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terça-feira, 26 de dezembro de 2017

Uma Praça em Antuérpia. Luize Valente. «António pouco mudara desde que deixara a quinta, quatro anos antes. Talvez uma certa seriedade no olhar, consequência da responsabilidade do trabalho»


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Norte de Portugal. 1933
«(…) Era um daqueles amores que só pareciam possíveis nos livros. António amou Olívia desde o primeiro momento em que a viu. Viu-a ser tirada pelo médico, minutos antes de Clarice. Foi o primeiro a ouvir seu choro, a segurá-la, a ver os olhos abrirem. Costumava contar às meninas a história do nascimento como um romance de aventura que sempre terminava com a afirmação de que Olívia nascera primeiro que Clarice. Como ele podia afirmar, perguntavam. Afinal se nem Lina nem o médico sabiam dizê-lo, como aquele rapaz, que na época era um menino, era tão categórico? A reposta era sempre a mesma: sei porque sei! A verdadeira resposta viria anos depois: sei porque jamais tirei os olhos de Olívia desde o primeiro instante em que a vi. Durante dezassete anos guardou o segredo. Fora para Lisboa, quatro anos antes, logo após a morte de Manuel, numa tentativa desesperada de esquecer aquele amor que o consumia. Olívia tinha treze anos; ele, vinte e quatro. As meninas o viam como o irmão mais velho. Ele tinha namoradas na vila, uma atrás da outra, e amantes também. As mulheres o satisfaziam sexualmente e só.
Jamais tivera qualquer pensamento perverso, pecaminoso com Olívia. Ela era uma criança, mas estava tornando-se uma mulher. Por isso ele fora embora. Agora, quatro anos depois, António regressava. Com ele vinha todo o sentimento. Como se nunca tivesse partido. No período em Lisboa, trabalhou duro. Encontrou o que queria fazer. O comércio lhe agradava. Seria rico, ganharia o mundo e voltaria à quinta, bem-sucedido, para pedir a mão de Olívia. Acabara de abrir uma pequena venda na capital portuguesa. O ano era 1933. O país vivia sob as rédeas do temido António Salazar. A nova Constituição, recém-aprovada, selava a implantação do Estado Novo, legitimando um regime autoritário e repressivo que se estenderia por quatro décadas. António passava longe da política. Salazar era apenas alguém com o mesmo nome próprio que ele. Os amigos mais engajados olhavam com receio o panorama que se formava. Totalitarismo, fim dos partidos, muito poder na mão de um só homem. As notícias do restante da Europa também preocupavam. Na Itália, Il Duce, Benito Mussolini, permanecia, sozinho, à frente do governo e do Partido Nacional Fascista. Na Alemanha, um outro ditador, austríaco naturalizado, chegava ao poder. Adolf Hitler tornava-se primeiro-ministro do país. Mas o que tudo isso tinha a ver com António e os planos de um futuro próspero e feliz ao lado de Olívia? Nem no mais improvável dos delírios ele poderia imaginar que o futuro de sua família seria marcado, para sempre, pela ascensão do Terceiro Reich.
António pouco mudara desde que deixara a quinta, quatro anos antes. Talvez uma certa seriedade no olhar, consequência da responsabilidade do trabalho, mais do que do passar dos anos. No entanto, a pequena mudança o colocava no rol dos homens, mais que bonitos, interessantes. Era viril. Os braços continuavam musculosos e sobressaíam sob a camisa branca que ele dobrara no antebraço, depois de tirar a gravata e afrouxar o colarinho. Segurava displicentemente com o dedo indicador o casaco jogado nas costas. Olívia não conseguia desviar os olhos dele. O que acontecera naqueles últimos anos que tinham transformado António no homem mais belo do mundo?, ela pensava enquanto baixava os olhos e fingia secar uma lágrima com o lenço. Teria de falar com ele cedo ou tarde. Conseguira fugir durante o enterro, agora não dava mais. Ele caminhava em sua direcção. Olhou para os lados, não havia ninguém, apenas ela.
Os olhos se cruzaram e ficaram. Olívia era praticamente uma menina quando António deixou a quinta. Houve uma época, quando as gémeas ainda eram pequenas, em que Olívia teve raiva daquele menino que roubava as atenções do pai. No entanto, era tão protector e cuidadoso, que tanto Olívia quanto Clarice passaram a adorá-lo. Era a referência masculina no lugar do pai ausente. Agora Olívia via António com olhos limpos de passado, olhos de mulher. Isso a fazia corar. Quanto mais ele se aproximava, mais o calor lhe subia pelo corpo, até tomar as maçãs do rosto. Olívia!, foi a única palavra que saiu da boca de António. O coração acelerado, nada mudara. A distância e o passar dos anos só tinham aumentado o que ele sentia por Olívia. Tornou-se o homem mais feliz do mundo quando, naquela troca de olhares, sentiu que era correspondido. Depois desse reencontro foi tudo muito rápido. Não se passaram seis meses, e a quinta reviveu momentos de alegria como não acontecia desde o anúncio da gravidez de Josefina, dezoito anos antes. O casamento de António e Olívia ocorreu no começo de 1934. A lua-de-mel foi em Lisboa, na casa de onde Olívia sairia, seis anos depois, rumo a Bordeaux, para não mais voltar». In Luize Valente, Uma Praça em Antuérpia, 2015, Saída de Emergência, colecção A História de Portugal em Romances, 2015, ISBN 978-989-637-844-8.

Cortesia de SdeEmergência/JDACT

segunda-feira, 25 de dezembro de 2017

Uma Praça em Antuérpia. Luize Valente. «Olívia agora era uma mulher, tinha dezassete anos, e ele a amava mais do que nunca. Era por Olívia que ele tinha partido»

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Norte de Portugal. 1933
«(…) Casou-se aos dezasseis anos com um homem vinte e cinco anos mais velho, primo da mãe. Do casamento arranjado nasceu António. O marido era um bom homem, mas sem nenhuma ambição. Morreu quando António tinha onze anos. Deixou quase nada para a mulher e o filho, mas o suficiente para Lina pôr literalmente o pé na estrada e partir do ensolarado Algarve para o norte de Portugal. Ia começar vida nova. Escolheu Guimarães a esmo, porque ali havia nascido Portugal. Mal chegou à cidade, filho numa mão e mala na outra, deparou-se com Josefina e a enorme barriga. Foi empatia à primeira vista. Josefina era uma mulher cheia de vitalidade, o combustível de que Lina precisava para recomeçar. No mesmo dia, ganhou o emprego na quinta; em seguida a patroa morreu, e Lina viu-se atada àquela família mais destroçada que a dela. De lá só saiu no Verão de 1933, directa para o cemitério. Foi enterrada no mesmo jazigo de Josefina e Manuel.
Lina foi uma mãe para as meninas. Embora a deficiência física a impedisse de correr entre as parreiras e brincar nas árvores, era ela quem contava as histórias para dormir, penteava os cabelos e espantava os fantasmas dos pesadelos nocturnos. Aos poucos, o ar carrancudo foi dando lugar aos sorrisos. No fim da vida, era fácil vê-la gargalhar. A quinta também fora o melhor lugar para criar António. Se Manuel ignorava as gémeas, o menino passou a ser, para ele, o único elo com o mundo. Nos primeiros meses depois da morte de Josefina, ensinou-lhe tudo sobre as uvas. António foi um aluno exemplar, um menino dedicado. Acordava com o dia escuro, trabalhava sem cansar. Tornou-se um rapaz musculoso, bonito, que tinha os traços da mãe, porém sem a marca de seus sofrimentos. Manuel era o pai que ele não teve, mas não era aquele o futuro que queria. António tinha outro temperamento. Era divertido, corajoso, gostava de aprender. Queria ser grande, conhecer o mundo. Tinha muito respeito por Manuel, mas não era isso que o prendia à quinta. Era algo maior, e justamente este algo, que anos depois se revelaria, é que o levou a partir para Lisboa logo após a morte do patrão. Bernarda, a princípio, fechou a cara e, por semanas, atazanou Lina, que escutava sem revidar, afinal os argumentos tinham lógica. Apesar de ter colocado um amigo, que conhecia o trabalho tanto quanto ele, para cuidar da quinta, não deixava de ser um abandono.
Lina, tu sabes que te tenho como uma filha e ao António como um neto. Mas isso é traição pior que a de Judas. Manuel ensinou tudo a esse menino, e agora ele abandona-nos! Se este saco de ossos, falava apontando o próprio corpo, não é digno de consideração, que ao menos a tivesse por ti, que és mãe dele, ou pelas meninas, que ele viu nascer!, e saía esbravejando pela casa. Se Lina tinha uma qualidade, era a de não julgar as pessoas. O filho partia por alguma razão e, um dia, todos viriam a saber. Ela nunca soube. António voltou à quinta, quatro anos depois, para enterrar a mãe e notar que nada havia mudado, só aumentado. Olívia agora era uma mulher, tinha dezassete anos, e ele a amava mais do que nunca. Era por Olívia que ele tinha partido». In Luize Valente, Uma Praça em Antuérpia, 2015, Saída de Emergência, colecção A História de Portugal em Romances, 2015, ISBN 978-989-637-844-8.

Cortesia de SdeEmergência/JDACT

Uma Praça em Antuérpia. Luize Valente. «A morte de Manuel, quatro anos antes, mudara a rotina da quinta. Bernarda assumiu as funções do genro, tendo como braço direito a criada…»

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Norte de Portugal. 1916
«(…) Por causa delas a sua mulher tinha morrido. Por mais que quisesse ou tentasse, jamais amaria aquelas meninas. Bernarda, uma sogra bem lúcida, pensou de imediato. O genro era um homem trabalhador, correcto, viúvo jovem com duas recém-nascidas. Não faltariam pretendentes. Ela sentia pela filha, mas era o que tinha de ser. Manuel se casaria novamente, com uma mulher quase menina, provavelmente virgem, que criaria as gêmeas como se fossem dela e daria continuidade à prole. Ele logo deixaria o quarto e o luto. Passados dez dias, Manuel permanecia em silêncio. Trabalhava de sol a sol, sem dizer uma palavra, comia pouco e dormia cedo. Não foi ao enterro nem à missa de sétimo dia. Sequer olhava os bebés, que diria tocá-los. Era como se não existissem. Nem do choro reclamava. Foi quando a sogra, num misto de impaciência e raiva, foi directa ao assunto. Manuel, escuta, tu perdeste a esposa, eu perdi a minha filha querida. Não podemos fazer nada. Mas estas crianças estão aqui, e também perderam a mãe.
Elas precisam do pai, elas precisam de um nome!, exclamou, enquanto apertava as mãos do genro. Manuel levantou os olhos. Não havia lágrimas, apenas um vazio salpicado de tristeza e desânimo. Pois dê a senhora o nome às meninas, porque, se for eu a fazê-lo, os nomes hão-de ser dor e infelicidade. Levantou-se e deixou a sala rumo às parreiras. A sogra respirou fundo e segurou o choro. Voltaria à Guarda para fechar a casa e mudar-se de vez para a quinta. Era viúva e, a partir de agora, só tinha as meninas, e as meninas a ela. Seriam suas filhas, lhes daria todo o amor que tivesse e que viesse a ter. Escolheu os nomes, sem pensar muito. Nomes de que a filha gostava: Clarice e Olívia.
A avó cumpriu a promessa. As meninas foram crescendo sob asas enérgicas e, ao mesmo tempo, amorosas. Mal viam o pai, que, se por um lado as ignorava, por outro não lhes deixava faltar nada. Sentavam-se juntos durante as refeições, única exigência de Bernarda. Ele chegava calado, comia, os olhos sempre baixos, jamais encarava as filhas. Apenas uma vez foi ríspido. Num almoço de domingo, teria sido Clarice ou Olívia?, uma delas tentou tocar o vasto bigode que lhe cobria o lábio superior. Manuel afastou rapidamente a pequenina mão e gritou para que jamais o tocassem. Não importava se foi Clarice ou Olívia, o facto é que as duas cumpriram a ordem à risca. Tinham pouco mais de cinco anos. Naquele dia perceberam que, além de não terem mãe, também não tinham pai. E o que importava, se afinal a avó valia por todos? A vida seguiu assim até perto dos treze anos, quando de facto perderam Manuel. Morreu dormindo, sorrindo. Ia encontrar a sua Josefina. Ao verem o semblante do pai tão sereno e alegre, Clarice e Olívia soltaram uma gargalhada. Pela primeira vez, beijaram o pai, beijaram muitas vezes, e também o abraçaram. Ele agora ficaria em paz e feliz.

Norte de Portugal. 1933
A morte de Manuel, quatro anos antes, mudara a rotina da quinta. Bernarda assumiu as funções do genro, tendo como braço direito a criada, que, depois de todos aqueles anos, recebia os carinhos de filha e o amor das meninas. Lina era uma mulher de traços finos e belos, mas tinha um defeito no quadril que fazia com que puxasse de uma perna. A vida toda fora chamada de Manquinha. O apelido criou uma couraça, um muro em torno do corpo pequenino mas nada frágil. A deficiência física era uma sequela na alma, que se traduzia no ar carrancudo». In Luize Valente, Uma Praça em Antuérpia, 2015, Saída de Emergência, colecção A História de Portugal em Romances, 2015, ISBN 978-989-637-844-8.

Cortesia de SdeEmergência/JDACT

quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

Uma Praça em Antuérpia Luize Valente. «Josefina estava pálida, os lábios arroxeados, os olhos fechados. O médico entrou no quarto e pegou o pulso. Não foi preciso dizer nada. Ela estava morta»

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Norte de Portugal. 1916
«(…) Agora, tudo aquilo seria do filho, ou da filha. Era incrível a esperança que tomava conta do casal. Apesar de a Alemanha ter declarado guerra a Portugal, e de o Parlamento ter aprovado a entrada no confronto, Manuel tranquilizava a esposa. Ele não seria convocado, as batalhas se davam longe do território português e tinham alimentos suficientes estocados para vários invernos e verões. Josefina acariciava o rosto dele. Ela amava aquele homem forte, tosco, de mais acção que palavras. Ele vivia num mundo de regras próprias. O mundo era a quinta. O território de dentro da casa era chefiado por Josefina, o de fora, por Manuel. Os dois comandantes respeitavam as fronteiras. Enquanto Josefina temia pelo futuro do bebé a caminho, por uma guerra recém-declarada, pelos que seriam obrigados a lutar e a morrer sem convicção, pelos que passariam fome, Manuel amassava as uvas. Nada poderia quebrar, desestruturar a ordem com que ditava a vida. Se, na mais improvável das hipóteses, Portugal fosse invadido, ele poria as tropas alemãs para correr com seu exército de um homem só. Manuel só não estava preparado para a tragédia que aconteceria em seguida.
Josefina não teve forças para abrir os olhos, mas esboçou um sorriso e apertou a mão do marido quando ele levantou da cama ainda com o dia escuro. Manuel acariciou o rosto dela, beijou-lhe a testa e sorriu de volta. Ela não viu, mas sentiu o sorriso dele, já estava embalada no sonho. Um sonho daqueles que, a princípio, trazem conforto e vontade de não voltar. Josefina já não tem mais a barriga, Manuel amassa as uvas, duas meninas correm pela quinta, correm em direcções opostas. Ela não se preocupa porque estão ao alcance da vista. O céu é azul, sem nenhuma nuvem. Ela aproveita ao máximo a sensação de ter todos ali. Subitamente percebe que já é mãe. Serão as meninas suas filhas? De repente, sente um pingo, seguido de outro. Corre, mas não há onde se proteger. Os pingos são vermelhos. Os pingos são vermelhos de sangue. Ela não vê mais as meninas. Manuel espreme as uvas e delas sai o mesmo vermelho de sangue. Ela grita por Manuel. Grita com toda a força. Josefina abriu os olhos. O corpo estava encharcado. Tudo vai ficar bem, minha querida. O doutor está a caminho, disse Manuel, em meio ao abraço.
As palavras saíram sem convicção. Fora tudo muito rápido. Os gritos no quarto, a correria escada acima, a agonia de Josefina. O menino, filho da criada que contratara para ajudar a esposa quando a barriga já atrapalhava os cuidados da casa, brincava entre as parreiras. Da janela mesmo gritara. Voa até a vila e traz o doutor, é caso de vida ou morte..., e diz à tua mãe para vir aqui! O garoto partiu em disparada. Em segundos, a criada estava no quarto. Desapareceu e voltou em seguida trazendo uma bacia com água e muitos panos. Foi nesse momento que Josefina viu o sangue. Os pingos do sonho cobriram a cama de vermelho. Ela gritou. Não era sonho, as meninas desapareceram da sua vista. Tudo ficou subitamente escuro. Josefina estava pálida, os lábios arroxeados, os olhos fechados. O médico entrou no quarto e pegou o pulso. Não foi preciso dizer nada. Ela estava morta.
Temos de salvar a criança! O doutor gritou, enquanto sacava um bisturi da maleta. Não era a primeira cesariana que fazia, mas nunca antes numa mulher sem vida. Fez o corte longitudinal, rápido e preciso. Em menos de um minuto, tirou o bebé. Quem pegou a criança foi o garoto. Manuel já havia deixado o quarto. Não amaria aquela criança. Iria dar-lhe o seu nome, alimentá-la, educá-la, mas amor era algo que tinha secado dentro dele. O médico suava frio, as gotas escorriam pela lateral do rosto. Mal teve tempo de pegar o lenço. Havia outro bebé ali. Assim como a irmã, a segunda menina soltou o choro forte e alto. A sutura foi feita com todo o cuidado. Por um breve instante, pareceu-lhe que Josefina sorria.
E assim Clarice e Olívia vieram ao mundo. Primeiro Olívia, depois Clarice. Ou teria sido primeiro. Clarice e depois Olívia? Eram apenas as gémeas, chamadas pelas cores das roupas que usavam. A de amarelo, a de branco. Ganharam nome quando a avó materna, que morava na cidade da Guarda, na região da Beira Alta, chegou, dois dias depois do nascimento. Mal teve tempo de chorar a filha única. Dava dó ver as meninas berrando de fome, aos cuidados de uma criada sem intimidade com a casa. Tinha arranjado às pressas uma ama-de.leite, mas não era suficiente para os dois pequeninos seres ávidos de vida. Manuel trancou-se no quarto no momento em que ouviu o médico gritar que tinha de salvar a criança. Para ele, Josefina é que tinha de ser salva, era ela que ele amava desde sempre. Filhos eram consequência, a ordem natural das coisas. Josefina era a escolha, a vida a dois, a vida eterna. E não uma, mas duas crianças». In Luize Valente, Uma Praça em Antuérpia, 2015, Saída de Emergência, colecção A História de Portugal em Romances, 2015, ISBN 978-989-637-844-8.

Cortesia de SdeEmergência/JDACT 

Uma Praça em Antuérpia Luize Valente. «Manuel levantou-se com as estrelas ainda no céu. Tinha mais um dia duro pela frente e, em breve, mais uma boca para alimentar»

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«(…) A neta sentou-se. Olívia encostou a cabeça no ombro dela. Descansou o peso das oito décadas. Tita sentiu-se envergonhada. No fundo, tinha ido até ali para chorar, para desabafar a perda. Talvez fosse hora de olhar o mundo sem se colocar no centro dele. Foram segundos de silêncio, as duas olhando para o horizonte. A avó foi a primeira a falar. Perdeu o bebê, não é?, disse, sem encarar a neta, que assentiu com a cabeça. Eu também perdi um bebê, sussurrou, enquanto passava os dedos pela fotografia, como se, dessa forma, pudesse alcançar a criança. Foi só nesse momento que a fotografia amarelada e gasta nas mãos de Olívia chamou a atenção de Tita. Ela reconheceu a avó, ainda jovem. Estava grávida, provavelmente de sua mãe. Mas não reconheceu o homem ao lado dela, nem o menino no colo. Quem eram? Que lugar era aquele? Uma praça numa cidade europeia qualquer, com certeza não era Lisboa, cidade de onde a avó viera. No verso, as palavras num idioma que ela não conhecia. Antwerpen, Familie Zus, Verjaardag Bernardo, drie jaar, 4 Februari 1940.
Tirou a fotografia das mãos da avó, que não ofereceu resistência. Mantinha o olhar fixo, como se estivesse preso a um ponto muito distante, num lugar que só ela conhecia. Avó, quem é este homem? E esta criança? A voz saiu baixa e temerosa. A avó repetiu em português as palavras escritas em flamengo. Antuérpia, família Zus, aniversário de três anos de Bernardo, 4 de Fevereiro de 1940. Em seguida, levantou-se. Fez sinal para que a neta esperasse. Instantes depois, voltou com outra fotografia, da mesma época. Tita reconheceu a avó, o avô António, que morrera antes mesmo de sua mãe nascer, e o tio Luiz Felipe ainda pequeno. Olívia colocou as duas fotografias lado a lado. Depois de um breve silêncio, voltou-se para a neta e apontou primeiro para a que lhe era familiar. Aqui está António, em Portugal, pouco antes de vir para o Brasil, com Luiz Felipe..., ainda bebé. Eu cumpri o prometido e cuidei dele até ao último momento, amei-o mais do que minha própria carne. Pedi tanto que o câncer dele fosse meu, que me levasse e não me fizesse sentir tudo de novo!
Tita ouvia incrédula. A avó pegou, então, a outra fotografia e falou alternando o olhar do retrato para a neta. Este é Theodor, quanta saudade... Fez uma pausa, que mais parecia uma prece, ao olhar o homem alto e magro, para então escorregar os dedos sobre o rosto do menino. E este é Bernardo, que eu não esqueço um minuto que seja. Tita fez menção de falar, mas foi interrompida. A voz da avó saiu embargada, ao mesmo tempo que apontava para a mulher grávida ao lado de Theodor. Esta sou eu, esperando Helena, sua mãe. E, em seguida, apontou para a mulher da outra fotografia, que parecia ser ela também. E esta é Olívia... minha irmã gémea. Eu sou Clarice.

Norte de Portugal. 1916
Manuel levantou-se com as estrelas ainda no céu. Tinha mais um dia duro pela frente e, em breve, mais uma boca para alimentar. Seria pai pela primeira vez e a qualquer momento, prevenira a parteira. A vida corria certeira, no trilho. Ele se casara com Josefina, a mulher que amava. O bebé seria o primeiro de uma grande prole. Era o início da colheita das uvas. Prometia ser boa, a melhor em anos. O tempo definitivamente tinha colaborado. Um Inverno rigoroso, seguido de um Verão com muito sol e um começo de Outono sem chuva. O que mais se podia querer? Os cachos gordos, maduros, estavam prontos para a colheita. A quinta ficava nos arredores de São Lourenço de Sande, no município de Guimarães. A construção em granito fora erguida pelo pai. Cada pedra da casa tinha uma gota de suor do velho Joaquim. A casa de dois andares ficava no centro do terreno, cercada pelas parreiras. Uma a uma plantadas por Joaquim. Quando Manuel nasceu, a mãe passava dos trinta, e Joaquim dos quarenta. A criança ter vingado era um milagre depois de tantos bebés perdidos. O menino cresceu, virou um homem forte, de mãos grandes e calejadas que não fugiam da enxada. O solo seco e poroso da quinta era uma benção para as videiras. As panturrilhas musculosas carregavam os pés largos e achatados de tanto esmagar as uvas na piscina de pedra». In Luize Valente, Uma Praça em Antuérpia, 2015, Saída de Emergência, colecção A História de Portugal em Romances, 2015, ISBN 978-989-637-844-8.


Cortesia de SdeEmergência/JDACT

domingo, 10 de dezembro de 2017

Uma Praça em Antuérpia Luize Valente. «O céu cinzento e a chuva fina escondiam os raios de sol do primeiro dia do novo ano, quase novo milénio. O mundo não tinha acabado»

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E assim declaro que darei, sem encargos, um visto a quem quer que o peça. O meu desejo é mais estar com Deus contra o Homem do que com o Homem e contra Deus. In Aristides Sousa Mendes, 1940

«Há uma saga que ainda não foi contada sobre a Segunda Guerra Mundial: a história de duas irmãs portuguesas, Olívia e Clarice. Olívia casa-se com um português e vai para o Brasil. Clarice casa-se com um alemão judeu e vai morar em Antuérpia, na Bélgica. Ambas vivem felizes, com maridos e filhos, até que a guerra começa e a Bélgica é invadida. Para escapar da sombra nazi que vai devorando a Europa, a família de Clarice conta com a ajuda de Aristides Sousa Mendes, o cônsul que salvou milhares de vidas emitindo vistos para Portugal, em 1940, enquanto actuou em Bordéus, França. A família recebe o visto mas, ao chegar à fronteira de Portugal, um destino trágico à espera... Destino que vai mudar e marcar a vida das irmãs para sempre, por causa de um segredo que só será revelado sessenta anos depois.
O céu cinzento e a chuva fina escondiam os raios de sol do primeiro dia do novo ano, quase novo milénio. O mundo não tinha acabado. Um grito ou outro na rua, a cantoria e as risadas na volta para casa, copos, latas e garrafas de champanhe encostados no meio-fio eram o máximo da desordem naquele sábado pós-réveillon em Copacabana. Do alto de seus oitenta e três anos, do alto da sua cobertura, no lugar mais cobiçado para acompanhar a virada, Olívia sentia-se pequena. Eram seis da manhã e ela não tinha pregado o olho. Pouco depois das duas da madrugada ela fora para o quarto, dando o sinal mudo de que era hora de todos partirem. Vinte minutos depois, a neta entrara no quarto e Olívia manteve os olhos fechados. Instantes depois, o barulho dos copos recolhidos e o clique da porta foram a senha para que se levantasse e fosse para a varanda, e ali continuou até o dia amanhecer.
Lembrava-se que, no momento exacto, quis que o mundo acabasse. O champanhe foi estourado como despedida do ano, despedida do filho. Beberam à troca de saudações triviais de feliz ano-novo e a palavras vazias que acompanham os momentos de profunda tristeza. Nos últimos vinte anos, desde que Olívia se mudara para a cobertura do anexo do hotel mais glamouroso da cidade, o apartamento vinha sendo o ponto de encontro da família nos fins de ano. À medida que se aproximava o fim do milénio, cresciam as expectativas e apostas sobre o réveillon. Olívia jamais pensara que passaria dos oitenta para ver aquele dia. Muito menos que Luiz Felipe não estaria ali. A urna com as cinzas descansava sobre o aparador, ao lado da fotografia dele, ainda bebé, com o pai, António. Em alguns minutos, cumpriria seu último desejo. Avó, a senhora tem certeza de que quer ir? A pergunta do neto mais velho foi seguida de silêncio. Ele insistiu: avó, de repente a gente deixa o dia clarear, vamos de manhã, vai ser mais tranquilo.
Olívia acariciou a urna e respondeu com um sorriso firme nos lábios. Tom, lembra–se como o seu pai se negava a ver os fogos aqui de cima? Vinte para a meia-noite e lá ia ele com a garrafa de champanhe, os copos de plástico... Feliz ano-novo, mãe, que o lugar deste português é lá em baixo, no mar de gente! Pois é para lá que nós vamos. Agora! Agora, Olívia permanecia ali, sentada na varanda, no primeiro dia do ano. O mundo tinha acabado, sim, não é justo ver um filho morrer sem poder fazer nada. Ela pegou na foto que costumava levar sempre junto ao peito. Olhou, então, demoradamente, a mulher, o homem, a criança. Nem ouviu o ruído da porta abrindo, nem os passos leves no tapete. Tita, a neta, que também se chamava Olívia, entrara devagar. Ela também não tinha pregado o olho a noite toda. Não era a morte do tio que tirava o sono de Tita, era a morte do sonho. Porque para algumas mulheres engravidar era tão difícil? Tita perdera o primeiro bebé, depois o segundo e agora o terceiro. Mantivera a gravidez em segredo já prevendo o fracasso. Só a avó sabia. Tita precisava contar para ela, precisava dividir a sua dor, embora soubesse que estava sendo egoísta. A avó acabara de perder o filho. Ela também». In Luize Valente, Uma Praça em Antuérpia, 2015, Saída de Emergência, colecção A História de Portugal em Romances, 2015, ISBN 978-989-637-844-8.

Cortesia de SdeEmergência/JDACT

sábado, 9 de dezembro de 2017

O Segredo do Oratório. Luize Valente. «Olhou o relógio mais uma vez e suspirou. A ida a Recife não estava programada. Quando recebeu o telefonema da professora Ethel, com passagem e hospedagem…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«Milhares de judeus foram forçados a conversão em Portugal, por decreto real, no fim do século XV. Passaram a ser chamados de cristãos-novos. Em seguida veio a Inquisição (maldita). Muitos conversos fugiram para o Brasil. Alguns se embrenharam pelo Sertão. No breve período de domínio holandês no Nordeste, puderam retornar ao judaísmo. Fundaram em Recife a primeira sinagoga das Américas. Com a expulsão dos batavos, no século XVII, um pequeno grupo deixou Pernambuco. Após uma conturbada viagem chegaram à Ilha de Manhattan, onde estabeleceram a primeira comunidade judaica de Nova York».
«Ana? Ana, é você? Ana? A voz soou longe quando a mão tirou o telefone da base. Era Ioná. Mas o que ela estava fazendo no meio daquela praia? Ana reconhecia o sotaque levemente arrastado, mas não a via. O telefone pendia no ouvido, meio caído sobre o travesseiro. Aos poucos foi despertando. A praia foi sumindo e, subitamente, ela pulou da cama. Ioná!, respondeu, atónita, ao mesmo tempo que olhava o relógio na cabeceira: 6h05 da manhã. Tinha dormido menos de quatro horas. Levantou e saiu do quarto. Que bom te ouvir! Estou tentando falar há dias! Deixei vários recados e nada! Precisa saber o que está acontecendo por aqui. Desculpa não ter ligado antes...., e ter-te acordado. A voz de Ioná saiu baixa, abafada. Pode ligar à hora que quiser! Mas ainda é cedo aí... Ana sentiu que algo estava errado. O que foi, Ioná? Do outro lado, silêncio. Ioná olhou o relógio e esfregou os olhos. Não pregara o olho a noite toda. Tinha andado mais de setenta quadras, talvez oitenta. Uma leve brisa era o último resquício da madrugada fresca da Primavera. Logo surgiriam os primeiros raios de sol e, com eles, os passos, as buzinas, o entra e sai do metropolitano. Mas, naquele momento, a rua era apenas dela e de uns poucos pedestres que voltavam do trabalho ou da noitada. Ioná? Que houve? Está bem? Uma Ana aflita trouxe Ioná de volta. Ela estava sozinha, próxima ao cruzamento de Chatham Square, no coração de Chinatown. Aproximou o telefone da boca. Estava numa cabine de esquina. Eu não vou, Ana. Estou ligando para dizer que não vou. Agora foi a vez de Ana ficar muda.

14 de Março de 2000. Manhã
O relógio tocou às 5h15. Ana despertou com a sensação de quem acabava de pegar no sono. Todas as vésperas de viagem era igual. Virava para lá e para cá, levantava, deitava. Ilaga, estirado ao lado, mantinha os olhos abertos, em vigília. Fitava Ana profundamente. Dois olhos perdidos numa bola de pelos. Não me olhe assim..., não o posso levar. O cão virou o rosto e se pôs de barriga para cima. Ela afagou o peito branco e abraçou o bicho. Mesmo depois de três anos era doloroso deixá-lo a cada partida. Olhou o relógio mais uma vez e suspirou. A ida a Recife não estava programada. Quando recebeu o telefonema da professora Ethel, com passagem e hospedagem pagas, ela não pôde recusar. Não tinha como recusar. Levantou e pulou para o chuveiro. Teria uma longa jornada pela frente. Acompanhar a historiadora numa palestra era bem mais do que uma simples viagem de trabalho. Era um verdadeiro mergulho em horas e horas de conversas instigantes misturadas a deliciosas comidas e encontros inesperados. Pensando bem, era do que ela estava precisando.
Ana, corre, filhinha, nós já estamos atrasadas! Moishe, cuida bem da minha meidele, não vai dar torradas com requeijão! Ai, eu morro só de pensar que ela vai ficar aqui. Osvaldo, passeia com ela todos os dias duas vezes no mínimo, no mínimo! O segundo no mínimo saiu estridente e fino, com um toque dramático que colocava a professora Ethel no patamar das divas de Hollywood. A idade era um segredo mais bem guardado que as tábuas com os dez mandamentos, costumavam falar os alunos do curso de doutorando da Universidade de São Paulo. Ela também era dona de belíssimos olhos azuis que lhe concediam o poder de hipnotizar qualquer que fosse o interlocutor». In Luize Valente, O Segredo do Oratório, 2012, Editora Record, Brasil, 2012, ISBN 978-850-140-170-0.

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