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sexta-feira, 20 de dezembro de 2019

Sua Santidade. As Cartas Secretas. Gianluigi Nuzzi. «Chegado a Itália, o juiz solta-o imediatamente, uma vez que, para estes crimes, a legislação não prevê tal pena, como refere Giani ao secretário do Papa»

jdact

Como o Vaticano Vendeu a Alma
«(…) A polícia de Giani trava o homem, informando imediatamente a Residência Papal:

O homem, vulgo Julian Jugarean, nacionalidade romena, de aproximadamente 43 anos, era já conhecido por idênticas iniciativas, justificadas de acordo com o ensinamento que rccebe do Senhor para combater o terrorismo e pela paz no mundo. Afirma ter escrito uma carta ao Papa pretendendo uma resposta imediata, ameaçando lançar-se no vazio. Através da Direcção de Saúde e Higiene pedi a presença de um psicólogo, mesmo que o manifestante, apesar das delirantes afirmações, nunca tenha entrado cm escandecência (após meia hora, prossegue a nota, também intervieram no local o monsenhor
secretário geral da Governadoria, na época, Carlo Maria Viganò e, a meu pedido, um diplomata romeno, presente na cerimónia. Entretanto, os bombeiros desta direcção estavam prontos com equipamento adequado para uma eventual intervenção forçada, enquanto outros bombeiros italianos, avisados por nós, se juntaram imediatamente na praça Pio XII munidos de telas de salto, não utilizadas). Ao mesmo tempo, estava a terminar a cerimónia e o Santo Padre reentrava na Basílica. A este ponto o psicólogo, que sempre conversou e abordou o desconhecido em inglês, avisava-o que, se o seu objectivo fosse o de se exibir, poderia ser considerado um falhanço, dado que o Papa estava para regressar e ninguém deu conta dele. O homem aceitou, lançou na praça uma Bíblia em italiano que tinha consigo, da qual tinha queimado algumas páginas, gesto que intercalava com outras frases e declarações sem sentido, subiu agilmente a balaustrada e chegou ao terraço interior para se entregar voluntariamente. Jugarean, que nunca ofereceu resistência, foi depois acompanhado aos gabinetes deste Comando. Foi fotografado, sujeito a revista pessoal e ouvido (no decorrer do interrogatório, lê se no documento, declarou ser Julian Stelian Jugarean, de nacionalidade romena, nascido em 27 de Dezembro de 1967 (…), sem-abrigo em Roma, com um ponto de permanência debaixo da ponte Sublicio…) De acordo com as suas afirmações, domingo de manhã, por volta das 10h20, foi sozinho ao Vaticano. Entrou na praça do Santo Ofício (maldito) depois de ter sido sujeito ao controlo da Polícia (...), aproveitando um momento propício, subiu agilmente o andaime, alcançando a cúpula. O indivíduo, que se proclama cristão, declarou ser desempregado, não usar drogas ou psicofármacos, e admitiu já ter vindo assistir às audiências gerais do Papa com o mesmo objectivo, mas de nunca ter tido a possibilidade de subir o andaime devido à presença constante da Polícia. Confirmou os motivos da manifestação, acrescentando o seu conflito com os muçulmanos, porque se suicidam, assassinando cristãos.

O romeno foi entregue à Polícia italiana juntamente com os seus objectos pessoais apreendidos, além dos vários relatórios do processo, preenchidos pele Polícia dentro dos muros. Chegado a Itália, o juiz solta-o imediatamente, uma vez que, para estes crimes, a legislação não prevê tal pena, como refere Giani ao secretário do Papa. Contudo, o juiz emprega o tratamento de saúde obrigatório, pata o entregar, posteriormente, ao gabinete de imigração para eventual expulsão». In Gianluigi Nuzzi, Sua Santidade, As Cartas Secretas de Bento XVI, Como o Vaticano Vendeu a Alma, 2012, Bertrand Editora, 2012, ISBN 978-972-252-521-3.

Cortesia de BertrandE/JDACT

quinta-feira, 19 de dezembro de 2019

Sua Santidade. As Cartas Secretas. Gianluigi Nuzzi. «… o mordomo do Papa, Paolo Gabriele, de 43 anos, cristão e católico, cadastro 1impo. Desde 2006 que Gabriel é a sombra do Papa, atento a cada necessidade»

jdact

Como o Vaticano Vendeu a Alma
«Descendo as escadas do avião que o levava até Roma, Ettori Gotti Tedeschi, o presidente do IOR, número um do banco do Papa, próximo da Opus Dei, parou por um momento e virou-se. Inclinou o rosto, levantou o queixo e olhou-me, com os lábios num trejeito de confiança. As suas palavras eram quase imperceptíveis. Vês?, sussurrou, para que os outros não ouvissem, no Vaticano acreditamos de tal forma na transparência que, introduzindo o crime de lavagem de dinheiro, reestruturámos também as antigas celas em desuso debaixo da esquadra. Assim, se alguém for preso, temos também o lugar onde mantê-lo. Gotti fitou-me, satisfeito, convencido de me ter dado um argumento invencível. Na verdade, não se apercebeu de que tinha revelado uma enorme ingenuidade. No Vaticano não há, efectivamente, uma prisão. No caso de capturado e preso, a Polícia deve deter o sujeito, identificá-lo, conduzir a primeira investigação e, em seguida, entregá-lo à Polícia italiana, como previsto nos acordos internacionais. A ideia de reestruturar celas em desuso responde, então, a uma lógica precisa: para crimes económicos odiosos, como a lavagem de dinheiro, parece ser vontade do Vaticano criar condições para manter o suspeito detido, em detrimento de entregá-lo à Justiça italiana. Jamais, poderia assustar alguém com intenções menos próprias, um acusado de lavagem de dinheiro no impenetrável IOR deve confrontar-se com as mil perguntas dos juízes italianos, sempre demasiado curiosos.
Na verdade, ambos errávamos. Depois de algumas semanas, àquelas celas não foi parar nenhum lavador de dinheiro mas sim um dos poucos membros da família papal: o mordomo do Papa, Paolo Gabriele, de 43 anos, cristão e católico, cadastro 1impo. Desde 2006 que Gabriel é a sombra do Papa, atento a cada necessidade, cada suspiro, cada desejo. De manhã à noite, segue-o em todas as deslocações para lhe oferecer ajuda nas actividades diárias: Gabriele serve à mesa, acompanha Bento XVI nas suas viagens pelo mundo, fica no papamóvel, sempre disponível. Foi preso sob a acusação de me passar os documentos inéditos e explosivos que irão encontrar neste livro. Sobre isto não posso dizer nada, obviamente, pela tutela absoluta que o código deontológico dos jornalistas impõe sobre as fontes que contribuem para a investigação e inquérito. Não posso sequer negar que é ele. Se o fizesse, contribuiria na identificação das muitas pessoas que me ajudaram a saber o que está a acontecer para lá da colunata de São Pedro. Não esperava, contudo, que o Vaticano chegasse a prender alguém por suspeita de passar informações aos jornalistas. O Vaticano, de facto, não é um Estado qualquer. No Vaticano não se prende ninguém porque, na pequena comunidade que vive neste microscópico Estado de 44 km2, não se cometem crimes. O que é verdade ou não, pouco importa: importe que, ali, as celas são desnecessárias e, caso suceda o contrário, pode sempre recorrer-se ao sistema de justiça italiano, a quem confiamos os criminosos. Isto, pelo menos, até recentemente, uma vez que nem sequer existiam as celas para a detenção.
Às únicas excepções são os pequenos roubos nos museus e, no caso de excêntricos, os arruaceiros que procuram a atenção da Comunicação Sociai, aproveitando os holofotes sempre ligados na Praça de S. Pedro para protestos de todos os tipos. Em casos especiais, activa-se a máquina de segurança para evitar qualquer contacto com o Papa, após o que o director dos serviços de segurança, Domenico Giani, elabora um relatório, que é entregue ao secretário do Papa. Exemplo disso deu-se há alguns meses, a 25 de Outubro de 2011, quando, durante a celebração eucarística presidida pelo Papa Bento XVI, no pátio da Praça de S. Pedro, um estranho escalou os andaimes por trás da colunata direita ao lado da loja da Dante, ameaçando matar-se. É um caso bastante específico». In Gianluigi Nuzzi, Sua Santidade, As Cartas Secretas de Bento XVI, Como o Vaticano Vendeu a Alma, 2012, Bertrand Editora, 2012, ISBN 978-972-252-521-3.

Cortesia de BertrandE/JDACT