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sexta-feira, 26 de maio de 2017

Vera Cruz. João Morgado. «À sua volta todos franziam igualmente o sobrolho, pouco crentes na grandiosidade de um reino que se fazia representar por um barbudo porco e nauseabundo»

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«(…) Houve um alarido tremendo na costa e nas águas. A gentiaga acorreu à beira-mar e alguns mais afoitos foram de almadias até às novas embarcações, uns por curiosidade, outros mais arrojados a tentar escambo com os estranhos que pareciam de bolsa farta. Mas aqueles homens de além-mar tinham carrancas barbudas que davam mostras de pouca amizade. Só uns tantos saíram a terra. Degredados de pouca valia, gente ruim por quem ninguém verteria uma lágrima e outros tantos homens de armas. Saiu também Fernão Martins, que era o língua da armada, um homem de muitos falares. Ficaram deslumbrados com aquele estranho povo, uns escanzelados de barbas brancas e poucas vestes, outros anafados e de bons panos coloridos. Gente muito variada e muitos animais exóticos. Pelos adentros das narinas entrava um cheiro adocicado que indicava as praças de mercadores de especiarias. Os portugueses sorriram, mas por pouco tempo, pois a mourama era belicosa e as escaramuças aumentavam a olhos vistos. Depois de muito cruzar lâminas e injúrias, Fernão Martins lá encontrou um árabe que era mais senhor de falas que de espadas. E arabiando os dois, lá se entenderam e assim convenceram o dito a subir a bordo para falar com o capitão-mor. Sou Vasco da Gama, dizei ao samorim que quero falar-lhe. Trago uma missiva do meu rei e senhor, Manuel I, rei de Portugal e dos Algarves, d'Aquém e d’Além-Mar em Africa.
Moçaide, o árabe, era homem viajado. Tinha navegado no Mediterrâneo e conhecia a fama dos portugueses. No seu arengar meio-genovês, meio-castelhano, agradeceu as mordomias recebidas e prometeu ser célere em marcar audiência com o soberano daquelas terras. Mas o sultão era homem acautelado e, não sabendo dos intuitos daqueles forasteiros, tinha pegado no seu séquito e partido para um outro palácio, lá no anteparo da floresta, distante dos mares e do poder de fogo de tal gente. Por isso demorou tempo a resposta do soberano e muito tardou também a viagem dos portugueses pelo matagal adentro, sob um sol que matava e uma humidade que fazia gotejar os corpos; as fatiotas tiradas da arca húmida para tão especial ocasião estavam já encharcadas de um suor fétido. Os portugueses seguiram transportados em liteiras, mas sempre nervosos e desconfiados dos beberes e das poucas comidas que lhes eram dados. Só quando chegaram ao seu destino tudo esqueceram e abriram a boca num espanto sem fim, tinham chegado à terra dos seus devaneios. Por certo, nem em sonhos tinham estado num tão luxurioso lugar.
Todo o palácio era uma ilha de tesouros, nunca os portugueses tinham visto tal coisa: o debuxo ornamentado do edifício; os adornos de pedraria; o sem-fim de guerreiros e serviçais; um ror de gente coberta de sedas e pedras preciosas. Caminharam pelo palácio adentro em passo firme, orgulhosos, mas os presentes torciam o rosto e levavam lenços ao nariz. Uns serviçais foram borrifá-los com uns líquidos. Água benta por certo, devem ser cristãos, comentou Gama, escarrando no chão. Mas na realidade era perfume, pois o odor a esterco e suor estava-lhes apegado ao corpo. Por contraste, o samorim Manavikraman Rajá, homem de muitos anos, estava estirado num dossel bordado a ouro e reclinado em grande soma de almofadas cor de pérola. Convidou Gama a sentar-se e brindou a comitiva com fruta e beberagens frescas. Gama discorreu então sobre o reino de Portugal e seus egrégios antepassados, o seu poderio militar e económico, o seu agigantar nas aventuras do mar tenebroso. Fazia questão que das suas palavras emergisse a grandeza impressionante de um reino que a todos desse o mesmo pensar, melhor o ter por afeiçoado que por desavindo. O samorim ouvia a tradução das línguas mas não largava o lenço aromatizado sobre o nariz; desesperava com tal gente e mostrava cara de enfado. À sua volta todos franziam igualmente o sobrolho, pouco crentes na grandiosidade de um reino que se fazia representar por um barbudo porco e nauseabundo.
Vasco da Gama sentia que o ambiente lhe era adverso, por isso lhe tremiam os termos e as ideias, o que maior desagrado causava entre os presentes,- não dizia iá coisa com coisa. Aquela era gente perfumada, de corpo depilado e pele tratada, carregada de jóias e sedas coloridas. Em toda a volta tudo era primor e riqueza, deslumbre e opulência. Só aquela gente que escarrava no chão parecia saída da imundície. Por isso lhe pediam que falasse com as mãos sobre a boca, para que o hálito não emporcasse mais ainda aquele ambiente luzidio.
Vasco da Gama sentia que tudo revoluteava à sua volta, como se estivesse ainda no cabo tormentoso onde a morte tinha chamado por ele. E se a água o não tinha tragado, sentia agora que este povinho efeminado e senhoril o queria esmagar com uma vaga de desprezo. Temeu então que se perdesse o encargo que o rei Manuel I lhe confiara. Não posso malograr esta missão, repetia de si para si mesmo. O futuro do reino está nas minhas mãos, não posso falhar». In João Morgado, Vera Cruz, Clube do Autor, Lisboa, 2015, ISBN 978-989-724-207-6.

Cortesia de CAutor/JDACT

domingo, 16 de abril de 2017

Vera Cruz. João Morgado. «Corriam pela vida, sentindo-se esquecidos pelos deuses e pelo seu senhor, que era deus em terra de homens, e que sempre os tinha protegido dos invasores»

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Vasco da Gama e o samorim de Calecute
«(…) Quando a armada acalmou as suas bocas-de-fogo, as paredes do palácio pararam de tremer. O samorim ainda aguardou uns minutos a certificar-se de que a ira dos portugueses tinha acalmado. Depois, bem depois, ainda trémulo, a vacilar, abeirou-se da janela estreita e olhou o mar. Ficou boquiaberto. Ao largo, viu os barcos alquebrados sobre as águas, envoltos em chamas e fumo negro. Só as embarcações portuguesas estavam intactas, imponentes. Três naus e uma caravela perto da costa, e uma outra mais longínqua que, de vez em quando, ainda disparava sobre pequenas barcas fugidias. O porto estava arrasado, sobravam apenas destroços, como se a terra tivesse tremido. A cidade estava esfacelada de um lado, com uma grande área semidestruída e em chamas, de onde se ouviam clamores de angústia. As suas gentes começavam a sair dos refúgios, a ver o volume dos destroços, a contar os mortos entre os seus, a 1ançar gritos de desespero aos céus. O pânico tinha-se instalado e todos começavam a correr em debandada para o outro lado da cidade, deixando os seus pertences, esquecendo os cadáveres e os feridos, largando as crianças assustadas e sujas pelas ruas, sufocadas em choro. Corriam pela vida, sentindo-se esquecidos pelos deuses e pelo seu senhor, que era deus em terra de homens, e que sempre os tinha protegido dos invasores. Mas o samorim teve a mesma sensação de abandono e impotência. Um calafrio lambeu-lhe a espinha e suores frios caíram-lhe pelo rosto. Estava em pânico. Ao longe, só os amontoados de cabanas de colmo dos sem casta pareciam ter sido poupados. Toda a parte nobre da cidade estava ferida de morte e até uma parte do sumptuoso palácio tinha sido atingida. Algumas torres ornamentadas estavam derribadas sobre os jardins.
Apenas alguns pórticos resistiam. Havia já colunas de pórfiro tombadas pelo chão, deixando os zimbórios semi-arruinados, tombados de esguelha sobre os fendidos terraços de mármore branco, por onde se viam os nobres brâmanes e serviçais sudras a fugir lado a lado sobre os escombros, esquecendo a hierarquia das castas. As flores tinham perdido o viço e os lagos artificiais vazavam águas prenhes de peixes mortos. As flores não tinham cor, como não tinham cor os peixes nem as faces atemorizadas do samorim. Foi então que vários guerreiros entraram nos seus aposentos. Dois barcos militares com portugueses dirigem-se à terra, informaram os homens, sem as usuais mesuras perante a presença do Príncipe dos Mares. Glafer compreendeu que podia estar eminente um ataque por terra à sua residência e que a sua própria vida corria perigo. Entendeu por isso que melhor seria fugir, ou antes, retirar-se estrategicamente para um lugar mais seguro, o seu palácio oficial, no interior do principado, junto às montanhas. Partiu resguardado na força dos homens mas rezando pela protecção divina. Na sua boca cabiam em simultâneo as palavras sagradas com que exultava os deuses e as palavras rudes com que amaldiçoava os portugueses e a hora em que os ventos os tinham levado a aportar nas suas terras, dois anos antes, ainda no governo de seu tio...
… Corria o dia 17 de Maio do ano do Senhor de 1498, quando três velas de grande porte chegaram com o vento sul e riscaram o horizonte límpido do mar de Calecute. Estavam capitaneadas por um barbudo infernal, Vasco da Gama, ele a bordo da nau São Gabriel, seu irmão Paulo da Gama, ao leme da nau São Rafael, e o conhecido capitão dos mares, Nicolau Coelho, à frente da caravela Bérrio. Há dias que marcam a história dos povos e este era um desses. O sol fingia ser igual ao de tantos outros dias, porque as sortes das gentes mudam de repente sem que os céus enviem um sinal. Dezassete de Maio, as costas malabares nunca mais seriam as mesmas; nem mesmo o reino de Portugal». In João Morgado, Vera Cruz, Clube do Autor, Lisboa, 2015, ISBN 978-989-724-207-6.

Cortesia de CAutor/JDACT

sábado, 15 de abril de 2017

Vera Cruz. João Morgado. «Meu senhor, perdoai-me, diz o bombardeiro que os homens estão encegueirados, que não divisam terra»

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Calecute
«(…) Muitas das embarcações de maior porte que se encontravam ao largo altearam as velas e embalaram a favor do vento para mar largo. Pequenas barcas a remos arranhavam nervosas as águas salgadas, esgueirando-se por entre corpos inanimados e peixes empolgados pelo sangue, por entre os restos de cordame, velas rasgadas, mercadorias naufragadas, alguns pendões bordados, restos de madeira dos paraus e zambucos, as pequenas embarcações indianas. Havia mastros e antenas a boiar com o lume ainda nas entranhas e uma quantidade enorme de ratos que procuravam nadar até terra. Ao cheiro da pólvora, juntava-se o cheiro do fogo: de madeira ardida e corpos abrasados. A carne destes porcos malparidos empesta os ares!, gritavam os soldados. Só o cheiro das especiarias que carregavam lhes animava de novo o olfacto e lhes despertava um sorriso no meio daquele tormento. Pedro Álvares mandou que se aproximassem de terra para ajustar a mira ao palácio do samorim e repetiu: fogo! Jesus Belomonte, o seu fiel escudeiro, olhava-o incrédulo: de tão transfigurado, mal o reconhecia. Altivo no seu porte, de rosto afogueado, faltava-lhe já a voz de tanto gritar por entre as névoas de fumaça e o ar irrespirável da pólvora queimada pelos canhões. Tinha atirado já com o elmo debruado de penas para a coberta suja do navio e retirado a armadura do peito. O sol rompia, o calor e a humidade sufocavam-no. Gotas de suor desabavam-lhe pela testa, pelo rosto, ensopavam-lhe a barba farta. Um homem gritava ao longe, esbracejava, mas o capitão-mor não o ouvia. Não ouvia ninguém. Não ouvia sequer a sua consciência. Os seus olhos estavam raiados de sangue, cegos pelo mal da ira. Meu senhor, interrompeu Belomonte tocando-lhe no braço. Meu senhor, perdoai-me, diz o bombardeiro que os homens estão encegueirados, que não divisam terra. Que lhes é impossível descortinar o palácio nesta correnteza de ventos fumados. Cabral parou. Não disse uma palavra. Os homens ficaram suspensos dos seus gestos enquanto escarravam para o chão e rangiam os dentes. Outros passavam as palmas da mão pelas testas limpando a sudação quente e salgada. Uma das bombardas de proa tinha mesmo rebentado causando a morte de um dos matalotes, um daqueles tantos marinheiros sem qualificação que estava encarregue de limpar as bocas dos canhões com o escovilhão comprido. As restantes peças de fogo ferviam pela explosão da pólvora e o arremesso constante. Repousavam agora. Era o primeiro minuto de silêncio naquela nau desde que se dera início à surriada contra os árabes e hindus.
Por fim. o capitão levantou a mão para suspender o troar dos canhões. O escudeiro levantou a bandeira e fez sinal às restantes naus para que também suspendessem o fogo. A mensagem foi passando entre as naus e os tiros aquietando. Belomonte, ordena ao despenseiro que seja ligeiro na repartição de uma canacla (antiga medida portuguesa igual a 1 litro e 4 decilitros) de água e biscoitos por todos os homens. O jovem curvou a cabeça em consentimento e saiu para cumprir as ordens. Os clérigos que se tinham recolhido assomavam agora nas vigias com as contas do rosário entre os dedos. As águas agitadas faziam ondular a nau. Ouvia-se por todo o lado o clamor sofrido de alguns homens. Uns queixavam-se dos ouvidos, pelo estrondo das explosões, outros tossiam tentando libertar-se da pólvora que lhes ressequira as gargantas. A água e os biscoitos souberam como uma iguaria de nobres. O físico que cuide dos feridos, ordenou o capitão-mor que permanecia firme no seu posto altaneiro». In João Morgado, Vera Cruz, Clube do Autor, Lisboa, 2015, ISBN 978-989-724-207-6.

Cortesia de CAutor/JDACT

terça-feira, 12 de abril de 2016

Vera Cruz. João Morgado. «As embarcações árabes que estavam junto do porto foram igualmente abalroadas, por temor que estas tivessem recolhido soldados durante a noite. Algumas ripostaram, mas a armada que já se posicionara estrategicamente para ter o domínio da baía»

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Calecute
«(…) Fogo, bradou o capitão. Fogo, gritava já rouco, uma e outra vez do alto do chapitéu, varejado de raiva, entre a névoa de fumo e o cheiro seco da pólvora que empestava a Capitânea, a nau-capitã, cabeça de toda a armada. Fogo, repetia incansavelmente num grito de batalha. E os canhões de bronze com as armas d'el-rei praguejavam aos céus com estrondo, cuspindo bolas de ferro fundido que destruíam impiedosamente as construções da cidade. Cabral vingava assim a morte de mais de cinquenta dos seus homens, vítimas duma cobarde traição de Glafer, o samorim (o rajá de Calecute era conhecido como Malayalam Samuttiri, senhor dos mares, tendo os navegadores aportuguesado o termo para samorim), senhor daquelas terras. Entre eles, Vaz de Caminha, que, mais que um devoto companheiro, fora seu amigo pessoal. Vivia-se o triste dia de 17 de Dezembro do ano do Senhor de 1500.
Meses antes, o samorim tinha autorizado a instauração de uma feitoria comercial no porto de Calecute, mas tal licença tinha gerado desde logo um forte mal-estar entre os usuais mercadores hindus e, sobretudo, entre os islamitas que controlavam o comércio daqueles mares. O descontentamento fora de tal monta que, sentindo-se coagido, o todo-poderoso daquelas terras entendera por bem virar o seu rosto divino para o lado, deixando que uma horda de sujeitos a soldo matasse os portugueses presentes na feitoria. Sabia que a represália dos portugueses seria inevitável, mas também sabia que a armada não tinha homens suficientes para virem a terra pedir meças com os seus guerreiros, tanto mais que tinha a mourama do seu lado. O que não contava era com o alcance e ferocidade dos canhões da armada, um poder de fogo nunca visto por aquelas paragens.
Logo no primeiro dia de bombardeio, uma parte dos muros de suporte da povoação caíram por terra. Imensas habitações desmoronaram sobre as gentes que ficaram soterradas nos pedregulhos. Pedras, madeiras, barro, metais, confundiram-se nos destroços com o sangue escuro dos que tinham sucumbido à avalanche. Os corpos ficaram esmagados, com a carne rasgada e as vísceras a servir de repasto aos animais pestjlentos que saíam dos buracos infectos e sombrios para conquistar o seu naco de carne morta. As armas caíram por terra, os estandartes tombaram, sem orgulho, junto aos soldados mortos. Calecute não tinha muralhas, era uma terra de comércio aberta ao mar. Dos barcos avistava-se todo o casario e podia-se ver como os pelouros impiedosos continuavam a vergastar a cidade, derrubando casas, soterrando as numerosas e amedrontadas famílias que pereciam entre rezas aos seus deuses. As suas vidas acabavam ali. Estonteados, não gritavam. Sem entenderem porque o mundo lhes desabava na cabeça, limitavam-se a procurar esconderijo nos lugarejos mais sombrios para que a morte não os enxergasse nos olhos. Apenas se perguntavam porque estavam zangados os céus, porque discutiam os deuses. E as esferas de ferro entravam enraivecidas paredes dentro, retalhando as casas, derribando-as, transformando-as em tumbas onde a morte sorria. Os canhões não estancavam o seu fogo. Fundeadas ao largo da povoação, com a Cruz de Cristo nas velas, quatro das cinco embarcações da armada portuguesa disparavam os seus canhões alternadamente, empenhadas que estavam em aniquilar aquela terra de pagãos assassinos.
As embarcações árabes que estavam junto do porto foram igualmente abalroadas, por temor que estas tivessem recolhido soldados durante a noite. Algumas ripostaram, mas a armada que já se posicionara estrategicamente para ter o domínio da baía, disparou com tal intensidade, tão certeira na sua mira, que mesmo antes de nascer o sol já todos os barcos daquele porto tinham sucumbido sem honra de combate digno desse nome. Uma embarcação de maior porte, semelhante a uma nau portuguesa, ainda esboçou um ataque à nau Capitânea, mas Nicolau Coelho, capitão da caravela São Pedro, atento a tudo o que se agitava em seu redor, disparou uma descarga de artilharia a curtíssima distância, deixando-a tolhida, com o casco fendido e a meter água. A danação dos portugueses era de tal monta que o capitão acabou por ceder aos urros dos seus homens e ordenar uma abordagem. Indisciplinados, com os olhos raiados de sangue, lançaram os cabos de abordagem e saltaram a bordo ainda a arder na febre da vingança, procurando uma luta corpo a corpo, esgrimindo espadas e talhando a carne dos que ainda ofereciam peleja digna desse nome. Os mais fortes levavam machados pesados que decepavam cabeças e abriam peitos. Era tanto o sangue, que o convés se tornava escorregadio sob as botas dos oficiais ou sob os pés descalços da marinhagem. Alguns levavam garrafas cheias de pólvora e chumbo, com o pavio pendente, chegavam-lhes fogo e atiravam o vasilhame mortal para o meio das hostes inimigas. As explosões chacinavam tudo à sua volta indiscriminadamente, os homens tombavam no chão como pássaros mortos, desfigurados, esquartejados; as espadas aliviavam os que sofriam, trespassando-os, aligeirando-lhes a morte. Muitos dos homens do samorim saltaram para o mar sem dignidade, temerosos da carga animalesca que lhes invadira a embarcação. Os outros, apanhados na fuga, eram simplesmente esventrados pelo metal frio das espadas e depois degolados. Alguns foram agrilhoados num poste e atormentados até à morte. Vamos enforcar o samorim, com as tripas do último perro índio, gritavam os soldados em histeria. As embarcações, ou a parca amostra que delas restava, estavam, entretanto, a ser saqueadas e incendiadas. Dez navios islâmicos que tinham lançado âncora no porto foram também arrestados, tendo-lhes sido confiscada a mercadoria e acabada a tripulação sem piedade. Alguns dos prisioneiros a quem reconheciam a arte das armas, foram capados e os sexos mutilados metidos bocas adentro antes de serem jugulados. As cabeças decepadas, algumas com as vergonhas ainda embutidas entre os dentes, a escorrerem sangue, foram recolhidas em cestos e colocadas num pequena embarcação, para que pudessem dar a terra num claro aviso aos traidores de Portugal. Foram centenas de cabeças desprendidas dos corpos». In João Morgado, Vera Cruz, Clube do Autor, Lisboa, 2015, ISBN 978-989-724-207-6.

Cortesia de CAutor/JDACT

terça-feira, 2 de junho de 2015

Vera Cruz. João Morgado. «E quando alguém se pergunta porque repousa em campa rasa um herói nacional como Pedro Álvares Cabral, é forçoso recapitular a sua vida, as suas relações com os poderes da época, é preciso mergulhar nas sombras da história»

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«A gesta dos Cabrais foi sempre gente de palavra, estavam mesmo isentos do juramento de fidelidade ao rei. Pedro Álvares Cabral honrou essa tradição, serviu em lealdade,
combateu com bravura, honrou os seus preceitos, até que um dia virou costas ao rei e nunca mais levantou a espada ao seu serviço. Porquê? Esta é umas das muitas perguntas que rodeiam a vida deste nobre guerreiro nascido em Belmonte, no coração das serranias, e fez nome nas lonjuras do mar. É forçoso perguntar que força o ergueu junto d'el-rei Manuel I e o levou a substituir Vasco da Gama na armada para as índias. E se terá chegado às terras de Vera Cruz por ordem do rei ou, pelo contrário, ancorou no Novo Mundo à sua revelia. No limiar do Renascimento, quando a luz irrompia nas trevas para maior lucidez dos homens, olhando para um reino frágil, doente, desgastado em guerras lá nos fins do mundo, talvez Cabral tenha olhado para o seu percurso e colocado a si próprio muitas questões. E talvez tenha questionado o seu serviço a um Deus e a um rei, em nome dos quais ele fora apenas um instrumento de morte. Talvez se tenha questionado sobre o papel de Portugal no mundo. No Norte de África. Nas terras de Vera Cruz. No longínquo no Oriente.
Pedro Álvares Cabral talvez não tenha gostado das respostas às suas próprias perguntas. Talvez não tenha gostado de ver a índole de homens a quem servia, talvez não tenha gostado do que ele acreditava vir a ser o futuro pouco promissor do seu reino despovoado, pobre e perdido em guerras além-mar. Talvez por isso tenha virado as costas à vã glória dos homens para se reencontrar consigo mesmo e com o verdadeiro Deus. É preciso entrar neste livro e seguir os seus passos, só assim se compreendendo as suas lealdades, as suas batalhas, os seus pesares, os seus amores e o seu destino de desprendimento. Segundo George Orwell, o passado é a coisa mais imprevisível do mundo, não pára de se transformar. É que revisitar o tempo passado dá sempre azo a novas questões e novas respostas. Assim, a nossa visão da história depende da coragem das nossas perguntas. E quando alguém se pergunta porque repousa em campa rasa um herói nacional como Pedro Álvares Cabral, é forçoso recapitular a sua vida, as suas relações com os poderes da época, é preciso mergulhar nas sombras da história.
Os livros académicos quase sempre nos passaram uma visão higiénica da história e dos seus heróis, uma cronologia de datas e nomes, e uma sinopse cheia de convicções ideológicas. Mas, mais do que nomes e datas, importa observar pessoas e contextos. O passado tem as virtudes e os defeitos dos homens que lhe deram corpo, e isso não pode ser ignorado. Olhar para os Descobrimentos portugueses é perceber o olhar mais-além de João II, a humilde inteligência de Bartolomeu Dias, a ganância alucinada de Manuel I, a ambição mal-educada de Vaco da Gama, os primores de honra de Pedro Álvares Cabral. Se deixarmos de olhar a floresta e tivermos um olhar atento a cada árvores de per si, veremos que nem todos os heróis foram perfeitos, e por isso, muita da nossa história nacional é feita de enganos. Um bom incentivo para ler novos ângulos de abordagem ao nosso passado.

Calecute
Quando a sua mão descia num gesto brusco morriam homens e mulheres. E a sua mão desceu uma e outra vez e a cada gesto respondiam com estrondo as peças de artilharia envoltas em fumo, vomitando pelouros, esferas de pedra ou ferro forjado, que rasgavam os ares e estilhaçavam Calecute, a mais rica cidade portuária das costas malabares, nos mares das índias (o termo Índia era ainda vago, abrangia um vasto território de vários reinos e vários soberanos; esta pluralidade levava à expressão índias; só após a exploração e delimitação do território se passou a utilizar o termo Índia para designar a península indiana mais alguns territórios e ilhas). Era o poder divino de tirar a vida a milhares de infiéis; um poder de quem servia a Deus, mas de quem obedecia igualmente ao poder terreno de um homem, el-rei de Portugal, Manuel I. Pedro Álvares Gouveia nascera em Belmonte e forjara o seu carácter no granito duro da Serra da Estrela, em terras do interior, já bem cerca da raia castelhana. Era o segundo filho varão de Fernão Cabral e Isabel Gouveia. Segundo os costumes da época, por não ser primogénito, usava o apelido da mãe e não o do pai. Apesar de tudo, era conhecido como O Cabral, pois apresentava uma complexão física muito similar à de seu pai, o conhecido Gigante da Beira. O seu irmão mais velho, João Cabral, companheiro de todas as horas, nome cimeiro da linhagem, concedeu-lhe mais tarde a prerrogativa de usar o nome da família e o brasão dos Cabrais. Pedro tudo faria para dignificar a honra recebida e deixar o nome nos anais da história de Portugal». In João Morgado, Vera Cruz, Clube do Autor, Lisboa, 2015, ISBN 978-989-724-207-6.

Cortesia de CAutor/JDACT

sábado, 29 de setembro de 2012

Capitães do Brasil. Elaine Sanceau. «Inesperada ou não, era uma terra encantadora que se revelou ao outro dia, ao amanhecer, quando os navios desferraram as velas para se aproximarem da costa. Todas de verde brilhante, árvores enormes erguiam os seus topes para o azul ferrete do céu»

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Terra da Vera Cruz
«Aos 24 dias de Abril, que foi quarta-feira da oitava da Páscoa, houve a dita armada vista de terra, de que teve grande prazer, diz um marinheiro anónimo. O que daqui se depreende não é que houvesse muita surpresa, mas apenas um interesse agradável. E a terceira testemunha ocular que deixou o seu relato não parece mesmo anunciar qualquer nova de descoberta:
  • ‘quanto Señor al sytyo desta terra, informa Mestre João, físico, dirigindo-se ao rei Manuel I, mande vosa altesa trazer un mapamundy que tyene Pero Vaz Bisagudo, e por ay podera ver vosa altesa al sytyo desta terra, en pero aquel mapamundy nõ çertyfica esta terra ser habytada o no, es mapamundy antiguo’.
Inesperada ou não, era uma terra encantadora que se revelou ao outro dia, ao amanhecer, quando os navios desferraram as velas para se aproximarem da costa. Todas de verde brilhante, árvores enormes erguiam os seus topes para o azul ferrete do céu; o mar, também azul ferrete, desfazia-se em ondas translúcidas sobre a fina areia da praia, e o vento, fresco e rescendente, era como uma carícia. A Pero Vaz de Caminha lembrava--lhe a brisa do Verão no seu Entre-Douro-e-Minho natal.
A armada lançou ferro na foz dum rio que corria por entre as sombras verdes. Os capitães reuniram-se na capitaina e discutiram os seus planos com os pilotos. Não era esta uma reunião de personalidades banais a que presidia Pedro Álvares Cabral.
O Capitão-General, fidalgo alto e magro, era um soldado valente, mas ao mesmo tempo homem brando, mesurado e de juízo prudente, qualidades que tinham presidido à sua escolha, como também a distinção do seu parentesco. Homem experimentado como era, podiam bem confiar-lhe o comando, no que o auxiliariam os seus distintos subordinados.

O primeiro de todos era Bartolomeu Dias, que descobrira o Cabo de Boa Esperança. Com ele ia Diogo Dias, seu irmão, de feitio alegre, que acabara de regressar da Índia com Vasco da Gama. Também ali ia Nicolau Coelho, que na viagem à Índia comandara a caravela ‘Bérrio’. Havia ainda o famoso piloto Pero Escobar, explorador das cataratas do Congo com Diogo Cão, uns 13 anos antes, e que fora à Índia no navio de Nicolau Coelho». In Elaine Sanceau, Capitães do Brasil, Fundação Gulbenkian, Livraria Civilização Editora, Porto, 1956.

Cortesia de Livraria Civilização/JDACT

sábado, 8 de setembro de 2012

Os Sete Únicos Documentos de 1500. Conservados em Lisboa referentes à viagem de Pedro Álvares Cabral. «A forma porque termina a segunda página do ‘borrão original’ mostra que as instruções conservadas tinham seguimento, tendo-se perdido as outras páginas em que Alcáçova Carneiro as escrevera»


Documento II, página 1
Leitura por AntónioBaiao
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Documento II
«Para a confecção da parte náutica do Regimento real, a entregar a Cabral para a sua viagem, foi ouvido Vasco da Gama, a cuja experiência de 1497 a 1499 muito convinha atender. O secretário Alcáçova Carneiro foi quem, ouvindo o Gama, escreveu as suas instruções. Ainda se conserva o ‘borrão original’ da primeira folha dessas instruções, ditadas por Vasco da Gama.
Varnhagen, depois visconde de Porto Seguro, adquiriu na quinta década de ‘oitocentos’, talvez em Madrid, o precioso Documento; publicou-o em fac-simile na sua ‘História do Brasil’, e ofereceu-o à Torre do Tombo, depois de 1854, onde se julgou perdido. Em 1921 foi reproduzido por Malheiro Dias, também em fac-simile, servindo-se do publicado por Varnhagen, acompanhado da respectiva leitura por António Baião.

O documento original, com a carta de Varnhagen (sem data) oferecendo-o à Torre do Tombo, foi encontrado em 1934 por Baião num envelope ao canto duma das gavetas das numerosas mesas daquele Arquivo. Em sessão da Academia das Ciências, de 19 de Abril do mesmo ano, António Baião comunicou o seu achado do Documento, o qual está hoje conservado no referido Arquivo.
Em 1938 foi ele publicado em tradução inglesa pelo professor americano Morison e por Greenlee.
A forma porque termina a segunda página do ‘borrão original’ mostra que as instruções conservadas tinham seguimento, tendo-se perdido as outras páginas em que Alcáçova Carneiro as escrevera. Os traços que se vêm nas ‘linhas de borrão’, texto e notas marginais, indicam que ele foi passado a limpo, isto é, os conselhos do Gama foram depois utilizados na confecção do Regimento real, mas, até hoje, ainda não foi encontrado o original, ou mesmo qualquer cópia desta parte de tão notável Documento.
As instruções do grande Gama são as primeiras conhecidas, para a navegação duma armada em conjunto. Elas marcaram nos conhecidos ‘Regimentos reais’ dados a Francisco Almeida em 1505, a Fernão Soares em 1507, a Diogo Lopes Sequeira em 1508 e Gonçalo Sequeira em 1510.

Documento II, página 2
Leitura de AntonioBaiao
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Também a rota esboçada pelo Gama, desde as ‘Ilhas de Cabo Verde’, para ir dobrar o ‘Cabo da Boa Esperança’, mostra que ele conhecia os ventos e talvez mesmo as correntes do Atlântico, Norte e Sul.
Este Documento, deve ter sido escrito em Lisboa na última quinzena de Fevereiro de 1500, entre 1 de Fevereiro, data do Documento I, e 1 de Março, data do Documento V. É ele o mais antigo original português que contém o nome do ‘Cabo da Boa Esperança’». In Fontoura Costa, Os Sete Únicos Documentos de 1500, conservados em Lisboa referentes à viagem de Pedro Álvares Cabral, Torre do Tombo, 1968.

continua
Cortesia da Torre do Tombo/JDACT

Os Sete Únicos Documentos de 1500. Conservados em Lisboa referentes à viagem de Pedro Álvares Cabral. «Carta régia da nomeação de Pedro Álvares de Gouveia para capitão-mor da armada, Lisboa, 15 de Fevereiro de 1500. Nasceu em Belmonte no ano de 1467 ou de 1468, sendo seus pais Fernão Cabral e Isabel de Gouveia. Pedro Álvares era o segundo filho»

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«Ao chegar ao Tejo Nicolau Coelho a I0 de Julho de 1499, capitaneando o ‘Bérrio’,
com a feliz nova de Vasco da Gama ter atingido a Índia pelo sueste em Maio de 1498, logo o rei Manuel I mandou preparar uma nova armada para ir ao Oriente.
O rei escolheu Pedro Álvares Cabral para capitão-mor dessa frota de treze navios, que zarpou da praia do Restelo a 9 de Março de 1500.
A viagem de Pedro Álvares Cabral, 1500-1501, marcou como uma das mais notáveis dos Descobrimentos marítimos dos portugueses.
A cuidadosa organização; o extremo arrojo; os trágicos temporais; a boa navegação; o achamento de novos astros e de novas terras; a humanitária conduta do chefe e dos seus homens; as mercadorias trazidas do Oriente; as informações obtidas; tudo, enfim, contribuiu para que essa viagem seja considerada como uma das mais excepcionais dos nossos mareantes de antanho, embora não se lhe tivesse reconhecido, então, todo o seu merecido valor.

No existem quaisquer Documentos portugueses, coevos, para o estudo preciso de toda a viagem de Cabral. Mas, facto bem raro, conservam-se ainda em Lisboa sete de 1500, que permitem conhecer parte da sua organização; as instruções dadas ao capìtão-mor; seus objectivos; sua navegação e achamento da ‘Terra de Vera Cruz’; e sua estada nesta terra até 2 de Maio de 1500, dia em que a importante armada a deixou.
Eis a nota dos “Sete Documentos de 1500”.
  • Documento I. - Carta régia da nomeação de Pedro Álvares de Gouveia para capitão-mor da armada, Lisboa, 15 de Fevereiro de 1500;
  • Documento II. - Borrão original da primeira folha das Instruções de Vasco da Gama para a viagem de Cabral, sem local, nem data;
  • Documento III. - Borrão original de algumas folhas das Instruções régias, Regimento real, dadas a Cabral para a sua viagem, sem local, nem data;
  • Documento IV. - Borrão original das Instruções régias adicionais, sob a forma de carta dadas a Cabral para a sua viagem, sem local, nem data;
  • Documento V. - Carta de Manuel I ao rei de Calecute, Lisboa, 1 de Março de€ 1500. Enviada por Cabral;
  • Documento VI. - Carta do achamento do Brasil, por Pêro Vaz de Caminha, dirigida ao rei Manuel I, Porto Seguro, da Ilha de Vera Cruz, 1 de Maio de 1500;
  • Documento VII. - Carta de Mestre João, dirigida ao monarca Manuel I, Vera Cruz, 1 de Maio de 1500.
Os quatro primeiros são relativos à organização da armada, à sua navegação e aos seus fins orientais, o seguinte diz respeito ao Samorim; estes cinco Documentos são anteriores a 8 de Março de 1500, dia da partida da frota da praia do Restelo. Os dois restantes foram escritos em Vera Cruz a 1 de Maio de 1500, já depois do achamento desta terra ocidental, na véspera da armada dali zarpar.
Todos eles vão ser reproduzidos, com algumas explicações prévias. As referentes ao Documento VI, Carta de Pêro Vaz de Caminha, são todas da autoria do Arquivo Nacional da Torre do Tombo, isto é, de António Baião.

Perdeu-se o relato de Cabral, dirigido a Manuel I, sobre a parte da viagem da sua armada, desde a saída da praia do Restelo até à chegada à Terra de Vera Cruz; mas os dois últimos Documentos citados permitem dar o Resumo cronológico dos seus factos mais importantes.

Resumo Cronológico dos Factos mais Importantes da Viagem de Cabral, de 9 de Março até 2 de Maio de 1500:
  • Segunda, Março 9, Partida da armada de Cabral, composta de treze navios, da praia do Restelo;
  • Sábado, Março 14, - Avista-se a Gran Canária;
  • Domingo, Março 22, - Avista-se S. Nicolau de Cabo Verde;
  • Domingo para Segunda, Março 22h23, - Tresmalha-se a nau capitaneada por Vasco de Ataíde, a qual não mais devia aparecer;
  • Desde a data anterior, - Mestre João começa divisando a Cruz, Cruzeiro do Sul, que precisa e esquema;
  • Terça, Abril 2l, - Primeiros sinais de terra, ao Ocidente do Atlântico meridional;
  • Quarta, Abril 22, - Avista-se terra, que Cabral denomina: o Monte Pascoal e a Terra de Vera Cruz. A esquadra âncora perto da costa (junto do actual rio Cahy);
  • Quinta, Abril, 23, - Nicolau Coelho é mandado a terra, mas não desembarca;
  • Sexta, Abril, 24, - A frota muda de ancoradouro, indo as naus fundear 10 léguas mais ao Norte à entrada, e os navios pequenos dentro, duma baía que Cabral denomina Porto Seguro. Estabelecem-se as melhores relações com os índios locais;
  • Domingo, Abril, 26, - Domingo de Pascoela. Primeira missa num ilhéu, hoje chamado Recife da Coroa Vermelha;
  • Terça, Abril, 28, - Principia-se em terra a construção duma cruz de madeira, junto do rio Itacumirim (hoje Mutary);
  • Sexta, Maio, 1, - É hasteada a cruz e rezada a segunda missa, num pequeno outeiro da margem esquerda do rio Itacumarim;
  • Sábado, Maio, 2, - Partida da esquadra. Cabral, com onze navios, segue a dobrar o Cabo da Boa Esperança; Gaspar de Lemos, capitaneando o navio dos mantimentos, ruma para o Tejo com a nova do achamento de Vera Cruz.
Documento I
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Os sete Documentos têm sido publicados em português várias vezes, mais ou menos isolados uns dos outros. In Fontoura Costa.

Documento I
Carta régia da nomeação de Pedro Álvares de Gouveia para capitão-mor da armada, Lisboa, 15 de Fevereiro de 1500
Pedro Álvares Cabral nasceu em Belmonte no ano de 1467 ou de 1468, sendo seus pais Fernão Cabral e Isabel de Gouveia. Pedro Álvares era o segundo filho, sendo seu irmão João Fernandes Cabral o primogénito. Talvez por isso usasse o apelido de sua mãe, sendo conhecido por Pedro Álvares de Gouveia. O próprio Manuel I ainda assim o tratava a 15 de Fevereiro de 1500, ao nomeá-lo capitão-mor da esquadra; mas a 1 de Março já lhe chama Pedro Álvares Cabral.
Existência e publicação da carta régia da nomeação. No Arquivo Nacional da Torre do Tombo existe o registo da carta régia da nomeação de Pedro Álvares de Gouveia (Chanc. de D. Manuel, Liv. 13.", fol. 10).
Foi publicada em Portugal por Aires de Sá e na Índia Portuguesa.
Em tradução inglesa foi publicada por Greenlee». In Fontoura Costa, Os Sete Únicos Documentos de 1500, conservados em Lisboa referentes à viagem de Pedro Álvares Cabral, Torre do Tombo, 1968.

Cortesia da Torre do Tombo/JDACT

domingo, 19 de agosto de 2012

Capitães do Brasil. Elaine Sanceau. «Era natural que Cabral navegasse para o sudoeste no seu caminho em direcção ao Cabo; a questão é esta: porque foi ele tão longe, em direcção ao sudoeste? A navegação portuguesa do tempo não se fazia ao acaso. A ser assim, obedecia às ordens recebidas…»


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Terra da Vera Cruz
«O sol declinava lá para os lados da floresta distante. Para o sul, levantava-se uma longa cordilheira negra na escuridão que descia. A noite cobria rapidamente com o seu manto um continente desconhecido, e toldava o mar cor de opala, cujas ondas apagavam, com o seu barulho, os ruídos da floresta.
A escuridão estendia-se por milhas sem conta cobrindo a terra. Das profundezas do mar ondulavam, ora subindo, ora descendo, as luzes trémulas de treze navios. Os mastros e as vergas, cujas velas haviam sido colhidas, balouçavam, negros, ocultando o cruzeiro do sul. Nos elevados castelos da proa e da popa, apinhavam-se os homens, com olhos sôfregos a interrogarem a noite.
Eis a esquadra que à Índia mandava S. A. el-rei Manuel I. Manuel o ‘Venturoso’, que apenas oito meses antes saudara Vasco da Gama de regresso da terra das especiarias. Finalmente abrira-se o caminho marítimo para a Índia. Os navios portugueses tinham encontrado Calicute. As antigas igrejas do Oriente iam ser enfim libertadas pelos cruzados do Ocidente do seu isolamento milenário, O comércio das especiarias do Oriente, com que o Islão tinha enriquecido durante tanto tempo, ia esvaziar agora os seus tesouros nas mãos de cristãos. Chegara o momento de negociar com os reis hindus, no prosseguimento das primeiros tentativas e afastando todo o desentendimento. Por isso Pedro Álvares Cabral fora mandado a Calicute para concertar pazes com o Samorim e levar-lhe um esplêndido presente.
- Mas então que viera ele fazer a esta costa do Ocidente, na orla da ‘Quarta Parte do Mundo?’ Aqui está uma pergunta que os estudiosos têm discutido de todos os pontos de vista com erudição, com ignorância, com imparcialidade, com paixão, com calma convicção ou com cepticismo, sem jamais haverem chegado a qualquer conclusão. A teoria de uma violenta tempestade que afastasse a esquadra da sua rota há muito que foi posta de parte. Não se encontra, entre os relatos das testemunhas presenciais, nenhuma indicação de mau tempo, e os marinheiros, que conhecem os ventos do Atlântico, declaram que nenhum golpe de vento podia ter arrastado a armada por este rumo; tão pouco parece poder-se responsabilizar as correntes oceânicas por tal desvio.
É evidente que as armadas da Índia faziam rumo para Ocidente antes de procurarem o Cabo; os navios à vela ainda hoje o fazem. Vasco da Gama seguiu sem hesitação em direcção ao sudoeste ao largar das ilhas de Cabo Verde, sendo provável que nem fosse dele próprio tal ideia. Os navegadores portugueses haviam estudado o regime dos ventos atlânticos, durante muitos anos antes da sua viagem. Era portanto natural que Cabral navegasse para o sudoeste no seu caminho em direcção ao Cabo; a questão é esta:
  • Porque foi ele tão longe, em direcção ao sudoeste? A navegação portuguesa do tempo não se fazia ao acaso.
Portanto, se Pedro Álvares Cabral se encontrava em frente desta costa, deve ter sido com intencionalidade, e, a ser assim, obedecia às ordens recebidas. O capitão-general duma esquadra de treze naus equipadas para o comércio e para a guerra, encarregado duma missão diplomática importante e melindrosa, não devia perder o seu tempo com explorações inúteis. Por isso parece que o mais provável foi Cabral ter chegado aquela costa porque o rei, seu amo, pensava que, ficando no seu caminho, a armada devia reconhecê-la e reclamá-la para a Coroa, pois essas terras ocidentais se encontravam no hemisfério designado para Portugal no tratado de Tordesilhas,
Que essas terras não constituíram surpresa, era mais que evidente, como se pode concluir das narrativas de testemunhas presenciais:
  • seguimos nosso caminho per este mar delongo ataa terça feira doitavas de pascoa que foram XX dias dabril que topamos alguüs synaaes de tera, escreve Pero Vaz de Caminha, escrivão do Capitão, como se não tivessem visto mais do que o que esperavam ver.
In Elaine Sanceau, Capitães do Brasil, Fundação Gulbenkian, Livraria Civilização Editora, Porto, 1956.

Cortesia de Livraria Civilização/JDACT

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Gaspar da Gama: A sua história é fascinante. Comerciante de origem judaica, foi uma das personagens mais curiosas e exóticas da esquadra de Pedro Álvares Cabral. Apesar de não ser o único poliglota na esquadra que descobriu o Brasil, foi considerado o «língua da frota», o intérprete que traduziu as negociações comerciais entre portugueses e indianos

(1444-1510/1520)
Poznan, Polónia ou Alexandria, Egipto(?)
Cortesia de olharglobal

Gaspar da Gama foi um comerciante de origem judaica que actuou como intérprete e prestou vários serviços aos portugueses nas Índias, onde foi encontrado por Vasco da Gama. Era conhecido por falar várias línguas do Oriente e do Ocidente. Navegou com diversas esquadras portuguesas entre a Europa e as Índias, inclusive com a esquadra de Pedro Álvares Cabral. Foi certamente um dos primeiros europeus a desembarcar no Brasil e a tentar comunicar com os índios tupiniquins.

O seu nome original é desconhecido. Aparece com o nome de Gaspar da Gama ou Gaspar das Índias nas crónicas e relatos dos descobrimentos portugueses escritos por Gaspar Correia, Fernão Lopes de Castanheda, Jerónimo Osório, Damião de Góis e Álvaro Velho no entanto era conhecido pelos indianos como Mahmet. Algumas fontes mais recentes confundem-no com um navegador português que comandou um dos navios da frota que descobriu o Brasil. Outras fontes ainda o chamam de Gaspar d'Almeida face à sua amizade com Francisco de Almeida, 1º vice-rei da Índia. Existem várias versões sobre sua vida antes de encontrar Vasco da Gama nas Índias. O cronista Gaspar Correia conta que, ao ser encontrado pelos portugueses, Gaspar da Gama era capitão-mor da esquadra de Adil Xá, o sultão de Bijapur, governador árabe de Goa, na Índia. Damião de Góis afirma que Gaspar da Gama era judeu natural da cidade de Poznan, no reino da Polónia e que, nesta época, não falava espanhol, mas italiano, ou seja, a língua véneta, idioma muito utilizado nos centros comerciais do Oriente que recebiam europeus. João de Barros relata que o próprio Gaspar da Gama lhe contou que seus pais eram de Poznan na Polônia. Quando os judeus foram expulsos da cidade, seus pais emigraram para Jerusalém e depois para Alexandria, onde Gaspar da Gama nasceu.

Cortesia de gojaba
Elias Lipiner estudou a documentação dos cronistas portugueses da época das grandes navegações e considerou a versão de João de Barros como a mais fiel aos factos, sugerindo que Gaspar da Gama tenha nascido em Alexandria, Egipto por volta de 1458. Seguindo rotas comerciais conhecidas pelos judeus da época, ele deve ter chegado muito jovem às Índias onde se estabeleceu como comerciante. Já o historiador Arnold Wiznitzer acha mais provável que ele tenha mesmo nascido em Granada como conta o cronista Gaspar Correia, que morou nas Índias e é quem mais apresenta detalhes sobre Gaspar da Gama. Uma outra versão diz que Gaspar da Gama nasceu perto do ano de 1440 na região da Bósnia (talvez por confusão com o nome de Poznan), que, ainda menino, migrou para a Alexandria e, por volta de 1470, mudou-se para as Índias.

Cortesia de interklasa
Quando a primeira esquadra portuguesa chegou às Índias aportou na ilha de Angediva, no Oceano Índico, a cerca de 20 Km da costa de Goa, Gaspar da Gama, sem ser convidado, apresentou-se na nau de Vasco da Gama e pediu alegremente permissão de ir num navio seu, para visitar Espanha. Era então um homem de mais de 50 anos, idade avançada para a época, com barbas brancas, bem mais alto e claro que os indianos da região. Conforme relato do escrivão da frota portuguesa, Álvaro Velho, Gaspar da Gama disse que «trabalhava para um poderoso senhor dono de um exército com mais de 40 mil homens de cavalo, e que ao saber da chegada dos estrangeiros pediu ao patrão que fosse vê-los. Se não deixasse morreria de tristeza». Alguns comerciantes cristãos, considerados os mais confiáveis, contaram ao portugueses que Gaspar da Gama era um «espião» e que preparava um ataque de surpresa. Ao saber disto, Vasco da Gama mandou açoitar o visitante e interrogá-lo sob tortura. Depois, Gaspar da Gama contou ser judeu de Granada convertido ao cristianismo, que tinha viajada para a Turquia e Meca e depois para as Índias, e que não havia qualquer plano de atacar os portugueses. De seguida, Vasco da Gama passou a confiar mais no prisioneiro. Vasco da Gama manteve Gaspar da Gama como prisioneiro e levou-o na viagem de volta para Portugal, talvez considerando que seus conhecimentos sobre o Oriente seriam úteis nas próximas expedições. Durante o longo retorno, Gaspar da Gama acabou tornando-se amigo dos portugueses e, especialmente de Vasco da Gama. Quando foi baptizado no ano seguinte, Vasco da Gama foi seu padrinho e deu lhe o seu próprio sobrenome. O primeiro nome, Gaspar, provavelmente foi escolhido como referência às suas origens, pois é o nome de um dos três Reis Magos que vieram do Oriente para visitar Jesus.

O rei D. Manuel  gostou de Gaspar da Gama e passou a chamá-lo frequentemente à corte para ouvir suas estórias sobre as terras e costumes do Oriente. Havia ainda a desconfiança de que Gaspar da Gama fosse um espião árabe, mas os portugueses reconheciam o seu valor, pois, além de ter comerciado em alguns de seus centros comerciais das Índias, também falava latim, árabe, italiano, castelhano, português e algumas línguas das Índias. Devido a isto, o rei D. Manuel nomeou-o conselheiro e intérprete da esquadra que foi para as Índias comandada por Pedro Álvares Cabral.
Sempre com uma touca na cabeça e vestido com roupa branca de linho, Gaspar da Gama foi uma das personagens mais curiosas e exóticas da esquadra de Pedro Álvares Cabral. Apesar de não ser o único poliglota na esquadra que descobriu o Brasil, foi considerado o «língua da frota», o intérprete que traduziu as negociações comerciais entre portugueses e indianos, assim como os encontros do comandante Pedro Álvares Cabral com os rajás.

Cortesia de memoriadosdescobrimentosnaceramica
Arnold Wiznitzer e Elias Lipiner dizem que Gaspar da Gama foi o primeiro judeu a aportar no Brasil pois estava com Nicolau Coelho no primeiro bote que se aproximou das praias brasileiras e tentou comunicar com os «índios tupiniquins» utilizando as línguas da Índias, árabe e hebraico. Outro intérprete da frota que tentou falar com os locais, sem sucesso, foi Gonzalo Madeira, de Tânger, talvez um cristão-novo judeu ou muçulmano. Nas Índias, Gaspar da Gama cumpriu a sua missão sem trair os portugueses em qualquer momento. Os seus serviços de intérprete e conhecimentos de geopolítica e costumes das Índias foram importantes nos encontros comerciais de portugueses e indianos em Calecute e Cochim.

Cortesia de pedrodealbuquerque.wordpress
A mudança dos nomes de Ilha de Vera Cruz e Terra de Santa Cruz para Brasil é atribuída por alguns a Gaspar da Gama e Fernão de Noronha, ambos de origem judaica. Entretanto, tal facto não têm base histórica. O que ocorreu foi devido ao intenso comércio de pau-brasil.
Participou nas Índias em expedições dos portugueses que tentaram conquistar Ormuz em 1508 e Calecute em 1510, época em que alguns supõem que ele tenha morrido. Outros consideram que ele tenha regressado a Portugal onde morreu. Alguns dizem que sua morte ocorreu entre 1510 e 1515, ou até em 1520, com quase oitenta anos de idade.
Cortesia de wikipédia/Revista Judaica/Elias Lipiner/JDACT