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quarta-feira, 20 de março de 2024

Almoço de Domingo. José Luís Peixoto. «… nomes a formarem várias ligações, mapa de muitos caminhos, como se todos fossem filhos, primos, sobrinhos, irmãos uns dos outros; e também as crianças, nunca esquecidas, crianças de todos, futuros pais, futuros avós, futuros bisavós»

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26 de Março de 2021

«Perguntou a uma delas pela mãe. Recebeu resposta e agradecimento: senhor comendador. Tinha pressa de ir ter com a mulher, de certeza que já estava bem acordada. Durante um par de minutos, inclinou-se lá de cima, sobre a linha dos fornos que caramelizavam a alfarroba. Havia trabalhadores a varrerem cinza, a carregarem caldeiras, cada um a cumprir a sua função. Pouco faltaria para haver espanhóis a tomarem aquela mistura, no desayuno em casa ou encostados à barra, como eles dizem. A torrefação Camelo é uma máquina certa, nunca se cansava de repetir. Lembrou-se do bolo seco na boca, a mastigá-lo, as pessoas vestidas com as melhores roupas, voltas e voltas na boca, havia muito que essas pessoas não teriam conseguido imaginar. Desembaciou os olhos. À sua frente ainda estavam os homens que trabalhavam nos fornos, sorriu para todos eles.

Voltou à divisão dos sacos de café, Uganda, das máquinas a torrar grãos, das pás a arrefecê-los. Desbarrigado, indiferente ao fato de treino fora de moda, levava uma alegria que era uma espécie de vaidade. No entanto, mesmo à beira da saída, o encarregado quis dar-lhe uma palavra mais sóbria, falou do lugar onde o senhor Rui tinha de ir nessa tarde.

A pensar no lugar onde tinha de ir nessa tarde, aquela hora mudou de cor. O sorriso esmoreceu no rosto do senhor Rui, senhor comendador.

Era um veio de acidez, podia avançar por ele, isolá-lo do resto do sabor. Nesse exercício, conseguia identificar um tipo de frescura que sugeria a imagem de maçãs verdes, como quando descascava uma maçã noutro tempo e a lâmina da faca tinha riscos húmidos e a carne da maçã sangrava pequenas gotas de sumo ácido. Mas, claro, reconhecia também o doce, a sua preferência. Em alguma idade teria aprendido esse gosto, o doce confortava-o. Todavia, o doce era complexo. Ali, aquecia-lhe ligeiramente a boca com um morno que, sem inventar, lhe trazia a memória de bolachas da infância, bolachas maria em dias assinalados.

Pousou a chávena no pires, o som da loiça. A manhã entrava inteira por aquele momento, assentava nas paredes brancas, pousava em toda a extensão da mesa, na toalha, no cesto do pão, nas palavras que a mulher dizia. Ao olhar para a mulher, sentiu ainda o peso do café sobre a língua, a espessura, sentiu também o seu nome bonito, Alice. O líquido descia-lhe pela garganta, desaparecia, e o sabor do café evaporava lentamente no interior da boca. Nesse processo, desenrolava novos sabores ou, talvez, novas gradações do mesmo sabor, como tons de uma cor, castanho. Aquilo que a mulher dizia apresentava uma delicadeza semelhante, estendia um enredo de filhos, netos e bisnetos, que se cruzavam em múltiplas direcções, nomes que se enredavam, Helena, Rui, Ivan, Rita, João Manuel, Marcos, nomes dispostos em várias ordens; e também as crianças, os filhos do Rui, do Ivan, do Marcos; nomes a formarem várias ligações, mapa de muitos caminhos, como se todos fossem filhos, primos, sobrinhos, irmãos uns dos outros; e também as crianças, nunca esquecidas, crianças de todos, futuros pais, futuros avós, futuros bisavós». In José Luís Peixoto, Almoço de Domingo, Quetzal Editores, 2021, ISBN 978-989-722-460-7.

Cortesia de QuetzalE/JDACT

JDACT, José Luís Peixoto, Literatura, Narrativa, Campo Maior, Rui Nabeiro, O Saber,

Almoço de Domingo. José Luís Peixoto. «Depois de tanta veterania, algum privilégio havia de lhe calhar. Conversaram com gosto, as notícias do café vinham com optimismo. Estavam de costas voltadas para a montanha de sacas de juta…»

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26 de Março de 2021

«Foi nesse momento que, dentro daquela primavera, dobrou ligeiramente os joelhos até achar uma abertura entre verde e cor-de-rosa e, a partir desse mirante, avistou o motorista. Precisou de dar alguns minutos, não queria aparecer logo, mas faltou-lhe paciência para grandes esperas. Agradeceu em silêncio pela preferência matutina, por ter chegado cedo ao circuito de manutenção, antes de sombras fugidias que o julgassem, e saiu do loendro muito aprumado, como se viesse a caminhar no seguimento de uma andança séria, enquanto esticava e encolhia os braços para a frente.

Sem explicações, entrou no automóvel, sentou-se, bebeu de uma pequena garrafa de água, muito digno. Não foi preciso dizer nada ao motorista, que regressou à segurança de saber para onde iam em seguida. As ruas da vila apresentavam nova animação, motorizadas, gente que aparecia à janela, cães a darem algum passeio, arrumados à sombra das paredes.

Muito bem-disposto, passou o portão da torrefação Camelo, sorriso aberto, dentição luminosa. A sexta-feira sentia-se da forma subtil com que os dias da semana se distinguem uns dos outros, o tempo roda. As pás giravam sobre os grãos de café, arrefeciam-nos depois da torra, como se estivessem ali para fazer uma demonstração prática dessa qualidade cíclica do tempo. Mas faltava vontade para teorias, o trabalho estava já em plena acção, conforme se desejava. O encarregado largou logo qualquer coisa que podia esperar e, lampeiro, avançou na direcção do senhor Rui, que também seguia na direcção dele. O que diziam foi abafado pelo afã das máquinas, falavam de assuntos que pouco interessariam a quem não partilhasse o brilho nos olhos de um e de outro. O patrão, claro, tinha a sua história, as lembranças que bastas vezes lhe cruzavam a ideia, em pequeno a aprender com o pai e com o tio, e todas as suas idades, a decidir cada evolução daqueles armazéns, até ser um homem de oitenta e nove anos, até ser aquela a sua empresa de estimação, pequena entre outras empresas do grupo que, àquela mesma hora, eram preocupação da sua descendência.

Depois de tanta veterania, algum privilégio havia de lhe calhar. Conversaram com gosto, as notícias do café vinham com optimismo. Estavam de costas voltadas para a montanha de sacas de juta, as figuras dos dois homens recortadas nesse fundo. Não se tratava da pilha de sacos que está logo à esquerda de quem entra, mas sim os outros, os que estão um pouco mais à frente, à direita, café do Uganda, esse nome gravado nos sacos: Uganda Natural Robusta Coffee. O fim da conversa foi assinalado por alguns pequenos passos e, logo a seguir, duas ou três passadas rijas. A propósito de algum detalhe, o senhor Rui disse uma graça a dois rapazes com farda da fábrica, rapazes de cinquenta e tal anos, calças castanhas, camisola vermelha, grená, cor de romã madura, boina na cabeça, óculos. Riram-se os dois, como era próprio, um deles acrescentou um comentário conveniente e tratou-o por senhor comendador.

Já na sala de embalagem, três mulheres cumprimentaram-no com a deferência de uma sílaba pouco articulada, talvez sem consoantes, a mesma que usavam em todas as manhãs que o senhor Rui decidia entrar ali. À margem dessa etiqueta, a máquina repetia a sua música, a sua sequência infinita, os pacotes chegavam em fila, altivos, novos e brilhantes, deslumbrados, a verem o mundo pela primeira vez a partir de uma passadeira de metal e, por fim, encontravam as mãos da mulher que os alinhava no interior de uma caixa de papelão, prontos para se lançarem numa viagem que ainda desconheciam. O senhor Rui cumprimentou as funcionárias também com uma sílaba, mas afinada por outra nota». In José Luís Peixoto, Almoço de Domingo, Quetzal Editores, 2021, ISBN 978-989-722-460-7.

Cortesia de QuetzalE/JDACT

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segunda-feira, 18 de dezembro de 2023

Almoço de Domingo. José Luís Peixoto. « Abriu os olhos, esvaziou os pulmões. Já tinha os calcanhares mais acomodados, mas sabia que voltariam a doer se tivesse a extravagância de lançar-se em novo andamento»

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26 de Março de 2021

«A minha mãe vira-se para mim, entro nos seus olhos, são olhos verdadeiros. A nata já solidificou sobre o leite fervido. Os olhos da minha mãe, limpos, o seu rosto, esta é aquela juventude que ficará aqui, teremos de avançar sem ela, teremos de continuar, não poderemos deter-nos por nada, nem sequer por aquilo que mais importa, pela única coisa que importa. Ainda estamos sozinhos na cozinha, a minha mãe ainda não preparou as canecas, ainda não misturou o leite, ainda não as adoçou, ainda não chamou as minhas irmãs, ainda não sabe o que vai acontecer ao meu pai, faltam tão poucos anos, ainda não envelheceu, a minha mãe ainda não envelheceu. A minha mãe, os seus olhos jovens e limpos e eu com nove anos, o meu Rui, pode deixar que eu falo com o meu Rui, eu com nove anos, a querer poupá-la de tudo, a querer resolver tudo, a querer segurar-lhe nas mãos e, na hora certa, a querer sussurrar-lhe aos ouvidos: não tenha medo, mãe; não tenha medo, mãe; sou o seu Rui, estou aqui.

Estava escondido atrás das ramas e das flores de um loendro. Com os joelhos pouco dobrados, espreitava o motorista. As flores exageravam no cor-de-rosa e, ao mesmo tempo, tingiam o ar com um perfume doce, grosso, meloso. O sol começava a aquecer e, também por isso, o perfume apurava o açúcar.

Tomou uma posição mais justa, endireitou-se, mas não quis aparecer logo, precisava de dar mais alguns minutos. Lembrou-se dos óculos do Marcello Caetano, já era a segunda vez que tinha essa lembrança naquele dia. Mas logo a seguir olhou na direcção de Espanha, o olhar atravessou a vedação do estádio, lançou-se no começo da estrada. Os campos de oliveiras certinhas, que cobriam uma e outra berma, chegaram da imaginação, ou da memória, em algum desses lugares os observava também.

Pareciam malucos, os pardais, enrolavam-se em tropelias a baixa altitude, desafiavam o sol, sabiam que, a qualquer momento, podiam entrar pelas copas das árvores e descansar as asas e os bicos. Porque começou a saturar-se de esperar, voltou a dobrar ligeiramente os joelhos e voltou a espreitar o motorista entre duas pernadas do loendro.

Lá continuava ele, intrigado, encostava-se e desencostava-se da porta do automóvel, cumprimentava um transeunte, bom dia, trocava frases avulsas com os bombeiros que davam um passo fora do quartel.

Na primeira hora da manhã, quando o senhor Rui chegou de fato de treino, sapatilhas atadas com largos laços, o motorista ficou logo com duas palavras presas na garganta. A rotina é uma forma de lógica; por isso, durante o caminho para o estádio, poucos minutos em ruas sem trânsito, o motorista franziu a cara e calculou há quantos anos o patrão não começava o dia com aquela ginástica. Não alcançou um número certo. Em vez de concluir esse raciocínio, dedicou-se a pequenos sinais, gestos ou sugestões, espécie de pequenas perguntas ocultas, discretíssimas. Mas o patrão, senhor Rui, optou por olhar para o lado, ignorar o rosto metediço no espelho retrovisor e restantes códigos.

No estacionamento, puxado o travão de mão, quando o motorista se ofereceu para acompanhá-lo, recebeu logo resposta negativa, o senhor Rui levantou a palma da mão e agitou-a. E prescindiu de outras palavras, apenas um certo tom, cara sisuda. Às vezes, fazia falta esse rigor. E afastou-se em linha recta, na medida do possível, para o circuito de manutenção. Nos pensamentos, quase ofendido, parecia-lhe que aquele interesse desafiava as suas competências e respondia a acusações que não tinham sido realmente feitas. Era a idade, cismou que a desconfiança do motorista nascia do tema da idade. Os novos têm a arrogância do que desconhecem, bamboleiam-se todos manientos, carregados de presunção, sem repararem que levam um céu de pedra suspenso sobre a cabeça, nuvens esculpidas. Está mesmo ali, bastaria um movimento de pescoço para enxergá-lo, mas ficam de olhos turvos quando dirigem a vista para certas lonjuras, conforme olhos de peixe morto, ganham a mesma capa de cegueira.

Influído por esse despique, passou diante das bilheteiras do estádio do Campomaiorense, quatro buracos quadrados numa parede, e entrou no circuito de manutenção. Seguia de queixo erguido, acompanhava os passos com movimento atlético de cotovelos ao longo do corpo mas, de repente, os artelhos tomaram outra decisão. E, logo os dois ao mesmo tempo, lançaram uma pontada que lhe apanhou os calcanhares, o peito dos pés, articulações, tendões, músculos. Só teve tempo de se encostar ao vulto do loendro e serenar. Pensou numa cadeira ou num banco, mas aquela sombra já era de valor. Fechou os olhos, encheu os pulmões. Lembrou-se do sentinela no Quartel do Trem, a hora de sair, licença, e o sentinela lá estava, sempre um rapaz amedrontado, por mais que o escondesse numa cara desta ou daquela maneira, um rapaz em sentido, a cabeça a assar no capacete, os pés a ferverem nas botas, meias de fio áspero. Abriu os olhos, esvaziou os pulmões. Já tinha os calcanhares mais acomodados, mas sabia que voltariam a doer se tivesse a extravagância de lançar-se em novo andamento. Lembrou-se das razões porque deixou de fazer aquela caminhada, pequena derrota, mais uma». In José Luís Peixoto, Almoço de Domingo, Quetzal Editores, 2021, ISBN 978-989-722-460-7.

 Cortesia de QuetzalE/JDACT

JDACT, José Luís Peixoto, Literatura, Narrativa, Campo Maior, Rui Nabeiro, O Saber, 

Almoço de Domingo. José Luís Peixoto. «… a Clarisse irá lamber os lábios para não desperdiçar nenhum cristal de açúcar, a minha mãe irá desfrutar do consolo de ver-nos consolados. Caem as últimas gotas negras pelo bico do filtro, cone invertido, o eflúvio do café»

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26 de Março de 2021

«Quando entreguei o prato e o pano à minha mãe, tinha a cesta aviada com pedaços de carne acomodados em folhas de couve, pode deixar que eu falo com o meu Rui. A minha mãe explicou-me os destinatários dessas encomendas, orelha, toucinho, ossos, pés, fígado, baço. Antes de sair, passou-me a mão pelo cabelo, uma festa, como se me penteasse. Quando terminei a primeira ronda, estavam as mulheres no começo de encher as farinheiras. O cheiro avinagrado da massa das farinheiras impregnava a divisão. A seguir, com a cesta novamente carregada, as ruas de Campo Maior entardeceram, a cal recebeu diferentes amarelos, acinzentados e azuis, até cair a noite. Quando voltei da segunda ronda de distribuição, mãos agradecidas a receberem as encomendas, olhos regalados a apreciarem a carne, a textura da carne sobre a couve, a minha mãe esperava-me com a vasilha do leite, tinha essa intenção planeada desde sempre. Depois do morno do sebo e da palha, depois do olhar mal iluminado das vacas, depois das ruas, noite antes do serão, gente a voltar para casa, cheguei com o quarto de litro de leite, mais um ou dois dedos por paga de bom freguês.

Foi ao entregar a vasilha que a minha mãe me prometeu a nata. Eu conhecia já o desenvolvimento desse gesto, não era a primeira vez. Entrei em casa e sentei-me à mesa com as minhas irmãs, a pequena não estava ainda farta de brincadeira. Sopa de feijão com massa, a minha mãe sempre de pé, a ir de uma tarefa para outra, acabámos de comer em silêncio, as sombras engrossavam nos cantos. Mas a pequena estava ainda esperta, não pensava em sono, e a minha irmã Cremilde fazia-lhe a vontade, as suas vozes a desmontarem-se até serem risos e, sem esforço, a transformarem-se outra vez em vozes. Recolhida a loiça, quando fui buscar o caderno da escola e me sentei à mesa, arrumado ao candeeiro de petróleo, a minha mãe deu ordem às raparigas para irem para o quarto, não se importaram, sabiam que lá estariam mais soltas.

O carvão do lápis, no papel, sob a luz do candeeiro, penumbra, era feito de sombra, escrevi letras com sombra. O tempo, a minha mãe e eu, todos os objectos da cozinha. E, há poucos minutos, voltei a guardar o caderno, os trabalhos terminados, aptos para o olhar do professor e, imediatamente, os sons do alumínio e do esmalte, a vasilha de alumínio a verter o leite para o púcaro de esmalte. Apercebo-me ainda do momento em que arrumei o púcaro às brasas, a raspar no chão de cinzas, ao lado da cafeteira com água que está sempre encostada ao lume. Esse momento aconteceu e está ainda a acontecer, existiu o ponto em que tudo era esse momento, e existe este ponto arrastado em que é um eco, imagem desfiada, composta por notícias em que só agora reparo.

Interrompendo um raciocínio, de repente, como se me quisesse apanhar desprevenido, o leite sopra um arrufo e lança-se; mas os meus reflexos são imediatos, inclino-me e puxo o púcaro. A minha mãe dá conta deste gesto. Tem tudo preparado, abre a lata do café. Fixo-me nas minhas mãos de rapaz de nove anos, o tamanho e a forma dos dedos, as unhas, a pele da palma das mãos, os pulsos. Reparo nos meus braços, na proporção do meu corpo em relação ao que me rodeia, esta cozinha, a cozinha dos meus nove anos, reparo neste tempo, serão da minha infância, inverno, dia de semana, o meu irmão que ainda não chegou, um homem com dezasseis anos, as minhas irmãs, a Cremilde com onze e a Clarisse com sete, e o meu pai, que também ainda não chegou, o patrão não lhe concedeu anuência, mas que está em algum lugar, a respirar, a ver alguma coisa, quase de certeza a pensar em nós, quase de certeza a pensar que gostava de estar aqui.

E esta hora tão precisa, intensa, a minha mãe, resguardada pela luz e pela escuridão, o candeeiro de petróleo a aguentar todo o peso da noite. A minha mãe com a cintura envolta em nuvens, entorna a água sobre o coador. É café do melhor, trazido de Espanha pelo meu tio, é ouro. Vai preparar canecas de café com leite para as minhas irmãs e para mim, para o meu irmão mais tarde, a Clarisse irá lamber os lábios para não desperdiçar nenhum cristal de açúcar, a minha mãe irá desfrutar do consolo de ver-nos consolados. Caem as últimas gotas negras pelo bico do filtro, cone invertido, o eflúvio do café». In José Luís Peixoto, Almoço de Domingo, Quetzal Editores, 2021, ISBN 978-989-722-460-7.

 Cortesia de QuetzalE/JDACT

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Almoço de Domingo. José Luís Peixoto. «As minhas irmãs continuam no quarto. Não me viro para ver a minha mãe, mas sinto a sua presença, mãe desmedida, este é o mundo onde ela existe»

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26 de Março de 2021

«Hoje, durante toda a tarde, atravessei Campo Maior bastas vezes. Pousei o livro da segunda classe, comi um caldo e, logo a seguir, estava eu já disposto, encostado a dois breves minutos de folga, em silêncio bem-comportado. A minha mãe aceitava uma encomenda, pode deixar que eu falo com o meu Rui. Eu ali, transparente ou invisível, e a minha mãe a falar de mim, o Rui dela. Temos carne nova na mercearia, sabes e por toda a vila. O porco foi morto ontem e, àquela hora, já não estava pendurado de cabeça, preso pelas patas traseiras, tinham começado a desmanchá-lo no primeiro início da manhã, cedo, no fresco, antes ainda da minha abalada para a escola.

Pode deixar que eu falo com o meu Rui, e falaria, mas o primeiro mandado já estava capaz de ser feito. Com solene cerimónia, a minha mãe apresentou-me um prato de fêveras, coberto por um pano. E tanto o prato, como o pano, como as fêveras, pertenciam à melhor selecção.

Atravessei a praça da República e, depois, escolhi as ruas que me pareceram mais apuradas para aquele desfile. Levava o prato à frente do peito, seguro pelas duas mãos. Em cada passada, levantava o pé com firmeza, não arriscava sequer tropeçar numa ideia. Nesse rigor, cruzei-me com moços da minha idade, obrigados a decorar os mesmos rios de Angola que eu e, apesar dessa grande confiança, não nos cumprimentámos. Em silêncio, reconhecendo gravidade, ficaram apenas a seguir-me com o olhar.

Mais perto da casa do doutor, crescia o desejo de ver o meu pai, talvez calhasse a achá-lo entre uma tarefa e outra, podia mesmo coincidir com a oportunidade de um passeio no carro do patrão, do doutor, os bancos de couro, o gargalo esticado para ver a estrada depois do capô, longa carroçaria de chapa mociça, e o meu pai, compenetrado, os braços pousados no guiador, pronto para qualquer manobra. Mas, quase ao mesmo tempo, logo colado a esse pensamento, o coração desengatilhava-se a bater, tipo bombo, era o medo de encontrar o filho do doutor, medo de que andasse solto, espírito envenenado. Fiz os últimos metros nesse suplício, como se o prato de fêveras me puxasse a mim. Fui direito às traseiras, bati à porta da copa, chegou uma servente de cozinha que me desenganou logo da possibilidade de ver o meu pai, tinha acabado de sair de automóvel, tinha ido levar ou buscar a patroa, a esposa do doutor.

À espera da devolução da loiça, a ansiedade cresceu com a idealização do filho do doutor, rosto esgazeado que podia saltar-me à frente. Assim que recebi o prato enxaguado, a pingar água, o pano muito bem dobrado, quis sair dali. Nessa urgência, distingui um urro abafado, talvez o filho do doutor, trancado em algum ponto daquele casarão, ou no interior da minha cabeça.

As brasas, como pequenas almas. A cinza, quase misturada com a sombra, pó de sombra. O leite, escondido na sua cor, mas prestes a irromper de repente pelas paredes do púcaro. Tenho de evitar essa bruteza de desperdício. Tenho também de esquivar-me aos pingos súbitos que as barrigas dos chouriços largam, chuva muito lenta de gordura espessa, gordura que se desfez para atravessar os poros das tripas e, depois, aquecida por este fumo paciente, se reagrupou num pingo meloso. Não afasto o olhar do lume, estou de guarda às chamas e ao leite, mas reconheço na pele o toque da luz do candeeiro, o aroma tóxico e doce do petróleo queimado. O meu irmão ainda não chegou a casa. Não se sabe a que horas o meu pai chegará, dispensado por fim pelo doutor. As minhas irmãs continuam no quarto. Não me viro para ver a minha mãe, mas sinto a sua presença, mãe desmedida, este é o mundo onde ela existe». In José Luís Peixoto, Almoço de Domingo, Quetzal Editores, 2021, ISBN 978-989-722-460-7.

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terça-feira, 12 de dezembro de 2023

Almoço de Domingo. José Luís Peixoto. «Aqui, este lume tem de cumprir dois deveres para servir a nossa família. O primeiro são os varões de farinheiras, chouriços, morcelas, paios e paiolas na chaminé. Esses enchidos foram enfiados um a um nos varões…»

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26 de Março de 2021

«Como se tomasse sabor à língua ressequida, como se comesse papas imaginárias, abriu e fechou a boca, repetiu breves estalidos. A seguir, apertou as pálpebras nos olhos e, ao destapá-las, a penumbra ganhou formas, foi capaz de distinguir a luz que chegaria apenas mais tarde, o nascer efectivo do dia, luz que haveria de atravessar alguns pontos da janela fechada e, a partir daí, disparar linhas no ar do quarto, conferindo dados suficientes para um cálculo de área e volume. Mas ele tinha referências de maior confiança, conhecimento acumulado sem necessidade de medições, todos os dias em que despertava naquele quarto. Por orgulho, ignorava ainda o despertador. Mas existia o tempo e a respiração da mulher, que resvalava ténue no céu da boca. E o mesmo reconhecimento de pureza, Alice, ligação simples e, naquele silêncio de sons quebradiços, ligação profunda.

Em passos seguidos, indiferente à roupa escolhida, dobrada e preparada de véspera, fez o caminho que a cabeça lhe ditava. Ocupado nessa tarefa, regressou ao seu nome. Regressou ao nome que a mulher lhe chama todos os dias, o que lhe chamava logo depois de se casarem, com um ou dois meses de casados, o nome que lhe chamavam na tropa, em Elvas, o nome que a mãe lhe chamava, a voz da mãe, cada momento em que a voz da mãe se ouvia de novo, o seu nome entre frases que a mãe dizia pela primeira vez, mas também o nome que os funcionários lhe chamam, os funcionários mais antigos e os mais novos, avós, pais, netos, o nome que os clientes lhe chamam, de norte a sul, até os clientes estrangeiros, e o nome por que é tratado nas ruas de Campo Maior, que escuta às vezes, quase sussurrado quando alguém dá alerta para a sua passagem, e o nome que as irmãs lhe chamavam, as manas, e o tio Joaquim, homem bem falante, e o professor na terceira classe, o seu nome a atravessar a sala de aula, a luz da sala de aula, o seu nome a atravessar manhãs antigas, e o nome que o pai lhe chamava, o pai, a maneira como o pai referia o seu nome, os tons com que o pronunciava, a voz do pai existiu, não foi esquecida, existiu.

Onde existia a voz do pai naquele instante?

O fato de treino tinha cheiro de armário. Assim que terminou de vesti-lo, de puxar o fecho do casaco, acertou os elásticos na cintura. Em sequência, atou as sapatilhas, um pé, outro pé, e levantou-se devagar, mas com firmeza, sem precisar de se agarrar a nada. Passou a mão pelo bigode e saiu.

O lume tem de se conformar com chamas comedidas, sem extravagâncias de grande queima. Pode envolver os madeiros, dar-lhes uma capa de flama, mas não pode atirar-se à bruta para cima dos chamiços, por muita sede que lhes tenha. Aqui, este lume tem de cumprir dois deveres para servir a nossa família. O primeiro são os varões de farinheiras, chouriços, morcelas, paios e paiolas na chaminé. Esses enchidos foram enfiados um a um nos varões, que ficaram amparados por dois bancos antes de serem alçados, distribuídos pelos vários escalões do interior da chaminé. O segundo encargo deste lume é o púcaro de leite e a cafeteira. Não se pode deixar o lume avivar muito enquanto estiverem estas carnes a fumar, uma dúzia de dias pelo menos, mas este leite precisa de algum fogacho para ferver. É por isso que estou de sentinela, esta cana serve para animar o lume se começa a esmorecer, mas também para lhe dar uma cacetada se quiser levantar cabelo.

A nata do leite, mal cheguei com a vasilha, a minha mãe prometeu-me essa iguaria. A noite estava começada, mas não sei se tinham batido as seis no relógio da igreja matriz. Oferta de mãe, afeição natural. Se fosse preciso uma razão em voz alta, havia o vigor que a nata me infundia, gaiato de nove anos a fazer-se, mas ninguém pediu razões». In José Luís Peixoto, Almoço de Domingo, Quetzal Editores, 2021, ISBN 978-989-722-460-7.

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Almoço de Domingo. José Luís Peixoto. «Abriu os olhos, regressou ao seu corpo. Começou por virar-se devagar e, ao fazê-lo, regressou à sua idade: oitenta e nove anos, esse número. Enquanto rolava o corpo no colchão…»

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26 de Março de 2021

«Se continuasse nessa direcção, pouco tardaria para alcançar a fronteira. Ali, no sossego, os nervos da fronteira eram uma memória inofensiva, despertaram-lhe certa forma de entusiasmo ou de juventude, mas não deu o passo que ultrapassaria essa linha, regressou de repente ao discernimento do quarto, ainda o corpo na mesma posição, imóvel, deitado, interessado no morno, a madrugada.

O passado tem de provar constantemente que existiu. Aquilo que foi esquecido e o que não existiu ocupam o mesmo lugar. Há muita realidade a passear-se por aí, frágil, transportada apenas por uma única pessoa. Se esse indivíduo desaparecer, toda essa realidade desaparece sem apelo, não existe meio de recuperá-la, é como se não tivesse existido. Lembrou-se do bolo seco na boca, a mastigar o bolo, a não conseguir engoli-lo, voltas e voltas na boca, um cálice de licor, a molhar a ponta dos lábios num cálice de licor, esse doce a misturar-se com a massa mastigada do bolo. O passado é enorme, é como uma montanha, e assenta inteiro sobre o presente, que é como uma agulha, como a ponta afiada de uma agulha. Uma montanha assente sobre a ponta de uma agulha, onde é que já se viu?

Imóvel, deitado, libertava frases dentro de si. Eram frases que se afastavam na escuridão, tinha tempo de observá-las, considerá-las. Talvez devido ao silêncio daquela hora, talvez devido à limpeza do jejum, eram frases que continham uma verdade solene e ardente, com alguma angústia às vezes, sobretudo no momento em que começavam a desfazer-se, a misturar-se com as coisas esquecidas, a voz a tornar-se vaporosa. A quem pertencia aquela voz? Fixou-se nela. Escutou-a com a mesma clareza com que teria escutado uma voz vinda de fora, alguém a falar-lhe. No entanto, aquela era uma voz que dizia eu e que, ao fazê-lo, se referia a ele. Quem dizia eu no seu interior? Era ele aquela voz?

Sentiu a mulher a seu lado, que nome bonito, Alice, nome de menina, e quase pensou em despertá-la, partilhar o alívio. Mas conhecia bem o seu rosto adormecido, amparou-se nele tantas vezes ao longo das décadas, rosto indefeso, confiança absoluta, Alice, vários rostos e, no entanto, sempre o mesmo. Essa lembrança, como fotografias sobrepostas, chegou-lhe à garganta, a ternura é uma forma sublime de amizade. E, ainda de olhos fechados, precisou de inspirar fundo, como se sorvesse toda a escuridão e, logo a seguir, a devolvesse à madrugada.

Abriu os olhos, regressou ao seu corpo. Começou por virar-se devagar e, ao fazê-lo, regressou à sua idade: oitenta e nove anos, esse número. Enquanto rolava o corpo no colchão, cilindro, insecto lento, tentava não acordar a mulher, ruídos de molas, juntas da cama, corrente de ar abrupta ao rés dos lençóis. Ao mesmo tempo, uma guinada na lombar, a nuca pouco articulada, os pulsos a terem de ser manobrados com prudência para não se abrirem numa luxação. E, na saída da roupa da cama, reprimiu o suspiro que a coluna aprumada e as vértebras encaixadas lhe pediram. A ponta do pé, embicada, tocou o chão». In José Luís Peixoto, Almoço de Domingo, Quetzal Editores, 2021, ISBN 978-989-722-460-7.

Cortesia de QuetzalE/JDACT

JDACT, José Luís Peixoto, Literatura, Narrativa, Campo Maior, Rui Nabeiro, O Saber, 

Almoço de Domingo. José Luís Peixoto. «Sabia de episódios em todos os recantos da vila, presenciara uma parte deles, salpicado por muita realidade, e vivera uma porção ainda mais extensa desse rol. E sorria com força nova…»

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26 de Março de 2021

«Acordou sem idade. Lembrou-se do corpo, mas não mexeu um dedo. Sentiu a roupa da cama, indistinta daquela hora da madrugada, mas não abriu os olhos. Coberto pelo agasalho, preferia a escuridão à penumbra ou, pior ainda, aos números modernos e implicantes do despertador electrónico. As pálpebras eram-lhe leves, da mesma maneira que era leve o mundo naquele instante, o silêncio lá fora sobre a vila, o ar limpo que inspirava e que o desimpedia por dentro. Não mexeu um dedo ou qualquer músculo, tinha certezas. Sabia que envelhecer é acumular dores: começam por doer certos gestos, certos jeitos, virar-se de repente, agachar-se para atar o sapato; depois, doem as acções mais comuns, sentar-se, levantar-se, caminhar; até que, por fim, dói tudo, dói estar, dói ser.

Essas eram as dores que não sentia ali. Estava como na mocidade ou, pelo menos, estava como quando desconhecia determinadas queixas. Deitado, louvava as serventias da ignorância e, sem querer entregar-se à excessiva ingenuidade, quase acreditou que podia ter rejuvenescido de repente. Era uma hipótese, quem sabe, se calhar. Já tinha sido testemunha de fenómenos muito mais imprevistos. Se lhe fosse oferecido esse negócio, estava pronto a aceitá-lo de imediato, embora jamais se mostrasse demasiado ansioso, há muito que conhecia as regras das transacções comerciais. Em todo o caso, à cautela, permanecia imóvel, mantinha a posição.

Lembrou-se dos óculos do Marcello Caetano. E baralhou-se, passou um segundo ou o que pareceu ser um segundo. Lembrou-se do cheiro avinagrado da massa das farinheiras e quis continuar nessa lembrança, prosseguiu, a massa branca que repousava em dois alguidares, grãos de gordura a brilharem, a mãe e duas mulheres a instalarem-se em bancos, de roda do primeiro alguidar e, com unhas cortadas à tesoura, a encherem as tripas, e a massa das farinheiras nas costas das mãos, quase a chegar aos pulsos, enfiavam-na com os dedos num pequeno funil de alumínio e, através desse instrumento, nas tripas, que não enchiam completamente antes de amarrar com o atilho, e a mãe a levantar o rosto, a dar por ele, seu filho, a chamá-lo, a chamá-lo de novo no interior dessa lembrança. Vinha de longe a voz da mãe e, no entanto, custava-lhe diferenciá-la de si próprio. Onde existia a voz da mãe naquele instante? E repetiu a lembrança da mãe a chamá-lo, o cheiro avinagrado da massa das farinheiras.

Era um homem deitado. Como se, ao perder a idade, tivesse perdido uma parte do nome. Desfrutava de uma simplicidade que esquecera durante longas temporadas. Como se tivesse sido aliviado de uma carga invisível, talvez o olhar que as multidões lhe dirigiam quando chegava, talvez o peso do respeito, senhor comendador, senhor comendador, era um homem deitado. Ou seja, mantinha o nome, sempre recusou ser anónimo, levava o nome entranhado, mas tinha perdido o peso que o tempo lhe acrescentara. Mantinha a história mas, incrivelmente, como um mistério daquela hora da madrugada, o peso que lhe sobrecarregava os ossos tinha sido levantado.

Aproveitou essa liberdade, sorriu por dentro. Essencial, reduzido ao ser ou, com mais rigor, ampliado nele, seguiu a reverberação imaterial que ocupava e estendeu a sua presença à casa, silêncio formal, cerimonioso, pontilhado por estalidos aleatórios na distância, madeiras a queixarem-se. Deitado na cama, na vasta escuridão dos olhos fechados, avançou por corredores, entrou em divisões que, apesar da passagem dos anos, continuavam a parecer-lhe novas. Recordou o momento em que foram projectadas e edificadas; com a mesma facilidade, poderia ter recordado o tempo em que apenas as imaginava.

Nunca quis acostumar-se à posse, deixar de apreciar, perder o gosto, era aquela uma casa boa. E atravessou as paredes da casa, muros, portas, portões, ou atravessou uma ideia com a mesma grossura, e lançou o sentido nas ruas da vila. Conhecia todas as ruas, tanto as mais antigas, distorcidas por séculos, calcorreadas por gente e gente, sombras sacrificadas, como as mais recentes, ainda cheirosas de cimento. Se fosse preciso, não lhe custaria achar caminho em Campo Maior na noite mais preta, sem lua, sem iluminação pública, de olhos fechados.

Em tempos, pousara a palma da mão bem aberta na cal, sentira-lhe as múltiplas camadas. Sabia de episódios em todos os recantos da vila, presenciara uma parte deles, salpicado por muita realidade, e vivera uma porção ainda mais extensa desse rol. E sorria com força nova ao reparar no fresco de algumas ruas, aragem que bulia entre as fachadas, erguidas de um lado e de outro, portas abertas ou apenas encostadas, o trinco solto, roupas estendidas de gente que conhecia bem, vozes a tratarem do jantar, braseiras espalhadas nos fins de tarde de Março, a avivar as brasas para o serão. A que ano pertenceriam esses marços?, esta era a pergunta que não colocava, preferia analisar o aroma das folhas de laranjeira, vindo de algum quintal, de alguma horta, já talvez a caminho do campo e, dessa maneira, escutava o som das botas a pisarem a terra, ervas de Março ou, mais provavelmente, ervas sem mês e sem ano». In José Luís Peixoto, Almoço de Domingo, Quetzal Editores, 2021, ISBN 978-989-722-460-7.

 Cortesia de QuetzalE/JDACT

JDACT, José Luís Peixoto, Literatura, Narrativa, Campo Maior, Rui Nabeiro, O Saber,

quinta-feira, 28 de outubro de 2021

Poesia. José Luís Peixoto. «… os teus cabelos, a testa, os olhos, o nariz, os lábios. De encontro ao silêncio, dentro do mundo, estás tão bonita é aquilo que quero dizer»

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A Mulher Mais Bonita do Mundo

«A Mulher Mais Bonita do Mundo

estás tão bonita hoje. quando digo que nasceram
flores novas na terra do jardim, quero dizer
que estás bonita.
entro na casa, entro no quarto, abro o armário,
abro uma gaveta, abro uma caixa onde está o teu fio
de ouro.
entre os dedos, seguro o teu fino fio de ouro, como
se tocasse a pele do teu pescoço.
há o céu, a casa, o quarto, e tu estás dentro de mim.
estás tão bonita hoje.
os teus cabelos, a testa, os olhos, o nariz, os lábios.
estás dentro de algo que está dentro de todas as
coisas, a minha voz nomeia-te para descrever
a beleza.
os teus cabelos, a testa, os olhos, o nariz, os lábios.
de encontro ao silêncio, dentro do mundo,
estás tão bonita é aquilo que quero dizer».
Poema de José Luís Peixoto, in A Casa, a Escuridão

Palavras para a Minha Mãe

«mãe, tenho pena. esperei sempre que entendesses
as palavras que nunca disse e os gestos que nunca fiz.
sei hoje que apenas esperei, mãe, e esperar não é suficiente.
pelas palavras que nunca disse, pelos gestos que me pediste
tanto e eu nunca fui capaz de fazer, quero pedir-te
desculpa, mãe, e sei que pedir desculpa não é suficiente.
às vezes, quero dizer-te tantas coisas que não consigo,
a fotografia em que estou ao teu colo é a fotografia
mais bonita que tenho, gosto de quando estás feliz.
lê isto: mãe, amo-te.
eu sei e tu sabes que poderei sempre fingir que não
escrevi estas palavras, sim, mãe, hei-de fingir que
não escrevi estas palavras, e tu hás-de fingir que não
as leste, somos assim, mãe, mas eu sei e tu sabes.
Poema de José Luís Peixoto, in A Casa, a Escuridão

Cortesia de OCitador/JDACT

JDACT, José Luís Peixoto, Poesia, Cultura,

sexta-feira, 19 de julho de 2019

Cemitério de Pianos. José Luís Peixoto. «Não mexas em nada, diz-lhe, brusca. E avança pela alcatifa do corredor. Como se uma ideia caminhasse também pelo corredor, viesse na sua direcção…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) A íris vai para começar a chorar, mas a minha mulher consegue contê-la. Diz-lhe: pronto, pronto. E enrola-lhe a mão pequena numa tira de ligadura que prende com fita adesiva. Depois, encontra um instante para lhe passar os dedos pelo cabelo: ternura: e, devagar, aproxima-lhe os lábios da testa. Sorri-lhe: já passou. A íris fica em bicos de pés, com o queixo erguido sobre o lavatório, enquanto a minha mulher lhe lava a cara ainda desordenada pelo choro. Sente-lhe o rosto. Sente-lhe o rosto através da toalha de pano turco e, só depois, pousando-lhe uma mão sobre o ombro, pergunta como é que o móvel caiu. Era a boneca, diz a íris. A minha mulher percebe que a nossa neta quis subir ao armário para tirar a boneca, vestida de nazarena, que a Maria tinha a enfeitar uma das estantes do armário. É uma boneca de plástico que a Maria comprou numa excursão. Tem as sete saias das mulheres dos pescadores da Nazaré e um chapéu preto sobre um lenço de flores. Tem pestanas pintadas sobre os olhos pintados. Está descalça sobre uma base redonda que diz: recordação da Nazaré. Apesar de todas as vezes que a avó lhe ralhou, a íris tem uma cegueira desmedida por aquela boneca. Quando a minha mulher começa a preparar-se para lhe ralhar, tocam à campainha. Mais uma vez, o seu coração. Já passa da hora em que o carteiro poderia tocar à campainha, é cedo para a hora de almoço da nossa filha e não é costume haver outras visitas durante todo o dia. A minha mulher deixa a íris a esperá-la na casa de banho.
Não mexas em nada, diz-lhe, brusca. E avança pela alcatifa do corredor. Como se uma ideia caminhasse também pelo corredor, viesse na sua direcção e se cruzasse com ela, passa-lhe pela cabeça que quem está a tocar à campainha pode ser a mesma pessoa que lhe telefonou há minutos. Pode ser alguém que precisa de avisá-la de uma notícia terrível que já aconteceu, que a deitará por terra: a morte: que a destruirá: a morte: que a condenará outra vez. Tenta afastar esse pensamento negro. Carrega no botão que abre a porta da rua lá em baixo e, nesse instante, escuta o eco eléctrico da porta a abrir-se na entrada do prédio. Espera. Tenta distinguir os passos que deveriam agora entrar no prédio, ou que deveriam agora subir os degraus de mármore, mas, em vez disso, ouve três batidas na porta de cima: a pouca distância de si: três batidas firmes na madeira. Com o susto, alarmada, pergunta: quem é? Mas ninguém responde. Volta a perguntar: quem é? Mas ninguém responde.
A pensão Flor de Benfica não era muito distante. Foi a vontade que tinha de chegar que fez com que, nesse dia o caminho me parecesse tão longo. As ruas de Benfica que conhecia desde sempre, eram novas porque não conseguia vê-las. Enquanto caminhava, não reparava nos cães abandonados e sarnosos que se encostavam às paredes, amedrontados, com as pálpebras pesadas sobre os olhos; nem nas casas em ruínas, com vidraças partidas à pedrada e com paredes pintadas de cinzento pelo tempo; nem nas crianças, sujas, de cabelo rapado por causa dos piolhos, que puxavam as mangas dos casacos das mulheres e que lhes estendiam a palma da mão. Era sábado e o início da tarde trazia movimento às ruas. Passavam mais automóveis do que era habitual: apitavam cornetas e assustavam as velhas, que davam saltos debaixo dos xailes e praguejavam. Grupos de miúdos descalços corriam atrás de arcos de ferro: o som da varinha a deslizar no interior do arco. Raparigas levavam alcofas de fazer mandados no ângulo do braço e desviavam o rosto corado quando passavam à porta dos cafés. Alheio a tudo isso, eu continuava a caminhar e prestava atenção às imagens que apenas existiam dentro de mim ou que seriam o mundo todo se, por acaso, tivesse fechado os olhos: o rosto do meu tio de manhã, o meu rosto quando chegava a casa ao início do serão e o rosto do italiano quando lhe comunicasse que o piano estava pronto. Nas duas manhãs anteriores, desde que o piano chegara à oficina, quando eu entrava no alto da rua, via logo o meu tio encostado ao portão, a esperar-me. Tinha um ar esperto e, ainda à distância, já lhe começava a distinguir o sorriso infantil. Quando eu me aproximava com a chave, ele dava-me uma palmada nas costas e, assim que abria o portão, passava-me à frente e caminhava directo para o piano. Ao fim do dia, nem por uma vez ficou na taberna. Antes de subir ao poial da minha casa, via-o descer a rua e afastar-se, fechado nas suas cismas, na direcção do quarto onde, nessa altura, morava. Era o início do serão quando eu, na casa onde jantava sozinho, enchia a bacia e, depois de lançar as duas mãos cheias de água sobre o rosto, parava-me a olhar para o espelho pequeno do lavatório. Dentro dos meus olhos, distinguia um sentimento que só então começava a conhecer e que me fazia inventar toda a espécie de sonhos». In José Luís Peixoto, Cemitério de Pianos, 2006, Bertrand Editora, QuetzalEditora, 2009, ISBN 978-972-564-823-0.

Cortesia de QuetzalE/JDACT

Livro. José Luís Peixoto. «Chegava de longe o cacarejar de uma galinha, chegava do quintal do vizinho, do outro lado do muro. Era um cacarejar permanente, quase a adormecer, quase a arrastar-se, mas a continuar sempre»

Cortesia de wikipedia e jdact

«No alto do cabeço, o barbeiro tirava o cigarro da boca, como se o desembaraçasse do bigode, chegava-o ao pavio e fazia cara feia enquanto segurava o foguete de braço esticado, a jorrar fagulhas, antes de o largar. Era um bicho ruim que queria ser solto. Mal podia, num ruído de lixa, esfregava-se no ar e estourava uma bola de fumo no céu, espécie de nuvem anã. De pescoço dobrado para trás, o Ilídio e o Cosme encostavam as mãos à testa para verem esse efeito. A cana, desarmada, indefesa, via-se sem pé e deixava-se cair sobre os campos, coitada». In José Luís Peixoto

«(1948)
A mãe pousou o livro nas mãos do filho. Que mistério. O rapaz não conseguia imaginar um propósito para o objecto que suportava. Pensou em cheirá-lo, mas a porta do quintal estava aberta, entrava luz, havia muita vida lá fora. O rapaz tinha seis anos, fugiu-lhe a atenção, distraiu-se, mas não se desinteressou pelo livro, apenas deixou de o interrogar enquanto objecto em si, começou a questioná-lo de maneira muito mais abstracta, enquanto intenção, enquanto sombra de um acto. A mãe disse o nome do filho: O rapaz, Ilídio, estava nesse momento a tentar imaginar a vontade da mãe e, o que pretendia ao entregar-lhe aquele livro, que era grande de mais para as suas mãos, mas que não era demasiado pesado. A mãe voltou a dizer o nome do filho, Ilídio. E as cores da mãe voltaram a definir-se diante dele. Escuta.
Esta palavra simples, de sílabas simples, foi entendida pelo Ilídio de modo completo, estava a ouvi-la antes de ser dita e continuou a ouvi-la no silêncio que se lhe seguiu. Aquela voz a dizer aquela palavra fazia parte do Ilídio. Podia ouvi-la na cabeça sempre que quisesse. Em certas noites quando se agarrava à mãe e, ao quente, sem ser capaz de dormir, ouvia pedaços da voz da mãe, rasgados, a passarem-lhe pela cabeça como serpentinas. Numa dessas noites, ou em várias, é bem possível que tenha distinguido essa maneira de paz com que a mãe sempre lhe dizia: escuta. Havia tons de voz que a mãe só utilizava para certas palavras ou expressões, como quando se saturava e dizia: por favor, a esculpir cada consoante, com um grande silêncio entre por e favor, a soprar no fim; ou como quando dizia: ora, é só lérias e mais lérias e dava uma gargalhada; ou como quando dizia: tu queres é remolgaria e parodim, e parecia que estava a cantar. Não faltariam exemplos de palavras que conseguia lembrar na voz da mãe. O Ilídio tinha fome.
Chegava de longe o cacarejar de uma galinha, chegava do quintal do vizinho, do outro lado do muro. Era um cacarejar permanente, quase a adormecer, quase a arrastar-se, mas a continuar sempre. Era um cacarejar que, assente sobre aquela hora da tarde, parecia distribuir uma misteriosa harmonia, como o milho moído que, muitas vezes, o vizinho lançava sobre a terra do quintal. O Ilídio sabia que, normalmente, a galinha comia pedras e, em momentos assinalados, lutava com minhocas, que vencia num duelo desigual. Do cimo da pilha de lenha, já a tinha visto. Em ocasiões, colocou a possibilidade de provar minhoca. Quando a galinha as esticava com o bico, as rebentava e exibia o seu interior, pareciam-lhe deliciosas. A mãe ia dizer alguma coisa importante. A mãe era uma mulher que falava muito e ria muito. O Ilídio chamava-a quando queria que ela visse alguma coisa, ela olhava, mas não parava de rir ou de falar. Ali, naquela hora, a mãe dizia as palavras uma a uma, como se só pudesse usar poucas e tivesse de escolhe-las muito bem. Havia demasiado silêncio. O Ilídio sentia isto, mas não era capaz de saber as palavras para dizê-lo a si próprio. Isto era qualquer coisa que sentia como a mudança da hora no Verão, no Inverno, como os dias de semana, o sábado, a quarta-feira e muitas outras coisas que sentia sem conhecer. O Ilídio esperava, tinha seis anos, estava tranquilo. A mãe disse: nunca esqueças». In José Luís Peixoto, Livro, Quetzal Editores, 2010, ISBN 978-972-564-899-5.

Cortesia de QuetzalE/JDACT

quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

Cemitério de Pianos. José Luís Peixoto. « Mais tarde, haveria de dizer tantas coisas. Naquele momento, não soube dizer nada. Toquei a face do menino com as pontas dos dedos. Toquei a testa da minha mulher com os lábios»

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«(…) Sentia a minha mulher acordada. Poderia ter-me lembrado que faltavam poucos dias para a data que o médico tinha dito, mas lembrava-me apenas das noites em que o calor não a tinha deixado adormecer. Era o início de Setembro. Ela dava voltas impacientes na cama. De cada vez que se virava, o mundo ficava suspenso nos seus gestos porque era tudo muito lento, porque era difícil e, às vezes, parecia que era impossível. O seu corpo era grande de mais. Os seus braços tentavam agarrar-se aos lençóis. Não encontrava posição. As juntas da cama rangiam. Eu estava acordado, adormecido, acordado, adormecido. Quando adormecia, continuava meio acordado. Quando acordava, continuava meio adormecido. Nos pensamentos vagos que tinha, acreditava que era o calor que não a deixava adormecer totalmente. Estremunhado, abri os olhos quando senti as pernas quentes e molhadas, quando ela me abanou os ombros, gritando e sussurrando: acorda! Rebentaram-me as águas. Custou-me a acertar com os pés nas calças. Tentava acertar com um pé e dava pulinhos com o outro. Ela fechou-se na casa de banho. Quando bati à porta, pediu-me para ir avisar a Marta. Entrei no quarto das nossas filhas às escuras. A Marta acordou assustada. Esperei pelo silêncio até se ouvirem apenas as marés da respiração da Maria a dormir. Nesse momento, disse-lhe: a tua mãe está quase a ter a criança. Vamos agora para a maternidade. Toma conta dos teus irmãos quando acordarem. Na penumbra, os olhos da Marta escutavam-me muito sérios. Saí do quarto das nossas filhas. A Marta ficou sentada na cama. Os seus olhos eram preocupados e brilhavam. Abri a porta do quarto do Simão. Era ainda tão pequeno, e dormia. Fechei a porta devagar.
Procurei a minha mulher. Atravessei o corredor. A camioneta tinha menos de um ano e, nos últimos meses da gravidez da minha mulher, estacionava-a à porta de casa. Amparei a entrada da minha mulher na camioneta. Corri para a porta do condutor. Arranquei em segunda. Limpei as remelas com o indicador nas primeiras vezes em que parámos atrás de automóveis parados. Prestava pouca atenção ao início daquela manhã. Às vezes, a minha mulher começava a queixar-se mais alto. Então, acelerava, dava solavancos nos carris dos eléctricos, ultrapassava automóveis que apitavam, passava por semáforos vermelhos. Depois, tinha automóveis à frente e não conseguia passar. Virava-me para a minha mulher e perguntava-lhe se estava bem. Olhava para o relógio, o tempo era muito rápido. Perguntava-lhe outra vez se estava bem. Acelerava um rugido do motor sem sair do lugar, olhava para o relógio, o tempo era muito rápido. Perguntava-lhe outra vez se estava bem e, quando conseguia andar, voltava a acelerar: solavancos nos carris dos eléctricos, ultrapassar carros, passar semáforos vermelhos. Ela, no seu sofrimento, dizia-me: vai com calma.
Eu enervava-me: como é que eu posso ir com calma? Ela dizia-me: calma. E chegámos à maternidade, corri para ela, e entrámos de braço dado, eu a puxá-la, ela pesada com dores, e eu a puxá-la. Dirigi-me a uma enfermeira e, antes de conseguir dizer alguma coisa, a enfermeira disse-me: calma. E levou-a. A minha mulher virou-se para trás para me ver sozinho, com os braços e com os olhos abandonados. E esperei. Olhava para o relógio. A manhã. A manhã com o tamanho de um Verão. Toda a manhã. Olhava para o relógio. O tempo era muito lento. A enfermeira passava por mim, eu ia atrás dela e, antes de conseguir dizer alguma coisa, era ela que me dizia: tenha calma. Vá comer qualquer coisa. E eu desistia. Foi depois da hora de almoço que a enfermeira voltou a entrar na sala de espera e me disse: então, não quer ir ver o seu filho? Os meus pés deslizaram pelo chão de mosaicos, o meu corpo atravessou os corredores de paredes cinzentas e de lâmpadas quase fundidas, intermitentes, a falharem. Os meus olhos não viam nada. E entrei no quarto. De uma vez: a minha mulher deitada na cama a segurar o nosso Francisco nos braços. A sorrir com a vida. Caminhei mudo e lento até à cama. Não soube dizer nada. Mais tarde, haveria de dizer que, logo ali, tinha percebido tudo aquilo de que ele seria capaz.
Mais tarde, haveria de dizer tantas coisas. Naquele momento, não soube dizer nada. Toquei a face do menino com as pontas dos dedos. Toquei a testa da minha mulher com os lábios. O tempo não existia. Sem um instante para gastar com perguntas sem resposta, a minha mulher volta a entrar na casa de banho com a íris ao colo e, quando abre a porta do armário dos medicamentos, não quer pensar em quem poderia estar a telefonar-lhe. A íris já é pesada. A minha mulher senta-se na ponta do bidé e pousa-a no chão. À sua frente, a íris fica de pé, com a mão aberta e estendida para ela. São uma avó e uma neta. Sobre os joelhos, a minha mulher equilibra algodão, tintura de iodo, fita adesiva e um rolo de ligadura. Tem a voz delicada porque quer que a íris não chore mais. Tenta sorrir e tenta distraí-la: agora, vinhas ao hospital para te curares. Então diga lá, senhora, teve um acidente? Com os lábios apertados e os olhos muito grandes, a íris murmura gemidos magoados, quase fingidos, e estende-lhe mais a mão. Oh, vamos já curá-la. E despeja tintura de iodo sobre uma bola de algodão que aproxima da ferida». In José Luís Peixoto, Cemitério de Pianos, 2006, Bertrand Editora, Quetzal Editores, 2009, ISBN 978-972-564-823-0.

Cortesia de QuetzalE/JDACT

Cemitério de Pianos. José Luís Peixoto. «No início da tarde de sábado, olhámo-nos com uma satisfação tímida quando soubemos que o piano estava pronto. A meio da manhã, o meu tio saiu para ir buscar o afinador»

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«(…) Nas sombras imaginava segredos de um tempo, antes de eu nascer, que me seria proibido para sempre: a eternidade: e que, no mesmo instante, se tornava tão concreto e simples como os objectos que tocava todos os dias, como o caminho entre a casa e a oficina, como as memórias que tinha e que me guiavam. Sozinho, sentindo-me vigiado por todos os pianos sem arranjo, avançava. Contornei um piano vertical e, no fundo desse novo corredor, vi o meu tio com os braços dentro de um piano de cauda e apressei-me na sua direcção. Deu um passo atrás, pousou-me uma mão no ombro, apresentou-me o mecanismo do piano com a outra mão e disse que aquele seria um dos pianos a que voltaria para buscar peças. Olhei-o incrédulo, mas encontrei tal confiança que, nesse momento, deixei de ter dúvidas de que seríamos capazes de consertar o piano. Nessa tarde, e no dia seguinte, e no outro, e na manhã de sábado, aprendi a parte mais importante daquilo que, durante toda a minha vida, haveria de aprender sobre pianos. Solene, o meu tio olhava-me directamente com o seu olho esquerdo quando me queria explicar os pontos que eu não deveria esquecer nunca. Eu abanava a cabeça e prestava atenção a cada uma das suas palavras. Ficavam gravadas em mim, como se, no meu interior, existisse um lugar feito de pedra à espera de receber a forma do significado dessas palavras. Da mesma maneira, prestava atenção a todas as histórias que o meu tio contava. Quando se perdia em pormenores e começava a esquecer-se de contar o fim de alguma, eu perguntava-lhe o que tinha acontecido depois do ponto em que se afastara. Ele não estranhava o meu interesse súbito pelas suas histórias e continuava. Nas histórias que o meu tio contou durante esses dias, percebi um pouco mais da minha própria história. O meu pai, como o seu pai antes dele, tinha passado anos a fazer portas e janelas porque não conseguia sobreviver apenas de consertar pianos. Na maior parte do tempo, o meu pai fazia portas e janelas, fazia bancos para as pessoas se sentarem, fazia mesas a desejar que as pessoas tivessem pratos de sopa para pousar nelas; mas, em todas as ilusões, escutava pianos, como se escutasse amores impossíveis. Quando acabava de consertar um piano, sozinho, sem saber uma nota, o meu pai fechava a oficina toda para, no centro da carpintaria, tocar músicas que conhecia e músicas que inventava. Gostava talvez de ter sido pianista mas, nem mesmo quando ainda não tinha desistido de todos os seus sonhos, se tinha permitido sonhos desse tamanho. O meu tio fixou o seu olho esquerdo em mim para garantir que eu nunca iria esquecer e disse: o teu pai, quando falava ou pensava em pianos, tinha redemoinhos de música dentro dele. Durante esses dias, o meu tio mandou-me muitas vezes ao sótão.
Antes, apontava-me a peça de que precisava: um abafador, uma mola da alavanca, um botão de regulação: e, logo a seguir, voltava a esconder o rosto no interior do piano. Nas primeiras vezes, a voz da minha mãe, repetida pela memória, voltava a dizer-me as palavras de quando eu era criança e lhe falava daquela porta fechada na minha oficina. Depois, aos poucos, fui-me convencendo com as palavras do meu tio: o teu pai iria ficar tão feliz se aqui estivesse. E comecei a acreditar que, qualquer que fosse a ideia da minha mãe: proteger-me, proteger a lembrança do meu pai: eu estaria a respeitá-la porque estava a dar uma vida nova aos sonhos do meu pai, da mesma maneira que estava a dar uma vida nova às peças mortas daqueles pianos. Às vezes, demorava-me um pouco mais do que seria necessário porque ficava a entender a tranquilidade, ou a olhar para os pianos que me rodeavam e a imaginar as histórias que cada um deles guardava: palcos de tábuas, bailes, mestres a ensinar, meninas com punhos de renda a aprender. Quando regressava à carpintaria, o meu tio nunca dava pelo atraso e sorria-me quando lhe estendia a peça certa que tinha pedido.
No início da tarde de sábado, olhámo-nos com uma satisfação tímida quando soubemos que o piano estava pronto. A meio da manhã, o meu tio saiu para ir buscar o afinador. Chegou, trazendo-o pelo braço. O afinador era cego. Apontava a cabeça para cima ou para lugares onde não acontecia nada. A cabeça girava-lhe autónoma sobre o pescoço. Era mais velho do que o meu tio. Tinha as mãos lisas. Falava pouco. Passámos horas a acertar notas em cada tecla. O afinador apertava as cordas com uma chave de prata que segurava, firme e cuidadosamente, entre os dedos. E os sons puros: nítidos no silêncio: desenhados no ar, a demorarem-se breves, a ecoarem na memória e a deixarem outro silêncio: outro silêncio: outro silêncio diferente. Quando por fim se ouviu uma palavra, foi o meu tio que me pediu para ir avisar o italiano. Sorri-lhe, abanei a cabeça afirmativamente e não fui capaz de dizer nada porque, dentro de mim tinha um redemoinho infinito de música infinita». In José Luís Peixoto, Cemitério de Pianos, 2006, Bertrand Editora, Quetzal Editores, 2009, ISBN 978-972-564-823-0.

Cortesia de QuetzalE/JDACT

terça-feira, 16 de janeiro de 2018

Cemitério de Pianos. José Luís Peixoto. «Sentou-se, levantou a tampa que cobria o teclado e percorreu-o com o olhar. Quase comovido, disse: o teu pai iria ficar tão feliz se aqui estivesse»

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«(…) O telefone continua a tocar. Os passos da minha mulher são rápidos na alcatifa porque ninguém costuma telefonar durante o dia. Dentro de si, teme que seja uma má notícia, teme que seja uma notícia que a deite por terra, que a destrua, que a condene outra vez: a morte. Aperta a menina de encontro ao peito e avança ansiosa pela alcatifa: o mais depressa que é capaz. E o telefone pára de tocar. Os passos da minha mulher perdem o sentido, abrandam e param. Na cozinha, a música de piano continua a nascer da telefonia e é empurrada pelo vento que entra através da janela aberta. Não queria dizer nada ao meu tio, porque queria ver o resultado do seu entusiasmo. Ele rodeava o piano com palavras e passos que, subitamente, mudavam de direcção. À distância, com os braços cruzados sobre o peito, eu olhava-o e não acreditava em nada do que dizia. Na serradura que cobria o chão, havia o desenho de uma forma irregular que era o carreiro por onde o meu tio seguia. Num impulso, quebrou essa corrente de passos desenhados e foi buscar um banquinho: coberto de restos de tinta e de pregos tortos: que colocou à frente do piano. Sentou-se, levantou a tampa que cobria o teclado e percorreu-o com o olhar. Quase comovido, disse: o teu pai iria ficar tão feliz se aqui estivesse.
Foi nesse momento que tudo encontrou um sentido dentro de mim. O meu pai. Como um dedo sobre uma tecla a despertar um mecanismo adormecido, compreendi. À entrada da oficina, à direita, havia uma porta fechada, tapada pelo tempo e por cadeiras a que faltava uma perna, por tampos de mesas e outros restos que se foram acumulando num monte desordenado. Nesse início de tarde, eu e o meu tio afastámos tudo e, como não sabíamos da chave, fui eu que arrombei a porta com dois pontapés na fechadura. A minha mãe evitava falar dessa divisão fechada da oficina. Se o fazia, dizia sempre que não havia lá nada que me interessasse. Quando essa explicação deixou de ser suficiente, falou-me de sustos. Disse: há sustos lá dentro.
Com dez anos, essa explicação chegava-me. Depois, passaram verões e invernos. Deixei de fazer perguntas. Havia uma porta fechada à entrada da oficina, lentamente tapada por tábuas, por trastes, e eu não pensava nisso. Pensava noutras coisas. Nesse início de tarde, ficámos parados durante um momento perante essa porta subitamente aberta. Lá dentro, a escuridão absoluta cobria todas as formas. Era como se tivéssemos aberto uma porta sobre a noite. Diante de nós, na escuridão podiam estar campos cobertos pela noite, ou um rio coberto pela noite, ou uma cidade inteira: adormecida ou morta: coberta pela noite. O meu tio entrou primeiro. Deixei de vê-lo entre sombras de sombras: um vulto entre vultos. Ele sabia os caminhos, e foram precisos poucos passos, poucos sons misteriosos dentro da escuridão, até que, com a manga da camisola, começasse a limpar o vidro da pequena janela coberta de pó. Através dos seus movimentos, entraram raios de luz. Devagar, a claridade encheu todo o vidro.
A luz deslizou pelas superfícies de pó. Pouco se via da sujidade das paredes e o peso do tecto baixo era mais real porque havia pianos de todos os géneros que se erguiam, sólidos e empilhados, quase a tocarem o tecto. Encostados às paredes, havia pianos verticais uns sobre os outros: na ordem com que o meu pai, ou o seu pai antes dele, os tinha equilibrado. Ao centro, havia muros de pianos sobrepostos. A luz atravessava os espaços vazios entre eles e, mesmo da porta, podia distinguir-se o labirinto de corredores que camuflavam. E sobre um piano de cauda estava outro piano de cauda, mais pequeno e sem pés; sobre esse estava um piano vertical, deitado; sobre esse estava um monte de teclas. Ao lado, separados por uma fresta que a luz atravessava, dois pianos verticais, com a mesma altura, encostados um ao outro, suportavam um piano vertical mais robusto que, no seu topo, segurava um pequeno piano de armário. Havia pianos encaixados de todas as formas possíveis. Nas folgas onde não se encaixavam completamente, a claridade atravessava teias de aranha abandonadas que seguravam gotas de água, como pontos de brilho. O ar fresco entrava nos pulmões e trazia o toque húmido do pó pastoso que era a única cor: o cheiro de um tempo que todos quiseram esquecer, mas que existia ainda. O silêncio desprendia-se dessa cor clara e antiga. A luz atravessava o silêncio. No chão, havia tampos esfolados de pianos, ao alto, encostados a outros pianos. Em certos cantos, havia varões de metal, teclas, pedais e pernas de piano presas umas às outras com arames. Através do espaço entre dois pianos, a partir da pequena janela finalmente luminosa, o meu tio olhava-me com um sorriso. Quando fixei directamente o seu rosto, sorriu mais, saltou para o chão com um estrondo das botas e desapareceu entre os pianos. Entrei, escolhendo o lugar onde pousava cada pé, como se temesse alguma coisa que desconhecia». In José Luís Peixoto, Cemitério de Pianos, 2006, Bertrand Editora, Quetzal Editores, 2009, ISBN 978-972-564-823-0.

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