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quarta-feira, 23 de maio de 2012

O Fado e José Régio. Portalegre. «A minha glória é esta: criar desumanidade! Não acompanhar ninguém. Que eu vivo com o mesmo sem-vontade com que rasguei o ventre à minha mãe. O Fado nasceu um dia, quando o vento mal bulia…»



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Cântico Negro
"Vem por aqui" - dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...

A minha glória é esta:
Criar desumanidade!
Não acompanhar ninguém.
- Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe

Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...

Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...

Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos…

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tectos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...

Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém.
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
-Sei que não vou por aí!








Fado Português
O Fado nasceu um dia,
quando o vento mal bulia
e o céu o mar prolongava,
na amurada dum veleiro,
no peito dum marinheiro
que, estando triste, cantava,
que, estando triste, cantava.
Ai, que lindeza tamanha,
meu chão, meu monte, meu vale,
de folhas, flores, frutas de oiro,
vê se vês terras de Espanha,
areias de Portugal,
olhar ceguinho de choro.
Na boca dum marinheiro
do frágil barco veleiro,
morrendo a canção magoada,
diz o pungir dos desejos
do lábio a queimar de beijos
que beija o ar, e mais nada,
que beija o ar, e mais nada.
Mãe, adeus. Adeus, Maria.
Guarda bem no teu sentido
que aqui te faço uma jura:
que ou te levo à sacristia,
ou foi Deus que foi servido
dar-me no mar sepultura.
Ora eis que embora outro dia,
quando o vento nem bulia
e o céu o mar prolongava,
à proa de outro veleiro
velava outro marinheiro
que, estando triste, cantava,
que, estando triste, cantava.

Poemas de José Régio

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Poesia. Figuras e Costumes do Alentejo. Francisco Bugalho. «E a leiva sobe na aiveca e vai ficando tombada, ao seu feitio moldada, sobre outra leiva já seca»



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Ganhão
 Minha junta vai puxando
morosa, lenta, cansada;
que a leiva que vai virando,
vai ficando bem virada.

Passam dois corvos grasnando.
E à minha volta mais nada…

A relha que rasga a terra
rasga e beija docemente.
Breve se acaba esta guerra
só de sonhar a semente.

Nos vales de terra molhada
piam abibes em bando.

E a leiva sobe na aiveca
e vai ficando tombada,
ao seu feitio moldada,
sobre outra leiva já seca.

Minha junta vai puxando
pesada, lenta, cansada …

Ao fundo, no horizonte
só um sobreiro pasmado;
nem um ruído de fonte,
nem um chocalho de gado.

Nem algum cantar perdido
de certas horas felizes.
Só canta no meu ouvido
este estalar das raízes.

A leiva que vou virando
vai ficando bem virada …

Poema de Francisco Bugalho, in ‘Figuras e Costumes do Alentejo’

JDACT

Notas acerca das Origens de Portalegre. Uma questão de Geografia Humana. «… passa o velho caminho luso-romano-mourisco e actual que ligava e liga Arronches, Monforte, Cabeço de Vide, Crato, Alpalhão, Nisa, Castelo de Vide e Marvão, mas o principal ponto de encontro de todas estas vias está no Rossio de Portalegre: sempre o Rossio, repare-se»



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«Jaime Cortesão e Orlando Ribeiro, talvez os mais destacados geógrafos contemporâneos, defendem que ‘depois do território, o Homem’. Ora, a região da serra de S. Mamede e Portalegre constituem um excelente exemplo de como a Terra e o Homem passaram aqui pelas fases clássicas: a ocupação do solo por uma população fixa (ibérica, celtibérica, lusitana); a organização dos povoados e dos caminhos (período romano); o desenvolvimento regional à custa do comércio (período paleocristão e período muçulmano); e finalmente a integração no Reino (período régio, notável na primeira dinastia).
As montanhas da serra de São Mamede protegem as povoações da sua vertente ocidental dos ventos do norte frios e, ao mesmo tempo, dificultaram e impediram as agressões dos povos vindos do Leste. A serra é uma muralha que separa, de noroeste para sueste, duas regiões bastante semelhantes e culturalmente idênticas, repare-se da mesopotâmia entre o Tejo e o Guadiana: uma fazendo parte da Estremadura espanhola actual e a outra transtagana portuguesa. Este facto pode comprovar-se duma forma
curiosa por quem, ao pôr do sol , se desloque, pela estrada que vem de Cáceres e Alcântara a caminho de Marvão. Marvão, Castelo de Vide, Crato, Arronches, Alpalhão, Monforte e mesmo os Fortios foram sempre povoados de valor militar e sofreram os horrores das guerras; Portalegre ficava “protegido” por aquele contraforte natural e pelo Atalaião.

No vale que separa a cidade do monte da Penha de S. Tomé, onde corre a ribeira da Lixosa que se dirige para a ribeira do Caia que, por sua vez, é afluente do rio Guadiana (a ribeira de Nisa nasce próximo também na serra de São Mamede mas as suas águas correm em direcção oposta e termina no rio Tejo), passa o velho caminho luso-romano-mourisco e actual que ligava e liga Arronches, Monforte, Cabeço de Vide, Crato, Alpalhão, Nisa, Castelo de Vide e Marvão, mas o principal ponto de encontro de todas estas vias está no Rossio de Portalegre: sempre o Rossio, repare-se.
Pensamos que não se pode tentar compreender as origens, a evolução, o desenvolvimento e a história de Portalegre sem nos debruçarmos sobre a serra de S. Mamede. Existe aqui um vínculo geográfico, histórico, antropológico e cultural que vem desde os tempos mais recuados. No Rossio, lá está a ermida do Espírito Santo, colada ao Hospital antigo a recordar-nos que ali foi o albergue dos caminhantes; foi até lá que se encontrou a pedra lavrada da “Ammaia”, que nada tem directamente com Portalegre, e que mãos cristãs ali colocaram para que fosse cristianizada. Aurélio Silva (1950) diz que, em 1274, já existiam no Rossio essa ermida e esse albergue. E decerto também já lá estava o arrabalde da Devesa, a rua direita e a igreja de S. Lourenço.

Por tudo o que dissemos, está para nós fora de qualquer dúvida que o nome actual da cidade de Portalegre deriva dos termos latinos “Portus” e “Alacer”; “Portus alacer” nos escritos da chancelaria do rei Dinis.
O termo “Portus” não se emprega apenas na acepção do porto de mar; também significa lugar de abrigo, de refúgio e de repouso em terra. conhecem-se dezenas de povoados denominados portos, (de terra) em Portugal e nas Espanhas. Aqui está outra vez a referência aos caminhos, à Serra e ao Rossio». In Caria Mendes, Notas acerca das Origens de Portalegre. Uma questão de Geografia Humana, Faculdade de Medicina de Lisboa, Actas do I Encontro da História Regional e Local, Setembro de 1987.


Cortesia do CRAP/ESEP/JDACT

Judeus e Cristãos Novos no distrito de Portalegre. Maria Ferro Tavares. «Manuel I comprometera-se no édito de expulsão das minorias judaica e moura a indemnizar os beneficiários destas rendas e direitos. Assim o fez utilizando para isso as sisas, dizimas e direitos dos almoxarifados»



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«Em 1458, Salomão Maçoude, ferreiro fazedor de armas, obtinha deste monarca a isenção de pagamento de direitos reais e de impostos à comuna, da prestação de serviços a esta, além da isenção de aposentadoria. Mestre Moisés Tobi, físico, Judas Tobi, discípulo nesta arte, mestre Vidal, cirurgião e Isaac Francês, também cirurgião recebiam autorização para se poderem deslocar em besta muar de sela e freio.
Elvas destacava-se sem dúvida na região, seguindo-se-lhe Castelo de Vide, Arronches, Fronteira, Crato e Portalegre apenas com um. Na sua generalidade eram físicos ou cirurgiões e mercadores. Mais raros eram os privilégios concedidos a artesãos.
Pelo que conhecemos, podemos dizer que eles se identificavam também com a oligarquia, como rabi Sad, rabi José Amigo, servidor de Afonso V, mestre Abraão, físico e cirurgião e rabi em 1475-78 ou Salomão Penço, físico e rabi em 1486, em Elvas.
Os judeus destas comunidades, à semelhança do seus correligionários, pagavam anualmente ao rei o serviço real. No final de trezentos e no início de quatrocentos, João I acrescentar-lhes-ia o serviço novo das 300 000 libras e a peita ferreira para os ferreiros de Ceuta. Além destes, contribuíam nos tributos extraordinários, como os pedidos e empréstimos ao rei.
Ignoramos a totalidade do valor do serviço real, velho e novo, e das rendas das judiarias da região em questão. Os cálculos conhecidos não são os totais, na sua generalidade, pois só sabemos a quantia dos direitos reais doada e não a sua soma o que leva a certos paradoxos como, por exemplo, a superioridade do total conhecido da comuna de Olivença, sobre a de Évora, sendo esta a segunda comunidade do reino.
O rei João I desenvolveria a prática já incipientemente iniciada por seu irmão da doação aos seus servidores dos direitos reais das comunas do reino. Em 1384, o serviço e cabeças dos judeus de Elvas eram concedidos a Gil Fernandes, escudeiro e, o serviço real de Avis a Rodrigo Afonso, criado do Mestre de Avis. Em 1390, as cabeças e serviços de Elvas passavam para Fernão Lopes de Abreu e as rendas da judiaria, em 1390, eram doadas a Álvaro Gonçalves, alcaide da vila. João Falcão, cavaleiro da casa do infante Pedro, recebia em 1433 o serviço novo das comunas de E1vas, Campo Maior e Juromenha o qual seria confirmado por Afonso V em 1450. O mesmo fidalgo obteria, em 1436, o direito do genesim de Elvas. O serviço real desta comuna era doado pelo rei Duarte I a Gonça1o Rodrigues de Abreu. Os direitos reais dos judeus do almoxarifado de Portalegre, com excepção do serviço novo que reverteria para o rei, caberia a Gonçalo de Sousa, fidalgo da casa do infante Henrique e alcaide do castelo de Marvão, etc. etc..
Desconhecemos o seu quantitativo global e até a sua evolução, ao longo do século XV. À data da expulsão, a comuna de Portalegre beneficiava dois fidalgos: Diogo da Silva de Meneses, usufruidor de 61.066 reais e 7 pretos das rendas da judiaria, e João Tavares, cavaleiro da casa real e recebedor de 25.256 reais do serviço novo desta comuna. Jaime, duque de Bragança e Afonso Vasques de Brito, conselheiro do rei e seu caçador mor, usufruíam as rendas da judiaria de Sousel, no valor de l5.660 reais. Àquele pertenciam ainda as rendas da judiaria de Alter, avaliadas em 6500 reais. As rendas da judiaria de Castelo de Vide pertenciam a Duarte de Me1o, alcaide-mor da vila e valiam 14.200 reais. Campo Maior rendia a Rui Gomes da Silva, fidalgo e seu alcaide-mor, a quantia de 11.493 reais. João Gomes tinha as rendas da judiaria de Alegrete, no valor de 8000 reais. O genesim dos judeus de Cabeço de Vide pertencia a Brianda do Carvalhal, ama da rainha Leonor. Rui de Abreu, alcaide-mor de Elvas, recebia as rendas das judiarias de Elvas, Juromenha e Vila Boim, ro valor de 113.333 reais.
Manuel I comprometera-se no édito de expulsão das minorias judaica e moura a indemnizar os beneficiários destas rendas e direitos. Assim o fez utilizando para isso as sisas, dizimas e direitos dos almoxarifados. O total gasto com as judiarias da actual região de Portalegre orçou os 275.013 reais aproximadamente». In Maria Ferro Tavares, Judeus e Cristãos Novos no distrito de Portalegre, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, Acta do I Encontro da História Regional e Local, Setembro de 1987.


Cortesia da FCSHUNL/JDACT

domingo, 23 de maio de 2010

Exposição em Portalegre: Contemporary Expressions by L’Agenzia di Arte. Portalegre foi elevada a cidade há 460 anos (23 de Maio de 2010)


Cortesia de L'Agenzia di Arte
Está patente até ao pf dia 30 de Maio no Museu da Tapeçaria de Portalegre Guy Fino a Exposição Internacional de Arte «Contemporary Expressions by L’Agenzia di Arte».
Cortesia L’Agenzia di Arte
Esta Exposição apresenta obras provenientes de Artistas Plásticos de Portugal, Itália, França, Alemanha, Holanda, Grécia, Brasil e Kosovo, nomeadamente, Adem Rusinovci, Alberto Pires, António Dulcídio, Carla Taveira, Célia Alves, Claudio Bandini, Despina Papadopoulou, Elisabete Silva, Francisco Urbano, Gilmara Oliveira, João Carita, José Cunha, Lúcia Sandroni, Majilinda Kelmendi, Massimo Bardi, Mirella Orlandini, Monique Laville, Nicolau Campos, Patty Silva, Pedro Charters d’Azevedo, Ruela, Sara Tillo, Sílvia Alba, Shefqet Avdush Emini, Teresa Duarte, Thommy Há., Vifer, Isabel Alforrobinha, Joroen van Paassen e Mafalda D’Eça.
Cortesia de L’Agenzia di Arte
A Exposição «Contemporary Expressions by L’Agenzia di Arte» pode ser apreciada no Museu da Tapeçaria de Portalegre Guy Fino de Terça-Feira a Domingo das 9h30 às 13h e das 14h30 às18h pelo valor habitual de entrada no Museu.

Cortesia de L’Agenzia di Arte
Segundo a Vereadora Adelaide Teixeira «A Câmara Municipal de Portalegre pretende apostar fortemente na Cultura e na Qualidade das Artes quer a nível Nacional e Estrangeiro, e esta é uma óptima oportunidade para divulgar novos talentos e novas formas de expressão».  Esta Exposição está integrada nas Comemorações do Dia da Cidade de Portalegre (23 de Maio). Esta data simboliza os 460 anos em que Portalegre foi elevada a cidade.
Portalegre Agenda Maio 2010/JDACT