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terça-feira, 26 de fevereiro de 2019

Infantas de Portugal. Rainhas em Espanha. Marsilio Cassotti. «A notícia do nascimento do herdeiro deve ter chegado aos ouvidos do papa em finais de 1171, a quem deve ter parecido um desafio às regras…»

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Infanta dona Urraca (1150?-1222?). Filha de Leão; filha de Afonso Henriques de Portugal; mulher do rei Fernando II de Leão; mãe do rei Afonso IX de Leão
«(…) Em Fevereiro, de regresso de Compostela, e sintomaticamente, o rei premiou os bons serviços prestados pelo seu fiel servidor Guido na Cúria romana, sem dúvida o assunto da dispensa dos reis. Tinham passado cinco anos desde o casamento, um tempo extraordinariamente longo, tratando-se de jovens e que tinham como objectivo principal da sua união conceberem um herdeiro. Terá a demora alguma coisa a ver com a consecução da dispensa? Nesse mesmo mês de Fevereiro os reis estão de novo em Leão, fazendo uma doação não menos significativa do que a anterior, se bem que desta vez o destinatário fosse uma ordem militar, que iria fazer história em toda a península. Ao conceder certos privilégios ao magistrum fratrum Cáceres, o primeiro mestre da activa e poderosa Ordem de Santiago, nascida em finais do ano anterior, os reis leoneses pretendiam favorecer o mais importante objectivo a que se tinha dedicado um grupo de cavaleiros cristãos, 1utar contra o infiel em defesa da cruz e amparar a religião, em particular os peregrinos que se deslocavam a Santiago.
Não parece que a já segura gravidez da rainha tenha feito diminuir o ritmo de movimento da corte. Durante os dois primeiros meses, os reis foram a Oviedo, depois a Lugo, e mais tarde desceram a ribeira do Tormes, fazendo as habituais doações a mosteiros e vassalos. Passada a primeira metade de Julho, contudo, a corte pára em Zamota, pois a rainha tinha chegado ao último mês da gravidez. E foi em Zamora que, a 15 de Agosto de 1171, Urraca deu à luz o seu primogénito, pelo que podemos deduzir que em Fevereiro de 1171, quando o rei fez a doação a mestre Guido, seu servidor para as questões pontifícias, a gravidez da rainha andaria pelo terceiro mês. O infante foi baptizado na igreja-mor, perto do alcácer, e recebeu o nome Afonso. Isso favorecia a diplomacia entre as famílias de ambos os cônjuges, pois era esse o nome, tanto do avô paterno, o defunto rei Afonso VII de Castela e Leão, como do materno, o rei Afonso Henriques de Portugal.
Não tinha ainda decorrido um mês sobre o feliz nascimento, quando a corte partiu para Castroverde, na fronteira com Castela, onde os reis leones se encontrariam com a família real castelhana. Partiram rumo a Leáo. Os reis, que desta vez levaram o filho, fizeram novas doações ao mestre da ordem de Santiago e aos cavaleiros da sua nova milícia, que sob a invocação do citado apóstolo prometeram lutar sempre contra os inimigos da Cruz. A notícia do nascimento do herdeiro deve ter chegado aos ouvidos do papa em finais de 1171, a quem deve ter parecido um desafio às regras em matéria matrimonial que estava a tentar impor. Foi então que, provavelmente, decidiu enviar à Península o cardeal Justino, para tentar resolver a questão. O cardeal acabaria por encontrar-se a sós com o rei, como se referiu, em Leão, em Maio de 1172. Se até então os reis não estivessem tranquilos a respeito do tema da dispensa, com a segurança que lhes tinha dado mestre Guido, dificilmente o teriam premiado em Fevereiro do ano anterior, quando se confirmou a notícia da gravidez da rainha.
Quando o rei tomou conhecimento do que o cardeal tinha a dizer-lhe da parte do Papa, terá talvez pensado, pela primeira vez, que não tinha sido correctamente informado pelo cardeal sobre a verdadeira forma de ser de Alexandre III: o primeiro Papa munido de uma completa formação jurídica. Nos seus doze anos de pontificado, tinha dado provas de um carácter resoluto e independente, e não tinha tido dúvidas em defrontar o próprio poder imperial. Inteirado o rei de Leão de que o Papa não parecia estar disposto a conceder a dispensa, como provavelmente lhe teria dito mestre Guido, talvez tivesse visto partir o cardeal Jacinto rumo a Portugal, depois de superada uma breve enfermidade, com uma sensação de alívio momentâneo. O rei lusitano também não podia exercer demasiada pressão neste tema, estando, como estava, dependente de uma resposta positiva do Papa a um assunto mais vital para o seu reino, o reconhecimento de vassalagem». In Marsilio Cassotti, Infantas de Portugal, Rainhas de Espanha, tradução de Francisco Boléo, A Esfera dos Livros, Lisboa, 2012, ISBN 978-989-626-396-6.

Cortesia ELivros/JDACT

Infantas de Portugal. Rainhas em Espanha. Marsilio Cassotti. «Tê-lo-á acompanhado à sua terra de origem e lá terá permanecido até à recuperação do pai? Tê-lo-á feito com o acordo do marido?»

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Infanta dona Urraca (1150?-1222?). Filha de Leão; filha de Afonso Henriques de Portugal; mulher do rei Fernando II de Leão; mãe do rei Afonso IX de Leão
«(…) A 6 de Dezembro, o casal estava de novo em Salamanca. Ali celebraram, pela primeira vez juntos, os rituais da Natividade. Segundo os registos, estariam naquela cidade até 31 de Dezembro de 1165. É inútil tentar procurar nos documentos a notícia que mais poderia interessar, o anúncio da gravidez de Urraca, pois é assunto que as fontes medievais raramente referiam. A rainha estava já em idade de procriar e a qualquer momento podia ser dada a feliz nova. Em Abril de 1166, a vitória do marido sobre uma das jóias da coroa castelhana, Toledo, permitia-lhe, tão legítima como brevemente, intitular-se rainha, dessa cidade. Em 1167, vão de Compostela para Zamora, e dali de novo para Salamanca. Mas não há notícias de um herdeiro. No início de 1168, os esposos visitam de novo Compostela, onde fazem doação de cem maravedis ao mestre Mateus, que se ocupava das obras da catedral, dedicada ao apóstolo. Estavam prestes a cumprir-se os três anos obrigatórios de coabitação que a Igreja exigia aos cônjuges para que se pudesse dar início aos trâmites de anulação no caso de não haver descendência, prática a maioria das vezes solicitada pelos reis, pois quase sempre se considerava que era a mulher a responsável.
Seguramente, esta ausência de um filho, que garantia definitivamente a paz entre os reinos, preocupava Afonso Henriques. Entretanto, o rei de Portugal não tinha ficado de braços cruzados. Desde o ano da boda de Urraca, 1165, até já bem entrado o ano de 1168, Geraldo sem Pavor tinha-se ocupado, por conta do seu rei, da tomada aos muçulmanos de algumas praças da fronteira sul, como Évora, Trujillo e Serpa. Em 1169, dispôs-se a conquistar Badajoz, considerada a mais importante e estratégica, enquanto capital de um reino muçulmano. Geraldo conseguiu entrar em Badajoz no dia 8 de Maio. A notícia chegou rapidamente à corte leonesa. Os sarracenos derrotados pediam auxílio ao marido de Urraca, oferecendo em troca um pacto de vassalagem. O rei de Leão reuniu as suas tropas e partiu para Badajoz, com o objectivo de expulsar os portugueses. Em determinado momento da batalha, para evitar cair em mãos leonesas, que já cantavam vitória, o pai de Urraca fugiu a galope, mas com tão pouca sorte que, ao passar por uma porta da muralha, embateu num ferrolho e ficou ferido numa perna. Foi então feito prisioneiro.
Segundo a maioria dos cronistas leoneses, Afonso Henriques confessou a sua falta perante o genro e ofereceu o seu reino em troca da sua libertação. O marido de Urraca respondeu-lhe que bastava que lhe devolvesse o que era dele, isto é, Badajoz. Os actuais historiadores portugueses não deixam de assinalar a escassez de fontes lusitanas da época a respeito do que então se denominou o infortúnio de Badajoz. Segundo a documentação lusitana de então, o rei Afonso Henriques passou os meses de Setembro a Dezembro seguintes nas termas de Lafões, (actual termas de S. Pedro do Sul??) a recuperar de ferimentos que lhe deixariam sequelas físicas e morais para o resto da vida. Essas fontes referem Urraca, pela primeira vez desde o seu matrimónio com Fernando, como subscritora de documentos assinados pelo pai em Portugal. Tê-lo-á acompanhado à sua terra de origem e lá terá permanecido até à recuperação do pai? Tê-lo-á feito com o acordo do marido?
O amor filial das rainhas medievais não era incompatível com uma mais que realista compreensão dos conflitos, que não só se produziam contra os infiéis como muitas vezes colocavam frente a frente parentes muito chegados. Em duas actas sucessivas elaboradas em 1169, a rainha surge-nos na documentação junto do marido. Mas voltamos a encontrá-la, em Dezembro desse ano, em Ciudad Rodrigo, ao lado de Fernando. Teria ido passar o Natal com ele? A julgar pelas notícias que chegaram ao reino leonês da fronteira sul, o pai de Urraca tinha recuperado rapidamente. É possível que Afonso Henriques não voltasse a ser o mesmo depois do infortúnio, mas com a ajuda de Geraldo sem Pavor tinha voltado a pensar na reconquista de Badajoz, agora em mãos dos almóadas, se bem que como tributários de Leão. Os portugueses, liderados por Geraldo, conseguiram apoderar-se de novo da cidade, mas uma vez mais foi uma posse fugaz, pois o rei leonês voltou a ir em defesa dos muçulmanos. Em troca, o califa enviou-lhe uma série de presentes, entre os quais um valiosíssimo manto púrpura recamado a pedras preciosas. O rei leonês partiu para Ciudad Rodrigo, a caminho de Alcântara. Ali, o casal real voltou a encontrar-se, provavelmente para assistirem juntos às celebrações do Ano Novo. A rainha deu então ao marido um presente mais desejado que o dos infiéis: a notícia de que estava grávida». In Marsilio Cassotti, Infantas de Portugal, Rainhas de Espanha, tradução de Francisco Boléo, A Esfera dos Livros, Lisboa, 2012, ISBN 978-989-626-396-6.

Cortesia ELivros/JDACT

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2019

Infantas de Portugal. Rainhas em Espanha. Marsilio Cassotti. «Sugeriu-se que naquela posição os reis pedem misericórdia a Cristo pelos seus pecados. Poderá considerar-se uma expressão pública de expiação pelo facto de terem casado sem dispensa papal?»

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Infanta dona Urraca (1150?-1222?). Filha de Leão; filha de Afonso Henriques de Portugal; mulher do rei Fernando II de Leão; mãe do rei Afonso IX de Leão
«(…) Fernando II de Leão deu-se então conta de que não estava em condições de combater em duas frentes simultaneamente, por um lado Castela e por outro as terras galegas. O resultado foi concertar um novo encontro com o rei português. A 30 de Abril de 1165, Fernando e Afonso reuniram-se sobre o Lérez na Ponte Velha [actual Pontevedra] e ambos se mostraram dispostos a acordar numa verdadeira e mútua paz entre eles e os seus reinos. É então que a infanta Urraca deixa de ser pela primeira vez apenas um nome nos documentos, e se converte em parte essencial de um facto histórico de importância transcendente, pois por meio da aliança de Pontevedra o pai concerta de forma clara o seu matrimónio com o rei de Leão. A infanta andaria então pelos seus quinze anos, enquanto o seu futuro marido andaria pelos vinte e oito. A descrição que é feita do casal no momento do casamento é um tanto hagiográfica. O rei, forte e guerreiro, excelente cavaleiro, generoso. A rainha, pacífica e piedosa. Mas o tópico não tem necessariamente de ser falso.
Quanto às características do monarca, talvez seja interessante assinalar que Fernando era conhecido pelos chefes muçulmanos por o baboso. Seja como for, não é essa a questão mais importante em relação aos reis, mas outra: por que casaram sem disporem antes da dispensa papal? Devemos recordar que a proibição de contrair matrimónio entre parentes ia na altura até ao sétimo grau, portanto era obrigatório que houvesse uma dispensa papal para que fosse válido. Que razão levou a que essa dispensa não fosse solicitada de antemão? Fica a impressão de que a boda de Urraca foi celebrada com demasiada celeridade, provavelmente devido à necessidade política de ambas as partes, o monarca de Portugal e o de Leão. Conseguir a paz entre os reinos terá parecido a ambos ser mais urgente do que garantir um trâmite que supostamente não apresentaria qualquer dificuldade.
Curiosamente, o tema que poderia ser motivo de discussão entre as partes do matrimónio, o do dote, parece ter-se resolvido sem problemas. O rei outorgava à infanta várias vilas como arras, entre as quais se destacava a de Gema, perto de Zamora, e a citada Castro Toraf. A partir da sua boda com Fernando, e nos seis anos seguintes, os únicos dados certos sobre Urraca são os que se retiram dos registos que têm o seu nome a seguir ao do rei, nos sucessivos actos de doação de bens e privilégios que a coroa ia outorgando a diversos mosteiros, ordens religiosas ou particulares. Segundo esses diplomas, a primeira vila em que se encontra o casal já unido pelo matrimónio é Valdeorras, então chamada Jardim do Poente, onde estavam a 16 de Junho de 1165.
Naquela época, as cortes peninsulares eram sempre itinerantes, e uma rainha tinha de se acostumar a movimentar-se de um local para outro, levando consigo os poucos elementos de comodidade que compunham o seu enxoval. Os limites da cidade de Leão estavam a expandir-se paru lá da robusta e maltratada muralha romana. Como cristã e piedosa rainha que era, segundo a tradição uma das primeiras visitas que terá feito foi ao Hospital de São Marcos, que se dedicava principalmente a dar hospedagem a peregrinos. Sendo assim, terá orado na vizinha igreja de Santo Isidoro, que continha uma forte torre e um antigo e venerável cemitério real, e cujas abóbadas Fernando mandaria mais tarde decorar com frescos. Numa delas, aparecem os monarcas de joelhos, em oração, sob uma cruz, segundo o esquema tradicional utilizado pelos artistas para dar testemunho dos patronos da obra. Na sua execução primitiva, a pintura comove pelo seu realismo. Sugeriu-se que naquela posição os reis pedem misericórdia a Cristo pelos seus pecados. Poderá considerar-se uma expressão pública de expiação pelo facto de terem casado sem dispensa papal?
Durante a ausência do monarca para as bodas, os Lara, linhagem nobiliárquica que detinha então o domínio sobre o rei-menino de Castela, aproveitaram para atacar várias povoações da fronteira leonesa. Devido a isso, Fernando esteve pouco tempo em Leão, e viu-se obrigado a penetrar no reino do sobrinho e assediar Medina del Río Seco. Não se sabe se a rainha o acompanhou nesta missão». In Marsilio Cassotti, Infantas de Portugal, Rainhas de Espanha, tradução de Francisco Boléo, A Esfera dos Livros, Lisboa, 2012, ISBN 978-989-626-396-6.

Cortesia ELivros/JDACT

Infantas de Portugal. Rainhas em Espanha. Marsilio Cassotti. «… chamada palavras de futuro, isto é, os esponsais, era válida a partir dos sete anos; só para a segunda, ou palavras de presente…»

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Infanta dona Urraca (1150?-1222?). Filha de Leão; filha de Afonso Henriques de Portugal; mulher do rei Fernando II de Leão; mãe do rei Afonso IX de Leão
«(…) Em 1143, Afonso Henriques firmara com o agora defunto monarca um acordo, por meio do qual ele o reconhecia como rei de Portugal. Inteirado da sua decisão, fez uma visita ao novo soberano leonês. Segundo os historiadores, o motivo principal foi falar das fronteiras, em especial a galega de Toroño, sobre as quais o monarca português tinha alguma jurisdição. Terá sido então adiantado nessas conversações o nome de Urraca como possível mulher do jovem rei? Fernando acabara de fazer vinte anos, e parece que até ao momento não se falara do seu casamento. Agora convertido em soberano, e numa idade mais do que respeitável para contrair matrimónio, por que não haveria o rei de Portugal de tentar a possibilidade de casar a sua filha primogénita? É certo que na altura Urraca tinha apenas sete anos, mas isso não constituía impedimento da realização de negociações para o seu futuro matrimónio. Segundo as regras da época, o matrimónio católico constava de duas partes; a primeira, chamada palavras de futuro, isto é, os esponsais, era válida a partir dos sete anos; só para a segunda, ou palavras de presente era necessário que a esposa tivesse cumprido doze anos.
Fosse como fosse, poucos meses depois do encontro, ou seja, em Maio de 1158, Fernando reuniu-se em Sahagún com o seu irmão, Sancho, rei de Castela, para tentar acabar com as pretensões reais daquele que viria a ser seu sogro. E ali assinaram um tratado que tornava letra morta os de 1143 de Afonso Henriques com Afonso VII de Castela e Leão, que mencionámos antes. A má nova não tardou a chegar à corte em Coimbra. Contudo, a morte prematura de Sancho de Castela pareceu reduzir o perigo. Os interesses de Fernando II de Leão a respeito de Portugal sofreram necessariamente uma demora, não só porque lhe faltou o seu irmão e principal aliado, mas também porque a instabilidade do reino castelhano, devido a que o novo rei não atingira ainda a maioridade, lhe abria perspectivas de ingerência mais apetecíveis. A conjuntura foi rapidamente aproveitada pelo oportuno monarca português para atacar a parte mais vulnerável da fronteira com o reino leonês, isto é, a Galiza e ocupar a região de Toroño, sobre a qual podia fazer valer certos direitos.
A demonstração de força por parte dos portugueses obrigou Fernando a deixar de momento a meseta castelhana, onde se encontrava, e a dirigir-se para norte. O bispo de Braga, tradicional aliado do rei português, serviu como mediador para que os diplomatas fernandinos começassem a preparar conversações com Afonso Henriques. Essas conversações entre os dois soberanos tiveram lugar em Cabrera, em Novembro de 1158. Escreveu-se que apenas assentaram num diferimento das questões suscitadas e numa delimitação provisória das fronteiras. O rei de Portugal aproveitou a ocasião para iniciar negociações com o conde de Barcelona, ali presente, com a ideia de casar a sua filha Mafalda com o herdeiro do catalão. De qualquer forma, essa aliança só seria selada a 30 de Janeiro de 1160. Afonso Henriques pretendia, com esse matrimónio, garantir o apoio de fora da órbita castelhano-leonesa. A partir de então, Fernando de Leão desencadeou uma reacção aos planos matrimoniais do monarca português, que deu lugar a uma verdadeira estratégia de tensão.
A primeira provocação, leonesa consistiu no repovoamento, em 1161, da então aldeia de Ciudad Rodrigo, situada num ponto estratégico do caminho que ia da leonesa Salamanca à portuguesa Coimbra. Afonso Henriques respondeu tomando Salamanca em l163, onde chegou a contar com a ajuda dos seus habitantes. Mas a posse foi efêmera, ao contrário do que sucedeu com os seus ataques com êxito à região galega, que iriam pressagiar a conquista de Compostela». In Marsilio Cassotti, Infantas de Portugal, Rainhas de Espanha, tradução de Francisco Boléo, A Esfera dos Livros, Lisboa, 2012, ISBN 978-989-626-396-6.

Cortesia ELivros/JDACT

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

Infantas de Portugal. Rainhas em Espanha. Marsilio Cassotti. «Era comum que o primeiro, se fosse varão, ficasse com o nome do avô paterno, e se fosse menina, o da avó. Com o segundo filho ou filha, era semelhante, mas com os nomes dos avós maternos»

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Infanta dona Urraca (1150?-1222?). Filha de Leão; filha de Afonso Henriques de Portugal; mulher do rei Fernando II de Leão; mãe do rei Afonso IX de Leão
«(…) Depois de dona Urraca, nasceram duas meninas, Teresa e Mafalda, depois das quais nasceria, em 1154 o infante Sancho, herdeiro depois da morte do primogénito. Dois filhos posteriores, um varão e uma menina, morreram também na infância. O nascimento da última provocou a morte da rainha, em 1167, quando dona Urraca tinha apenas nove anos. Nessa altura, tinha já morrido o seu irmão mais velho. Se eram bem conhecidas as origens do pai da infanta, que se considerava descender por via colateral de Carlos Magno, pela sua estirpe borgonhesa, não eram tão conhecidas as da rainha, cujo primeiro registo histórico datava de uns cem anos antes do nascimento de dona Urraca. Contudo, em apenas um século, a jovem dinastia de Sabóia conseguira ocupar um importante lugar no tabuleiro dinástico europeu, mercê da posição estratégica de possessões nas passagens alpinas. A mãe de Mafalda de Sabóia era filha de um conde da Borgonha e irmã do papa Calisto II (1119-1124) e, mais importante ainda, de Raimundo, marido da infanta, portanto rainha, Urraca de Castela, irmã da mãe do rei Afonso Henriques, um parentesco peninsular que seguramente favoreceu o matrimónio de Mafalda com o rei de Portugal, e que possivelmente teve influência no nome que foi dado à infanta. Na época em que nasceu dona Urraca Afonso, e durante muito mais séculos, o nome que se dava aos filhos obedecia a critérios muito precisos. Era comum que o primeiro, se fosse varão, ficasse com o nome do avô paterno, e se fosse menina, o da avó. Com o segundo filho ou filha, era semelhante, mas com os nomes dos avós maternos. Neste caso, a menina recebeu o nome de uma irmã do pai, a infanta Urraca, casada com o importante magnata galego, Bermudo Peres de Trava. Várias rainhas de Leão chamavam-se Urraca, desde tempos tão recuados quanto meados do século IX.
Além disso, assim se chamava também uma filha natural que o pai tivera de Elvira Gualter, antes do seu matrimónio com Mafalda. Fossem quais fossem os motivos que levaram os monarcas a darem-lhe esse nome, o facto é que soava ao mesmo tempo muito hispânico e muito régio. Não existe nenhuma documentação sobre os primeiros anos da sua vida. Sabe-se que o seu irmão Sancho teve como aia dona Teresa Afonso, filha natural do seu pai com dona Chamoa Gomes. De qualquer modo, pode atribuir-se a ela o que se escreveu sobre o irmão. Apesar das prováveis ausências da Cúria e da esfera de influência do pai, durante o período do seu crescimento, que tiveram lugar em ambiente rural, não é possível conceber que a infanta não tivesse participado da vida da corte em Coimbra.
É muito provável que o futuro que se apresentava a dona Urraca como filha de rei era converter-se em moeda de troca em futuras alianças dinásticas e políticas. E isso exigia que houvesse uma certa preparação, pois se em princípio as infantas portuguesas não se destinavam a cingir a coroa do seu próprio país, era provável que algum dia pudessem cingir a de outro. Apesar do papel marginal que as rainhas consortes medievais desempenhavam na corte, houve também casos em que algumas delas brilharam com luz própria. Mas isso dependia não só de que tivessem dotes de comando especiais ou uma grande capacidade diplomática, mas também que as circunstâncias políticas propiciassem que pudessem desempenhar uma função de maior importância do que a de apenas proporcionar um herdeiro ao marido. Paradoxalmente, devido ao papel marginal que as mulheres desempenhavam na hierarquia nobiliárquica da época, incapacitadas como estavam de ocupar postos de comando, a educação que era ministrada às meninas era mais refinada do que a ministrada aos varões. A sua formação não se limitava à aprendizagem da leitura, escrita e bordado, incluindo também, nalguns casos, o estudo da língua sagrada, o latim, que dava acesso à cultura da época, bem como algum outro idioma europeu, o que para elas era particularmente fácil, tendo em conta que as mães destas princesas eram em geral estrangeiras.
As poucas informações que há sobre a infanta Urraca coincidem em atribuir-lhe uma autêntica religiosidade cristã, sentimento que seria acrescido a partir de 1157, que teve a sua origem na morte da mãe. Nesse mesmo ano, no mês de Agosto, outro falecimento, agora em Castela, marcaria a sua vida, o de Afonso VII, rei de Castela e Leão, que dividiu o reino, deixando em herança, ao filho mais velho, a coroa de Castela, e ao mais novo, Fernando, com quem dona Urraca acabaria por casar, o de Leão, um reino cuja jurisdição incluía então toda a Galiza, as Astúrias e as cidades de Leão, Astorga, Toro, Zamora e Salamanca, territórios nalguns casos limítrofes com o nascente reino de Portugal, e portanto de interesse vital para ele». In Marsilio Cassotti, Infantas de Portugal, Rainhas de Espanha, tradução de Francisco Boléo, A Esfera dos Livros, Lisboa, 2012, ISBN 978-989-626-396-6.

Cortesia ELivros/JDACT

quinta-feira, 12 de novembro de 2015

Infantas de Portugal. Rainhas em Espanha. Marsilio Cassotti. «O escolhido foi o cardeal Jacinto, grande conhecedor dos assuntos da Península Ibérica, pois vinte anos antes tinha tido ocasião de tratar alguns deles in Hispania, inclusivamente com o pai de dona Urraca»

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Infanta dona Urraca (1150?-1222?). Filha de Leão; filha de Afonso Henriques de Portugal; mulher do rei Fernando II de Leão; mãe do rei Afonso IX de Leão
«(…) Em finais de 1171, o papa Alexandre III tinha em mãos muitos problemas com origem na Península Ibérica. Um deles era o matrimónio, celebrado cinco anos antes, da infanta dona Urraca, filha de Afonso Henriques de Portugal, com o rei Fernando II de Leão. Pouco antes o casal tinha caído em desgraça, do ponto de vista papal, com o nascimento de um filho. Deviam, portanto separar-se. O problema residia em que dona Urraca e Fernando se tinham unido carnalmente, havendo entre eles um parentesco de terceiro grau de consanguinidade, pois desde o Concílio de Elvira, reunido no século IV, a Igreja Católica proibiu os matrimónios de pessoas relacionadas até ao sétimo grau. Mas no entanto, nos cerca de mil anos de relações da Cúria romana com os poderosos deste mundo, o papado tinha-se visto na contingência, em várias ocasiões, e sobretudo por motivos políticos, de condescender com eles e aceitar o facto consumado dessas uniões. À primeira infanta portuguesa que reinou em Espanha, calhou-lhe em sorte o seu matrimónio ter-se realizado durante o papado de um jurista experimentado, um pontífice decidido a fazer aplicar as leis canónicas, inclusivamente aos grandes da terra, em particular o Código de Graciano, que desde trinta anos antes reforçava a proibição sancionada em Elvira.
Não obstante, como o papa era, além de soberano, um homem de religião, disposto a praticar a caridade cristã, decidiu enviar a Leão um dos melhores diplomatas de que a cúria dispunha. A sua missão era resolver o problema da forma mais honrosa para todas as partes. O escolhido foi o cardeal Jacinto, grande conhecedor dos assuntos da Península Ibérica, pois vinte anos antes tinha tido ocasião de tratar alguns deles in Hispania, inclusivamente com o pai de dona Urraca. Porque não só o casal estava unido já há mais de um lustro, o que criara, sob qualquer perspectiva, um vínculo afectivo entre o rei e a rainha, como depois de todo esse tempo de espera acabava de ter um filho. Havia assim um problema acrescido: estabelecer a condição do infante. Seria o filho de dona Urraca, no caso de o seu matrimónio não ser considerado válido, considerado legítimo, conservando assim o direito à sucessão do reino de Leão?
A primeira tomada de posição do cardeal Jacinto para tentar resolver o problema, foi dada a conhecer na cidade de Toro, a 1 de Maio de 1172. Segundo a documentação, a rainha dona Urraca não estava presente, o que é bastante estranho, pois de todos os documentos conservados do reinado do marido até esta data, há poucos em que ela não seja citada, sempre ao lado do marido. Apesar de os textos relativos a este período referirem grandes fomes no reino, com as inerentes enfermidades, não é provável que a sua ausência se deva a elas. De facto, um mês depois daquele encontro, o rei e a rainha, com o seu séquito real, fizeram uma visita ao cardeal nos aposentos que ele ocupava na cidade de Zamora, para onde se transferira a corte, pois era o purpurado que estava mal de saúde. O objecto da visita foi apresentar pessoalmente as saudações reais. Nessa ocasião, o rei doou à Santa Madre Igreja e ao seu querido cardeal Jacinto (tamanha hipocrisia…), o castelo de Castro Toraf, um dos bens concedidos à rainha pelas arras. O motivo aludido no documento da doação era a salvação da sua alma e da de dona Urraca.
Tanto neste documento como no anterior, não se menciona o filho do casal, o infante Afonso, que figurava nos documentos anteriores à chegada do cardeal. Esta ausência chama fortemente a atenção, sobretudo se se analisar com mais atenção o propósito da doação. Seria uma forma, não muito subtil, de tentar abrandar a rigidez papal? Ou um sincero acto de expiação por parte dos monarcas por terem casado sem a dispensa de preceito? Seja como for, segundo a escassa crónica do acontecimento, uma vez recuperada a saúde o cardeal deixou a corte leonesa e dirigiu-se ao encontro do rei de Portugal, pai de dona Urraca. Jacinto era um velho conhecido de Afonso Henriques, ou pelo menos do arcebispo João Peculiar, o activo arcebispo de Braga, braço direito do rei português para questões pontifícias. Afonso Henriques encontrou-se com o cardeal Jacinto em Setembro, em Coimbra, provavelmente no local onde então se situava a residência real, na colina que se eleva a partir da baixa, mais ou menos no local onde hoje está a Universidade. Devem ter sido debatidos dois temas importantes: outorgaria finalmente o pontífice, com o seu selo, o imprimatur definitivo da independência portuguesa, solicitada quase trinta anos antes? Acabaria Alexandre III por conceder a dispensa do matrimónio da filha, tão tardiamente solicitada?
Apesar de Afonso Henriques ter a impressão de que Jacinto podia ser mais flexível do que o papa, sabia que, devido ao interesse do seu reino no respeitante ao primeiro tema, não podia pressionar demasiado o segundo. Tinha, pois, de continuar a ser paciente e a esperar. Se realmente o cardeal considerava a possibilidade de ser condescendente com os desejos do rei português e as necessidades de dona Urraca, seguramente aproveitaria a sua estada em Coimbra para rebuscar informações acerca dela que pudessem favorecer a sua intercessão junto do papa, pois a rainha portuguesa de Leão teria nascido na cidade em que se encontrava agora o purpurado. Dona Urraca era a primeira filha de Afonso Henriques e dona Mafalda de Sabóia. Nasceu provavelmente em 1150. Antes dela, os reis tinham tido um filho varão, que morreu novo». In Marsilio Cassotti, Infantas de Portugal, Rainhas de Espanha, tradução de Francisco Boléo, A Esfera dos Livros, Lisboa, 2012, ISBN 978-989-626-396-6.

Cortesia ELivros/JDACT

Infantas de Portugal. Rainhas em Espanha. Marsilio Cassotti. «… da qual se ignora o local onde estão os seus restos mortais; séculos depois, com os de Joana de Portugal, desventurada mãe da “Excelente Senhora”, perdidos durante uma restruturação do templo onde repousavam»

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«(…) Quando o herdeiro atingia a maioridade, a sorte podia ser generosa para com a sua mãe e permitir-lhe ter um futuro com mais abertas do que nuvens. Mas como, por vezes, quando ele atingia a idade adulta era o pai ainda novo, começava a manifestar desejos de independência, ou, pior ainda, ambições de poder, que colocavam a mãe em graves dificuldades. Se a rainha se colocava claramente ao lado do filho, tinha de preparar-se para enfrentar o marido, ou, pior ainda, o seu valido, sempre disposto a actuar de forma menos escrupulosa do que a que se exige a um monarca. No caso de tentar opor-se abertamente às aspirações do filho, o que era compreensível quando o filho provocava muita perturbação, devia considerar as possíveis consequências quando o marido morresse e ela ficasse viúva, à mercê do novo rei. Na realidade, só com a chega da viuvez se podia ver se uma infanta portuguesa, rainha num país estrangeiro, tinha sabido actuar com inteligência e prudência. Uma rainha-mãe tinha, em teoria, assegurado o respeito do filho, pois de uma forma geral no testamento o monarca costumava ser muito explícito ao exigir-lhe certas obrigações que a sua honra real os fazia respeitar. Contudo, nem todos os reis tiveram tanta honra quanta deveriam ter, nem os filhos mais fiéis e respeitosos estiveram livres, algumas vezes, de outras condicionantes. Quando uma rainha ficava viúva, não era raro o filho estar já casado, pelo que passava então ela a ser sogra. E então tinha de enfrentar problemas opostos aos que tinha enfrentado quando chegara ao reino.
O seu êxito dependia em parte de ter sabido ganhar, com antecedência, o respeito da família do marido e dos membros mais importantes da corte. E houve casos em que uma esposa jovem soube conseguir o apoio quase incondicional do seu apaixonado marido, ou dos parentes dele, ou de certos cortesãos importantes, em desfavor da rainha viúva. Por isso deviam as rainhas, quando tinham filhos, ser muito hábeis na altura de se concertarem as bodas. Participar na escolha das suas futuras noras dava-lhes, em princípio, à possibilidade de a posteriori influir nelas. Quando nascia o primeiro neto, de um modo geral a rainha-mãe começava a considerar a sua saída de cena. Se tivesse sido prudente, e a maioria conseguiu sê-lo, depois de uma vida cheia de incertezas conseguia agora ter alguma segurança nas matérias que considerava mais importantes. Numa época em que a religião tinha uma grande importância, mesmo para os maiores pecadores, as questões relacionadas com a fé representaram para as rainhas consortes um enorme consolo, por isso as disposições religiosas ocupavam um lugar tão importante nos seus testamentos.
Até ao século XIX, isso permitiria às infantas portuguesas que chegaram a rainhas de Espanha dedicarem-se a uma importante tarefa fundacional ou, na falta dela, à de protecção de conventos e igrejas. Os mosteiros que fundaram ou protegeram estavam relacionados, no caso das primeiras infantas, quase sempre com a ordem de Cister, vinculada desde as suas origens à casa de Borgonha, a que elas pertenciam, e depois a outras ordens religiosas, como a dos Jerónimos, muito perto das infantas da dinastia de Avis. Depois de um longo período de esperanças que se não concretizaram, de ilusões perdidas e de traições inesperadas, os seus frágeis ossos eram colocados em esplêndidos edifícios ou monumentos relacionados com essas ordens. Mas também não se podia excluir que uma conjuntura contrária no momento da morte de uma rainha pudesse levar ao desaparecimento do seu sepulcro. No século XIII houve o caso de uma infanta portuguesa, rainha de Leão, da qual se ignora o local onde estão os seus restos mortais. E o mesmo ocorreria, séculos depois, com os de Joana de Portugal, desventurada mãe da Excelente Senhora, perdidos durante uma restruturação do templo onde repousavam. As três infantas portuguesas que se tornaram rainhas de Espanha depois de Joana de Portugal tiveram pelo menos o consolo de o seu nome ficar unido ao de certos artistas, a alguns edifícios de valor ou a instituições de altíssimo nível, Ticiano, Scarlatti, o mosteiro das Salesas Reales de Madrid, o Museu do Prado, o que possibilita que sejam hoje recordadas inclusivamente por pessoas que não se interessam pela monarquia portuguesa ou pela história tout court». In Marsilio Cassotti, Infantas de Portugal, Rainhas de Espanha, tradução de Francisco Boléo, A Esfera dos Livros, Lisboa, 2012, ISBN 978-989-626-396-6.

Cortesia ELivros/JDACT

terça-feira, 19 de maio de 2015

Infantas de Portugal. Rainhas em Espanha. Marsilio Cassotti. «… não eram as mães que se ocupavam da criação dos varões reais, mas pessoas nobres especialmente designadas para essa função. Apesar de a tradição garantir a uma rainha um certo poder de decisão…»

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«(…) Só quando a infanta ficava grávida, e mais precisamente quando dava à luz um filho varão, podia considerar-se que a aliança entre o reino de Portugal e o do marido da infanta tinha tido êxito. Portanto, uma princesa ou rainha consorte estéril ou que não tivesse descendência, não tinha qualquer valor. Isso podia acarretar-lhe graves danos pessoais. No melhor dos casos, ser marginalizada pela corte, e no pior, regresso a Portugal por anulação do vínculo. A Igreja, severa defensora da indissolubilidade do matrimónio em quase todos os casos, admitia essa possibilidade sob certas circunstâncias, depois de três anos de convivência sob o mesmo tecto sem que houvesse descendência. A particularidade de que tanto o reino de Leão como o de Castela tenham aceitado em princípio que uma mulher pudesse ocupar o trono, evitou a várias infantas portuguesas humilhações que outras monarcas consortes de outros reinos europeus sofreram, por terem tido apenas filhas. Mas qualquer soberana, uma vez cumprida a sua primeira obrigação, a de dar um herdeiro ao trono, tinha de revalidar constantemente o poder que essa condição lhe dava, por um lado, dando ao seu marido todos os filhos, e melhor ainda se fossem varões, que lhe fosse possível, prováveis substitutos do primogénito se este morresse, numa época em que, por um lado, a elevada mortalidade afectava os altos estratos sociais quase do mesmo modo que afectaya as outras pessoas, e por outro fazendo assim frente a constantes desafios para que a sua influência não decaísse. Em primeiro lugar, em relação ao rei. Como esposa e primeira súbdita, devia-lhe fidelidade e lealdade. A interessante e pouco conhecida história dos matrimónios de infantas portuguesas com reis hispânicos apresenta um dos raríssimos casos registados em que uma rainha católica foi publicamente infiel ao marido; e pagaria esse deslize com o seu enclausuramento e a ruína da filha, a infeliz Excelente Senhora. Por outro lado, todas as rainhas consortes tinham de aceitar as infidelidades do rei, que quase sempre tinham como resultado, nesses tempos, o nascimento de bastardos. O tratamento por concubina real chegou inclusivamente a estar legislado pelas Partidas (século XIII). Enquanto os filhos ilegítimos do monarca eram pequenos, a rainha consorte estava exposta a lidar com as respectivas mães e com os seus parentes, sobretudo nos casos, que eram habituais, em que a dama em questão pertencia à alta nobreza, e os que a rodeavam se mostravam tão soberbos como ávidos. Quando esses bastardos chegavam à idade adulta, tornavam-se não só uma ameaça constante para a rainha mas também, e principalmente, para os seus filhos. As infantas portuguesas que casaram com reis castelhanos não tiveram de sofrer demasiado com esse problema. Nenhum bastardo real se permitiu humilhar uma rainha vinda do outro lado da raia, se exceptuarmos os filhos ilegítimos da relação estável que Afonso XI de Castela teve com Leonor Gusmão, humilhação que levou a avó da rainha, Isabel de Aragão, a Rainha Santa, a deslocar-se a Castela para pedir ao monarca que se comportasse com correcção em relação à sua neta, sem que no entanto as suas palavras tenham surtido o efeito desejado.
A segunda frente que se abria a uma rainha consorte mal se instalava no seu novo reino, era a família do monarca. O relacionamento da rainha com a mãe do marido nunca foi fácil, e nalguns casos terminou em tragédia. Isso sucedia porque na maioria dos casos as infantas eram jovens e sem experiência, enquanto com a sogra acontecia exactamente o contrário. No melhor dos casos, pelo menos a princípio, as sogras tentavam influir nas noras. E também não eram fáceis as relações das rainhas consortes com os seus cunhados, quer fossem os irmãos do marido quer fossem as mulheres deles. Se uma rainha consorte não conseguisse ter rapidamente um herdeiro, tinha de se preparar para as intrigas cortesãs, que tentavam privilegiar a mulher de um irmão mais novo do rei, que já fosse mãe de um varão. Por mais filhos varões que a rainha desse ao monarca, isso não lhe garantia tranquilidade. Enquanto o herdeiro fosse ainda recém-nascido, porque tinha de negociar com as outras instâncias do poder na corte a que mãos iria ser entregue durante os primeiros anos de vida, já que não eram as mães que se ocupavam da criação dos varões reais, mas pessoas nobres especialmente designadas para essa função. Apesar de a tradição garantir a uma rainha um certo poder de decisão sobre a escolha do encarregado da criatio do seu filho até aos sete anos, nessa escolha desempenhava um importante papel o rei, obviamente, mas também a sogra, os cunhados, os membros das duas ou três famílias de mais alta linhagem do reino e as autoridades eclesiásticas mais importantes. E o mesmo sucedia em relação à escolha de aios e mestres para a educação e instrução, dos sete aos catorze anos». In Marsilio Cassotti, Infantas de Portugal, Rainhas de Espanha, tradução de Francisco Boléo, A Esfera dos Livros, Lisboa, 2012, ISBN 978-989-626-396-6.

Cortesia ELivros/JDACT

sábado, 25 de abril de 2015

Infantas de Portugal. Rainhas em Espanha. Marsilio Cassotti. «… apesar da boa relação com o seu marido e do nascimento de um herdeiro, teve de se separar por do papa. A infanta dona Maria, que ajudou o seu esposo a vencer a batalha do Salado…»

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«(…) Em todos estes casamentos, dada a condição religiosa dos contraentes, desde o início houve uma tentativa de conciliar os interesses políticos das partes com as severas leis vigentes para o matrimónio católico. As três primeiras infantas tiveram de submeter-se à separação matrimonial por ordem do papa, por ter sido infligido no matrimónio o que fora estabelecido pelo Código de Graciano, válido a partir de 1140, que proibia a união entre parentes consanguíneos atá ao sétimo grau. O vínculo preferencial de vassalagem de Portugal à Santa Sé, tinha o seu preço. Devido em parte a esses inconvenientes, a partir do 4.º Concílio de Latrão, em 1215, a Igreja alterou a proibição para o quarto grau de parentesco. Desde então, graças a uma dispensa papal, nem sempre fácil de conseguir, mas que acabou por ser outorgada em todos os casos, nenhuma infanta de Portugal foi obrigada a regressar ao seu reino, humilhada por essa razão. O matrimónio constava de duas partes, os esponsais, ou palavras de futuro, e a boda, ou palavras de presente. Esta última, por meio da qual se ratificava a promessa anterior, só podia realizar-se quando ambos os contraentes tivessem atingido a maioridade, que era de doze anos para as mulheres e catorze para os homens. De um modo geral, esta última parte era a conclusão de demoradas negociações entre as duas famílias interessadas, através de hábeis procuradores, acostumados ao direito canónico e civil, que tinham discutido o tema do dote que o rei português outorgaria ao marido da infanta, e o tema das arras, geralmente ricas vilas (Zamora, Toro), por intermédio das quais se garantia a autonomia económica da infanta, uma vez convertida em soberana consorte e instalada no seu novo reino. Era nesse momento que se cumpriam os trâmites do pedido a Roma para a dispensa papal, que daria legitimidade a uma união matrimonial entre os contraentes que estivessem ligados por laços próximos de parentesco, devido ao facto de os reis de Portugal, Leão e Castela descenderem do mesmo tronco comum, a Casa de Borgonha e de, desde o início da história portuguesa, quase todas as uniões dinásticas se terem produzido dentro dela.
Uma vez concluído o matrimónio por palavras de presente, em muitos casos por meio de outro procurador, tarefa que com o tempo seria exclusivo de um importante membro da nobreza, a infanta de Portugal, convertida em rainha, estava pronta para viajar para o seu novo reino. Ao tornarem-se exclusivas as uniões com Castela, foi-se criando uma tradição, segundo a qual a infanta era conduzida pelos seus familiares até Elvas, acompanhada de um rico cortejo com que se pretendia evidenciar o poderio económico português. Houve reis que chegaram a construir um palácio ao longo do percurso para que a corte lusitana nele pudesse fazer uma paragem de um dia. Uma vez cruzada a fronteira do rio Caia, do outro lado da raia, ou se encontrava com o seu esposo ou com um nobre importante, em sua representação, que a esperava. Com o tempo, essa função passaria a ser quase exclusiva dos duques de Medina Sidónia, ascendentes directos de dona Luísa de Gusmão, mulher de João IV, primeiro rei da dinastia de Bragança. Se era o monarca que ali se encontrava, tinha então lugar uma missa de velações, ou bênçãos nupciais, à qual se costumava seguir um banquete e festas que duravam vários dias. Caso contrário, essas cerimónias realizavam-se na cidade em que o esposo a aguardava, onde era conduzida pelo nobre. Depois da missa de velações, realizava-se o acto sem o qual nenhum matrimónio podia ser considerado completamente válido, a sua consumação. Por vezes, a maioridade cronológica de um dos membros do casal, ou de ambos, não coincidia com a idade biológica, tendo então de se esperar até que se produzisse a primeira menstruação da mulher ou o desenvolvimento sexual do varão para que se desse a união completa». In Marsilio Cassotti, Infantas de Portugal, Rainhas de Espanha, tradução de Francisco Boléo, A Esfera dos Livros, Lisboa, 2012, ISBN 978-989-626-396-6.

Cortesia ELivros/JDACT

sexta-feira, 10 de abril de 2015

Infantas de Portugal. Rainhas em Espanha. Marsilio Cassotti. «Entre 1165 e 1816, onze infantas de Portugal foram rainhas em Espanha. A primeira, a infanta dona Urraca, fila de Afonso Henriques que com o seu casamento contribuiu para a independência de Portugal…»

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Nos reinos da Península Ibérica, durante a Idade Média, na linguagem das chancelarias utilizava-se a palavra infante ou infanta, (infans) para designar os filhos ou filhas legítimos do rei. É neste sentido que se deve entender o título dado a onze das doze mulheres portuguesas que, entre 1165 e 1816, casaram com outros tantos príncipes herdeiros ou reis de outros reinos peninsulares, convertendo-se assim em rainhas de Leão, Castela, Aragão e finalmente de Espanha. Durante esses quase setecentos anos desenrolaram-se em Portugal vários acontecimentos que tiveram uma relação estreita com essas infantas por intermédio dos seus matrimónios, entre eles a fundação dos mosteiros de Lorvão e Arouca, em meados do século XIII, a demarcação da fronteira com Castela, a mais antiga da Europa, fixada pelo Tratado de Alcanises, de 1297, o triunfo na Batalha do Salado, em 1340, a crise que desembocou na invasão castelhana durante a regência de dona Leonor Teles, em finais de 1383, e que conduziu à vitória na Batalha de Aljubarrota, a guerra com Castela empreendida por Afonso V para defender os direitos da sua sobrinha, a Excelente Senhora, no último quartel do século XV, e as tentativas de união com Portugal desejadas por Isabel, a Católica e Filipe II de Espanha, pois as mães de ambos procediam da estirpe real lusitana. Contudo, apesar de esses episódios serem bem conhecidos, não sucede o mesmo com as infantas que em grande medida os originaram.
Foi dar a conhecer esses episódios que nos propusemos com esta obra, traçar perfis históricos dessas mulheres que nos permitam dar-lhes o devido valor na medida que neles participaram, começando pelas suas origens e assinalando os actos mais importantes da sua vida como rainhas consortes. Na sua maioria esses aspectos são pouco valorizados, apesar da grande importância que tiveram em cada momento, quer como presentes de paz quer como possíveis defensoras dos interesses portugueses nos seus reinos de adopção. Em primeiro lugar, haveria que destacar a sua importância como mães do futuro herdeiro, a mais importante função de qualquer infanta que se tornasse soberana, pois só a partir do nascimento de um descendente, melhor ainda se fosse varão, se tornava efectiva a aliança assinada, no caso que nos ocupa, entre o rei de Portugal e o marido da sua filha (sempre e quando o papa não declarasse ilegítimo o matrimónio, como sucedeu nos três primeiros casos). Daí resultava que o primeiro desafio que se apresentava a uma infanta, mal casasse, era demonstrar que era fértil. Ao longo de sete séculos, os motivos de uniões dinásticas entre infantas de Portugal e príncipes ou reis peninsulares iriam variando, mas a sua capacidade de gerarem filhos seria uma conditio sine qua non. Num primeiro período, que inclui os matrimónios das três primeiras infantas, tentava-se consolidar o reino de Portugal, ainda jovem, através dessas alianças, de um modo geral como corolário de um acordo de paz com um reino mais antigo e poderoso, Leão nos dois primeiros casos. Posteriormente tentar-se-ia, com o casamento das infantas, favorecer o alargamento do território, em detrimento dos seus vizinhos e por meio da fixação de fronteiras com Castela. O matrimónio de uma delas com um rei aragonês, verdadeira excepção à regra teria exclusivamente um carácter estratégico defensivo a respeito do reino de Castela.
Uma vez atingidos os objectivos acima mencionados, surgiram novas finalidades para o casamento das infantas de Portugal com reis castelhanos, entre outros, favorecer a unidade das coroas, assunto que as capitulações matrimoniais cuidavam sempre de apresentar de forma ambígua, para não ferir as susceptibilidades dos súbditos de ambos os reinos. Durante o período que coincide com a consolidação da conquista e colonização dos seus respectivos impérios na América, não se realizou nenhuma aliança dinástica. Até então, o último matrimónio de uma infanta portuguesa com um rei espanhol realizara-se em 1525, e que acabou por comprometer a independência de Portugal, com a chegada dos Áustria espanhóis ao trono lusitano. Houve que esperar até 1725 para que se aquietassem os receios mútuos, e que uma infanta portuguesa, pertencente já à dinastia de Bragança, aspirasse tornar-se, por meio de casamento, rainha de Espanha. Depois deste casamento, houve outro, o último, que teve lugar em 1816. Em ambos os casos, entre as principais motivações contava-se fazer face às ameaças que pesavam sobre os respectivos impérios na América». In Marsilio Cassotti, Infantas de Portugal, Rainhas de Espanha, tradução de Francisco Boléo, A Esfera dos Livros, Lisboa, 2012, ISBN 978-989-626-396-6.

Cortesia ELivros/JDACT