogo, sob a aparência de meros chistes elegantemente trocados entre cavalheiros cultos da boa sociedade, encerra-se afinal, resumidas e caricaturadas, certas esperanças e desesperanças dos membros da geração do próprio Eça, postos de novo, como os revolucionários de 20, os vencedores de 1834 ou ainda os mentores de 51, perante a tarefa fundamental de refundir, reformar e regenerar todo um País amodorrado pela tirania, destruído por erros funestos, por viciada conformação sociológica, por tão graves taras e entorses da sua constituição material e moral. Herculano, posto diante dessa tarefa para ciclopes, tentara a reforma cultural, indagara historicamente as raízes mesmas da nossa formação, da nossa liberdade e dos descaminhos que a Nação levara desde os dias aziagos em que trocara o desenvolvimento interno pela aventura marítima e colonial. Mas acabara por desistir, acossado pela matilha dos filisteus, acolhendo-se à torre de marfim de Vale de Lobos, para ali continuar porém a servir, como lavrador e intelectual, o seu país: dava-lhe ao menos azeite e bons livros, levantava de quando em vez a voz para fulminar os marqueses de Ávila e outros pigmeus quando estes atropelavam a Liberdade que o soldado raso, antigo conspirador de 1831, combatendo o terror miguelista nos duros anos de exílio e em pelejas no solo pátrio, ajudara a fundar entre nós. E os homens da geração de 70, nascidos já sob a protecção macia e sonolenta das liberdades da Carta, sem precisarem de se expatriar em França ou na Inglaterra para fazerem vingar entre nós os princípios mínimos da convivência e da tolerância sociais, que tinham eles feito? Depois de atirarem farpas de papel do alto do Casino ou de outras tribunas literárias, acabavam, como o alquebrado Oliveira Martins, por se sentir realmente vencidos da vida ou, como esse alter-ego queirosiano chamado João da Ega, decretavam que a Choldra nem sequer os sabia ler. E desistiam também, mas nem sequer plantavam legumes. Jantavam no Hotel Bragança e alguns acabavam por cair na esparrela de ser ministros, logo trucidados pela cabala politiqueira, do rei Carlos I...». In João Medina, Herculano e a Geração de 70, Edições Terra Livre, Lisboa, ano IV da Liberdade, 1977.

Cortesia de Terra Livre/JDACT

quinta-feira, 19 de julho de 2012

Herculano e a Geração de 70. João Medina. «Ambos povoam aquela pátria espiritual de que falava Sérgio, e onde o mesmo Sérgio, de par com outros espíritos inteiros como Mouzinho da Silveira ou o referido João de Castro, personalizam aquilo que alguém definiu como ‘o arquétipo’, na acepção de ‘Jung’ de certa exemplaridade portuguesa»



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Herculano visto por Antero, Eça, Guerra Junqueiro e Anselmo Andrade
«Antes mesmo de se conhecer o juízo de Antero sobre Herculano, nos assalta logo como evidente que estas duas figuras, a daquele que se suicidou por ‘isolamento’, como o disse Laranjeira e o repetiu Unamuno, e a do que consumou mesmo o gesto absoluto da morte voluntária, tinham forçosamente de convergir, já que partiam de pressupostos éticos, emotivos e intelectuais semelhantes: o solitário de Vale de Lobos e o eterno solitário em-toda-a-parte que foi Antero tinham de se encontrar na mesma recusa das concessões ao século e aos interesses rasteiros ou mesmo medianos da vida quotidiana, na mesma estóica, vertical e granítica inteireza moral de quem prefere a total ausência aos compromissos, às presenças inautênticas. Ambos ostentavam, num século rasteiro e chatim, as barbas lendárias de João de Castro e por força acabariam de mal com os homens por amor ao ideal ou de mal com a ideia por amor aos homens. Ambos desistiram: o primeiro retirando-se para uma existência marginal, mas, apesar de tudo, útil e produtiva de lavrador que, ao menos, dá os frutos das suas courelas ao País; o segundo partiu de mãos vazias, afastando-se em radical ruptura com o mundo sensível, despojando-se de todas as humanas paixões depois de ter percorrido degrau a degrau a escada estreita da ilusão. Ambos povoam aquela pátria espiritual de que falava Sérgio, e onde o mesmo Sérgio, de par com outros espíritos inteiros como Mouzinho da Silveira ou o referido João de Castro, personalizam aquilo que alguém definiu como ‘o arquétipo’, na acepção de ‘Jung’ de certa exemplaridade portuguesa. Esta inegável convergência tinha de os irmanar. Falando de Antero no seu opúsculo acerca da proibição das Conferências Democráticas, diz Herculano que o jovem ‘condottiere’ do Casino era ‘uma destas índoles nobremente austeras que cada vez se vão tornando mais raras’. Por seu turno, escrevendo em Setembro de 1877 sobre o então desaparecido Herculano, Antero publicava no nº 2 de “Os Dois Mundos”, revista luxuosa editada em Paris pelo conferencista frustrado de 1871, o judeu Salomão Sáragga, um curto artigo onde se evoca o velho roble fulminado pelas ‘Parcas’, com o calor e a nobreza que se adivinham.
Depois de começar por dizer que a morte de Herculano é, mais do que um luto para a literatura, um ‘verdadeiro luto nacional’, Antero afirma ser ele o último representante duma ilustre geração em quem ‘o forte génio português reverdeceu ainda neste século com uma seiva tardia’. Mais do que um grande escritor, tinha sido ‘um grande homem’, um desses que sintetiza o carâcter duma raça, o ‘representante do génio da sua nação’. Na fisionomia moral de Alexandre Herculano, prossegue Antero, ‘há certas linhas que fazem lembrar o perfil enérgico e simples dos heróis típicos da nacionalidade portuguesa. Pertencia a essa grande linhagem, que acabou com ele, e o seu século, admirando-o, considerava-o todavia com um certo espanto ininteligente, como se sentisse vagamente que aquele homem pertencia a um mundo extinto, um mundo cujo altivo sentir já ninguém compreendia., Daí, continua o chefe espiritual da Geração Nova, essa exemplar incompreensão mútua entre o seu tempo e o homem que nele viveu, esse .dissentimento que estava na natureza das coisas’.
E acrescentava:
  • Não nos cabe a nós ser juízes entre um grande homem e uma época, que tantos aclamam gloriosa, enquanto outros persistem em tê-la por mesquinha. A história (...) dará talvez razão, ao mesmo tempo, à época, que não podia ser maior nem melhor do que as circunstâncias a fizeram, e ao homem nobre e sincero, cuja altiva integridade repugnava invencivelmente a que pactuasse com o abaixamento moral dos contemporâneos, embora tal abaixamento lhe parecesse providencial, preferindo a atitude isolada e austera do protesto e as más vontades que ela provoca nos caracteres vulgares, à influência e dominação alcançada pela conivência com as paixões, os desvarios e os vícios da época. Há glórias mais brilhantes e ruidosas; nenhuma pode haver mais pura.
In João Medina, Herculano e a Geração de 70, Edições Terra Livre, Lisboa, ano IV da Liberdade, 1977.

 
Cortesia de Terra Livre/JDACT

sábado, 14 de julho de 2012

Herculano e a Geração de 70. João Medina. «… inventário dos juízos acerca de Herculano dividindo a falange guerrilheira de 1871 em três grupos, os que simplesmente admiram a obra e a acção de Herculano, os que o condenam com biliosa e cega ojeriza, por fim os que lhe votam uma estima toda crítica, vigilante e fundamentada»



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«Se tivermos sobretudo em conta a formidável estatura moral e cívica do solitário de Vale de Lobos, logo se nos patenteia a importância do juízo emitido pelos homens da geração de 70 acerca do grande historiador romântico: deste confronto de duas gerações ressalta afinal o encontro de duas ópticas, dois vectores ideológicos e, por fim, duas radicais atitudes perante a problemática portuguesa. Em que medida elas diferiram, colidiram ou, ao invés, se ajustaram, eis o que agora nos interessa sublinhar através de um rápido inquérito quanto aos diversos, e tão divergentes, juízos emitidos pelos componentes da geração de 70 em relação ao autor de Eurico. Embora resulte fastidioso inventariá-los todos, não podemos deixar de recolher as opiniões mais significativas, aqui resumidas, por comodidade de exposição e acanhamento de espaço, aos juízos de certas figuras cimeiras como Antero, Eça de Queiroz, Junqueiro, Anselmo de Andrade, Ramalho, Teófilo, Adolfo Coelho, e sobretudo, Oliveira Martins. Com efeito, como seria de esperar, o diferendo entre os homens de 70 e a postura ética e cívica herculaniana ganha especial e transcendente teor ideológico quando os polos em presença são nada menos do que os dois grandes vultos da historiografia portuguesa do oitocentismo, ou seja, o autor da “História da Origem e Estabelecimento da Inquisição (maldita) em Portugal” e o do “Portugal Contemporâneo”, isto é, duma banda o liberal convicto, irredutível e extremo, da outra o socializante proudhoniano e republicanizante (depois trânsfuga de parte desses ideais); além João de Castro da burguesia romântica portuguesa, o verdadeiro Gulliver estóico do nosso Lilliput constitucional, aqui o futuro candidato a César dum utópico socialismo de Estado sob a protecção brigantina. Em suma, afinal dois vencidos da vida que se olham através do fosso das gerações e das ideologias, o primeiro de todo desenganado, acolhido a Vale de Lobos, ‘essa pátria espiritual de todos os espíritos protestatórios que desde então até agora têm aparecido no País’ (A. Sérgio), o outro sucumbindo à tentação da Política, descendo com todo o seu saber e impaciência de reformador idealista à cova dos leões e dos agiotas, para de lá sair ferido, exangue, alquebrado, definitivamente “vencido”. Mas não antecipemos este diálogo entre aquele que nunca quis ser ministro dos Braganças e aquele que se deixou embalar pela tentação ministerial. Comecemos pois pelo início, recordando o passo capital que coloca Herculano, já retirado para o exílio de Vale de Lobos, em sintonia com os anseios da geração de 70: o seu vigoroso protesto, de raiz aliás acentuadamente religiosa e desenvolvendo-se todo em considerandos teológicos e políticos em torno da questão Igreja-Estado, por ocasião do encerramento das Conferências Democráticas do Casino, em Junho de 1871, texto que pode ser procurado no vol. I dos “Opúsculos”, dado pela primeira vez à estampa em 1873, ainda em vida do autor (que só faleceu em 1877), texto solicitado aliás por um empregado da Livraria Bertrand, o luso-suíço José Fontana, ao qual o referido escrito foi dedicado (a dedicatória resume-se num ‘A J. F.’ muito lacónico). Apesar de tão vibrante protesto contra a medida do marquês de Ávila e Bolama, o que lhe valeu o habitual ladrar da canzoada clerical ultramontana, entre os mastins que mais latiram às canelas do austero lavrador anacoreta salientemos o nome do gazetilheiro José Maria S. Monteiro (1810-1881), autor duma obra dada à estampa em 1875, com o título bem cristão de “Duas Obras de Misericórdia (Ensinar os Ignorantes e Castigar os que Erram) ou Enérgica Refutação do Opúsculo do Snr. A. Herculano a Propósito da Supressão das Conferências do Casino”, apesar, dizíamos, de ter de novo incorrido nos pios furores do reaccionarismo catolicão da altura, Herculano não logrou atrair todas as simpatias da tribo rebelde que tentara leccionar o País do alto do Largo da Abegoaria, naquele tão curto mês que medeou entre Maio e Junho de 1871. Vê-lo-emos mais adiante: mesmo esta defesa incluída nos “Opúsculos” foi vilipendiada por um estudioso e crítico republicano que o solitário da Azóia escalabitana classificara uma vez de ‘ratão’, arquiagredido Teófilo Braga, o intelectual português mais difamado ao longo de todo o nosso oitocentismo e começos do novecentismo. 


Comecemos porém o nosso breve inventário dos juízos acerca de Herculano dividindo a falange guerrilheira de 1871 em três grupos, os que simplesmente admiram a obra e a acção de Herculano, os que o condenam com biliosa e cega ojeriza, por fim os que lhe votam uma estima toda crítica, vigilante e fundamentada. Digamos sucintamente que ao primeiro grupo pertencem Antero, Junqueiro, Anselmo Andrade e Eça, ao segundo lote Teófilo, Ramalho e Adolfo Coelho, situando-se no terceiro, densíssima de conteúdo, a crítica que Oliveira Martins ergueu em torno do seu confrade romântico. Sigamos, pois, o roteiro agora sumarizado, começando pelos que realmente o estimaram e aplaudiram, ou seja o herculaniano Antero e Junqueiro, mais Anselmo Andrade e certo travesso demónio de monóculo». In João Medina, Herculano e a Geração de 70, Edições Terra Livre, Lisboa, ano IV da Liberdade, 1977.

Cortesia de Terra Livre/JDACT

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Jaime Batalha Reis: Figura eminente da Geração de 70. O companheiro mais próximo de Antero de Quental nos tempos do Cenáculo da Travessa do Guarda-Mor em Lisboa. Acompanhou todo o percurso dos Vencidos da Vida com quem intensamente se relacionou. Agrónomo, diplomata, crítico e geógrafo, reuniu um vastíssimo arquivo literário

(1847-1935)
Lisboa
Cortesia de purl
«Jaime Batalha Reis nasceu  numa família de pai liberal. Matriculou-se no Instituto Geral de Agricultura onde se formou em agronomia.
Uma noite, prestes a acabar o curso, tomou conhecimento com Eça de Queiroz na Gazeta de Portugal, um encontro que se converteu em amizade para a vida inteira. Esta relação ampliou-lhe o círculo de amigos, juventude intelectual e boémia, o núcleo que ficou conhecido como «Geração de 70». Mas foi principalmente o encontro com Antero de Quental, por volta de 1868, que lhe veio permitir colmatar algumas fragilidades culturais e desenvolver os conhecimentos filosóficos.

Cortesia de museudochiadoipmuseus
O brilho da carreira estudantil deram-lhe a esperança de ser convidado para a carreira docente. Mas isso não iria acontecer, talvez pelas opiniões expressas numa dissertação em que defendera as teorias de Darwin. Especializou-se no estudo da nova moléstia da vinha, a filoxera, e começou a colaborar em revistas e jornais. Esta actividade, porém, não o afastava das suas preocupações literárias e artísticas. Foi em 1869 que Eça, Antero e Batalha Reis inventaram, num delírio criativo, «o poeta satânico» Carlos Fradique Mendes e das poesias publicadas uma, «Velhinha», era da autoria de Jaime Batalha Reis.

Cortesia de purl
Encontrou o amor da sua vida. Chamava-se Celeste Cinatti e para conseguir a estabilidade económica resolveu concorrer à carreira consular. Apesar das esperanças que alimentara, não conseguiu provimento, pois ficou em terceiro lugar. Voltou por isso a intensificar a sua actividade profissional.

Propriedade de Jaime Batalha Reis nos arredores de Torres Vedras
Cortesia de memoriasimagens

Antero e Batalha Reis, tornados inseparáveis, passaram a conviver com Eça de Queirós, José Fontana, Augusto Fuschini, Manuel de Arriaga, Oliveira Martins, Augusto Machado, Guerra Junqueiro, organizando o programa das «Conferências Democráticas do Casino Lisbonense» ou  «Conferências do Casino». Depois das intervenções de Antero, Augusto Soromenho, Eça de Queirós e Adolfo Coelho, a continuação das palestras foi proibida por uma portaria assinada pelo Marquês de Ávila e Bolama. Esta interrupção não permitiu que Jaime Batalha Reis fizesse a sua prelecção que versava sobre o «Socialismo». A atitude do governo, seria reforçada pela publicação de dois folhetos dirigidos a Ávila e Bolama, um de Antero de Quental e outro de Jaime Batalha Reis, que começando por afirmar
  • «Eu sou socialista» terminava dizendo, o que V. Exª fez obriga-me a descrer ou da sua ilustração ou da sua probidade. Eu descri da ilustração. Todos os actos da vida de V.Exª me autorizavam a fazê-lo.

Leque de namoro entre Jaime Batalha Reis e Celeste Cinatti, 
Leque de pau de buxo escrito a lápis de ambos os lados
Cortesia de purl

Os anos de 1874 e 1875 serão preenchidos pela elaboração de um projecto também muito caro a Antero de Quental e Oliveira Martins, a publicação de uma revista que reunisse a colaboração de intelectuais portugueses e espanhóis. Depois de muitos contratempos, que Batalha Reis ultrapassou com a habitual tenacidade, o 1º número da Revista Ocidental saiu em Fevereiro 1875, e foi nas suas colunas que Eça de Queirós publicou a 1ª versão de «O Crime do Padre Amaro». Além de Eça, nela colaboraram Batalha Reis, Antero, Oliveira Martins, Adolfo Coelho, Sousa Martins, Maria Amália Vaz de Carvalho, intelectuais e políticos espanhóis como Pi y Margall, Fernandez de los Rios, Rafael de Labra, Canovas del Castillo. Porém, as dificuldades de coordenar a colaboração, e a falta de financiamento, situação crónica neste tipo de publicações, derrotou o projecto, que não ultrapassou o mês de Julho.

«A povoação reduzia-se então a poucas casas espalhadas sobre as arribas, como se sabe muito pito­rescas, altas e de estratos viva­mente coloridos, donde, para no­roeste, se avista Peniche, ao lar­go a Berlenga.»
 (Jaime Batalha Reis, Gazeta de Torres, 5/5/1929)
Cortesia de lugaronde

A par da actividade profissional, nunca descurou o interesse pela cultura portuguesa colaborando em jornais e revistas com crónicas sobre ópera, pintura e literatura. Nesse âmbito participou na comissão executiva do Centenário de Camões e foi delegado da Sociedade de Geografia nas comemorações de Calderón de la Barca.


Em 1882, quando já era professor catedrático de Microscopia e Nosologia Vegetal no Instituto Geral de Agricultura, viu-se finalmente provido na carreira consular, recebendo a nomeação para 1º cônsul em Newcastle, onde estivera Eça de Queirós que, entretanto, passara para a cidade de Bristol.
Jaime Batalha Reis, abandonou a docência e a agronomia, mantendo-se na carreira diplomática perto de 30 anos, até se aposentar em 1921.

Cortesia de vedrografias2

A actividade como cônsul em Inglaterra centrou-se na defesa dos nossos interesses em África, estudando a fundo, para o bom desempenho dessa função, história e geografia. O reconhecimento, a nível oficial, do domínio dessa problemática valeu-lhe a nomeação, como perito, para a Conferência Anti-Esclavagista, que se realizou em Berlim de 1889 a 1891. No âmago desta actividade recebe a notícia do suicídio de Antero de Quental. O texto que escreveu para o In Memoriam do seu amigo:
  • «Anos de Lisboa: algumas lembranças», será uma peça fundamental para a biografia do poeta e um importante testemunho sobre a geração a que pertenceu, enviado de Newcastle quatro dias antes da morte do seu outro amigo Oliveira Martins.

Supomos que foi principalmente graças a este texto e ao que veio a escrever sobre Eça, prefaciando as Prosas Bárbaras, que o nome de Jaime Batalha Reis voltou a ser reconhecido como um dos activos elementos desta Geração.
Depois da Implantação da República, Bernardino Machado chamou-o a Lisboa para participar na remodelação do ministério. É enviado como ministro plenipotenciário a S. Petersburgo, desempenha comissões em Paris e Londres. No final do ano de 1913 é enviado de novo à Rússia como representante de Portugal, sendo apanhado no vórtice da Revolução de 1917 e envolvido nos acontecimentos diplomáticos que então ocorreram. Só em 1818 conseguiu sair por Murmansk.
Aposentou-se em 1821, retirando-se  para Turcifal, afim de se dedicar à sua «filosofia», que no dizer do amigo Viana da Mota se chamaria Explicação do Universo. Seria a filha Beatriz quem, após a sua morte, em 1935, organizou pacientemente o Espólio, oferecendo-o depois à Biblioteca Nacional». In Maria José Marinho, Centro Virtual Camões, Instituto Camões.

Morre aos 88 anos de idade.

Cortesia de purl

Cortesia de Maria José Marinho/Centro Virtual Camões, Instituto Camões/Infopédia/wikipédia/JDACT