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quarta-feira, 9 de outubro de 2019

Termas de S. Pedro do Sul. A. Nazaré Oliveira. «No lado poente da planta, assinala o ..Camarote de […], mas, não obstante os pormenores a que desce, não diz quem era este dom Fernando. E nenhum dos autores que têm escrito sobre as Termas levanta este problema»

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O Hospital Real das Caldas de Lafões
«(…) A provedoria de Aires Almeyda Sousa foi longa, pois, em 1616, vinte anos depois da nomeação, era ainda provedor, como se lê no frontispício da Chronographia Medicinal das Caldas de Alafoens, que Pires Sylva dedica a Duarte d'Almeida Sousa, filho primogénito de Aires Almeyda. Nos Almeydas da Cavalaria continuou a administração, terminando com Gonçalo Almeyda Sousa Sá, a quem João V concedeu a mercê, em 1713. Passou a administração para os corregedores, como provedores ou contadores da Fazenda. O Corregedor era o inspector do Hospital e o Juiz do Couto era o sub-inspector.

Com a extinção do concelho de Lafões, o Banho foi integrado no então criado concelho de S. Pedro do Sul e a administração das Caldas passa para a Câmara deste concelho, por portaria de 12 de Novembro de 1839. Mais tarde, a propriedade do Estabelecimento das Caldas foi confirmada por Carta de Lei de 21 de Maio de 1878 e, novamente, por Alvará de 17 de Fevereiro de 1910. Com os dados de que dispomos, vejamos as características e modo de funcionamento do Hospital Real das Caldas de Lafões. Tinha características próprias que lhe advinham do facto de ser um hospital termal. De algum modo, Manuel I, ao criar este hospital, seguiu o exemplo da irmã, a rainha viúva dona Leonor, fundadora do Hospital das Caldas da Rainha, guardadas as devidas diferenças de proporção entre os dois hospitais. Sabe-se que vários hospitais do reino vieram a ter Regimentos inspirados no das Caldas da Rainha. É bem possível que, entre eles, se encontre o de Lafões, com maioria de razão por ser um hospital termal.
Já vimos que a carta de nomeação do primeiro provedor (1502), pelas obrigações que nela estavam consignadas, pode considerar-se o primeiro regimento para a administração do Hospital. No manuscrito da Biblioteca da Ajuda, o Desembargo do Paço, em 1592, limita-se a repetir as mesmas obrigações. Só um século depois, em 1696, com a publicação da … Chronographia Medicinal das Caldas de Alafoens…, temos notícia detalha da da orgânica do Hospital. O autor, médico das Caldas, descreve, até ao pormenor, o seu modo de funcionamento. Começa com a descrição da piscina onde o rei se banhou, pelo que ficou conhecida por .Piscina dom Afonso Henriques, . Dela fez a planta, que tem sido reproduzida por quantos têm abordado este tema.
E nós a reproduzimos também, acrescentando-lhe os pontos cardeais e confrontações, para melhor clarificação.
No lado poente da planta, assinala o ..Camarote de […], mas, não obstante os pormenores a que desce, não diz quem era este dom Fernando. E nenhum dos autores que têm escrito sobre as Termas levanta este problema. Não se trata do rei Fernando I. Não se conhece qualquer notícia de que lá tenha estado. Se tal tivesse acontecido, Pires Sylva não deixaria de o tratar por rei. Também não cremos que se trate de Fernando Pedro, aquele senhor de Lafões referido no foral de 1152. Se tal fosse, o autor da ...Chronographia…, não omitiria Pedro, já que, no texto, sempre o trata por Fernando Pedro, que, de resto, como vimos, já era morto quando veio o Rei. A designação de Camarote de dom Fernando, deve ser mais tardia. Poderia, talvez, referir-se ao 2.º duque de Viseu. É apenas uma hipótese. O próprio Sylva escreveu: por morte de dom Henrique, que succedeo aos 1460. Foi seruido o Senhor Affonso V dar o senhorio do Concelho, & Caldas de Alafoens a seu irmão o Serhor dom Fernartdo, Infante, e Condestavel de Portugal, e Mestre das Ordens de Christo, I Santiago.
A planta não assinala o antigo banho das mulheres, mas Sylva descreve-o. Seria, quasi subterraneo e a ele se passaria por uma porta, nas costas do banho dos homens e se desceria por uma escada de pedra. Janelas de grades que descobriam um e outro banho, ao tempo transformadas em portas, mostrão (?) que ouve nas casas, junto ao banho das mulheres, alguma casa particular, donde alguma Pessoa Real, por evitar a prolixidade das continencias, & cortesias uia, sem ser vista, o modo de tomar banhos…» In António Nazaré Oliveira, Termas de S. Pedro do Sul, Antigas Caldas de Lafões, Palimage Editores, Viseu, 2002, ISBN 972-857-538-6.

Cortesia de PalimageE/JDACT

terça-feira, 8 de outubro de 2019

Termas de S. Pedro do Sul. A. Nazaré Oliveira. «... como a administraçaõ das Caldas he sem lucro algum, & ocupação grave, que divertia os Collegiaes do seu estudo, pediraõ a ElRey lhes désse em seu lugar a Capella de Álmoster…»

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O Hospital Real das Caldas de Lafões
«(…) Manuel d'Azevedo Almeyda era filho de Sebastião Rodrigues Azevedo e Isabel d'Almeyda, da Casa da Cavalaria, pelo que, com ele, a provedoria voltou à família dos Almeydas, após a breve interrupção, no tempo do Cardeal-Rei. Em 14 de Outubro de 1592, o Desembargo do Paço repete todas as obrigações dos administradores das Caldas, nomeadamente das quatro camas para os pobres; de sustentar à sua custa um Banheiro que tinha o cuidado de temperar as águas aos enfermos; de cada um dos 24 homens repartidos pelos 24 casais ter disponível uma cama, ao preço de dois reais por noite, para quem viesse aos banhos; um clérigo para dizer missa e todos os ornamentos necessários ao culto; pagar a lâmpada acesa onde estavam os enfermos; reparar o Hospital de todas as ruínas e danificações.
Aqui se fala em 24 casais, o que não condiz com os 22 do Tombo de João V. Como vimos, é na carta de mercê a Fernão Lopes d'Almeyda que se estipula aquela obrigação dos 24 homens privilegiados, ainda que não se refira o número de casais. Mas tudo parece indicar que os 24 homens correspondiam aos 24 casais que constituiriam o Reguengo do Hospital. A ser assim, há lacuna no Tombo de João V. Teriam escapado dois casais a quem o organizou. Posteriormente, Filipe II deu a administração ao Real Colégio de S. Paulo em Coimbra, o que levou a Câmara de Lafões a levantar embargo, com base no facto de a haver possuído no tempo do Cardeal-Rei. O Colégio venceu o litígio, em 1611. Mas, pouco tempo depois, renunciou, devido aos cuidados de tal administração, não compensados por lucro tão reduzido. Pires Sylva refere-o, nos seguintes termos: ... como a administraçaõ das Caldas he sem lucro algum, & ocupação grave, que divertia os Collegiaes do seu estudo, pediraõ a ElRey lhes désse em seu lugar a Capella de Álmoster, o que ElRey lhes concedeo liberalmente (…) ficou a administração devoluta aos Juizes de fóra do dito Concelho [de Lafões] , como Ouvidores da Villa, & Caldas do Banho, atè ao tempo em que o Senbor Rey Pedro II, fez mercè, & doaçaõ della a Ayres Almeyda Sousa, senhor da mesma casa da Cavallaria, & descendente dos possuidores do mesmo couto, & Villa do Banho.
Foi a mercê concedida por alvará de 4 de Janeiro de 1676, seguida de carta de doação de 28 de Fevereiro do mesmo ano. Nesta data, Pedro era ainda Príncipe Regente e não Rei, como afirmam Pires Sylva e todos quantos o repetem. De resto, como pode ler-se na carta, Pedro intitula-se Príncipe, ainda que como rei actuasse: … D. Pedro (…) Faço saber (...) que por parte de Áires Almeida Sousa Sá, Fidalgo da Minha Casa Me Foi apresentado um Alvará por mim assinado (...) Eu o Principe (...) Hei por bem fazer-lhe mercê (...) da Villa e Coito dos Banhos (...) sendo seu provedor como fazia até agora o Juiz de Fora do Concelbo de Lafões, como Ouvidor da dita Villa e Coito, e como foram os antepassados do Suplicante.
Sabe-se por uma escritura datada de 26 de Fevereiro de 1684 que, durante esta provedoria, foi o Hospital sujeito a obras de ampliação: … em a Quinta da Cavalaria, junto à vila de Vouzela, do concelho de Lafões, nas casas da dita Quinta, onde eu Tabelião fui, estando aí presentes Aires Almeida Sousa, Fidalgo da Casa de Sua Majestade, Senhor da Vila e Couto dos Banhos e Provedor do Hospital das Caldas e Vila dos ditos Banhos, (...) e bem assim Manuel Ferreira (...) e António Lourenço Novo, moradores no lugar de S. Miguel do Outeiro, do termo da cidade de Viseu (…) e logo por eles foi dito (…) que ele dito Aires Almeida Sousa mandara pôr a pregão as quatro casas que se vão a fazer no Hospital dos Banhos na forma dos apontamentos que estão nos autos de arrematação da dita obra, (...) ele dito Manuel Ferreira se obriga a fazer a dita obra (...) e dá-la feita e acabada até ao fim de Setembro o primeiro que vem deste presente ano (...) e em preço e quantia de Noventa e cinco mil réis que tanto consta do auto de arrematação em que foi arrematada esta obra de pedraria». In António Nazaré Oliveira, Termas de S. Pedro do Sul, Antigas Caldas de Lafões, Palimage Editores, Viseu, 2002, ISBN 972-857-538-6.

Cortesia de PalimageE/JDACT