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sábado, 18 de maio de 2024

O Último Catão. Matilde Asensi.«Uma coisa é escrever umas palavras num computador e que a máquina procure o mesmo texto nas bases de dados, e outra é cotejar duas imagens de um objecto…»

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«Por que precisamente sete e não oito, ou cinco ou quinze, por exemplo? Por que todas diferentes? Por que todas envoltas por formas geométricas, como claraboias medievais? Por que todas encimadas por uma pequena coroa raiada...? Jamais poderíamos descobrir, me dizia compungida, era demasiado complexo e absurdo. Levantava o olhar das fotografias e dos croquis e a pousava na silhueta de papel, para ver se a distância das cruzes no corpo me dava a pista; mas não via nada, ou, ao menos nada que me ajudasse a resolver o hieroglífico, assim descia de novo os olhos até a mesa e me concentrava no estudo de cada uma das peculiares cicatrizes coroadas.

Glauser-Róist apenas pronunciou uma palavra durante aqueles dias; passava as horas mortas teclando no computador e eu sentia nascer em meu interior um rancor absurdo contra ele por perder o tempo tonteando daquela maneira enquanto minha cabeça ia se convertendo lentamente em pasta de papel.

A passos gigantescos se aproximava o domingo, 19 de Março, dia de São Giuseppe, e se impunha começar a preparar minha viagem a Palermo. Ia pouco a casa, apenas duas ou três vezes ao ano, mas, como boa família siciliana, os Salinas permaneciam indissoluvelmente unidos, para bem ou para mal, inclusive além da morte. Ser a penúltima de nove irmãos, daí meu nome, Otávia, a oitava, tem muitas vantagens quanto ao aprendizado e uso das técnicas de sobrevivência; sempre há algum irmão ou irmã mais velha disposta a torturar ou a humilhar debaixo do peso de sua autoridade, suas coisas são do primeiro que as apanha, seu espaço é invadido pelo primeiro que chegar, seus triunfos ou fracassos já foram os triunfos ou fracassos dos que vieram antes, etc...

Com certeza, a união entre os nove filhos de Filipa e Giuseppe Salina era indestrutível: apesar de minha ausência de vinte anos, da de Pierantónio, franciscano na Terra Santa, e da de Lúcia, dominicana residente na Inglaterra, contavam connosco para organizar qualquer festejo familiar, comprar qualquer presente para nossos pais ou adoptar qualquer decisão colegiada que afetasse à família.

Um dia antes da minha partida, o capitão Glauser-Róist voltou do almoço nos barracões da Guarda Suíça com um estranho brilho metálico em seus olhos cinzentos. Eu continuava totalmente enfrascada na leitura de um tedioso tratado sobre a arte cristã dos séculos VII e VIII, com a vã esperança de encontrar qualquer alusão ao desenho de alguma das cruzes.

Doutora Salina, murmurou após fechar a porta às suas costas. Tive uma ideia. Estou escutando, respondi, afastando de mim, com as duas mãos, o pesado compêndio. Precisamos de um programa de computador que coteje as imagens das cruzes do etíope com todos os ficheiros de imagens do arquivo e da biblioteca. Levantei as sobrancelhas em um gesto de estranheza. É possível fazer isso? Perguntei. O serviço de informática do arquivo pode fazê-lo. Fiquei pensando uns instantes. Não sei... Objectei pensativa. Deve ser muito complicado. Uma coisa é escrever umas palavras num computador e que a máquina procure o mesmo texto nas bases de dados, e outra é cotejar duas imagens de um objecto que podem estar arquivadas em tamanhos diferentes, em formatos incompatíveis, tomadas de ângulos distintos ou, inclusivé, com uma qualidade tão ruim que o programa não possa reconhecê-las como parecidas. Glauser-Róist me olhou com pena». In Matilde Asensi, O Último Catão, 2005, Editora Dom Quixote, ISBN 978-972-202-904-9.

Cortesia de EDQuixote/JDACT

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quarta-feira, 8 de maio de 2024

O Último Catão. Matilde Asensi.«… a tarefa se resumia na explicação dos signos, independentemente do que todos eles juntos queriam dizer, assim não havia outro remédio do que seguir adiante, sem sair do caminho assinalado, e esclarecer por fim o significado das sete cruzes»

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«Nas origens do cristianismo, e por surpreendente que possa parecer, a Cruz não foi objecto de adoração. Os primeiros cristãos ignoraram completamente o Instrumento do Martírio, preferindo outros elementos ornamentais mais alegres se de representar sinais e imagens. Além disso, durante as perseguições romanas, escassas, já que se reduziram à conhecida actuação de Nero após o incêndio de Roma no ano 64 e, segundo Eusébio (260-341, bispo de Cesárea), aos dois anos da mal chamada Grande Perseguição de Diocleciano (de 303 a 305), durante as perseguições romanas, como disse, a exibição e adoração pública da Cruz seria, indubitavelmente, muito perigosa, de modo que nas paredes das catacumbas e das casas, nas lápidas dos sepulcros, nos objectos pessoais e nos altares, apareciam símbolos tais como o cordeiro, o peixe, ou a pomba.

A representação mais importante, com certeza, era o Lábaro, o monograma formado pelas primeiras letras gregas do nome de Cristo, XP, ji e rho, que foi usado profusamente para decorar os lugares sagrados. Existiam múltiplas variações da imagem do Lábaro, em função da interpretação religiosa que se queria dar: por exemplo, sobre as tumbas dos mártires se representavam Lábaros com uma rama de palma em lugar da letra P, simbolizando a vitória de Cristo, e os monogramas com um triângulo no centro, expressavam o Mistério da Trindade.

No ano 312 de nossa era, o imperador Constantino o Grande, adorador do deus sol, na noite anterior à batalha decisiva contra Magêncio, seu principal rival pelo trono do Império, sonhou que Cristo aparecia e lhe dizia que gravasse essas duas letras, XP, na parte superior dos estandartes de seus regimentos. No dia seguinte, antes do combate, diz a lenda que viu aparecer o dito selo, adicionado de uma barra transversal formando a imagem de uma Cruz, sobre a esfera segadora do sol e, abaixo, as palavras gregas En-Toutoi-Nika, mais conhecidas em sua tradução latina de In hoc signo vinces, Com este signo vencerás. Como Constantino, inquestionavelmente, derrotou Magêncio na batalha da Ponte Milvio, seu estandarte com o Lábaro, chamado mais tarde Labarum, se converteu na bandeira do Império. Este símbolo, pois, adquiriu uma importância extraordinária no restante do Império Romano e, quando a parte ocidental do território, Europa, caiu em poder dos bárbaros, continuou sendo utilizada na parte oriental, Bizâncio, ao menos até ao século VI, momento em que, como já disse, desapareceu por completo da arte cristã.

Então, o Lábaro que nosso etíope exibia no torso era precisamente este que o imperador viu no céu antes da batalha; este com o travessão horizontal e não outra de suas variações, e não deixava de ser um dado curioso, e, mais que curioso, estranho, porque deixara de ser utilizada há catorze séculos, como bem testemunhava o Papa da Igreja São João Crisóstomo, que, em seus escritos, afirmava que, por fim, nos finais do século V, o dito símbolo fora substituído pela autêntica Cruz, exposta agora publicamente com orgulho e prodigalidade.

É certo que ao longo dos períodos românico e gótico os lábaros reapareceram como motivos ornamentais, mas com outras formas diferentes à simples e concreta do Monograma de Constantino. Bem, outro mistério aparentemente resolvido. Mas a palavra STAUROS repartida em letras pelo corpo continuava nos deixando na perplexidade mais absoluta. Cada dia que se passava o desejo de desenredar todo aquele embrulho, de compreender o que aquele estranho cadáver estava tentando nos indicar, ficava mais e mais angustiante. Com certeza, a tarefa se resumia na explicação dos signos, independentemente do que todos eles juntos queriam dizer, assim não havia outro remédio do que seguir adiante, sem sair do caminho assinalado, e esclarecer por fim o significado das sete cruzes». In Matilde Asensi, O Último Catão, 2005, Editora Dom Quixote, ISBN 978-972-202-904-9.

Cortesia de EDQuixote/JDACT

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domingo, 28 de abril de 2024

O Último Catão. Matilde Asensi.«… o monograma do Nome de Cristo que o etíope tatuara sobre o peito e o estômago, correspondia a uma variedade conhecida como Monograma de Constantino e que seu uso na arte cristã desaparecia a partir do século VI de nossa era»

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«Às nove da noite estávamos mortos de cansaço. Glauser-Róist localizara algumas pobres referências às cicatrizes. Explicou-me, que tentou uma pesquisa religiosa circunscrita a uma franja da África Central na que, por desgraça para nós, não ficava a Etiópia. Nessa área, pelo que entendi, as tribos primitivas se acostumaram a friccionar com certa mistura de ervas as incisões da pele, feitas geralmente com umas pequenas canas tão afiadas como facas. Os motivos ornamentais podiam chegar a ser muito complexos, mas, em essência, respondiam a formas geométricas de simbologia sagrada, muitas vezes com relação a algum rito religioso.

Isso é tudo...? Perguntei desenganada, ao vê-lo fechar a boca após o exíguo relatório. Bom, há algo mais, mas não é importante. Os queloides, ou seja, as cicatrizes mais grossas e avolumadas são um autêntico atractivo sexual para os varões quando as mulheres as exibem. Ah...! Respondi com um gesto de estranheza. Isso tem graça! Jamais me teria ocorrido.

De modo que... Prosseguiu indiferente. Que continuamos sem saber por que essas cicatrizes estão no corpo desse homem. Acho que foi então quando me fixei, pela primeira vez, que seus olhos eram cinza claro. Outro dado curioso, ainda que também irrelevante para nosso trabalho, é que ultimamente esta prática está em moda entre os jovens de muitos países. Chamam-na body art ou performance art, e um de seus defensores é o cantor e actor David Bowie.

Não posso crer... Suspirei, esboçando um sorriso. Quer dizer que deixam fazer esses cortes por gosto? Bem... Murmurou tão desconcertado como eu. Tem algo a ver com o erotismo e a sensualidade, mas não saberia explicar. Nem tente, obrigada dispensei, extenuada, me pondo de pé e dando por terminada aquela primeira e esgotadora jornada de trabalho. Vamos descansar capitão. Amanhã vai ser outro dia muito longo.

Permita-me que a leve a sua casa. Estas não são horas para que ande sozinha pelo burgo.

Estava demasiado cansada para negar, assim arrisquei de novo minha vida dentro daquele carro tão espectacular. Ao nos despedir, agradeci, com algo de má consciência por minha forma de tratá-lo, e rechacei educadamente sua oferta para vir me apanhar na manhã seguinte; estava há dois dias sem ouvir missa e não estava disposta a deixar passar nem um mais. Levantaria cedo e, antes de recomeçar o trabalho, iria à Igreja de Sant Michele e Magno. Ferma, Margherita e Valéria estavam vendo um velho filme na televisão quando entrei pela porta. Tiveram o detalhe de guardar o jantar quente no micro-ondas, de modo que tomei um pouco de sopa, sem muita vontade; vira demasiadas cicatrizes nesse dia, e pensava ficar um tempo na capela antes de ir dormir. Mas, naquela noite não pude me concentrar na oração, e não só porque estivesse demasiado cansada, e estava, mas, também porque três de meus oito irmãos resolveram telefonar da Sicília para me perguntar se eu iria à festa de São Giuseppe, que organizávamos todos os anos para o nosso pai. Disse aos três que sim e fui para a cama, desesperada.

O Capitão Glauser-Róist e eu vivemos umas semanas frenéticas a partir daquele primeiro dia. Fechados em meu escritório desde as oito da manhã até as oito ou nove da noite, de segunda a domingo, repassávamos os poucos dados que tínhamos à luz das escassas informações que íamos obtendo dos arquivos. Resolver os problemas das letras gregas e do Lábaro foi relativamente simples em comparação com o titânico esforço de resolver o enigma das sete cruzes.

No segundo dia de trabalho, ao chegar ao escritório, quando fechei a porta e vi a silhueta de papel colada na madeira, a solução das letras gregas me golpeou o rosto como a luva de um desafiode honra. Era tão evidente, que não podia crer que na noite anterior não o tivesse visto, ainda que me justificasse lembrando o muito cansado que estava: lendo da cabeça até as pernas, da direita para a esquerda, as sete letras formavam a palavra grega STAUROS, cujo significado era, obviamente, CRUZ. A essas alturas, era inquestionável que tudo o que havia naquele corpo estava relacionado com o mesmo tema.

Alguns dias mais tarde, após estudar várias vezes do direito e do revés, sem êxito; consultar a história da velha Abissínia (Etiópia); conferir a mais variada documentação sobre a influência grega na cultura e na religião no dito país; após ficarmos longas horas examinando cuidadosamente dezenas de livros de arte de todas as épocas e estilos, extensos relatórios sobre seitas remetidos pelos diferentes departamentos do Arquivo Secreto e exaustivos informes sobre lábaros que o capitão conseguiu através do  computador, nós fizemos outra descoberta significativa: o monograma do Nome de Cristo que o etíope tatuara sobre o peito e o estômago, correspondia a uma variedade conhecida como Monograma de Constantino e que seu uso na arte cristã desaparecia a partir do século VI de nossa era». In Matilde Asensi, O Último Catão, 2005, Editora Dom Quixote, ISBN 978-972-202-904-9.

Cortesia de EDQuixote/JDACT

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sexta-feira, 26 de abril de 2024

O Último Catão. Matilde Asensi.«… todas tinham algo em comum: estavam encerradas, ou protegidas, por quadrados, círculos e retângulos, como pequenas janelas ou janelas medievais, com a mesma pequena coroa raiada na parte superior…»

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«Encontrei outras seis letras gregas espalhadas pelo corpo: no braço direito, sobre o bíceps, uma tau, no esquerdo, uma ípsilon, no centro do peito sobre o coração, uma alfa, no abdomen, uma rho, no músculo direito, sobre o quadríceps, uma omicrom e no esquerdo, em idêntico lugar, outra sigma. Justo debaixo da letra alfa e por cima da rho, na área dos pulmões e do estômago, se via um grande Lábaro, o conhecido monograma, tão habitual nos tímpanos e altares das igrejas medievais, formado pelas duas primeiras letras gregas do nome de Cristo, ji e rho, superpostas. Este Lábaro, com certeza, apresentava uma curiosa peculiaridade: haviam adicionado uma barra transversal que ajudava a compor a imagem de uma cruz. O restante do corpo, exceptuando as mãos, os pés, as nádegas, o pescoço e o rosto, estava cheio de outras cruzes da mais original feitura que tinha visto em minha vida.

O Capitão Glauser-Róist ficara longo tempo sentado frente ao computador, teclando sem descanso misteriosas instruções, mas, de vez em quando, aproximava sua cadeira da minha e olhava em silêncio a evolução de minhas análises. Por isso, quando, subitamente, me perguntou se seria de ajuda conseguir um desenho do corpo humano em tamanho natural para ir assinalando as cicatrizes, me sobressaltei. Antes de responder, fiz um par de exageradas afirmações e negativas com a cabeça para aliviar minhas doloridas cervicais.

É uma boa ideia. Por certo, capitão, até onde está autorizado a me informar sobre este pobre homem? Monsenhor Tournier comentou que fez estas fotografias. Glauser-Róist se levantou de sua cadeira e se dirigiu até ao computador.

Não posso dizer nada. Apertou várias teclas rapidamente e a impressora começou a crepitar e a expulsar papel. Preciso saber algo mais, protestei, esfregando a ponta do nariz por baixo dos óculos. Quem sabe conheça detalhes que poderiam me facilitar o trabalho.

A Rocha não se deixou comover por meus pedidos. Com pedaços de fita adesiva que cortava com os dentes, foi pregando na porta, o único espaço que ficara livre em meu pequeno escritório, as folhas que saíam da impressora até formar a silhueta completa de um ser humano. Posso ajudá-la em alguma outra coisa? Perguntou ao terminar, se voltando para mim. Olhei-o desdenhosamente.

Você pode consultar as bases de dados do Arquivo Secreto desse computador? Desse computador posso consultar qualquer base de dados do mundo. O que deseja saber? Tudo o que possa encontrar sobre cicatrizes. Pôs mãos à obra sem perder um segundo e eu, de minha parte, apanhei um punhado de rotuladores de cores de uma gaveta de minha mesa e me plantei com decisão em frente à silhueta de papel.

Ao cabo de meia hora, havia conseguido reconstruir com bastante fidelidade o doloroso mapa-múndi das feridas do cadáver. Perguntei-me por que um homem forte e são, de uns trinta e tantos anos, havia se deixado torturar daquela maneira. Era muito estranho. Além das letras gregas, encontrei um total de sete belíssimas cruzes, cada uma completamente diferente das demais: de forma latina, na parte interior do antebraço direito, e de feitura latina, com o travessão curto na metade da viga, no esquerdo; nas costas, uma cruz de troncos sobre as vértebras cervicais, outra, ansata egípcia, sobre os dorsais e uma última, sobre as lombares. As duas cruzes restantes, até completar as sete, eram das chamadas decussadas (em xis) gregas, e estavam situadas na parte posterior dos músculos. A variedade era admirável ainda que, com certeza, todas tinham algo em comum: estavam encerradas, ou protegidas, por quadrados, círculos e retângulos, como pequenas janelas ou janelas medievais, com a mesma pequena coroa raiada na parte superior, em forma de dentes de serra e sete pontas». In Matilde Asensi, O Último Catão, 2005, Editora Dom Quixote, ISBN 978-972-202-904-9.

Cortesia de EDQuixote/JDACT

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sexta-feira, 29 de março de 2024

Iacobus. Aventura dos Templários no Caminho de Santiago. Matilde Asensi» … os pueri oblati acompanhavam a liturgia entre bocejos, mas não pude distinguir mais que um grupo de inquietas e minúsculas sombras; a nave estava mergulhada em trevas, iluminada apenas por algumas dezenas de círios»

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«Paramos, por fim, em frente à porta principal da abadia, onde fui recebido gentilmente pelo subprior, um monge jovem e sério, de nobre aspecto, e, sem dúvida, de sublime berço, pelo que pude deduzir de suas maneiras e andares; introduziu-me com presteza na muito bela casa do abade. Também este e o prior me receberam de maneira muito correcta, notava-se que eram pessoas importantes, acostumadas a receber visitantes ilustres; mas mostraram-se ainda muito mais acolhedores e gentis quando me viram sair de minha nova cela vestindo o mais parecido ao hábito mauriciano que puderam encontrar sem transgredir o respeito devido à sua Regra:túnica branca até os tornozelos com capa, sem escapulário nem cinto; e para os pés, sandálias de couro cru, muito diferentes das deles, fechadas e pretas.

Passeando pelo claustro, verifiquei que aquelas vestes eram apropriadas para o frio, muito mais quentes que meu gibão de mangas largas e minha túnica, de maneira que meu corpo endurecido, acostumado a grandes rigores, se acomodou rapidamente àquela roupa que, dali em diante, seria a minha.

Aproximava-se o Inverno, e, embora em Ponç de Riba a neve não seja coisa rara, aquele ano foi especialmente duro, não só para o campo e as colheitas, mas também para os homens. A véspera de Natal nos pegou, aos habitantes do mosteiro, sitiados por um interminável manto branco. Durante as semanas que se seguiram à minha chegada, procurei, dentro do que me foi possível, permanecer à margem da vida e das intrigas do mosteiro. Embora de índole diferente, também nas capitanias dos Cavaleiros hospitalários ocorriam situações de profunda tensão por motivos quase sempre triviais… Um bom abade, ou um bom prior, como também um bom mestre ou um bom senescal, distinguem-se exactamente pelo controle que exercem sobre sua comunidade, evitando esses problemas.

Meu distanciamento da vida do mosteiro, contudo, não podia ser total, visto que, como monge hospitalar, devia estar presente aos ofícios religiosos comunitários, e, como médico, passava algumas horas por dia no hospital, em contacto com os irmãos doentes.

Naturalmente, eu evitava os capítulos, que eram assunto privado, e em absoluto era obrigado a realizar tarefa alguma que não fosse de meu agrado. Laudes, Prima, Tertia, Sexta, Noa, Vésperas e Completas regulavam meu horário quotidiano de estudo, almoço, passeio, trabalho e sono, com precisão matemática. Às vezes, vítima da inquietude e da saudade de minha distante ilha, eu rondava incansavelmente pelo claustro contemplando seus singulares capitéis, ou subia à torre da igreja para fazer companhia ao noviço vigia, ou ainda caminhava sem destino entre a biblioteca e a sala capitular, entre o refeitório e os dormitórios, também entre os banheiros e a cozinha, em uma tentativa de serenar meu ânimo e aliviar a urgência que sentia, por fim, aquele a quem eu havia baptizado, no meu íntimo, como Jonas; não o Jonas que entrou assustado no ventre da baleia, mas o que saiu dele livre e renovado.

Certo dia, durante a prece, escutei entre os cantos uma tosse infantil e cavernosa que me sobressaltou: não fosse pelo facto de aquela tosse não ter saído de meu peito, eu poderia jurar que eu mesmo pigarreava e sufocava. Olhei activamente em direcção à parte onde, sob o atento olhar do muito paciente irmão ama-seca, os pueri oblati acompanhavam a liturgia entre bocejos, mas não pude distinguir mais que um grupo de inquietas e minúsculas sombras; a nave estava mergulhada em trevas, iluminada apenas por algumas dezenas de círios». In Matilde Asensi, Iacobus, Aventura dos Templários no Caminho de Santiago, 2000, Editorial Planeta, 2006, 2013, ISBN 978-854 220-274-8.

Cortesia de EditorialPlaneta/JDACT

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quarta-feira, 27 de março de 2024

Iacobus. Aventura dos Templários no Caminho de Santiago. Matilde Asensi» … abandonaria o gibão, a cota e o manto negro com a cruz alta branca, e substituiria o elmo, a espada e o escudo pelo cálamo, a tinta e o scrinium»

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«É evidente que um cavaleiro hospitalar como eu não tem lugar, ao menos aparentemente, em um recinto sagrado dedicado ao estudo e à oração, mas meu caso era singular, visto que, além da verdadeira e secreta razão que havia me levado até Ponç de Riba, minha Ordem estava especialmente interessada, pelo bem geral de nossos hospitais, no conhecimento das terríveis febres eruptivas, as varíolas, que tão magnificamente foram descritas pelos médicos árabes, assim como a preparação de xaropes, álcoois, pomadas e unguentos dos quais havíamos tido alguma notícia durante os anos que durou nossa presença no reino de Jerusalém.

Especificamente, eu sentia um particularíssimo afã de estudar o Atarrif, de Albucasis o Cordobês, obra conhecida também como Metodus medendi depois de sua tradução ao latim por Gerardo de Cremona. Na realidade, para mim, tanto fazia a língua em que estivesse escrita a cópia do mosteiro, pois domino várias delas com desenvoltura, assim como todos os cavaleiros que tiveram de lutar na Síria ou na Palestina. Esperava encontrar nesse livro os segredos das incisões sem dor em corpos vivos e dos cautérios, tão necessários em tempos de guerra, e aprender tudo acerca do maravilhoso instrumental médico dos persas, minuciosamente descrito pelo grande Albucasis, para poder mandar fabricá-lo com precisão assim que voltasse a Rodas.

Desse modo, nesse mesmo dia abandonaria o gibão, a cota e o manto negro com a cruz alta branca, e substituiria o elmo, a espada e o escudo pelo cálamo, a tinta e o scrinium. Não deixava de ser um projecto apaixonante, é evidente, mas, como disse, não era o verdadeiro motivo pelo qual eu estava entrando nas terras do mosteiro; a verdadeira razão que havia me levado até ali, uma razão exclusivamente pessoal, amparada desde o primeiro momento pelo grande senescal de Rodas, era que, naquele lugar, devia encontrar alguém muito importante de quem não sabia absolutamente nada: nem qual era seu nome, nem quem era, nem como era… nem sequer se continuava ali naquele momento.

Contudo, confiava em mim mesmo e na Providência para obter o triunfo em tão árdua missão. Não era à toa que me chamam Perquisitore. Atravessei o portão da muralha e desmontei sossegadamente de meu cavalo para não dar impressão de violência em um recinto de paz. Fui recebido pelo irmão despenseiro, prevenido de minha chegada, mais tarde soube que um noviço vigia sempre as imediações na torre da igreja, costume que guardam dos tempos não tão distantes das aceifas mouras, e com meu cavalo seguro pelas rédeas, acompanhado pelo pequeno despenseiro, dirigi-me ao interior do recinto observando a perfeita distribuição do mosteiro, cujas dependências e edifícios estavam muito bem organizados ao redor do claustro maior. Havia outro claustro, o menor, mais antigo, situado à esquerda de uma pequena construção que me pareceu o hospital». In Matilde Asensi, Iacobus, Aventura dos Templários no Caminho de Santiago, 2000, Editorial Planeta, 2006, 2013, ISBN 978-854 220-274-8.

Cortesia de EditorialPlaneta/JDACT

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terça-feira, 26 de março de 2024

Iacobus. Aventura dos Templários no Caminho de Santiago. Matilde Asensi» Meu cavalo, um belo animal de poderosas ancas, fazia verdadeiros esforços para correr ao ritmo que minha pressa lhe impunha, enquanto cruzávamos a galope os campos de trigo e cevada e atravessávamos velozmente muitas aldeias e vilarejos»

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«É inexplicável que a esta altura, eu, Galcerán de Born, até pouco tempo cavaleiro da Ordem do Hospital de São João de Jerusalém, segundo filho do nobre senhor de Taradell, que foi cruzado em Terra Santa e é vassalo de Nosso Senhor Jaime II de Aragão, possa crer ainda na existência de um inevitável destino oculto por trás dos aparentes acasos da vida. Contudo, quando penso nos últimos quatro anos, e penso neles com bastante frequência, não consigo me livrar da suspeita de que um misterioso fatum, talvez esse supremum fatum de que fala a Cabala, tece os fios dos acontecimentos com uma lúcida visão de futuro sem contar, em absoluto, com nossos desejos e projectos. Assim sendo, com o propósito de tentar clarear minhas confusas ideias e com o desejo de deixar registo dos estranhos pormenores desta história, para que possam ser conhecidos fielmente pelas futuras gerações, começo esta crónica no ano de Nosso Senhor de 1319, na pequena localidade portuguesa de Serra d’El-Rei, onde, dentre outras actividades, actuo como médico». In Prólogo

«Assim que desembarquei da robusta nau siciliana na qual havia feito a longa viagem desde Rodas, com extenuantes escalas em Chipre, Atenas, Sardenha e Maiorca, e após apresentar minhas cartas na Capitania provincial de minha Ordem em Barcelona, rapidamente deixei a cidade para me dirigir a Taradell e fazer uma rápida visita a meus pais, a quem não via fazia doze anos. Embora houvesse gostado de permanecer alguns dias ao lado deles, só pude ficar umas poucas horas, pois meu verdadeiro objectivo era chegar quanto antes ao distante mosteiro mauriciano de Ponç de Riba, a pouco mais de duzentas milhas ao sul do reino, junto a terras que, até não muito tempo, estavam ainda nas mãos de mouros.

Tinha algo muito importante para fazer naquele lugar, tão importante a ponto de eu abandonar subitamente minha ilha, minha casa e meu trabalho, embora, oficialmente, apenas para dedicar alguns anos ao criterioso estudo de certos livros que obravam em poder do mosteiro e que haviam sido postos à minha disposição graças às influências e às solicitações de minha Ordem.

Meu cavalo, um belo animal de poderosas ancas, fazia verdadeiros esforços para correr ao ritmo que minha pressa lhe impunha, enquanto cruzávamos a galope os campos de trigo e cevada e atravessávamos velozmente muitas aldeias e vilarejos. Não era um bom ano para as colheitas, aquele de 1315, e a fome se espalhava como a peste por todos os reinos cristãos. Contudo, o longo tempo passado longe de minha terra me fazia vê-la com os olhos cegos de um apaixonado, linda e rica, como sempre.

Logo avistei os vastos territórios mauricianos, próximos à localidade de Torá, e a seguir os altos muros da abadia e as pontudas torres de sua linda igreja. Sem abrigar nenhuma dúvida, atrevo-me a afirmar que Ponç de Riba, fundado cento e cinquenta anos antes, por Ramón Berenguer IV, é um dos maiores e mais majestosos mosteiros que eu jamais vi, e sua riquíssima biblioteca é única deste lado do mundo, pois não só possui os códices sacros mais extraordinários da cristandade, como também praticamente todos os textos científicos, árabes e judeus, condenados pela hierarquia eclesiástica, visto que, felizmente, os monges de São Maurício sempre se caracterizaram por ter um espírito muito aberto a todo tipo de riqueza. Nos arquivos de Ponç de Riba, cheguei a ver coisas que ninguém acreditaria: cartulários hebreus, bulas papais e cartas de reis muçulmanos que teriam impressionado ao estudioso mais imperturbável». In Matilde Asensi, Iacobus, Aventura dos Templários no Caminho de Santiago, 2000, Editorial Planeta, 2006, 2013, ISBN 978-854 220-274-8.

Cortesia de EditorialPlaneta/JDACT

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quinta-feira, 25 de janeiro de 2024

O Último Catão. Matilde Asensi.«Aquele homem jamais poderia se fazer passar por outra coisa distinta do que era, um etíope, pois seus traços étnicos eram muito apurados. Como a maioria deles, era muito magro e espigado, de carnes fibrosas…»

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«Vamos precisar destes equipamentos para trabalhar, anunciou a Rocha às minhas costas. Espero que esteja certo capitão! Quem deu permissão para entrar no meu escritório e organizar este baderna? O prefeito Ramondino. Mas podiam me consultar! Montamos o equipamento à noite, quando você já saíra. Em sua voz não havia nem uma pequena nota de aflição ou sentimento; se limitava a me informar e ponto, como se tudo o que ele fizesse estivesse acima de qualquer discussão.

Esplêndido! Realmente esplêndido! Reclamei carregada de rancor. Você deseja começar a trabalhar ou não? Girei como se me tivesse esbofeteado e o olhei com todo o desprezo de que era capaz. Terminemos o quanto antes com isto. Como você quiser, murmurou arrastando muito os erres. Desabotoou a jaqueta e, de algum lugar incompreensível, apanhou o avultado dossiê de capas negras que monsenhor Tournier me mostrara o dia anterior. É todo seu, disse, me oferecendo. E você vai fazer o quê enquanto eu trabalho? Usarei o computador. Com que objectivo? Perguntei, estranhando. Meu analfabetismo informático era um problema pendente que sabia que algum dia teria de enfrentar, mas, no momento, como boa erudita, me encontrava muito a gosto depreciando essas diabólicas maquininhas.

Com objectivo de resolver qualquer dúvida que você tenha e dar toda a informação existente sobre qualquer tema que deseje. E ficou nisso. Comecei examinando as fotografias. Eram muitas, trinta exactamente, e vinham numeradas e classificadas por ordem temporal, quer dizer, do princípio ao fim da autópsia. Após uma olhada inicial, selecionei aquelas em que se via estendido sobre uma mesa metálica, o corpo do etíope nas posições de decúbito supino e decúbito prono, boca para cima e boca para baixo. À primeira vista, o mais destacável era a fractura dos ossos da pélvis, pelo o arco pouco natural que delineavam as pernas, e uma tremenda lesão na área parietal direita do crânio que deixara descoberto, entre pedaços de osso, a gelatina cinza do cérebro. Descartei, por inúteis, o restante das imagens, pois, em que pese que o cadáver apresentasse várias lesões internas, não achava que fossem relevantes para meu trabalho. Fixei-me, isso sim, nas que, provavelmente por causa do impacto, mutilara a língua com os dentes.

Aquele homem jamais poderia se fazer passar por outra coisa distinta do que era, um etíope, pois seus traços étnicos eram muito apurados. Como a maioria deles, era muito magro e espigado, de carnes fibrosas, e a cor de sua pele se destacava por ser demasiado escura. As feições de seu rosto, com certeza, constituíam a prova definitiva e delactora de sua origem abissínia: pômulos altos e muito marcados, grandes olhos negros, que apareciam abertos nas fotografias, com um resultado impressionante, fronte ampla e ossuda, lábios grossos e nariz fino, quase de perfil grego. Antes que raspassem a parte da cabeça que permanecia íntegra, apresentava um cabelo encaracolado, bastante sujo e manchado de sangue; depois de raspado, no centro mesmo do crânio, podia se ver com clareza uma fina cicatriz com a forma da letra grega sigma maiúscula.

Naquela manhã não fiz outra coisa além de observar, uma e outra vez, as terríveis imagens, repassando qualquer detalhe que me resultasse significativo. As cicatrizes se destacavam sobre a pele como linhas de estradas num mapa, algumas carnosas e avultadas, muito desagradáveis, e outras estreitas, quase imperceptíveis, como fios de seda. Mas, todas, sem excepção, apresentavam uma coloração rosada, até avermelhada em alguns pontos, que lhes conferia o repulsivo aspecto de enxertos de pele branca sobre pele negra. No meio da tarde, tinha o estômago embrulhado, a cabeça embotada e a mesa cheia de anotações e esquemas das cicatrizes do falecido». In Matilde Asensi, O Último Catão, 2005, Editora Dom Quixote, ISBN 978-972-202-904-9.

 Cortesia de EDQuixote/JDACT

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O Último Catão. Matilde Asensi.«O que aconteceu aqui? Meu velho escritório fora desmontado sem misericórdia até um dos cantos e, em seu lugar, uma mesa metálica com um gigantesco computador ocupava o centro dele»

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«O Alfa-Romeo atravessou as ruas do burgo a toda a velocidade, porque o capitão também adoptara a forma suicida de direcção romana e, antes de poder dizer amém, estávamos cruzando a Porta Santa Anna e deixando atrás os barracões da Guarda Suíça. Se eu não gritei, nem quis abrir a porta e sair durante o trajecto, foi graças à minha origem siciliana e a que, quando jovem, tirei a carteira de motorista em Palermo, onde os sinais de trânsito servem de enfeite e tudo se baseia na relação de forças, o uso da buzina e o vulgar senso comum. O capitão parou bruscamente o veículo num estacionamento que ostentava uma placa com seu nome e desligou o motor com expressão satisfeita. Aquele foi o primeiro traço humano que pude observar nele e me chamou muito a atenção; sem dúvida, dirigir-lhe encantava. Enquanto caminhávamos até ao arquivo por passagens do Vaticano desconhecidas até esse momento para mim, atravessamos um moderno ginásio, cheio de aparelhos, e um polígono de tiro que eu nem sabia que existia. Todos os guardas com os que íamos cruzando paravam ante nós e saudavam marcialmente Glauser-Róist.

Um dos assuntos que mais aguçara minha curiosidade através dos anos era a origem dos chamativos uniformes multicoloridos da Guarda Suíça. Por desgraça, nos documentos catalogados do Arquivo Secreto não existia nenhum documento que confirmasse ou desmentisse que o desenho fora realizado por Miguel Ângelo, como se comentava, mas eu confiava que o documento apareceria um dia entre a enorme quantidade de papéis ainda por estudar. Em qualquer caso, Glauser-Róist, ao contrário de seus companheiros, pareci  a nunca utilizar o uniforme, pois nas duas ocasiões que o vira, estava à paisana e, com roupa muito cara para o magro soldo de um pobre guarda suíço.

Cruzámos em silêncio o vestíbulo do Arquivo Secreto, passando na frente do escritório fechado do reverendo padre Ramondino e entrámos no elevador. Glauser-Róist introduziu sua flamante chave no painel. Você trouxe as fotografias, capitão? Perguntei com curiosidade enquanto descíamos para o Hipógeo. Trouxe doutora. A cada vez parecia mais com uma afiada rocha áspera. Onde haviam encontrado um tipo assim? Então suponho que começaremos a trabalhar agora mesmo, não é? Agora mesmo. Meus funcionários ficaram boquiabertos quando viram passar Glauser-Róist pelo corredor em direcção ao laboratório. A mesa de Guido Buzzonetti estava dolorosamente vazia naquela manhã.

Bons dias, exclamei em voz alta. Bons dias, doutora, murmurou alguém para não me deixar sem resposta. Mas, se o silêncio mais fechado nos acompanhou até a porta de meu escritório, o grito que eu deixei escapar ao abri-la se escutou até no Foro Romano. Jesus! O que aconteceu aqui? Meu velho escritório fora desmontado sem misericórdia até um dos cantos e, em seu lugar, uma mesa metálica com um gigantesco computador ocupava o centro dele. Outros aparelhos de informática foram colocados sobre pequenas mesinhas de metacrilato retiradas de algum escritório em desuso e dezenas de cabos e conectores percorriam o solo e as laterais de minhas velhas estantes. Tapei a boca com as mãos, horrorizada, e entrei pisando com tanta precaução como se estivesse caminhando entre ninhos de cobras». In Matilde Asensi, O Último Catão, 2005, Editora Dom Quixote, ISBN 978-972-202-904-9.

Cortesia de EDQuixote/JDACT

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quinta-feira, 18 de janeiro de 2024

O Último Catão. Matilde Asensi.«… se mencionava como primeiro Papa a Lineu e não a Pedro, e que este nem sequer era mencionado? Ou que a lista oficial dos primeiros Papas, recolhida no Catalogus Liberianus do ano de 354, era completamente falsa e que os supostos Pontífices…»

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«Recentemente, a vira lendo um grosso livro sobre costumes e religiões de outros continentes. As três respeitavam muito meu trabalho no Vaticano ainda que, na realidade, pouco conheciam sobre a minha ocupação; só sabiam que não deviam perguntar sobre isso. Suponho que foram advertidas e que nossas superioras fizeram especial insistência neste assunto, já que, em meu contrato de trabalho com o Vaticano, uma cláusula muito explícita, deixava claro que, sob pena de excomunhão, eu era proibida de falar sobre meu trabalho com pessoas alheias ao mesmo. Não obstante, como sabia que elas gostavam, de vez em quando contava algo recentemente descoberto sobre as primeiras comunidades cristãs ou dos começos da Igreja. Obviamente, só falava do bom, do que se podia confessar sem solapar a historiografia oficial nem os pontais da fé.

Para que explicar, por exemplo, que num escrito de Irenes, um dos Papas da Igreja, do ano de 183, zelosamente guardado pelo Arquivo, se mencionava como primeiro Papa a Lineu e não a Pedro, e que este nem sequer era mencionado? Ou que a lista oficial dos primeiros Papas, recolhida no Catalogus Liberianus do ano de 354, era completamente falsa e que os supostos Pontífices que nela apareciam mencionados, Anacleto, Clemente I, Evaristo, Alexandre... Nem sequer existiram? Para que contar algo de tudo isto...? Para que dizer, por exemplo, que os quatro Evangelhos foram escritos posteriormente às Epístolas de Paulo, verdadeiro forjador de nossa Igreja, seguindo sua doutrina e ensinamentos, e não ao inverso como acreditava todo o mundo?

Minhas dúvidas e meus temores, que Ferma, Margherita e Valéria captavam com grande intuição, minhas lutas internas e meus grandes sofrimentos, era um segredo que só podia participar ao meu confessor, o mesmo confessor de todos os que trabalhavam nos terceiro e quarto andares subterrâneos do Arquivo Secreto, o padre franciscano Gilberto Pintonisso.

Minhas três irmãs e eu, depois de deixar o jantar no forno e a mesa posta, entramos na capela de casa e nos sentamos sobre as almofadas espalhadas pelo solo, ao redor do Sacrário, em frente ao qual ardia permanentemente a luz de uma minúscula vela. Rezamos juntos os mistérios dolorosos do Rosário e, em seguida, ficamos em silêncio, recolhidas em oração. Entrávamos na Quaresma e, nesses dias, por recomendação do padre Pintonisso, eu andava reflectindo sobre a passagem evangélica dos quarenta dias de jejum de Jesus no deserto e as tentações do demónio. Não era, precisamente, prato do meu gosto, mas sempre fui tremendamente disciplinada e não me ocorreria contrariar uma indicação de meu confessor.

Enquanto orava, a conversa mantida naquele meio-dia com os prelados voltava uma e outra vez à minha cabeça, me atrapalhando. Perguntava-me se poderia realizar com êxito um trabalho em que me ocultavam informação e, além disso, o assunto tinha um cariz muito estranho. monsenhor Tournier dissera que O homem que aparece nas fotografias, estava implicado em um grave delito contra a Igreja Católica e as demais Igrejas Cristãs. Lamento muito, mas não podemos lhe dar mais detalhes.

Nessa noite tive horríveis pesadelos nos quais um homem sem cabeça, que era a reencarnação do demónio, me aparecia em todas as esquinas de uma longa rua pela qual eu avançava aos trambolhões, como borracha, me tentando com o poder e a glória de todos os reinos do mundo. Às oito em ponto da manhã, a campainha da porta da rua começou a soar com insistência. Margherita, foi quem respondeu, entrando pouco depois na cozinha com cara de situações estranhas: Otávia, um tal de Kaspar Glauser espera você lá em baixo. Fiquei petrificada. O capitão Glauser-Róist?

Murmurei, com a boca cheia de biscoito. Se é capitão, não me disse, pontuou Margherita, Mas o nome coincide. Engoli o biscoito, sem mastigar, e bebi de um gole o café com leite. Coisas do trabalho... Desculpei-me, abandonando precipitadamente a cozinha debaixo do olhar surpreso de minhas irmãs. O apartamento da Piazza delle Vaschette era tão pequeno, que num suspiro tive tempo de organizar meu quarto e passar pela capela para me despedir do Santíssimo.

Em seguida, apanhei de cima do armário da entrada o casaco e a bolsa, e saí, fechando a porta atrás de mim, perdida na confusão. O que fazia o capitão Glauser-Róist me esperando em baixo? Acontecera algo? Escondido detrás de uns impenetráveis óculos negros, o robusto soldadinho de brinquedo se apoiava inexpressivo, contra a porta de um ostentoso Alfa-Romeo azul escuro. É costume romano estacionar o carro na mesma porta do lugar aonde se vai, atrapalhando o trânsito ou não. Qualquer bom romano explicará pacientemente que, deste modo, se perde menos tempo.

O capitão Glauser-Róist, apesar de sua nacionalidade suíça, obrigatória para todos os membros do pequeno exército vaticano, devia estar a muitos anos morando na cidade, porque adoptara seus piores costumes com absoluta placidez. Alheio à especulação que estava despertando entre os vizinhos do burgo, o capitão não moveu um músculo do rosto quando, por fim, abri a porta do saguão e saí à rua. Alegrou-me muito ver que, debaixo dos imoderados raios do sol, a aparente frescura do enorme militar suíço ficava um pouco arruinada, se distinguindo em seu rosto, enganosamente juvenil, os sinais da passagem do tempo e umas pequenas rugas junto aos olhos. Bom dia, falei, colocando o casaco. Aconteceu algo, capitão? Bom dia, doutora, pronunciou em um corretíssimo italiano que, mesmo assim, não escondia certa entonação germânica na pronunciação dos erres. Estou esperando a doutora na porta do Arquivo desde as seis da manhã. E por que tão cedo, capitão? Achava que era sua hora de começar a trabalhar. Minha hora de começar a trabalhar é as oito, comentei com um tom desagradável. O capitão deu um olhar indiferente a seu relógio de pulso. Já são oito e dez, anunciou frio como uma pedra e igualmente simpático. Sim...? Bom, então vamos. Que homem tão irritante! Acaso não sabia que nós os chefes sempre chegamos tarde? Faz parte dos privilégios do cargo». In Matilde Asensi, O Último Catão, 2005, Editora Dom Quixote, ISBN 978-972-202-904-9».

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O Último Catão. Matilde Asensi.«Cruzando a Colunata de Bernini, saí da Praça de São Pedro pela via da Porta Angélica e passei distraidamente junto às numerosas lojas de souvenires ainda repletas de turistas chegados a Roma…»

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«O que quero dizer... Eminências... É que não me sinto capaz de cumprir a tarefa. Monsenhor Tournier foi o único que deu sinais de estar vivo quando terminei de falar. Enquanto os demais permaneciam mudos pela surpresa, ele iniciou um sorriso sarcástico que me fez suspeitar da sua manifesta oposição a utilizar meus serviços antes que eu entrasse no gabinete. Podia ouvi-lo dizendo: Uma mulher...? De maneira que foi sua atitude depreciativa e mordaz que me fez dar um giro de cento e oitenta graus e dizer: ... Ainda que, bem pensado, quem sabe poderia realizá-lo, sempre e quando me dessem o tempo suficiente para isso. O gesto brincalhão de monsenhor Tournier desapareceu como por encanto e os demais relaxaram subitamente suas expressões tensas, manifestando seu alívio com grandes suspiros de satisfação.

Um de meus grandes pecados é o orgulho, reconheço, o orgulho em todas as suas variações de arrogância, vaidade, soberba... Nunca me arrependerei o suficiente, nem farei suficientes penitências, mas sou incapaz de rechaçar um desafio ou de me amedrontar ante uma provocação que ponha em dúvida minha inteligência ou meus conhecimentos. Esplêndido! Exclamou Sua Eminência, o Secretário de Estado, dando um golpe no joelho com a palma da mão. Então não há mais do que falar! Problema resolvido, graças a Deus! Muito bem, irmã Otávia, a partir deste instante, o capitão Glauser-Róist estará a seu lado para colaborar em qualquer coisa que precise. Cada manhã, quando começarem a sua jornada de trabalho, ele lhe fará a entrega das fotografias e você as devolverá ao terminar. Alguma pergunta antes de saírem? Sim, respondi estranhada. Acaso o capitão poderá entrar comigo na área restrita do Arquivo Secreto? É um laico e... Naturalmente que poderá doutora! Afirmou o prefeito Ramondino. Eu mesmo me encarregarei de preparar seu acesso, que estará pronto nesta mesma tarde.

Um soldadinho de brinquedo. Que outras coisas poderão ser os guardas suíços? Estava a ponto de colocar fim a uma venerável e secular tradição. Comi na cafeteria do Arquivo e dediquei o restante da tarde a recolher e guardar tudo o que tinha sobre a mesa do laboratório. Atrasar meu estudo do Panegírico me irritava mais do que podia reconhecer, mas caíra em minha própria armadilha e, de qualquer maneira, tampouco poderia escapar de uma ordem directa do cardeal Sodano. Além disso, a tarefa recebida me intrigava o suficiente para sentir uma pequena e perversa curiosidade.

Quando tudo ficou em perfeita ordem e pronto para iniciar uma nova tarefa na manhã seguinte, apanhei minhas coisas e saí. Cruzando a Colunata de Bernini, saí da Praça de São Pedro pela via da Porta Angélica e passei distraidamente junto às numerosas lojas de souvenires ainda repletas de turistas chegados a Roma para o grande Jubileu. Ainda que os ladrões do burgo conhecessem de maneira aproximada quem trabalhava no Vaticano, desde que começara o Ano Santo, nos dez primeiros dias de Janeiro chegaram à cidade três milhões de pessoas, seu número multiplicara com os perigosos vigaristas vindos em massa de toda a Itália, assim segurei a bolsa com força e acelerei o passo. A luz da tarde se desvanecia lentamente pelo oeste e eu, que sempre tive certo medo dessa luz, não via o momento de chegar em casa. Já não faltava muito.

Afortunadamente, a directora geral de minha ordem considerara que ter uma de suas religiosas num posto tão destacado como o meu bem merecia a compra de um imóvel nas imediações do Vaticano. Assim, as três irmãs e eu fomos as primeiras habitantes de um minúsculo apartamento situado na Piazza delle Vaschette, com vistas sobre a fonte barroca que antigamente recebia a saudável Água Angélica, de grandes poderes curativos para os transtornos gástricos. As irmãs Ferma, Margherita e Valéria que trabalhavam juntas num colégio público das proximidades, acabavam de chegar em casa. Estavam na cozinha, preparando o jantar e conversando alegremente sobre frivolidades. Ferma, que era a mais velha de todas, com seus cinquenta e cinco anos de idade, continuava se aferrando obstinadamente ao uniforme, camisa branca, paletó azul marinho, saia da mesma cor abaixo do joelho e grossas meias negras, que adoptara após a retirada dos hábitos. Margherita era a Superiora de nossa comunidade e a diretora do Colégio em que as três trabalhavam e tinha só uns poucos anos a mais do que eu. Nosso trato havia passado, com o transcorrer dos anos, de distante a cordial e de cordial a amistoso, mas sem entrar em profundidades. Por último, a jovem Valéria, de origem milanesa, era a professora dos menores do colégio, os de quatro e cinco anos, entre os que abundavam, cada vez mais, os filhos de emigrantes árabes e asiáticos, com todos os problemas de comunicação que isso envolvia numa aula». In Matilde Asensi, O Último Catão, 2005, Editora Dom Quixote, ISBN 978-972-202-904-9.

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quarta-feira, 17 de janeiro de 2024

O Último Catão. Matilde Asensi.«De qualquer maneira, a doutora Salina conta com meu total apoio, declarou o prefeito do Arquivo, olhando aos presentes em busca de aprovação. Agradecemos o oferecimento, Guglielmo, pontuou Sua Eminência, Mas, ainda que a irmã Otávia trabalhe habitualmente às suas ordens…»

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«Ah, o Concílio...! Sussurrou com visível desgosto. monsenhor Tournier, era um homem muito bem posto, um verdadeiro candidato, por seu aspecto, a Príncipe da Igreja, um desses pretendentes que sempre saem esplendidamente nas fotografias. É certo que a mulher ore a Deus com a cabeça descoberta? Perguntou-se em voz alta, citando a primeira epístola de São Paulo aos Coríntios. A irmã Otávia, monsenhor, pontuou o prefeito, a modo de alívio, É Doutora em Paleografia e História da Arte, além de possuir muitas outras titulações académicas. Dirige há oito anos o Laboratório de Restauração e Paleografia do Arquivo Secreto Vaticano, é docente da Escola Vaticana de Paleografia, Diplomática e Arquivística e ganhou numerosos prêmios internacionais por seus trabalhos de investigação, entre eles o prestigioso Prémio Getty, monsenhor, em duas ocasiões, em 1992 e 1995. Ah! Exclamou, se deixando convencer, o cardeal Secretário de Estado Sodano, ao mesmo tempo em que se sentava despreocupadamente junto a Tournier. Bom... Então foi por isso solicitamos sua presença nesta reunião irmã. Todos me olhavam com evidente curiosidade, mas eu permaneci em silêncio, expectante, também por que o arcebispo Secretário citara em minha honra àquela passagem de São Paulo que dizia As mulheres é permitido vir às assembleias, porém não lhes é permitido tomar a palavra. Imaginei que monsenhor Tournier, assim como o restante da concorrência, preferiria antes a mim, e com bastante diferença, a suas próprias religiosas-serventes, das que cada um dos presentes devia ter, como mínimo, três ou quatro, ou das monjas polacas da Ordem de Maria, que, vestidas com hábito e touca a modo de telhadinho, se ocupavam de preparar as refeições de Sua Santidade, limpar seus aposentos e ter sempre reluzente sua roupa; ou das filhas da Congregação das Pias Discípulas do Divino Mestre, que exerciam o cargo de telefonistas da Cidade do Vaticano.

Agora, continuou Sua Eminência Ângelo Sodano, O arcebispo Secretário, monsenhor Tournier, explicará por que você foi convocada, irmã. Guglielmo, venha, disse ao prefeito, Sente-se ao meu lado. Monsenhor lhe passou a palavra. Monsenhor Tournier, com essa certeza que só possui quem sabe que seu aspecto físico abre sem dificuldades qualquer caminho nesta vida, se levantou serenamente de sua cadeira e estendeu uma mão, sem olhar, até o soldado ruivo que lhe entregou, disciplinado, um avultado dossiê de capa negra. Senti uma volta no estômago, e por um momento pensei que estava ali o que eu fizera de errado, devia ser terrível e, com certeza, sairia daquele escritório com a demissão na mão.

Irmã Otávia, começou monsenhor; sua voz era grave e nasal, e evitava me olhar ao falar, Nesta pasta você encontrará umas fotografias que poderíamos qualificar... Como? Como insólitas, sem dúvida. Antes que as examine, devemos informar que nelas aparece o corpo de um homem recentemente falecido, um etíope sobre cuja identidade ainda não se está muito certo. Observará que se trata de ampliações de certas partes do cadáver. Ah...! Então não me iam despedir? Quem sabe seria conveniente perguntar à irmã Otávia, interveio pela primeira vez o cardeal Vicário de Roma, Sua Eminência Carlo Colli, Se vai poder trabalhar com um material tão desagradável. Olhou-me com certa preocupação paternal no rosto e continuou: Esse pobre desditado, irmã, morreu em um acidente e ficou muito desfigurado. É bastante difícil ver essas imagens. Você acha que poderá suportá-lo? Porque, se não for assim, e só me dizer. Eu estava paralisada pelo estupor. Tinha a sensação de que haviam se equivocado de pessoa. Desculpem-me, Eminências, tartamudeei. Mas não seria mais correcto que consultassem um patologista forense? Não consigo compreender em que eu possa ser de utilidade.

Verá irmã, me atalhou Tournier, retomando a palavra e iniciando um lento passeio no interior do círculo de ouvintes, O homem que aparece nas fotografias estava implicado em um grave delito contra a Igreja Católica e contra as demais Igrejas Cristãs. Lamento muito, mas não lhe podemos dar mais detalhes. O que nós queremos é que você, com a maior discrição possível, realize um estudo de certos sinais que, na forma de peculiares cicatrizes, foram descobertos em seu corpo ao retirarem a roupa para a autópsia. Escarificações, acho que é a palavra correcta para este tipo de, como poderíamos dizer...? De tatuagens rituais ou marcas tribais. Parece que certas culturas antigas tinham por costume decorar o corpo com feridas cerimoniais. Concretamente, disse abrindo a pasta e dando uma olhar nas fotografias, As deste pobre desgraçado são realmente curiosas: mostram letras gregas, cruzes e outras representações igualmente... Artísticas? Sim, sem dúvida a palavra é... Artística. O que monsenhor está tentando dizer, interrompeu Sua Eminência, o Secretário de Estado, com um sorriso cordial nos lábios, É que você deve analisar todos esses símbolos, estudá-los e nos dar uma interpretação a mais completa e exacta possível. Pode utilizar para isso todos os recursos do Arquivo Secreto ou qualquer outro meio que disponha o Vaticano.

De qualquer maneira, a doutora Salina conta com meu total apoio, declarou o prefeito do Arquivo, olhando aos presentes em busca de aprovação. Agradecemos o oferecimento, Guglielmo, pontuou Sua Eminência, Mas, ainda que a irmã Otávia trabalhe habitualmente às suas ordens, neste caso, não vai ser assim. Espero que não se ofenda, mas desde este momento e até que termine o relatório, a irmã fica adjunta à Secretaria de Estado. Não se preocupe reverendo Padre, adicionou suavemente monsenhor Tournier, fazendo um gesto de elegante desinteresse com a mão. A irmã Otávia disporá da inestimável cooperação do capitão Kaspar Glauser-Róist, aqui presente, membro da Guarda Suíça e um dos agentes mais valiosos de Sua Santidade, ao serviço do Tribunal da Sacra Rota Romana. Ele é o autor das fotografias e o coordenador da investigação em curso. Eminências... Era minha voz temerosa pelo que escutavam. Os quatro prelados e o militar se voltaram para me olhar. Eminências, repeti com toda a humildade da que fui capaz, Agradeço infinitamente que pensassem em mim para um assunto tão importante, mas temo que não vá poder me encarregar de levá-lo a cabo. Suavizei ainda mais a inflexão de minhas palavras antes de continuar. Não só porque neste momento não posso abandonar o trabalho que estou fazendo, que ocupa por completo meu tempo, mas, também porque, careço dos conhecimentos elementares para manejar as bases de dados do Arquivo Secreto e precisaria também da ajuda de um antropólogo para poder centrar os aspectos mais destacados da investigação». In In Matilde Asensi, O Último Catão, 2005, Editora Dom Quixote, ISBN 978-972-202-904-9.

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sábado, 18 de novembro de 2023

O Último Catão. Matilde Asensi.«Usava óculos antiquados, de plástico terroso e grandes vidros de forma quadrangular, vestia sotaina negra com filetes e botões púrpura, faixa matizada e meias da mesma cor. Uma discreta cruz peitoral de ouro se destacava sobre seu peito»

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«Desgraçadamente, estávamos nas portas de tão espectacular acontecimento e a cidade era um caldeirão de manobras e maquinações por parte das diferentes facções interessadas em colocar seu candidato no Trono de Pedro. O certo é que, no Vaticano, já há muito tempo que se vivia com uma grande sensação de fim de pontificado e ainda que a mim, como filha da Igreja e como religiosa, tal situação não me afectava absolutamente. Já como investigadora com vários projectos pendentes de aprovação e financiamento, me prejudicava muito directamente. Durante o pontificado de João Paulo II, de marcada tendência conservadora, fora impossível levar a cabo determinado tipo de trabalhos de investigação. Em meu foro interno, ansiava que o próximo Santo Padre fosse um homem mais aberto de ideias e menos preocupado em se entrincheirar na versão oficial da história da Igreja, havia tanto material classificado debaixo das epígrafes de Reservado e Confidencial!

Com certeza, não tinha muitas esperanças de que se produzisse uma renovação significativa, já que o poder acumulado pelos cardeais nomeados pelo próprio João Paulo II, durante mais de vinte anos, definia como impossível a eleição no Conclave de um Papa da ala progressista. Salvo se o Espírito Santo em pessoa estivesse decidido a uma mudança e exercesse sua poderosa influência em uma nomeação tão pouco espiritual, ia ser realmente difícil que não saísse eleito um novo Pontífice do grupo conservador. Nesse instante, um sacerdote vestido com sotaina negra se aproximou do Reverendo Padre Ramondino, disse algo ao seu ouvido, e este me fez um sinal, levantando as sobrancelhas, para que me preparasse: estavam nos esperando e devíamos entrar. As esquisitas portas se abriram em frente a nós silenciosamente e eu esperei que Prefeito entrasse em primeiro lugar, como manda o protocolo. Uma sala três vezes maior que a sala de espera da qual viemos, completamente atulhada com espelhos, molduras douradas e pinturas, que identifiquei serem de Rafael, decorava o menor escritório que vira em minha vida: ao fundo, quase invisível para meus olhos, uma mesa clássica, colocada sobre um tapete e seguida por uma cadeira de espaldar alto, constituía todo o mobiliário. A um lado da sala, debaixo das esbeltas janelas que deixavam passar a luz do exterior, um grupo de eclesiásticos conversava animadamente, ocupando uns pequenos banquinhos que ficavam ocultos debaixo de suas sotainas. De pé atrás de um daqueles prelados, um estranho e taciturno laico permanecia à margem da conversa, exibindo uma atitude tão obviamente marcial que não tenho nenhuma dúvida de que se tratasse de um militar ou um policial.

Era terrivelmente alto, mais de um e metro noventa de altura, corpulento e forte como se levantasse pesos todos os dias e mastigasse vidros nas refeições. Usava o cabelo ruivo totalmente raspado. Ao nos ver chegar, um dos cardeais, que reconheci imediatamente como o Secretário de Estado, Ângelo Sodano, se pôs de pé e veio a nosso encontro. Era um homem de estatura mediana e aparentava uns setenta e tantos anos, com uma ampla testa, produto de uma discreta calvície, e com o cabelo branco engomado debaixo do solidéu de seda púrpura. Usava óculos antiquados, de plástico terroso e grandes vidros de forma quadrangular, vestia sotaina negra com filetes e botões púrpura, faixa matizada e meias da mesma cor. Uma discreta cruz peitoral de ouro se destacava sobre seu peito. Sua Eminência tinha um grande sorriso amistoso quando se aproximou do Prefeito, para trocarem os beijos de saudação. Guglielmo! Exclamou.

Que alegria voltar a vê-lo! Eminência! A satisfação mútua pelo reencontro era evidente. Assim, o Prefeito não fantasiara ao falar sobre sua velha amizade com o mandatário mais importante do Vaticano, depois do Papa, claro. Cada vez me encontrava mais perplexa e desorientada, como se tudo aquilo fosse um sonho e não uma realidade tangível. O que acontecera para que eu estivesse ali? O restante dos presentes, que também observavam a cena com atenção e curiosidade, eram o Cardeal Vicário de Roma e presidente da Conferência Episcopal Italiana, Sua Eminência Carlo Colli, um homem tranquilo de aparência afável; o Arcebispo Secretário da Segunda Seção, Monsenhor Françoise Tournier, que reconheci por seu solidéu violeta, e não púrpura, exclusivo dos Cardeais, e o silencioso combatente ruivo, que franzia as sobrancelhas transparentes como se estivesse profundamente desgostoso por aquela situação.

De repente, o Prefeito se voltou para mim e, me empurrando pelo ombro, me adiantou até me colocar a seu lado, em frente ao Secretário de Estado. Esta é a doutora Otávia Salina, Eminência, disse como apresentação; os olhos de Sodano me examinaram de cima a baixo em questão de segundos. Menos mal que nesse dia me havia vestido decentemente, com uma bonita saia cinza e um conjunto de jersey com casaco salmão. Uns trinta e oito ou trinta e nove anos bem vividos, rosto agradável, cabelo curto e negro, olhos negros e mediana estatura. Eminência... Murmurei ao mesmo tempo em que fiz uma genuflexão e, inclinando a cabeça em sinal de respeito, beijei o anel que o Secretário de Estado colocara ante meus lábios. Você é religiosa, doutora? Perguntou após a saudação. Tinha um ligeiro sotaque do Piamonte. A irmã Otávia, Eminência, se apressou a esclarecer o Prefeito, É membro da Ordem da Venturosa Virgem Maria. E por que veio laica? Perguntou o Arcebispo Secretário da Segunda Seção, Monsenhor Françoise Tournier, desde sua cadeira. Acaso sua ordem não usa hábito, irmã? O tom era profundamente ofensivo, mas não me ia deixar intimidar. A estas alturas de minha vida na cidade, a mesma situação já acontecera uma infinidade de vezes e estava curtida em mais de mil batalhas do gênero. Olhei directamente nos seus olhos para responder: Não, monsenhor. Minha ordem abandonou os hábitos após o Concílio Vaticano II. Ah, o Concílio...!» In In Matilde Asensi, O Último Catão, 2005, Editora Dom Quixote, ISBN 978-972-202-904-9.

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O Último Catão. Matilde Asensi.«Está claro que Wojtyla não pensa em demitir, afirmou outro, alisando a barba. Ou não o deixam demitir! Sentenciou ousadamente um terceiro. O restante de suas palavras se perdeu enquanto desapareciam corredor abaixo»

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«O sacerdote secretário parou, por fim, em uma das salas, uma qualquer, idêntica às demais, com os mesmos motivos ornamentais e as mesmas pinturas, e nos pediu que esperássemos um momento, desaparecendo atrás de umas portas tão delicadas como folhas de ouro. Sabe onde nos encontramos doutora? Perguntou o Prefeito com gestos de mão nervosos e um sorrisinho de profunda satisfação nos lábios. Aproximadamente, Reverendo Padre... Respondi olhando com atenção ao meu redor. Havia um odor especial ali, como de roupa recém-passada ainda quente, mesclada com tintura e gomas. Estas são as dependências da Segunda Secção da Secretaria de Estado, fez um gesto com o queixo abarcando o espaço, A secção que se encarrega das relações diplomáticas da Santa Sé com o resto do mundo. Em frente, se encontra o Arcebispo Secretário, monsenhor Françoise Tournier. Ah, sim, monsenhor Tournier! Afirmei com muita convicção. Não tinha nem ideia de quem era, mas o nome me soava ligeiramente familiar. Aqui, doutora Salina, é onde com maior facilidade se pode comprovar que o poder espiritual da Igreja está por cima de governos e fronteiras. E por que viemos a este lugar, Reverendo Padre?

Nosso trabalho não tem nada a ver com este tipo de coisas. Olhou-me com perturbado e desceu a voz. Não saberia dizer o motivo... De qualquer maneira, o que posso afirmar é que se trata de um assunto do mais alto nível. Mas Reverendo Padre, insisti, Eu sou funcionária do Arquivo Secreto. Qualquer assunto de nível máximo deveria tratá-lo o senhor, como Prefeito, ou Sua Eminência, monsenhor Oliveira. O que eu faço aqui? Olhou-me com cara de quem não sabia o que responder e, me dando umas pancadinhas alentadoras no ombro, me abandonou para se aproximar de um nutrido grupo de prelados que se encontrava próximo das janelas, buscando os cálidos raios do sol. Foi então quando notei que o odor de roupa recém-passada vinha daqueles prelados. Era quase a hora de comer, mas ali ninguém parecia preocupado com isso; a actividade seguia se desenvolvendo febrilmente pelos corredores e dependências, e era constante o tráfego de eclesiásticos e civis indo de um lado para outro por todos os rincões. Nunca antes tivera a oportunidade de estar naquele lugar e me entretive observando, maravilhada, a incrível sumptuosidade das salas, a elegância do mobiliário, o inapreciável valor das pinturas e dos objectos decorativos que ali havia. Meia hora antes me encontrava trabalhando, sozinha e em completo silêncio, em meu pequeno laboratório, com meu jaleco branco e meus óculos, e agora me achava rodeada da mais alta diplomacia internacional em um lugar que parecia ser um dos centros de poder mais importantes do mundo. De repente, se ouviu o barulho de uma porta ao se abrir e se escutou um tumulto de vozes que fez com que todos os presentes virassem a cabeça nessa direcção.

Imediatamente, um nutrido e grande grupo de jornalistas, alguns com câmaras de televisão e outros com gravadores, fez sua aparição pelo corredor principal, soltando risadas e exclamações. A maioria era de estrangeiros, principalmente europeus e africanos, mas também havia muitos italianos. Em conjunto, seriam uns quarenta ou cinquenta repórteres que inundaram nossa sala em questão de segundos. Alguns paravam para cumprimentar os Sacerdotes, Bispos e Cardeais que, como eu, perambulavam por ali, e outros avançavam apressadamente até à saída. Quase todos me olharam às escondidas, surpresos por encontrar uma mulher em um lugar onde algo assim não era habitual. Lehman receberá uma reprimenda! Exclamou um jornalista calvo e com óculos de míope ao passar junto a mim.

Está claro que Wojtyla não pensa em demitir, afirmou outro, alisando a barba. Ou não o deixam demitir! Sentenciou ousadamente um terceiro. O restante de suas palavras se perdeu enquanto desapareciam corredor abaixo. O presidente da Conferência Episcopal alemã, Karl Lehman, realizara umas perigosas declarações semanas atrás, afirmando que, se João Paulo II não se encontrava em condições de guiar com responsabilidade a Igreja, seria desejável que encontrasse a vontade necessária para se afastar. A frase do bispo de Magúncia, que não fora o único a expressar tal sugestão, dada a má saúde e o mal estado geral do Sumo Pontífice, caiu como azeite fervendo nos círculos mais próximos ao Papa e, pelo que parecia, o cardeal Secretário de Estado, Ângelo Sodano, acabava de dar resposta a tais opiniões em uma tormentosa roda de imprensa. As águas estavam revoltas, pensei com apreensão, e aquilo não ia parar até que o Santo Padre repousasse debaixo da terra e um novo pastor assumisse com mão firme o governo universal da Igreja. De entre todos os assuntos do Vaticano que mais interessa as pessoas, o mais fascinante sem dúvida, o mais carregado de significações políticas e terrenas, aquele onde melhor se mostram não só as ambições mais indignas da Cúria, mas, também os aspectos menos piedosos dos representantes de Deus, é a eleição de um novo Papa». In Matilde Asensi, O Último Catão, 2005, Editora Dom Quixote, ISBN 978-972-202-904-9.

Cortesia de EDQuixote/JDACT

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