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sábado, 31 de março de 2018

A Dor no 31. A Mulher do Vaso de Alabastro. Margaret Starbird. «Ele aproximou-se com Yoshua e disse-lhe o nome da irmã. Mas não foi preciso apresentá-los: quando se olharam pela primeira vez, ela percebeu que ele já a conhecia»

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«(…) Sem dizer mais nenhuma palavra, ela olhou fixamente para o jardim, sentindo um perfume de visco e lírios, a poeira no ar. Estou deixando a minha casa, pensou. Talvez para sempre. Meu irmão e minha irmã, a casa onde cresci, o jardim onde brincávamos. O jardim onde, pela primeira vez, encontrei o meu Senhor. Nosso jardim reservado. Ela fez uma pausa, perdida nas lembranças. Levando Miriam pela mão, Yosef caminhou lentamente até ao portão da casa. A areia fria da pequena passagem pressionava os pés, pois as sandálias abertas não eram capazes de protegê-las. Ele ajudou a viúva do amigo a montar no jumento e desamarrou-o. Andando devagar, o cajado na mão, ele conduziu o animal, levando-o para longe da vila. De vez em quando, olhava para Miriam. Ela parecia mergulhada no seu mundo interior e não percebia mais a presença do homem que a acompanhava. Ele seguia ao lado dela em silenciosa comunhão, conduzindo-a pela estrada sinuosa distante da casa onde ela vivera a infância, afastando-se de Betânia e do Monte das Oliveiras, mergulhando no deserto, no caminho iluminado pela luz da lua. Ela podia sentir o cheiro e o gosto da areia que, transportada pelo vento do deserto, se lançava contra o seu corpo. Os lábios entreabertos, os olhos queimando. Miriam mantinha-os quase fechados para protegê-los do sol ardente e da areia que esfolava. Enrolou-se mais no manto, formando um casulo de lã branca que a protegia da hostilidade da natureza. Yosef caminhava ao seu lado em silêncio, perdido nos seus próprios pensamentos. De vez em quando, ele procurava saber se ela estava muito cansada, incomodada com a aridez que os envolvia, zelava pelo seu conforto, embora ciente de que precisavam seguir em frente e sem demora.
Sentada no jumento, Miriam balançava suavemente de um lado para o outro, e os pensamentos tornavam-se difusos, como acontecera tantas vezes nos últimos dias. Os devaneios não se deixavam perturbar por distracções exteriores, uma vez que a paisagem era sempre igual. Lembrou-se de quando conheceu Yoshua. Ela estava sozinha no banco do jardim da sua casa, em Betânia. O seu irmão Lázaro levou Yoshua até ao jardim, e os dois caminharam um pouco na sombra fria, falando em voz baixa, sem perceberem a presença dela. Miriam já ouvira falar daquele homem, quem não ouvira? Ele era aclamado por toda a Judeia. Ela sabia o quanto seu irmão o admirava. Agora, vendo-o de perto, também se sentiu atraída. Era um homem mais alto do que a média, de feições magras e alongadas e lindas mãos. O cabelo e a barba estavam cuidadosamente aparados, os olhos eram escuros e intensos. Mas a característica que mais a impressionava era a segurança tranquila, um ar de autoridade e integridade que lhe realçava a estatura.
Então, Lázaro descobriu-a, silenciosa, sob a amendoeira. Ele aproximou-se com Yoshua e disse-lhe o nome da irmã. Mas não foi preciso apresentá-los: quando se olharam pela primeira vez, ela percebeu que ele já a conhecia. Ele sorriu: Shalom. A paz esteja convosco, ela respondeu àquele cumprimento ancestral. O olhar que ele lhe lançou fez sentir-se linda. Podia perceber isso nos olhos dele. E, naquele instante, Miriam soube que amaria para sempre Yoshua, o amigo de seu irmão. Confusa, ela desviou o olhar para o chão e corou, deixando as longas tranças negras cobrirem o seu rosto. Vou pedir à Marta que prepare uma bebida para refrescá-los, murmurou ela. E saiu correndo do jardim, quase tropeçando de tanta pressa. Vários meses depois, eles se casaram. Um sorriso veio aos seus lábios quando se lembrou de como ficara surpresa ao ouvir de Lázaro que ele havia aceitado o forasteiro da Galileia como cunhado. Herdeira das terras que faziam fronteira com Jerusalém, ela seria a mulher de Yoshua de Nazaré, descendente do rei David.
O casamento teve importância dinástica, unindo as famílias de dois grandes amigos: David, filho de Jessé, e Jónatas, filho de Saul. A história da amizade entre os dois era contada havia vários séculos nas casas dos judeus. Como Lázaro explicara à irmã, o casamento dela com Yoshua também envolvia questões políticas. Mas era, acima de tudo, a realização de uma profecia. Lázaro e seus amigos zelotes membros da seita e do partido político judaico Zelote, uma facção fundamentalista, estavam convictos de que os tetrarcas herodianos que colaboraram com os romanos haviam usurpado o trono de David. Estavam convencidos, ainda, de que Deus enviaria um Messias davídico que libertaria a nação da tirania de Roma, dando início à era de paz e prosperidade prometida pelos profetas. O forasteiro da Galileia tinha a genealogia correcta. E não era, também, um fazedor de milagres e prodígios, curando doentes e exorcizando demónios? Ele era, claramente, uma escolha de Deus. Agora, deveria optar por uma noiva na tribo de Benjamim, pois estava escrito no primeiro livro da Tora que o cálice de prata encontrava-se escondido na saca de Benjamim. De acordo com os seus inspiradores mestres, isso queria dizer que uma mulher da tribo de Benjamim seria o instrumento para a reconciliação e o restabelecimento de Israel. Nada disso tinha importância para Miriam. Os mais velhos podiam apresentar os motivos que quisessem para a decisão que tomaram. Mas não eram capazes de ouvir o sangue cantarolando nas suas veias, não tinham como escutar a música silenciosa do seu coração: não faz diferença por que ele me escolheu, o importante é que fui a escolhida!» In Margaret Starbird, Maria Madalena e o Santo Graal, Mulher do Vaso de Alabastro, Quetzal Editores, colecção Referências, ISBN 978-972-564-624-3.

Cortesia deSextante/QuetzalE/JDACT

Religião no 31. A Mulher do Vaso de Alabastro. Margaret Starbird. «Vamos partir agora, disse ele, suavemente. Deixei os jumentos amarrados no portão. Falei com Lázaro e Marta. Vamos mandar buscá-los quando o perigo cessar»

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«(…) Shalom, Miriam. Sou eu, Yosef. A figura esguia à frente de Yosef relaxou visivelmente ao ouvir aquela voz familiar. Oh, Yosef, a sua voz ficou embargada. Ele a olhou intensamente, com enorme compaixão. Ela estava pálida e emocionada, mergulhada em imensa dor. Ele ergueu a mão, um gesto involuntário para transpor a escuridão perfumada que os separava naquele jardim à luz da lua. Yosef, sussurrou ela, não sei se vou conseguir suportar. Ele tentou prevenir-me, e eu pensei que havia entendido. Ela tremia. O seu corpo estremecia na escuridão. Yosef tomou-a pelos ombros e segurou-a com firmeza. Ele não havia percebido a profundidade da sua própria dor até aquele momento. O cabelo longo e escuro da moça reflectia a luz da lua, as lágrimas faziam os seus olhos brilharem. Miriam, disse ele, suavemente. Mas parou de falar, hesitante. Será que ela já não estaria angustiada demais? Mas ele prometera ao amigo que a protegeria. E só havia uma maneira de fazê-lo: precisavam sair dali imediatamente, aproveitando a escuridão da noite. Ninguém poderia prever quando as autoridades apareceriam para buscá-la. Miriam, eu recebi um aviso. Temos que sair de Jerusalém esta noite. Não é seguro continuar aqui. Pilatos e Herodes Antipas podem estar à sua procura. Ela virou-se de costas para Yosef, os olhos perdidos na escuridão. Lentamente, voltou-se de novo para ele.
Acha mesmo que preciso fugir?, a sua voz era quase inaudível. Ele hesitou. Precisa, sim, Miriam. É a única maneira. Prometi a Yoshua que a protegeria com a minha vida. Não há outra escolha. Ela fez um gesto, demonstrando compreender. Está certo, Yosef. Eu sei. Ele leu para mim as palavras de Miquéias, o profeta. Eu compreendo. É por causa da promessa. Vou fazer como me pediu. Mas o que faremos com Marta e Lázaro? Yosef balançou a cabeça. Eu não lhes contei para onde iremos. Disse apenas que vou escondê-la na cidade. Até que o perigo acabe, ninguém deve saber que vamos partir. Por enquanto, Marta e Lázaro ficarão aqui. Eles dirão que está doente, para que não sintam a sua falta. Mais tarde, mandaremos buscá-los. Yosef havia planeado tudo: viajariam como pai e filha, evitando ao máximo atrair a atenção. Ninguém deveria saber qual era a identidade da jovem que o acompanhava. As autoridades pensavam que eles tentariam fugir pelo mar, por isso os portos seriam os locais mais perigosos. Em vez disso, preferiu seguir com ela por terra, atravessando o deserto. Ele havia separado alguns artigos de primeira necessidade para a jornada, mas dependeriam de amigos para ajudá-los até que chegassem ao destino planeado. Fugiriam para o Egipto, para Alexandria.
Ele sorriu, um sorriso abatido. A juventude e a beleza de Miriam eram tão cativantes... A Magdal-eder, a fortaleza da filha de Sião, a torre do rebanho. Ela precisava partir, aventurar-se pelos campos, viver no exílio. Exactamente como o profeta Miquéias prenunciara. Mas, por meio dela; a soberania seria devolvida a Sião. Mais uma vez, ele se sentiu maravilhado ao se lembrar do amigo que lhes mostrou os versículos da profecia de Miquéias, falando do exílio, do retorno e do restabelecimento da casa real de David. Ele, Yosef de Arimateia, recebera a responsabilidade de zelar pela segurança de Miriam. E não decepcionaria o amigo.
Vamos partir agora, disse ele, suavemente. Deixei os jumentos amarrados no portão. Falei com Lázaro e Marta. Vamos mandar buscá-los quando o perigo cessar. Prometo. Ela sabia que o amigo estava certo. Ficara o dia inteiro pensando que seria preciso fugir do ódio e da inveja de Herodes Antipas, tão inseguro do próprio trono ao ponto de não tolerar nenhum rival. E dos romanos também. Eles temiam uma insurreição da nação judaica. O ódio dos judeus pelas forças romanas de ocupação era intenso. E seu amor e entusiasmo pelo Filho de David, que fora tão brutalmente executado, poderia iniciar uma revolução a qualquer momento. Era melhor que fugisse, para que os rumores sobre o desaparecimento do corpo não gerassem um confronto suicida do povo contra o poder das legiões romanas. Mesmo sendo ainda tão jovem, ela sabia disso. O seu marido lhe havia explicado tudo, segurando-a gentilmente enquanto ela derramava lágrimas no aconchego dos seus ombros. Ele tentou confortá-la; e, pelo bem do homem a quem amava, ela tentara ser corajosa. Mas não conseguiu e pôde ver nos olhos dele toda a angústia que sentia pelo destino da mulher. Estou pronta, Yosef. Vamos partir». In Margaret Starbird, Maria Madalena e o Santo Graal, Mulher do Vaso de Alabastro, Quetzal Editores, colecção Referências, ISBN 978-972-564-624-3.

Cortesia deSextante/QuetzalE/JDACT

No 31. Páscoa. A Mulher do Vaso de Alabastro. Margaret Starbird. «Também são muito significativas as numerosas aparições recentes da Virgem Maria, a única imagem de deusa permitida pela cristandade»

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«(…) Existem várias possibilidades sobre a heresia do casamento de Jesus. Talvez ela seja autêntica e tenha sobrevivido porque os que a defendiam não apenas acreditavam nela como sabiam que era verdadeira (por exemplo, por meio de provas como o célebre tesouro dos templários: sob a forma de documentos ou artefactos genuínos). Ou talvez ela tenha sido disseminada na tentativa de devolver o princípio do feminino perdido ao dogma cristão, que estava claramente desequilibrado em favor do masculino. Essa restauração do equilíbrio dos opostos, base da filosofia clássica, pode ter sido considerada necessária para o bem-estar da civilização. O culto do feminino floresceu em Provença no século XII. Tentativas confluentes dos cabalistas judeus de resgatar a Senhora Matronit como a esposa perdida de Jeová, na mitologia judaica, comprovam o facto de que esse resgate do feminino era visto como importante, ou mesmo vital. Um movimento semelhante acontece hoje no mundo ocidental, revelando-se em estudos junguianos na área da psicologia, nos conceitos asiáticos do yin/yang e na consciência da deusa. Também são muito significativas as numerosas aparições recentes da Virgem Maria, a única imagem de deusa permitida pela cristandade. E as suas imagens têm sido vistas derramando lágrimas em igrejas cristãs por todo o mundo. Esses fenómenos vêm ganhando destaque na comunicação social nos últimos nos. Até as pedras choram! O feminino desprezado e esquecido está suplicando para ser reconhecido e abraçado por nossa era moderna.
A perda do feminino teve um impacto desastroso na nossa cultura. Masculino e feminino estão profundamente feridos neste início do terceiro milénio. As dádivas do feminino não foram aceitas ou apreciadas por completo. Enquanto isso, o masculino, frustrado pela incapacidade de harmonizar as suas energias com um feminino bem desenvolvido, continua a liderar o mundo empunhando a espada, brandindo armas irresponsavelmente, atacando com violência e destruição.
No mundo antigo, o equilíbrio entre as energias opostas era compreendido e respeitado. Mas, no mundo moderno, as atitudes e os atributos masculinos têm dominado. A adoração do poder e da glória do princípio masculino/solar está a poucos passos da adoração do filho: um culto que, com frequência, produz um homem mimado e imaturo- zangado, frustrado, entediado e, muitas vezes, perigoso. Sem poder integrar-se à sua outra metade, o masculino se exaure. O resultado final do princípio feminino desvalorizado não é apenas a poluição ambiental, o hedonismo ou a criminalidade desenfreada. O resultado fundamental é o holocausto. Este livro é uma exploração da heresia do Santo Graal e um argumento a favor do resgate da mulher de Jesus, com base em importantes provas circunstanciais. É também uma busca do significado da Noiva Perdida na psique humana, na esperança de que seu retorno ao nosso paradigma de completude possa nos ajudar a restaurar a terra infértil. Aqui, registei os resultados da minha busca pessoal pela Noiva Perdida na história cristã. Procurei explicar de que modo ela foi esquecida e como esse facto tem sido devastador para a civilização ocidental.
Tentei, ainda, visualizar o que aconteceria se conseguíssemos restituí-la ao paradigma. Os anos que passei pesquisando acarretaram consequências. Levei o assunto a sério. Doutrinas nas quais acreditei pela fé tiveram que ser arrancadas e descartadas para que novas crenças fossem plantadas e cuidadas até formarem raízes. Toda a estrutura da Igreja Católica da minha infância precisou ser desmontada para deixar à mostra a perigosa falha existente em suas fundações, permitindo que um novo sistema de crenças pudesse ser cuidadosamente reconstruído quando a fissura tivesse se fechado. Esse processo durou muitos anos. Em algum momento, desisti de ser apologista da doutrina e embarquei na busca pela verdade. Estou dolorosamente consciente de que minhas conclusões não são ortodoxas, mas isso não significa que não sejam verdadeiras. Muitas pessoas estão se tornando cada vez mais conscientes do abismo que separa as descobertas dos modernos estudiosos da Bíblia da versão de cristandade ensinada nos púlpitos das igrejas.

Miriam do Jardim
Ela sentiu um calafrio ao enrolar-se no manto e cobrir o corpo delgado. O tempo estava frio. O sol flamejante já se havia escondido além do muro do jardim, atrás do Templo do Monte Sião. As fragrâncias no ar a acalentavam, suavizando seus nervos retesados, enquanto permanecia sentada no banco de pedra sob a amendoeira. O brilho prateado do luar lançava sombras na passagem que levava até ao portão. Ela esfregou os dedos dos pés na areia macia, formando pequeninos montes de terra seca. Um leve barulho de passos assustou-a. Tentou distinguir de quem era o vulto cujo rosto estava na sombra e que tinha o corpo coberto por um manto escuro. O homem a observou em silêncio por alguns instantes. Como um passarinho. Tão vulnerável, pensou ele. O homem falou num sussurro, tentando não assustá-la». In Margaret Starbird, Maria Madalena e o Santo Graal, Mulher do Vaso de Alabastro, Quetzal Editores, colecção Referências, ISBN 978-972-564-624-3.

Cortesia deSextante/QuetzalE/JDACT

sábado, 16 de abril de 2016

O Santo Graal e a Linhagem Sagrada. Michael Baigent. Eichard Leigh. Henry Lincoln. «Em lugar de uma fé aceite em segunda mão, os cátaros insistiam no conhecimento directo e pessoal, numa experiência religiosa ou mística apreendida em primeira mão. Esta experiência chamava-se “gnosis”»

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A Cruzada Albigense
«(…) Os hereges em questão pertenciam a uma multidão de seitas diversas, muitas sob a direcção de um líder independente, cujo nome os seus seguidores assumiam. E, embora estas seitas pudessem ter certos princípios comuns, divergiam radicalmente nos detalhes. Além do mais, muita da informação provêm de que dispomos sobre os hereges deriva de fontes eclesiásticas, tais como documentos da Inquisição (maldita). Criar um quadro a partir de tais fontes é como tentar compreender a Resistência Francesa a partir dos registos da SS e da Gestapo. Assim, é virtualmente impossível apresentar um resumo coerente e definitivo do que realmente constituiu o pensamento cátaro. Em geral, os cátaros acreditavam numa doutrina de reencarnação e no reconhecimento de um princípio feminino de religião. Na verdade, os pregadores e professores das congregações cátaras, conhecidos como parfaits perfeitos, eram de ambos os sexos. Ao mesmo tempo, rejeitavam a Igreja Católica ortodoxa e negavam a validade das hierarquias clericais, ou de intercessores oficiais e ordenados entre Deus e o Homem. No centro desta posição, reside um princípio importante: o repúdio da fé, pelo menos da forma como a insistia nela.
Em lugar de uma fé aceite em segunda mão, os cátaros insistiam no conhecimento directo e pessoal, numa experiência religiosa ou mística apreendida em primeira mão. Esta experiência chamava-se gnosis, termo grego para conhecimento, e para os cátaros, tinha precedência sobre todos os credos e dogmas. Uma vez que era colocada uma ênfase tão grande no contato pessoal e directo com Deus, os padres, bispos e outras autoridades eclesiásticas tornavam-se supérfluas. Os cátaros eram também dualistas. Todo o pensamento cristão podia, certamente, ser visto como dualista, pois insistia no conflito entre dois princípios oponentes: bem e mal, espírito e carne, alto e baixo. Mas os cátaros levavam a dicotomia muito além do que o catolicismo ortodoxo estava preparado para aceitar. Para os cátaros, os homens eram as espadas com as quais os espíritos lutavam, sem que ninguém visse as suas mãos. Para eles, estava a ser travada uma guerra perpétua, ao longo de toda a criação, entre dois princípios irreconciliáveis, luz e escuridão, espírito e matéria, bem e mal. O catolicismo posicionava um Deus supremo cujo adversário, o diabo, é em última análise inferior a Ele. Os cátaros, contudo, proclamavam a existência, não de um Deus, mas de dois, com um estatuto mais ou menos comparáveis. Um destes deuses, o bom, era inteiramente desencarnado, um ser ou princípio de puro espírito, não maculado pela matéria. Era o deus do amor. Mas o amor era considerado completamente incompatível com o poder; e a criação material era uma manifestação de poder. Assim, para os cátaros, a criação material, o mundo em si próprio, era intrinsecamente perversa. Toda a matéria era intrinsecamente perversa. O universo, em suma, era obra de um deus usurpador, o deus do mal, ou, como os cátaros o chamavam, Rex Mundi, Rei do Mundo.
O catolicismo repousava no que podia ser chamado um dualismo ético. O mal, embora saído talvez do diabo, manifesta-se primariamente através do homem e de suas acções. Em contraste, os cátaros viam a realidade totalmente impregnada de uma forma de dualismo cosmológico. Esta era, para eles, uma premissa básica, mas a resposta variava de seita para seita. Segundo alguns cátaros, a finalidade da vida do homem na Terra era o de transcender a matéria, renunciar para sempre a qualquer coisa relacionada com o princípio do poder, conseguindo assim uma união com o princípio do amor. Segundo outros, o propósito do homem era reclamar e recuperar a matéria, espiritualizá-la e transformá-la. É importante notar a ausência de qualquer dogma, doutrina ou teologia fixas. Tal como na maioria dos desvios à ortodoxia estabelecida, há apenas algumas certas atitudes definidas de maneira vaga, e as obrigações morais subordinadas a estas atitudes estavam sujeitas a uma interpretação individual». In Michael Baigent, Eichard Leigh, Henry Lincoln, The Holly Blood and The Holy Grail, 1982, O Sangue de Cristo e o Santo Graal, tradução de Elsa Vieira, Editora Livros do Brasil, Colecção o Despertar dos Mágicos, Lisboa, 2004, ISBN 972-382-651-8.

Cortesia L Brasil/JDACT

domingo, 27 de dezembro de 2015

Textos Críticos. Para a Ficção. Maria Madalena das páginas da Bíblia. Organização de Salma Ferraz. «… resumiríamos desta forma: Madalena foi a mulher que amou Jesus. Ela foi a mulher que amou o Amor. Pensar em Madalena é sentir o perfume da eternidade…»

Cortesia de Vera Sabino e jdact

Maria Magdalena. A anti-odisseia da discípula amada
«(…) Nunca se escreveu e se falou tanto de Madalena como agora. Citamos alguns livros, a título de exemplo e para consulta do leitor: O Outro Pedro e a outra Madalena segundo os Apócrifos, de Jacinto Freitas Faria; Maria Madalena, a mulher que amou Jesus, de Margaret George; O romance de Maria Madalena, uma mulher incomparável, de Jean-Yves Leloup; Evangelhos Gnósticos, de Márcia Maia; O Enigma Maria Madalena, de Messadié; Arqueologia de Madalena, de Fernanda Moro; Maria Magdalena, la diosa prohibida del Cristianismo, de Lymm Picknett; Maria Madalena, de personagem do Evangelho a mito de pecadora redimida, de Lilia Sebastiani; Maria Madalena e o Santo Graal, de Margaret Starbird; Apócrifos, os Proscritos da Bíblia, de Maria Helena Tricca; O legado de Madalena: Conspiração da Linhagem de Jesus e Maria, revelações sobre o Código Da Vinci, de Laurence Gardner etc.
Na ficção, destacamos o best seller de Dan Brown, O Código Da Vinci (2003), posteriormente adaptado para o cinema em 2006, e o Evangelho Segundo Jesus Cristo, de José Saramago (1992). No seu livro, Dan Brown constrói um enredo (mistura de suspense com tintas de romance policial, misturado com pitadas de um belo conto de fadas, tendo ingredientes arthurianos como príncipe, princesa, fuga, sangue real, conspiração, protectores da linguagem sagrada, cálice sagrado etc). O autor americano invade as alcovas da Galileia e retrata Madalena como esposa de Jesus. Revela que o verdadeiro Graal não era o cálice perdido em que Jesus teria bebido na sua última ceia e que daria a imortalidade para quem o achasse, mas sim a descendência real de Jesus e Madalena. Esta descendência viveria actualmente na França. O livro causou muita polémica e, no mesmo ano em que foi publicado, foram escritos mais de 20 livros defendendo e/ou acusando o autor daquele de ter cometido certas inverdades e muitas heresias. Já que estamos bem longe do tempo das fogueiras, cabe aqui outra perturbadora pergunta: Se Jesus tivesse sido casado, a história do Cristianismo teria sido outra? Particularmente cremos que não, mas certamente a história das mulheres no Ocidente teria sido outra. No Evangelho Segundo Jesus Cristo (1992), de José Saramago, cuja publicação é bem anterior ao Código Da Vinci, o Nobel de Literatura Portuguesa concebe um novo perfil de Madalena. Também houve em Portugal muita polémica em torno do lançamento do romance de Saramago, já que, no enredo, entre outras heresias, o autor português retrata Jesus e Madalena como amantes. No romance de Saramago, Madalena é a discípula amada que intervém no sagrado, impedindo, inclusive, a ressurreição de Lázaro: [...] mas é neste instante, em verdade último e verdadeiro, que Maria de Magdala põe uma mão no ombro de Jesus e diz, ninguém na vida teve tantos pecados que mereça morrer duas vezes, então Jesus deixou cair os braços e saiu para chorar.
Segundo este romance, Jesus, ao ouvir esta frase, sai triste e não realiza o seu milagre mais conhecido. Ela é a grande mulher do evangelho profano e de toda a obra de Saramago. Madalena é transformada pelo autor português na discípula amada, amiga do nazareno, beata enamorada, mas, principalmente, na mulher que evita que Jesus recuse a cruz. A sua importância na vida de Jesus é tão grande que Jesus prefere ser chamado de Jesus de Magdala e não Jesus de Belém, ou Jesus de Nazaré. O que muitos desses críticos não entenderam era que tanto Saramago como Dan Brown não estavam fazendo Teologia e, sim, Literatura. Não poderíamos deixar de citar aqui o excelente conto da escritora belga/francesa Marguerite Yourcenar, Maria Madalena ou a Salvação, publicado em Paris, em 1936, no livro intitulado Fogos. Neste conto, a escritora explora de forma magnífica outra lenda do Cristianismo: o casamento de Madalena com o discípulo amado, João.
A Teologia precisa resgatar a dimensão apostólica de Madalena, uma vez que os evangelistas, homens e inseridos em uma cultura patriarcal, mesmo atestando os factos referentes à vida dela, procuram minimizar o papel de Madalena na vida de Jesus e no cristianismo nascente. Apesar desse equívoco em que a dimensão de pecadora e penitente superou a dimensão de Apóstola, ela se tornou uma das mulheres mais populares e queridas no mundo cristão. Uma das provas é a quantidade de mulheres que receberam o nome de Madalena. Há necessidade de restituir à Madalena a dimensão de discípula e Apóstola para corrigir certos equívocos cometidos. E a Literatura, como pode colaborar para o resgate de uma personagem evangélica que já faz parte da cultura ocidental? Embora não tenha compromisso com a verdade, a Literatura já colaborou e está colaborando ao trazer à luz obras ficcionais em que outras possibilidades de interpretação dessa mulher são oferecidas, longe do dogma, longe da ortodoxia, longe de heresia, longe das fogueiras. Certamente, depois do surgimento dos diversos romances sobre Madalena, muitas obras de historiadores e teólogos sobre Maria Madalena serão reeditadas. Talvez a transformação de Madalena, de discípula em prostituta, se deva ao facto de que a sua liderança era temida. Talvez o grande pecado de Madalena, a magnífica, foi o de saber demais. Este saber foi a sua perdição e a sua condenação! Como definir Madalena, como resumir esta intrigante mulher, cuja memória carregou o estigma de Caim durante séculos? É Fernanda Moro que afirma que pensar em Madalena é pensar no amor. No amor integral, integrado, construtivo, absorvente. Se pudéssemos resumir a trajectória da mulher mais enigmática do Novo Testamento, resumiríamos desta forma: Madalena foi a mulher que amou Jesus. Ela foi a mulher que amou o Amor. Pensar em Madalena é sentir o perfume da eternidade. Porque não há coisa encoberta que não haja de manifestar-se». In Salma Ferraz, organização, Maria Madalena das páginas da Bíblia para a Ficção, Textos Críticos, Eduem, UEM, Maringá, Brasil, 2011, ISBN 978-85-7628-334-8
                                                                                                      
Cortesia de Eduem/JDACT

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

Para a Ficção. Textos Críticos. Maria Madalena das páginas da Bíblia. Organização de Salma Ferraz. «O Concílio de Niceia, realizado em 325 d.C., foi um dos mais complexos debates teológicos da história do Cristianismo. Neste Concílio, foi realizada a separação dos Evangelhos Canónicos e dos Evangelhos Apócrifos»

Cortesia de wikipedia e jdact

Maria Magdalena. A anti-odisseia da discípula amada
«(…) E qual é a face de Madalena nos Evangelhos Apócrifos, do grego apókriphos? E nos Evangelhos Gnósticos? Lembramos que o significado do termo apócrifo com o tempo foi-se modificando: de secreto passou a significar autenticidade duvidosa, e, posteriormente, espúrios ou suspeitos de heresia. Os gnósticos eram um conjunto de seitas que existiram no início da Era Cristã e que alcançaram seu auge no século II. Os Gnósticos (conhecimento) centravam-se na mensagem espiritual, no conhecimento interior e secreto (Gnose), no aperfeiçoamento da alma, e defendiam que os principais segredos só seriam revelados àqueles que fossem dignos dessa revelação. Entre outras inovações, eles davam espaço e voz ao feminino. Algumas mulheres actuavam como sacerdotisas e líderes. Em alguns grupos o próprio Deus era descrito como uma Mãe Divina. O Evangelho de Maria Madalena informa que Madalena era uma das apóstolas, uma das discípulas favoritas de Jesus. Para este apócrifo, Madalena era a companheira amada por Jesus e uma forte liderança no início do Cristianismo. Neste Evangelho, provavelmente escrito durante o século II, Pedro sente ciúmes da liderança de Madalena e é advertido por Levi: Pedro, sempre foste exaltado. Agora vejo-te competindo com uma mulher como adversário. Mas, se o Senhor a fez merecedora, quem és tu para rejeitá-la? Certamente o Salvador a conhece bem. Daí a ter amado mais do que a nós. À cultura de Madalena e sua eloquência contrapõe-se o inculto e rude Pedro. O texto apócrifo do Evangelho segundo Felipe afirma que Jesus amava Madalena mais que todos os discípulos e a beijava na boca, frequentemente, o que reforça a questão da transmissão de sabedoria: [...] a companheira de Cristo é Maria Madalena. O Senhor amava Maria mais do que a todos os discípulos e a beijou na boca repetidas vezes. Os demais [...] lhe disseram: Por que a queres mais que a todos nós?
Este beijo, por mais que se queira forçar o texto, não indica uma situação sexualizada, já que o beijo no simbolismo judaico significava transmissão de conhecimento. O facto é que, tanto nos Canónicos como nos Apócrifos, não existe nenhum trecho que afirme que houve relação carnal entre Jesus e Madalena. Tudo é uma questão de interpretação. Seguindo a lógica, afirmamos que Jesus, sabendo que não teria uma vida muito longa e que esta seria muito atribulada, optou pelo celibato, embora isso fosse excepção no mundo judaico. Mas voltemos à Madalena. Nos Evangelhos Gnósticos, o apóstolo Pedro não gostava da liderança de Madalena e pede que Jesus a expulse do grupo, revelando a sua misoginia. No Evangelho de Tomé, Jesus ironicamente afirma que transformaria Madalena em homem para que ela pudesse entrar no reino dos céus. Nos Evangelhos Gnósticos, Madalena é símbolo de conhecimento e sabedoria, portadora de conhecimentos ocultos transmitidos por Jesus e só revelados a ela. Ela era também confidente de Jesus, intermediária entre Ele e os seus discípulos, herdeira e portadora da verdadeira sabedoria. O texto do Apócrifo de Felipe não revela nenhum relacionamento marital entre Madalena e Jesus. Se ela realmente fosse mulher de Jesus, Ele teria respondido simplesmente: por ser minha esposa, ou simplesmente nem sequer haveria a pergunta acima. Cabe lembrar que o casamento era uma bênção tanto no judaísmo como no cristianismo (os patriarcas eram casados, a maioria dos discípulos também). Salientamos também que Jesus vivia rodeado de mulheres (samaritana, a pecadora, Marta e Maria, irmãs de Lázaro). É Paulo Leminski (1990) no seu texto Jesus a.C. quem afirma que Jesus era um homem carismático e cortejador: sabia tratar uma mulher com a dignidade que esta merecia e neste sentido estava muito à frente do seu tempo, modificando o costume judaico com relação ao sexo feminino. Essa sua perfeita comunhão com as mulheres irritava os seus discípulos: Jesus falava em público com as mulheres e isto era proibido pela lei judaica; Jesus deixava-se tocar por mulheres; ele possuía uma vida itinerante e muitas mulheres se tornaram itinerantes também.
Podemos dizer, sem medo de errar, que, em um dos ensinamentos perdidos de Jesus, está a completa igualdade entre homens mulheres na construção do mundo melhor que Ele almejava. Portanto, se Jesus fosse casado, isto seria um facto tão normal que os evangelistas que redigiram os Evangelhos Canónicos teriam naturalmente relatado o ocorrido, assim como os Evangelhos Apócrifos também trariam ricos detalhes sobre esse assunto. O Concílio de Niceia, realizado em 325 d.C., foi um dos mais complexos debates teológicos da história do Cristianismo. Nele se determinou a natureza humana e divina de Jesus e isto formou a base da doutrina Cristã. Neste Concílio, também foi realizada a separação dos Evangelhos Canónicos e dos Evangelhos Apócrifos. Na realidade, esta separação foi uma espécie de depuração que já vinha ocorrendo durante os primeiros séculos do Cristianismo. É Elaine Pagels, uma estudiosa de Madalena, quem defende a tese de que a supressão do evangelho atribuído à Madalena, ou escrito, segundo ela, ocorreu provavelmente muito mais por questão estratégica do que sexista. Segundo Pagels, o Evangelho de Madalena pertencia ao gnosticismo, uma corrente que pregava um duro regime de iluminação pessoal e a rejeição à hierarquia da Igreja. Uma Igreja assim só atrairia uns poucos seguidores e nunca chegaria às massas, e as massas eram o objectivo dos apóstolos, objectivo este que prevaleceu». In Salma Ferraz, organização, Maria Madalena das páginas da Bíblia para a Ficção, Textos Críticos, Eduem, UEM, Maringá, Brasil, 2011, ISBN 978-85-7628-334-8

Cortesia de Eduem/JDACT

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

O Santo Graal e a Linhagem Sagrada. Michael Baigent. Eichard Leigh. Henry Lincoln. «… exaltava-se a poesia e o amor palaciano; estudava-se entusiasticamente o grego, o árabe e o hebreu; e, em Lunel e Narbonne, prosperavam escolas devotadas à cabala, a antiga tradição esotérica do judaísmo»

Cortesia de wikipedia e jdact

A Cruzada Albigense
«(…) No início do século XIII, a área hoje conhecida como Languedoc não fazia oficialmente parte de França. Era um principado independente, cuja língua, cultura e instituições políticas tinham menos em comum com o Norte do que tinham com Espanha, com os reinos de Leão, Aragão e Castela. O principado era governado por uma mão-cheia de famílias nobres, sendo as mais importantes entre elas a dos condes de Toulouse e a poderosa casa de Trencavel. E, dentro dos limites deste principado, florescia uma cultura que, na época, era a mais avançada e sofisticada da Cristandade, com a possível excepção de Bizâncio. O Languedoc tinha muito em comum com Bizâncio. A instrução, por exemplo, era tida em elevada consideração, como não acontecia na Europa do Norte. Floresciam a filosofia e outras actividades intelectuais; exaltava-se a poesia e o amor palaciano; estudava-se entusiasticamente o grego, o árabe e o hebreu; e, em Lunel e Narbonne, prosperavam escolas devotadas à cabala, a antiga tradição esotérica do judaísmo. Até a nobreza era letrada e literária, numa época em que a maioria dos nobres do Norte nem sabiam assinar o próprio nome.
Também como Bizâncio, o Languedoc praticava uma tolerância religiosa civilizada e indolente, em contraste com o zelo fanático que caracterizava outras partes da Europa. o pensamento islâmico ou judaico, por exemplo, era importado através dos centros comerciais marítimos como Marselha, ou atravessava os Pirenéus, vindo de França. Ao mesmo tempo, a Igreja Romana não gozavade grande estima; os clérigos romanos no Languedoc, em virtude da sua corrupção notória, conseguiam acima de tudo alienar a população. Havia igrejas, por exemplo, onde não se diziam missas há mais de trinta anos. Muitos padres ignoravam os seus paroquianos e dedicavam-se aos negócios ou a gerir grandes propriedades. Um arcebispo de Narbonne nunca visitou sequer a sua diocese.
lndependentemente da corrupção da Igreja, o Languedoc tinha atingido um pico de cultura que não voltaria a ser visto na Europa até à Renascença. Mas, tal como em Bizâncio, havia elementos de complacência, decadência e uma fraqueza trágica, que deixavam a região desprevenida para a investida posteriormente lançada sobre ela. Há já algum tempo que, tanto a nobreza do Norte da Europa como a Igreja Romana estavam conscientes da sua vulnerabilidade, e ansiosos por a explorar. A nobreza do Norte há muitos anos que cobiçava a riqueza e luxos do Languedoc. E a Igreja estava interessada por razões próprias. Em primeiro lugar, a sua autoridade na região era frouxa. E, enquanto a cultura florescia no Languedoc, outra coisa florescia também, a maior heresia da Cristandade medieval. Nas palavras das autoridades da Igreja, o Languedoc estava infectado pela heresia albigense, a lepra imunda do Sul. E, embora os aderentes a esta heresia fossem essencialmente não-violentos, constituíam uma severa ameaça à autoridade de Roma, a mais severa ameaça, na verdade, que Roma sentiria até os ensinamentos de Martinho Lutero darem início à Reforma, três séculos mais tarde. Em 1200 havia uma possibilidade muito real de esta heresia vir a substituir o Catolicismo Romano como forma dominante da Cristandade no Languedoc. E, o que era ainda mais ameaçador aos olhos da lgreja, isto já estava a estender-se a outras partes da Europa, especialmente a centros urbanos naAlemanha, Flandres e Champagne. Os hereges eram conhecidos por uma grande variedade de nomes. Em 1165 tinham sido condenados por um conselho eclesiástico na cidade de Albi, no Languedoc. Por esta razão, ou talvez porque Albi continuasse a ser um de seus centros, eles eram chamados com frequência de albigenses; noutras ocasiões eram cátaros; na Itália, patarines. Não raro, eram também estigmatizados com nomes de heresias anteriores, como arianos, marcionistas e maniqueístas. Albigense e cátaro eram nomes genéricos. Não se referiam a uma única igreja coerente, como aquela de Roma, com teologia e doutrina fixas, codificadas, definitivas». In Michael Baigent, Eichard Leigh, Henry Lincoln, The Holly Blood and The Holy Grail, 1982, O Sangue de Cristo e o Santo Graal, Editora Livros do Brasil, Colecção o Despertar dos Mágicos, Lisboa, 2004, ISBN 972-38-2651-8.

Cortesia LBrasil/JDACT

O Santo Graal e a Linhagem Sagrada. Michael Baigent. Eichard Leigh. Henry Lincoln. «Em 1209, um exército de cerca de trinta mil cavaleiros e soldados a pé, da Europa do Norte, desceu como um furacão sobre o Languedoc, na zona que é hoje o Sul de França»

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Os cátaros e a grande heresia
«(…) Em primeiro lugar, os hereges medievais tinham estado presentes em grande número na aldeia e nos seus arredores,zona que sofreu brutalmente durante a Cruzada Albigense. Na verdade, toda a história da região está empapada de sangue cátaro, e os resíduos desse sangue, juntamente com muita amargura, persistem até aos dias de hoje. Muitos dos camponeses actuais da zona, sem inquisidores que possam cair sobre eles, afirmam abertamente a sua simpatia pelos cátaros. Há mesmo uma igreja cátara e um chamado papa cátaro que, até à sua morte em 1978,vivia na aldeia de Arques. Sabíamos que Saunière se tinha envolvido na história e folclore da sua terra natal, pelo que nunca poderia ter evitado o contacto com o pensamento e tradições cátaras. Não podia ignorar que Rennes-le-Château fora uma cidade importante nos séculos XII e XIII, e uma espécie de bastião cátaro. Saunière devia estar também familiarizado com as inúmeras lendas relacionadas com os cátaros. Devia conhecer os rumores que os relacionavam com esse objecto fabuloso, o Santo Graal. E se Richard Wagner, em busca de algo relacionado com o Graal, visitou realmente Rennes-le-Château, Saunière também não podia ignorar esse facto.
Além disso, em 1890, um homem chamado Jules Doinel tornou-se bibliotecário em Carcassonne e fundou uma igreja neo-cátara. O próprio Doinel escreveu abundantemente sobre a ideologia cátara e, em 1896, tornou-se um membro proeminente de uma organização cultural local, a Sociedade de Artes e Ciências de Carcassonne. Em 1898 foieleito secretário desta organização. Desta sociedade faziam parte vários dos conhecimentos de Saunière, incluindo o seu melhor amigo, o abade Henri Boudet. E o círculo pessoal de Doinel incluía Emma Calvé. É portanto muito provável que Doinele Saunière se conhecessem. Há uma outra razáo, ainda mais excitante, para relacionar os cátaros com o mistério de Rennes-le-Château. Num dos pergaminhos encontrados por Saunière, o texto está polvilhado com uma mão-cheia de letras pequenas, oito, para sermos mais precisos, deliberadamente diferentes de todas as outras. Três destas letras estão na parte de cima da página, as outras cinco mais para baixo. Estas oito letras só têm de ser lidas em sequência para soletrar duas palavras, Rex Mundi. Este é inconfundivelmente um termo cátaro, imediatamente identificável por qualquer pessoa familiarizada com o pensamento dos cátaros. Dados estes factores, parecia razoável começar a nossa investigação pelos cátaros. Começámos portanto a efectuar uma pesquisa detalhada sobre eles, as suas crenças e tradições, a sua história e meio social. A nossa investigação abriu novas dimensões do mistério e gerou várias perguntas intrigantes.

A Cruzada Albigense
Em 1209, um exército de cerca de trinta mil cavaleiros e soldados a pé, da Europa do Norte, desceu como um furacão sobre o Languedoc, a zona montanhosa no sopé nordeste dos Pirenéus, na zona que é hoje o Sul de França. Na guerra que se seguiu, todo o território foi devastado, colheitas destruídas, aldeias e cidades arrasadas, uma população inteira passada a fio de espada. Este extermínio ocorreu numa escala tão vasta e terrívelque pode muito bem constituir o primeiro caso de genocídio da história europeia moderna. Só na cidade de Béziers, por exemplo, foram chacinados pelo menos quinze mil homens, mulheres e crianças, muitos deles no santuário da própria igreja. Quando um oficial perguntou ao representante do papa como podia distinguir os hereges dos verdadeiros crentes, a resposta foi: matai-os a todos. Deus reconhecerá os seus. Esta citação, embora extensamente repetida, pode ser fictícia ou apócrifa. Ainda assim, tipifica o zelo fanático e a sede de sangue com que as atrocidades foram perpetradas. O mesmo representante papal, escrevendo a Inocêncio III em Roma, anunciou orgulhosamente que ninguém foi poupado, nem por idade, nem por sexo, nem por estatuto. Depois de Béziers, o exército invasor varreu toda a região do Languedoc. Perpignan caiu, Narbonne caiu, Carcassonne caiu, Toulouse caiu. E, por onde os conquistadores passavam, deixavam um rasto de sangue, morte e carnificina.
Esta guerra, que durou quase quarenta anos, é agora conhecida como a Cruzada Albigense. Foi uma cruzada no verdadeiro sentido da palavra. Fora convocada pelo próprio papa.Os seus participantes usavam uma cruz nas túnicas, como os cruzados na Palestina. E as recompensas eram as mesmas que se fossem cruzados na Terra Santa, remissão de todos os pecados, expiação das penitências, um lugar garantido no Paraíso e tudo o que conseguissem pilhar. Além do mais, nesta cruzada, nem sequer era preciso cruzar os mares. E, de acordo com a lei feudal, ninguém era obrigado a combater mais de quarenta dias, presumindo, claro, que o combatente não tinha qualquer interesse no saque. Quando a Cruzada acabou, o Languedoc tinha sido completamente transformado, mergulhado na barbárie que caracterizava o resto da Europa. Porquê? Por que razão tinha ocorrido toda esta carnificina, brutalidade e devastação?» In Michael Baigent, Eichard Leigh, Henry Lincoln, The Holly Blood and The Holy Grail, 1982, O Sangue de Cristo e o Santo Graal, Editora Livros do Brasil, Colecção o Despertar dos Mágicos, Lisboa, 2004, ISBN 972-38-2651-8.

Cortesia LBrasil/JDACT

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Maria Madalena. Século I - Século XXI. Régis Burnet. «Nas margens do lago, em que se pescava, salgava e comercializava o pescado e em que se praticava a tinturaria, instalara-se, de facto, um negócio muito próspero. De notar também a presença de um curioso edifício…»

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De pecadora arrependida a esposa de Jesus. Os dados do Evangelho
«Se nos ficarmos pelos dados estritamente evangélicos, cabe à personagem de Maria Madalena apenas um pequeno número de intervenções muito breves na narrativa. Está presente no final da vida de Jesus e é uma das mulheres que vão ao sepulcro. Os Evangelhos sinópticos só muito de passagem lhe fazem alusão. Apenas o Evangelho de João lhe atribui um papel importante: é ela a primeira a ver Cristo ressuscitado. Foi sem dúvida por causa deste episódio essencial que durante séculos se procurou dar-lhe mais importância. E era grande a tentação de assimilar diferentes personagens de mulher àquela que parecia a mais importante, a amiga de Jesus: Maria de Betânia, irmã de Marta e de Lázaro, deu uma ajuda; a pecadora perdoada, que também ela limpou com os cabelos os pés de Jesus, foi requisitada; e foi assim que Maria de Magdala se transformou em Maria Madalena. Com esta operação obtinha-se uma figura compósita ou, como dizia Bruckberger, autor de uma vida de Maria Madalena que fez furor nos anos 50, uma mulher cortada em pedaços. Esta aglomeração de várias figuras veio a ter um papel de importância capital na popularidade da santa. Assim tornada complexa, transformava-se numa personagem de primeiro plano, capaz de suscitar interesse bastante para que um romancista de sucesso do século XXI pudesse ainda incluí-la na sua intriga.

As Marias dos Evangelhos
Nos Evangelhos as mulheres têm dois grandes defeitos. Por um lado, nem sempre são tão bem individualizadas como os homens; por outro, têm todas elas uma terrível propensão para se chamarem Maria. Embora seja fácil distinguir entre elas a Virgem, evangelistas singularizam-na frequentemente tratando-a por Maria, sua mãe, no que diz respeito às demais Marias existe sempre uma certa confusão. Além disto, algumas mulheres não são identificadas: como se chamavam a mulher curada do fluxo de sangue ou a siro-fenícia?

Maria de Magdala
Em rigor, a personagem Maria Madalena não pode coincidir exactamente com a de Maria de Magdala. Nos Evangelhos, só por três vezes a vemos mencionada: na companhia de Jesus, aos pés da cruz e no sepulcro. A primeira vez que o leitor encontra Maria Madalena é numa referência breve àqueles que rodeavam Jesus. A mais desenvolvida é a de Lucas: … em seguida, Jesus ia de cidade em cidade, de aldeia em aldeia, proclamando e anunciando a boa nova do Reino de Deus. Acompanhavam-no os Doze e algumas mulheres que tinham sido curadas de espíritos malignos e de enfermidades: Maria, chamada Madalena, da qual tinham saído sete demónios; Joana, mulher de Cuza, administrador de Herodes; Susana e muitas outras, que os serviam com os seus bens. Deste breve passo, é possível extrair três informações. 1ª: Maria era dita Madalena, a de Magdala (Magdalhnh); 2ª: foi curada de sete demónios; 3ª: fazia parte de um grupo de mulheres piedosas suficientemente abastadas para darem assistência ao grupo dos discípulos.
Magra colheita, a começar pela naturalidade de Maria, uma cidade cuja localização se revela muito difícil. Os arqueólogos pensam que Magdala é o nome aramaico (Migdal Nunaiya, torre do peixe) de uma povoação importante situada nas margens do lago Tiberíade, que a Antiguidade conhecia pelo nome de Tarichéia, o sítio em que se seca o peixe. Aí se localizavam grandes armazéns de pescado que abasteciam toda a bacia do Mediterrâneo. A cidade actual, Migdal, fica a 5 quilómetros de Tiberíade; foi fundada em 1910 como colonato judaico e gozou de alguma fama a partir de 1921, porque aí se instalou o famoso herói da colonização do entre-guerras, Joseph Trumpledor. Uma parte da cidade onde não havia edifícios foi comprada em 1970 pela Custódia da Terra Santa (organismo católico criado pelos franciscanos encarregados do arranjo e administração dos Lugares Santos em Israel) e aí, entre 1971 e 1977, os franciscanos Corbo e Loffreda levaram a cabo escavações sistemáticas e exumaram uma cidade rica e próspera. Havia em Magdala, um quadripórtico e alguns edifícios interessantes, entre os quais uma magnífica villa do século I d. C., ornamentada com um mosaico em que se celebram as origens da fortuna da cidade, ou seja, o comércio e a pesca. Nas margens do lago, em que se pescava, salgava e comercializava o pescado e em que se praticava a tinturaria, instalara-se, de facto, um negócio muito próspero. De notar também a presença de um curioso edifício que segundo os arqueólogos tanto pode ter sido um nympheum (um templo dedicado às ninfas) como um pequena sinagoga ou até... um conjunto de latrinas». In Régis Burnet, Maria Madalena, Século I - Século XXI, De pecadora arrependida a esposa de Jesus, História da recepção de uma figura bíblica, tradução de Margarida Correia, Gradiva, Lisboa, 2005, ISBN 989-616-067-8.

Cortesia de Gradiva/JDACT

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

O Santo Graal e a Linhagem Sagrada. Michael Baigent. Eichard Leigh. Henry Lincoln. «… no princípio da década de 1970, foi localizado um túmulo verdadeiro, idêntico ao retratado no quadro de Poussin, idêntico em posição, dimensões, proporções, forma, vegetação circundante, até mesmo no afloramento rochoso circular…»


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Os Possíveis Tesouros
«(…) Lilley, que morreu em 1940, tinha publicado vários trabalhos e não era um desconhecido. Durante grande parte da sua vida mantivera contactos com o Movimento Modernista Católico, que tem a sua base principal no Saint Sulpice, em Paris. Na juventude, Lilley trabalhara em Paris e conhecera Émile Hoffet. As pistas formavam um círculo. Existindo uma ligação entre Lilley e Hoffet, as afirmações do padre, por mais absurdas que parecessem, não podiam ser sumariamente postas de lado. Quando começámos a investigar a vida de Nicolas Poussin, o grande pintor do século XVII cujo nome aparecia várias vezes na história de Saunière, surgiram provas semelhantes da existência de um segredo monumental. Em 1656, Poussin, que na altura vivia em Roma, recebera uma visita do abade Louis Fouquet, irmão de Nicolas Fouquet, superintendente das Finanças de Luís XIV de França. De Roma, o abade despachou uma carta para o irmão, descrevendo o seu encontro com Poussin. Vale a pena citar parte da carta:
  • Ele e eu discutimos certas coisas, que em breve poderei explicar-vos em detalhe, coisas que vos darão, através do senhor Poussin, vantagens que até mesmo reis teriam grande dificuldade em obter dele e que, segundo ele, é possível que ninguém volte a descobrir nos próximos séculos. E mais, estas coisas são tão difíceis de descobrir que nada ao cimo da terra se revelará de melhor fortuna ou as igualará.
Nem os historiadores, nem os biógrafos de Poussin ou Fouquet, conseguiram algum a vez explicar de forma satisfatória esta carta, que alude claramente a algum assunto misterioso de enorme importância. Pouco depois de a receber, Nicolas Fouquet foi detido e colocado na prisão, onde permaneceu o resto da sua vida. Segundo certos relatos, era mantido estritamente incomunicável e alguns historiadores encaram-no como um provável candidato a ter sido o Homem da Máscara de Ferro. Entretanto, toda a sua correspondência foi confiscada por Luís XlV, que a inspeccionou pessoalmente. Nos anos que se seguiram, o rei esforçou-se determinadamente para obter o original do quadro de Poussin, Les Bergers d’Arcadie. Quando por fim o conseguiu, o quadro foi sequestrado para os seus aposentos privados em Versalhes. lndependentemente da sua grandeza artística, o quadro parece bastante inocente. Em primeiro plano, três pastores e uma pastora estão reunidos em volta de um grande túmulo antigo, contemplando a inscrição na pedra comida pelo tempo: et in arcadia ego. Ao fundo ergue-se uma paisagem acidentada e montanhosa, do tipo que geralmente se associa com Poussin. Segundo Anthony Blunt, bem como outros especialistas em Poussin, esta paisagem era inteiramente mítica, um produto da imaginação do pintor. No entanto, no princípio da década de 1970, foi localizado um túmulo verdadeiro, idêntico ao retratado no quadro idêntico em posição, dimensões, proporções, forma, vegetação circundante, até mesmo no afloramento rochoso circular onde um dos pastores de Poussin pousa o pé. Este túmulo existe nos arredores de uma aldeia chamada Arques, aproximadamente a dez qui lómetros de Rennes-le-Château, e a cinco quilómetros do Château de Blanchefort. Se uma pessoa se colocar em frente do sepulcro, a paisagem é praticamente indistinguível da do quadro. E então torna-se evidente que um dos picos em segundo plano no quadro é Rennes-le-Château.
Não há indicação da idade do túmulo. Pode, claro, ter sido erigido bastante recentemente, mas como é que os seus construtores conseguiriam encontrar uma localização que coincide de forma tão perfeita com a do quadro? Na verdade, parece já ter existido no tempo de Poussin, e Les Bergers d'Arcadie parece ser uma reprodução fiel do local. Segundo os camponeses da zona, o túmulo está lá há tanto tempo quanto eles, os seus pais e os seus avós se recordam. E diz-se que há uma menção específica a ele numa mémoire datada de 1709. Segundo os registos da aldeia de Arques, a terra onde o túmulo se encontra pertenceu, até à sua morte na década de 1950, a um americano, um tal Louis Lawrence, de Boston, Massachusetts. Na década de 1920, Mr. Lawrence abriu o sepulcro e descobriu que estava vazio. A sua mulher e sogra foram mais tarde enterradas nele.
Quando preparávamos o primeiro dos nossos filmes para a BBC em Rennes-le-Château, passámos uma manhã a efectuar filmagens do túmulo. lnterrompemos o nosso trabalho para almoçar e regressámos cerca de três horas depois. Durante a nossa ausência, tinha sido feita uma tentativa violenta e rude de arrombar o sepulcro. Se algumavez existiu uma inscrição no túmulo verdadeiro, o tempo há muito que a apagara. Quanto à inscrição no túmulo do quadro de Poussin, parece ser convencionalmente elegíaca, a Morte a anunciar a sua presença sombria, mesmo em Arcádia, o idílico paraíso pastoral dos mitos clássicos. E contudo a inscrição é curiosa porque lhe lalta um verbo. Literalmente traduzida, diz:
  • E EM ARCADIA EU...
Porque faltará o verbo? Talvez por uma razãofilosófica, para excluir qualquer tempo, qualquer indicação de passado, presente ou futuro, implicando assim algo eterno? Ou talvez por uma razão de natureza mais prática. Os códigos dos pergaminhos encontrados por Saunière apoiavam-se fortemente em anagramas, na transposição e redistribuição de letras. Poderia et in arcadia ego" ser, talvez, também um anagrama? Poderia o verbo ter sido omitido de forma a que a inscrição pudesse consistir apenas de certas letras precisas? Um dos nossos espectadores, ao escrever-nos, sugeriu que podia ser este o caso, e depois redistribuiu as letras de maneira a formar uma frase coerente em latim. O resultado foi:
  • I TEGO ARCANA DEI (ide! Eu escondo os segredos de Deus)
Ficámos satisfeitos e intrigados com este exercício engenhoso. Não nos apercebemos na altura de quão extraordinariamente apropriada era a advertência dele resultante.

Os cátaros e a grande heresia
Começámos nossa investigação num ponto que já nos era razoavelmente familiar: a heresia cátara, ou albigense, e a Cruzada provocada por ela no século XIII. Já sabíamos que os cátaros figuravam de alguma maneira no mistério que circundava Saunière e Rennes-le-Château». In Michael Baigent, Eichard Leigh, Henry Lincoln, The Holly Blood and The Holy Grail, 1982, O Sangue de Cristo e o Santo Graal, Editora Livros do Brasil, Colecção o Despertar dos Mágicos, Lisboa, 2004, ISBN 972-38-2651-8.



Cortesia L Brasil/JDACT

O Santo Graal e a Linhagem Sagrada. Michael Baigent. Eichard Leigh. Henry Lincoln. «Esta afirmação parecia escandalosamente absurda. O que poderia, mesmo para um ateu convicto, constituir prova irrefutável de que Jesus sobrevivera à Crucificação? Não conseguíamos imaginar nada que não pudesse ser desacreditado ou repudiado»

jdact e wikipedia

Os Possíveis Tesouros
«(…) Até aqui a nossa história parecia ser essencialmente a história de um tesouro. E a história de um tesouro, mesmo que envolva o tesouro do Templo de Jerusalém tem, em última análise, uma relevância e um significado limitados. As pessoas estão constantemente a descobrir tesouros de um ou de outro tipo. Estas descobertas são muitas vezes excitantes, dramáticas e misteriosas, e muitas delas lançam uma importante luz sobre o passado. No entanto, poucas delas exercem qualquer influência directa, política ou outra, sobre o presente, a menos, claro, que o tesouro em questão inclua um segredo qualquer e, possivelmente, um segredo explosivo. Não pusemos de lado a possibilidade de Saunière ter descoberto um tesouro. Mas ao mesmo tempo parecia-nos claro que, independentemente do que mais tivesse encontrado, ele descobrira também um segredo, um segredo histórico de imensa importância na sua época e talvez também na nossa. Mero dinheiro, ouro ou jóias não explicam, por si só, várias facetas da história. Não justificam a sua introdução no círculo de Hoffet, por exemplo, a sua associação com Debussy e a sua ligação com Emma Calvé. Não explicam o intenso interesse da Igreja na questão, a impunidade com que Saunière desafiou o seu bispo ou a sua subsequente exoneração pelo Vaticano, que parece ela própria ter demonstrado uma preocupação premente. Não explicam a recusa de um padre em administrar a Extrema-Unção a um moribundo, ou a visita de um arquiduque dos Habsburgos a uma remota aldeiazinha nos Pirenéus. O arquiduque dos Habsburgos em questão revelou-se entretanto ser Johann Salvator von Habsburg, conhecido pelo pseudónimo de Jean Orth. Renunciou a todos os seus direitos e títulos em 1889 e, dois meses depois, tinha sido banido de todos os territórios do lmperio. Foi pouco depois que apareceu pela primeira vez em Rennes-le-Château. Oficialmente disse-se que morreu em 1890, mas na verdade morreu naArgentina em 1910 ou 1911. Da mesma forma, dinheiro, ouro ou jóias não explicam a poderosa aura de mistificação que rodeia toda a história, desde as elaboradas cifras codificadas à história de Marie Denarnaud a queimar a sua herança de notas de banco. E a própria Marie tinha prometido divulgar um segredo que conferia não apenas riqueza, mas igualmente poder. Por estes motivos, cada vez estávamos mais convencidos de que a história de Saunière envolvia mais do que riqueza, e que implicava um segredo qualquer, um segredo que seria quase certamente controverso. Por outras palavras, parecia-nos que o mistério não estaria confinado a uma aldeia remota e a um padre do século XIX. O que quer que fosse, parecia estender-se para fora de Rennes-le-Château e causar ondas, talvez mesmo um potencial maremoto  no mundo para além da aldeia. Seria possível que a riqueza de Saunière não tivesse origem em nada de valor financeiro intrínseco, mas em algum tipo de conhecimento? Se assim fosse, poderia este conhecimento ter sido transformado em dinheiro? Poderia ter sido utilizado para chantagear alguém, por exemplo? Poderia a riqueza de Saunière ser o pagamento pelo seu silêncio? Sabíamos que ele tinha recebido dinheiro de Johann von Habsburg. Ao mesmo tempo, contudo, o segredo do padre, qualquer que fosse, parecia ser de natureza mais religiosa do que política. Mais ainda, as suas relações com o arquiduque austríaco, segundo todos os testemunhos, eram particularmente cordiais. Por outro lado, havia uma instituição que, ao longo da fase finalda carreira de Saunière, parece tê-lo receado distintamente, tratando-o com luvas de pelica, o Vaticano. Poderia Saunière estar a fazer chantagem com o Vaticano? É certo que uma chantagem desse tipo seria um empreendimento presunçoso e perigoso para um só homem, por mais exaustivas que fossem as suas precauções. Mas, e se ele estivesse a ser auxiliado e apoiado neste empreendimento por outros, outros cuja eminência os tornasse invioláveis perante a Igreja, como o secretário de Estado da Cultura francês ou os Habsburgos? E se o arquiduque Johann fosse apenas um intermediário, e o dinheiro que entregou a Saunière viesse na realidade dos cofres de Roma?

A Intriga
Em Fevereiro de 1972 foi transmitido O Tesouro Perdido de Jerusalém?, o primeiro dos nossos três filmes sobre Saunière e o mistério de Rennes-le-Château. O filme não fazia quaisquer reivindicações controversas, simplesmente contava a história básica tal como foi relatada nas páginas anteriores. Nem se fazia qualquer especulação sobre um segredo explosivo ou chantagem ao mais alto nível. Vale também a pena mencionar que o filme não citava o nome de Émile Holfet, o jovem estudioso eclesiástico de Paris a quem Saunière confiou os pergaminhos. Recebemos uma autêntica inundação de correio, o que talvez não tenha sido muito surpreendente. Algumas das cartas ofereciam sugestões especulativas intrigantes. Outras eram lisonjeiras. Outras eram idiotas. De todas estas cartas, uma, que o escritor não quis que publicitássemos, parecia merecer uma atenção especial. Vinha de um padre anglicano aposentado e aparentava ser uma falácia curiosa e provocante. O nosso correspondente escrevia com certeza e autoridade categóricas. Fazia as suas reivindicações seca e definitivamente, sem floreados, e com aparente indiferença quanto ao facto de nós acreditarmos nele ou não. O tesouro, declarava ele terminantemente, não envolvia ouro nem pedras preciosas. Pelo contrário, consistia de prova irrefutável de que a Crucificação fora uma fraude e Jesus vivera até ao ano 45 d. C.
Esta afirmação parecia escandalosamente absurda. O que poderia, mesmo para um ateu convicto, constituir prova irrefutável de que Jesus sobrevivera à Crucificação? Não conseguíamos imaginar nada que não pudesse ser desacreditado ou repudiado, algo que constituísse não apenas prova, mas prova verdadeiramente irrefutável. Ao mesmo tempo, a mera extravagância desta afirmação exigia clarificação e desenvolvimento. O escritor da carta indicava uma morada de remetente. Assim que tivemos oportunidade, fomos visitá-lo e tentámos entrevistá-lo. Em pessoa ele foi bastante mais reticente do que fora na carta, e pareceu estar já arrependido de nos ter escrito. Recusou desenvolver a sua referência à prova irrefutável e ofereceu apenas mais um fragmento de informação. Esta prova, disse-nos, ou pelo menos a sua existência, fora-lhe revelada por outro clérigo anglicano, o cónego Alfred Leslie Lilley». In Michael Baigent, Eichard Leigh, Henry Lincoln, The Holly Blood and The Holy Grail, 1982, O Sangue de Cristo e o Santo Graal, Editora Livros do Brasil, Colecção o Despertar dos Mágicos, Lisboa, 2004, ISBN 972-38-2651-8.

Cortesia L Brasil/JDACT

segunda-feira, 5 de maio de 2014

O Santo Graal e a Linhagem Sagrada. Michael Baigent. Eichard Leigh. Henry Lincoln. «Alarico partiu com os tesouros de Salomão, o reidos Hebreus, uma visão digna de se ver, pois estavam adornados na sua maioria com esmeraldas e em tempos antigos tinham sido tirados de Jerusalém pelos Romanos»

Cortesia de joaochichorro, jdact

Os Possíveis Tesouros
«(…) Durante mais quinhentos anos, a cidade continuou a ser assento de um importante condado, ou comté, o Condado de Razès. Depois, no princípio do século XIII, um exército de cavaleiros do Norte desceu sobre o Languedoc para esmagar a heresia cátara ou albigense e reclamar para si próprios os ricos despojos da região. Durante as atrocidades da chamada Cruzada Albigense, Rennes-le-Château foi capturada como feudo e transferida de mão em mão. Cento e vinte e cinco anos mais tarde, na década de 1360, a população local Íoi dizimada pela peste; e Rennes-le-Château foi destruída pouco tempo depois por bandos nómadas catalães. Há histórias de tesouros fantásticos que se entrecruzam com muitas destas vicissitudes históricas. Constava que os hereges cátaros, por exemplo, possuíam algo de valor fabuloso e até mesmo sagrado, que, segundo várias lendas, era o próprio Santo Graal. Diz-se que estas lendas impeliram Richard Wagner a fazer uma peregrinação a Rennes-le-Château antes de compor a sua última ópera, Parsifal e durante a ocupação, entre 1940 e 1945, diz-se que as tropas alemãs, seguindo o rasto de Wagner, empreenderam várias escavações infrutíferas na região. Há também o tesouro desaparecido dos templários, cujo Grão-Mestre, Bertrand de Blanchefort, ordenou certas escavações misteriosas na área. Segundo todos os relatos, estas escavações foram de natureza nitidamente clandestina, efectuadas por um contingente especialmente importado de mineiros alemães. Se havia realmente algum tesouro templário escondido na zona de Rennes-le-Château, isto pode explicar a referência ao Sião nos pergaminhos descobertos por Saunière.
Havia também outros possíveis tesouros. Entre os séculos V e VIII, grande parte da França actual era governada pela dinastia merovíngia, que incluiu o rei Dagoberto II. Rennes-le-Château, no tempo de Dagoberto, era um bastião visigótico, e o próprio Dagoberto era casado com uma princesa dos Visigodos. A cidade pode ter acumulado uma espécie de tesouro real; e há documentos que falam de grandes riquezas amealhadas por Dagoberto para aplicar na conquista militar, escondidas nos arredores de Rennes-le-Château. Se Saunière descobriu um depósito deste género, isso explicaria a referência nos códigos a Dagoberto. Os cátaros. Os templários. Dagoberto II. E havia ainda outro possível tesouro, o vasto saque acumulado pelos Visigodos durante o seu avanço tempestuoso através da Europa. Este pode ter incluído algo mais do que um saque convencional, possivelmente artigos de imensa relevância, tanto simbólica como literal, para a tradição religiosa ocidental. Podia, em suma, ter incluído o lendário tesouro do Templo de Jerusalém, que, ainda mais do que os templários, justificaria a referência ao Sião. No ano de 66 d. C., a Palestina ergueu-se em revolta contra o jugo romano. Quatro anos mais tarde, em 70 d. C., Jerusalém foi arrasada pelas legiões do imperador, sob o comando do seu filho, Tito. O próprio Templo foi saqueado e o conteúdo do Lugar Santíssimo transportado de volta para Roma. Tal como está retratado no arco triunfal de Tito, este conteúdo incluía o imenso candelabro de ouro com sete braços tão sagrado para o judaísmo e, possivelmente, até mesmo a Arca da Aliança.
Três séculos e meio mais tarde, em 410 d. C., Roma foi por sua vez saqueada pelos invasores visigóticos, sob o comando de Alarico, o Grande, que pilhou virtualmente toda a riqueza da Cidade Eterna. Como nos diz o historiador Procópio, Alarico partiu com os tesouros de Salomão, o reidos Hebreus, uma visão digna de se ver, pois estavam adornados na sua maioria com esmeraldas e em tempos antigos tinham sido tirados de Jerusalém pelos Romanos. Um tesouro, então, pode muito bem ter sido a fonte da inexplicável riqueza de Saunière. O padre pode ter descoberto qualquer um de vários tesouros, ou pode ter descoberto um único tesouro que tenha mudado de mãos repetidamente através dos séculos, passando talvez do Templo de Jerusalém para os Romanos, destes para os Visigodos, eventualmente para os cátaros e/ou os templários. Se assim foi, isto explicaria por que razão o tesouro em questão pertencia tanto a Dagoberto II como ao Sião». In Michael Baigent, Eichard Leigh, Henry Lincoln, O Santo Graal e a Linhagem Sagrada, 1982, tradução de Nadir Ferrari, Editora Nova Fronteira, 1993, ISBN: 852-0904-74-2, O Sangue de Cristo e o Santo Graal, Editora Livros do Brasil, Colecção o Despertar dos Mágicos, Lisboa, tradução de Elsa Vieira, 2004, ISBN 972-38-2651-8.

Cortesia L. do Brasil/JDACT