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quinta-feira, 3 de junho de 2021

Novas Cartas Portuguesas. Maria Barreno, Maria Horta, Maria Costa. «Ninguém é nosso irmão ou irmã. De irmandade só o convento. Que o cavaleiro erre tanto como a tua loucura…»


jdact

«(…)

Brinvilliers (Marie Marguerite de)

Jovem e bonita mulher que, de 1666 a 1672, envenenou sem malícia, e muitas vezes com desinteresse, pais, amigos e criados. Chegava a ir aos hospitais e aí administrava veneno aos doentes. Todos os seus crimes devem ser atribuídos a uma horrível loucura ou à mais atroz espécie de depravação, mas não ao demónio, como é frequentemente o caso. É verdade que Brinvilliers começou a sua carreira criminosa aos sete anos e que espíritos supersticiosos suspeitavam de que um medonho diabo a tinha possuído... Vinte e quatro horas depois de ter sido queimada, em 1676, as pessoas procuraram os seus ossos e olhavam-nos como relíquias, dizendo que ela era uma santa..., pois que os envenenamentos continuaram depois da sua morte.

A ti fugida na tua paixão. De solidariedade

Ninguém, casadas e vendidas e nos próprias.

Não houve pão para nós à mesa dos homens.

E o que faremos, Madre Abadessa, que faremos?

Ninguém é nosso irmão ou irmã. De irmandade

Só o convento. Que o cavaleiro erre

Tanto como a tua loucura. Não acoites seu corpo

No teu, refúgio do seu pavor. Que ele caia

Sem casa. Nossa esperança

É a ruína das casas. Aí virás

Da tua paixão.

E o que faremos, o que faremos?

Deshoulières

Madame Deshoulierès decidiu passar alguns meses num domínio a quatro léguas de Paris, e foi convidada a escolher o mais belo quarto do castelo, à excepção de um quarto que era visitado todas as noites por um fantasma. Havia já muito tempo que Madame Deshoulières queria ver um fantasma, e a despeito de todas as objecções levantadas, instalou-se no quarto assombrado. Quando chegou a noite, foi para a cama, pegou num livro, como era seu costume, leu e, tendo-o acabado, apagou a luz e adormeceu. Depressa foi acordada por um barulho na porta, que fechava mal. Alguém abriu a porta, entrou, andando pesadamente... Estendendo as mãos, Madame Deshoulières agarrou duas orelhas lanzudas, e teve a paciência de as segurar até à manhã seguinte..., quando se descobriu que o pressuposto fantasma era um grande cão que achava o quarto mais confortável para dormir do que as estrebarias.

No mundo abandonado onde então erraremos

A paixão será um só objecto e exercício. Não me chames

De irmã, até que outro mundo venha.

Afastar possibilidades de novo convento. Nos escombros

Acharemos irmãos. Os que nada perderam

E por nada foram esmagados, pois que não tinham

Casas. Mas guardemo-nos ainda porque os irmãos

Dirão Fizésteis os cidadãos

Agora a cidade é nossa

Três vezes nos trairão

Nossos irmãos: no pão, no corpo

E na cidade. Não me armes cavaleiro

Das tuas angústias. Retomaríamos nos escombros

Antigos fantasmas. Recuaremos à raiz

Da nossa angústia, sozinhas, até dizermos

Nossos filhos são filhos são gente e não

Falos dos nossos machos. Chamaremos crianças

Às crianças, mulheres às mulheres e homens

Aos homens. Chamaremos um poeta para governo

Da cidade. Que substitua o demiurgo

De ciclópicos trabalhos.

Primeira Carta IV

Como é que o amor é possível?

Como é que não é possível?

que mais importa:

a história de um amor?

ou um amor na História?

na estória?»

30/3/71

In Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta, Maria Velho Costa, Novas Cartas Portuguesas, 1972, edição anotada, Publicações dom Quixote, 1998, 2010, ISBN 978-972-204-011-2.

Cortesia PdQuixote/JDACT

JDACT, Maria Teresa Horta, Literatura, Saber, Mariana Alcoforado,  

segunda-feira, 25 de maio de 2020

Novas Cartas Portuguesas. Maria Barreno, Maria Horta, Maria Costa, (As Três Marias). «No mundo abandonado onde então erraremos a paixão será um só objecto e exercício. Não me chames d»e irmã, até que outro mundo venha»

jdact

«(…)
Brinvilliers (Marie Marguerite de)
Jovem e bonita mulher que, de 1666 a 1672, envenenou sem malícia, e muitas vezes com desinteresse, pais, amigos e criados. Chegava a ir aos hospitais e aí administrava veneno aos doentes. Todos os seus crimes devem ser atribuídos a uma horrível loucura ou à mais atroz espécie de depravação, mas não ao demónio, como é frequentemente o caso. É verdade que Brinvilliers começou a sua carreira criminosa aos sete anos e que espíritos supersticiosos suspeitavam de que um medonho diabo a tinha possuído... Vinte e quatro horas depois de ter sido queimada, em 1676, as pessoas procuraram os seus ossos e olhavam-nos como relíquias, dizendo que ela era uma santa..., pois que os envenenamentos continuaram depois da sua morte.

A ti fugida na tua paixão. De solidariedade
Ninguém, casadas e vendidas e nos próprias.
Não houve pão para nós à mesa dos homens.
E o que faremos, Madre Abadessa, que faremos?

Ninguém é nosso irmão ou irmã. De irmandade
Só o convento. Que o cavaleiro erre
Tanto como a tua loucura. Não acoites seu corpo
No teu, refúgio do seu pavor. Que ele caia
Sem casa. Nossa esperança
É a ruína das casas. Aí virás
Da tua paixão.

E o que faremos, o que faremos?

Deshoulières
Madame Deshoulierès decidiu passar alguns meses num domínio a quatro léguas de Paris, e foi convidada a escolher o mais belo quarto do castelo, à excepção de um quarto que era visitado todas as noites por um fantasma. Havia já muito tempo que Madame Deshoulières queria ver um fantasma, e a despeito de todas as objecções levantadas, instalou-se no quarto assombrado. Quando chegou a noite, foi para a cama, pegou num livro, como era seu costume, leu e, tendo-o acabado, apagou a luz e adormeceu. Depressa foi acordada por um barulho na porta, que fechava mal. Alguém abriu a porta, entrou, andando pesadamente... Estendendo as mãos, Madame Deshoulières agarrou duas orelhas lanzudas, e teve a paciência de as segurar até à manhã seguinte..., quando se descobriu que o pressuposto fantasma era um grande cão que achava o quarto mais confortável para dormir do que as estrebarias.

No mundo abandonado onde então erraremos
A paixão será um só objecto e exercício. Não me chames
De irmã, até que outro mundo venha.
Afastar possibilidades de novo convento. Nos escombros
Acharemos irmãos. Os que nada perderam
E por nada foram esmagados, pois que não tinham
Casas. Mas guardemo-nos ainda porque os irmãos
Dirão fizésteis os cidadãos
Agora a cidade é nossa
Três vezes nos trairão
Nossos irmãos: no pão, no corpo
E na cidade. Não me armes cavaleiro
Das tuas angústias. Retomaríamos nos escombros
Antigos fantasmas. Recuaremos à raiz
Da nossa angústia, sozinhas, até dizermos
Nossos filhos são filhos são gente e não
Falos dos nossos machos. Chamaremos crianças
Às crianças, mulheres às mulheres e homens
Aos homens. Chamaremos um poeta para governo
Da cidade. Que substitua o demiurgo
De ciclópicos trabalhos».

In Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta, Maria Velho Costa, Novas Cartas Portuguesas, 1972, edição anotada, Publicações dom Quixote, 1998, 2010, ISBN 978-972-204-011-2.

Cortesia PdQuixote/JDACT

quarta-feira, 18 de setembro de 2019

Novas Cartas Portuguesas. Maria Barreno, Maria Horta, Maria Costa. «Tenho fé no Senhor, e amarás um cavaleiro. Tremerão os alicerces do convento. Que o cavaleiro corra do convento ao bordel…»


jdact

«(…)
Gabrielle de Strées
Amante de Henrique IV, morreu em 1599. Sabe-se que ela tentou casar com o rei. Estava grávida pela quarta vez, e vivia na casa de Zamet, famoso homem da finança... Quando passeava no jardim, teve um grave ataque de coração. Passou uma má noite, e no dia seguinte foi acometida de tão assustadoras convulsões que ficou completamente negra e a sua boca torceu-se tanto que ficou na nuca. Expirou no meio de grandes tormentos e horrorosamente desfigurada... Várias pessoas atribuíram ao diabo este acto caridoso. Diziam que o diabo a estrangulara para evitar um escândalo e mais incómodos.

E o que faremos, madre Abadessa, que faremos?
Não houve pão para nós à mesa dos homens.
Se todos os corpos fossem para casamento, baixaria
A valorização do dinheiro, equilibra-se a procura
Com o convento, enfeita-se no bordel o tédio
Para uso. Sem senhores, nem cavaleiros, nem
Bordel, nem convento. Os homens
Dividem-se em homens
E senhores. Mas das mulheres todos os homens
São senhores. Nas casas
De senhores, e homens,
E cavaleiros, damos-lhe o sentido porque opostamente
Se definem. Damos-lhe o alicerce e a espessura; fora
Destas casas erraremos. Nenhuma casa
É nossa. Ninguém é nosso irmão ou irmã. De irmandade
Só o convento. De solidariedade
Ninguém, casadas e vendidas de nós próprias.
Não houve pão para nós à mesa dos homens.

Cecília
Pelos meados do século dezasseis, uma mulher chamada Cecília atraiu as atenções em Lisboa. Possuía a arte de modular a sua voz de tal forma que esta parecia sair do seu cotovelo, às vezes, outras vezes dos seus pés, ou ainda de um sítio que seria impróprio nomear. Ela mantinha uma conversa com um ser invisível..., que respondia a todas as suas perguntas. A mulher foi reputada de bruxa e de possessa do diabo; contudo, como graça especial, em lugar de ser queimada, foi apenas exilada para sempre na ilha de S. Tomé, onde morreu em paz.

E o que faremos, Madre Abadessa, que faremos?
Dir-te-ei que faremos com corpo
E com cavaleiro. Nossa paixão será o corpo
E exercício o mundo, e objecto
O cavaleiro. Nosso corpo forte
Ao cavaleiro daremos, à noite, mas o corpo
Do cavaleiro tomaremos. A troca
Será rompida na madrugada.
Diremos Cavaleiro, quero o meu corpo para que eu possa
Seguir o meu dia. Chamar-te-ão
Amazona. Mas não corras
O mundo até ao inferno. No convento
Amarás o cavaleiro. E disso darás testemunho
E pedirás justiça. Na casa de cavaleiro marido
Amarás cavaleiro amante. E disso darás
Testemunho, e pedirás justiça
E dar-te-ão convento. No bordel dirás
Tenho fé no Senhor, e amarás
Um cavaleiro. Tremerão os alicerces
Do convento. Que o cavaleiro corra
Do convento ao bordel, e daí
À sua casa, sem nunca te encontrar
A ti fugida na tua paixão».

In Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta, Maria Velho Costa, Novas Cartas Portuguesas, 1972, edição anotada, Publicações dom Quixote, 1998, 2010, ISBN 978-972-204-011-2.

Cortesia PdQuixote/JDACT

quinta-feira, 22 de agosto de 2019

Novas Cartas Portuguesas. Maria Barreno, Maria Horta, Maria Costa. «… o demónio copulando com grande número de mulheres, e que a sua técnica era a de se aproximar das mulheres bonitas pela frente e das feias por trás»

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«(…)
Ralde (Maria de la)
Bonita bruxa presa com a idade de dezoito anos. Começara a praticar a sua arte aos dez anos e foi levada ao Sabbat pela primeira vez pelo bruxo Marissans. Depois da morte deste, o próprio diabo a levou à Assembleia, onde, segundo o depoimento de Marie, tomou a forma duma árvore..., mas aparecendo às vezes com a forma dum homem vulgar, ora encarnado, ora preto. Marie nunca beijou o diabo mas viu como isso se fazia. Acrescentou que gostava muito do Sabbat porque parecia mesmo um casamento. As bruxas ouviam música tão suave que era como se estivessem no céu..., e o diabo convenceu-as de que o fogo que arde eternamente não era real, mas artificial.

Madre Abadessa, aqui me mandam de casa dos meus pais.

Não houve pão para nós à mesa dos homens.
Nosso corpo de trabalho aos senhores alugamos.
Do dinheiro dos senhores comeremos.
No esterco que sobrar dormiremos.

Madre Abadessa, e o que seremos com corpo
E sem cavaleiro?

Terra estéril, montada
Das suas lutas vazias, mão
De obra barata, onde alugares o teu corpo
Dirão porque não, tua força? e onde
Alugares tua força, dirão porque não
O teu corpo? Nossa paixão é o pão, nosso
Exercício é o mundo, nosso objecto são
Os senhores de trabalhadoras e prostitutas.

Maillat (Louise)
Jovem demoníaca que viveu em 1598. Tendo perdido o uso dos seus membros foi levada, para exorcismo, à Igreja do Sagrado Redentor. Verificou-se que ela estava possessa de cinco demónios chamados lobo, gato, cão, boneca e grifo. Dois demónios saíram-lhe pelo nariz sob a forma de bolas do tamanho de um punho, uma vermelha como o fogo e a outra, o gato, completamente preta. Os outros demónios deixaram-na menos violentamente. Uma vez fora dela, os demónios giraram à volta do fogo e desapareceram. Descobriu-se que Françoise Secrétain fizera engolir os demónios pela rapariga escondendo-os numa côdea de pão cor de estrume.

Mariagrane (Marie)
Bruxa que disse ter visto muitas vezes o demónio copulando com grande número de mulheres, e que a sua técnica era a de se aproximar das mulheres bonitas pela frente e das feias por trás.

Madre Abadessa, aqui me mandam de casa dos meus pais.

Não houve pão para nós à mesa dos homens.
Se nosso corpo forte no cavaleiro apaixonamos
Do pão do diabo comeremos.
Em casa do diabo acordaremos.

Madre Superiora, e o que seremos com corpo
E com cavaleiro?

Terra de ti, montada de suas lutas
Vazias, mãos de obreira
Perdidas, onde lhe cederes teu corpo
Dirão teu corpo, nossa lonjura. Nossa
Paixão será cavaleiro, nosso exercício
O corpo, nosso objecto o mundo.
Seremos montadas de cavaleiro».

In Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta, Maria Velho Costa, Novas Cartas Portuguesas, 1972, edição anotada, Publicações dom Quixote, 1998, 2010, ISBN 978-972-204-011-2.

Cortesia PdQuixote/JDACT

terça-feira, 20 de agosto de 2019

Novas Cartas Portuguesas. Maria Barreno, Maria Horta, Maria Costa. «Não houve pão para nós à mesa dos homens. Nosso corpo fértil no cavaleiro foi maridado na casa do Cavaleiro comeremos. Na casa do Cavaleiro dormiremos»

jdact

Cantiga de Mariana Alcoforado à maneira de lamento
«(…)
Me tomam por tomada
a mim se dou
meu peito e meu convento
em troca de mais nada

que alheada andava
tão alheada andava

Me davam por freira
conformada
no hábito que habito
ou habitava

que alheada andava
tão alheada andava

Me têm por lei presa
tão bem posta em dádiva
pois me libertei

que alheada andava
tão alheada andava

Me dizem que morra
se por mim amei
com a ameaça funda que pequei

que alheada andava
tão alheada andava

Me sobram porém hoje os dias
que perdi
e a clausura então que não rasguei

que alheada andava
tão alheada andava
28/3/71

A freira sangrenta
Fantasma que assombrava o Castelo de Lindenberg, tornando-o inabitável... Era uma freira usando um véu e um vestido ensanguentado. Numa das mãos trazia uma enxada, na outra uma candeia acesa... Freira espanhola, tinha deixado o convento para viver com o senhor do castelo. Tão infiel ao seu amante como o fora para o seu Deus, traiu-o, mas só conseguiu ser por sua vez traída pelo cúmplice, com quem queria casar. O seu corpo foi deixado sem sepultura, e a sua alma sem poiso errou cerca de um século. Implorava um pouco de terra para o seu corpo e algumas orações para a sua alma..., tendo-lhe sido prometidas ambas as coisas, desapareceu.

Madre Abadessa, aqui me mandam de casa dos meus pais.

Não houve pão para nós à mesa dos homens.
Nosso corpo inútil no Senhor foi votado.
Na casa do Senhor comeremos.
Na casa do Senhor dormiremos.

Madre Abadessa, e o que seremos sem corpo
Nem cavaleiro?

Nossa paixão é o Senhor, nosso exercício
O paraíso, nosso objecto é o mundo
Seremos freiras em convento.

Elisabeth de Hoven
Freira num convento de Hoven, no século doze. Encontrou um dia o diabo no seu quarto. Reconhecendo-o pelos cornos, foi direita a ele e deu-lhe uma estalada que o atirou pelos ares... Noutra ocasião, julgou que um homem tinha conseguido entrar no convento, mas quando depois se convenceu de que tinha estado tratando com o diabo, a Irmã Elizabeth exclamou: oh! Se tivesse logo percebido isso, que bofetada eu lhe teria dado!

Madre Abadessa, aqui me mandam de casa dos meus pais.

Não houve pão para nós à mesa dos homens.
Nosso corpo fértil no cavaleiro foi maridado
Na casa do Cavaleiro comeremos.
Na casa do Cavaleiro dormiremos.

Madre Abadessa, e o que seremos sem corpo
E com cavaleiro?

Pomar de primeira, montada
Das suas lutas vazias, mão de obra barata.
Nossa paixão é o mundo, nosso exercício
Seus filhos, nosso objecto é o cavaleiro.
Seremos dadas em casamento».

In Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta, Maria Velho Costa, Novas Cartas Portuguesas, 1972, edição anotada, Publicações dom Quixote, 1998, 2010, ISBN 978-972-204-011-2.

Cortesia PdQuixote/JDACT

terça-feira, 19 de março de 2019

Novas Cartas Portuguesas. Maria Barreno, Maria Horta, Maria Costa. «Senhora, guardai-vos de vós que de vós só vos vem veneno; guardai-vos de vós que de vós me guardo e me afasto, transbordando de pasmo por tanta malícia e ódio…»

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«(…)
Carta encontrada entre as páginas de um dos missais de Mariana Alcoforado
Senhora
Guardai o respeito que deveis a vós própria.
Melhor serve o silêncio e a dignidade o amor do que o queixume e a mentira. Pensai que conheço de mais vossos excessos, vossas raivas súbitas e vossos caprichos, por experiência. Bom será para ambos me afastar, não dando ouvidos nem crédito a estratagemas que mal vos fica usar, não sendo eles sequer, vede, de vossa condição e estado.
E se o amor e a paixão invocais, que provas me destes de paixão, senão daquela que alimentais por vós mesma em devoradora chama?
Senhora, guardai-vos de vós que de vós só vos vem veneno; guardai-vos de vós que de vós me guardo e me afasto, transbordando de pasmo por tanta malícia e ódio e egoísmo ter encontrado numa só mulher.
Preferível vos será aceitar o mundo como vos dão e a ele vos moldardes, pois nenhuma fuga vos é possível.
Muito me condoí de vossa vida, Mariana, muito me indignou vossa prisão atrás dessas grades que vos detêm cruelmente o sangue e o riso. Porém, ao conhecer-vos e ao me tomar de amor por vós, entendi que bom só será vos conservar presa e obrigada à recusa do mundo.
Donzela vos tive, não conhecendo no entanto mulher em mais depravado avanço de sentidos, êxtases, ânsias desvairadas. Sob poder me tivestes, e bem o sabíeis, doente de vossa febre que me incendiava o corpo. Desmaiada vos colhi em meus braços, desmaiado eu em vosso ventre, meu precipício e fim, meu absurdo princípio e morte todas as vezes mais rasgada e mais profunda onde me afundava e afundava sob vossos olhos firmes não toldados..., que nunca os olhos, Senhora, vos vi toldados...
Perdido me encontrei por vos amar e achado desamado à força de, mau grado, vos examinar, e em estado de razão me ver forçado a afastar-me, pois morte caberia a um de nós se tal não o fizesse.
Que despeito vos arrebata! Tão baixo por ele vos deixais ir, que usais de modos e fingimentos aprendidos por certo com vossa criada.
Não vos canseis, mais não me vereis, de vós fujo e o confesso, sem qualquer vergonha ou remorso, pois sei até onde me usastes sem em abandono vos entregardes jamais.
Como é possível perder-vos, recusar-me a vos ver, a vos ter, a vos amar...
Permiti que me vá, Mariana. Não estais ainda cansada de assim me atormentardes?
Culpado sou de quê?
Em mim vos vingais de injustiça que vossa mãe comete em violência vos exigindo sacrificada nesse convento...
Se em casa de Deus sereis obrigada a viver, confortai-vos com ele entregando-vos à piedade em vez de vos entregardes ao culto do ódio.
Secai essas lágrimas que sei de despeito e não de amor; recusai invenções de tão pouco engenho e arte que indignas são de vossa inteligência que muita é e de mais para mulher.
Mas se sinceras forem vossas palavras e temores, tranquilizai-vos: estais tão prenha de vós própria, Mariana, que jamais vosso ventre engendraria outra vida que não a vossa e a vossa ainda e sempre.
Atenciosamente
Noel
28/Mar/71

In Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta, Maria Velho Costa, Novas Cartas Portuguesas, 1972, edição anotada, Publicações dom Quixote, 1998, 2010, ISBN 978-972-204-011-2.

Cortesia PdQuixote/JDACT

Novas Cartas Portuguesas. Maria Barreno, Maria Horta, Maria Costa. «Gostaria que dissésseis a meu irmão, muito lhe agradecer o não me tornar a chamar ao parlatório; assim me pouparia a penosa resolução de me negar a vê-lo…»

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«(…)
Carta de Mariana Alcoforado a sua mãe
Senhora Minha Mãe
Não vos podendo ver mais nesse martírio inventado de desgosto e dúvida por mim, vos escrevo logo após vossa partida (hoje precipitada a senti e em desprendimento me foi clara: pois pensais acaso que não?) a dar desta vossa filha conhecimento e das causas que me trazem neste cruel e profundo abatimento ou medo.
Talvez de amor vos fale ou de morte; de clausura (aquela a que desde menina me votastes, tão bem paramentada, em sossego posta), de hábito: aquele que visto e aquele adquirido de mim e através de mim também de outrem, mesmo agora criada tanta distância. Tendo o mar entre nós penso inevitável ser esquecida, eu o esqueça, me esqueça. Deixais de vez vosso susto que já nada mais me pode acontecer neste mundo senão o viver sozinha a imaginar-me, lamentando-me de sorte tão adversa (de braços de homem passei aos meus e talvez por minha única culpa, que mulher não o soube aprisionar, ou repelir a tempo), enganando-me em cartas que tanto mais entendo de meu engenho que de paixão, construídas todas elas em língua não materna (assim vos recuso, de vós me liberto um pouco, ó vingança, ó riso...) tão doce e amarga tornada, desde que da boca dele a ouvi em proveito de meu uso.
Sabei Senhora Mãe: nada do que é vosso me importa, nem pensamentos, nem costumes. Costumes que apesar de tudo e todavia, continuo a aceitar, de lei e cobardia, aceitando este estado onde de acordo com meu pai me pusestes por homem não ter nascido e entrave fazer a meu irmão e minha irmã, de dote, podendo ela assim arranjar marido que a receba apesar de feia, não vos custando eu mais que parto e raivas acesas ao me saberdes por amada e possuída de corpo contra vossas ordens, mando, vontades; apesar mesmo de vossas ameaças.
Mas tranquilizai que abandonada me encontro e isso, sei, vos dá alegria, a verdade foi, enraivecida não me terdes perdoado usufruir da vida o que da vida jamais usufruístes. Agora, inquieta encontro vossa atenção por minha saúde e desgosto por minha apatia..., nada mais me restando senão aceitar essas atenções, fingindo não ver nelas a secreta alegria de me encontrardes repelida, logo vós vingada de minha ousadia em recusar o que generosamente meus pais me haviam dado ao me mandarem para este convento..., castigo sofro por me ter entregue: amante de homem por prazer; entrega nomeada de amor e de amor me haja perdido, diz dona Brites.
Embora..., de prazer me dei e conquistei, desafiando de aparência o mundo e a mim mesma nesse desafio de coragem, inconsciência ou grande tentação de fuga, a única que desde sempre se me deparou. Minha trégua, paz. Limite de mim própria, Senhora Mãe.

Que mulher vós nunca fostes nem eu jamais o serei...
Pouco vos escondo e em nada vós me entendeis. Com esta carta sei apenas conseguir reacender raivas, orgulhos e sentidos de posse sobre mim. Bem me podeis executar, quem me defende? A lei? A que dá aos pais todos os direitos de mordaça, aos machos primazia e à mulher somente o infinitamente menos nada, com dádivas de tudo?
Olhai que não me iludo, Senhora, este convento será meu túmulo, guardião feroz em morte como jamais o foi em meses de fala e agasalho. Que isso lhe é alheio. Me alheio. Permiti-me apenas alheada ficar, só isso peço: deixai-me fiar os dias que me restam com seus fios tecidos hora a hora, em fuso de memória. Assim me encontrastes e quisestes saber os motivos com a certeza deles, primeiro falando-me com azedume, depois com certa brandura, tentando tirar por astúcia aquilo que de mim afinal não consigo esconder. Prefiro o azedume, Senhora Minha Mãe, que a ele estou mais habituada partindo de vossa mercê.
Que mal vos fiz nascendo?
É como se a vossas entranhas tivesse sido obrigada e me gerásseis de culpa, quem sabe..., e bem contrariada, por certo. Gostaria que dissésseis a meu irmão, muito lhe agradecer o não me tornar a chamar ao parlatório; assim me pouparia a penosa resolução de me negar a vê-lo, ou, com total precisão: a ouvi-lo. Os seus assomos de cólera deixam-me num estado de nervos deplorável, não queira ele tornar sua irmã mais desgraçada.
Soubesse ser por amizade que ele o faria..., porém apenas é seu nome que defende, invocando princípios de honra que ora me convencem, ora me aterrorizam.
Comunicai-lhe que o cavaleiro de Chamilly jamais voltará ao nosso país e como de lhe escrever larguei para sempre, não preciso mesmo de meu irmão licença para o fazer, como até aqui; assim ando eu ao mando e ao uso de todos...

Beijo-vos a mão, Senhora Minha Mãe, como prova de grande consideração
Vossa filha dedicada
Mariana
28/Mar/71

In Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta, Maria Velho Costa, Novas Cartas Portuguesas, 1972, edição anotada, Publicações dom Quixote, 1998, 2010, ISBN 978-972-204-011-2.

Cortesia PdQuixote/JDACT